Pinturas rupestres

Pinturas rupestres

[Escrevi este texto anos atrás.
Seria o posfácio de uma nova edição de “Calibre 22”, nunca publicada.
Foto: AP/Guillermo Arias.
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A recepção do terço final da obra de Rubem Fonseca (1925-2020), aquele iniciado após a publicação da obra-prima “Pequenas criaturas” e que engloba desde “Ela e outras mulheres” até “Carne crua”, é um caso exemplar de miopia, preguiça e má vontade por parte dos críticos e resenhistas. Em maior ou menor grau, e salvo por algumas exceções, esses volumes foram mal lidos e mal recebidos. Mas, se levarmos em conta a quantidade de bobagens e chavões ditos até mesmo acerca de seus livros tidos como clássicos (como “Feliz ano novo” e “O cobrador”), essa incompreensão não chega a espantar. E, ironicamente, a irreflexão e a falta de cuidado ecoam à perfeição a abordagem adotada por Fonseca em vários de seus contos mais recentes: se, antes, o autor descrevia as rachaduras nos tetos, paredes, ruas, almas e calçadas, em livros como “Calibre 22” ele se dispõe a enquadrar as ruínas. Em outras palavras, há uma radicalização que traduz o nosso gradual empobrecimento, e uma autoironia que ajuda a sustentar esse olhar ruinoso.

Penúltima coletânea lançada em vida pelo autor, “Calibre 22” traz vinte e nove narrativas que passeiam pela corrupção e pela violência, às vezes assumindo um tom de aparente senescência para melhor dar conta da decrepitude circundante. O mundo nos maltrata e envelhece, e eventualmente nos mata. Como dar conta dele? Como encará-lo, descrevê-lo? Como dar conta do outro, esse (não raro) monstro? E como dar conta de si mesmo em tal contexto? Anos atrás, quando escrevi sobre outro livro do autor (“Amálgama”) para o jornal O Estado de São Paulo, pontuei que os narradores de Fonseca deitam seus olhos exaustos sobre uma realidade tão esgarçada quanto incompreensível. Por mais que as palavras não deem conta dessa avassaladora violência cotidiana, eles insistem em resgatar e descrever as coisas pelas quais passam. Não há, contudo, qualquer tom ou sentido testemunhal — as histórias se sucedem como garranchos nas paredes de um banheiro público; de certa forma, elas são as pinturas rupestres da nossa contemporaneidade. Creio que isso também se aplique a “Calibre 22”.

Aqui e ali, cansados da ineficiência e da surdez do mundo, os personagens desses contos tomam para si a responsabilidade de agir ou reagir. Em “O morcego, o mico e o velho que não era corcunda”, por exemplo, o idoso protagonista dá cabo do assassino de um amigo. Depois de atirar no sujeito, um homofóbico e abusador, ele reclama que a “mão ficou doendo uns dez dias. Aquela Taurus matava, mas era horrível para quem atirava”. A economia da descrição alude a um mal-estar que vai muito além do mero incômodo na mão causado pelo coice da arma. O coice metafísico, por assim dizer, nos atinge desde as entrelinhas.

Uma característica comum a vários narradores de Fonseca é o didatismo: “Eu não disse a Mildred que o avô dela tinha certamente visto o filme Alma em Suplício, no original Mildred Pierce, dirigido por Michael Curtiz, com Joan Crawford no papel principal, baseado no livro de James M. Cain…” (em “Mildred”); “Para exercer bem a profissão, o psicanalista deve regularmente consultar um psicanalista, conforme ensinam vários psicanalistas importantes, como Freud, Lacan, Klein, Winnicott, Bion, Dolto e outros” (em “Fantasmas”); “Você conhece a história do chapéu-panamá, por que ele se chama ‘chapéu-panamá’?” (em “O chapéu-panamá”); no mesmo conto do chapéu, o narrador se incomoda que uma de suas amantes não só fala pelos cotovelos como se dá ao trabalho de explicar a expressão “falar pelos cotovelos”. Como se vê, esse didatismo é muitas vezes divertido, mas não só isso. Ele combina muito bem com o tom autoirônico das narrativas, expondo as idiossincrasias dos personagens e, ao mesmo tempo, aludindo ao que há de artifício na coisa como um todo. Fonseca alcança isso sem recorrer à metaficção propriamente dita (embora também vá por esse caminho de vez em quando, como em “Camisola e pijama”), restringindo-se aos meios, contextos e vozes de seus narradores.

Há, também, uma atenção especial dada aos impostores e às imposturas. Cito alguns exemplos. Em “Fantasmas”, temos uma engenheira florestal que “nunca viu uma floresta na vida”. Celebrado inadvertidamente como um inovador, o escritor de “Camisola e pijama” diz que toda “a literatura e tudo o que se escrevia era sempre a mesma merda”. Outro pretenso escritor, o ex-surfista de “O intrépido”, afirma ser “fácil escrever um livro, surfar é muito mais difícil”, e compreende que tantos escritores tenham se matado, pois “hoje ninguém lê livros de ficção”.

Em “O intrépido”, a opção pela escrita é também uma opção pela morte. Salvo engano, foi o autor francês Philippe Sollers quem disse certa vez que todo escritor faz uma opção pelo futuro, “quando todo mundo estará morto”. Em sua maioria, os narradores de Fonseca não parecem interessados nesse tipo de abstração e, em alguns casos, sequer parecem cientes da possibilidade de uma aposta como essa. O futuro não é vislumbrado ou mencionado, e mesmo o passado só aparece como curiosidade (as interpolações didáticas já mencionadas), chiste (“Sou do tempo em que as pessoas gostavam de ópera, de foder e de sanduíche de mortadela”) ou algo que aponta para a morte física (“Tenho um interesse especial pela morte dos seres vivos em geral, gosto de determinar local e tempo dos incidentes de acordo com a fauna encontrada no cadáver e o estágio de desenvolvimento desta”, em “O escorpião e outros animais”).

Entre impostores, suicidas e loucos, talvez o mais sóbrio e honesto seja o matador em “Um homem de princípios”: “Não gosto de matar barata, nem piolho, nem seres humanos. Não mato por ódio, ciúme, inveja, medo, casos em que o matador é também vítima desse sentimento, ou, se preferem, dessa percepção, ou noção, ou senso, ou consciência. Não conheço as pessoas que eu empacoto. Nada sinto por elas, mas tenho meus princípios”. Note-se nesse trecho o eco de “O cobrador”, mas quase na forma de um negativo — não há o ódio que revisitamos em “Réveillon”, por exemplo: “Matei um Papai Noel, e matar aquele Papai Noel deu-me uma grande felicidade”. Note-se, também, um personagem similar ao do romance “O Seminarista” (está lá o Despachante, mas faltam as citações em latim e a Glock, substituída por uma Beretta). Em “Réveillon”, há outra menção ao “despachante”, mas o exercício gratuito e raivoso da violência aponta para outra direção, esta, sim, mais próxima de “O cobrador”. Com isso, Fonseca enseja uma espécie de contraponto àqueles personagens norteados por “princípios”, como o já citado velho e sua Taurus, o narrador de “Homem não pode bater em mulher”, obrigado a lidar com o vizinho covarde após ser ignorado pela polícia, o sujeito que se depara com um assassino em série em “Gastronomia” ou o vendedor de rua que vai à forra contra um concorrente em “Carnaval”.

