Canto LXXXIV

Canto LXXXIV

“Si tuit (…) plor”: “Se todo o pesar e as lágrimas”. Trata-se de algo já citado no Canto LXXX: o lamento de Bertran de Born pela morte do rei Henrique, o Jovem (1155-1183).

“Angold”: o poeta britânico John Penrose Angold (1909-1943), morto em ação (como piloto da RAF).

“τεθνηκε”: “ele está morto”.

“tuit (…) bes”: “todo o valor, todo o bem”. V. primeira nota acima.

“Bankhead”: John Hollis Bankhead (1872-1946), senador pelo Alabama tido em alta conta por Pound. A “MULA” é, provavelmente, F. D. Roosevelt.

“Borah”: William Edgar Borah (1865-1940), senador por Idaho. Bastante engajado em relações internacionais. Pound propôs fazer de tudo para que os EUA não entrassem na Segunda Guerra Mundial.

“Roy Richardson: capitão no DTC. Demattia, Fazzio, Bedell eram soldados no DTC. O jazzista Harry Crowder (v. Canto LXXX) é citado porque um dos soldados pareceria com ele.

“Sr. Coxey”: Jacob Sechler Coxey (1854-1951), reformista norte-americano.

“Sr. Beard”: o historiador norte-americano Charles Austin Beard (1874-1948).

John Adams é citado por conta de sua controversa decisão de, contrariando pressões políticas e da imprensa, evitar ir à guerra contra a França (o que contribuiu para que não fosse reeleito).

“Tcao Chcien”: T’ao Ch’ien (365-427), T’ao Yuan-ming, poeta chinês. A “fonte do Pêssego-em-flor” é uma alegoria sobre um pescador que se perde e vai parar em uma terra muito bonita, onde todos viviam felizes.

“Ho Ci’u”: Sié, na província Shansi.

“Kύθηρα δεινα”: “terrível Cythera”.

“Natalie”: a dramaturga, poetisa e romancista norte-americana Natalie Barney (1876-1972).

“Wei”: Wei Tzu, visconde do principado de Wei no século XII a.C., irmão adotivo de Cheou-sin, derradeiro soberano da dinastia Yin. Horrorizado com a crueldade de Cheou-sin, Wei abandonou a corte e foi embora do reino.

“Chi”: Chi Tzu, visconde do principado de Chi e tio de Cheou-sin. Chi protestou contra os desmandos do sobrinho e foi preso por isso.

“Pi-kan”: Pi Kan, outro tio de Cheou-sin, também protestou e foi assassinado.

“jen²”: “humanidade”.

“Xaire”: “Ave” (saudação, como em “ave, César”). “Alessandro” é Alessandro Pavolini, secretário do governo fascista estabelecido em Salò. “Fernando” é Fernando Mezzasoma, ministro da cultura popular em Salò. E “il Capo” é, claro, Mussolini.

“Pierre” é Pierre Laval, premiê da França de Vichy. “Vidkun” é Vidkun Quisling, político norueguês colaboracionista, foi chefe de governo da Noruega ocupada pelos nazistas. “Henriot” é Philippe Henriot, jornalista francês e fascista de carteirinha, trabalhou na França ocupada. Foi morto a tiros pela Resistência em 28 de junho de 1944.

“Imperial Chemicals”: empresa britânica hoje não mais existente (foi vendida para a Azko Nobel em 2007). O sujeito que saiu “FORA” foi Wm. C. Bullitt (1891-1967), que serviu como embaixador na URSS e na França e lutou na guerra pelo exército francês em 1944-45. Ele teria vendido todas as ações que detinha da Imperial Chemicals quando soube que a crise de 1929 estava a caminho. Dorothy Pound também vendeu suas ações de uma empresa que fabricava munições (ações que recebera por herança), mas não por quaisquer especulações financeiras e, sim, por uma questão de pacifismo.

“quand (…) l’escalina”: “que vos guia ao topo desta escadaria”. É do lamento de Arnaut Daniel no Purgatório XXVI, 146, já citado no canto anterior.

“ηθος”: costume, praxe. Pound traduz como “gradações”.

“ming²”: Pound define como a luz que vem do sol e da lua, a inteligência. Mais abaixo, “chung¹” é o centro, o equilíbrio.

“Micah”: profeta judeu (c. 700 a.C.).

“Camarada Koba”: Stálin. A referência é à reunião dele com Churchill e Truman em Potsdam.

“e poi (…) uguale”: “e então eu perguntei à irmã / da pequena pastora dos porcos / e esses americanos? / eles se comportam bem? / e ela: não muito bem / não muito bem mesmo / e eu: pior do que os alemães? / e ela: a mesma coisa”.

“Lincoln Stephens”: Joseph Lincoln Stephens (1866-1939), jornalista norte-americano por cujos discursos políticos Pound se interessou na década de 1920.

“Vandenberg”: Arthur Hendrick Vandenberg (1884-1952), senador por Michigan, líder dos isolacionistas antes da guerra, mas depois foi delegado na conferência da ONU em São Francisco (1945).

Canto LXXXIII

“υδωρ”: “água”.

“et Pax”: “e paz”.

“Gemisto”: Gemisto Pletão (1355-1452), de fato, elegeu Netuno (Poseidon) como o maior dos deuses. Rimini é citada a seguir porque, depois de lutar contra os turcos a mando dos venezianos em 1466, Sigismundo Malatesta levou os ossos de Gemistos para essa cidade e os colocou em um dos sarcófagos do Templo Malatestiano. Isso já foi referido em outros poemas, como no Canto VIII.

“lux (…) accidens”: “pois a luz é um atributo do fogo”.

“prete”: “padre”. No caso, o padre C. B. Schlütter, que editou De Divisione Naturae, de Johannes Scotus Eriugena, em 1818.

“Rei Carolus”: Carlos, o Calvo (823-877), referido logo em seguida como “Charles le Chauve”. Sua rainha era Ermentrude.

“omnia (…) sunt”: “Tudo o que existe é luz”.

O “tio William” é W. B. Yeats.

“sereias, essa talha”: as sereias esculpidas por Tullio Lombardo na igreja Santa Maria dei Miracoli em Veneza (pouco antes, Pound se refere à igreja homônima localizada em Roma).

“ΥΔΩΡ”: “ÁGUA”.

“o sábio…”: citação dos Analectos VI, 21.

“consiros”: “contrito”, “pesaroso”. Assim Arnaut Daniel descreve seu estado no Purgatório XXVI, 144.

“São Como se Chama”: San Giorgio, uma catedral em Pantaneto, Siena. Uma procissão tradicional ocorre na véspera do Palio (a corrida de cavalos) em agosto.

“soll… sein”: “é para ser o seu amor”.

“nível das janelas”: no caso, do Palazzo Capoquadri Salimbene, de onde se observa a procissão supracitada.

“Olim…”: “antes dos Malatesta”, no sentido de pertencer: antes pertencia aos Malatesta.

“πάυτα ‘ρει”: “tudo flui”.

“sob os altares”: Analectos XII, 21.

“Δρυάς”: “Dríade”, ninfa das árvores.

“Plura diafana”: “mais coisas diáfanas”. É de Grosseteste, De Luce, uma frase recorrente que remete ao “lux enim” de Scotus.

“porém o esplendor…”: reitera-se a palavra que abre o Canto, que se debruça sobre o simbolismo neoplatônico segundo o qual tudo o que existe em nosso mundo reflete a ordem divina.

Nos versos seguintes, até “sem isto, fica a inanição”, Pound remete à noção desenvolvida por Mêncio de que, “se a mente não sente complacência na conduta, a natureza se torna faminta”. Mais adiante, há uma referência a uma anedota contada por Mêncio em seu Livro II.

“Giovanna” era a empregada de uma família veneziana que Pound conheceu. Mais adiante, há a menção a outro veneziano, “Velho Ziovan” (provavelmente, alguém chamado Giovanni).

Os ideogramas são “wu” (“não”), “chu” (“ajudar”) e “ch’ang” (“crescer”).

A “Giudecca” é uma ilha e um canal em Veneza. “Ca'” é “casa” no dialeto da cidade.

“DAKRUON ΔΑΚΡΥΩΝ”: “chorando”, “chorando”. A primeira palavra é a transliteração da segunda.

“Bracelonde”: Braceliande, a floresta encantada da lenda arturiana na versão de Chrétien de Troyes em Yvain.

“XTHONOS”: ctônico, “da terra”.

“εις χθουιους”, “aqueles sob a terra”.

“Περσεφόνη”: Perséfone.

“Cristo Re, Dio Sole”: “Cristo Rei, Deus, o Sol”.

“Kakemono” (掛物, “coisa suspensa”) é mais comumente referido como “kakejiku” (掛軸, “rolo suspenso”). Trata-se de uma pintura ou caligrafia desenhada sobre papel de seda ou tecido em formato vertical, o qual é afixado em um apoio e assim exposto.

“Paaavão”: referência ao poema “The peacock”, de Yeats. Em 18 de janeiro de 1914, Yeats, Pound, Victor Plarr, Thomas Sturge Moore, Richard Aldington e F. S. Flint almoçaram na casa de Wilfrid Scawen Blunt em West Sussex. Entre os pratos servidos, um pavão. Os jovens poetas homenagearam Blunt, tido em alta estima por Pound, e o presentearam com uma caixa cheia de poemas que o anfitrião considerou modernosos demais. A foto que ilustra o post foi tirada nessa ocasião.

“aere perennius”: das Odes (III, 30), de Horácio. “Eregi um monumento mais duradouro que o bronze”, na tradução de Pedro Braga Falcão (ed. 34).

“e ele escutando quase todo Wordsworth”: Pound trabalhou como secretário de Yeats nos invernos de 1913, 14 e 15 e lia para ele, cujos olhos estavam ruins.

“und…”: “e as senhoritas dizem para mim você é um velho”

“Das heis…”: “Aquela é chamada de Praça Walter”.

“senador Edwards”: Ninian Edwards (1755-1833), senador e primeiro governador do então território de Illinois (1809).

Canto LXXXII

“cão de caça”: Sirius, estrela da constelação Cão Maior, visível a olho nu.

“Jeffers, Lovell…” etc. eram trainees no DTC.

“Swinburne (…) perda”: Pound admirava muito o poeta inglês Algernon Charles Swinburne (1837-1909) e dedicou a ele o poema “Salve O Pontifex” em A Lume Spento (1908). A “perda”, no caso, deve-se ao fato de que Swinburne ainda estava vivo quando Pound chegou à Inglaterra, mas o norte-americano não chegou a conhecê-lo.

