Sobre ‘Cosmópolis’, de David Cronenberg.

Sobre ‘Cosmópolis’, de David Cronenberg.

::CABEÇA:: 
Sorri quando Cosmópolis começou e me deparei com a tela quadrada. O que seria aquilo? David Cronenberg classudão em todos os sentidos, desde a janela escolhida. Ele evita o formato scope para dar conta de um mundo em toda a sua estreiteza. Vastidão virtual não é vastidão. Cosmópolis, afinal de contas, é também um filme sobre especular no vazio.
Antes de vê-lo, foi ótimo reler o romance de Don DeLillo no qual se baseia. Não só reli como escrevi sobre o livro para o Blog do IMS. Mercado, capitalismo, globalização, nada disso interessa muito. Assim como DeLillo, Cronenberg me parece interessado no corpo.

::TRONCO::
Robert Pattinson é uma bela surpresa como Packer, o megaespeculador de vinte e oito anos que cruza Nova York em sua limusine para cortar o cabelo enquanto destroça o mercado financeiro numa série de manobras suicidas, apostando contra a moeda coreana (no livro, japonesa).
Ele está numa odisseia cuja Ítaca é o próprio corpo.
Packer fez fortuna movimentando-se por um mundo que está em todo lugar e em lugar nenhum. Abstração total. Números em telas. Logo, não há movimento real ali. Há códigos substituindo códigos.
Na trama, por alguma inquietação que não chega a ser explicada ou justificada (no mau sentido dos termos), ele inicia e dá prosseguimento a um movimento no sentido de recuperar a única coisa que lhe é tangível, real — o próprio corpo.
Falar com as pessoas, fodê-las, matá-las, lançar-se sozinho na cidade, debater-se inconclusivamente com alguém desgraçadamente real (porque invisível aos outros, como qualquer pessoa normal) e o tiro com que presenteia a própria mão a certa altura me parecem elementos desse movimento.
Há um crescendo aí.
São elementos importantes no reencarne do personagem. Buscar e encontrar o próprio corpo. Obliterar a abstração. Reencetar a carne, abraçá-la e ser abraçado por ela.

::MEMBROS::
David Cronenberg está, portanto, em terreno conhecido.
Videodrome, A Mosca, Gêmeos – Mórbida Semelhança, Crash (não confundir com o lixo ganhador do Oscar, por favor), eXistenZ, Senhores do Crime e Um Método Perigoso são filmes orientados para o corpo, de uma forma ou de outra.
Mesmo em eXistenZ, o jogo, isto é, a virtualidade só é possível se conectada ao corpo e a partir do momento em que interage diretamente com seus apetites mais básicos, primários. E, em Crash, os acidentes autoinfligidos e as ferragens automobilísticas têm a mesma função: são plataformas ou vias de acesso à fisicalidade.
Em Cosmópolis, o corpo é o que há. A carne é o que há. Todo o resto, amor, dinheiro, a própria cidade, o outro, todo o resto é incidental ou, no limite, irreal. O corpo, em princípio, é só o que temos. Se não estamos nele, não estamos em lugar nenhum. Se não estamos nele, não podemos ver, tocar, estar no outro. Se não estamos nele, não existimos. Não somos.
Cosmopólis é sobre alguém que passa a existir e toda a violência inerente a isso.

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Acontece com todo mundo, o tempo todo.

Trecho do meu romance
Como desaparecer completamente
[Rocco, 2010].

