Canto LXXIX

Canto LXXIX

“battistero”: batistério (em uma igreja que Pound visitou em Pisa, talvez).

“não penses que ganharias”: o “tu” é Dorothy Pound ou Olga Rudge.

“Nem te teria amado (…) feminino”: paráfrase do poema “To Althea from Prison”, de Richard Lovelace. Leia AQUI.

“Salzburg”: de uma matéria na Time (27.08.1947) sobre a reabertura do Festival de Salzburgo. A maior parte da plateia era de soldados norte-americanos.

“Amari-li”: de “Amarili, mia bella” (1602), canção de Giulio Caccini (que inventou a ópera junto com Jacopo Peri por volta de 1600).

“e o cabelo dela (…) trinta”: Constanze Weber, esposa de Mozart. Quando ele morreu, em 1791, ela de fato ainda não tinha chegado aos trinta anos de idade (nasceu em 5 de janeiro de 1762).

“Astafieva”: Serafina Astafieva (1876-1934), dançarina e professora russa. “Wigmore” é uma galeria londrina.

“G. Scott”: um “trainee” do DTC. “G. P.”: Giorgio Paresce, fascista italiano, conhecido de Pound.

“Où sont”: “Onde estão?” — no caso, onde estão os ex-seguidores de Mussolini?

“14 e 13”: Pétain foi condenado à prisão perpétua. A votação relativa à pena de morte foi apertada: 14 a 13 pela não execução.

“Scott / Whiteside”: prisioneiros no DTC. “Mr. Allingham”, citado alguns versos depois, era um “trainee” no mesmo local.

“8 pássaros”: a canção de Janequin (v. Canto LXXV) ganha uma ilustração visual no decorrer deste Canto. “Bechstein” é uma marca de piano.

“principal papal”: relativo a algo que Pound vê do lado de fora de sua tenda; “castrum romanum”: forte romano. O termo “castrum” designava qualquer edifício ou área que os romanos utilizavam como acantonamento ou posição defensiva. Esses fortes eram construídos sempre com o mesmo desenho retangular, com duas vias principais (o cardo máximo, norte-sul; e o decúmano máximo, leste-oeste), sendo que o fórum ficava na intersecção dessas vias. Várias povoados nasceram de fortes assim e se desenvolveram como cidades ainda existentes (como Castres e Barcelona).

“entrou (…) inverno”: paráfrase do final do Livro I das Guerras Gálicas, de Júlio César.

“Hagoromo” e “Kumasaka” são peças Nō (v. Canto LXXIV).

“Ismarus dos Cícones”: v. Odisseia IX, 39ss. Na tradução de Trajano Vieira (ed. 34), “cíconos”. Eles eram uma tribo trácia cuja fortaleza era a cidade de Ismara, no sopé da montanha homônima, e foram aliados dos troianos. Odisseu e seus companheiros tomam a cidade de assalto, matam a maioria dos homens, tomam as mulheres e promovem saques e pilhagens. No entanto, são surpreendidos por um contra-ataque e batem em retirada rapidamente, sofrendo muitas baixas. Depois de zarpar, também se veem em meio a uma tormenta, e navegam às cegas por nove dias. No poema, Pound faz referência justamente à loucura da empreitada (Odisseu e cia. são uns “damn fools”, “tolos malditos”, no original).

“e poi basta”: “e depois mais nada.”

O primeiro ideograma é Tz’u, “palavras, discurso, mensagem”. O segundo, “Ta”, “inteligente para apreender”.

“então qual o nome dele”: Guido d’Arezzo (992-1050), que criou a notação musical moderna, o tetragrama, e batizou as notas musicais com os nomes que conhecemos hoje (dó, ré, mi etc.). Pound lembrará o nome “desse bastardo” logo mais.

“paar teu djipe adiante”: a voz de um sentinela japonês dizendo onde os dignitários podem estacionar será entreouvida no decorrer do poema.

“San Stefano…”: igreja em Pisa repleta de bandeiras e troféus turcos e árabes, símbolos das vitórias dos Cavaleiros de Santo Stéfano.

“Attlee” / “Ramsey”: o trabalhista Clement Attley (1883-1967) foi primeiro-ministro britânico e estatizou o Banco da Inglaterra em 1946 (daí Pound simpatizar com ele); James Ramsey MacDonald (1866-1937), outro trabalhista que também foi primeiro-ministro, aliou-se aos conservadores na crise econômica de 1931 (dai Pound vê-lo como um traidor).

“em menos (…) geológica”: de uma carta de Mencken para Pound, de 1937, na qual ele diz que a reforma monetária colide com a natureza humana, e que levaria pelo menos uma era geológica para convencer as pessoas a perpetrarem qualquer mudança sistêmica.

: “inclinação moral” ou “força cultural”, segundo Terrell. A conferir.

“Wilkes”: John Wilkes (1727-97), prefeito de Londres com tendências que poderíamos chamar de populistas.

“caesia oculi”: “olhos cinzentos.”

“brilhantes” (referência à descrição homérica de Atena, “olhos glaucos”?).

“chiacchirona”: “cacarejante.”

Primeiro ideograma: Huang, “pássaro”; segundo ideograma: Niao, “amarelo”; terceiro ideograma: Chih, “descansa”.

“si come (…) dispitto”: Dante, Inferno X, 36 — Farinata degli Uberti (1212-1264), aristocrata italiano, líder militar da facção gibelina em Florença, tido como herege. Ao encontrá-lo no Inferno, Dante descreve a postura de alguém que ergue a cabeça, “como tivesse o inferno em grão despeito” (na tradução de Ítalo Eugenio Mauro, ed. 34). Sobre Farinata, v. Canto LXXVIII.

“Capaneus”: um dos sete contra Tebas. Desafiou a ordem de Zeus e tentou escalar a muralha; foi atingido por um raio. Dante o coloca no Inferno junto com os blasfemadores (v. Inferno XIV, 43ss).

feconda”: “terra fecunda.”

“cada qual em nome de seu deus”: de novo, como no Canto anterior, Miqueias 4,5.

“menta, timo e basílico”: plantas associadas ao paraíso na Comédia.

“Ye-en-mi”: As Youanmi Gold Mines Ltda. promovidas em 1912 pelo presidente dos EUA Herbert Hoover.

“Sr. Keith”: provável que o pintor norte-americano William Keith (1838-1911).

“Lince”: felino sagrado para Dionísio. No restante do poema, esses refrões líricos funcionam como uma prece a esse deus, mas tendo uma mulher específica (Dorothy? Olga? Bride Scratton? Não importa) em mente.

“Manitu”: nome que o povo algonquin dá ao poder natural que permeia todas as coisas. “Khardas” é uma provável alusão ao burro do poema épico persa Shah Nameh, de Firdausi.

“Prepare-se…”: da Odisseia X, 450.

“Lydia”: Lydia Yavorska (1874-1921), atriz russa que viveu e trabalhou em Londres. Foi ela quem provavelmente contou a Pound a história do carrasco. Ela é referida alguns versos depois como “Princesa Bariantinsky”, pois foi casada com o príncipe Vladimir Bariantinsky.

As “caudas de peixe” são as sereias, claro. A expressão citada em grego, “em Troia”, é da canção delas (v. Odisseia XII, 189-90).

“Silenus e Casey”: Silenus, um sátiro companheiro de Dionísio; Casey era um cabo no DTC. As “bassárides” são as bacantes (tal como as chamavam os trácios). Melíades: três ninfas (v. Canto III).

Salazar, Scott e Dawley eram “trainees” no DTC. A julgar por esse verso e pelo seguinte, muitos “trainees” (sobretudo os negros) tinham nomes de presidentes ou políticos importantes. Sobre as “retaliações” de Calhoun, elas serão abordadas nos Cantos LXXXVII-LXXXIX.

Mais abaixo, em grego, “Salve, Iacchos! Salve, Cythera!” (respectivamente, Dionísio e Afrodite). O termo “Iacchos” é repetido mais adiante (logo depois do verso “Ó lince, afasta a phylloxera de minhas vinhas”), com o adendo: “rejubile!”. (Em tempo: a filoxera é um inseto da família Phylloxeridae, similar aos pulgões, sugador de seiva e dependente das vinhas. No século XIX, a filoxera provocou uma crise sem precedentes na produção mundial de vinho, forçando inúmeras mudanças nas vinicultura.

: “tende piedade”. Repetição logo em seguida, com um adendo: “Kyrie eleison” (“Senhor, tende piedade”).

“Não coma delas…”: Koré (Perséfone) comeu as sementes de romã oferecidas por Dis (Hades) e, por isso, Zeus determinou que ela passasse parte do ano no mundo ínfero.

: “filha” (no caso, Perséfone, filha de Deméter).

“Pomona” é a deusa romana da abundância e dos pomares.

“crótalo”: espécie de címbalo ou castanhola. As bassáridas usariam crótalos de chocalhos de cascavel, mas, em geral, eles eram feitos de madeira, um pedaço de caniço ou junco cortado ao meio. O termo aparece duas vezes no Canto. Na primeira vez (“Há um som pela floresta / de leopardo ou de bassárida / ou crótalo ou de folhas se movendo”), dado o uso da conjunção “ou”, parece ser uma alusão ao som peculiar da cascavel; na segunda (“Kuthera, aqui estão linces e o estalido de crótalos”), dado o que é dito no contexto (mais abaixo: “Melíade e bassáride entre linces”), fica bem claro que se trata do instrumento musical.

: “de olhos glaucos” (epíteto de Afrodite).

: “ichor”, o líquido que corre nas veias dos deuses, a princípio imaginado como algo distinto do sangue dos mortais.