É importante ressaltar e sublinhar essas modulações para afastar de vez a noção de que Fonseca estaria “se repetindo” nos derradeiros anos de carreira. Longe disso. Consciente dos desdobramentos de seu estilo e de seus temas, e atento à depauperação material e espiritual sempre em curso no mundo ao redor, ele sempre buscou e encontrou novas formas de recriar literariamente esse recrudescimento das ruínas, algo que vai muito além de quaisquer problemas “sistêmicos”, ideológicos e pontuais. Mesmo quando reencontramos um personagem icônico como Mandrake no conto que dá título ao volume, inexiste a sensação de algo requentado. Ali, a sujidade moral que leva aos crimes (“Ela fez a minha filha se tornar homossexual”) é típica não só do nosso presente desesperador, mas de toda uma história ancorada em massacres, violações e espoliações de toda espécie. É claro que Rubem Fonseca, em “Calibre 22” ou qualquer outro de seus livros, não é um moralizador ou coisa parecida. Ele concebe e ilumina para nós essas pinturas rupestres, esses relatos de um país naufragado, e então, a exemplo de Mandrake, passa “o problema de crer-ou-não-crer adiante”.

Dalton Trevisan: escrever e silenciar

Texto publicado no Estadão em 11.12.2024. Leia abaixo ou AQUI ou clique na imagem para ampliar.

Dados o aspecto reservado da personalidade do escritor curitibano Dalton Trevisan (1925-2024) e a forma como ele conduziu sua vida profissional, a melhor maneira de abordar sua enorme contribuição à literatura é ignorar detalhes pessoais e privados e se fixar na produção ficcional. O epíteto que lhe infligiram, relativo ao título de seu livro mais conhecido, O vampiro de Curitiba, diz muito do estranhamento com que costumam ser vistos autores que preferem deixar que as obras falem por si, mantendo-se longe dos holofotes e da interminável procissão de egos que caracteriza o meio literário. Trevisan ocupou-se de escrever e de silenciar, e foi genial em ambas as atividades. Graças à primeira dessas atividades, foi agraciado com os prêmios Camões, Machado de Assis, Portugal Telecom, APCA, Biblioteca Nacional e Jabuti, entre outros.

Embora tenha escrito um romance, A polaquinha, e novelas como Mirinha e Nem te conto, João, Trevisan firmou-se como um dos melhores e mais inventivos contistas brasileiros desde Novelas nada exemplares, lançado em 1959. Antes, publicara histórias em folhetos e na revista Joaquim (1946-48), fundada por ele, Erasmo Pilotto e Antônio P. Walger. A concisão, “o olho aberto no escuro”, a utilização e reinvenção da linguagem coloquial, as imagens (“Bastava dizer João, eu beijava o sexto dedo do pé”; “cada morto é uma flor de cheiro diferente”; “O tropel de corvos no telhado: era a chuva”) e as repetições, elipses e supressões — tudo isso já marca presença em Novelas nada exemplares.

Ao se fixar nas existências corriqueiras, mais a-heroicas do que anti-heroicas, e não raro marcadas por ocorrências trágicas (“A mulher chorava de pé, a cabeça apoiada na parede. Uma vizinha esfregava vinagre nos pulsos do menino desmaiado. Debruçou-se o pai na cama — a criança virou o branco do olho”) ou ridículas (“Paulo reparou nas duas sombras. Uma, bule de chá, gorda e grávida. Outra, selvagem albatroz da noite, abrindo asas na glória de arremeter voo”), Trevisan cria e recria dramas domésticos e não raro comezinhos, elevando-os por meio de um trato único com a linguagem e as estruturas narrativas.

Tomemos como exemplo o que ele faz no conto “A visita”, de Cemitério de elefantes (1964). Uma mulher visita o amante, acompanhada pela filha “doentia, de grandes olhos machucados”. A criança é o álibi, pois a mulher não quer “ficar falada”. Após trancar a menina no banheiro, ela e o amante se entregam ao objetivo da visita. Depois, o casal ainda na cama e a menina no banheiro, a mulher conta uma história envolvendo a própria mãe e o amante desta. A narrativa “interna”, em primeira pessoa, no corpo de um diálogo, adensa a narrativa “externa”, em terceira pessoa. As elipses são radicalizadas: “Não basta que mamãe… Certa manhã descobri o que mamãe era”. As ironias são lancinantes: “Não gostava de Nestor, não sei por quê. (…) Eu recolhia as pontas de cigarro dele e fumava no banheiro. Sonhava todas as noites com ele”. Dois casais de amantes, duas filhas solitárias — uma delas, a protagonista de ambas as histórias. Em um só conto, duas narrativas que se espelham.

Trevisan jamais aliviou suas marcas narrativas e estilísticas, mas tratou de levá-las ao extremo. Assim, elementos do sujeito acanalhado que repara nas “duas sombras” em “Idílio”, das Novelas, e do amante grosseiro d’“A Visita” (“Você parece louca, Ema.”), por exemplo, reaparecem com maior violência no conto-título d’O vampiro de Curitiba, na voz do famigerado Nelsinho: “Maldita feiticeira, queimá-la viva, em fogo lento”; “Toda família tem uma virgem abrasada no quarto”; “Mãe do céu, até as moscas instrumento de prazer — de quantas arranquei as asas?”. A boçalidade e a raiva do macho brasileiro, estuprador em potencial ou violador contumaz, são traduzidas à perfeição desde a estruturação tensa, abrasiva e rascante dos períodos compostos por Trevisan. A violência do texto ecoa a violência da rua ou da alcova, bem como a brutalidade do toque indesejado e do olhar vampirizador.

Um dos desdobramentos mais extraordinários da radicalização dessa estilística se dá nos microcontos de Ah, é?, 234, Pico na veia e Arara bêbada, lançados entre 1994 e 2004. As “ministórias” presentes nesses e outros volumes da mesma época não são maneirismos, mas expressões cristalizadas de um autor no auge da forma: “Reinando com o ventilador, a menina tem a ponta do mindinho amputada. Desde então as três bonecas de castigo, o mesmo dedinho cortado a tesoura”; “Eu? Nove lances, eu? É mentira da moçada. Uma delas grávida? O que eu tenho são três assinados. Não sei dizer, não. (…)”; “Assim o cãozinho quer pegar no chão a sombra do voo rasante do pássaro, você persegue no tempo a lembrança em fuga dos teus mortos queridos”.

Em uma bibliografia extensa e geralmente associada à repetição, impressiona como o autor jamais se perde. Do teor arquetípico dos joões e marias de Guerra conjugal (1969) aos batimentos do “coração delator do tempo” (o relógio) que marcam O beijo na nuca (2014), há um tensionamento que sempre transforma o mesmo em algo novo. É como se Curitiba e seus habitantes continuamente nos escapassem ou se tornassem outros, e outros, e outros, deixando estilhaços, fragmentos e restos humanos que, somados, apontam para uma completude maior, uma integridade ulterior — a própria obra literária de Dalton Trevisan.

Alguns parágrafos sobre “Megalópolis”

Uma boa surpresa (dentre várias outras) que tive assistindo a “Megalópolis” foi constatar que a estrutura narrativa do filme é absolutamente convencional, com os três atos muitíssimo bem delineados. Eu temia que, dominado pela húbris, Francis Ford Coppola tivesse sucumbido sob o peso das próprias ideias e do tamanho de um projeto acalentado há décadas e financiado com seus próprios recursos. Não é o caso.