“Landor” é o poeta e ensaísta inglês Walter Savage Landor (1775-1864), a quem Swinburne visitou duas vezes em 1864. As referências a Dirce remetem a um poema dele.

“o velho Mathews”: Elkin Mathews (1851-1921), editor inglês que publicou alguns dos primeiros trabalhos de Pound. É provável que a anedota sobre as visitas de Swinburne ao nonagenário Landor tenha sido contada por Mathews a Pound.

“Watts Dunton”: o escritor inglês Theodore Walter Dunton (1832-1914), que viveu com Swinburne e cuidou dele por trinta anos, de 1879 a 1909.

“Quando os pescadores…”: história contada por Swinburne ao poeta e crítico inglês Edmund Gosse (1849-1928), que escreveu The Life of Algernon Charles Swinburne (1917). Segundo Swinburne, certa manhã, em outubro de 1869, ele foi sozinho para Porte d’Amont, perto de Étretat, na Normandia. Ali, ele mergulhou na água e acabou levado pela corrente. Foi salvo pelo capitão de um barco pesqueiro, que o deixou em Yport (não em Le Portel, como Pound diz no poema), ao norte de Étretat. Assim que foi resgatado, Swinburne começou a “pregar” para os pescadores sobre as virtudes da democracia e do republicanismo, e recitou poemas de Victor Hugo (não Ésquilo, como também afirma Pound).

“Sobre o telhado dos Atridas”: citação de Agamêmnon, de Ésquilo. Trata-se de uma fala do guarda logo no início da peça. Na tradução de Trajano Vieira (ed. Perspectiva): “Aos deuses peço o fim de minhas penas, / frutode longos anos de vigia, / acocorado — um cão! — no teto atreu”. O guarda está no telhado à espera pela luz que anunciará o fim da guerra de Tróia.

“ΕΜΟΣ ΠΟΣΙΣ…ΧΕΡΟΣ / hac dextera mortus / morto por esta mão”: fala de Clitemnestra em Agamêmnon, de Ésquilo, após matar o marido. Na tradução de Trajano Vieira: “Ali tens Agamêmnon, / cadáver e marido. A justa artífice / foi minha mão direita. É esse o caso”. Pound está comparando o original grego e a tradução latina.

“creio que Lyton viu Blunt”: não, foi Sir William Gregory, marido de Lady Gregory, quem viu Blunt atuando como matador em uma arena madrilenha. Blunt, então, trabalhava como adido na embaixada britânica. Em resumo, Wilfrid Scawen Blunt (1840-1922) foi poeta, diplomata, viajante, defensor da independência da Índia, do Egito e da Irlanda (pelo que foi preso). Ele e sua esposa, Lady Anne Blunt (neta de Byron, filha de Ada Lovelace), viajaram pelo Oriente Médio e foram importantíssimos na preservação de certas linhagens de cavalos árabes em sua fazenda, Crabbet Arabian Stud.

“Packard”: o escritor canadense Frank Lucius Packard (1877-1942). O “Percy” citado é, claro, Percy Shelley.

“Basínio” é Basinio Basini, ou Basinio de Parma (1425–1457), erudito humanista e poeta, que viveu em Rimini a partir de 1450 sob a proteção e o patronato de Sigismundo. Ele é o autor de Liber isottaeus (três livros com dez elegias cada, escritos à maneira epistolar das Heroides de Ovídio, como uma troca de cartas entre Sigismundo e Isotta) e Hesperis (épico inacabado de 13 livros sobre as batalhas entre Sigismundo e a Casa de Aragão). Os “moldes gregos” são versos de Homero que ele anotava nas margens do que escrevia como inspiração melódica. Ele está enterrado em um dos sarcófagos no lado direito do Templo Malatestiano.

“Otis” é James Otis (1725-1783), que teria escrito uma gramática do grego e depois a destruído. “Soncino” é Hieronymus (Gershom) Soncino, editor judeu que se estabeleceu em Fano, em 1501, e fez muito para divulgar a literatura e o conhecimento humano, diferentemente dos “homens de mármore”, pessoas “importantes” cujas estátuas povoam as praças pelo mundo afora.

“assim rogaram ao Sr. Clowes (…) de Tom Moore e Rogers”: Clowes, da William Clowes and Sons, firma inglesa que imprimiu Lustra e Gaudier-Brzeska, de Pound. O tipógrafo achou que vinte e cinco dos poemas de Lustra eram “obscenos”, e o editor concordou com ele. Por fim, após muita negociação, conseguiram deixar “apenas” 17 poemas de fora, e Pound eventualmente lançou uma edição sem cortes. “Birrell” é o ensaísta inglês Augustine Birrell (1850-1933). Ele se refere ao irlandês Tom Moore (1779-1852) e ao inglês Samuel Rogers (1763-1855), poetas cujos trabalhos foram censurados.

“Sua Senhora IX” é, provavelmente, Lady Emerald Cunard (1872-1948), mãe de Nancy Cunard (v. Canto LXXX). “Sua Senhora Z” é Lady Churchill (Jennie Jerome), esposa de Lorde Randolph Churchill e mãe de Winston.

“Sr. Masefield”: John Masefield (1878-1967), poeta inglês, autor do polêmico The Everlasting Mercy (1911).

“18 Wodburn Buildings”: endereço londrino de W. B. Yeats.

“Sr. Tancredo” é o poeta imagista Francis W. Tancred. Pound traça uma conexão entre ele e o rei Tancredo da Sicília, morto em 1194. Alguns versos depois, “Williams” (“William”, no original) é W. B. Yeats, e “Fordie”, Ford Madox Ford.

res non verba“, “coisas não palavras”.

O ideograma “jen” significa “humanidade”.

“Tróia”, “Cnido”, “Mitilene”: a notícia da queda de Troia seria comunicada por uma série de luzes (grandes tochas, fogueiras ou coisa que o valha) gradualmente acesas nas ilhas gregas.

“Reithmuller”: Richard Henri Riethmueller (1881-c.1942), professor de alemão na Universidade da Pensilvânia e autor de Walt Whitman and the Germans (1906).

“‘Ó reflexão (…) palpitante'”: citação de “Out of the cradle endlessly rocking”, de Speare.

“O GEA TERRA (…) abril”: nesses versos, uma evocação altissonante do tema dionisíaco (Ceres, Ísis-Osíris) das metamorfoses. Morte e regeneração.

“ἐμὸν τὸν ἄνδρα”, reiteração de um verso presente no Canto LXXXI, ““Ἶυγξ…. ἐμὸν ποτὶ δῶμα τὸν ἄνδραde”: “Iynx (…) homem para a minha casa!” — o verso é de Teócrito, do “Idílio II”. A Iynx era um disco de madeira com dois furos no meio, nos quais se passava um cordão. Para fazer com que o disco girasse, bastava afrouxar e puxar o cordão. Ele era usado para atrair um amante. Leia o poema completo AQUI.

“connubium terrae (…) mysterium”, “o casamento da terra (…) mistério”.

Concomitantemente, Pound volta a citar a fala de Clitemnestra em Agamêmnon (1404), “ela disse meu marido”.

“ΧΘΟΝΙΟΣ”, “nascido na Terra”; “ΧΘΟΝΟΣ”, “da terra”; “ΙΧΩΡ”, “ícor”, o fluido que corre nas veias dos deuses gregos.

“δακρυωυ”, “chorando” ou “de lágrimas”; “ευτευθευ”, “então”.

“Baviera Tropical” – resenha

Resenha publicada hoje no Estadão.

AS FUGAS DE MENGELE
Em Baviera Tropical, Betina Anton narra
a vida e os crimes do nazista que se escondeu no Brasil.

Em fins da década de 1970, no bairro paulistano de Eldorado, um homem sexagenário janta salada “para manter a linha”, depois se acomoda diante da televisão para assistir às novelas das seis, das sete e das oito. À exceção de Escrava Isaura, que teria “negros demais”, ele parece apreciar todos os folhetins. Leva uma vida solitária, exceto pelas visitas semanais, às quartas-feiras, de um amigo próximo, que às vezes traz consigo a esposa e os filhos, e, aos domingos, do jardineiro, com quem assiste à TV depois de servir o café da tarde (pão e geleia). É uma existência aparentemente pacata, não fosse pelo temor de ser desmascarado e preso ou morto por conta de crimes sem precedentes cometidos durante a Segunda Guerra Mundial. O homem é Josef Mengele, médico e oficial nazista que, em Auschwitz, recebeu o apelido de Todesengel — “Anjo da Morte”. No livro Baviera Tropical, a jornalista Betina Anton nos conta como um dos criminosos mais hediondos do século XX conseguiu se esquivar de seus perseguidores e levar uma vida relativamente pacata no Brasil.

Ao todo, foram quase vinte anos “hospedado” em São Paulo, primeiro no interior, nos sítios em Serra Negra e Caieiras, depois na capital. Antes, sempre ajudado pela família e por um círculo de amigos fiéis, Mengele viveu na Argentina de Perón e no Paraguai de Stroessner. Como foi possível? Ora, a relação dos caudilhos com os nazistas era amistosa. Hans-Ulrich Rudel, por exemplo, piloto condecoradíssimo da força aérea hitlerista, residia em Buenos Aires desde 1948 e “ajudou a modernizar a aeronáutica argentina”, ganhando “contratos e licenças do governo”, além de auxiliar na criação de “um fundo emergencial para apoiar os companheiros recém-chegados da Alemanha”.

O apoio de Perón foi essencial para o estabelecimento dessa rede de proteção. Com a ajuda do padre José Clemente Silva, que chefiava a delegação de imigração em Roma, o presidente argentino “criou um esquema para facilitar a fuga de nazistas” para o nosso continente. Se Buenos Aires é a “Paris da América do Sul”, talvez a referência seja à Paris ocupada, território administrado por abutres como Otto von Stülpnagel.

Amparada por uma pesquisa admirável, Anton repassa a vida e as fugas de Mengele em ritmo de thriller. Aos inúmeros crimes cometidos durante a guerra, ela dedica capítulos centrais do livro. É imprescindível ressaltar (e a autora faz isso brilhantemente) que os desmembramentos e torturas disfarçados de “experimentos científicos” não foram obra de um mero louco, mas, sim, integravam a política de estado vigente. Havia método e organização na carnificina. As “pesquisas” de Mengele estavam em plena conformidade com a ideologia e a pseudociência nazistas.

Assim, ele amarrou os seios de uma prisioneira que acabara de dar à luz para descobrir quantos dias o recém-nascido aguentava sem alimentação, destruiu as cordas vocais de um indivíduo para entender por que ele não cantava tão bem quanto o irmão gêmeo, mergulhou pessoas em tinas com água escaldante e gelada para “estudar” os efeitos das temperaturas extremas no corpo humano e costurou as veias da cabeça e das costas de um par de gêmeos, tentando “transformá-los” em siameses. Os relatos sobre como Mengele lidou com epidemias de noma e tifo em Auschwitz são particularmente inclassificáveis.