Minha primeira namorada: Cecília.
Vizinhas, famílias vizinhas. Crescendo juntas. Todo mundo, depois de um certo tempo, ora, todo mundo sabia. Mas, claro, não se comentava. As meninas trancadas no quarto. As meninas o tempo todo juntas. As meninas, tão amigas. Dezoito anos. Claro, uma relação aberta. Mas 18 anos. No que a piada, ela pensa e começa a rir no meio da rua, a piada, corretíssima: dykes não têm casos, não ficam, não enrolam, não; dykes se casam.
As famílias em suas respectivas salas, em seus respectivos sofás, diante de seus respectivos aparelhos de televisão, não comentando. Filhas únicas. Tomando todo o cuidado do mundo para não comentar.
Não.
Não as famílias. A família de Cecília, apenas. Porque a família de Augusta: ela e a mãe, e só. A mãe, mesmo não comentando, jamais as censurou. Um outro tipo de silêncio. Um silêncio que não machucava, diferente do silêncio dos pais de Cecília. O silêncio confortável de sua mãe contraposto ao silêncio áspero, pontiagudo, dos pais de Cecília.
Completaram 18 e foram morar juntas. Não têm casos, não ficam, não. Casadas, sim. Uma relação aberta, mas Cecília advertia:
“Com quem você quiser, menos com homens, por favor.”
Sem problemas. Nunca teve mesmo (muito) interesse. Ou curiosidade. Tão amigas. Até que a morte as separe. Quase vinte anos sob o mesmo teto, dos 18 aos 36, e, antes, quando eles não comentavam, dois anos de educação lesboafetiva. Até que.
Ora, não era para sempre? Como você pôde?
Cecília naquele quarto, naquela cama. Martirizada, feito o quê? Uma santa. Dizendo pouco antes de:
“Acontece com todo mundo.”
E aconteceu com ela, Cecília.
“O tempo todo.”
Nosso primeiro beijo, pensa: Foi bom.
Nosso último beijo, pensa: Foi só meu.
O primeiro beijo foi na pré-escola, as tias assustadas, irritadas, não sabendo o que fazer. Dizendo:
“Não pode, não. Vocês duas, menininhas. Não pode beijar na boca, não. Ouviram? Não pode, viu? É feio.”
Ela e Cecília, de mãos dadas:
“Sim, entendemos.”
O primeiro beijo, mas e o último?
O último, ela pensa: O último foi só meu.
Aquele barulho estranho, o traço no monitor e o médico entrando esbaforido e fazendo o possível, estão sempre fazendo o possível, e dizendo em seguida:
“Fizemos o possível. Sinto muito.”
Ela então se abaixou e colou os seus lábios nos de Cecília:
“Adeus, mulher.”
Acontece com todo mundo. O tempo todo. Mesmo quando fazem o possível. Mesmo com todos eles fazendo o possível, acontece.

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A constante lembrança do vazio.

1. O romance Quiçá, de Luisa Geisler, é um enorme apartamento vazio (exceto, talvez, por uma televisão (Full HD, conexão à Internet, com 3D, 52 polegadas)) por onde circulam Arthur e Clarissa. É, também, a ideia de uma cidade, Distante, de onde veio Arthur e para onde talvez voltará.

2. Distante é, parece ser, uma cidade repleta de casas vazias.

3. Quiçá é um romance ancorado no vazio. No vazio familiar, sobretudo. Mas também no vazio do consumo (sem didatismos, sem panfletagens, sem ideologismos, sem babaquices, em suma), no vazio escolar, no vazio profissional (os pais de Clarissa trabalham o tempo todo, estão sempre fora, ausentes) (o que Arthur será na vida?).

4. (Aquele apartamento vazio.)

5. Há três ambientes narrativos: o ano em que Arthur, o primo suicida e desajustado, dezoito anos, vai morar com Clarissa, onze anos, e os pais workaholics dela, Augusto e Lorena, na capital, como um favor, uma concessão, um gesto de caridade, uma (mais uma) hipocrisia familiar; um interminável almoço de Natal ao fim daquele ano, no interior, família reunida, o horror, o horror; nos intervalos, pequenas histórias, citações, anúncios (PRECISA-SE DE CHAPISTA), chistes e lindezas como “Algum dia — ela me olhava, eu sabia que ela ia chorar –, um dia, você vai sentir saudade de hoje”.

6. (          )

7. Família, claro. E um segredo jogado lá para o final, para além. Para . Mas o eixo é mesmo a relação entre os primos, a menina certinha, solitária, e o cara desajustado, poeira e cigarros e tatuagens, bebedeiras, garotas, e o que a menina vê? Ela vê o que ninguém mais vê, isto é, o outro ali do lado, junto dela, Arthur, e Arthur a vê, claro, o sujeito perdido, fodido, olhando para ela, falando com ela, vivendo com ela, às vezes odiado, às vezes adorado, mas sempre sentido por ela.