Mas essa constatação leva águas para outro moinho. Reli algumas críticas (positivas e negativas) publicadas desde as primeiras exibições do filme e, em muitas delas, tive dificuldades para enxergar ali a obra que vi na tela. Não há nada da “bagunça” que alguns apontaram. É como se, em alguns casos, o crítico (ou “crítico”) visse a si mesmo vendo o filme através de um filtro no qual se acumulam zilhões de preconceitos e expectativas desencontradas. Ou seja, a “bagunça” estava nos olhos de quem viu.

Sim, sim, todos alimentamos expectativas, é algo inescapável (falo a respeito das minhas daqui a pouco), mas também estou me referindo a algo diferente: há muita gente que não vê (ou lê) a obra pela obra, a obra pelo que ela é ou tal como se apresenta, cinematográfica ou literariamente falando, mas, sim, mediante uma impressão ou uma ideia difusa do que ela (obra) “deveria” ser. Essas pessoas não se abrem ao que veem ou leem, desarmadas, mas se fecham de forma antecipada e julgam “saber” exatamente o que esperar. Se a obra corresponde a essa expectativa (boa ou ruim), está tudo certo, “eu já sabia” etc. Se a obra foge a essa expectativa, é rejeitada logo de cara. Não há curiosidade. Não há espaço para/possibilidade de surpresa.

Eu vi “Megalópolis” esperando que fosse desastroso, mas por uma boa razão: desde meados dos anos 1990, os filmes de Coppola oscilam entre a mediocridade (“O homem que fazia chover”) e a extrema ruindade (“Jack”, “Twixt”). Esperava que “Megalópolis” fosse desastroso, mas em nenhum momento me fechei para a possibilidade de que fosse bom ou mesmo excelente (ou sequer teria ido ao cinema). Em outras palavras, mesmo esperando pelo pior, fui desarmado à exibição e vi o filme com os olhos bem abertos. E “Megalópolis” foi uma ótima surpresa, tanto quanto “Dias perfeitos”, de Wim Wenders. Sim, são filmes muito, muito diferentes entre si, mas cito Wenders porque seu trabalho no cinema de ficção descarrilhara feio após “Asas do desejo”. Há essa coincidência entre eles: dois cineastas que perderam a mão.

Não é absurdo trazer Wenders para a conversa também por outra razão: “Hammett” (1983). Caso não saiba do que se trata, sugiro que veja o filme e leia a respeito de sua conturbada produção. Ali, Coppola (no papel de produtor) fez com Wenders o que reclama que os executivos dos estúdios de Hollywood fazem com os artistas de verdade. Curioso, não? Ironias assim sempre me divertem.

A trajetória de Coppola também é curiosa porque a ideia que ele parece ter a respeito de si foi sistematicamente desmentida ao longo de quase seis décadas. Embora quisesse se firmar como uma espécie de auteur, um realizador independente de filmes “pequenos” e ousados, seus melhores trabalhos (a trilogia “O poderoso chefão”, “A conversação” e “Apocalypse now”) são narrativamente clássicos, além de financiados e/ou distribuídos por majors. Sim, o homem enterrou dinheiro próprio em “Apocalypse now” e quase se estrepou por isso (ele se estreparia feio poucos anos depois, com “O fundo do coração”), mas a United Artists distribuiu o longa. Não é por estabelecer sua produtora Zoetrope em San Francisco que ele escaparia dos estúdios, do “sistema”. Não escaparia e não escapou. Toda essa conversa me parece sintoma de autoengano.

Quando deu com os burros n’água (ou numa das vezes em que deu com os burros n’água), Coppola voltou correndo para o colo da Paramount e fez o terceiro “Chefão”. E, como ainda tivesse dívidas para quitar, sugou 40 milhões de dólares das tetas da Columbia e entregou “Drácula de Bram Stoker” — seu último grande filme antes de “Megalópolis”, aliás.

Mesmo os (ótimos) filmes “pequenos” que fez após o fracasso financeiro de “O fundo do coração”, como “Vidas sem rumo”, “O selvagem da motocicleta” e “Tucker”, são estruturalmente clássicos, isto é, obedecem a uma gramática narrativa formalizada no cinemão norte-americano desde (ou a partir de) Edwin S. Porter e D. W. Griffith. E não custa lembrar que um dos grandes colaboradores de Coppola é o montador Walter Murch, criador da famigerada “regra dos seis” (ele a explica AQUI).

Óbvio que o trabalho sob parâmetros bem estabelecidos não impede a inovação. Na verdade, não é raro que tal rigidez resulte em inovações mais consequentes, isto é, direcionadas a objetivos específicos ou resultantes de problemas pontuais. Vide o trabalho revolucionário do próprio Murch com o som em “Apocalypse now”, por exemplo, ou a ousadia trevosa do fotógrafo Gordon Willis na trilogia “O poderoso chefão” (especialmente no segundo), exemplo genialíssimo de subexposição.

Em “Megalópolis”, Coppola se movimenta dentro daquela estrutura narrativa sedimentada e, sem extravasá-la (o que arruinaria o filme), brinca com ela, força, empurra, ironiza e autoironiza. Os alicerces do filme são todos clássicos, desde o discurso (roteiro, mise-en-scène, montagem) até os discursos (Shakespeare, Cícero, Marco Aurélio). Mesmo os excessos ocorrem coerentemente no âmbito de regiões bem delimitadas. Tome-se como exemplo a extraordinária sequência no “Coliseu”. Apenas um criador com pleno conhecimento das possibilidades e dos limites de seu modelo narrativo conseguiria alinhavar de forma tão brilhante tantos e tão variados elementos que não só correm paralelamente como num crescendo estonteante e muito divertido. Apenas com tesoura e cola (não literalmente, claro), Coppola nos dá todas as informações necessárias acerca de cada um dos personagens principais, faz a história avançar e, ao mesmo tempo, insere uma lisergia capaz de comentar aquelas mesmas informações e criar sentidos ulteriores. Como se não bastasse, ele ainda coroa a sequência com o discurso mais célebre das “Catilinárias”, enunciado, é claro, por Cícero (Giancarlo Esposito) — “Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência…”. Tudo ali é primoroso.

As reverberações políticas e as metáforas acerca da criação artística em “Megalópolis” exigiriam outros textos. Aqui, limito-me a sublinhar a fala do banqueiro interpretado por Jon Voight (que ficou a cara da Judi Dench com aquele cabelinho): “América kaputt”. Antes, um de seus sobrinhos (Shia LaBeouff) berra para a massa enraivecida: “Vamos pegar o nosso país de volta!”. O problema é quando não há mais país algum para retomar.

Em “Megalópolis”, a cidade não é retomada, mas reimaginada e construída sobre novas bases. O filme tem um final feliz, condizente com tudo aquilo que eu procurei ressaltar acerca do jogo narrativo no qual se fia, cujas regras Coppola segue coerentemente do começo ao fim. Mas nada me afasta a impressão (corroborada por meus olhos) de que aquele bebê flutua no vazio.

(Sacaneei os cabelos do Voight, mas ele é uma das melhores coisas do filme. Todo o elenco está fenomenal.)

Após o fim, um recomeço

Com Búfalos selvagens, Ana Paula Maia encerra sua trilogia apocalíptica.

Resenha publicada no Estadão.