No campo, ele também participava das “seleções”: a cada trem de prisioneiros que chegava, escolhia quem ainda estava apto para trabalhar, quem seria submetido às suas “experiências” e quem deveria ser encaminhado diretamente para as câmaras de gás. Tudo isso com um mísero gesto de mão.

Ao narrar esses e muitos outros horrores, Anton é exemplar. Ela nomeia várias das vítimas e dos sobreviventes (alguns dos quais entrevistou), reumanizando-os. Com isso, oferece uma contribuição justa à memória da Shoah (termo preferível a “Holocausto”), e o faz sem recorrer a muletas conceituais — como a não raro incompreendida noção de “banalidade do mal” desenvolvida por Hannah Arendt em Eichmann em Jerusalém. Em um momento no qual antissemitas zurram pelo mundo afora, mal disfarçados sob a máscara do antissionismo, é importante resgatar esse momento da história judaica, inclusive para evitar comparações estapafúrdias entre a tragédia presente e os desastres pretéritos. Na interminável noite europeia, Mengele é uma besta incontornável.

Em vista disso, precisamos lamentar sua sorte. Teria sido melhor para a humanidade se, em vez de Baviera Tropical, Anton tivesse escrito algo como Mengele em Jerusalém. Que o “Anjo da Morte” não tenha sido julgado e condenado por seus crimes, ludibriando as autoridades em terras brasileiras até se afogar em Bertioga, cercado por amigos (e o ludíbrio ainda continuou por seis anos após a morte), é uma injustiça que apenas reitera a persistência do mal em nosso mundo.

Lukács e a ‘Estética’

Aconteceu uma coisa engraçada com a resenha abaixo. O título e o subtítulo escolhidos pelo editor do Estadão meio que contradizem o conteúdo do texto que escrevi. Em todo caso, você pode conferir a versão do jornal AQUI (imagino que saia no impresso dentro de alguns dias).

“DETERMINAÇÕES” POLUIDORAS
Lukács e o espantalho idealista

Fala-se muito da “viragem” sofrida pelo húngaro György Lukács (1885-1971) por conta da revolução bolchevique de 1917. Antes, há o autor marcadamente hegeliano de obras como A Teoria do Romance, escrita em 1914-15 “sob um estado de ânimo de permanente desespero com a situação mundial” (nas palavras do próprio), pois, se a provável derrocada do czarismo e dos impérios Alemão e Austro-Húngaro parecia aprazível, “quem nos salva da civilização ocidental?”. Nessa quimérica expectativa de uma “salvação”, há o elemento motivador daquele que abraça ideologicamente uma religião ou religiosamente uma ideologia. Houve, portanto, uma conversão ao marxismo, e a Estética, cuja publicação em quatro volumes a Boitempo inicia agora com A Peculiaridade do Estético (tradução de Nélio Schneider), é uma das obras mais célebres de Lukács após tal “viragem”. Claro que a trajetória do pensador transcende uma divisão tão arbitrária e empobrecedora, e mesmo a referida “viragem” precisaria ser esmiuçada. Ainda há, por exemplo, um forte teor hegeliano em História e Consciência de Classe (1923).

Em se tratando da Estética, foi importantíssimo o período que Lukács passou em Moscou no começo dos anos 1930. O professor José Paulo Netto, que assina a apresentação do volume, fala em uma “refundação” das concepções filosóficas do autor, que se voltaria para uma investigação de cunho ontológico. Na URSS, ele teve acesso a textos inéditos de Marx, entre outros, e iniciou uma colaboração com o teórico literário soviético (nascido em Melitopol, na Ucrânia) Mikhail Lifschitz. A partir da leitura cerrada do material disponível no Instituto Marx-Engels, eles postularam a existência de uma teoria estética embrionária em textos marxianos e marxistas fundamentais. “Refundado”, Lukács revisita aspectos d’A Teoria do Romance sob uma ótica dialético-materialista — os mais exaltados falam em “superação”, palavrinha que nunca cai bem em discussões filosóficas. Ele e Lifschitz compartilhavam de uma visão tradicionalista da arte, algo curioso, mas não incomum, em revolucionários. Exemplo dessa disposição conservadora é o desprezo do húngaro por alguns dos maiores inovadores da forma literária, como Kafka (que comparava desfavoravelmente a Thomas Mann), Musil e Joyce. Ele preferia a estética realista, e exaltou Walter Scott e Balzac n’O Romance Histórico (1938).

Antes de abordar a Estética, convém ressaltar que algumas das posições de Lukács, sobretudo no que diz respeito aos crimes de Stálin, eram indefensáveis na época e, salvo engano (nunca se sabe, não é mesmo?), continuam indefensáveis hoje. A desculpa oferecida por ele de que não criticou a farsa sanguinária dos “processos de Moscou” e outros crimes do regime stalinista por estar empenhado na oposição a Hitler é pusilânime. Talvez esse tipo de covardia seja incontornável para quem abraça uma perquirição de cores onto-historiais. Algo similar pode ser observado no outro lado do espectro, no antissemitismo que Martin Heidegger evacuou nos Cadernos Negros. Os dizeres do historiador Paulo Bertran (em outro contexto) são lapidares: “A história é a grande prostituta de todos nós: história e desejo de história é o que perseguimos. A história arrogante, antrópica, insana”.

O objetivo da Estética é delineado logo de saída por Lukács: “a fundamentação filosófica do tipo de pôr estético, a dedução da categoria específica da estética e a sua delimitação em relação a outros campos”. O livro, publicado originalmente em 1963, era a primeira parte de um projeto que incluiria outros dois volumes, jamais escritos. Mas não há sensação de incompletude, até porque ele se deslocou para o campo ético e a rarefação ontológica. Assim, a teoria do reflexo, desenvolvida no início da obra, é crucial para a compreensão dos desdobramentos teóricos na Estética e em trabalhos posteriores.

Lukács vê no “comportamento cotidiano do homem” tanto o começo quanto o fim de “toda atividade humana”, pois, “quando se imagina o cotidiano como um grande rio, pode-se dizer que, nas formas superiores de recepção e reprodução da realidade, ciência e arte ramificam-se a partir dele”. Em outras palavras, as objetivações irrompem do cotidiano e a ele regressam, enriquecendo-o, afirmando e reafirmando a autoconsciência humana. Tal processo se daria em uma realidade estruturalmente única, o que tornaria o materialismo dialético perfeito para problematizar a estética.

Por vezes, o idealismo com que Lukács “polemiza” parece mais um espantalho. Ele ignora, por exemplo, o aspecto realista de passagens importantes da Crítica da Razão Pura, como na Dedução Transcendental e na Refutação do Idealismo — a experiência interna e a experiência dos objetos externos como interdependentes. Há outros problemas, como a noção de que o marxismo “lança nova luz sobre o presente e o passado, sobre toda a experiência humana”, pois “os fatos fundamentais da realidade (…) vêm à tona e podem tornar-se conteúdo da consciência humana”. Os perigos do anacronismo são bem conhecidos. O filósofo Paul Franks aponta que “o interesse da filosofia em sua história não é somente histórico”. Logo, uma história anacrônica do pensamento (como a marxista) não é apenas imprecisa: ela polui quaisquer respostas às questões desde sempre colocadas.

Portanto, ao ler a Estética, é saudável ignorar os espantalhos e se fixar no que há de melhor na contribuição de Lukács: a reiteração da arte como um reflexo da realidade e o resgate de uma acepção humanizadora da ciência, colmatando o abismo surgido na modernidade entre o estético e o científico. Dados a centralidade do problema e o andamento da história conceitual, talvez seja possível limpar a abordagem lukacsiana de certas “determinações” poluidoras e aí, sim, chegar a uma ontologia realista capaz de sustentar a peculiaridade de seu olhar reflexivo.

Viagens ao centro

1. Em “Retratos Fantasmas”, Kleber Mendonça Filho fala baixo e de maneira afetuosa sobre algo ensurdecedor e não raro doloroso: a fragilíssima persistência da memória por meio das (ou nas) imagens em meio à predação urbana. Ele começa dentro de casa, falando sobre o apartamento no qual cresceu no Recife, sobre a mãe, sobre as transformações ocorridas no imóvel e no bairro ao redor, a cidade crescendo de modo vertical e, paradoxalmente, esvaziando-se. Depois, ele sai de casa e vai à rua, dirige-se para o centro da cidade, e nos leva a três cinemas históricos (dos quais apenas um sobrevive), com os quais teve e tem uma relação muito próxima. Assistir a essas imagens levou à minha própria viagem passadista.

2. Já escrevi diversas vezes sobre a importância do Cine Cultura (Praça Cívica, Goiânia) para mim. Hoje, a sala tem como programador um amigo muito querido, Fabrício Cordeiro (que, aliás, aparece a certa altura de “Retratos Fantasmas” assistindo a uma projeção de “Suspiria”, de Dario Argento, no Cine São Luís — Fabrício vendo um filme no cinema dentro do filme sobre cinema). Lembrei-me de quando, há vinte anos, Fabrício me apresentou aos textos (excelentes) do então crítico KMF no site Cinemascópio. Depois, vimos os curtas dele (“A Menina do Algodão”, “Vinil Verde”, “Eletrodoméstica” etc.) e o longa de estreia, “O Som ao Redor”, um dos melhores da década passada.

3. Não gostei dos dois filmes seguintes de KMF, “Aquarius” e “Bacurau” (embora haja neles coisas muito boas), e acho interessante o movimento que ele faz em “Retratos Fantasmas”, algo que identifico como uma introspecção saudável, um retorno ao cinema pelo cinema (que nunca, jamais, é “só” cinema), uma volta às imagens “primitivas” que captou há décadas. É maravilhoso como o filme não é sobre o Recife, mas é o olhar do diretor sobre o Recife, e um Recife fantasmagórico, perdido, saudoso, em contraposição a um Recife não transformado, mas transtornado.

4. O espaço urbano no Brasil é um espaço doente, e a sucessão de farmácias nas cenas finais de “Retratos Fantasmas” parece sublinhar esse caráter enfermiço. Eu me lembro do cinema em Silvânia, cidade na qual fui criado. E me lembro do que fizeram com o espaço no qual funcionava o cinema, primeiro abandonado, depois reformado, sim, e reutilizado, mas sem a luz do projetor lançada no escuro — o espaço transformado noutra coisa, importante, sem dúvida (não se tornou uma igreja, pelo menos), mas outra coisa. A projeção de um filme propriamente dito é bem distinta de qualquer outra projeção. Há uma textura diferente, e cada cópia em película, embora seja uma cópia, tem uma personalidade própria, suas manchas, queimaduras e cicatrizes particulares, únicas. É a diferença (para o meu gosto) entre um livro impresso e um livro eletrônico. As palavras são as mesmas, mas as cicatrizes e as sombras não estão lá. E o que somos sem nossas cicatrizes, sem nossas sombras e nossos fantasmas?

