Jerusalém é branca.

Jerusalém é branca.

Trecho do meu romancemprogresso.

No dia em que aterrissaram em Tel Aviv, depois de um rápido interrogatório no aeroporto, receberam os vistos e rumaram para Jerusalém. Sonolento, Arthur viu através da janela do monit sherut uma cidade limpa, esvaziada (era tarde), em que avenidas largas davam lugar a ruas estreitas à medida que o motorista manobrava para deixar os diversos passageiros, as construções iguais constituídas pelos mesmos grandes blocos creme-cromáticos; não parecia real, ou talvez fossem o sono e o cansaço, as coisas como que descoladas umas das outras, os prédios descolados do chão, o próprio asfalto das ruas descolado do chão, a cidade descolada do mundo — tudo separado do resto, atirado ao vazio da mesma forma como Ben Gurion fizera com suas pernas ao posar para aquela fotografia. Arthur fechou os olhos por um instante, pensando que, talvez, nada definisse melhor Jerusalém do que essa ideia ou imagem de uma cidade-bolha flutuando indefinidamente, perdida numa espécie de vácuo a-histórico fadado a eternas e, desgraçadamente, nunca monótonas — porque sangrentas, caóticas — repetições.
Chegaram exaustos ao hostel e, depois de fazer o check-in e acomodar as bagagens no quarto, só tiveram forças para atravessar a Jaffa e comer um sanduíche no Burger King e beber algumas cervejas sentados a uma mesa no calçadão da Ben Yehuda. Teresa quis comer um falafel, mas Arthur disse que era melhor não comer nada de muito diferente naquela primeira noite. De volta ao quarto, fecharam as cortinas, ligaram o ventilador e dormiram inteiramente vestidos, como se talvez precisassem fugir dali a qualquer momento, no meio da noite.
Não fugiram, claro.
Acordaram cedo, com o barulho do trânsito e das obras, e resolveram que o primeiro lugar a visitar seria a Cidade Velha. Estavam a um quilômetro do Portão Jaffa. Caminhando pela calçada, esbarrando em soldados, turistas, judeus e judias ultraortodoxos, haredim, e crianças em meio à poeira levantada pelos operários, ele perguntou o que ela estava achando. Teresa não respondeu de imediato. Minutos depois, sentados a uma mesa do Café Aroma naquela mesma calçada, ela se limitou a dizer:
— Jerusalém é branca.

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"Dentes negros" / release.

Meu novo romance, o segundo que publico pela Rocco, começa a ser distribuído por esses dias. O lançamento em São Paulo está marcado para o dia 06/10, uma quinta-feira (sorry, F.), na Livraria da Vila (r. Fradique Coutinho). Quando a data estiver mais próxima, publico aqui o convite.

Abaixo, o release assinado pela sempre generosa Juliana Krapp:

DENTES NEGROS

Num futuro impreciso – mas que, de tão opressor, soa muito próximo – uma doença misteriosa varre parte da população do Brasil. Em poucas horas, famílias inteiras são extintas. A Calamidade, como passa a ser chamado o fenômeno, deixa um rastro de cidades-fantasmas e de cadáveres com os dentes enegrecidos, um enorme deserto que se estende por parte do Norte, do Nordeste e do Centro-Oeste do país.
Tempos depois, numa mesa de bar de São Paulo, funcionários de uma emissora de TV confraternizam num happy hour. Um encontro banal, que desencadeia o envolvimento de dois jovens, assombrados pela angústia de suas perdas e de suas memórias. Sobreviventes de diferentes tipos de tragédia, Hugo e Renata são os personagens que abrem Dentes negros, novo romance do goiano André de Leones. A trama, porém, não se limita à dupla: num passeio de ares cinematográficos, com cortes difusos e narrativas entrecruzadas, outros sobreviventes entram em foco.
Sobreviventes não apenas porque ultrapassaram a calamidade, mas, sobretudo, porque carregam a sina de um olhar para o vazio. Sobreviventes, afinal, como têm sido os personagens de Leones, cuja prosa caminha, sempre, rente aos abismos da melancolia. Ante uma desconhecida existência pós-apocalipse, os protagonistas deste romance curto e conciso são, antes de mais nada, seres enovelados a um tipo muito peculiar de solidão.
Dentes negros, afinal, não narra o apocalipse, e sim algo talvez ainda mais perturbador: o que vem depois dele. Os meandros do vazio, onde tanto o passado quanto o futuro permanecem em suspensão, alegorias inatingíveis e enigmáticas. A calamidade é um cenário, um ponto de partida. Mas a matéria-prima da trama é uma angústia essencialmente contemporânea, calcada nos conflitos mais corriqueiros do dia a dia, na violência e nos afetos que brotam de onde menos de espera. Para dimensionar a tragédia, a câmera do autor persegue a banalidade sempre perversa dos dias.
Neste romance, a prosa rápida que marca a obra de Leones ganha a companhia de fotografias em preto-e-branco assinadas por Lívia Ramirez. Flagrantes de paisagens desertas, como nesgas de lembranças desabitadas, as imagens servem de comentários visuais, inusitadas provocações. E, assim, lançam luz a essa história que cria uma tonalidade originalíssima entre a desilusão e a possibilidade de reencantamentos sempre novos.

Arranha-céu.

Algumas coisas que me ocorreram depois de ver A Árvore da Vida, de Terrence Malick.