A “Trilogia do Fim” compreende os romances Enterrem seus mortos, De cada quinhentos uma alma e Búfalos selvagens, todos publicados pela Companhia das Letras. Neles, Ana Paula Maia trafega pelo interior de um mundo colapsado na companhia de Edgar Wilson, personagem recorrente em quase toda a ficção da autora, especialista em fazer o “trabalho sujo dos outros”: recolher carcaças em rodovias, abater animais em matadouros, lidar com a sujeirada do mundo. Como é dito em De gados e homens, romance de 2013 que antecipa o esgarçamento que observamos na “Trilogia do Fim”: “Alguém precisa fazer o trabalho sujo. O trabalho sujo dos outros. Ninguém quer fazer esse tipo de coisa. Pra isso Deus coloca no mundo tipos como eu e você”.

Mesmo em um ambiente degradado, no qual a escuridão “engoliu a Terra, levando-a para os abismos de um deus”, sempre há trabalho sujo a ser feito. Em Búfalos selvagens, reencontramos Edgar Wilson circulando pela estrada, recolhendo corpos de animais e levando-os para serem triturados. A impressão é de que o (ou um) fim do mundo veio e já passou, levando consigo nacos inteiros da realidade e dos personagens. O livro remete a acontecimentos da obra anterior, De cada quinhentos uma alma, como a pandemia não identificada que varreu o mundo: “Antes havia o silêncio, o desaparecimento dos vermes necrófagos e a iminência do fim de todas as coisas. Mas esse fim recaiu sobre a Terra como raios diluídos”. O que ocorreu, portanto, foi uma espécie de apocalipse parcial, do tipo que — ilusoriamente ou não — permite algum recomeço àqueles que sobreviveram.

E é nesse espírito que Edgar Wilson aceita o convite para voltar a trabalhar em um matadouro, ocupação que já tivera em De gados e homens. Mas, agora, em vez de gado, lidará com búfalos, ciente de que todos “seguem para a morte”, todos compartilham da “mesma angústia”, do “mesmo espectro das próprias trevas”. O cadáver de um palhaço na rodovia e o mistério que cerca a sua morte, a bizarrice das apresentações de um autoproclamado “Circo das Revelações”, no qual uma vidente oferece algum conforto à arraia-miúda (procure não se espantar com Boris, o galo), e uma confusão envolvendo a origem dos búfalos levados ao matadouro se misturam em uma narrativa no qual importam menos quaisquer peripécias e mais a rotina dos trabalhadores, por um lado, e as digressões, por outro. As intrigas comezinhas são resolvidas rapidamente, sem maiores pirotecnias, e o homicídio aponta para o mistério maior e inexplicado, relacionado à vidente.

Mas, claro, não há descanso. No recomeço ensaiado em Búfalos selvagens, quase tudo aponta para a morte: “Edgar Wilson precisa enterrar todos os mortos, ainda que aparentemente estejam vivos e andando sobre a terra. Ainda não é tempo de paz, ainda não é tempo de descansar”. É nesse sentido que o romance assume suas feições apocalípticas: todo fim enseja um recomeço, redentor ou não. Tal caráter é afirmado em mais de uma passagem, ainda que, em pelo menos em um caso, a ressurreição surja como uma piada impagavelmente doentia.

Por fim, há que se ressaltar a organicidade do projeto. Em uma rápida folheada de outros livros da autora, lemos: “Até os cães comem os próprios donos com lágrimas nos olhos” (Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos); “Olha comovido a pilha de carvão animal ao lado da pilha de carvão mineral. Não é possível identificar qual é mais negro. Se misturados, homens e fósseis se confundiriam” (Carvão animal); “Todos são matadores, cada um de uma espécie, executando sua função na linha de abate” (De gados e homens)”; “Ali vai o homem que sepulta os mortos no rio e que faz reviver um novo ser humano. A única maneira de nascer de novo é morrendo” (Enterre seus mortos). Na construção de seu inferno nada provisório, Ana Paula Maia ostenta exemplares domínio estilístico e clareza de propósitos.

Realidade tortuosa

Resenha publicada no Estadão em 03.06.2012.

Talvez você se lembre do escocês Irvine Welsh no filme Trainspotting. Naquela adaptação de seu romance de estreia, nós o víamos como Mikey Forrester, um traficantezinho que vendia supositórios de ópio para um Mark Renton (Ewan McGregor) desejoso de abandonar o vício em heroína sem sofrer demais no processo. Lendo Requentando repolhos (Rocco, trad.: Paulo Reis), coletânea de contos de Welsh recém-lançada no Brasil, não é difícil pensar naquele sujeito careca e barrigudo, a cabeça já um tanto avariada pela bebida e pelas drogas, errando por Leith, distrito de Edimburgo no qual se passa a maioria das histórias que compõem o livro.

À exceção da última delas, a dolorosamente esperançosa “Eu sou Miami”, são narrativas publicadas entre 1994 e 2000 em diversas antologias que, nas palavras do próprio autor, “exploravam as fraquezas dos escoceses ou o tema das drogas, dominantes na década de 1990, pelas quais assumo ao menos parte da culpa” e, em seguida, afirma sentir muito por isso. E a verdade é que alguns desses autoproclamados “contos de degeneração química” não agradarão aos leitores de estômago fraco.

Tomemos como exemplo “Falta em cima da linha”, que abre o volume. A exemplo dos dois contos subsequentes, ele é narrado em raivosa primeira pessoa por um cidadão de Leith beberrão, boca suja, machista, homofóbico e torcedor do Hibernian F.C., time local mais conhecido como Hibs. E é justamente em dia de embate dos Hibs contra o seu maior rival, o Heart of Midlothian (ou apenas Hearts), que a esposa do nosso herói o chama para passear com ela e o casal de filhos. Ele aceita, desde que estejam em casa a tempo de assistir ao jogo. A “linha” do título é a férrea, pois acontece de, quando estão voltando para casa e são instados pelo chefe de família a cortar caminho pelos trilhos, a mulher não atravessar a tempo, ser atingida por um trem expresso e ter as pernas arrancadas. Em meio ao horror da situação, com uma das crianças em estado de choque, a outra buscando nos trilhos os membros da mãe, a correria até o hospital, a única preocupação do protagonista é com o jogo que perderá.

Após três histórias narradas por vozes bem parecidas, Welsh pega o leitor no contrapé com “O incidente de Rosewell”, uma longa viagem envolvendo desde a juventude inerte e drogada de Edimburgo até uma invasão alienígena levada adiante por um torcedor dos Hibs abduzido anos antes. A habilidade com que Welsh estrutura um painel dos mais inusitados e sem recorrer gratuitamente à violência é o que mais chama a atenção. Parece haver uma compreensão maior desse tecido social esfarrapado. Antecipando certa ternura que externará no conto que fecha o volume, ele se permite um olhar cúmplice sobre personagens como Shelley, uma adolescente que sonha em se casar com Liam Gallagher, então vocalista da banda Oasis, enquanto se entrega por puro tédio a um frentista de posto de gasolina e, o que é pior, acaba engravidando dele. Folheando uma revista e fitando os olhos do ídolo numa fotografia, imaginando conseguir “ver um pouco da alma dele ali”, ela só consegue pensar sobre o estado em que se encontra de forma tortuosa: “Ela não sabia se manteria o bebê ou se o descartaria. Naturalmente que Liam também teria que ser consultado. Era justo”. Ainda que seja absurdo, o raciocínio não soa de todo patético em função do desespero mudo que enseja.