“Kalicanthus”: Calycanthus é um gênero de flores pertencentes à família Calycanthaceae. A espécie mais conhecida talvez seja a carocha (Calycanthus floridus), de cor vermelha bem escura e perfume acentuado.

No verso “As Graças conduziram…”, o termo grego é “Afrodite”. Alguns versos depois, temos Ἥλιος, “Hélio veio para a nossa montanha”. Nos versos finais do Canto, todas as palavras em grego dizem respeito a Afrodite: “Tu és assustadora”; “Filha e Delia e Maia” (filha = Perséfone; Delia = Ártemis/Diana; Maia = mãe de Hermes); “Cyprus Afrodite” (pois o Chipre era tido por alguns como o local de nascimento da deusa e um de seus mais importantes locais de culto); e, por fim, “Cythera” (“Citereia”, em referência à ilha de Citera, onde a deusa também era muito cultuada).

Canto LXXVIII

“Ida”: Terrell supõe que alguma discussão no DTC, com várias pessoas falando ao mesmo tempo, remeteu Pound ao Julgamento de Páris. Ao mesmo tempo, ele também parece ironizar o tratado de paz (“pax mundi”) assinado por Vittorio Emanuele e os Aliados.

“ter flebiliter, Ityn”: “três vezes, lamentavelmente, Ítis”. Pound revolve Horácio, “Ityn flebiliter gemens” — “Em pranto gemendo por Ítis faz o ninho / a infeliz ave que, por ter se vingado em funesta hora / da bárbara devassidão de um rei, a eterna vergonha / da casa de Cécrops se tornou” (grifo meu). É a segunda estrofe da Ode IV, 12 (em Horácio, Odes. Tradução: Pedro Braga Falcão. São Paulo: Editora 34, 2021). O mesmo verso aparece no Canto IV.

“(…) Janus bifronte / o bastardo de duas faces”: Pound insiste na ladainha exposta no canto anterior sobre como os verdadeiros culpados pela derrocada do regime fascista foram os corruptos como Ciano, o genro de Mussolini (que, de fato, não se opôs à destituição do sogro operada pelo rei). Ciano e Jano (“Giano”) têm sonoridades muito parecidas em italiano, e “o bastardo de duas faces” não deixa qualquer dúvida sobre o alvo dos xingamentos.

“Napoleão (…) Mussolini”: as aspas são de Sir Robert Mond (industrial, químico e arqueólogo britânico, 1867-1938), algo que Pound teria entreouvido em um estabelecimento romano (rua Balbo, nº 35), em 1935. A mesma fala reaparecerá no Canto LXXX. Eis o antissemitismo de Pound em toda a sua estupidez (Mond era judeu). Pound discorreu a respeito em A Visiting Card: “Felizmente, esses porcalhões não têm nenhum senso de proporção, ou o mundo inteiro já estaria sob o domínio racial deles”. “Deles”, judeus. Em tempo: no original, Pound dá uma engrolada nas palavras de Mond (“to crwuth Mussolini”, em que “crwuth” seria “crush”, “esmagar”; depois, no Canto LXXX, “crwuth” vira “cwuth” e Mussolini, “Mutholini”) para tornar a cena ainda mais caricatural, mas isso foi ignorado pelo tradutor.

“(…) em Nápoles, Lorenzo”: a missão de Lorenzo de Médici junto ao rei Ferrante para obter a paz com os napolitanos (v. Canto XXI).

“inoltre”: “também”, isto é, a exemplo de Sigismundo, Lorenzo também escreveu versos.

“alla terra abbandonata”: “à terra abandonada”. Pietro Metastasio (1698-1782), poeta e dramaturgo italiano, tornou-se o poeta da corte vienense em 1729. Escreveu os libretos de várias óperas, como Didone Abbandonata.

“il Programma di Verona”: o Programa de Verona é o manifesto que discorria sobre os princípios da República de Saló. “Sirmio” é o Lago Garda, na região onde Mussolini se refugiou para a derradeira investida. “San Sepolchro” é o nome da praça em Milão na qual Mussolini lançou sua carreira política.

“os quatro bispos (…) altar”: em sua longa caminhada desde Roma, Pound visitou Milão e viu o resultado dos bombardeios dos Aliados.

“Goedel”: Carl Goedel, membro da seção inglesa que se ocupava das transmissões radiofônicas e da propaganda da República de Saló.

“o homem saído de Naxos além de Fara Sabina”: Naxos, a ilha grega pela qual passaram Dionísio e Teseu. Pound vê a si mesmo como ambos em sua jornada de Roma até Gais. “Fara Sabina” é uma localidade próxima de Roma. As frases soltas nos versos seguintes são coisas que Pound ouviu pela estrada afora. “Minestra” é “sopa”; “il zaino”, “a mochila” ou “mala”, “saco” etc.; “Gruss Gott”, “Deus nos abençoe”; “Der Herr”, “o senhor” ou “mestre”; “Tatile ist gelommen”, “Papai chegou” (frase dita por Mary quando ele chegou a Gais).

“e construíram (…) Lácio”: citação da Eneida.

“bricabraque”: Pound teria dito que a “literatura que tenta evitar o exame das causas não passa de um bricabaque tolo”.

“cada qual no nome”: Miqueias 4,5 — “Sim, todos os povos caminham, cada qual em nome do seu deus: nós, porém, caminhamos em nome de Iahweh, nosso Deus, para sempre e eternamente!”.

“Mana aboda” é o título de um poema de T. E. Hulme.

“Steele”: o tenente-coronel John Steele era o comandante do DTC. “Sangue” (“Blood”) seria o nome de um “trainee” do DTC; “Slaughter” seria um “soldado negro”, nas palavras de Steele.

“Δικη”: “justiça”. Epíteto utilizado ao final da Oresteia, onde o coro age como o júri e Atena tem o voto decisivo para considerar Orestes inocente.

“a definição não pode…”: a câmera registra, mas não determina o significado.

“onde não há pessoa responsável (…) endereço”: axioma fascista.

“não um direito, mas um dever”: palavras de Mussolini para se referir à liberdade.

“Presente!”: nas reuniões fascistas, quando o nome de alguém que morrera a serviço do movimento era chamado, os camaradas berravam: “Presente!”.

“(…) quando ele (Pellegrini) / disse: o dinheiro está lá”: repetição de algo já referido no Canto LXXIV. Gianpietro Pellegrini era o subsecretário do ministro das finanças na República de Salò. Em 27 de novembro de 1943, Pellegrini disse a Mussolini que iam lhe pagar 125 mil liras por mês como salário de chefe de estado. Mussolini disse que 4 mil liras bastavam, ao que o outro retrucou que ele devia aceitar as 125 mil, pois “o dinheiro está lá”.

“Tito”: Tito Vespasiano, imperador romano (69-79 d.C.) que sucedeu o desastroso reinado de Nero e empreendeu reformas que salvaram o Império. Pound sugere que Mussolini seria uma espécie de Vespasiano do século XX. “Antonino”, citado a seguir, foi outro bom imperador (um dos chamados “cinco bons”: Nerva, Trajano, Adriano, Antonino Pio e Marco Aurélio), reinando entre 138 e 161 d.C.

“Rostovseff”: Michael Ivanovich Rostovtzeff (1870-1952), historiador e classicista norte-americano.

“o-hon dit (…) tout”: “É algo que se diz no vilarejo / que um capacete não tem utilidade / nenhuma mesmo / Ele serve apenas para dar coragem / àqueles que não têm nenhuma”.

“San Zeno”: basílica de arquitetura românica em Verona.

“Farinata”: Farinata degli Uberti (1212-1264), aristocrata italiano, líder militar da facção gibelina em Florença. Ele foi considerado um herege por alguns contemporâneos, incluindo Dante Alighieri, que o colocou no Inferno (no canto X, especificamente, em covas ardentes). Em 1283, os corpos de Farinata e de sua esposa, Adaleta, foram exumados, julgados e condenados postumamente por heresia. Seus restos, assim, foram cerimoniosamente mutilados. A heresia de Farinata teria sido descrer que houvesse vida após a morte e professar certo epicurismo. Os versos de Pound descrevem uma estátua de Farinata em San Zeno. Alguns versos depois, Pound cita outro líder gibelino, Can Grande della Scala (1291-1329). Este foi amigo e protetor de Dante.

“E fa (…) tremare”: “E faz o ar tremer com a claridade.”

“Assim lá sentamos”: Pound, Eliot e D. M. G. Adams em seu passeio no começo dos anos 1920. “Thiy”: Bride Scratton (o apelido veio de uma antiga rainha egípcia); o “decaduto” (“decadente”) seria Eliot. “Rochefoucauld” é uma referência a um poema de Eliot, “The Boston Evening Transcript” (leia AQUI). O Café Dante ficava em Verona.

“aram vult nemos”: “o bosque precisa de um altar” (v. Canto LXXIV).

“como sob os altares (…) confusões)”: Analectos XXI, 1; “‘Decidiu Kao-yao (…) se mandaram”: Analectos, XXII, 3-6.

A “disputa no senado” diz respeito às discussões acerca da 18ª emenda e a Liga das Nações. Lodge e Knox eram congressistas contrários à entrada dos EUA na Liga das Nações. A 18ª emenda instituiu a Lei Seca (1919-1933).

“Odon”: O. Por (1883-?) foi um escritor italiano que abordava problemas sociais e econômicos. Um dos prediletos de Pound.

Churchill e Midas: ref. à desastrosa reinstituição do padrão ouro pelos britânicos em 1925.

O ideograma é “Tao”, “o processo” ou o “caminho taoísta”.

