Hoje está um dia morto

ROMANCE
Rio de Janeiro: Record, 2006.

Romance vencedor do Prêmio SESC de Literatura 2005. Em breve, chegará às telas a adaptação cinematográfica Dias vazios.

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RESENHAS ETC.

Clique AQUI para visualizar e/ou baixar a dissertação de mestrado Os filmes de papel de André de Leones: quando literatura e cinema se encontram, de Gustavo Ramos da Silva, defendida na Universidade Estadual de Londrina. Nela, o autor investiga “como a ficção brasileira contemporânea tem absorvido e reelaborado a contaminação que sofre do cinema” e analisa meus dois primeiros romances: Hoje está um dia morto e Como desaparecer completamente.

Em RESENHAS DO PRÊMIO SESC
por Lívia Milanez
[02.06.2014]

O vencedor na categoria romance da edição 2005/2006 do Prêmio Sesc de Literatura foi Hoje está um dia morto, de André de Leones.

Impressões
A profusão de referências musicais (sobretudo do pop e do rock), cinematográficas e bíblicas compõe uma narrativa sobre a qual quase sempre paira um imutável céu nublado de “dia morto”. O texto, porém, é vivo, desafiador e mesmo desconcertante com suas múltiplas alusões pornográficas. A recorrência da imagética pornô reforça a ideia de que, para os personagens adolescentes, o sexo é menos do que fonte de prazer, é praticamente a única distração possível em uma cidade sem nada a oferecer.
A técnica de cineasta é aplicada para construir quadros e diálogos simultâneos, bem como para descrever cenários e personagens (“Início de tarde technicolor iluminando a debandada escolar” p. 71). As alusões culturais servem como ganchos descritivos de um autor-narrador (revelado ao final do texto) com fortes percepções sinestésicas.
Em um universo de personagens sem perspectiva, a força do texto é o próprio texto: vigoroso e provocador, que leva o leitor a questionar seus alinhamentos morais e preferências estéticas. Um livro forte, que incomoda, não deixa indiferente e, por isso, vale a leitura.

Enredo, narrativa e estrutura da obra
Fabiana e Jean são adolescentes que moram em uma cidade pequena e estão no último ano escolar. São namorados e a maior parte do livro descreve suas relações sexuais. Entre as ações secundárias que se desenrolam, estão a conversa de Jean com a empregada Morena e a entrevista do rapaz com a madre diretora da escola, que ocorre simultaneamente à conversa de Fabiana com a bibliotecária do colégio. Os diálogos com personagens menores são a parte mais objetiva da narrativa, em que se demonstram como os protagonistas formulam suas ambições e, sobretudo, sua desmotivadação em relação a si mesmos e ao futuro.
Há também cenas descritivas dos sonhos delirantes de Jean, que sofria do problema de não se lembrar deles ao acordar, mas que mantinha, na vigília, a angústia das revelações oníricas. O pano de fundo dos dramas de Jean são suas relações familiares: a história começa com a viagem de seus pais para tentarem resgatar o casamento e é nesse contexto de casa vazia que os adolescentes passam a maior parte da trama sozinhos.
Jean possui um paradoxal niilismo crente, pois, ao mesmo tempo que não possui nenhuma esperança, tem certeza da existência de Deus e, justamente por possuir essa certeza, deprime-se com ela. Fabiana preocupa-se em compreender o namorado, mas seu diálogo é praticamente inexistente ou vazio de significado; a relação é pautada pelo sexo e por uma longínqua compreensão mútua não expressa em palavras.
Quanto à estrutura da obra, a abertura indica um autor-narrador (“Alanis não quis ler nada disto que escrevi.”, p. 10) logo a seguir absorvido pelos capítulos, de modo que o texto é lido como se fosse o fluxo de pensamentos de Jean, o protagonista. A estratégia de Leones foi reapresentar o narrador esquecido ao final da obra, transformando-o também em personagem, o que trouxe à história uma perspectiva mais ampla do que aquela com que havia sido narrada. Essa técnica realça as limitações do ato de observar e narrar, lembrando ao leitor que ele possui liberdade para interpretar a seu modo os personagens, os quais podem ser pessoas mais complexas do que ele consegue apreender.

Influências do autor
As influências expressas nesta obra transcendem a literatura e perpassam o cinema, a música e a religião. A preocupação em demonstrar ângulos e iluminação aproximam o livro de um roteiro cinematográfico; quanto à música, Pear Jam e Nirvana são referências recorrentes e, entre as várias alusões bíblicas, ao autor-narrador cabe um capítulo intitulado “O verdadeiro livro de Daniel”.
Uma obra construída a partir de várias fontes e que demonstra a o espírito mal contido de jovens sem perspectiva e esquecidos em uma cidade desconhecida.

TURBILHÃO ICONOGRÁFICO DA JUVENTUDE
Romance híbrido mescla literatura e cinema em fluxo onde sexo é o mote principal
por Ronize Aline
O Globo – 27.01.2007.