1. Acho que eu percebi que estava diante não “apenas” de um grande filme, mas de uma obra-prima, quando, às perguntas dolorosamente feitas pela mãe (Jessica Chastain) que há pouco perdera um filho, perguntas, é claro, direcionadas a Deus, onde você está?, por que não fala comigo?, por que não me responde?, Terrence Malick contrapõe, por meio de um maravilhamento sonoro e visual que eu torci para que perdurasse para sempre, a Criação.

2. A estupenda capacidade de Malick de nos situar em qualquer lugar em questão de segundos, seja a uma mesa de jantar violentamente familiar onde a presença do pai é tão acachapante que até mesmo Brahms parece nos sufocar, seja em um encontro furtivo entre dois seres pré-históricos.

3. Não há maneirismos em “A Árvore da Vida”. Para um filme tão enamorado do Divino, me parece bastante óbvio que cada mísero plano tem de obrigatoriamente ser o mais luminoso e deslumbrante possível. E a câmera sempre arruma um jeito de apontar para cima, para o alto, para o céu, seja seguindo o tronco e os galhos de uma árvore como se eles estivessem prestes a alçar voo, seja de dentro de um elevador em um arranha-céu.

4. “Be quiet. Please.” R. L. (Laramie Eppler), o filho do meio, de temperamento artístico, das aquarelas e do violão, doce, o filho que vai morrer, ele diz essas palavras ao pai (Brad Pitt) e o caos doméstico irrompe. A minha infância inteirinha resumida em uma cena.

5. A violência do pai se instala no filho e o molda. Jack (o intenso Hunter McCracken quando criança; depois, Sean Penn) diz ao pai: “Sou tão ruim quanto você”. Ironicamente, isso é dito em uma das raras cenas em que pai e filho conversam de verdade, ou em que o pai, pelo menos, revela algo de si, demonstra alguma fragilidade.

6. O mexicano Emmanuel Lubezki filma como se Deus tivesse dito FIAT LUX! hoje de manhã. É mais fácil ser convertido pela beleza dos enquadramentos sempre vazados de luz que pelas palavras algo engessadas ditas por um pregador em seu púlpito. O homem fala sobre Jó, sobre perder tudo mesmo sendo bom. Deus é quem sabe.

7. O pai diz aos filhos, diz e repete, ser íntegro não é um bom negócio, ser competente demais não é bom, a saída é ser medíocre, passar despercebido, deixar-se levar. O pai diz isso aos filhos, mas faz justamente o contrário. Depois, naquela cena em que revela algo de si, a única descoberta que fez, a única coisa que aprendeu: não realizei nada, não fiz nada. Só vocês.

8. O pai devora os filhos. Deus está ao redor.

Edu S. escreveu um poema para mim.

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POEMA PARA ANDRÉ DE LEONES
por Eduardo Sinkevisque
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Compreendo a tristeza de André de Leones,
sua melancolia, sua depressão.
Compreendo a ironia de André de Leones,
seu sarcasmo, seu escárnio, sua visão.
Dessas coisas, de André de Leones, sou irmão.
Compreendo suas rodadas de cerveja,
suas palavras cevadas ceifadas de delicadezas.
Compreendo a dramaturgia de André de Leones,
sua carpintaria trigo, malte, espuma …
Tecidos tragados destragados em tensão.
Dessas coisas, de André de Leones, somente
sou irmão na metáfora da composição.
Não bebo. Fumo. Spleen fora de século
em decomposição.
André de Leones não fuma. Bebe.
Torpor do século em desmistificação.
Em teor de palavras, a gente se assemelha
no assoalho de cacos dos sortimentos
de certa identificação.
Entendo as destruições de André de Leones,
sua distribuição, seu jeito iconoclasta, bonachão
Dessas coisas, de André de Leones, sou irmão.
Somos espécies de basset-hounds de uma mesma
ninhada.
Latimos grosso, andamos lentos sem precisão.
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[Originalmente publicado no blog menos.]

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O lugar mais baixo da Terra.

[Mais um pequeno trecho do meu romancemprogresso.]