Nos versos seguintes, Pound delineia alguns preceitos da teoria do crédito social e reitera a história de que tentara convencer Mussolini e adotar essas ideias, mas ele “foi dependurado pelos calcanhares (…) ‘Por um porco'” (segundo o romancista inglês Edgar Jepson) antes que pudesse fazer isso.

“O Roubo da Égua”: O Celebrado Romance do Roubo da Égua é um romance medieval muito popular no Norte da África. Foi traduzido do árabe por Lady Anne Blunt e versificado por Wilfred Scawen Blunt em 1892.

“casûs bellorum”: eventos ou circunstâncias usados para justificar uma guerra.

“mãos cerradas”: no original, “mits”. O tradutor comeu bola aqui. Trata-se de mais uma alusão à canção sobre a moça cujos seios são tão grandes quanto as luvas (“mitts”) de Jack Dempsey. O “Sr. Wilson” era o “trainee” no American Disciplinary Training Center (DTC) que cantava: “My girl’s got great big tits / Just like Jack Dempsey’s mitts”. Pound erra a grafia de “mitts”.

“Harriet”: Harriette Wilson (1789-1846), em cujas Memoirs (1825) há uma discussão entre ela e Wellington (o próprio Arthur Wellesley (1769·1852), 1º Duque de Wellington, general britânico que derrotou Napoleão em Waterloo) sobre ser ou não apropriado que um homem não tire as botas para transar. Ao que parece, a coisa teria a ver com o duque e a duquesa de Marlborough.

“videt et urbes”: tradução latina da Odisseia I, 2, “qui mores hominum multorum vidit et urbes”, “as muitas urbes que mirou” (Trajano Vieira, ed. 34).

: “polumétis”, “multiversátil” (epíteto de Odisseu).

“ce rusé personnage”: “esse personagem astuto”. Foi assim que W. H. D. Rouse (1863-1950) traduziu “polumétis”, solução aprovada por Pound. James Otis (1725-1783), referido em seguida, foi um advogado e patriota norte-americano que se opôs à Lei do Selo (1765). Ele também renunciou ao cargo de advogado-geral em Boston por ser contrário à emissão dos “writs of assistance” (permissões para que os agentes da coroa fizessem buscas em embarcações e residências sem a necessidade de mandados; na prática, eles podiam proceder buscas quando e onde quisessem, sem atestar causa provável ou nada do tipo).

“asfódelo”: ref. Odisseia XXIV, 10-14. A “campina asfodélica” era uma das três regiões do mundo ínfero dos mortos (as outras duas eram os Campos Elísios e o Tártaro).

“No hay amor (…) amor”: “Não há amor sem ciúmes / Sem segredo não há amor” — o título de uma peça do dramaturgo espanhol Lope de Vega (1562-1635).

“Doña Juana la loca”: Joana (1479-1555), filha de Fernando de Aragão e Isabel de Castela, mãe de Carlos V. Enlouqueceu com a morte do marido, Filipe, do qual nutria ciúmes doentios (sobretudo nos últimos anos de vida dele). O apelido “La loca” também se aplica à atriz Lucia de Salcedo, por quem Lope de Vega foi apaixonado. Quanto a Cunizza, v. Canto VI e Canto XXIX.

“tédio daquele romano nas escadas de Olivia”: não se sabe quem é o “romano”; “Olivia” é a britânica Olivia Rossetti Agresti (1875-1960), ativista e intelectual, filha do crítico de arte William Michael Rossetti e da artista e modelo Lucy Madox Brown. Agresti viveu por muitos anos em Roma e se correspondeu com Pound. Ideologicamente, ela foi do anarquismo ao fascismo, o que seria cômico se não fosse estúpido. Com sua irmã Helen Rossetti Angeli (1879-1969), publicou um jornal anarquista, The Torch. Depois, usando o pseudônimo “Isabel Meredith”, elas publicaram o livro A Girl Among the Anarchists. Ela já apareceu logo no começo do Canto LXXVI. Alguns versos depois, Pound fala no “Dr. Williams”; trata-se do poeta William Carlos Williams, com quem Pound estudou na Universidade da Pensilvânia.

“A Primavera e o Outono”: os Anais da Primavera e do Outono (Ch’un Ch’iu), o último dos Cinco Clássicos. Trata-se de um relato cronológico dos principais eventos ocorridos na província de Lu entre 722 e 484 a.C., geralmente atribuído a Confúcio (Lu era o estado natal dele). Nos Anais, conforme Mêncio, é dito que não há guerras justas (mas há exemplos de guerras melhores do que outras).

Canto LXXVII

Pound utiliza vários ideogramas nesse canto. Suas respectivas traduções são oferecidas por ele logo após o poema, no “Canto 77 – explicação”. Note-se que, a exemplo de outras ocorrências, ele costuma antepor a tradução de alguns desses ideogramas nos próprios versos. Logo, é só prestar atenção que a coisa faz sentido de imediato

“Abner” era um dos prisioneiros do DTC.

“Maukch”: Gothardt Maukshk foi um vendedor de livros que trabalhava para Sansoni, um editor em Florença. Pound visitou Maukshk em 1959, acompanhado por Ricardo degli Uberti.

“Katin”: ou Katyn, um vilarejo russo próximo de Smolensk. A região foi ocupada pelos alemães na Segunda Guerra. Em abril de 1943, os alemães descobriram valas comuns na floresta homônima próxima do vilarejo. Três anos antes, em abril e maio de 1940, autoridades soviéticas executaram e enterraram ali cerca de 22 mil militares poloneses e outros prisioneiros de guerra (a União Soviética invadira o leste da Polônia em 1939). Após a descoberta das covas, os soviéticos disseram que os nazistas eram responsáveis pelo massacre, mas, na época em que Pound escreveu esse canto, já havia evidências de que as execuções em massa foram ordenadas por Stálin e levadas a cabo pelo NKVD. Foi apenas em 1990 que a URSS reconheceu ter sido responsável pelo morticínio e pela tentativa de acobertamento.

“as fossas comuns em Katin”: no original, “the mass graves at Katin”. Creio que a melhor tradução seria “covas” ou “valas comuns”.

“le beau monde gouverne (…) toujours”: o “belo mundo”, isto é, as “altas rodas”, a elite social e econômica que “sempre” governa.

A citação que se inicia em “e tendo-os pego” é de Confúcio (grafado logo em seguida como “Kungfutseu”).

“Entrou no empório dos Irmãos Watson em Clinton, N.Y. (…) objetivo imediato”: algo que Pound teria observado quando tinha cerca de 19 anos e estudava no Hamilton College.

“Arcturus”: uma grande estrela da constelação Boötes.

“e a hennia de Awoi”: referência à Lady Awoi da peça Nō Awoi no uye, traduzida por Pound a partir das anotações de Fenollosa. Awoi, a primeira mulher de Genji, é consumida pelos ciúmes das demais esposas dele. A hennia é um espírito maligno nas peças Nō.

“homens ascenderam de X86vos”: “da terra”, os homens ascenderam “da terra”.

O “kylin” é um animal mitológico que tem o corpo de um cervo, a calda de um touro, as patas de um cavalo, um chifre carnudo, a crina parcialmente colorida e a barriga amarela.

“(a dança é um meio)”: as referências à dança nesse canto e noutros dessa série (LXXVIII/477, LXXIX/491 e LXXXI/518) derivam do artigo “Ceremonial Game-Playing and Dancing in Mediaeval Churches”, de George Robert Stow Mead, em especial da seção “The Pelota Ball-Dance of Auxerre”. O artigo foi publicado na revista The Quest (vol. 4, nº 1, outubro de 1912, págs. 91-123).

A “montanha de origem” (“native mountain”, no original) é uma expressão japonesa que designa o local de nascimento de alguém.

A citação em grego é das Meditações de Marco Aurélio (IV, 41), um dito que ele atribui a Epíteto: “És uma pequena alma que soergue um cadáver” (na tradução de Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2019).

Alguns versos depois, a citação em inglês antigo, “summe fugol othbaer”, é o verso 81 de The Wanderer e pode ser traduzido como “o navio [ou o pássaro] levou um deles embora”.

: “com belas madeixas” ou “cachos”.

“Ida” e “Nemi” são, respectivamente, o Monte Ida (onde Afrodite e Anquises se casam e o julgamento de Páris ocorre, entre outras coisas) e o Lago Nemi (localizado no Lácio, em cujas proximidades ficaria o bosque consagrado a Diana).

“dum capitolium scandet”: das Odes de Horácio (III, 30). Os versos são “Non omnis moriar, multaque pars mei / vitabit Libitinam: usque ego postera / crescam laude recens, dum Capitolium // scandet cum tacita virgina pontifex”. Na tradução de Pedro Braga Falcão (São Paulo: Editora 34, 2021), “Nem tudo de mim morrerá, de mim grande parte / escapará a Libitina: jovem para sempre crescerei / no louvor dos vindouros, enquanto o pontífice // com a tácita virgem subir ao Capitólio”. Nessa ode, Horácio discorre sobre como teria erigido um “monumento mais duradouro que o bronze”, que “escapará a Libitina” (a deusa romana que acompanhava os funerais) etc. A “virgem” é a vestal que subia ao Capitólio (símbolo da eternidade de Roma) a fim de orar pelo bem da cidade.

“como as duas metades de um selo ou uma vara de medição?”: Shun e Wan viveram em momentos distintos e vieram de regiões distintas (leste e oeste, respectivamente), mas ambos tiveram disposições e ideais similares no que diz respeito ao Reino Médio, daí Pound dizer que seus “desígnios eram um só”. Nos tempos antigos, como símbolo da investidura, o imperador entregava a metade de uma vara ou pedra, mantendo consigo a outra metade.  Quando a ocasião requeria, essas metades eram reunidas, reafirmando a unidade.