Acabamos envolvidos por essa humanidade torta que irrompe aqui e ali. Logo, é interessante notar como a brutalidade explícita dos primeiros contos aos poucos cede lugar àquela compreensão de que falamos há pouco. Não é que Welsh comece a se valer de sutilezas, mas é inegável a compaixão suscitada por um personagem como Collum, de “A festa”, tendo de lidar com a morte súbita por overdose de um amigo e, depois de (mal) resolvida a questão que se coloca (o que fazer com o corpo?), dizendo com enorme dificuldade: “Nós… vimos o Boaby… o Boaby… vimos o Boaby morrer… não devia ser assim, não devia ser como se nada tivesse acontecido…”. O mesmo esforço transparece em “Disputada”, no qual dois amigos brigam por uma mesma mulher que talvez nem queira ficar com nenhum deles, mas acabam se entendendo (ok, o ecstasy ajuda), e, sobretudo, em “Eu sou Miami”. Neste, um ex-professor viúvo e aposentado está em Miami visitando o filho. Ali, uma série de coincidências o coloca frente a frente com alguém que fora um de seus piores alunos, agora um DJ famoso.

A implausibilidade das coisas que se sucedem acaba por resultar em um reencontro do velho consigo mesmo e com os outros: “Ele ainda viu seu antigo professor sorrir, num agradecimento tímido, antes de se virar e sair caminhando, ainda trêmulo nos primeiros passos, mas, depois, como o velho soldado que era, marchando firme pelo jardim tropical, dando a volta na piscina”. Desse modo, e até pela forma inteligente como a coletânea foi organizada, Irvine Welsh permite que olhemos para esses personagens como se alguma coisa estivesse, sim, acontecendo. No caso, boa literatura.

Jünger, Céline

Artigo publicado no Estadão.

DA AMBIVALÊNCIA AO CINISMO
Obras de Jünger e Céline nos transportam à Primeira Guerra Mundial de formas genialmente distintas

A Primeira Guerra Mundial chegou ao fim há 106 anos, mas a sujidade das trincheiras e as explosões dos obuses ainda se fazem literariamente presentes: Tempestades de aço, clássico do alemão Ernst Jünger originalmente lançado em 1920 (quando a lembrança do conflito ainda fritava na memória das pessoas), acaba de ganhar uma reedição pela Carambaia, com tradução e posfácio de Marcelo Backes; e Guerra (Cia. das Letras), escrito no começo da década de 1930, mas só publicado na França em 2022, é um exemplar formidável (embora inacabado) da prosa do francês Louis-Ferdinand Céline, em tradução de Rosa Freire d’Aguiar. Falemos um pouco dos autores.

Céline, pseudônimo de Louis Ferdinand Auguste Destouches (1894-1961), niilista e femeeiro, é responsável por um dos maiores romances do século XX, o qual também parte de (mas não se limita às) suas experiências nas trincheiras: Viagem ao fim da noite. O manuscrito de Guerra foi roubado do apartamento de Céline ao final da Segunda Guerra, quando ele fugia dos aliados e da resistência francesa, pois publicara panfletos antissemitas e era citado com frequência pela imprensa colaboracionista. Prenderam-no na Dinamarca em dezembro de 1945. Solto em 1947 e obrigado a permanecer no país escandinavo, foi julgado e condenado in absentia na França, mas anistiado por ser um veterano da Primeira Guerra. Retornou ao país natal em 1951.

Jünger (1895-1998), filho de um empresário afluente, foi membro do movimento Wandervogel (anti-industrialista e teutônico até a medula) e, sedento por ação, chegou a se alistar na Legião Estrangeira, pelo que quase foi preso. Por “sorte”, veio a Primeira Guerra, ele se juntou às fileiras alemãs e, no decorrer do conflito, foi ferido mais de uma dezena de vezes. Suas experiências são brilhantemente narradas em Tempestades de aço. Durante a República de Weimar, seguiu militando contra valores liberais-democráticos, mas não se deixou seduzir por Hitler e cia. Em 1943, lotado como capitão do exército regular na Paris ocupada, escreveu o ensaio Der Friede (“A Paz”), no qual se coloca frontalmente contra o nazismo e advoga a criação de uma federação europeia que evitasse novos confrontos armados. Indiretamente implicado no atentado de 20 de julho de 1944 contra Hitler, acabou dispensado do exército. No mesmo ano, por razões também políticas, seu filho mais velho foi sentenciado ao “batalhão penal” e morreu em combate na Itália. Nas décadas subsequentes, Jünger viajou e escreveu bastante, aprofundou seu ideário individualista e conservador e experimentou drogas (sobretudo mescalina e LSD). Morreu aos 102 anos de idade.

Jünger e Céline são criaturas bem diferentes. Em Tempestades de aço, a guerra é descrita como uma experiência quase mística, em consonância com a natureza e apontando para a essência elusiva da existência (não por acaso, Heidegger foi um leitor atento de seu conterrâneo). Em Guerra, não há vestígios de quaisquer transcendências, tudo é carne, é “terra podre por todo lado”, e a prosa crua descreve a guerra e a vida como gratuitas e sem sentido.

O romance de Céline se passa em 1914 e não vai às trincheiras, por assim dizer: ferido, o narrador é levado para um hospital na retaguarda, onde lida com uma enfermeira licenciosa, a estupidez dos pais e um coleguinha militar que prostitui a própria esposa e acaba se estrepando em grande (e baixíssimo) estilo. Exemplos típicos da voz de Céline: “Peguei a guerra na minha cabeça. Ela está trancada na minha cabeça”; “Nunca vi ou ouvi alguma coisa tão nojenta quanto meu pai e minha mãe”; “Bater as botas, ainda é possível aceitar, mas o que esgota a poesia é tudo o que precede, toda a charcutaria, as futricarias, as torturações que precedem o soluço final. Portanto, é preciso ser bem breve ou bem rico”; “Em matéria de experiência, eu envelhecia um mês por semana. É no ritmo em que se deve ir para não ser fuzilado na guerra”.

Tempestades de aço se filia à tradição bélico-literária ocidental que, conforme aponta Marcelo Backes no posfácio, remonta à Ilíada de Homero. Mais do que uma invenção humana, a guerra é encarada como um fato incontornável da natureza. Jünger narra suas experiências no front, entre 1915 e 18, com sobriedade, mas não distanciamento. Fiel ao individualismo, ele deplora a mecanização do confronto — prefere o combate corpo a corpo, no qual se sobressai a destreza de cada soldado. O apego ao caráter imediato e fenomênico da coisa e a extrema elegância da prosa impedem que o livro seja facilmente rotulado: há quem o considere belicista, há quem o ache neutro e há até quem enxergue ali um teor antibelicista. O que importa é que o homem escrevia bem demais: “Ali imperava a grande dor, e pela primeira vez eu vislumbrava as profundezas de seu reino através de uma fresta demoníaca. E as explosões não paravam”; “A concentração monstruosa das forças na hora decisiva em que se lutava por um futuro distante e o desencadeamento que se seguiu a ela de modo tão surpreendente e abalador haviam me conduzido pela primeira vez às profundezas de regiões suprapessoais. Isso era diferente de tudo o que eu vivenciara até então; era uma iniciação que não apenas abria as câmaras incandescentes do horror, mas também as atravessava do princípio ao fim”.