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Outra pequena viagem dentro da viagem maior. A massa azulada disforme, quieta, mais e mais próxima, como se estivesse se arrastando em direção a eles e não o contrário. O lugar mais baixo da Terra, lera em um dos folhetos que Arthur lhe dera. Aqui, à medida que se aproximava do Mar Morto, muito embora a luz esbranquiçada fosse a mesma de Jerusalém, Teresa se sentia convidada a fechar os olhos.
Assim que chegaram à praia e desceram do ônibus, ela olhou para o mar e depois para cima: o mesmo sol enorme enraizado no céu esbranquiçado.
Qual é mesmo o nome desse lugar?, ela perguntou.
A praia ficava lá embaixo, descendo por uma longa calçada que atravessava a areia em linha reta, uma rampa se pronunciando em direção à água, mas sem chegar até ela. O mar estava logo atrás de uma espécie de cerca, como se tivessem medo de que ele fosse fugir.
Ein Gedi, disse Arthur.
Caminhavam em direção ao mar. Arthur falou de uma espécie de oásis, um jardim botânico do outro lado da rodovia, num kibutz ou coisa parecida, ou próximo a um kibutz, ele não sabia direito, mas era um outro lugar que eles poderiam visitar. Naquela mesma tarde, se ela quisesse. Depois que tivessem almoçado por ali mesmo, havia alguns restaurantes a poucos passos de onde estavam.
A gente não precisa voltar hoje para Jerusalém. A gente pode fazer o que quiser.
Ela não o ouvia direito. Tudo era pesado e quieto, as vozes do marido e dos outros turistas lhe chegavam como que amortecidas. Como se ela tivesse água nos ouvidos, mesmo não tendo ainda mergulhado, mesmo sendo tão difícil mergulhar ali. Na praia, ouviu uma mulher que viera no mesmo ônibus em que eles dizer a alguém, em inglês:
Não é fantástico, Arthur?
Ao ouvi-la pronunciar aquele nome, ainda que com sotaque inglês, Teresa pensou que fosse vomitar. Sentou-se na areia, as pernas mal respondendo, e encolheu-se toda, escondendo a cabeça entre os joelhos. Contou até dez bem devagar. Depois, bem depois, ergueu a cabeça. O mar quieto, pesado. Alguns já entrando na água, entre risos e gritos incompreensíveis. Feito crianças.
Não é fantástico, Arthur?
Ela abriu a bolsa que trouxera, pegou a toalha e o filtro solar. Levantou-se, estendeu a toalha na areia e voltou a se sentar. Arthur estava de pé logo à frente. Olhava adiante, sorrindo, como se visse a outra margem e nela algo de extraordinário.
Não é fantástico, Arthur?
Ela descalçou as sandálias e as colocou junto da bolsa. Ficou olhando na mesma direção que Arthur olhava. O que ele via? Não havia nada. O cadáver aquoso, uma espécie de gel azulado, e sobre ele e além aquela névoa de um branco sujo, encardido.
O que você está olhando?, perguntou depois de um tempo.
Sem se virar, ele respondeu: Nada. Só olhando.
Não dá para ver a outra margem.
Não. Não dá.
Ele estava com as mãos na cintura, a câmera pendurada no pulso direito. Na camiseta dele estava escrito: DON’T WORRY. BE JEWISH.
Não somos judeus, ela dissera ao vê-lo comprando a camiseta dias atrás, na Cidade Velha em Jerusalém. Quer dizer que temos de nos preocupar?
Ela se levantou, tirou a camiseta e a bermuda, ajeitou o maiô, passou protetor solar pelo corpo. As pernas ainda tremiam um pouco. Disse a ele:
Acho que vou entrar na água.
Vou tirar umas fotos antes de entrar, ele retrucou.
A água a mantinha suspensa. Não era assim nada demais. (Era?) Ficou boiando em círculos, os olhos fechados. Os risos e gritos ao redor. Feito crianças. Tentou pensar em outra coisa. Ocorreu-lhe, então, a ideia de que tudo se resumia a uma única margem, sem ponto de chegada do outro lado.
Meu Deus. Margem alguma do outro lado.
Não é terrível, Arthur?
Chamou pelo marido:
Arthur?
A luz do sol não a permitia abrir os olhos por completo, mas ela o entrevia parado, a água batendo nos joelhos.
Arthur?
Chamou outras vezes, a voz cada vez mais baixa.
Arthur? Arthur?…
Arthur fotografava o nada diante de si, a paisagem marítima adormecida, a névoa ausentando a outra margem.
Não a ouvia.

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[Imagem: “Sem título” (2009),
óleo sobre tela de Maya Gold.]

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Eu faço drama:

minha peça CONCERTO PARA QUATRO VOZES E ALGUMA MEMÓRIA será apresentada no Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília, de 11 a 15 de maio. Ela foi escrita para o projeto Nova Dramaturgia Brasileira e dirigida por Cristina Moura.

Ao sul, onde a infância é uma faca cravada na garganta.

Incêndios / Incendies
[Denis Villeneuve, 2010]

Adaptação de uma peça de Wajdi Mouawad, “Incêndios” começa pontuado pela canção “You and Whose Army“, do Radiohead. Estamos no Líbano, no meio da guerra civil que devastou o país no final do século passado. Crianças têm suas cabeças raspadas por guerrilheiros. Em seguida, viajamos ao Canadá dos dias de hoje, onde um casal de gêmeos ouve a leitura do testamento de sua mãe, a imigrante libanesa Nawal. A partir da leitura e das descobertas, imediatas ou não, que ela acarreta (eles teriam um irmão), o filme se bifurca: temos a viagem da filha (e, depois, também do filho) ao Líbano em busca do irmão e de respostas e, paralelamente, a jornada da própria Nawal.

Compreender o que houve e ainda há no Líbano, de longe o país mais sectário (para dizer pouco) do Oriente Médio, não é coisa para amadores. Cristãos, muçulmanos, palestinos, israelenses, todos deram a sua contribuição para atear fogo ao país. Mas, curiosamente, o diretor Denis Villeneuve se afasta do factual (as vilas e cidades citadas são fictícias, por exemplo) e se atém às viagens que acabam por constituir a espinha dorsal do filme. É uma escolha arriscada, mas afinal muito feliz.

A rigor, “Incêndios” é um drama familiar. E, como todo bom drama familiar, é uma história permeada de ódio: dos irmãos de Nawal pelo primeiro amor dela; de um dos gêmeos pela obscuridade intrínseca à mãe; de Nihad (melhor não explicar quem é) contra tudo, mas sobretudo contra si mesmo; e de todos contra todos naquele Líbano conflagrado.