“1766 ante Christum”: em 1766 a.C., o imperador Ch’eng T’ang abriu uma mina de cobre e cedeu os lucros obtidos para que as pessoas comprassem grãos.

“Κύθηρα”: Citera (ref. Afrodite).

“sob a terra.”

“terra” (referência aos homens que, no mito de Cadmo, brotam da terra, armados e prontos para lutar). No caso, o verso seria melhor traduzido como “as formas dos homens emergem da” terra.

“qual uma seta…”: Analectos XV, 6.

A referência a Pirandello diz respeito a algo que ele teria dito sobre Cocteau no Café Campari, em Milão. Cocteau estaria tentando adaptar Édipo Rei, e Pirandello disse temer que ele resvalasse na psicanálise, mas depois achou que isso não aconteceria, pois “é um excelente poeta”.

“Gaudier”: Henri Gaudier Brzeska (1891-1915), escultor francês e um dos amigos mais queridos de Pound. Alistou-se para lutar na Primeira Guerra Mundial e morreu em Neuville St. Vaast no dia 5 de junho de 1915. Pound escreveu uma homenagem a ele, Gaudier Brzeska. A Memoir (1916).

“Miss Lowell”: Amy Lowell (1874-1925), poeta e crítica norte-americana, foi para Londres em 1914 e entrou para as fileiras do imagismo. Era uma mulher enorme, muito voluptuosa, daí a referência à sua “massa telúrica”. Como fosse rica e muito dinâmica, atraiu várias pessoas para o movimento, que passou a ser chamado de “amygismo”. No dia 17 de julho de 1914, ela ofereceu um jantar no restaurante Dieudonné para celebrar o lançamento da primeira antologia imagista. Eram doze convidados, incluindo Ezra e Dorothy Pound, Allen Upward e Brzeska. Este, maravilhado com a voluptuosidade de Lowell, teria mensurado as formas e ângulos da mulher, daí a referência às “duas tetas de Tellus” alguns versos antes. Quando Lowell se levantou para falar, Brzeska teria dito a Pound: “Meu Deus! Gostaria de vê-la nua”.

Upward (1863-1926) seria alguém muito incerto, daí oscilar entre as mentes de Platão e Bacon.

“Não dens focê baixões bolíticas?”: imitação de um forte sotaque russo-alemão. No caso, de Henry Slonimsky (1884-1970). Nascido em Minsk, foi colega de Pound na Universidade de Penn (1902-3). Em 1912, concluiu o doutorado na Universidade de Marburg com uma tese sobre Heráclito e Parmênides. A frase teria sido dita por Slonimsky para Pound em 1912.

“Miscio”: Michio Ito (c.1892-1961), bailarino japonês, egresso de uma família de samurais, estudou balé no Japão, em Paris (com Nijinsky e o Balé Russo) e na Alemanha. Foi para Londres após o início da Primeira Guerra e viveu em extrema pobreza por um tempo. Morava em uma pensão dirigida por uma irlandesa (provável que a “Sra. Tinkey” referida alguns versos depois). Depois de penhorar tudo o que tinha, incluindo suas gravatas, ficou sem um tostão e passou três dias sem aquecimento e energia elétrica (“… sentou-se no escuro sem ter um tostão para o gasômetro”). Um amigo pintor levou-o a uma festa na casa de Ottoline Morrell, onde conheceu Lady Cunard; esta o convidou para jantar no dia seguinte. A partir daí, Ito passou a dançar em festas e saraus. Certa vez, após dançar para um público considerável, um senhor distinto puxou conversa, perguntando sobre arte japonesa. Ito disse que não falava inglês muito bem, mas, caso o interlocutor conseguisse, poderiam papear em alemão (“Fala alemão?”). O sujeito era ninguém menos que o primeiro-ministro britânico H. H. Asquith, e eles conversaram em alemão.

“Ainley” era Henry Ainley (1879-1945), um célebre ator inglês. Ele e Ito atuaram juntos em uma montagem da peça At the Hawk’s Well, de Yeats, na sala da casa de Lady Cunard, em 2 de abril de 1916.

“Tal como as luvas de Jack Dempsey”: Wilson era um trainee no American Disciplinary Training Center (DTC), onde Pound ficou encalacrado. Ele costumava cantar: “My girl’s got great big tits / Just like Jack Dempsey’s mitts”.

“o velho piloto de Dublin”: em um artigo intitulado “John Synge and the Habits of Criticism”, publicado em The Egoist (fevereiro de 1914], Pound escreveu sobre um velho marujo que se referia nesses termos (o lance da pulga) aos amores que tivera na juventude.

“bal seno”: “belo seio”; “Δημήτηρ”: Deméter; “copulatrix”: aquela que copula.

“Ciano”: Galeazzo Ciano di Cortelazzo (1903-44), genro de Mussolini, ocupou diversos cargos no governo e, dizia-se, era bastante corrupto. O “almirante” que fala é Ubaldo degli Uberti (1881-1945), oficial naval italiano que se aposentou em 1931, mas retornou à ativa para lutar na Segunda Guerra Mundial. As famílias de Pound e Uberti se tornaram amigas em 1934; Uberti ajudou Pound a traduzir e publicar seus escritos na Itália. O “ele” que devia se livrar de Ciano é, claro, Mussolini. A frota italiana se rendeu aos Aliados em setembro de 1943. Uberti foi vítima de uma emboscada e alvejado por soldados russos-alemães (eles pensaram que o carro pertencia a partisans) e morreu num hospital em 28 de abril de 1945.

“Chilanti”: Felice Chilanti (1914-1982), jornalista e autor de romances, um fascista dissidente de cujas ideias Pound discordava, embora o visitasse com certa regularidade para ouvir o que tinha a dizer.

“Gais” é a vila no Tirol onde a filha de Pound e Olga Rudge, Mary de Rachewiltz, foi criada.

“Chung Ni” é Confúcio (v. cantos LIII e LVI).

“estátua do alpino”: monumento em Bruneck (“Brunik”) no qual os tiroleses faziam manifestações exigindo que os italianos fossem embora.

“Jactância (…) de trabalho”: a crença de Mussolini e muitos fascistas (incluindo Pound) de que seu governo caíra por conta da corrupção, não pelos problemas inerentes à ideologia. Havia a esperança de que República de Saló não incorreria nos mesmos erros.

“Alice e Edmée”: Alice May e o artista e ilustrador Edmund Dulac (1882-1953), nascido na França mas residente na Inglaterra (e eventualmente tornado cidadão britânico) desde 1905.

: “e a deusa Ida”.

“E La Miranda”: Isa Miranda (1909-1982), atriz italiana.

“Romano Ramona”: provavelmente um guarda no DTC.

A palavra em grego significa “merda”.

“Margherita”: uma criança que, abandonada pelos pais, foi criada pela família que hospedava Mary de Rachewiltz. Seu apelido era Margit. O verso “Ó Margaret das sete aflições” remete à canção “Spring and Fall: To a Young Child”, de Hopkins.

“Lanier”: Sidney Lanier (1842-1881), poeta norte-americano, autor de The Symphony, poema épico no qual é discutida a interação entre ética e comércio. “Jeff Davis” é, claro, o “presidente” confederado Jefferson Davies (1808-1889).

“Ils n’existent… existence”: “Eles não existem, seu ambiente lhes confere uma existência.”

O “velho André” é André Spire (1868-1966), poeta francês defensor do sionismo (daí que ele “pregava o vers libre com fúria isaíaca”).

“Un curé (…) déguisé”: “Um padre disfarçado”; “‘Me parece um padre disfarçado’ à porta”; “Não sei, senhor, ele me parece um padre disfarçado.”

É improvável que o ultraconservador Leon Daudet (1867-1942), líder da Action Française, ajudasse Cocteau a se tornar membro da mesma.

“La Comtesse”: Nadajda de la Rousseliere-Clouard, que se casou em 1901 com Guillaume-Joseph-Marie, conde de Rohan-Chabot. A condessa vivia na av. Henri-Martin, em Paris, e isso remete Pound a outro Martin, o o deputado republicano por Massachussetts Joseph William Martin, muito poderoso à época da Segunda Guerra (o “mal” que ele fez foi se opor a George Tinkham). A referência aos “30.000” é algo que Pound teria ouvido: alguém pagou 30 mil para conseguir a nomeação à presidência, quando bastariam 6 mil, o que evidenciaria a debilidade do Partido Republicano; é provável que tenha sido Alfred Mossman Landon (governador do Kansas e, de fato, candidato à presidência em 1936), citado no verso seguinte. Wendell Willkie foi o candidato republicano à presidência em 1940.

“Roi je ne (…) daigne”: “Eu não sou o rei, não condescendo em ser o príncipe” — variação do lema da Casa de Rohan. Diz-se que o rei Vittorio Emanuele (referido alguns versos depois) teria proposto a Mussolini torná-lo um nobre, coisa que o fascista recusou (ou teria recusado) citando o lema dos Rohan ou uma variação do mesmo. Os “decretos” assinados pelo rei dizem respeito à destituição de Mussolini e à rendição da Itália aos Aliados.

“se casco…”: “Se caio, não caio de joelhos” — Bianca Capello, uma duquesa Médici de Florença, teria dito isso. Para Pound, Mussolini pensou algo similar, indo para o Norte estabelecer a República de Saló.

“Schinafoja” (ou Schinafoia) é o palácio construído por Alberto d’Este em Ferrara, em 1391, famoso pelos afrescos de Cosimo Tura e Francesco del Cossa, referidos em outros cantos.

Após uma série de frases soltas, sugerindo conversas e traços de conversas que Pound ouviu quando estava no DTC (os nomes citados são de prisioneiros e soldados de lá), há uma referência ao “tio William”, isto é, W. B, Yeats, que também viveu em Rapallo.