O fato de Tempestades de aço ter sido escrito logo após o confronto contribui para o frescor e a ambivalência que tornam a obra atemporal. Em Guerra, redigido quase duas décadas após o fim da Grande Guerra, é justamente o distanciamento que ajuda a depurar a prosa cínica de Céline. Lidas em sequência, as obras são antagônicas e complementares, e ressaltam as violentas contradições inerentes a qualquer conflito armado e a qualquer indivíduo.

Siracusa

André de Leones | ficção

 

 

“Queria que Deus estivesse vivo pra ver isso.”
— Homer Simpson.

 

Era uma vez, e nem foi uma vez tão boa assim, foi uma vez horrível, na verdade, uma vez hedionda, fedorenta, bizarra, uma vez malcheirosa, uma vez com bodum de mertiolate e merda, era uma vez essa vez e, nessa vez que era uma vez, era uma vez um sujeito que ouvia vozes e esse sujeito que ouvia vozes pegou uma faca, e nem era uma faca tão boa assim, não, senhoras e senhores, de jeito nenhum, muito pelo contrário, era uma porcaria de faca, não era uma faca dessas que os soldados de elite usam nos filmes, não era a faca do Rambo em Rambo II, não era a faca do tenente-coronel John Matrix em Comando para matar, não era uma faca daquelas táticas, acho que é assim que eles chamam aquelas facas especiais, não era uma faca tática, com aquela lâmina fodástica e serrilhadinha num dos lados, o tipo de faca que você desatarraxa a tampa do cabo e tira uma bússola lá de dentro e se orienta assim no meio da selva ou do deserto ou das cavernas quando os inimigos estão bem próximos, porque os inimigos estão vindo e é melhor você ficar esperto, quase todo mundo tem inimigos, todo mundo que importa tem inimigos, uma pessoa sem inimigos é uma pessoa da qual é melhor desconfiar, até Jesus tinha inimigos, como Caifás, Caifás era um puta inimigo de Jesus, e Caifás era um tremendo cretino, na Mishná fazem um trocadilho com o nome dele e chamam o cretinão de “Ha-Koph”, “O Macaco”, uma boa pessoa com bons inimigos tem ou deveria ter uma boa faca, exceto Jesus, é claro, a posse de uma faca talvez zoasse a mensagem de Jesus, mas estou falando de pessoas normais, terrenas, como eu e os senhores e as senhoras, uma boa pessoa terrena e normal com bons inimigos terrenos e normais tem ou deveria ter uma boa faca, uma faca bacana, e a faca desse sujeito que ouvia vozes não era bacana, não mesmo, a faca que ele pegou era uma faca comum, e não era sequer uma faca muito afiada, porque uma faca pode ser comum e meio gasta, mas afiada, uma faca afiada ainda faz o que se espera dela, isto é, ela corta e perfura, é uma faca útil, uma boa faca, embora comum e meio gasta, mas a faca do sujeito que ouvia vozes era uma faca comum e meio gasta e meio cega, e além de tudo feia, era uma faca muito feia, do tipo que a pessoa sentiria vergonha de levar consigo a uma pescaria, os amigos com tralhas novinhas e facas especiais afiadíssimas, algumas delas táticas, os amigos olhando para aquela faca comum, meio gasta e meio cega, e além de tudo feia, olhando e julgando e rindo e sacaneando, que porra de faca é essa?, vai usar essa faquinha aí?, essa faquinha não abre nem lambari, que faca mais feia você tem, olha como é feia a faca dele, pode até parecer bobagem, mas as pessoas prestam muita atenção nas facas umas das outras, e as pessoas não fazem isso apenas no relaxado e amistoso e aprazível ambiente de uma pescaria, não, as pessoas estão sempre prestando atenção nas facas umas das outras, pois a faca diz muito do caráter do indivíduo, um indivíduo com uma faca comum e meio gasta e meio cega e além de tudo feia é um indivíduo comum e meio gasto e meio cego e além de tudo feio, ao menos de certa forma ou por assim dizer, não literalmente comum e meio gasto e meio cego e além de tudo feio, embora também possa ser, as pessoas estão sempre adiando aquela consulta com o oftalmo, por exemplo, dá uma certa preguiça dilatar a pupila, embora nem sempre a pupila seja dilatada, e assim ficam meio cegas, não é mesmo?, os óculos defasados relativamente ao avanço da miopia, do astigmatismo ou da hipermetropia, e talvez o sujeito que ouvia vozes e pegou a faca, esse sujeito comum e meio gasto e além de tudo feio, fosse também meio cego, porque ele pegou a faca e, ouvindo todas aquelas vozes ou talvez apenas uma voz, sim, podia ser o caso de uma só voz tonitruando dentro da cabeça dele, não são necessárias muitas vozes para enlouquecer alguém, basta uma voz para enlouquecer alguém, uma voz incansável e insistente e desagradável dizendo isso e aquilo, pedindo isso e aquilo, exigindo isso e aquilo, provocando e instigando, basta uma voz tonitruando dentro da cabeça do indivíduo para que tenhamos configurado um caso de loucura esquizofrênica assim bem psicótica, pois as pessoas costumam ou tendem a fazer coisas muito loucas, esquizofrênicas e assim bem psicóticas quando têm uma voz ou várias vozes tonitruando dentro da cabeça, uma voz que não é a voz da própria pessoa, bem entendido, pois estamos sempre ouvindo a nossa própria voz dentro da nossa respectiva cabeça, isso é o normal, o comum, até mesmo o saudável, eu diria, alguém que não ouve a própria voz dentro de sua respectiva cabeça precisa de ajuda médica e psicológica, pode apostar, não sou especialista, mas sei do que estou falando, o problema é quando outra voz ou outras vozes tonitruam dentro da nossa respectiva cabeça, porque essa outra voz ou essas outras vozes, quando tonitrua ou tonitruam dentro da nossa respectiva cabeça, elas nunca são agradáveis ou amistosas, elas nunca dizem coisas bacanas como o seu time será campeão, anota aí os números da Mega-Sena, não esquece de pegar as roupas no varal, acho que a sua vizinha ou o seu vizinho quer transar com você, e se a gente fizesse uma pausa e bebesse um uisquinho?, vou te ensinar a ganhar uma grana extra sem sair de casa, não se preocupe porque o tumor no seu intestino reto é benigno, nada disso, a voz ou as vozes quando tonitrua ou tonitruam dentro da nossa respectiva cabeça, porra, as vozes dizem coisas terríveis, coisas absurdas, coisas nojentas, coisas abjetas, coisas criminosas, as vozes não dizem ajude aquela velhinha a atravessar a rua, as vozes dizem pegue uma marreta e arrebente os joelhos daquela velhinha que quer atravessar a rua para que ela nunca mais atravesse uma rua no pouco que resta de sua vida miserável, as vozes não dizem ajude aquele senhor cego a passar pela catraca do metrô, as vozes dizem pegue uma agulha de crochê e fure os tímpanos daquele senhor cego para que além de cego ele também seja surdo, as vozes não dizem você engravidou a amiga da sua namorada e isso é muito muito feio e é melhor você fazer uma autocrítica violenta e sentir um arrependimento bem sincero e repensar suas atitudes canalhas e suas escolhas estúpidas e confessar tudo para a sua namorada e dizer que sente muito sou uma pessoa imatura boçal babaca irresponsável ao passo que você é uma pessoa madura bacanérrima responsável sensacional e merece alguém maduro bacanérrimo responsável sensacional alguém que não sou eu evidentemente e depois procurar a amiga da sua agora ex-namorada e se desculpar por tê-la embebedado naquele feriadão que vocês passaram na chácara de um parente seu e por ter esperado a sua namorada ir para a cama e por ter levado a amiga bêbada da sua então namorada para a despensa e por ter transado com a amiga bêbada da sua então namorada na despensa e não ter usado camisinha e ter gozado dentro embora ela pedisse especificamente que você não fizesse isso depois de perceber que você não usava camisinha coisa que aliás ela perguntou no começo se você tinha e você mentiu dizendo tenho sim não esquenta vou colocar você deve se desculpar por tudo isso e pedi-la em casamento mesmo que não goste muito dela porque uma criança precisa de um pai e sacrifícios às vezes são necessários, as vozes dizem você engravidou a amiga da sua namorada e é melhor não contar nada para a sua namorada a menos que você queira magoá-la e arruinar a vida dela e se for esse o caso se você quiser magoá-la e arruinar a vida dela conte tudo mesmo e diga que se foda eu também comi a prima da sua mãe e a porcaria da sua professora de pilates e as duas nem sabem chupar uma pica direito e quanto à amiga grávida da sua agora ex-namorada primeiro duvide que o filho seja seu e jogue na cara dela que ela é uma vadia que andou trepando com meio mundo é isso mesmo você não passa de uma piranha e depois encha o saco