5. Moleque, eu ia a Goiânia sempre que possível assistir a filmes no Cine Cultura, no Cine Ouro, no Cine Astor. Vi “Cassino”, de Scorsese, aos dezesseis anos de idade em uma sala no centro. Esse tipo de peregrinação criava uma relação especial não apenas com o cinema, mas também com o próprio espaço urbano. Este me parecia amistoso, único, e caminhar pelas ruas do centro (eu, um moleque interiorano, circulando pelos sebos da rua Quatro antes da sessão e depois correndo a fim de alcançar o derradeiro ônibus para Silvânia, os olhos arregalados pelo que vira na tela e pelo que via nas ruas, preenchido de histórias, sozinho com meus olhos e com as vozes externas e internas, feliz) era tão importante e formador de caráter quanto assistir ao filme. Embora compaginado ao Recife, “Retratos Fantasmas” recupera a força dessa experiência reconhecível por qualquer pessoa que a vivenciou — experiência que se perdeu, exceto por testemunhos como este e como esse (isto é, o filme “Retratos Fantasmas”).

(Uma versão abreviada deste texto foi publicada n’O Popular.)

Canto LXXXI

“Zeus jaz no seio de Ceres”: Ceres (Deméter) é a deusa da colheita. O verso sugere que o verdor e a fertilidade da natureza são a manifestação do poder divino.

“Sargent a havia pintado”: referência à tela “La Carmencita” (1891), de John Singer Sargent (ao lado).

“Bowers”: Claude Gernade Bowers (1878-1958), historiador e diplomata norte-americano, embaixador na Espanha (1933-39). Pound gostava de Jefferson and Hamilton, de Bowers, e escreveu para ele em 1938. Na resposta de Bowers, datada de 10 de maio de 1938, ele menciona “a atmosfera de ódio inacreditável” reinante na Espanha.

“e os vermelhos de Londres”: à época da Guerra Civil Espanhola, Moscou considerava que a segurança das nações aliadas era mais importante do que qualquer outra coisa. A ideia era que Inglaterra, França e EUA ficassem unidos contra a ameaça nazifascista. Assim, a URSS evitava patrocinar revoluções ou ações comunistas que desestabilizassem os outros países. Na Espanha, houve diversos grupos estrangeiros que lutaram contra Franco, mas também havia aqueles que apoiavam o ditador Francisco Franco (1892-1975). Por conta da política de Moscou, esses “amigos de Franco” não eram expostos. V. George Orwell, Homenagem à Catalunha.

“Alcázar”: cidade espanhola visitada por Pound em 1906. Na opinião de Franco, o sangrento certo a Alcázar foi imprescindível para a vitória fascista na Guerra Civil. Talvez, na tradução, o mais indicado fosse usar a preposição “em” em vez de “no Alcázar”.

“Cabranez”: Augustin Cabanès (1862-1928) foi um médico francês, historiador e autor de inúmeras obras de ficção e história. “Basil” é o poeta inglês Basil Bunting (1900-1985). Ele se refere a uma tradição nas Canárias onde as pessoas batiam tambores à exaustão entre a Sexta-Feira da Paixão e o Domingo de Páscoa. “Possum” (“gambá”) é T. S. Eliot. No original, como em outros Cantos, Pound escreve “portagoose” em vez de “portuguese”.

John Adams certa vez observou que ele temia a aristocracia, ao passo que Jefferson temia a monarquia.

“(Para quebrar o pentâmetro…)”: isto é, deixar de lado os ritmos e estruturas poéticas tradicionais e aproximar a poesia da fala coloquial.

“Jo Bard”: o escritor húngaro Josef Bard (1882-1975), que Pound conheceu no final da década de 1920. Ele se casou com Eileen Agar, aquela do “raio solar artificial” (“trick sunlight”) citada no Canto LXXVI (ela colocava uma lâmpada atrás das cortinas amarelas em sua casa, daí o “truque”). Pound visitou o casal em 1938, quando foi a Londres para o funeral de Olivia Shakespear. Foi Bard que apresentou Pound para Frobenius.

“de Maintenon”: Françoise d’Aubigne, marquesa de Maintenon (1635·1719), amante e depois segunda esposa de Luís XIV. Pound e Baird concordavam que, nos romances, pessoas ordinárias como padeiros e porteiros sempre soavam como gente inteligente e sofisticada como a marquesa e o também citado La Rochefoucauld.

“‘Te cavero le budella’ / ‘La corata a te'”: “‘Vou arrancar as suas tripas’ / ‘E eu [vou arrancar] as suas'”.

“Ἶυγξ…. ἐμὸν ποτὶ δῶμα τὸν ἄνδραde”: “Iynx (…) homem para a minha casa!” — o verso é de Teócrito, do “Idílio II”. A Iynx era um disco de madeira com dois furos no meio, nos quais se passava um cordão. Para fazer com que o disco girasse, bastava afrouxar e puxar o cordão. Ele era usado para atrair um amante. Leia o poema completo AQUI.

“Benin”: ref. à cidade e ao rio nigerianos, onde Frobenius (apresentado a Pound por Bard) coletava máscaras e artefatos. A alusão a Frankfurt se deve ao fato de que o Instituto Frobenius se localiza nessa cidade alemã.

“E de início…”: as linhas seguintes derivam de Persons and Places, de Santayana, cujos manuscritos Pound leu em 1940.

“et les quais dévastés à coups de bélier”: “e as docas devastadas a golpes de aríete”.

“Muss” é Mussolini, claro. Ele, de fato, forçava o sotaque da região da qual viera, um traço populista típico.

“e disse que a dor (…) clímax”: Santayana escrevendo sobre o luto da tia pela perda da filha.

“George Horace”: George Horace Lorimer (1868-1937), editor do Saturday Evening Post e vizinho da família Pound em Wyncote. “Beveridge” é o senador Albert Jeremiah Beveridge (1862-1927), apoiador de Theodore Roosevelt e um dos organizadores do partido Progressista em 1912. Ele “não falaria e (…) não escreveria” sobre uma viagem que fizera às Filipinas em 1899, pois queria abordar o tema em seu primeiro discurso como senador. Na verdade, Horace escreveu seis artigos, não “três”, como escreve Pound.

“Althea”: ref. ao poema “To Althea from Prison”, de Lovelace.

“libretto”: assim como o Canto LXXV traz as notas musicais de Janequin, o tom musical desse Canto é sublinhado pela ideia de que se trata de um “libretto”. Nos versos seguintes são citados Henry Lawes (compositor inglês, 1596-1662), John Jenkins (compositor inglês, 1592-1678), Arnold Dolmetsch (1858-1940, multi-instrumentista e pesquisador, crucial no movimento de revivalismo da música antiga), Edmund Waller (poeta inglês, autor de “Song: Go, lovely Rose”, 1606-1687) e John Downland (compositor e alaudista irlandês, 1563-1626).

“Moldaste (…) sombra”: Pound se inspirou na terceira estrofe de “The Triumph of Charis”, do inglês Ben Jonson (1572-1637).

“Ed ascoltando…”: “E ouvindo o gentil rumor”.

“Εἰδώς”: aparência, natureza constitutiva, forma, tipo, espécie, ideia.

“Apreende o teu lugar com o verde universo”: v. Mateus 6, 28-31 (“Olhai os lírios do campo” etc.).

Paquin foi um costureiro parisiense.

“O elmo verde…”: no original, “The green casque”. Creio que a melhor tradução seria “carapaça”, pois é uma referência à vespa que nasce (há outra referência no Canto LXXXIII).

“‘Governa-te que assim…'”: Pound parodia a “Balada do bom conselho”, de Chaucer.

“Blunt”: o inglês Wilfrid Scawen Blunt (1840-1922) foi poeta, diplomata, viajante, defensor da independência da Índia, do Egito e da Irlanda (pelo que foi preso). Foi casado com Lady Anne Blunt (neta de Byron, filha de Ada Lovelace), com quem viajou pelo Oriente Médio e trabalhou na preservação de certas linhagens de cavalos árabes em sua fazenda, Crabbet Arabian Stud. Blunt era muito admirado por Pound.

Canto LXXX

“Não cometi…”: estamos no DTC, e quem fala (Little, Nelson ou Washington) é um dos detentos, “refletindo sobre as fantasias de nossa emergente Θεμις”. Θεμις é Têmis, titânide filha de Urano e Gaia que personificava a lei estabelecida ou ratificada pelos costumes.

“E a morte de Margot…”: o obituário de Margot Asquith (1864-1945) foi publicado pela Time de 06.08.1945, identificada como “a Condessa de Oxford e Asquith” e “a sagaz esposa do primeiro-ministro britânico (1908-16) Herbert H. Asquith, por muitos anos a enfant terrible da sociedade”. Dentre suas “audácias” listadas no obituário, estava o bilhete escrito a lápis “para a rainha Vitória, recusando-se a permanecer em um jantar festivo, a despeito do pedido do rei Edward”. Ela já marcou presença no Canto XXXVIII (referida como “Agot Ipswitch”): certa vez, disse à socialite norte-americana Maud Cunard que a filha desta, a escritora, mecenas e musa modernista Nancy Cunard (1896–1965), mantinha um relacionamento amoroso com Henry Crowder (1890–1955), um jazzista negro, em Paris. Como resultado, Maud fez de tudo para separar o casal: tentou deportar Crowder, contratou detetives para espionar o casal, efetuou ligações ameaçadoras e cortou a mesada da filha. (Nancy é citada mais adiante no Canto.) Asquith queria ver o circo pegar fogo, e Pound gostava muito dela, que encomendava exemplares da revista Blast e teve um retrato desenhado por Gaudier-Brzeska (acima).

“Walter”: Walter Morse Rummel (1887-1953), pianista e compositor alemão muito interessado em canções francesas dos séculos XII e XIII. Pound viveu com ele em Paris por alguns meses. Assim como Michio Ito, Rummel passou por dificuldades financeiras. O sobrenome dele é mencionado alguns versos abaixo, entre parênteses.

“Finlândia”: poema tonal de Sibelius.

“senesco / sed amo”: “envelheço, mas amo.”

“Madri, Sevilla, Córdova”: quando jovem, Pound trabalhou como guia turístico nessas cidades. “Gervais”: marca francesa de laticínios.