“Kitson”: Arthur Kitson (1860-1937), escritor britânico, autor de obras sobre o dinheiro e os sistemas monetários que Pound julgava excelentes e divulgava, como The Money Problem e Trade Fallacies. “Vetta”, “cume”: referência ao Promontório Portofino, um parque próximo de Rapallo.

“Shah Nameh”: no caso, Shah Namah, o Livro dos Reis, épico persa composto por volta do ano 1000 d.C. “Basil” é o poeta inglês Basil Bunting, amigo de Pound que o visitava sempre em Rapallo. “Firdush” é o pseudônimo de Abul Kasim Mansur (c.940-1020), autor do Shah Namah. Os caracteres correspondem ao nome “Firdush” em persa.

“Kabir”: um dos doze discípulos de Ramananda, foi um reformador que viveu no Norte da Índia no século XV. “Rabindranath” é Tagore (1861-1941), poeta bengali nobelizado em 1931. Pound gostava da obra dele.

“Montagu: Sir Montague de Pomeroy (v. canto LXXXIV).

“bunya”: “agiota” em hindu.

“Kohinoor” é o mais famoso diamante indiano, agora entre as joias da coroa britânica.

“Tom” era um dos trainees no DTC, e o “disco de lata” diz respeito à placa de identificação que os soldados usam dependuradas no pescoço.

“Das Bankgeschäft”: “o negócio bancário”.

“Wabash” refere-se à canção “The Wabash Cannonball”, que tocavam no sistema de som do DTC.

“Sorella, mia sorella (…) zecchin'”: “Irmã, minha irmã / que dançava sobre uma moeda de ouro.”

Violência em Tito Lívio e Maquiavel

 

A VIOLÊNCIA NA CONSTITUIÇÃO E NA MANUTENÇÃO DO ESTADO
EM TITO LÍVIO E MAQUIAVEL

 

Intro.

O itinerário deste texto se concentra sobretudo no livro I dos Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio, nos capítulos (19 e 20, entre outros) em que o pensador florentino Nicolau Maquiavel (1469-1527) aborda a importância dos príncipes fortes (belicistas) e, por conseguinte, do papel da violência na criação e na sustentação do Estado. Os alicerces de Roma, por exemplo, foram lançados e firmados por dois reinados ferozes (Rômulo e Tulo Hostílio), os quais foram entremeados por um ordenador da vida civil (Numa) que, nas palavras de Tito Lívio (1989, p. 45), refundou a cidade “com base no direito, na lei e nos bons costumes”.

Em um primeiro momento, discorrerei sobre essa distinção maquiaveliana, contrapondo-a ao tom menos belicoso adotado pelo autor da História de Roma. A narrativa acerca do reinado de Numa, tido por Maquiavel como um príncipe fraco, mas por Tito Lívio como responsável por uma contribuição muito importante para a grandeza de Roma, servirá para ressaltar o que há de diferente nessas abordagens.

Na parte seguinte, ancorado nas distinções já traçadas, abordarei a noção de um príncipe coletivo, surgido após o fim do período monárquico romano. Tanto Maquiavel quanto Tito Lívio concordam que a liberdade só se tornou possível após a instituição da república ou, nas palavras do primeiro, depois “que Roma expulsou os reis”, não estando mais “exposta aos perigos (…) da sucessão de um rei fraco ou mau” (MAQUIAVEL, 2007, p.79). Há, contudo, discordâncias entre eles quanto ao caráter da relação entre a plebe e os patrícios, sobre as quais tenciono digressionar.

Tito Lívio fala, por exemplo, em reconciliação após os conflitos que culminaram na criação dos tribunos da plebe, no século V a.C. Maquiavel, por sua vez, postula uma inexorável mecânica conflituosa, cuja administração, por assim dizer, seria imprescindível para a sustentação da república, na medida em que mantém as ambições e os desejos privados dos partidários sob controle, sem (muito) prejuízo do bem comum e do Estado.

 

1. Príncipes fortes e príncipes fracos.

No capítulo 19 dos Discursos, Maquiavel ressalta a imensa fortuna de Roma, que teve dois reis fortes entre os seus três primeiros governantes (Rômulo, Numa e Tulo Hostílio): “o primeiro rei foi ferocíssimo e belicoso, enquanto o segundo foi tranquilo e religioso, ao passo que o terceiro se assemelhou em ferocidade a Rômulo” (MAQUIAVEL, 2007, p. 76-7). No entender do pensador florentino, um príncipe fraco é todo aquele que não guerreia, que não se ocupa da guerra. É nesse sentido que devemos encarar a “fraqueza” de Numa, cuja importância, contudo, não pode ser diminuída, na medida em que ele atuou como um “ordenador da vida civil” (Ibid., p. 77).

Segundo rei de “uma cidade jovem fundada pela força das armas”, Numa tratou de “fundá-la novamente com base no direito, na lei e nos bons costumes” (TITO LÍVIO, 1989, p. 45). Tal refundação, no entender do monarca, não seria factível em meio a uma série interminável de conflitos armados. Assim, ele trabalhou para alcançar a paz com os vizinhos por meio de tratados e alianças, dirimindo as possibilidades de novas invasões e embates, e encontrou na religião uma forma de organizar a vida citadina e canalizar a brutalidade dos súditos:

(…) Mas para que a ausência de perigo externo e a paz não enfraquecessem o caráter daqueles homens até então contidos pelo medo do inimigo e pela disciplina militar, [Numa] achou que o meio mais eficaz seria infundir no espírito daquela multidão ignorante e ainda rude o sentimento poderoso de temor aos deuses. E como era impossível fazê-lo penetrar nos corações sem o auxílio de algum prodígio, simulou ter entrevistas noturnas com a deusa Egéria (Ibid., p. 46).

Ao que parece, em sua intenção de ordenar a vida civil, Numa percebeu que não seria possível simplesmente suprimir a violência essencial que animava o povo, sobretudo após um reinado como o de Rômulo. Nesse sentido, o temor aos deuses infundido por meio da religião (e de uma trapaça) mostrou-se uma ferramenta muito eficaz para a supracitada canalização. Sem o perigo representado pelas ameaças externas e com os instintos do povaréu sob controle, em mais de quatro décadas de reinado, Numa pôde negociar e manter os tratados e alianças com os povos vizinhos[1], e instituir as leis e instituições que julgava imprescindíveis para a cidade.

“Assim”, lemos na História de Roma, “dois reis sucessivamente, por caminhos diversos, um pela guerra, outro pela paz, contribuíram para a grandeza de Roma” (Ibid., p. 48-49). Numa desempenhou muito bem o seu papel para com a cidade, no entender de Tito Lívio. Não há, na História de Roma, qualquer ressalva ou crítica ao comportamento pacifista do sucessor de Rômulo.

Maquiavel, por sua vez, não ignora a importância de um “ordenador da vida civil” como Numa, mas entende que “depois era necessário que os outros reis retomassem a virtù[2] de Rômulo”, pois, “se isso não ocorresse, a cidade se tornaria efeminada e presa fácil dos vizinhos” (MAQUIAVEL, 2007, p. 77). Roma sobreviveu à “fraqueza” de Numa, à sua aversão à guerra e ao conflito, e beneficiou-se grandemente da organização por ele engendrada, mas talvez não tivesse sobrevivido a um sucessor que partilhasse do mesmo caráter pacífico.

Tulo Hostílio, o terceiro rei de Roma, resgatou a virtù de Rômulo, sendo “ainda mais belicoso”: ele acreditava que “a cidade enfraquecia por inércia [ócio]” e, por isso, procurou por pretextos para guerrear (TITO LÍVIO, 1989, p. 49). Desnecessário pontuar que logo encontrou o que buscava.

Conforme aponta o professor José Luiz Ames no artigo “Lei e violência ou a legitimação política em Maquiavel”, a concepção maquiaveliana afirma que um Estado só consegue manter “sua autoridade por meio de um retorno contínuo ao momento da origem”, isto é, “àquele momento da violência de Rômulo, e essa volta repõe a lei na indeterminação originária que, por sua vez, a recoloca em movimento” (AMES, 2011, p. 22). Na leitura de Ames, a violência fundadora do Estado e a violência constitutiva da lei são uma só e a mesma violência, cujo objetivo é extinguir a violência anterior e/ou marginal a tais fundação e constituição.

Em “Que é Autoridade?”, Hannah Arendt (2009, p. 184) remete à afirmação maquiaveliana sobre a necessidade de violência “para fundar novos Estados e para reformar os degenerados”. A fundação seria “a ação política central, o único grande feito que estabelecia o domínio público-político e que tornava possível a política” (Ibid., p. 184). Maquiavel teria plena consciência do caráter circular da história, bem como da corrupção inerente a qualquer Estado ou organização política. Com vistas a conter o inevitável avanço da corrupção e a consequente ruína do Estado, torna-se necessária a refundação, isto é, um retorno àquele instante originário — em se tratando de Roma, um retorno à ferocidade de Rômulo.

Sem esse retorno à violência originária, capaz de engajar toda a cidade em torno de um objetivo comum, é possível que o enfraquecimento percebido por Tulo chegasse a tal ponto que arruinasse Roma. Acostumada à paz e assim desarmada, a cidade se tornaria presa fácil para quaisquer invasores e inimigos. E, antes disso (ou concomitantemente a isso), sem um objetivo comum e ulterior, público, as ambições individuais levariam aos vícios institucionais e “pouco republicanos” (para usar uma formulação contemporânea, e pedindo desculpas pelo anacronismo), ou seja, levariam à corrupção generalizada e à depauperação do Estado.