dela para que faça um aborto e quando ela chorar e pedir dinheiro para o procedimento diga a ela que procure outro otário com quem tenha trepado porque ela trepou com meio mundo você dirá mesmo que não seja verdade ou sobretudo se não for verdade você dirá é óbvio que o filho não é meu e ela se quiser que aborte por conta própria ou tenha a criança sozinha quem se importa e depois te processe e peça um exame de DNA e se for o caso isto é se por azar você for o pai da criança ela que exija uma pensão e que se foda, as vozes não dizem vá à igreja amanhã e confesse e se arrependa de seus pecados e comungue e se esforce para ser uma pessoa melhor, as vozes dizem ouça Burzum e queime uma igreja de preferência com pessoas lá dentro incluindo padres e freiras e o filho coroinha do seu vizinho, as vozes não dizem está vendo aquele candidato a um importante cargo público ele é uma má pessoa e você precisa conversar com as pessoas e argumentar com calma e mostrar que aquele candidato a um importante cargo público é uma má pessoa e é melhor votar em outro candidato que não seja tão má pessoa ou quem sabe anular o voto qualquer coisa é melhor do que votar naquele candidato má pessoa a um importante cargo público desde que o processo democrático seja respeitado e as pessoas possam discordar de forma civilizada e respeitosa, as vozes dizem pegue uma faca nem precisa ser uma boa faca nem precisa ser uma faca dessas que os soldados de elite usam nos filmes pode ser uma faca comum e meio gasta e meio cega e além de tudo feia pegue a porcaria dessa faca comum e meio gasta e meio cega e além de tudo feia e procure aquele candidato má pessoa a um importante cargo público e enfie a porcaria dessa faca comum e meio gasta e meio cega e além de tudo feia no bucho cheio de bosta e ruindade do candidato má pessoa a um importante cargo público enfie a faca com vontade faça isso agora e que se fodam as consequências mas aconteça o que acontecer seu louco desgraçado dos infernos que ouve vozes dentro da sua cabeça aconteça o que acontecer não se esqueça de girar a porcaria dessa faca comum e meio gasta e meio cega e além de tudo feia porque se você enfiar a porcaria dessa faca comum e meio gasta e meio cega e além de tudo feia no bucho cheio de bosta e ruindade do candidato má pessoa a um importante cargo público se você enfiar mas não girar a porcaria dessa faca comum e meio gasta e meio cega e além de tudo feia tudo isso terá sido em vão seu louco burro desgraçado dos infernos que ouve vozes dentro da sua cabeça em vão está me entendendo tudo isso terá sido em vão, porque era uma vez, e nem foi uma vez tão boa assim, foi uma vez horrível, na verdade, uma vez hedionda, fedorenta, bizarra, uma vez malcheirosa, uma vez com bodum de mertiolate e merda, era uma vez essa vez e, nessa vez que era uma vez, era uma vez um sujeito que ouvia vozes e esse sujeito que ouvia vozes pegou uma faca, e nem era uma faca tão boa assim, não, era a porcaria de uma faca comum e meio gasta e meio cega, e além de tudo feia, esse sujeito que ouvia vozes pegou essa faca e invadiu uma festinha muito pobre e muito fodida, uma festinha das mais molambentas, cheia de gente mal vestida, maquiada em excesso e ouvindo músicas sem noção, esse sujeito invadiu a porcaria dessa festinha, mas não matou ninguém, só cantou parabéns, comeu uma fatia de bolo, elogiou o bolo, fez uma coisa, agradeceu pela festa e foi embora, pois o sujeito ignorou as vozes, ignorou em parte, e, usando aquela faca comum e meio gasta e meio cega, e além de tudo feia, o sujeito, depois de comer e elogiar o bolo, mas antes de agradecer pela festa e dar o fora, o sujeito fez uma coisa, e essa coisa que ele fez foi sacar a faca comum e meio gasta e meio cega, e além de tudo feia, e fincar essa faca no chão e abrir os braços e, com lágrimas nos olhos, dizer: Eu podia estar roubando, eu podia estar matando, mas estou aqui pedindo a sua ajuda, me dê uns trocados, pode ser moedinha, pode ser vale-transporte, se é que ainda existe vale-transporte, faz muito tempo que não uso o transporte urbano coletivo, fiquei fora por uns tempos, internado em uma belíssima instituição, meus familiares me internaram nessa belíssima instituição para que as vozes que tonitruam dentro da minha cabeça parassem de tonitruar dentro da minha cabeça, e elas pararam por um tempo, foi muito bom, eu adorei ouvir apenas a minha própria voz dentro da minha cabeça, mas agora as outras vozes voltaram, isso talvez tenha a ver com as medicações que parei de tomar porque as medicações me deixavam brocha e me davam caganeiras terríveis, caganeiras épicas, a ausência de libido eu conseguia suportar, pois sou uma pessoa comum e meio gasta e meio cega, e além de tudo feia e maluca que ouve vozes, não é como se eu fosse sair por aí comendo uma mulher atrás da outra, mesmo mulheres comuns e meio gastas e meio cegas, e além de tudo feias, o mais provável é que eu só consiga comer alguém mediante um acerto financeiro prévio, daí eu estar aqui diante de vocês pedindo uns trocadinhos, eu podia estar roubando, eu podia estar matando, mas só quero uns trocadinhos para somar aos trocadinhos que já tenho e, quem sabe, mediante um acerto financeiro prévio, comer uma buceta após todos esses anos afastado do convívio social com as pessoas ditas funcionais ou saudáveis ou sei lá como se chama hoje em dia, pode ser quanto for, não importa, qualquer valor ajuda, qualquer ajuda é válida, estou aqui pedindo a sua ajuda para completar a mensalidade da academia porque eu quero comer a professora de pilates da minha namorada, não, brincadeira, não quero, não, aquela não sabe nem chupar uma pica direito, estou aqui pedindo a sua ajuda para comprar uma faca dessas que os soldados de elite usam nos filmes, tipo a faca do Rambo em Rambo II, tipo a faca do tenente-coronel John Matrix em Comando para matar, uma faca daquelas táticas, acho que é assim que eles chamam aquelas facas especiais, uma faca tática, com aquela lâmina fodástica e serrilhadinha num dos lados, o tipo de faca que você desatarraxa a tampa do cabo e tira uma bússola lá de dentro e se orienta assim no meio da selva ou do deserto ou das cavernas quando os inimigos estão bem próximos, porque os inimigos estão vindo e é melhor você ficar esperto, eu podia estar roubando, eu podia estar matando, mas estou aqui pedindo a sua ajuda, e que Deus te dê em dobro e te abençoe e abençoe toda a porra da sua família, amém, porque era uma vez, escuta só isso que vou contar para vocês, já estou terminando, senhor, pare de gritar, por favor, eu podia estar roubando, eu podia estar matando, mas só quero uns trocados e contar essa história para vocês, era uma vez, e nem foi uma vez tão boa assim, foi uma vez horrível, na verdade, uma vez hedionda, fedorenta, bizarra, uma vez malcheirosa, uma vez com bodum de mertiolate e merda, e essa vez foi uma vez tão ruim que acabou com todas as vezes, e a gente se estrepou, todo mundo se estrepou, eles me prenderam e me internaram, foi uma internação do tipo compulsória, por isso me dê uma ajudinha, me dê uma ajudinha para que eu possa procurar uma mulher, uma profissional da área que não sinta um nojo excessivo da minha pessoa, para que, mediante um acerto financeiro prévio, eu possa comer a buceta dessa mulher que não sinta um nojo excessivo da minha pessoa, pois, no momento, não estou ingerindo meus medicamentos e, por conseguinte, ostento esta irrefreável ereção e não passo por nenhum episódio de caganeira, me dê uns trocadinhos ou eu juro que pegarei essa faca que finquei aqui no chão, e vejam, percebam, não se trata de uma faca bacana, não se trata de uma faca tática, é uma faca comum e meio gasta e meio cega, e além de tudo feia, me dê uma ajuda ou eu juro que pegarei a porcaria dessa faca e enfiarei aqui no meu bucho, é, bem aqui, e não se esqueça de girar, seu louco desgraçado dos infernos que ouve vozes dentro da sua cabeça, eu sou uma voz dentro da sua cabeça, eu podia estar roubando, eu podia estar matando, mas só estou aqui falando dentro da sua cabeça, estou aqui implorando, não se esqueça de girar a porcaria da faca, e que Deus te abençoe e te dê em dobro, foda-se, obrigado pela festa, pessoal, o bolo estava mesmo uma delícia e eu realmente preciso comer a buceta de uma mulher profissional da área que não sinta um nojo excessivo da minha pessoa mediante um acerto financeiro prévio, então, por favor, que tal uns trocadinhos?