“Las Meniñas”: célebre pintura de Velásquez. Pound a viu no Museu do Prado, em Madri, bem como outras que cita nos versos seguintes (“Filipe a cavalo ou não a cavalo”, “anões”, “Don Juan”, “Breda” etc.). “Las Américas” é um bazar em Madri.

“Symons”: o poeta e crítico britânico Arthur Symons (1865-1945), figura importante no desenvolvimento do simbolismo. “Tabarin” era um clube noturno em Montmartre. A história envolvendo Verlaine está na autobiografia de Ernest Rhys, Everyman Remembers (1931), e pode ser que Symons ou Rhys a contou Tabarin. Segundo a anedota, Verlaine dava uma festa no quartinho em que vivia após se restabelecer de uma enfermidade. A certa altura, sacou uma nota de dez francos e pediu a alguém que comprasse uma garrafa de rum. Quando a pessoa voltou com a bebida, como só houvesse um copo, a garrafa foi passando de mão em mão, todos bebendo do gargalo.

“Henrique”: o romancista e dramaturgo francês León Henrique (1851-1935). Flaubert e Turgêniev foram amigos por muitos anos. Terrell sugere que a menção a Tirésias ocorre pela capacidade profética deste; ele como que é invocado no corpo do poema.

A citação em grego não faz sentido, mas parece que Pound está tentando citar a Odisseia X, 494-5 (coloco em itálico o trecho buscado por Pound, mas, para fins de contextualização, cito 489-95; uso, como sempre, a tradução de Trajano Vieira, ed. 34):

(…) Outra viagem haverás
de executar primeiramente, à residência
do Hades e da terribilíssima Perséfone,
a fim de consultar a psique do tebano,
Tirésias, vate cego de epigástrio sólido:
só a ele, mesmo morto, concedeu Perséfone
o sopro da sapiência
. Os outros vagam: sombras.

Assim, o verso seguinte do Canto (“Tem ainda a mente intacta”) também se refere a Tirésias

“(atirarão X——–y)”: referência a Vikdun Quisling (1887-1945), militar e político norueguês que, junto com o alemão Josef Terboven, presidiu a Noruega após a invasão nazista, instituindo, portanto, um governo fantoche que colaborou com o Holocausto. Após a guerra, ele foi julgado, condenado e executado na Fortaleza de Akershus, em Oslo. A palavra “quisling” virou sinônimo de “traidor” ou “colaborador” em vários idiomas.

“Blum”: o socialista francês Léon Blum (1872-1950), primeiro-ministro da França em três oportunidades, foi opositor de Pétain e perseguido pelo marechal. Por muito pouco, não caiu nas mãos dos nazistas (o irmão dele, René, morreu em Auschwitz). O “bidê” que ele defendia talvez fosse o Banco da França, que reorganizou em 1936.

“simplex munditiis”: v. Horácio, Odes I, 5 — “Para quem prendes teus louros cabelos, // tão simples na tua elegância?” (trad.: Pedro Braga Falcão, ed. 34).

O “velho Legge” é o sinólogo e missionário escocês James Legge (1815-1897), editor dos Chinese Classics (sete volumes).

“Tsu Tsze”: Tzu Hsi (ou Cixi, 1861-1908) foi imperatriz da China e governou o país de fato (mas não de jure) por 47 anos (1861-1908). Conhecida como a Imperatriz Viúva (“Dowager”), era uma das concubinas de status inferior do imperador Xianfeng. Em 1856, deu à luz Tongzhi, único filho do monarca. Xianfeng morreu e o garoto se tornou imperador aos seis anos de idade, mas, poucos meses depois, Tzu Hsi chegou ao poder graças a um golpe de estado. Nos primeiros tempos de reinado, tentou combater a corrupção, mas foi engolfada pela ocorrência de vários levantes populares, os quais tratou de sufocar com extrema violência — exceto pelo Levante dos Boxers (ou Movimento Yihetuan, 1900-1), que eventualmente contou com o apoio da imperatriz e foi levado a cabo por uma sociedade secreta de lutadores (a Sociedade dos Punhos Harmoniosos e Justiceiros, Yìhéquán) cujo objetivo era expulsar os estrangeiros do território chinês. A rebelião resultou na invasão da China por milhares de soldados norte-americanos, austro-húngaros, britânicos, franceses, alemães, italianos, japoneses e russos, em uma grande aliança. Os invasores venceram os revoltosos e o exército imperial, além de saquear Pequim e outras áreas do país. Quanto às menções no Canto à caligrafia e outras coisas da imperatriz, Pound as tirou do livro With the Empress Dowager, da retratista e pintora norte-americana Katherine Carl (1865-1938). Em 1903, Carl passou nove meses na China, pintando o retrato da imperatriz para a Feira Mundial de St. Louis (1904).

“‘e serei maldito’ disse Confúcio”: a tradução da fala é literal e o sentido meio que se perde. A referência é aos Analectos VI, 28 (Terrell assinala erroneamente 26): “O Mestre foi ver Nan Tzu. Tzu-lu não gostou. O Mestre jurou: ‘Se fiz algo inapropriado, que o castigo do Céu caia sobre mim! Que o castigo do Céu caia sobre mim!” (trad.: Caroline Chang e D. C. Lau, ed. L&PM). Tzu-lu era um dos discípulos de Confúcio. Nan Tzu (ou Nan-tze) era uma das esposas do duque Ling. O filho deste, K’uai K’ui, achando que a madrasta fora infiel ao pai (e/ou por outras razões não esclarecidas), tentou assassiná-la, fracassou e fugiu para outra província. Nas versões mais cabeludas da história, Nan-tze teria mantido relações incestuosas com um homem chamado Sung Chao ou Sung-tzu Chao, embora muito pouco ou nada se saiba a respeito dele (e, portanto, permanece obscura a natureza do suposto parentesco entre os dois). O mais provável, conforme atesta um ótimo artigo de Siegfried Englert e Roderick Ptak (leia AQUI), é que os boatos envolvendo Nan-tze não passassem de maledicência misógina. Ela seria muito influente junto ao marido, o que causava estranhamento; o fato de que Confúcio foi vê-la é um indício da influência dela junto ao duque (a quem Confúcio desejava aconselhar). Em todo caso, ficam explicados o receio (desconfiança?) do discípulo e a reação de Confúcio, precisando afirmar que nada fizera de errado ao visitar a mulher.

“Nancy”: trata-se de Nancy Cunard, mencionada acima (v. nota sobre Margot Asquith). A referência implícita a Nan-tze (cujo som é similar ao de “Nancy”) sugere que o affair de Cunard com Crowder teve circunstâncias violentas.

“Sr. Hartmann”: o poeta, dramaturgo e crítico de arte norte-americano Sadakichi Hartmann (1867-1944), tido em alta conta por Pound. “Hovey” é o poeta norte-americano Richard Hovey (1864-1900). “Stickney” é o poeta norte-americano Trumbull Stickney (1874-1904). “Loring” é o poeta e jornalista norte-americano Frederic Wadsworth Loring (1848-1871). “Santayana” é o filósofo espanhol Jorge (“George”) Augustín Nicolás Ruiz de Santayana (1863-1952), que nasceu em Madri, estudou e lecionou em Harvard e voltou para a Europa em 1912. Ele e Pound se conheceram em Veneza, em 1919, e se tornaram amigos. “Carman” é o poeta e jornalista canadense Bliss Carman (1861-1929), que passou a maior parte da vida na estrada, cantando seus poemas em troca de comida ou um lugar para dormir.

“Whitman gostava de ostras”: na verdade, em Conversations with Walt Whitman, de Hartmann, este diz que eles comeram lagostas.

“Nenni”: o socialista Pietro Nenni (1891-1980) assumiu um cargo importante no governo pós-Mussolini (de Ferruccio Parri) e queria ser primeiro-ministro. No entanto, dizia uma nota publicada na Time (02.07.1945), o filósofo Benedetto Croce expressou a opinião geral: “Nenni, você não pode ser premier. Primeiro, porque você é Nenni; segundo, porque não entende nada de administração”.

“Tseng”: Tzu Kung, um importante discípulo de Confúcio.

“e quanto ao pobre velho Benito”: nesse trecho, Pound reitera a ladainha de que o “grande” Mussolini foi destruído por aqueles que o cercavam, “todos tão abaixo dele / vagabundos e amateur / ou meros canalhas”. Mais abaixo, “Billyum” é W. B. Yeats.

“Ó mulher formulada como um cisne”: primeiro verso de um poema do irlandês Padraic Colum (1881-1972), muito admirado por Pound.

“Se um homem (…) senador?”: em A Packet for Ezra Pound (1929), Yeats escreveu: “Meu caro Ezra, não seja eleito para o senado do seu país”. Esses versos são a resposta de Pound.

“Palio” é uma corrida de cavalos que ocorre duas vezes por ano em Siena, em 2 de julho (desde 1633) e 16 de agosto (desde 1701).

“giribizzi”: creio que a grafia correta é “ghiribizzi”, “caprichos”. No verso seguinte, “onde está Barilli?” — Bruno Barilli (1880-1952) foi um compositor e crítico musical italiano. Alguns versos depois, “non è una hontrada…”, “não é um distrito, é um condomínio”; depois, “arti”, “guildas; “hamomila de hampo”, “camomila do campo”.

A Osservanza é uma igreja em Siena. Lá, estão muitas esculturas da família de la Robbia, algumas das quais foram destruídas por bombardeios na Segunda Guerra Mundial. Pound fala sobre isso no trecho. O Tempio, em Rimini, também teve a fachada destruída pelas bombas.

“e perto de quê? Li Saou” parece ser uma confusão de Pound com certos caracteres. Assim, segundo Achilles Fang em sua tese de doutorado, esse verso seria o mesmo que “perto de que pinheiros?”, verso (512) que aparece mais para o final do poema (Fang, “Materials for the Study of Pound’s Cantos”, Harvard University, 1958, vols. II, III, IV).

“para esmagar Mussolini”: no original, “to cwuth Mutholini”. Isso teria sido dito por Sir Robert Mond (industrial, químico e arqueólogo britânico, 1867-1938) em um estabelecimento em Roma (rua Balbo, nº 35), em 1935, palavras que Pound entreouviu. Essa mesma fala já aparece no começo do Canto LXXVIII. Trata-se, é claro, do antissemitismo de Pound em toda a sua imbecilidade, pois Mond era judeu. Pound escreveu sobre a ocasião em que teria entreouvido as palavras de Mond em A Visiting Card: “Felizmente, esses porcalhões não têm nenhum senso de proporção, ou o mundo inteiro já estaria sob o domínio racial deles”. “Deles”, isto é, dos judeus. Detalhe importante: para tornar a caricatura mais canhestra, Pound engrola as palavras de Mond (daí o “cwuth” — seria “crush”, “esmagar” — e o “Mutholini” do original, ignorados pelo tradutor); no Canto LXXVIII, ele deforma o verbo ainda mais (“crwuth”), mas mantém o nome de Mussolini intacto.