8. Linda a construção dessa amizade enquanto os céus escurecem e não há mais ninguém por ali.

9. O livro começa na estrada e termina com a promessa ou ameaça ou sensação de que “logo será hora de ir”. Entre uma coisa e outra, os estilhaços, o tecido familiar apodrecido, as risadas gravadas de um sitcom assombrando horas e horas de espera por mais do mesmo, ausências, suor, cheiro de suor, cigarros, cheiro de cigarros e a constante lembrança dos que ficaram, dos que irão, daquele que tentou ir, daquele que voltará.

10. A constante lembrança do vazio, em suma.

11. Finamente construído, algo como uma “louça com rachaduras expandidas”, em que tudo se quebra, mas nada se separa de fato, Quiçá tem a maturidade de sugerir que o único deslocamento possível é aquele feito em direção ao outro, esteja ele lá ou não. Importa tentar alcançá-lo. Importa estar ali, ainda que só por um momento.

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"O que é que eu tenho que procurar?"

Fuçando na papelada que abarrota a minha vida, encontro uma pasta com diversas versões de Aneurisma. Ali no meio, um punhado de folhas manuscritas, os primeiros rascunhos dessa que é a coisa que mais me apetece ter escrito até hoje. Aneurisma é uma novela publicada em meu segundo livro, Paz na Terra Entre os Monstros. Abaixo, um trecho do que presumo ser a versão que está no livro (não tenho um exemplar aqui para comparar). Futuramente, se assim me permitirem, pretendo relançá-la em livro-solo.

As imagens são pobres, muito pobres, mas o efeito é atingido. Ou não. De uma forma ou de outra: como se a cabeça se despregasse ou se desprendesse do corpo, caísse e quicasse uma duas três vezes e voltasse invertida para o lugar e assim se reencaixasse.
Ou como se uma marreta acertasse o alto da cabeça.
Ou uma bola de boliche.
Ou não, nada disso.
Assim: ele estava em pé ajeitando uns livros quando desmaiou. Um apagar-se geral, imediato, de todo. Desmontou sobre o tapete da sala, diante da estante que organizava, numa tarde de sexta-feira. Tinha acabado de almoçar, estava sozinho em casa e decidira tentar uma reorganização da estante abarrotada ao procurar em vão por um volume destroçado, de capa arrancada e repleto de anotações nas margens, de O Castelo. Um volume comprado em banca de jornal por uma ninharia e que o acompanhara desde o fim da adolescência. No momento em que terminou de recolocar na estante um exemplar de Vineland, apagou. Vinha, é verdade, sentindo dores de cabeça as quais caracterizava como “engraçadas”. Sentava-se, por exemplo, à mesa para jantar e comentava com ela que Estou com uma dor de cabeça engraçada. Engraçado para ela, no caso, era ele dizer que sentia uma “dor de cabeça engraçada” sem esboçar o menor ou o mais débil sorriso. Tampouco ocorreu a ela pedir a ele que caracterizasse uma “dor de cabeça engraçada”. Nada, pelo visto, que o fizesse rir.
Acordou estatelado no tapete, esvaziado. Nenhuma dor, nenhum pensamento. Como acordar em uma tarde nublada de quarta-feira útil no meio de imerecidas e improvisadas e fatalmente tediosas férias extemporâneas. Levantou-se, foi ao banheiro, enxaguou o rosto e, no quarto, ligou para ela. Acho que desmaiei, foi o que disse, o elmo cheio de quê?
Quando ela chegou, previsivelmente esbaforida e preocupada, tudo o que ele conseguia dizer eram coisas desconexas sobre um exemplar perdido de O Castelo. Ela aludiu às dores de cabeça e ele disse que sim, que a cabeça doía no momento em que apagou, mas a cabeça doía quase que o tempo todo, e que tinha procurado por um velho exemplar de O Castelo sem encontrá-lo, e que por isso resolvera dar uma organizada na estante. Está uma bagunça desgraçada. Você precisa ver.
Ajoelhada diante dele, buscava os seus olhos e só encontrava aquele fiapo de voz e aquelas frases soltas, libérrimas, sobre exemplares perdidos, bagunças desgraçadas e dores de cabeça engraçadas. Nenhuma narrativa coesa, estruturada, racional, sobre o que acontecera. Ele desmaiou. Ele estava arrumando a estante e desmaiou. Tendo acordado, me ligou. Eu vim correndo. Eu estou aqui. Mas e ele? Onde ele se meteu? O que fizeram com ele? Não, ele está aqui. Sentado na cama. Repetindo coisas sobre coisas banais. Não entendo. Ele tampouco parece entender coisa alguma. Bateu com a cabeça? Eu bati com a cabeça? Os olhos dele, ele não me olha nos olhos. Ele sempre me olha nos olhos. Mesmo quando eu não quero, quando eu não preciso, ele me olha nos, direto nos olhos. Mas agora ele foge. Ele não está aqui. Onde ele está? Livros. Ele fala de livros.
Está doendo agora? ela perguntou ainda ajoelhada diante dele, ele ainda sentado na beira da cama. Não sei. Acho que não. Ela suspirou, impaciente. Não sabia o que pensar. E ele: Uma bagunça desgraçada. Pára de falar dessa porra de estante! ela berrou, levantando-se, e saiu do quarto. Voltou em seguida, folheando o Grande Livro Azul do Plano de Saúde. Fez isso por quase dois minutos, até encará-lo completamente perdida: O que é que eu tenho que procurar?
Foi quando ele, mais do que nunca esvaziado, ele sorriu.

