Algumas notas sobre “Pickpocket”

1. Eu o vi pela primeira vez em 2003. Na época, vivia em Goiânia e fazia um curso molambento de cinema que nunca me serviu para coisa alguma. Não demorei a perceber que aprenderia muito mais fuçando nas prateleiras das videolocadoras e encarando as sessões do Lumière e do Cine Cultura do que suportando aulas de teoria da imagem e história do cinema ministradas por gente mais burra do que eu.

1.1 Foi no Cine Cultura, em um sábado chuvoso qualquer. Chegamos muito adiantados. Nós nos encontramos na Praça Cívica e ficamos sentados no chão, à entrada do cinema, olhando a chuva. Creio que não dissemos nada. Eu gostei mais do filme do que ela. Bem mais. Depois nos separamos.

2. A seguinte piada: certo dia, Orson Welles adentrou uma sala de cinema em Paris sem checar o que estava passando. Pouco depois, saiu correndo apavorado, aos berros: “Meu Deus! É um filme de Robert Bresson!”. A meu ver, a piada diz mais respeito a Welles do que a Bresson.

3. Aquilo que Stanley Kubrick disse certa vez sobre a montagem ser o único elemento original e verdadeiramente criativo do cinema. Não que haja semelhanças de estilo entre Kubrick e Bresson, é claro.

4. A coreografia concebida para mostrar o protagonista em seu ofício (como o título indica, ele é um batedor de carteiras) chega a criar uma atmosfera sensual, ainda que eivada de artificialidade. A sequência no trem é a melhor de todas. Um verdadeiro balé. Os gestos como que suspensos. Leveza, imaterialidade. São fantasmas, atravessam corpos e paredes.

4.1 A câmera e os cortes sublinham a acuidade técnica do batedor de carteiras ao mesmo tempo em que mantém uma articialidade na mise-en-scène que desnuda o próprio jogo cinematográfico. Em outras palavras: a acuidade técnica do personagem é análoga à do cineasta, em um interessante jogo especular.

5. Embora direto, seco, frontal, “Pickpocket” não é realista. Por sorte, tampouco é moralista.

6. O filme se movimenta inteiro rumo à epifania final, em uma espécie de crescendo.

7. Ele é todo narrado pelo protagonista, que relembra, organiza e dá sentido aos acontecimentos mostrados, de tal forma que a ironia do policial para com ele, chamando-o de “écrivain”, não está ali por acaso.

8. “Pickpocket” é organizado na direção de uma experiência religiosa. Podemos dizer o mesmo em relação a “Caminhos Perigosos”, com a diferença de que, em Bresson, não existe aquela ironia cruel tão cara a Martin Scorsese.

8.1 Dizendo de outra forma: os personagens bressonianos alcançam, de fato, alguma transcendência, ao passo que os marginais de Scorsese terminam afundados no próprio sangue e no sangue dos outros, para além (ou aquém) de qualquer redenção moral.

9. É impressionante como Robert Bresson transforma até mesmo o ato de furtar em algo imaterial.

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