“Nunca será usado no país (…)”: Lênin teria dito isso (“e está enterrado na Praça Vermelha de Moscou” — sendo que, no original, Pound escreve “Mosq”, não “Moscow”). A mesma fala aparece no Canto LXXIV (embora lá o termo usado seja “usurários”, não “emprestadores”).

“(…) uma ressurreição parcial / de corpos”: ref. concepção medieval da ressurreição no Dia do Juízo. Os saduceus, citados em seguida, eram uma seita judaica contemporânea de Jesus, religiosamente conservadora, urbana, aristocrática, negava a imortalidade e a ressurreição.

“Cairo”: há uma canção do poeta e dramaturgo inglês Thomas Lovell Beddoes (1803-1849) na peça Death’s Jest-Book intitulada “The Song that Wolfram Heard in Hell”, na qual estão os versos: “Old Adam, the carrion crow, / The old crow of Cairo…” (“Velho Adão, o corvo putrefato, / O velho corvo do Cairo…”). Pound tinha Beddoes em altíssima conta. Ele é citado nominalmente em seguida, primeiro pelo sobrenome e depois pelas iniciais “T. L.”, e ainda pela alcunha “príncipe dos papa-defuntos”, pois se ocupava da morte. E Pound escreve: “O osso luz foi seu ponto de partida”. O “osso luz” seria o cóccix. Segundo certa tradição rabínica, o cóccix é o único osso humano que não se decompõe após a morte. Também havia (não entre os judeus, óbvio) a ideia de que, se o osso fosse destruído, a pessoa estaria perpetuamente condenada ao inferno; por essa razão, Amalric (ou, na cabeça de Pound, Erigena) foi exumado. Em Death’s Jest-Book (III, 3), há a menção a esse “osso em forma de semente”, que os “Hebreus” chamam de “Luz”, que, sendo plantado no chão, após três mil anos, fará crescer “a relva da carne”, a “erva daninha sangrenta e possuidora de alma chamada homem”.

Há algumas menções a Eliot no trecho. Quando Pound diz que ele “não deu mais tempo ao Sr. Beddoes”, está se referindo aos versos de “Quarta-feira de cinzas”: “(…) E disse Deus: / Viverão tais ossos? Tais ossos / Viverão?”. Depois, “(e pérolas)” evoca “(Estas são as pérolas que foram seus olhos. Olha!)”, d'”A terra desolada” (trad.: Ivan Junqueira, ed. Nova Fronteira).

“ou o odor de eucalipto ou de / algas cara-de-gato, croce di Malta, figura del sol”: Grünewald quebra o primeiro verso (no original, “of the odour of eucalyptus or sea wrack”), jogando as algas (“sea wrack”) para o verso seguinte. Pound considerava suas sementes de eucalipto uma espécie de talismã, e elas pareciam ter a forma de uma cara de gato, da “cruz de Malta” ou da “figura do sol” (isto é, dos raios).

Hot…“: a voz do sargento do DTC cadenciando a corrida no treinamento. Ideogramas: “como é longe”.

Nos versos seguintes, Pound é surpreendido pela visita de um gato (seu animal favorito), que perambula pela enfermaria (onde ele estava instalado, escrevendo esses versos), fuça nos livros e manuscritos, tenta comer uns caramelos, sobe em uma caixa que usaram para transportar bacon (nela está inscrito o número da remessa, W110090) etc. O “gatinho sobre as teclas” alude à composição homônima (“Kitten on the Keys”) do norte-americano Zez Confrey (1895-1971).

“órgão a vapor via rádio”: no original, “radio steam Calliope”. Calíope é um instrumento musical inventado nos EUA, em meados do século XIX, que usa tubos e apitos (similares ou tirados de locomotivas), e o som  é alcançado usando vapor, gás ou ar comprimido. Ao limar o termo “Calliope”, perde-se a ironia do verso, uma vez que Calíope é a musa da eloquência e da poesia épica, e mesmo assim usaram seu nome para batizar um instrumento musical estridente e horrendo.

“(…) Hino de Batalha da República” e “meus olhos têm” (“mi-hine eyes hav”): os censores do DTC começaram a desconfiar que Pound passava mensagens codificadas para o inimigo por meio dos poemas e ele resolveu sacaneá-los.

“submeta-me por temporis acti”: isso vem de Horácio, Arte Poética 173. O verso é “laudator temporis acti”, isto é, “aquele que tece louvores aos tempos passados”, coisa típica dos velhos que elogiam os tempos idos em detrimento do presente. O verso original de Pound é “put me down for temporis acti”; no contexto, parece-me que “put me down” seria melhor traduzido como algo no sentido de “abater” ou “sacrificar” (no sentido de abater ou sacrificar um animal velho e/ou doente) — “acabe comigo pelos temporis acti”, algo do tipo.

“ΟΥ ΤΙΣ” (a mesma palavra aparece em minúsculas, “ου τις”, “Ninguém” (a forma como Odisseu se apresenta ao Ciclope no Canto IX da Odisseia); “αχρουος”, “sem tempo”.

Ideograma: “Ch’uan”, “cão”.

“Pistoleiro Jones”: oficial no DTC (tenente).

“homem e cachorro”: a constelação Órion e a estrela Sirius, “α Canis Majoris” (localizada na constelação do Cão Maior).

“como naturalmente no oriente se o sujeito no”: o verso interrompido de repente deveria ter o ideograma acima (“cão”) como complemento

“Kuan Chung”: v. Analectos XIV, 18, 2.

“così discesi per l’aer maligno”: “então desci pelo ar maligno”. Segundo Terrell, trata-se do verso que abre o Canto V do Inferno de Dante. Ocorre que, na edição de que disponho, lê-se: “Cosí discesi del cerchio primaio”, “Do círculo primeiro fui descendo” (na trad. de Italo Eugenio Mauro, ed. 34). Talvez seja o caso de que Pound, sem dispor do livro, tenha tentado citar de memória e errou.

“on doit le temps ainsi prendre qu’il vient”: em tradução livre, “devemos aproveitar o tempo que vier”. Terrell identifica esse verso (em francês) como sendo do Inferno V, 86. No entanto, verificando o livro de Dante, lê-se: “diverse colpe giú li grava ao fondo:”, “por vária culpa, às valas abissais”. No entanto, fazendo uma busca online, diversos sites identificam-no como um verso do Rondeaux de Jean Frossart (c.1337-c.1405).

“g.l.”: “gentil leitor”, conforme reiterado no verso seguinte.

“‘a S. Bartolomeo mi vidi col pargoletto, / Chiodato a terra colle braccie aperte / in forma di croce gemisti. / disse: Io son’ la luna.’ / Coi piedi sulla falce d’argento / mi parve di pietosa sembianzza”: em tradução livre, “‘em S. Bartolomeo me vi com o menino, / Pregado no chão com os braços abertos / em forma de cruz e gemendo. / disse: Eu sou a lua’. / Com os pés na foice de prata / parecia-me de aparência lamentável”.

“semina motuum”: “sementes do movimento.” Mais abaixo, “hagoromo” é o nome de uma peça Nō, já citada em outros Cantos.

“Em Éfeso ela se compadecia do ourives”: ela, Diana, a patrona dos ourives. “Actéon”, citado logo abaixo, sofreu a fúria de Diana (v. Canto IV). Neto de Cadmo, ele acidentalmente viu Diana (Ártemis) se banhando em Gargáfia e foi por ela transformado em veado (v. Metamorfoses III, 138-250).

“Fano Caesaris”: colônia romana construída por Otávio Augusto sobre um antigo sítio etrusco. O nome vem de Fano Fortunae, “Templo da Fortuna”. Os Malatesta possuíram o local por um tempo, até ele ser confiscado pelo papa (daí a expressão “olim de Malatestis”, “outrora dos Malatesta”). César Borgia fundou ali uma prensa onde fez livros em grego, latim, hebraico e italiano.

“wan”: Wên (v. Analectos IX, 5, 2), que Pound traduz como “o conhecimento preciso”.

“caritas”: “amor, estima”; “ΧΑΡΙΤΕΣ” (pronuncia-se “Khárites”): “as Graças.”

“Ade du”: trocadilho do alemão “ade du” (“tchau para você”) e o francês “adieu” (da canção de guerra britânica “Tipperay”). Piccadilly é uma praça em Londres, assim como “Lesterplatz” (forma germanizada de “Leicester Square”).

“Bellotti” era o dono de um restaurante italiano homônimo em Londres, frequentado por Pound e seus amigos nas décadas de 1910 e 20.

“‘Não há treva…'”: citação de Noite de Reis (IV, ii, 45-47), de Shakespeare, gravada no pedestal da escultura dele em Leicester Square.

“As coisas que eu poderia contar-lhe, disse ele, da Senhora de X”: Lady Grey, uma das muitas amigas de Eduardo VII (1841-1910) quando ele ainda era príncipe de Gales, e referido em seguida como “o Acariciador”. O “ele” que conta a fofoca é Bellotti.

“Sam Johnson”: o volume das peças de Shakespeare editado por Johnson não tem a fala de Noite de Reis citada acima. No verso seguinte, a citação é de Júlio César III, ii.

“Rubicão”: Sigismundo Malatesta erigiu um pedestal de pedra em homenagem a César em um antigo fórum, no local onde hoje é o Largo Giulio Cesare (próximo do Arco di Augusto).

“H. Cole”: Horace de Vere Cole (1874-1935), amigo do pintor Augustus John, com quem teria se dado o diálogo narrado por Pound. Cole era dado a pregar trotes como os citados no poema.

“passa Napper, Bottom (…) enfermos”: instalado na enfermaria, Pound vê os “trainees” do DTC passando pelo local. Ele usava uma velha Remington para datilografar os poemas.

“Aquiles”: no caso, Achille Ratti (1857-1939), o papa Pio XI.

“velha Kait”: personagem do poema “Ole Kate”, de Alfred Venison (pseudônimo de Pound em meados dos anos 1930).

“sacerdos”: padres. “Ixion” foi um homem da Tessália que cortejou Hera e, por essa afronta, foi condenado por Zeus ao tormento eterno em uma roda no Hades. “Trinácrio de Man”: “Trinácria” era o antigo nome grego para a Sicília. Ele está relacionado à antiga lenda de Vulcano (equivalente romano de Hefesto) solucionando o problema do moto-perpétuo usando uma roda com patas de cachorro como raios, o que remete ao tormento de Ixion. Por fim, o emblema heráldico da Ilha de Man é um tríscele.

