Da palavra crua

João Gilberto Noll (1946-2017) “É o seguinte: eu sinto meus personagens como seres projetados do inconsciente para a tela. Como os pintores expressionistas, que costumavam projetar a tinta na tela, não preocupados de antemão com as significações daquilo. Se eu tiver alguma coisa a oferecer ao leitor, isso vem do fato de que eles – […]

A reserva como um raro talento (ou paixão)

(…) Sem querer, Sebastian se deu conta, com, talvez, uma espécie de desamparada surpresa (porque ele esperava da Inglaterra mais do que ela podia lhe dar), que por mais sábia e docemente que seu novo ambiente realizasse seus velhos sonhos, ele próprio, ou, melhor, a parte mais preciosa dele mesmo, permaneceria tão desesperançosamente sozinho como […]

À espera de Le Pen

Trecho de Ravelstein, de Saul Bellow: As coisas não chegam a acontecer se não acontecem em Paris, ou se Paris não fica sabendo. Aquela velha fornalha em erupção, Balzac, estabeleceu que isso era um princípio. O que Paris não havia examinado nem mesmo existia. É claro que Ravelstein conhecia demais o mundo moderno para concordar […]

Todos os dias, nós todos

Para a Kelly, meu riocorrente. Introibo. Para um estudo centrado no sexto capítulo do Ulysses de James Joyce (e no trecho correspondente da Odisseia de Homero), sugiro que leiam Hades, Glasnevin. Aqui, não me limito aos muros daquele cemitério, embora ainda esteja (em parte) preso à extensão do domínio da morte. 1. “Mamãe morrendo, volte.” May Joyce sofreu uma morte lenta, terrível. […]

Shosta

A arte pertence a todos e a ninguém. A arte pertence a todos os tempos e a nenhum tempo. A arte pertence aos que criam e aos que desfrutam. A arte não pertence ao Povo e ao Partido, assim como nunca pertenceu à aristocracia e aos patronos. A arte é o sussurro da história, ouvido […]

Auster etc.

Paul Auster completa 70 anos de idade hoje. A Trilogia de Nova York, A Invenção da Solidão e Leviatã (numa edição estourada da BestSeller que achei em um sebo na W3-Sul) foram muito importantes para mim quando, aos dezenove, vinte anos, vivia sozinho num barracão no Guará II, no DF, rascunhava meus primeiros contos, tinha um emprego de […]

Folhas secas

Leio nos diários de Wittgenstein (06/05/1931): “Em Brahms, as cores do som da orquestra são cores das marcações do caminho”. Antes, ele discorre sobre como Brahms “compunha com a pena”, ao passo que Bruckner (por exemplo) o fazia “com o ouvido interno & com uma ideia de orquestra tocando”. Wittgenstein pesca as características e antecipa os […]