Maquiavel sublinha que tal perigo, o de ser governada por uma sucessão de reis fracos que acabariam por destruí-la, e/ou por vários reis malvados e tirânicos, como Tarquínio, o Soberbo, pairou sobre Roma até a eleição dos primeiros cônsules — e o próprio Tito Lívio (1989, p. 105) identifica o fim da realeza com a libertação do povo romano, a partir daí “sob o governo de magistrados eleitos anualmente e sob a autoridade de leis superiores à autoridade dos homens”.

Para Maquiavel, um governante similar a Numa pode ou não manter o Estado, conforme os humores dos tempos e da fortuna (e, nesse sentido, ele teve a boa fortuna de ser antecedido por alguém como Rômulo e sucedido por Tulo), ao passo que um governante como Rômulo, “sendo como ele armado de prudência e de armas”, manterá o Estado “de qualquer modo, desde que ele não lhe seja arrebatado por força obstinada e extraordinária” (MAQUIAVEL, 2007, p. 78). Segundo esse ponto de vista, a sucessão romana possibilitou que a cidade assegurasse, por um lado (via Numa), o desenvolvimento e a sedimentação de suas leis, mas, por outro (via Rômulo e Tulo), as suas próprias existência e grandeza.

Em outras palavras, conforme a interpretação maquiaveliana, é possível afirmar que, sem os “príncipes fortes”, Roma talvez tivesse naufragado antes de alcançar a glória pela qual se tornou conhecida. Em seu período inicial, quando governada por reis e vulnerável à possibilidade de se ver submetida a monarcas fracos ou malvados, afirma Maquiavel, Roma sempre flertou com a ruína.

 

2. Príncipe coletivo.

Como vimos, Tito Lívio considera o povo romano livre a partir do momento em que passa a eleger seus cônsules. E, por seu turno, conforme exposto acima, Maquiavel fala na “expulsão” dos reis como o fato que libertou Roma do “perigo de ser arruinada” por um governante “fraco ou mau”:

Porque aos cônsules foi dado o poder supremo, não por herança, fraudes ou ambição violenta, mas por sufrágio livre; e eram sempre excelentes homens: Roma, valendo-se de tempos em tempos da virtù e da fortuna deles, pôde atingir o máximo de grandeza num número de anos igual ao que estivera sob os reis (MAQUIAVEL, 2007, p.79).

É possível falar, então, na substituição de um príncipe forte ou fraco, feroz ou não, por um príncipe coletivo, que elege regularmente seus representantes tendo em vista não ambições individuais, mas o bem comum da cidade ou Estado. Em termos de violência ou ferocidade, esse príncipe coletivo seria forte, sempre disposto a se ocupar da guerra (o que explicaria a expansão romana nos séculos posteriores à “expulsão” dos reis) e jamais fugindo à mecânica conflituosa ali instaurada.

Maquiavel chama a atenção nos Discursos (I,4) para o fato de que foi o caráter “tumultuário” da república romana que possibilitou a sua liberdade: “em toda república há dois humores diferentes, o do povo, e o dos grandes”, e todas as leis concebidas “em favor da liberdade nascem da desunião deles”. No extremo, não há concórdia possível, ou melhor, não existe nenhum estado de coisas ou lugar no qual vigore alguma espécie de harmonia absoluta e plena. Há sempre tensão e confronto, e isso é saudável, pois os “bons exemplos nascem da boa educação”, a qual surge das boas leis, ao passo que as boas leis advêm dos tumultos (Ibid., p. 22). Os romanos souberam lidar com esses tumultos, usando-os para aliviar os desejos e a insubmissão do povo, por um lado, e refrear a ambição dos patrícios, por outro.

Maquiavel nos alerta para o fato de que “os desejos dos povos livres raras vezes são perniciosos à liberdade, visto que nascem ou de serem oprimidos ou da suspeita de que virão a sê-lo” (Ibid., p. 23). Assim, sempre que instado a fazer algo que percebia contrário aos seus próprios interesses ou quando almejava a aprovação de alguma lei, mas esbarrava na pressão ou na recusa dos grandes, o povo reagia com ferocidade, paralisava o comércio, tomava as ruas, cercava o senado, recusava o alistamento e, em um momento particularmente tenso, chegou a abandonar a cidade. Em suma, o povo fazia o que estava ao seu alcance para ser ouvido e tomar a parte que lhe cabia na condução da cidade.

Aqui, mais uma vez, talvez seja interessante discernir as visões de Maquiavel e Tito Lívio. Ao discorrer sobre os conflitos entre a plebe e o senado e os cônsules por causa das prisões por dívidas e do alistamento obrigatório, o historiador romano nos conta o seguinte:

(…) O Senado então exigiu-lhes [dos cônsules] que procedessem ao recrutamento com o maior rigor possível, pois a ociosidade era a causa da insolência da plebe.
Encerrada a sessão, os cônsules subiram à tribuna e fizeram a chamada nominal dos jovens. Como ninguém respondesse, a multidão presente cercou os cônsules (…) e declarou que ninguém mais enganaria a plebe, que não conseguiriam mais um único soldado, a menos que o Estado permanecesse fiel a seus compromissos. Era preciso dar liberdade a todos os cidadãos antes de dar-lhes armas (TITO LÍVIO, 1989, p. 143-144).

A situação degringolou ao ponto de se tornar insustentável. Roma viu-se paralisada pelo medo e pelo terror, com todos os cidadãos desconfiados uns dos outros. Dado esse calamitoso estado de coisas, a reconciliação entre patrícios e plebeus era imprescindível para a sobrevivência do Estado. Menênio Agripa, “estimado pelo povo por suas origens plebeias”, foi escalado para apaziguar os ânimos, e o fez por meio de um discurso no qual comparou as discordâncias e conflitos em curso a um corpo humano cujos membros e órgãos se rebelaram contra o estômago, “que obtinha tudo à custa de seus cuidados, seu trabalho e serviços, ao passo que ele próprio, ocioso”, apenas gozava “dos prazeres que lhe eram dados”. Assim, a mão deixou de levar o alimento à boca, que não mais o receberia, os dentes não mastigariam etc. Foi preciso que o corpo chegasse ao esgotamento para que os membros percebessem o papel desempenhado pelo estômago na digestão dos alimentos e na sustentação do organismo.

Em sua fala, Menênio Agripa procurou fazer com que os plebeus entendessem que sua revolta contra os patrícios era análoga à do restante do corpo contra o estômago, e que se fazia necessário que cada parte compreendesse a importância da outra. Claro que, para alcançar tal concordância, foi preciso que os patrícios fizessem algumas concessões. A mais importante delas foi a criação dos tribunos da plebe, “magistrados próprios, invioláveis, que se encarregariam de defendê-la contra os cônsules” (Ibid., p. 150-151). Assim, referindo-se sobremaneira à criação dos tribunos, Tito Lívio fala em uma efetiva reconciliação entre as partes.

Em Maquiavel, reitere-se, não há reconciliação, mas, sim, a compreensão de uma desunião fundamental e incontornável. Mais do que isso, há a existência daquela mecânica conflituosa e “tumultuária” que assegura a liberdade. Ele afirma com todas as letras que, “se o estado romano se tornasse mais tranquilo, decorreria o inconveniente de tornar-se também mais fraco” (MAQUIAVEL, 2007, p. 29). Desde que essa mecânica não se torne doentia, desde que as inimizades não sejam determinadas por ambições privadas e, enquanto tais, infensas ao bem comum, o Estado tende a viver sob um ordenamento justo, saudavelmente conflituoso, uma estrutura política que não é corrompida pelos tumultos, mas animada e sustentada por eles.

09-12.2022.

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NOTAS

[1] Tito Lívio escreve sobre como Roma passou a ser vista de outro modo pelos vizinhos após a revolução religiosa instituída por Numa: “E enquanto em Roma as pessoas pautavam seu comportamento pelo do rei como único exemplo a seguir, os povos vizinhos que até então consideravam Roma não como uma cidade, mas como um campo de batalha situado entre eles para perturbar a paz de todos, viram-se obrigados a venerá-la a ponto de considerarem um sacrilégio atacar uma nação inteiramente voltada para o culto dos deuses” (Ibid., p. 48).

[2] Recorro a Hannah Arendt: “A virtù (…), segundo Maquiavel a qualidade humana especificamente política, não possui a conotação de caráter moral da virtus romana, e tampouco a de uma excelência moralmente neutra à maneira da areté grega. A virtù é a resposta que o homem dá ao mundo, ou, antes, à constelação da fortuna em que o mundo se abre, se apresenta e se oferece a ele, à sua virtù. Não há virtù sem fortuna e não há fortuna sem virtù (…)” (ARENDT, 2009, p. 182).

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BIBLIO

AMES, José Luiz. “Lei e violência ou a legitimação política em Maquiavel.” Trans/Form/Ação, v.34, n.1, p.21-42. São Paulo: Marília, 2011. Disponível em: https://www.scielo.br/j/trans/a/Db8Vskc95xdnLBddQPNNqZJ/?lang=pt
ARENDT, Hannah. “Que é Autoridade?”, em Entre o passado e o futuro. Tradução: Mauro W. Barbosa. 6ª edição. São Paulo: Perspectiva, 2009.
MAQUIAVEL, Nicolau. Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. Glossário e revisão técnica: Patrícia Fontoura Aranovich. Tradução: MF. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
TITO LÍVIO, História de Roma – Ad Urbe Condita Libri. Volume primeiro. Introdução, tradução e notas: Paulo Matos Peixoto. São Paulo: Paumape, 1989.

‘Black music’, de Arthur Dapieve, mergulha na violência com humor

Resenha publicada no Jornal do Brasil em 31.10.2008.