Mesmo o perdão, ao final, é antecedido por uma agressão, por uma espécie de vingança. Duas cartas, escritas por uma só pessoa, cindida, e endereçadas também a uma só pessoa, igualmente cindida: aqui, um mais um será sempre um, o que encerra todas as tragédias desveladas pelo filme, sejam elas pessoais, familiares ou políticas.

Claro que um drama familiar situado em meio e logo após uma conflagração não é, nem poderia ser, algo comum. Na verdade, o filme inteiro se movimenta no limite da (in)verossimilhança, e muitas vezes para além do absurdo (não por acaso, ela canta). Por sorte, Villeneuve, diferentemente de picaretas como Alejandro Iñarritú, reconhece logo de saída o valor do silêncio e, ao final, tergiversa em vez de abraçar ruidosamente a redenção. Em seus momentos decisivos, “Incêndios” é um filme que cala em vez de gritar.

Longe de quaisquer sensacionalismos, Villeneuve ainda consegue abarcar toda a brutalidade da guerra civil libanesa em uns poucos incêndios e naquela cena excruciante passada dentro e ao redor de um ônibus, no meio do nada. Ali, mais do que nunca, conforme evidencia o destino de uma criança que Nawal tenta salvar (ironicamente, separando-a de sua mãe), a infância é uma faca cravada na garganta. Por muito tempo, e próxima demais do fogo que não se apaga, Nawal permanece ajoelhada. Ela não rezará.

Bogie.

Bogie

Humphrey nasceu em Nova York, no finalzinho do século XIX. Ele nasceu no dia de Natal. O pai dele se chamava Belmont e era um médico com diplomas da Columbia e de Yale. A mãe dele se chamava Maud e era artista gráfica, dizem que muito bem sucedida. Eles viviam no Upper East Side, que é um ótimo lugar para se viver e coisa e tal. Maud era uma mulher distante, um iceberg. Humphrey não dava muito certo com os velhos, e eles meio que se sentiam decepcionados com o garoto, que parecia insistir em enfodecer as expectativas deles. Quer dizer, ele até pensou em seguir a carreira do pai, mas a expulsão da prep school Phillips Academy, em Andover, não deve ter ajudado muito nesse sentido. Humphrey, então, dirigiu caminhões por um tempo e depois se juntou à Marinha. Foi à Primeira Guerra Mundial. Quando o barco em que estava foi atacado, um pedaço de madeira rasgou sua boca: ele não falava daquele jeito por acaso. Quando voltou da guerra, Humphrey começou a atuar nos palcos do Brooklyn sem nunca ter feito um curso de interpretação na vida. Suas três primeiras esposas eram todas atrizes. A terceira e mais louca delas, Mayo, apelidada “Sluggy”, bebia como se não houvesse amanhã e ficava paranóica, nutria uns ciúmes doentios dele. Mayo chegou a esfaquear Humphrey num dos inúmeros quebra-paus que tiveram. Mas a verdade é que Humphrey era um sujeito assim machista e não muito ligado nisso de fidelidade. Assim: ele exigia fidelidade das mulheres. Quando Maud morreu, ele colocou no certificado de óbito que a ocupação dela era “dona de casa”. Humphrey bebia a sério, como se dizia na época, e acabaria morrendo em decorrência disso e também dos cigarros, claro. Você olhava para ele e parecia que ele nunca tinha sido jovem. Tinha aquele ar grave e ao mesmo tempo turbulento, e era como se estivesse nas sombras desde sempre. A quarta esposa dele foi Lauren, “Baby”, 25 anos mais nova. Ele a traiu durante muitos e muitos anos com sua (dele) cabeleireira, cujo nome eu não consegui descobrir. Humphrey e Lauren ficaram juntos até 1957, quando ele morreu. Acho que foi em janeiro.

[W.I.P.]

[Trecho pinçado do meu romancemprogresso.]