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Terra à vista.

Hoje, após acidentados três anos e dois meses de trabalho, terminei de escrever Terra de casas vazias. É o meu quarto romance. Tão logo o terminei, vasculhei minhas tralhas em busca do caderno Tilibra Opus no qual, em 24 de maio de 2009, em um hostel hierosolimita, rascunhei as primeiras páginas. O título já estava lá, bem como a vontade de situar parte da narrativa ali em Jerusalém.

Já escrevi um pouco sobre o processo de escrita bem AQUI e não vem ao caso repetir o que quer que seja. Só quero registrar a alegria que sinto neste momento. Uma alegria repleta de cansaço: nunca foi tão difícil escrever um livro. Não sei se é melhor ou pior do que os outros, e acho que nem cabe a mim dizer. Sei que é diferente, bem mais contido, mais ambicioso (ou pretensioso). Maior. Chegou a beirar as quatrocentas páginas. Na revisão final, cortei quase cem. O livro restou mais leve. Eu também.

Inevitável, agora, pensar como os últimos trinta e oito meses voaram. Coisas maravilhosas aconteceram. Retoquei e lancei dois livros que dava como enterrados. Encontrei uma editora que acredita e investe no meu trabalho. Aos poucos, estruturo uma vida em São Paulo. Voltei a estudar. Trabalho como nunca.

Coincidentemente ou não, Terra de casas vazias é um romance sobre personagens que buscam se reestruturar. Ainda que o desfecho não ofereça a eles uma segurança maior, um desenlace real, a certeza de ter chegado a algum lugar, qualquer que seja, gosto de pensar que o simples fato de vários deles se deslocarem já constitui algo importante. Eles não terminam “melhores” do que antes, não “superam” o que quer que seja, mas, por breves instantes (cada um tem o seu, ainda que eventualmente não se deem conta), saboreiam uma paz que, embora precária como todo o resto, lhes permite seguir viagem.

E é o que farei agora, a propósito: seguirei viagem. Terra de casas vazias será lançado em 2013 pela Editora Rocco.

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Anotações sobre o tema 'Escritas da Finitude' (Flip#2012).

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Dentes negros é um livro impulsionado para o fim. Talvez por isso seja tão breve.

A ideia era criar uma narrativa enamorada pela finitude. Um ideal de concisão que pressupõe, circunscreve e desenvolve o tema. Tenho para mim que romances apocalípticos devem ser breves. Não se tergiversa, não se digressiona demais diante do abismo.

(Ou enquanto despencamos nele.)

Todo romance apocalíptico não o é até as últimas consequências. Porque sempre há uma catástrofe, claro, mas há, também, o que sobrevive a ela, ainda que só por um tempo. Um romance efetivamente apocalíptico seria uma sucessão interminável de descrições de paisagens livres de seres humanos. Uma exposição interminável de naturezas mortas. Em Dentes negros, apenas as fotografias de Lívia Ramirez são, de fato, apocalípticas: não há figuras humanas nelas.

