Anotações sobre o tema ‘Escritas da Finitude’ (Flip#2012).

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Dentes negros é um livro impulsionado para o fim. Talvez por isso seja tão breve.

A ideia era criar uma narrativa enamorada pela finitude. Um ideal de concisão que pressupõe, circunscreve e desenvolve o tema. Tenho para mim que romances apocalípticos devem ser breves. Não se tergiversa, não se digressiona demais diante do abismo.

(Ou enquanto despencamos nele.)

Todo romance apocalíptico não o é até as últimas consequências. Porque sempre há uma catástrofe, claro, mas há, também, o que sobrevive a ela, ainda que só por um tempo. Um romance efetivamente apocalíptico seria uma sucessão interminável de descrições de paisagens livres de seres humanos. Uma exposição interminável de naturezas mortas. Em Dentes negros, apenas as fotografias de Lívia Ramirez são, de fato, apocalípticas: não há figuras humanas nelas.

Elas, sim, sugerem com precisão a calmaria final.

A morte está presente em quase tudo o que escrevi. Em Hoje está um dia morto, está o anular-se. Alguns conhecidos meus cometeram suicídio. Então, logo tive contato com alguns questionamentos, por assim dizer, imbuídos de uma certa gravidade. Lembro de estar no velório de alguém e pensar que as pessoas ao redor, quando era o caso (a maioria não se arriscava), insistiam nas perguntas erradas. Elas se perguntavam: “Por que ele fez isso? Por que fazer uma coisa dessas?”. Com assombro, eu me peguei pensando: “Mas por que não?”.

Cresceu a necessidade não de me matar, mas de escrever algo a partir desse assombro.

Hoje está um dia morto oferece duas vias: a primeira delas é a da autoanulação; a segunda, impulsionada pela autoanulação do outro, escrever sobre ela justamente para evitar a própria. Gosto de pensar que isso é o mais próximo que eu poderia chegar da autoajuda.

A literatura não salva, mas adia o inevitável. E nos distrai.

Mais do que uma distração, a literatura oferece uma visada do abismo, um passeio pelas suas imediações, a possibilidade de olhar para baixo e, vendo o que há (nada), conversar um pouco a respeito.

Porque é sempre assombroso constatar que não há nada lá.

Ao mesmo tempo, no que constatamos não haver nada lá embaixo, no fundo do abismo, nós nos sentimos livres para procurar por algo aqui em cima, por mais transitório, efêmero e pueril que seja.

É disso também que trata o final feliz de Dentes negros.

Lembro de sorrir quando isso me ocorreu: meu romance apocalíptico terá um final feliz. A felicidade, nele, reside no fato de dois personagens, tendo contemplado o abismo, voltarem os olhos aqui para cima e conseguirem, ainda e apesar de tudo, enxergar o outro.

Experimentar a finitude e abrir os olhos para a transitoriedade.

Quase todos nós temos problemas para enxergar as coisas dessa forma. Eu mesmo tenho. Fui educado em colégio católico, meus pais são espíritas. O cristianismo, herdeiro direto do platonismo mais rasteiro, fala da transitoriedade da vida terrena, mas em vista de um outro plano, estável, perene, onde a salvação ou a danação terão lugar.

A literatura fala da transitoriedade, mas em vista do abismo.

Uma escrita da finitude é, para mim, uma escrita impulsionada por essa consciência da transitoriedade. Na medida em que não possuo, em meu material genético, nada que se assemelhe àquele gene da fé (se é que tal coisa existe) e, assim, não enxergo um princípio ordenador para além ou aquém do mundo sensível e imediato, busco fazer algo de que gosto enquanto não me esfarelo e, mais do que isso, algo que dê conta ou, pelo menos, gire em torno do próprio esfarelar-se.

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