Aureliano não entendeu metade do que os médicos lhe disseram. Eles foram todos muito educados e falaram um de cada vez, pausada e didaticamente, mas, agora, repassando a coisa toda na cabeça, os rostos e as vozes deles se misturavam e era como se todos falassem ao mesmo tempo e a única coisa que ele conseguia depreender era:
Só vai piorar.
Quando voltou ao quarto para se despedir, Camila olhou para ele com aqueles olhos fundos, adoecidos, como se o encarasse distantemente de uma janela no canto mais escuro da cabeça. Sem querer, ele desviou os olhos dos dela e parou junto ao leito com os braços cruzados, cabisbaixo, uma criança prestes a sofrer uma repreensão. Ela disse que os médicos já tinham passado por ali e conversado com ela a respeito de tudo.
Ótimo, ele tentou sorrir, porque mais tarde, quando eu voltar, você vai ter que me explicar tudinho.
Não é complicado, ela disse.
Mas é grave.
É. Bem grave.
Então, é complicado, sim.
Ela não disse mais nada. Olhou para fora, os prédios do Setor Comercial Sul como que deslizavam em direção ao eixinho: estava zonza. De agora em diante, estaria sempre ou quase sempre zonza.
Você quer um copo d’água?, ele perguntou.
Agora, a voz dele lhe dava ânsia de vômito. Qualquer ruído lhe dava ânsia de vômito. Mesmo balançar a cabeça (não queria um copo d’água) lhe dava ânsia de vômito. Mover a mão em direção ao copo que lhe fosse estendido, alcançá-lo, segurá-lo, trazê-lo à boca, abrir a boca, o contato do copo com os lábios e depois a água lhe preenchendo a boca e descendo pela garganta, os olhos meio fechados enquanto bebia, fechar os olhos e depois abri-los, tudo lhe daria ânsia de vômito, a coisa, o processo todo, ele não percebia isso? Não queria explicar, embora pudesse fazê-lo com uma mísera frase: Estou zonza. Ou, melhor ainda: Enjoada.
Aureliano olhou para ela esparramada no leito, olhos fechados. Era uma mulher grandalhona de vinte e nove anos, de coxas grossas e ancas largas, cintura fina, quase sem barriga, uns seios pequenos e os cabelos pretos muito lisos. O rosto fino, embora bem proporcionado, quase bonito, emprestava-lhe uma tristeza girafídea que nunca esvanecia e tampouco se agravava: era sempre aquela nuvenzinha, um certo embaçamento leve, algo preguiçoso, como se um espirro ou um bocejo estivesse prestes a irromper, sempre, e ela não tivesse forças para completar nem uma coisa, nem outra.
O cansaço de Camila fez com que Aureliano se cansasse de olhar para ela; puxou uma cadeira para junto da cama e sentou-se com as pernas afastadas e cada mão sobre um joelho. O que havia para se ver ali? Voltou a olhar para a esposa, os olhos dela sempre fechados, e pensou: Que desgraça. No momento em que ele pensou isso, uma música orquestral extremamente triste advinda de um programa qualquer que passava na televisão chegou aos ouvidos deles. O volume não estava muito alto, mas fez com que Camila abrisse os olhos e procurasse entender o que ouvia. Não demorou muito para conseguir, e, assim que o fez, abriu um sorriso dolorido.
Que foi?, Aureliano perguntou. Conhece esse troço?
Ela balançou a cabeça: sim, conhecia. O tipo de coisa que ela ouvia, às vezes. Enquanto corrigia provas ou tirava a sesta após o almoço de domingo, deitada no pequeno sofá da sala de estar; sozinha. Continuava sorrindo quando disse:
É o Réquiem de Mozart.
Réquiem?
É. Você sabe. Uma missa fúnebre. Para alguém que já morreu.
Ficou olhando para ela até que o sorriso, aquela sombra carregada de ironia, desaparecesse. Então, perguntou se ela não queria que ele desligasse a televisão.
Tanto faz, ela respondeu. Tanto faz.
Eu tenho que ir agora, ele disse.
Eu sei.
Ele se levantou e a beijou na testa e a ouviu pedindo que tomasse cuidado (Tome cuidado você, ele pensou, mas não disse.) quando já passava pela porta e ganhava o corredor. Assim que as portas do elevador se fecharam, balançou a cabeça de um lado para o outro com violência, como se quisesse expulsar algo qualquer dali de dentro, e tentou imaginar o que o esperava, sem sucesso.

MC Sapinho de Israel.

O texto abaixo foi originalmente publicado no jornal O Globo, suplemento “Prosa & Verso”, em 23 de janeiro de 2010. Eu o estou republicando aqui porque o personagem da matéria, o funkeiro carioca-israelense MC Sapinho de Israel, aparecerá no “Fantástico” daqui a alguns dias. Segundo me disseram, alguém leu o que escrevi, achou bacana e sugeriu a pauta. O Sapo, agora, será global. Ele merece. Outra coisa: a versão do texto que publico abaixo não é a que saiu n’O Globo. É uma versão estendida: o jornal publicou apenas a segunda parte.

…………

MC SAPINHO DE ISRAEL
Sobre como me deparei com um funkeiro carioca do lado de lá do Mediterrâneo.

1.
Quando cheguei a Israel em maio de 2009 para uma temporada mínima de seis meses e máxima de três décadas e meia, a última coisa que eu esperava encontrar era um cantor de funk carioca fazendo carreira debaixo do nariz de “Bibi” Netanyahu, que por acaso é meu vizinho aqui no bairro hierosolimita de Rehavia e, a não ser que eu esteja imaginando coisas, dá tchauzinho sempre que passa debaixo da minha sacada em suas idas e vindas do Knesset. “Bibi”, a despeito do apelido (tenho certeza de que um MC Bibi só cantaria proibidões), não me parece ser o tipo de sujeito que curte funk, mas a quantidade de seus conterrâneos que apreciam um bom pancadão tem aumentado sensivelmente de uns tempos para cá graças ao MC Sapinho de Israel, sobre quem falarei daqui a pouco.

A princípio, tudo o que eu queria no momento em que fiz as malas e disse tchau para os meus familiares, amigos, biblioteca, cachorros e botecos de estimação, nessa ordem, era, também pela ordem, conhecer um país radicalmente diverso do meu, tirar fotos, fugir dos credores, cometer as gafes culturais de praxe, aprender alguns palavrões em hebraico e começar a escrever o meu próximo romance. Entretanto, quando Marcelo Korn, o meu shutaf, isto é, o cara com quem eu divido um apartamento aqui na Rua Harav Hertzog, em Jerusalém, pertinho da casa do “Bibi”, contou que um de seus irmãos cantava funk por aqui sob a alcunha de MC Sapinho de Israel, a mesma curiosidade congênita que um dia me levou a cabular uma prova do vestibular de cinema da Universidade Federal Fluminense para continuar bebendo cerveja e ouvindo as histórias fantasiosas (ela mentia deslavadamente) de uma acreana neta de turcos em um boteco no Ingá, em Niterói, aflorou. Ou seja, eu tinha que conhecer o tal irmão do meu shutaf.