Elas, sim, sugerem com precisão a calmaria final.

A morte está presente em quase tudo o que escrevi. Em Hoje está um dia morto, está o anular-se. Alguns conhecidos meus cometeram suicídio. Então, logo tive contato com alguns questionamentos, por assim dizer, imbuídos de uma certa gravidade. Lembro de estar no velório de alguém e pensar que as pessoas ao redor, quando era o caso (a maioria não se arriscava), insistiam nas perguntas erradas. Elas se perguntavam: “Por que ele fez isso? Por que fazer uma coisa dessas?”. Com assombro, eu me peguei pensando: “Mas por que não?”.

Cresceu a necessidade não de me matar, mas de escrever algo a partir desse assombro.

Hoje está um dia morto oferece duas vias: a primeira delas é a da autoanulação; a segunda, impulsionada pela autoanulação do outro, escrever sobre ela justamente para evitar a própria. Gosto de pensar que isso é o mais próximo que eu poderia chegar da autoajuda.

A literatura não salva, mas adia o inevitável. E nos distrai.

Mais do que uma distração, a literatura oferece uma visada do abismo, um passeio pelas suas imediações, a possibilidade de olhar para baixo e, vendo o que há (nada), conversar um pouco a respeito.

Porque é sempre assombroso constatar que não há nada lá.

Ao mesmo tempo, no que constatamos não haver nada lá embaixo, no fundo do abismo, nós nos sentimos livres para procurar por algo aqui em cima, por mais transitório, efêmero e pueril que seja.

É disso também que trata o final feliz de Dentes negros.

Lembro de sorrir quando isso me ocorreu: meu romance apocalíptico terá um final feliz. A felicidade, nele, reside no fato de dois personagens, tendo contemplado o abismo, voltarem os olhos aqui para cima e conseguirem, ainda e apesar de tudo, enxergar o outro.

Experimentar a finitude e abrir os olhos para a transitoriedade.

Quase todos nós temos problemas para enxergar as coisas dessa forma. Eu mesmo tenho. Fui educado em colégio católico, meus pais são espíritas. O cristianismo, herdeiro direto do platonismo mais rasteiro, fala da transitoriedade da vida terrena, mas em vista de um outro plano, estável, perene, onde a salvação ou a danação terão lugar.

A literatura fala da transitoriedade, mas em vista do abismo.

Uma escrita da finitude é, para mim, uma escrita impulsionada por essa consciência da transitoriedade. Na medida em que não possuo, em meu material genético, nada que se assemelhe àquele gene da fé (se é que tal coisa existe) e, assim, não enxergo um princípio ordenador para além ou aquém do mundo sensível e imediato, busco fazer algo de que gosto enquanto não me esfarelo e, mais do que isso, algo que dê conta ou, pelo menos, gire em torno do próprio esfarelar-se.

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Silenciosa e tranquila terra de casas vazias.

Excerto de Terra de casas vazias, meu romancemprogresso.