“Sauter”: o retratista bávaro George Sauter (1866-1937) viveu em Londres por muitos anos e, a certa altura, ele e Pound foram vizinhos.

“Sarasate”: o violinista espanhol Pablo Martin Meliton Sarasate y Navascues (1844-1908) teve o retrato pintado por James Whistler (também citado no Canto). O violinista belga Eugene Isaye viu o quadro e disse: “Que violino!”, pois o grande destaque ali é mesmo o instrumento.

“ne povans desraciner”: “não podendo desenraizar.”

“Tosch” é um nome de cachorro comum. Por “Tolosa”, talvez Pound se refira a Toulouse, que visitou em 1919.

“Willy” é o escritor francês Henri Gauthier-Villars (1859-1931).

“papa Dulac”: pai do artista francês Edmund Dulac (1882-1953), citado alguns versos antes. Ele (o pai) teria arranjado um lugar para os Pound se hospedaram em Toulouse e lhes oferecido várias refeições.

“Dolmetsch””: o músico e fabricante de instrumentos francês Arnold Dolmetsch (1858-1940).

“Il est (…) pain”: “Tão bom quanto pão.”

“Mockel” (Albert Mockel, 1866-1945) era um poeta simbolista belga, fundador e editor de La Wallonie, uma revista cultural publicada em Liège por H. Vaillant-Carmanne de junho de 1886 a dezembro de 1892. Foi uma publicação importante para divulgar o simbolismo. A Dial era uma revista cultural norte-americana publicada intermitentemente entre 1840 e 1929. Em sua primeira leva (1840-44), era um veículo do movimento transcendentalista. Na segunda (1880-1919), passou a publicar textos políticos e literários. Por fim, entre 1920 e 29, foi importante divulgadora do modernismo. Pound se lembra de Mockel tentando fazer com que “Willy” colaborasse com a Dial.

“Les moeurs passent et la douleur reste.”: “A moral passa e a dor permanece.”

“a loja de velharias de Judith”: Judith Gautier (1850-1917), poeta e romancista francesa, filha de Theóphile Gautier. Única mulher membro da Académie Goncourt. A “loja de velharias” era o apartamento dela.

“Ca s’appelle…”: “Isso é chamado de sótão.”

“Rua Jacob”: onde viveu a dramaturga, poetisa e romancista norte-americana Natalie Barney (1876-1972) por mais de seis décadas. Em sua casa, realizou por muito tempo um salão literário. “à l’Amitié” (“à amizade”) refere-se a um pequeno gazebo dórico que ficava no jardim de Barney e que ela chamava de “Temple à l’Amitié”. Sendo amigo dela, Pound convenceu Barney a ajudar diversos escritores em dificuldades. O “M. Jean” referido no verso seguinte é Jean Cocteau (mencionado adiante como “Monsieur C.”).

“apache”: membro de um grupo de dança que tratava muito mal a parceira, daí Barney dizer que ele era muito malcriado. Grünewald erra o gênero da parceira de dança em questão, que diz: “Olha, ela está te dizendo”. “jambe-de-bois” é “perna-de-pau” (literalmente).

“Entrez (…) monde”: “Entre, vamos, vá em frente / essa casa é de todo mundo” — Barney recebendo Pound e o editor e produtor teatral norte-americano Horace Liveright em sua casa “perto do Natal” (“vers le Noël”).

“ce sont les moueurs de Lutèce”: “essas são as morais de Lutèce” (Lutetia Parisiorum era o antigo nome de Paris). Alguns versos depois, “Tio William” é Yeats.

“o herdeiro da tinta”: o pintor norte-americano Eugene Ullman (1877-1953), cujo pai fabricava tinta para impressores. Ullman pintou um retrato de Pound em 1912 (ao lado).

“vous allez (…) toile?”: “vai barbear uma tela?” — Terrell conta que, segundo Pound escreveu em uma carta de 1955, em 1912 as autoridades acharam que três telas de Eugène Carrière eram “muito nuas” e pediram que fossem retocadas. O pintor Carolus-Duran (mencionado pouco antes no Canto) passava por ali quando Carrière fazia os retoques, deitando umas pinceladas em cor pastel, e fez aquela pergunta. O problema é que isso não poderia ter acontecido em 1912, pois Carrière morreu em 1906. Teria sido em 1902?

“Quand vous serez…”: “Quando você estiver muito velho” — verso dos Sonnets pour Helene (1578), de Ronsard.

“mit Schlag”: “com chantilly”; o “café” mencionado em seguida e mais adiante (como “Wiener Café”) é o Vienna Café, na rua Oxford, em Londres. Seus donos eram austríacos. Com o início da Guerra, tornaram-se malquistos (eram o “inimigo”) e o café eventualmente fechou, dando lugar a um banco. Wyndham Lewis e Pound se encontraram lá pela primeira vez por volta de 1910. “Jozeff”, citado mais adiante, era provavelmente um garçom que trabalhava no café e voltou para casa.

“Binyon”: Laurence Binyon (1869-1943), poeta, tradutor de Dante, especialista em arte oriental, trabalhava no Museu Britânico. Pound gostava muito de um livro dele intitulado Flight of the Dragon (1911). “Penthesileia” é o título de um poema narrativo de Binyon sobre o qual Pound ouviu de uma das filhas do autor.

“Netuno”: apelido do poeta e artista britânico Thomas Sturge Moore (1870-1944). Em seguida, Pound remete aos versos de abertura do poema The Rout of the Amazons (“Laomedon…”).

“Sr. Newbolt”: versos (“Ele ficou…”) de “A Ballad of John Nicholson”, do poeta inglês Henry John Newbolt (1862-1938), cujas inversões Pound não suportava.

“meum est propositum (…) in tabernam”: “minha intenção (é morrer) em uma taverna.”

“‘perdidos’, disse o Sr. Bridges (…) de volta'”: reação do poeta inglês Robert Bridges (1844-1930) ao ler Personae e Exultations, elogiando os arcaísmos e prometendo trazê-los de volta, para horror de Pound.

“Furnivall” e “Dr. Weir Mitchell”: Frederick James Furnivall (1825-1910) foi um acadêmico e filólogo inglês, editor do dicionário Oxford. O médico Mitchell (1829-1914) era da Filadélfia e Pound o conhecia e aprovava seus projetos culturais, como o dicionário Chaucer. Foi Mitchell quem cunhou a expressão “membro fantasma” para descrever a sensação de pessoas com membros amputados. Alguns versos abaixo, o “velho William” é, de novo, W. B. Yeats. Mais adiante, “ou o seu, de William, velho ‘da'” refere-se a John Butler Yeats (1839-1922); há, ali, uma cochilada do produtor, uma vez que “da”, corruptela de “dad”, deveria ser traduzido como “papa” ou coisa parecida. J. B. viveu por alguns anos em Nova York, e Pound o teria visto em Coney Island montado em um elefante, conforme contou em uma carta de 1915 para o advogado e colecionador de arte John Quinn (1870-1924), figura importantíssima na defesa da liberdade de expressão e defensor das vanguardas e do modernismo (lutou contra a censura e outras leis retrógradas).

“‘Líquidos e fluidos!’ / disse a quiromante”: o velho J. B. Yeats temia que o filho fugisse com uma dançarina, e então começou a temer que ele não fugiria com ninguém e passou a frequentar quiromantes e afins para descobrir sobre que chances teria de se tornar avô. Sabemos dessa conversa por conta do volume Passages from the Letters of John Butler Yeats, Selected by Ezra Pound, editado em 1917.

Warren Dahler era um pintor que Pound conheceu em Nova York no começo da década de 1910. Ele teria descoberto um lugar chamado Patchin, onde E. E. Cummings também viveu por muitos anos. “Hier wohnt”, “aqui vive” (a tradição, assim como antes ela vivia em Camden, quando Whitman lá estava).

“596 Av. Lexington”: antigo endereço da avó materna de Pound, Mary Weston, em Nova York. O outro (“24 E. 47ª”) é o endereço de uma pensão do tio-avô de Pound, Ezra B. Weston, e da esposa deste, Frances Amelia Weston ou tia Frank, logo abaixo referida como “Tia F.”. Pound viveu nessa pensão quando garoto. “James” é o criado negro dessa tia, e ela se refere ao Hotel Windsor, destruído em um incêndio em 7 de março de 1899.

“Alma-Tadema” é Sir Lawrence Alma-Tadema (1936-1912), pintor inglês que vivia perto do Regent’s Park, em Londres. A “Leighton House” era a residência de Frederick, Lorde Leighton (1830-1896).

“Selsey” é uma cidade no litoral sul da Inglaterra onde Ford Madox Ford e Violet Hunt viviam (Pound costumava visitá-los lá). É Ford (depois referido como “Fordie”) quem conta a anedota sobre Swinburne. As aspas são de uma criada: um cocheiro bateu à porta e disse que o patrão dela estava na carruagem, bêbado.

“Tennyson”: comentário jocoso de Pound sobre quando Tennyson teria começado a escrever para “os ouvidos ignorantes de Viccy (Victoria)”.

“Mis Brandon”: Mary Elizabeth Brandon (1837-1915), autora prolífica e bastante rica. Ford, sendo pobre, maravilhava-se com a riqueza, chamando a atenção de Pound para a decoração da casa de Brandon.

“Périgueux”: capital da Dordogne, na França. A catedral lembrava Pound dos arranha-céus de Nova York.

“‘si com’ ad Arli'”: citação do Inferno IX, 112 (“sí come ad Arli”), “Como em Arles”. Assim Dante descreve as muralhas da “Cidade de Dis”. A referência ao “sarraceno” se dá porque as muralhas de Dis cercam um cemitério, e em Arles está o Aliscans (“Alyschamps”, Campos Elíseos), cemitério dos guerreiros que enfrentaram os sarracenos.

“Borr” é a pronúncia dialetal de Born, antiga cidade em Périgord. É, claro, a cidade do trovador Bertran de Born (1140-1215), barão do Limousin, cuja família se mudou para o castelo de Altafort (Hautefort) quando o irmão dele se casou com alguém da família Delastours.

O “tio Jorge” é o congressista George Holden Tinkham (1870-1956), com quem Pound visitou o Monte Grappa, perto do rio Piave. “Volpe” é Giuseppe Volpi (1877-1947), 1º Conde de Misurata, político e empresário italiano, ministro da economia de Mussolini (1925-28).