De imediato, e seguindo uma sugestão de Marcelo, joguei as palavras “MC Sapinho de Israel” no campo de busca do YouTube e me esbaldei com os vídeos que foram aparecendo, trechos de apresentações do Sapo em bares de Tel Aviv e em um festival de música latina em Haifa. Dias depois, tendo já enfiado na cabeça que escreveria algo a respeito, recebi o funkeiro em casa e conversamos por um bom tempo enquanto, na televisão ligada, Lawrence da Arábia, acompanhado pelas indefectíveis legendas em hebraico, tostava sob o sol do deserto e mostrava o que é que os oficiais britânicos daquela época, início do século XX, tinham (coragem, sotaques bacanas, olhos azuis) e não tinham (protetor solar, senso de esportividade quando em guerra, habilidade no manejo de motocicletas).

“Uma pena que eles não exibam o filme em widescreen”, comentei. “O deserto não cabe aí nessa tela cheia, não.”

Sapinho concordou, balançando a cabeça, ou talvez nem estivesse prestando atenção no que eu falava e tenha feito isso, balançado a cabeça, apenas por educação. De um jeito ou de outro, apertei a tecla mute e demos início a uma entrevista nem um pouco formal. Em poucos minutos, entretanto, o quadro estava pronto. Minha Jerusalém interior, por assim dizer, fora acrescida de uma figura novinha em folha e em tudo diferente das demais. Nada mais fácil, aliás, do que conhecer pessoas interessantes em Jerusalém, sobretudo quando vago sem rumo, isto é, sem estar procurando por qualquer coisa em especial.

O fato de, imediatamente após a minha chegada, ter ficado vinte dias em um albergue certamente contribuiu, e muito, para essa impressão. Por outro lado, se no tal albergue havia um corinthiano nascido na Argentina e cujos pais moram em São Paulo, um artista plástico & corretor de imóveis nascido no Uruguai, uma economista australiana que conseguiu se perder nas ruínas de Massada e foi resgatada por um simpático casal de velhinhos austríacos que usavam camisetas nas quais se lia “Masada shall never fall again!” e, finalmente, um canadense de ascendência indonésia que pagou o equivalente a R$ 60,00 por um mísero rosário de madeira que não valia mais do que R$ 5,00, nem em meus sonhos vitaminados por litros e litros de cerveja israelense Goldstar, consumidos no aprazível pub Stardust, meu boteco hierosolimita do coração, eu esperava encontrar um carioca que faturasse algum cantando funk por Israel afora.

Em relação a esse tipo de descoberta inesperada, tão comum por aqui, eu logo percebi, por exemplo, que existem várias Jerusaléns e não apenas uma. E eu nem estou me referindo à Cidade Velha com todo aquele esquema do tipo cada-um-no-seu-quadrado: quarteirão judeu (de longe o mais limpinho e silencioso), quarteirão árabe ou muçulmano (de longe o mais tresloucado e colorido), quarteirão cristão (de longe o mais morbidamente animado, com turistas débeis mentais carregando cruzes pela Via Dolorosa enquanto suas esposas gordotas fotografam tudo) e quarteirão armênio (de longe o mais… armênio). Jerusalém é uma sucessão de pequenas bolhas que nem sempre (ou quase nunca) se comunicam. Aqui, há desde o bairro de judeus ultraortodoxos, Mea Shearim, até a banda oriental da cidade, predominantemente árabe. E, pelo que estou vendo, logo haverá um quarteirão funkeiro, talvez sobre uma laje no bairro de Talpyot, por mais que MC Sapinho não resida aqui, mas em Ramat Gam, nos arredores de Tel Aviv. Que sejam duas lajes, então: uma aqui, outra em Ramat Gam.

2.
A luz não é das melhores, mas é possível divisar o que está à frente e ao redor sem muitos problemas. No palco, estão o cantor, duas dançarinas e o DJ com a parafernália de praxe. A galera dançando ao ritmo da batida inconfundível do funk carioca pode dar a impressão de que estamos na Cidade de Deus, no Andaraí ou em algum outro lugar do Rio de Janeiro, mas não é o caso.

Estamos no Rich Bar, em Tel Aviv, em uma noite calorenta do final de junho, bem no começo do verão israelense. Na platéia, brasileiros residentes em Israel ou de passagem pelo país fazendo coro em praticamente todas as músicas, coisa que não intimida os israelenses e os demais presentes no local. Muito pelo contrário: com a música, ou graças a ela, a pequena Babel improvisada acaba por se tornar uma mesma e única festa, indivisível, como se todos os presentes ali tivessem o hábito de sair juntos para a balada há tempos, desde quando eram moleques no Botafogo ou na Tijuca. Alguém poderia argumentar que se trata de uma característica da noite de Tel Aviv, cidade que, juntamente com a capital do Líbano, Beirute, é a mais cosmopolita e liberal do Oriente Médio, um ambiente assim, digamos, secular se comparado ao de Jerusalém. Mas isso não importa. À medida que cantor, DJ e dançarinas incendeiam a platéia com uma sucessão de hits reconhecíveis até mesmo por aqueles que não curtem a batida, a impressão de estarmos em um autêntico baile funk no coração da noite carioca é algo assim decididamente inescapável.