“Hoje está um dia morto”, romance de estréia de André de Leones, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2005, chega ao mercado cercado de expectativas se levados em conta seus dois antecessores. “Santo reis da luz divina”, de Marco Aurélio Cremaso (Prêmio Sesc 2003), foi finalista do Prêmio Jabuti 2005 e “As netas da Ema”, de Eugênia Zerbini (Prêmio Sesc 2004), teve sua primeira edição de quatro mil exemplares esgotada já no primeiro mês de venda, além de ser adotado nas escolas paulistas.
Pelo terceiro ano em que o prêmio é oferecido na categoria romance a escolha novamente prima pela diversidade. Depois de uma obra de contornos históricos e de uma prosa pautada pelas dúvidas e questionamentos do universo feminino, o novo vencedor é um turbilhão iconográfico da juventude atual no qual as palavras, mais do que texto, formam imagens – reflexo da formação cinematográfica do autor. A trama central passa-se em um único dia — seguindo uma tradição cujo maior destaque é “Ulisses”, de Joyce — e tem como protagonistas Jean e Fabiana, dois jovens atolados numa tristeza confessadamente ancestral.
Jean está sozinho em casa enquanto seus pais viajam para tentar salvar o casamento e Fabiana será sua companhia nessa falta de perspectiva norteada por apenas uma coisa: sexo. E se o sexo já está presente na primeira cena do livro, não é demonstração gratuita mas o mote de toda a obra, a forma mais constante desses jovens se expressarem. Não que isso signifique a entronização da experiência sexual, ela é apenas mais uma alternativa: “a outra seria alugar um DVD. Ou encher a cara num boteco”. Nos intervalos Jean despeja sua cultura cinematográfica e Fabiana delicia-se com Oswald de Andrade.
André utiliza uma linguagem que reproduz com exatidão o fluxo incontinente dessas vidas que sentem necessidade de racionalizar cada sentimento: na pontuação que denota a falta de ordenamento, no pensamento interrompido pois tornado descartável, na inserção de planos de cinematografia e no surgimento de novas palavras que tornam a urgência palpável, como ‘portaberta’ e ‘tristealegremente’. Essa urgência muitas vezes interrompe o narrador e faz com que os personagens sobreponham sua experiência à experiência narrada, o que resulta num brilhante dueto entre narração e ação. Destaca-se o entrecruzamento de diálogos entre Jean e a freira diretora e Fabiana e a bibliotecária, como se o cineasta André dividisse a tela em duas e nos permitisse assistir às cenas em real time – como ele mesmo escreveria. E nos surpreende na pequena segunda parte quando o descompasso anterior dá lugar a uma tentativa de ordenamento por parte de um terceiro personagem – quase uma consciência externa que impinge-se a tarefa de decifrar e registrar os acontecimentos narrados anteriormente. Com “Hoje está um dia morto” temos um bem construído exemplar do romance de formas híbridas que tomou força no século XX e que aqui nos revela um promissor expoente.

HOJE ESTÁ UM DIA MORTO
por Flávio Izhaki
Paralelos – 22.11.2006.

Juntos ou separados, Jean e Fabiana, casal de protagonistas de “Hoje está um dia morto” (Record, 160 págs.), livro de estréia de André de Leones, experimentam uma angústia de não se sentirem presos a nada. No desamparo provocado pela falta de apoio da família, de perspectivas num mundo de pós-utopias, de uma cidade pequena sem nome perdida no interior do Brasil, os dois adolescentes se agarram violentamente para continuar vivendo.
Mas o sexo que fervilha nas páginas do romance, inclusive em algumas descrições minuciosas, mas não despropositadas, jamais fornece qualquer resposta ou aplaca o sentimento, ou a falta daquilo que não tem nome. Depois e durante é a mesma depressão, angústia de antes.
“Houve possibilidades, as mesmas alternativas de sempre, de ontem de anteontem e de depois de depois de amanhã.”
Jean tem 17 anos e sente falta dos pais, uma falta ancestral, já que, segundo o próprio, os progenitores nunca foram presentes em sua vida – a mãe calada, sorumbática, esquecida de si mesmo e o pai ausente. O adolescente apela para Deus, um Deus também embebido em sexo, ironia e culpa, que Jean nos apresenta descrevendo seus sonhos.
Sem âncora no mundo, na cidade sem nome, em casa, resta ao casal transar, beber, fumar, comer, vomitar e voltar a transar, num ciclo tão previsível quanto real; Jean e Fabiana que conversam entre as longas pausas de um silêncio opressivo, que têm referências globalizadas: o cinema europeu, o rock de Seattle, os livros de Mário de Andrade.
A julgar pelo modo como o narrador conta a história, De Leones tem as mesmas referências. Formado em cinema, o autor goiano de 26 anos cruza diálogos em planos e contra-planos, embaralhando conversas de lugares diferentes em um só coro. Cita também diretores e em certos pontos do livro até imagina como aquela passagem deveria se filmada:
“Esfrega o rosto, machuca os olhos, pensa num plano de Bertolucci perdido numa prateleira empoeirada da sua cabeça com a etiqueta ‘Bertolucci – plano de procedência desconhecida/ ignorada’; é mesmo de Bertolucci isso?”
A referência ao cineasta italiano repentinamente leva ao recente “Os Sonhadores”, filme de fundo niilista em que três jovens descobrem e respiram o sexo durante a agitação da primavera de 1968 em Paris. Como escreve Luiz Antonio de Assis Brasil na orelha do livro, “Hoje está um dia morto” “não é um reviver do clássico tedium vitae, que vem exemplarmente retratado na náusea sartreana, mas algo mais denso, que engloba não somente o indivíduo, mas toda a sociedade, minando-a em seus fundamentos e negando-lhe um futuro”. Trazendo as referências cinematográficas e literárias para os dias atuais, o livro de De Leones seria esta simbiose com uma pitada de “Trainspotting”.
Ao longo deste dia comprido, que começa numa madrugada de sexo e termina na aurora de uma nova manhã que se anuncia ainda mais desalentadora que a anterior, Jean e Fabiana vão se extinguindo pouco a pouco, como parasitas, que, colados, sugam as forças um do outro, num duelo de morte ou morte.
Vencedor do Prêmio Sesc de 2006 na categoria romance, André de Leones, de 26 anos, consegue transformar em livro aquilo que muitos – seus personagens, inclusive – preferem esquecer com grandes goles de álcool, e nisso está o grande mérito de “Hoje está um dia morto”. O que virá na manhã seguinte fica por conta da capacidade do autor de mostrar se no dia seguinte alguém irá acordar, ou se todos os dias já nascem mortos.