As metrópoles brasileiras, repletas de violência e barbárie, estão se transformando ou já se transformaram em verdadeiros playgrounds de maníacos e marginais. Muitos escreveram e muitos ainda escreverão a respeito. O romance Black music (Objetiva, 112 páginas. R$ 24, 90), de Arthur Dapieve, talvez se inscrevesse, à primeira vista, em uma certa tradição da literatura brasileira que chegou ao céu (ou ao inferno, o que também é bom) com o Rubem Fonseca de tempos atrás, aquele que engendrou O cobrador e A coleira do cão. Entretanto, e felizmente, uma vez que todos estão cansados de imitadores baratos de Fonseca, Dapieve surpreende ao partir para um outro tipo de abordagem.

A premissa poderia resultar em vários romances, quase todos muito ruins (não é o caso de Black music): no Rio, Michael Philips, garoto negro norte-americano, rico, fã de jazz e de basquete, é seqüestrado por três sujeitos usando máscaras de Osama Bin Laden. O líder do bando é um traficante branquelo apelidado de He-Man. Por ser o dono do morro , He-Man enfileira namoradas. Uma delas, Jô, fica encarregada de alimentar o seqüestrado. O triângulo está formado, e é claro que as coisas não vão melhorar: o pai de Michael (ou Maicon Filipe , como quer He-Man) enrola para pagar o resgate, os traficantes do morro estão em guerra com outros traficantes e o FBI (!), por conta de um mal entendido, começa a fechar o cerco.

Black music foge do óbvio graças à inteligência do autor, que estrutura o livro em três partes (além de um prólogo), cada uma narrada por um dos três vértices do triângulo. Pela ordem: Michael, He-Man e Jô. Faz-se questão de sublinhar as diferenças abissais entre os personagens de todos os modos possíveis, inclusive graficamente.

A primeira parte seria a mais convencional mas não menos interessante e terrivelmente engraçada, com o seqüestrado narrando os primeiros dias no cativeiro, seu contato com os bandidos e, claro, com a mulher do bandido. Em que uma coisa dessas é ou pode ser terrivelmente engraçada? Por exemplo, como os seqüestradores usam máscaras de Bin Laden, Michael acredita por um tempo que é refém de uma célula terrorista. Dapieve consegue achados como este: Fiquei nervoso e comecei a contar os tiros como se eles fossem carneiros, na esperança de voltar a cair no sono . Afinal de contas, conforme o próprio Michael diz: A gente se acostuma com tudo .

A segunda parte, narrada por He-Man, vem na forma de letra de rap. He-Man sonha em se tornar o maior rapper brasileiro e não economiza nas rimas para contar a sua própria história. Coisas como Eu não sou D2, mas também tiro onda / Zoou comigo, vai parar no microonda tomam as páginas. Na terceira e melhor parte, narrada por Jô, o autor recorre a um outro recurso para caracterizar a personagem: o uso de maiúsculas. Conforme somos informados desde a primeira parte, Jô sempre fala alto demais, e é gritando que nos conta sobre a irmã ex-prostituta que se casou com um gringo e mudou para a Suíça. Enquanto isso, a tragédia continua se avizinhando, tornando-se inevitável. Os momentos engraçados, seja pela fala da narradora (que afirma ter loção de ridículo ), seja por algumas situações descritas, não param de se avolumar. O mal-estar resultante não é pequeno, uma vez que o riso está longe de aliviar o peso dos absurdos narrados.

O que salta aos olhos em Black music é a brutal incompreensão de cada personagem em relação aos demais. Impressiona, ainda, como toda e qualquer tentativa de aproximação ou de entendimento resulta, invariavelmente, em violência. Dapieve transforma o que poderia ser uma grotesca e irresponsável comédia de horrores em algo vigoroso, imaginativo e até mesmo carregado de algum lirismo.

Manoela Sawitzki tematiza a impossibilidade dos encontros efetivos

Resenha publicada no Jornal do Brasil em 11.09.2009.

Alguém morre de tristeza, e o livro começa. Suíte Dama da Noite, segundo romance da também dramaturga e jornalista Manoela Sawitzki, avança por meio de pequenas homorragias, pequenos cortes , uma voz ao mesmo tempo próxima e distante, familiar e intraduzível. É, acima de tudo, um livro sobre a espera ou, nas palavras da autora, o hiato entre o desejo e a realização , o fardo de um amor que nunca chegaria ao seu destino .

A protagonista tem, não por acaso, nome de personagem de romance barato, Julia Capovilla. Como em um folhetim, ela reencontra Leonardo, um amor que embalsamara muitos anos antes, mas ele está prestes a se casar com Ariana, que, por sua vez, é irmã de Klaus, esposo de Júlia. A ciranda está completa, mas é algo quebradiço, como se aqueles que a formam estivessem todos com os braços quebrados. Júlia e Leonardo, evidentemente, tornam-se amantes. Pode-se dizer que o livro vive mais dos momentos entre os encontros dos personagens do que dos encontros propriamente ditos. Ou talvez ele seja justamente sobre a impossibilidade de encontros efetivos, isto é, um romance inteiro alimentado por hiatos, pelo cansaço anterior ou posterior à consumação de algo que, de resto, nunca se consuma realmente.

Em um segundo momento, de heroína de folhetim (ou personagem frustrada de conto de fadas), é possível enxergar Júlia como um ser essencialmente trágico, uma espécie de prima de Emma Bovary, só que um pouco mais autoconsciente. O escritor norte-americano John Barth disse certa vez que o autoconhecimento é sempre uma má notícia . De maneira certa ou errada, Júlia parece saber de si mesma, e não seria de todo insensato ou pueril ler Suíte Dama da Noite como um acúmulo de más notícias alinhavadas de forma talentosa.

O livro é, evidentemente, uma ficção, mas uma ficção que se alimenta de uma série infindável de outras ficções criadas pela protagonista para si, sobre aqueles que a rodeiam. Júlia, de uma forma ou de outra, está quase sempre mentindo, para os outros e para si. Tudo nela, dela e para ela é uma invenção ou passa por invenções cada vez mais complexas, desde o que sente ou pensa sentir até o que vive ou pensa viver. Essa piscadela metalinguística serve não como desculpa para um exercício masturbatório, algo que se esgota em si mesmo, mas é justamente o que torna o livro invulgar na medida em que diz muito, quase tudo, da personagem principal e do mundo engendrado por ela.

Apenas ao final, quando jorra sins para o mundo e para si , Júlia Capovilla parece intuir o que Molly Bloom, que no desfecho do Ulisses de James Joyce também jorra sins para o mundo e para si , sabe tão completamente: experimentar sem pressa a vida que se apresenta como um movimento sempre presente . Ou talvez tudo não passe de uma falsa epifania, uma ficção a mais, outra mentira. Cada leitor que descubra por si.

Romance narra adultério pelo ponto de vista da mulher traída

Resenha publicada no Jornal do Brasil em 10.04.2010.

No romance Nada a dizer, de Elvira Vigna, temos a narrativa obsessivamente detalhada de um adultério. Surpreende que a voz que conta essa história em todos os seus mínimos detalhes seja não a de um dos amantes, mas, sim, a voz da mulher traída.

Com pouco mais de 60 anos, ela reconstitui cada passo do companheiro, Paulo, em sua malfadada aventura extraconjugal, bem como vários eventos anteriores e posteriores. A descrição cuidadosa, com toques masoquistas, de algo tão doloroso acaba se revelando um esforço da narradora no sentido de reconhecer ou, pior, vir a finalmente conhecer o seu companheiro, entender quem ele de fato é e como ele veio a se tornar quem se tornou.

Mais do que isso: ao não reconhecer ou desconhecer alguém com quem vivia há tanto tempo, a narradora também deixa de reconhecer ou passa a desconhecer a si própria: “Eu não esperava que isso fosse possível. Que eu pudesse não existir, que a minha existência pudesse não ser contabilizada pela pessoa que mais me conhecia no mundo”. Assim, além de administrar a dor pela traição, ela também se vê inteiramente esvaziada de sua identidade. Tudo aquilo que era ou julgava ser como que escorre pelos dedos de suas mãos.

Para além da crise conjugal, há uma espécie de mapeamento do que significa esse episódio para a narradora em função do que ela pensou e viveu desde a juventude, nos anos 60. Nas palavras dela: “Fomos nós, os que fizemos 60 anos no início do século 21, os que lutaram e enfrentaram hostilidades de todo tipo para que pudéssemos viver, todos, do jeito que quiséssemos (…)”.

Ao relembrar o percurso de sua relação com Paulo, ela chama a atenção para as mudanças ocorridas não só em seu relacionamento, mas no mundo. Há 40 anos, eles defendiam o ideário esquerdista e lutavam pela liberdade e pelos direitos do proletariado . Panfletavam, acolhiam fugitivos da ditadura, enfrentavam o calamitoso estado de coisas vigente no Brasil.

Não muito tempo depois, com o fim da repressão, ela vê o companheiro empregar-se em uma grande companhia e colocar em dúvida opiniões que eles sempre tiveram e sobre as quais não havia como ter dúvidas . No discurso, eles renegavam esses papéis predeterminados, toda a suposta imbecilidade pequeno-burguesa ou coisa que o valha.

Na prática, e aqui está a ironia, o leitor vê como eles, sobretudo Paulo, acabam se encaixando justamente nos papéis predeterminados. Vemos o descompasso cada vez maior entre o discurso e as expectativas de outrora e os rumos que suas vidas e o mundo tomaram e continuam a tomar.