Majestoso e gorducho (mas não exatamente como o Buck Mulligan do “Ulisses” de James Joyce), quem está no centro do palco fazendo nada menos do que o seu terceiro show naquela noite é ele: MC Sapinho de Israel. Careca coberta por um boné, camiseta larga e calça jeans, ele enfileira frases e versos em português e hebraico e deixa transparecer todo o conforto do mundo. Está, como se costuma dizer, em seu elemento, e o público percebe isso de imediato e canta com ele versos do tipo: “Na minha casa / O mal não vai entrar / Tem a Bíblia e o Alcorão / E na porta o Mezuzá”. Todos ali parecem concordar alegremente que “O bonde mais sinistro / É Jerusa e Nazaré”. Assim, MC Sapinho segue, como ele próprio não se cansa de dizer, “introduzindo a cultura do funk” na pátria de Amós Oz e Shimon Peres. É bastante provável que estes dois ainda não saibam ou sequer venham a saber do que é que se trata, mas, a julgar pelo número de shows que não param de aumentar semana após semana, não é nenhuma sandice imaginar que, em um futuro muito próximo, os israelenses em geral estarão bastante familiarizados com o ritmo engendrado na periferia do Rio de Janeiro em meados da década de 1980.

MC Sapinho de Israel é Sandro Korn, um carioca corpulento de vinte e nove anos, bem humorado e de aparência tranquila, sempre disposto a conversar sobre como veio a se tornar o primeiro funkeiro de Israel.

Quando ele, em pleno shabat, irrompeu no meu apartamento e se sentou no sofá, pronto para conversar comigo sobre, basicamente, como tudo isso é possível, eu senti aquele velho arrepio de quando sou colocado frente a frente com a santa ilogicidade das coisas. Existe uma palavra em hebraico, uma gíria, que dá conta de toda a gratuidade da vida: stam. O termo se refere a tudo aquilo que acontece porque sim, que é inesperado e sem explicação plausível ou mesmo implausível. Há coisas mais importantes e instigantes na trajetória de alguém do que premonições e fatalismos, até porque premonições e fatalismos são capazes de esvaziar qualquer ironia, e uma história desprovida de ironia é uma história desprovida de beleza ou, em uma palavra, banal.

Nascido e criado no Rio de Janeiro, Sandro Korn, o hoje MC Sapinho de Israel, é o caçula de quatro irmãos. O pai, dono de construtora, conseguiu proporcionar uma vida bastante confortável à família, que vivia em uma cobertura na Tijuca, até que, em meados de 1996, sofreu um derrame e a situação financeira se complicou. Três anos depois, o filho mais velho, Cláudio, fez a aliyah (palavra hebraica que significa, literalmente, “subida” e designa o processo pelo qual judeus de outras partes do mundo emigram para Israel, isto é, “fazem a aliyah”). Em 2000, foi a vez de Sandro deixar o Brasil para tentar a sorte em Israel. Marcelo, meu shutaf, viria em 2005. Dos irmãos, o único que permaneceu no Brasil foi Osias, que continua vivendo no Rio de Janeiro e ganha a vida comprando e vendendo carros.

Eles enfrentaram a vida a princípio sempre difícil dos ole hadash (imigrantes) recém-chegados. No fim das contas, todos se estabeleceram bem. Atualmente, Claudio trabalha no setor de compras da Danya Cebus, uma multinacional israelense que constrói desde prédios até rodovias e linhas férreas. Marcelo, formado em Engenharia de Sistemas pela Hadassah College, uma ramificação da Universidade Hebraica de Jerusalém, é funcionário da Intel e está prestes a começar o seu segundo curso superior, de Ciência da Computação. Todos os quatro irmãos são flamenguistas, o que talvez explique o fato de serem boas praças.

Quando chegou a Israel, Sandro foi viver no kibutz de Ein Schofet, nas proximidades de Haifa, cidade portuária encravada no norte do país, de braços abertos para o Mediterrâneo. Mas não teve muito tempo para se aclimatar: apenas quatro meses depois de aterrissar, foi chamado para servir o exército. Dos três irmãos que fizeram a aliyah, Sandro foi o único a colocar (ou a ser colocado em) uma farda por causa da pouca idade que tinha ao emigrar, vinte anos. Serviu os dois anos regulamentares em um batalhão de artilharia antiaérea, próximo à fronteira com o Líbano. Por motivos óbvios, uma vez que servir o exército em Israel seguramente não é a mesma coisa que servir o exército no Brasil, ele não é de falar muito sobre esse período de sua vida.

Antes, durante e logo após o serviço militar, Sandro teve dificuldades para se acostumar com o jeito de ser dos israelenses nativos. Cheio daquela franqueza que muitas vezes redunda em grosseria pura e simples, o israelense típico não é exatamente uma pessoa dócil. A convivência é ainda mais complicada, ou simplesmente impossível, se o recém-chegado não domina o hebraico ou, pelo menos, o inglês. “Se você não se acostuma com jeitão do povo israelense, você não aguenta a acaba voltando para o Brasil”, disse-me Sandro. “Aliás, se não fosse pela minha filha, eu já teria voltado.” A menina, Adar, tem três anos e seu nome está tatuado no antebraço esquerdo de Sandro. No antebraço direito, seu nome artístico: Sapinho. Com isso, não é difícil intuir quais são as duas coisas mais importantes para ele.