ESCRITOR PREMIADO É FÃ DE DICKE
André de Leones, vencedor do prêmio Sesc de Literatura, com “Hoje está um dia morto”, participou de Feira de Livros em Cuiabá
Por Lorenzo Falcão
Diário de Cuiabá – 22.08.2006.

Discreto, caladão e talentoso. Mas bom de conversa, especialmente se o assunto for literatura. Assim é o jovem escritor André de Leones, vencedor do último prêmio Sesc de Literatura, que passou alguns dias em Cuiabá onde participou da Feira de Livros que aconteceu no Sesc Arsenal. Nosso bate-papo seqüenciou a entrevista que o Ilustrado fez com Moacyr Scliar, que foi assistida avidamente por Leones. O próprio Scliar, assim que se viu livre da nossa equipe, cobrou-nos uma abordagem ao autor goiano.
E foi o que aconteceu. Porque estava no programa e porque era impossível desconsiderar a sugestão de uma celebridade literária como Moacyr Scliar. “Hoje está um dia morto” é o nome do livro de André, premiado pelo concurso nacional do Sesc, que é voltado para escritores estreantes. Concorreu com mais de 500 títulos. Editado pela Record, uma das editoras mais importantes do Brasil, com tiragem inicial de quatro mil exemplares, está vendendo bem. É o sétimo colocado na lista dos mais vendidos entre os títulos da Record e pode ser encontrado nas principais livrarias.
“No mês de abril eu estava num terminal de ônibus e ia comprar algo pra beber. Estava pagando uma vendedora, quando recebi o telefonema no celular”, relembra André sobre o dia em que recebeu a notícia de que havia vencido o concurso. Ele disse para a vendedora logo em seguida: “Eu vou abraçar a senhora, acabo de ganhar um prêmio”. André conta que começou a escrever o romance em 2003 e só o terminou em 2005. Ficou sabendo do concurso do Sesc através de um amigo e resolveu enviar os originais, despretensiosamente.
“Hoje está um dia morto” é explicado pelo autor como um romance metalingüístico sobre o suicídio. André relata que precisou criar um personagem, um escritor, para disfarçar algo supostamente autobiográfico. A trama narrada relaciona-se com dramáticas experiências que o escritor vivenciou quando, na adolescência, residiu numa pequena cidade de Goiás, Silvânia, próxima a Goiânia, onde os jovens eram praticamente massacrados por uma educação católica radicalizada.
Sua atividade literária começou pela leitura entre os 13 e 14 anos. Passou pelos gibis e se apaixonou por cinema, o que lhe levou a formar-se na sétima arte. Só que no audiovisual foi acometido por uma fixação por roteiros. Atualmente estuda jornalismo e desenvolve sua verve também através do cyber espaço.
Uma pergunta típica que espreita qualquer escritor diz respeito aos autores preferidos. André cita James Joyce, William Faulkner, Dostoievski, Graciliano Ramos, Hilda Hilst, o goiano Miguel Jorge e também o mato-grossense Ricardo Guilherme Dicke. “Então você conhece o Dicke”, indago feliz e surpreso. “Conheço, mas só tive acesso a dois de seus livros: Madona dos Páramos e Cerimônias do Esquecimento”, responde-me ele. Como existe uma indevassável cumplicidade entre os amantes da boa literatura, não me sobrou outra atitude a não ser providenciar para que o jovem escritor goiano recebesse pelo menos mais dois livros de Ricardo Dicke.