Agália

Agália

Uma das inúmeras versões anteriores (não sei o que fiz da mais recente) do meu conto “A Inutilidade” foi publicada na edição 95-96 da revista Agália (a partir da página 269). Trata-se de uma publicação internacional da Associaçom Galega da Língua (AGAL), editada trimestralmente desde 1985 na Galícia, Espanha. Agradeço a Carmen Villarino, professora da Universidade de Santiago de Compostela, por ter apresentado meu conto aos editores da Agália.

Algumas notas sobre "Pickpocket"

1. A seguinte piada: certo dia, Orson Welles adentrou uma sala de cinema em Paris sem checar o que estava passando. Pouco depois, saiu correndo apavorado, aos berros: “Meu Deus! É um filme de Robert Bresson!”. A meu ver, a piada diz mais respeito a Welles do que a Bresson.

2. Aquilo que Stanley Kubrick disse certa vez sobre a montagem ser o único elemento original e verdadeiramente criativo do cinema. Não que haja semelhanças de estilo entre Kubrick e Bresson, é claro.

3. A coreografia concebida para mostrar o protagonista em seu ofício (como o título indica, ele é um batedor de carteiras) chega a criar uma atmosfera sensual, ainda que eivada de artificialidade. A sequência no trem é a melhor de todas. Um verdadeiro balé. Os gestos como que suspensos. Leveza, imaterialidade. São fantasmas, atravessam corpos e paredes.

4. A câmera e os cortes sublinham a acuidade técnica do batedor de carteiras ao mesmo tempo em que mantém uma articialidade na mise-en-scène que desnuda o próprio jogo cinematográfico. Em outras palavras: a acuidade técnica do personagem é análoga à do cineasta, em um interessante jogo especular.

5. Embora direto, seco, frontal, “Pickpocket” não é realista. Por sorte, tampouco é moralista.

6. O filme se movimenta inteiro rumo à epifania final, em uma espécie de crescendo.

7. Ele é todo narrado pelo protagonista, que relembra, organiza e dá sentido aos acontecimentos mostrados, de tal forma que a ironia do policial para com ele, chamando-o de “écrivain”, não está ali por acaso.

8. “Pickpocket” é organizado na direção de uma experiência religiosa. Podemos dizer o mesmo em relação a “Caminhos Perigosos”, com a diferença de que, em Bresson, não existe aquela ironia cruel tão cara a Martin Scorsese.

8.1 Dizendo de outra forma: os personagens bressonianos alcançam, de fato, alguma transcendência, ao passo que os marginais de Scorsese terminam afundados no próprio sangue e no sangue dos outros, para além (ou aquém) de qualquer redenção moral.

9. É impressionante como Robert Bresson transforma até mesmo o ato de furtar em algo imaterial.

Hoje, em "O Globo": MC SAPINHO DE ISRAEL

A edição de hoje de “O Globo” traz um texto que escrevi quando ainda estava em Israel, sobre um funkeiro carioca que vive e trabalha e faz sucesso por lá. Conforme o blog do Prosa & Verso:

O escritor André de Leones, autor de “Hoje está um dia morto” e “Paz na terra entre os monstros” (Record), assina um perfil do funkeiro carioca Sandro Korn, mais conhecido como o MC Sapinho de Israel. Autor de músicas como “Bonde do Elyahu Anavi”, “Retorno de Jerusa” e “Mosaico e o Caldeirão”, ele faz sucesso em Israel misturando referências judaicas com o ritmo dos morros do Rio.

Abaixo, o trecho inicial do texto. Para ler na íntegra, faça como eu: corra até uma banca e adquira um exemplar do jornal. Em tempo: eu já tinha publicado bem AQUI um post sobre o MC Sapinho de Israel.

A luz não é das melhores, mas é possível ver o que está à frente e ao redor sem muitos problemas. No palco, o cantor, duas dançarinas e o DJ com a parafernália de praxe. A galera dançando ao ritmo do funk carioca pode dar a impressão de que estamos na Cidade de Deus ou no Andaraí, mas não é o caso.
Estamos no Rich Bar, em Tel Aviv, em pleno verão israelense. Na platéia, brasileiros residentes ou de passagem pelo país cantam todas as músicas, coisa que não intimida os nativos e outros presentes no local. Pelo contrário: graças à música, a pequena Babel improvisada acaba por se tornar uma mesma e única festa, como se todos ali farreassem juntos há tempos. Alguém poderia argumentar que se trata de uma característica da noite de Tel Aviv, cidade que, juntamente com a libanesa Beirute, é a mais cosmopolita do Oriente Médio, um ambiente secular se comparado ao de Jerusalém. Mas isso não importa. À medida que cantor, DJ e dançarinas incendeiam o lugar com uma sucessão de hits reconhecíveis mesmo por aqueles que não curtem a batida, a impressão de estarmos em um autêntico baile funk no coração da noite carioca é inescapável.
Majestoso, gorducho, quem está no centro do palco fazendo o seu terceiro show naquela noite é o MC Sapinho de Israel. Careca coberta por um boné, camiseta larga e calça jeans, enfileira frases e versos em português e hebraico. Está em seu elemento. O público percebe e canta com ele versos como: “Na minha casa / O mal não vai entrar / Tem a Bíblia e o Alcorão / E na porta o Mezuzá”. Todos ali parecem concordar alegremente que “O bonde mais sinistro / É Jerusa e Nazaré”. Assim, MC Sapinho segue, em suas palavras, “introduzindo a cultura do funk” na pátria de Amós Oz e Shimon Peres. É provável que estes não saibam ou venham a saber do que é que se trata, mas, a julgar pelo número crescente de shows, não é loucura imaginar que os israelenses em geral logo estarão familiarizados com o ritmo engendrado na periferia do Rio de Janeiro.