Após deixar o exército, e sempre que a situação financeira permitia, Sandro aportava no Rio de Janeiro para visitar a família e os amigos. As pessoas mais próximas sempre souberam de seu apreço pelo funk, até porque ele costumava cantar em festas e reuniões de amigos. E foi em 2004, em uma de suas visitas ao Brasil, que as coisas começaram a mudar. Durante a festa de aniversário de um amigo, no Leblon, foi convidado a dividir o palco com o funkeiro Mr. Catra. Bom de improviso, Sandro impressionou. Não demorou muito para que Catra lhe fizesse uma proposta, a de que eles compusessem uma música juntos, misturando o português e o hebraico. A única exigência de Catra era de que a canção versasse sobre Jerusalém, “porque é uma terra santa”. Daí surgiu “Daber she ze anachnu” ou, em bom português, “Fala que é nóis”. Mais conhecida como “Jerusalém”, foi gravada por Mr. Catra, com participação de Sandro, e logo o MC Sapinho de Israel começou a se tornar um nome conhecido. O apelido de infância, Sapinho, foi escolhido como nome artístico, mas com o adendo “de Israel”. “É que já existia o MC Sapão e, afinal de contas, eu já vivia por aqui.”

De volta a Israel, Sapinho conheceu outra figura muito importante em sua carreira: o israelense Gilad Sabach, ou DJ Brasiloca. As circunstâncias foram parecidas com a de seu primeiro encontro com Mr. Catra: convidado para a festa de aniversário de Brasiloca, acabou subindo ao palco e mostrando a que veio. Desde então, o DJ tem produzido as músicas de Sapinho e o convidado para cantar nas festas que organiza. Foi a partir desses dois encontros, com Catra no Brasil e com Brasiloca em Israel, que, nas palavras de Sapinho, “a coisa começou a engrenar”.

Claro que o ritmo de apresentações dos últimos meses não foi conquistado da noite para o dia. Tanto que, mesmo atualmente, quando chega a fazer até três shows em uma mesma noite, Sapinho ainda não pode se dar ao luxo de viver exclusivamente da música. O grosso do orçamento doméstico ele tira de seu trabalho na Smira, empresa onde está há cinco anos. A Smira presta serviço ao governo e é responsável pela segurança dos trens israelenses. “Fiz um treinamento de quatro semanas e comecei revistando mochilas nas estações.” Depois, fazia ronda nos vagões dos trens. Agora, trabalha em uma sala repleta de monitores, observando o movimento de lugares tidos como pontos críticos, isto é, com possibilidade elevada de sofrer alguma espécie de atentado terrorista.

Sempre que volta ao Brasil, Sapinho engrena algumas apresentações em parceria com Mr. Catra. Juntos, eles já cantaram em lugares como Circo Voador, Fundição Progresso e Tijuca Tênis Clube. Além desses shows, a parceria já rendeu uma dúzia de canções, como “Bonde do Elyahu Anavi”, “Retorno de Jerusa” e “Mosaico e o Caldeirão”.

Em novembro do ano passado, Sapinho cedeu uma entrevista em um programa de ritmos latinos da rádio 100 FM, de Tel Aviv. Foi ao estúdio acompanhado pelo DJ Brasiloca e chegou a dar uma palhinha ao vivo. A entrevista por certo o ajudou bastante, tanto que, por esses dias, tem se desdobrado para dar conta de uma agenda que pode chegar a sessenta shows por mês em várias regiões do país, a um cachê médio de 800,00 NIS (algo em torno de R$ 400,00) por apresentação. Como Israel é um país pequeno, é comum que MC Sapinho se apresente, no decorrer de uma mesma noite, em cidades distintas, como Tel Aviv e Haifa.

Sapinho está com a agenda praticamente lotada para o mês de julho. Além dos shows em bares e boates, fará uma apresentação em Jerusalém para um grupo de turistas brasileiros que estarão em Israel na segunda metade do mês. “Quando o assunto é música, eles sempre pedem duas coisas para animar a viagem: pagode e MC Sapinho”, explica. Ele trabalha para que, com o passar do tempo, e em se tratando de música brasileira, o funk seja tão conhecido em Israel quanto o axé. “Israelense vai muito à Bahia fazer turismo. Você pode perguntar por aí. Tudo que é israelense que vai ao Brasil, acaba passando pela Bahia. É por isso que o axé manda tão bem por aqui. Porque é o que eles mais ouvem quando vão ao Brasil.”

São três e meia da madrugada e o público do Rich Bar, em Tel Aviv, não parece nem um pouco incomodado com o atraso de quarenta e cinco minutos que teve de suportar até o início da apresentação. “A gente foi para Haifa fazer um show e acabou se atrasando um pouco na hora de voltar para Tel Aviv. Mas no final tudo vai dar certo”, disse MC Sapinho quando chegou. E dá mesmo: o lugar quase vem abaixo quando o “Rap das Armas” e uma sequência de outros pancadões de sucesso, incluindo “Jerusalém”, são executados. É a ilustração perfeita daquilo que os funkeiros e seus adeptos, seja no Brasil ou em Israel, costumam dizer: “Demorou”.