 

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[Imagem: Wojciech Fangor, nº 48 (1963, óleo sobre tela).]

“Discurso”

Acho que agora eu entendi tudo.

Se o livro é “urgente”, ele também é “importante”, ou seja, ele aborda “questões” que, também elas, são “importantes”. Em geral, quando o livro é “urgente”, ele é “urgente” na maneira como aborda (ou “ataca”) (ou “trata”) “questões” assim “importantes”.

Mas as expressões são intercambiáveis: é perfeitamente possível que um livro seja “importante” por atacar (ou “abordar”) “questões” assim “urgentes”, ou por abordar (ou “atacar”) essa ou aquela “questão” com toda a “urgência” que ela (“questão”) “exige”.

Não raro, a “urgência” com que uma “questão” assim “importante” é tratada (ou “abordada”) (ou “atacada”) também diz respeito à “crueza” desse mesmo tratamento (ou dessa mesma “abordagem”) (melhor não usar “ataque” aqui), sendo a “crueza” diretamente proporcional à “coragem” do(a) autor(a) na forma como aborda a supramencionada (e “importante”) “questão”.

Voltarei à “crueza” daqui a pouco. Agora, quero falar um pouco dos(as) autores(as).

Os(as) autores(as) são muito “corajosos”, “ousados” e “inventivos”. Eles(as) têm “vozes” assim muito “poderosas” e “potentes”, e suas “vozes” são sempre “únicas” (mas também “generosas”) e “atravessadas” pelas “tensões” do “real”.

Ah, sim: o “real”.

O “real” é “fragmentado” ou até “estilhaçado” (há muitas “tensões”), de tal forma que as “vozes” dos(as) autores(as) também são “fragmentadas” ou “estilhaçadas”, pois os(as) autores(as) “trafegam” pelo “real”. Não obstante seu “caráter fragmentário” ou seu “estilhaçamento”, o “real” é “trafegável”. Ou talvez “trafegáveis” sejam as “veredas da ficção” que “apontam” para o “real”. Mas, nesse “jogo” entre o “real” e a “ficção”, “o real sempre ganha fácil”, ainda que a ficção seja “importante” por (ou para) nos “ressituar” no “mundo” (que, por sua vez, é “real”, mas pode ser “ilusório”; depende).

E há o “corpo”, claro.

Há sempre o “corpo”, e ele “pulsa” com bastante “intensidade” nas páginas da “obra” (onde mais?), dada a “urgência” desta (“obra”) e das “questões” que ela (“obra”) “atravessa”. Sim, não nos esqueçamos de que a “obra” não só aborda, ataca, trata ou “endereça” (tinha me esquecido dessa) as tais “questões”, não, a “obra” também “atravessa” as tais “questões”. Melhor ainda: as “questões” é que são “atravessadas” pela “obra” ou (intercambialidade) a “obra” é que é “atravessada” pelas questões.

Tudo é “poroso”. A “porosidade” também é muito “importante”. E tudo é “líquido”, a começar pela “modernidade” e incluindo as “relações”. Que também são “fluídas”, a exemplo dos “gêneros”.

Mas eu falava da “crueza”.

Claro, por mais “incisiva” que seja, a “crueza” nem sempre é “imprescindível”, pois há também abordagens “sutis” (mas igualmente “poderosas” e/ou “potentes”) de “temas delicados”. A “sutileza” pode ser uma forma “madura” de “enfrentar” aquelas “questões” que, como todos sabemos, dada a sua “urgência”, são muito “importantes”.

Às vezes, há um “acerto de contas” com “questões” que não são apenas “importantes”, mas também “estruturais”.

E, sendo “estruturais”, as “questões” são ainda mais “urgentes”, e elas são tão “urgentes” por “sublinhar” (ou “devassar”) “tensões” que, por sua vez, são ou se tornaram “insustentáveis”, “ressignificando” (por exemplo) as “relações” dos nossos “corpos” com o “outro”, com o “mundo” e/ou com a “história” neles “inscrita” (ou “marcada”), pois o “corpo” é sempre “político”.

Eu ainda não falei das “fraturas”.

Para começo de conversa, “fraturas” são sempre “dolorosas” e “traumáticas”. E, sejam tais “fraturas” identificadas como “sociais” ou “existenciais” (e uma coisa está sempre ligada à outra), importa a forma “potente” com que elas (“fraturas”) são “expostas”, pois as melhores “fraturas”, como todos sabemos, são as “fraturas expostas”.

E haja “coragem” para lidar — de forma “crua” ou “sutil”, mas sempre “poderosa” e “potente” — com tais “feridas”, “fraturas”, “traumas”, “atravessamentos”, “tensões” e “urgências”, abordando (ou “endereçando”) “questões” tão “importantes”.

Sim, haja “coragem”.