Garoava quando Teresa deixou o prédio. A visão através das lentes dos óculos escuros impossibilitada em questão de segundos, o mundo mais e mais embaçado e disforme. Esperou até que tudo se transformasse em um borrão para só então tirar os óculos e encaixá-los na blusa, junto ao pescoço. Não precisava deles, na verdade. O dia tão escuro. Em seguida, cobriu a cabeça com o capuz, colocou as mãos nos bolsos da blusa de moletom e saiu pela calçada. Uma adolescente cabulando aula, vagabundeando. Dia útil para os outros, não para mim. Seus passos eram incertos, como se tivesse bebido um pouco, e caminhava olhando para o chão, com medo de tropeçar no pavimento cheio de buracos, rachaduras, poças d’água, entulhos. Estava agora a favor do vento, o que não era ruim. O vento investia contra as suas costas e era como se a empurrasse. (Veja: sem raízes aqui.) À sua esquerda, do outro lado da rua, as árvores do parque ainda se dobravam. Lembravam pessoas se alongando antes de correr num dia ensolarado. Evitou olhar para as árvores. A mesma sensação desoladora que tivera ao observá-las pela janela da sala, de que elas migrariam a qualquer momento. Não queria vê-las indo embora. Ou talvez elas apenas se dobrassem até quebrar. (Tudo se dobra e vem ao chão num estrondo, de um jeito ou de outro, mais cedo ou mais tarde.) Não queria vê-las se dobrando até quebrar. Não queria ver nada, mas um trecho menos acidentado da calçada permitiu que levantasse a cabeça. A cidade ao redor como que interditada, ninguém à vista. O cenário desolado de um filme apocalíptico. O mundo acabou: agora, podemos viver. Mas não havia ruínas. Os prédios inteiros se repetindo a distâncias regulares. Brasília, ora essa. Tudo em Brasília se repete a distâncias regulares. Fim do mundo, mas um apocalipse higiênico que extinguisse a vida humana, não as edificações. Os apartamentos todos vazios, como os de um prédio terminado e nunca inaugurado. Silenciosa e tranquila terra de casas vazias. Por alguma razão, isso lhe pareceu justo. Deus estalando os dedos e desaparecendo os seres, mas deixando os prédios intactos: concreto deiforme. Justo e agradável, sim. Glória a Deus nas alturas. . Ao Senhor, que matou o próprio Filho e também o meu. Também o meu. Respirou fundo. Não se sentiu melhor. Qual é a porra do Seu problema? Arrancando os filhos de suas mães. Disseram a ela que não pensasse nisso. Não pensasse nessas coisas. Não pensasse. Todos, sem exceção. Mas, como não? Quando a falta é o que há. Quando tudo se reduz à ausência. Creio Em Deus Pai Todo-Poderoso Criador Do Céu E Da Terra E Em Jesus Cristo Seu Filho Unigênito Nosso Senhor etc. Seu Filho Unigênito. Tenta não pensar nisso, disseram. É difícil, quase impossível. Mas tenta. Para não enlouquecer. Para se recompor. Para seguir em frente. Você e Arthur. Ele precisa de você. Que infantil, ela pensou. Tudo, tudo isso. Do começo ao fim, afora e adentro. Pensar ou não pensar, seguir em frente ou não. Que besteira, que.
Tropeçou.
Uma rachadura na calçada, o tropeço e ela caindo de joelhos, as duas mãos ainda nos bolsos. Soltou um gemido, a boca mal se abrindo. Não deu com a testa no chão por muito pouco. Levantou-se com dificuldade. Dois pequenos rasgos nas calças, os joelhos agora poderiam enxergar o que estivesse à frente. Dois olhos vermelhos bem no meio das pernas. O moletom preto, quase não se percebia. Algumas lágrimas rolaram, poucas. Mais pelo susto. Esperou um pouco, que o tremor nas pernas passasse. Então, seguiu viagem, mais do que nunca concentrada no chão.

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No intervalo doloroso.

[Trecho de Terra de casas vazias, meu romancemprogresso.]

Não demorou para que o desconforto de Camila fizesse com que Aureliano se cansasse de olhar para ela; sentou-se em uma das cadeiras que estavam junto à cama, as pernas afastadas, a mão direita sobre o joelho direito, a esquerda sobre o esquerdo. Não conseguia olhar para ela por muito tempo, mas que outra coisa havia para se ver ali? O quarto era um caixote branco dentro de um caixote branco maior, e esse caixote branco maior era quase infinito se imaginado dali de dentro, de um dos inúmeros caixotes menores. Cada parede branca, impassível, parecia refletir a parede defronte, e elas se repetiam monotonamente no decorrer daquele útero albino repleto de corredores que ligavam os caixotes menores sem, contudo, a imprevisibilidade de um labirinto ou de uma casa de espelhos: afinal de contas, as pessoas presas às camas estavam ali para ser encontradas.
Aureliano fitou o naco de parede entre a cama na qual estava Camila e a janela. Comparou o branco da parede com o dos joelhos da mulher, expostos. Não era mais propriamente branco, o dos joelhos dela, do corpo inteiro dela, mas algo esmaecido, desiluminado ou em processo de apagamento. A doença como que adoecia também o branco daquele corpo, corrompia de maneira sutil a sua brancura, aos poucos, mas inexoravelmente. As paredes, não: em seu branco-coisa, impassível, as paredes permaneceriam de pé por muito mais tempo. O branco da parede pareceu a Aureliano muito mais palpável que o do corpo de Camila, de suas pernas ali esticadas. O branco de uma parede contraposto ao branco de um fantasma, ou quase. É por isso que fantasmas conseguem atravessar paredes, ele pensou, e morrer também é isso, um apagamento, perder a cor aos poucos, o corpo esfarelando até que consiga atravessar uma parede, o teto, até que consiga atravessar. Fechou os olhos e se viu tentando desesperadamente segurar as pernas de Camila para que ela não fosse, não atravessasse, mas suas mãos não agarravam nada, ela já não tinha cor, não tinha corpo, as mãos dele riscavam o vazio. Sentiu raiva. Nas paredes eu confio. No branco delas. Sólido, concreto. Camila flutuava, seu branco esmaecido, esvaziado, confundindo-se com o branco tangível do teto.
Atravessou.
Foi embora.
— No que você está pensando?
Abriu os olhos. Ela o encarava, assustada. A mão direita veio até seu rosto e o acariciou fracamente. Quase não sentiu o toque. Ela já começara a desaparecer, a intangibilizar-se. Onde é que você está? Entre aqui e lá, ou nem lá e nem aqui. No intervalo doloroso. Em algum lugar-nenhum.
— Ainda não acabou — ele a ouviu dizer. — Você precisa se acalmar. Eu preciso que você se acalme. Ainda não acabou.