“Florian”, um café na Praça de São Marcos, em Veneza. “Sir Ronald”: Ronald Storrs (1881-1955), administrador e historiador britânico. O “Negus” era o título de Hailé Selassié (1892-1975), soberano da Etiópia.

“Alexandria”: Pound foi a Tânger com sua tia Frank em 1898. Ele se lembra, então, do romance Moscardino, de Enrico Pea (1881-1952), que traduziu para o inglês.

Pound gostava muito da sonoridade da poesia de Whitcomb Riley (1849-1916).

“Nancy” é a poeta e patrona das artes Nancy Cunard (1896-1965). Grünewald traduz diretamente alguns termos nesse trecho (“veir” por “peles nobres”; “cisclatons” por “sedas de ouro”). O verso “Whither go all the vair and the cisclatons” é uma referência a uma passagem do capítulo 6 de Aucassin and Nicolette (do século XII ou XIII); Pound apreciava a tradução de Andrew Lang.

“Que tous (…) lune”: “Que todos os meses temos uma nova lua.”

“Herbiet”: em 1921, usando o pseudônimo “Christian”, o poeta francês Georges Herbiet traduziu “Moeurs Contemporaines”, de Pound, para o jornal dadaísta 391.

“de mis soledades vengan”: “de minhas solidões venham” (de um poema de Lope de Vega).

“ficado lá até que Rossetti (…) dois pence”: o poeta e pintor inglês Dante Gabriel Rossetti (1828-1882) encontrou em um sebo cópias raras de Rubáiyát of Omar Khayyám, a célebre antologia de poemas persas traduzidos por Edward FitzGerald, por dois pence.

“Cythera”: aqui é o planeta Vênus, visto ao lado de uma lua crescente.

“Les hommes (…) beauté”: “Os homens têm não sei que medo estranho (…) da beleza.”

“Arthur” é Arthur Symons (1865-1945), poeta e crítico britânico, autor de The Symbolist Movement in Literature. A citação é de um poema dele, “Modern Beauty”.

“βροδοδακτυλος ‘Ηως”: a expressão em grego é a homérica “aurora de dedos róseos”; logo abaixo, “Kύθηρα δεινα”, “terrível Citera”.

No trecho seguinte, todos os pintores citados (Botticelli, Sellaio, Rembrandt etc.) retrataram Vênus.

“‘Isto apenas (…) τυ παν'”: o filósofo neoconfuciano Chu Hsi (1130-1200) comenta sobre o início de Chung Yung. A expressão em grego significa “o todo”.

Marie Laurencin (1885-1956) foi uma pintora francesa. “Miss Alexander” é Cecily Henrietta Alexander, retratada por Whistler em “Harmony in Grey and Green: Miss Cicely Alexander” (1872-4). Ela era filha de um banqueiro londrino e tinha oito anos de idade quando Whistler pintou seu retrato. (Terrell cita erroneamente o nome da tela como “Arrangement in Grey…”.

“(e as três damas gordas de Sargent, ao contrário)”: o pintor norte-americano John Singer Sargent (1856-1925) fez várias telas com três mulheres juntas, mas nenhum delas apresenta “três damas gordas”.

“Rodenbach”: Georges Rodenbach (1855-1898) foi um poeta belga associado ao movimento simbolista. Seu retrato foi pintado pelo francês Lucien Lévy-Dhurmer (1865-1953) e, nele, a ponte ao fundo parece ter lembrado Pound da Petit Pont, também chamada de Ponte de Abelardo (daí a menção a ele logo depois). “L’Ile St. Louis”, por sua vez, é uma das ilhas do rio Sena, em Paris.

“παντα ‘ρει”: “tudo flui” (Heráclito).

“como ele caminhara sob os altares da chuva (…) parapeitos”: Analectos XII, 21.

“Spencer”: instrutor de Pound na Cheltenham Military Academy. “Bill Sheperd” (William Pierce Shepard) foi professor de Pound no Hamilton College.

“νπερ μσρον”: “além do que é destinado” (fórmula recorrente em Homero). A ilha atacada é provavelmente Ismarus, dos cícones (v. Canto LXXIX e Odisseia IX, 39ss.).

“Je suis (…) forces”: “Estou no limite das minhas forças” (segundo Wyndham Lewis, frase sempre repetida pelo dono do Golden Calf Nightclub, em Londres).

“portões da morte”: no caso, os portões do DTC. Pound cita Jó 38, 17: “Foram-te indicadas as Portas da Morte, / ou viste as portas da sombra da morte?”. Em seguida, as referências a Whitman e Lovelace dizem respeito aos versos coligidos por Morris Speare no Pocket Book Of Verse (Pound encontrou um exemplar na latrina).

“quanda a balsa partiu”: Odisseia V, 365-69.

“Immaculata (…) saeculorum”: da preparação da missa católico-romana. “Imaculada, eu entro”; as santas Perpétua, Agatha e Anastasia. A expressão completa é “in saecula saeculorum”, “nos séculos dos séculos”. Na estrofe seguinte, “repos donnez à cils”, “dê descanso àqueles”; “senza…”, “atos sem fim”; “Les larmes (…) Tristesse”, “As lágrimas que criei escorrem / Muito, muito tarde conheci minha tristeza” (Villon, “Grand Testament” – tradução livre a partir da versão em inglês de Terrell).

“hieri”: ontem; “K.P.”: “Kitchen Patrol”, “Patrulha da Cozinha”. Pound lista soldados e oficiais do DTC chamados a trabalhar na cozinha ou na lista de enfermos.

“labirinto do subterrâneo”: no original, “labyrinth of souterrain”, com a palavra em francês.

“Carleton”: Mark Alfred Carleton (1886-1925) foi um botânico e cerealista norte-americano que introduziu trigos vermelhos duros e trigos duros da Rússia nas plantações dos EUA, aumentando enormemente a produtividade. Ele também foi muito bem sucedido no combate às pragas. Em 1901, o governo francês reconheceu seu trabalho com o Chevalier du Merite Agricole.

“o. t. a.”: “of the army”, “do exército”.

“Oh estar na Inglaterra (…) foi”: paráfrase rítmica de “Home-Thoughts, from Abroad”, de Robert Browning. A derrota de Churchill em 1945 foi um choque e tanto, e os trabalhistas liderados por Attlee trataram de nacionalizar o Banco da Inglaterra.

“Olhar por um instante (…) esquecida”: Pound e Dorothy visitaram uma torre na Lacock Abbey, em Salisbury Plain. Lá, eles engatinharam até o extremo do teto e viram uma cópia empoeirada da Magna Carta mantida dentro de uma espécie de redoma de vidro. Provável que se tratasse de uma “Exemplification of Henry Ill’s reissue of Magna Carta, 1225”.

“a primeira de João”: a Magna Carta é o documento assinado, em 1215, pelo rei João Sem-Terra (1166-1216), sob pressão da nobreza e do clero. Ela limitou os poderes do monarca, que renunciou a certos direitos e passou a observar procedimentos legais, reconhecendo que sua vontade estaria sujeita à lei. Ele escreve: “e ainda lá”. Na verdade, em 1945, Miss Matilda Talbot levou a carta para o Museu Britânico, onde está até hoje. Os Talbot eram da família Shakespear, e Charles Talbot (citado alguns versos depois) era sobrinho de Dorothy Pound. Ele herdara Lacock Abbey e a deixara para a sobrinha, Matilda. Endividada, ela teve de vender diversas obras de artes e documentos históricos, como a Magna Carta.

“se o dinheiro ficasse livre (…) impostos”: no entender de Pound, o governo Attlee estava numa encruzilhada: ou tornava o dinheiro “livre de novo” (nacionalizando o Banco da Inglaterra) ou devolvia tudo aos conservadores (como Chesterton).

“Quando um cão em altura…”: os ritmos dessa estrofe são inspirados em várias composições do século XV que Pound encontrou no Pocket Book of Verse editado por Morris Speare.

“uma porca com nove filhotes”: a tradução perde o efeito original de “a sow with nine boneen”, sendo “boneen” (baneen, bainin) uma expressão irlandesa para designar uma ninhada de porquinhos.

“Claridge” é um hotel chique na Brook Street, no West End londrino. Por sua vez, o escritor inglês Maurie (Maurice) Hewlett (1861-1923) vivia em Salisbury.

“o verde aquilófilo”: no original, “the green holly”. Citação de Como gostais (II, vii), de Shakespeare.

Na “planície de Salisbury”, há vários monumentos históricos (como Stonehenge).

“Lady Anne”: Lady Anne Blunt (1837-1917), neta (pelo lado materno) de Lorde Byron, filha de William King-Noel e de Augusta Ada Byron (Ada Lovelace, matemática, tida como a primeira programadora da história), esposa do poeta W. S. Blunt e grande criadora de cavalos árabes.

Pound associa erroneamente o porto francês Le Portel com Swinburne, que dramatizou o assassinato de David Rizzio, secretário da rainha Mary Stuart (“La Stuarda”).

“Si tuit li dohl (…) os leopardos e as giestas”: “Se todos os pesares, e os lamentos, e a dor” — do lamento de Bertran de Born pela morte do rei Henrique, o Jovem (1155-1183). A luta pelo poder na Casa de Plantageneta entre Leonor de Aquitânia e seu, marido Henrique II, levou os filhos a tomarem partido. Henrique, o Jovem, era o primogênito e foi coroado em 1170 para governar ao lado do pai. Ricardo Coração de Leão, o caçula, declarou guerra contra os dois. Em “Sestina: Altaforte”, poema de Personae, Pound identifica o leopardo como o device de Ricardo (só posteriormente, na Guerra das Rosas, é que as cabeças de leopardos foram associadas à Casa de York, assim como as giestas (plantagenetas) eram identificadas com os Lancaster). O poema foi traduzido por Mário Faustino na antologia Ezra Pound – Poesia (ed. Hucitec/UnB, 1993).

“Tudor”: a família real que governou a Inglaterra entre 1485 (Henrique IV) e 1603 (quando Elizabeth I morreu). O padrão rítmico dessa estrofe vem do Rubaiyat de Edward Fitzgerald, que Pound também encontrou no livro de Speare. “Vermelho-sangue” e “branco-pálido” referem-se, claro, aos Lancaster e aos York, antagonistas na Guerra das Rosas (1455-85).

“Howard” é Catherine Howard (c.1521-1542), quinta esposa de Henrique VIII; “Boleyn” é Ana Bolena (c.1507-1536), a segunda esposa, mãe de Elizabeth I.

“Serpentine” é um lago curvo no Hyde Park, próximo de Kensington. Pound viveu próximo dali por uns tempos.

“couturier”: estilista, costureiro. No caso, o crepúsculo (simbolizando a natureza como um todo) é o “grande estilista”.