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Oroboro.

No final de 2010, fui contemplado com uma bolsa do Programa Petrobrás Cultural por conta de meu romance (ainda em progresso) “Terra de casas vazias”. Ele provavelmente será lançado pela Rocco em meados do ano que vem.

Uma das contrapartidas para justificar a grana que venho recebendo para escrevê-lo é divulgar alguns trechos aqui no blog e também falar um pouco sobre o tal do processo criativo. São coisas que eu faria (no caso dos trechos, venho fazendo) independentemente do contrato de patrocínio que assinei, mas não custa nada oficializar o troço.

Comecei a esboçar esse romance lá em Jerusalém, em maio de 2009, e venho trabalhando nele desde então, com interrupções (para revisar “Como desaparecer completamente“, romance lançado pela Rocco em 2010, escrever alguns contos, uma peça teatral que foi encenada em 2011 e, claro, dar conta de algumas resenhas e outros trabalhos).

Tenho aqui um caderno Tilibra Opus, capa vermelha, com as primeiras páginas que rascunhei. O título e a epígrafe ficaram, bem como a vontade de situar parte da narrativa em Jerusalém. O resto mudou e vem mudando um bocado, como não poderia deixar de ser, ainda que o projeto original permaneça inalterado.

Um romance bem disperso no tempo (1986, 2007, 2009) e no espaço (Brasília, Silvânia, São Paulo, Jerusalém, Goiânia), com um bom número de personagens errando por aí. Não, não consigo fazer uma descrição menos cretina, por mais que eu tenha em mente que qualquer romance possa ser descrito mais ou menos desse jeito.

Há um assessor parlamentar e a esposa viajando para Jerusalém a fim de superar uma perda recente, um policial lidando com casos que nunca se resolvem ou se resolvem sozinhos, à sua revelia, uma garota ensaiando uma jogada no melhor estilo Richthofen, um marujo irlandês seduzindo uma coroa goianiense, enfim, uma pequena multidão se acotovelando pelo livro afora.

Se me perguntarem, consigo identificar claramente as razões pelas quais escrevi todos os meus livros até aqui. “Hoje está um dia morto” é a reação visceral e previsível aos meus anos de (de)formação no interior. “Aneurisma” (novela que fecha “Paz na terra entre os monstros”) nasceu de uma vontade consciente de brincar com a metalinguagem, essa coisa tão 2006. “Como desaparecer completamente” foi uma encomenda. E “Dentes negros“, a minha tentativa de escrever um romance de gênero (ou subgênero, tanto faz).

Não consigo situar “Terra de casas vazias”, e isso é meio desesperador. Mesmo assim (ou justamente por isso), sigo escrevendo meio que no escuro, levando as histórias que surgem até onde é possível ou aceitável ou, em alguns casos, suportável levá-las.

Você pode ler trechos de “Terra de casas vazias” clicando AQUI, AQUI e AQUI. Mas, claro, encare como rascunhos, work in progress.