A narradora, contudo, não sugere que a decadência de seu relacionamento se deva, de uma forma ou de outra, seja direta ou indiretamente, à falência de todo aquele ideário. Não se trata disso. O que ela faz é conferir tridimensionalidade a esses personagens e às suas motivações por meio de uma contextualização histórica e também pelo registro dessas mudanças bastante significativas, de quem eles foram um dia e de quem eles se tornaram, tanto um para outro quanto em relação ao mundo.

Assim, os acontecimentos narrados ganham maior ressonância e Nada a dizer, longe de se tornar um exemplo de prosa confessional monocórdia e autoindulgente, exibe toda a riqueza de um ponto de vista consciente de si, do outro e do que os cerca.

Em busca de Liu Ying – Gay Talese e o futebol feminino

Artigo publicado em 24.07.2023 no Estadão.
Na edição impressa, o artigo saiu em 26.07
(clique na imagem para ampliá-la; título e subtítulo são dos editores, não meus).

Em 1999, cinco anos após Roberto Baggio errar aquele pênalti, os EUA sediaram outra Copa do Mundo, dessa vez de futebol feminino. O palco da finalíssima foi o mesmo no qual a seleção brasileira sacramentara seu quarto título mundial: o tórrido Rose Bowl em Pasadena, Califórnia. E, a exemplo de Brasil e Itália, as finalistas de 1999 também empataram em 0x0 no tempo regulamentar e na prorrogação, e o título foi definido nos pênaltis. EUA e China se enfrentaram naquele 10 de julho, e um dos registros mais célebres do evento está no livro Vida de Escritor, de Gay Talese (Cia. das Letras, tradução de Donaldson M. Garschagen).
O autor alterna a narração da final com a descrição de uma partida da “Subway Series”, como são apelidados os confrontos entre os times novaiorquinos Yankees e Mets. É um prazer extra para o leitor brasileiro contrapor a tranquilidade com que Talese discorre sobre beisebol ao didatismo meio desajeitado na abordagem do “soccer”. Mas ele é tão sagaz que intui aquilo que o grande Bill Shankly disse certa vez: “Futebol não é uma questão de vida ou morte, é muito mais importante do que isso”.
Talese atenta para as questões políticas envolvidas (a tensão entre os países após o bombardeio acidental, por caças norte-americanos, da embaixada chinesa em Belgrado), os detalhes mais significativos (a única negra em campo era a goleira Briana Scurry, autoproclamada “mosca no leite”; Scurry se adiantou na cobrança que decidiria o jogo, infração ignorada pela arbitragem) e o símbolo da derrota chinesa: a meio-campista Liu Ying, que errou o pênalti. A final seria um gancho formidável para “mostrar muita coisa a respeito dessas duas sociedades”. E Talese embarcou para a China.
Lá, muita coisa mudara desde as manifestações de 1989. As autoridades enfrentavam com maior rapidez os membros da seita Falun Gong, para que o movimento não crescesse como os protestos de estudantes e trabalhadores que culminaram no Massacre da Praça da Paz Celestial. A abordagem de Talese do morticínio, incluindo as simplificações ocidentais, os relatos contraditórios e uma referência ao que ele próprio testemunhara em Selma, Alabama, em 7 de março de 1965 (quando manifestantes negros pró-Direitos Civis foram brutalmente agredidos pela polícia), é um dos pontos altos do livro.
Mas como encontrar Liu Ying? A Nike já possuía fábricas na China, e Talese conhecia o presidente da empresa, Phil Knight (sim, aquele sujeito interpretado por Ben Affleck no filme Air). Graças aos contatos do amigo, conseguiu a primeira entrevista com a jogadora. Depois, também falou com a mãe e a avó de Liu Ying, e acompanhou a seleção chinesa por meses.
O futebol é a janela pela qual observamos a história. As histórias dessas mulheres são atravessadas pelas enormes mudanças ocorridas no século XX, desde a queda do último imperador até o processo de transformação econômica alavancado por Deng Xiaoping, passando pelos horrores da Revolução Cultural. Tais mudanças são muito bem simbolizadas pelo que acontece com o lar da família de Liu Ying, uma das “residências baixas e seculares, com portais treliçados em arco, que se abriam para um beco antigo chamado hutong”. No processo de canibalização modernizadora, e em vista das Olimpíadas de 2008, que Beijing sediaria, “a casa com pátio em que Liu Ying nascera e fora criada” acaba demolida, “sua localização (…) perdida em montanhas de entulho”. A comunidade familiar que assistiu pela TV à final da Copa de 1999 se dispersa. O custo humano da “modernização” é incalculável.
Por fim, a busca de Talese não esconde certa ânsia por redenção. Ele gostaria que Liu Ying alcançasse um triunfo que obliterasse o pênalti perdido. Mas, como o próprio Baggio (ou o nosso Zico) poderia atestar, as coisas não funcionam assim, seja no futebol, seja na vida.

Três cartas de William Gaddis

Do livro THE LETTERS OF WILLIAM GADDIS
(ed. Steven Moore. Dalkey Archive Press, 2013).
A Dalkey lançou há pouco uma nova edição, revista.
Mais sobre Gaddis
AQUI.

Para Charles Socarides.

[Um amigo de Harvard (…). Esta é a primeira carta em que é explicada a ideia fundamental e a trama de The Recognitions.]

Pedro Miguel, Zona do Canal
[fevereiro ou março de 1948]

prezado Charles.
Primeiro — por favor, não se alarme com o peso desta correspondência que pareço despejar em você. Mas, quando você escreve uma carta como a que acabei de receber, sinceramente, eu perco a cabeça de tanta empolgação. Terrivelmente nervoso agora.
Tudo porque estive fora por 3 dias, em uma ilha próxima, trabalhando freneticamente nesse romance. Que parece tão ruim. Mas, assim: veja, o que você diz nessas cartas — mais especificamente na última — me aborrece porque as imagens que você traça, os fatos que apresenta, são exatamente como esse romance que está crescendo. É um bom romance, excelente, todo o encadeamento da história, os acontecimentos, o frenesi. O homem que (metaforicamente) se vende para o diabo, o jovem assim à caça de uma figura paterna, perseguindo o mais velho até a sua (do jovem) morte. E a “garota” — que acaba perdendo por completo a própria identidade, que tentou criar um mito original, ela se perde porque sua última testemunha (um camarada que usa heroína) é preso — o jovem (“herói”) sendo o delator. Eis o ponto avassalador: que tudo isso aconteceu. Não para valer, talvez, mas com os fatos da vida recente e a minha fuga, aconteceu. O tempo inteiro, a cada minuto, a coisa cresce em mim, eu “penso em” (ou me lembro de) novos fatos do romance — a Verdade sobre o Passado (título alternativo). (O título é Ducdame, chamaram ‘algumas pessoas que estavam nuas’¹.) Mas essa ficção que cresce se encaixa tão insanamente bem nos fatos da vida que, às vezes, não consigo suportá-la, preciso descarregar (como estou fazendo aqui). E então eu a arruíno por escrever mal. Como ao tentar ser inteligente — talvez por medo de ser sincero? Mas me vejo arruinando tudo. E então — porque quando escrevia na faculdade eu exagerava tanto, agora [o que escrevo] deve ser reservado, sutil, insinuado. Ou os trechos ruins de escrita simplesmente se acumulam. Veja: “Há poucas situações em que não tentamos controlar o tempo; seja ao incitá-lo desvairadamente, ou quando, apavorados, assistimos à passagem de sua carruagem alada, que respinga em nós a lama que chamamos de memória”. Não é tão horrível. Veja, isso simplesmente aconteceu, estava fora do meu controle até que a sentença chegou ao ponto final. Ser superficial pode matar o que deve estar vivo.
(…) Estamos sozinhos, nus — e a nudez deve escolher entre a vulgaridade e a razão. Cada um de nós, responsáveis. (…)
Gostaria de vê-lo agora, se você pudesse dar uma olhada nessa coisa, condensá-la peremptoriamente (partes dela) — a escrita, exposição. Deus, eu conheço todo esse medo, mas não simpatizo com ele. Tolos. Não posso me dar ao luxo de ser um.
É como se a sua carta antecipasse exatamente o que estou escrevendo como ficção.
Não posso ir para casa antes de junho. Por causa de dinheiro. Sempre isso. Posso viver em Long Island depois de junho, mas não antes do verão, entende? Preciso trabalhar nesse maldito canal até abril, espero economizar cerca de 600 dólares, o bastante para sobreviver até junho e ir para casa. Eu odeio isso, ser pago 12 dólares por dia — ou noite — para desperdiçar. Agora são 10:15 da noite — e tenho que estar no canal às 11, “trabalhar” até as 7 da manhã. Mas preciso fazer isso por causa do dinheiro. Talvez seja uma coisa boa não ter dinheiro, me apaixonei loucamente pela filha do governador local da ilha — não é mexicana, panamenha, mas espanhola. Nariz esplêndido. Pelo amor de Werther, não lhe cai mal. É um inferno não ter tempo nem dinheiro para viver.
Então, há esse homem aqui que vai para a Suécia em um veleiro. E, se o romance de repente parecer ruim demais, devo ir com ele, precisa de alguém para trabalhar, um barco bem pequeno, à vela.
Deus, a fuga, fuga. Você entende, não? Eu, quase. Mas, se eu não conseguir criar um bom romance, então devo continuar fugindo, até que saiba tudo por mim mesmo — não só como fato filosófico, como uma verdade na qual “acredite” e esteja tentando vender — mas que eu possa me sentar e saber sem ter de tentar vendê-la (escrevendo) para todo mundo.

Obrigado. Vou escrever para você.
W.

¹ Ducdame, called ‘some people who were naked’: “Ducdame” é uma palavra nonsense da canção de Jacques em Como gostais, de Shakespeare, a qual ele jocosamente define como “uma invocação grega para juntar bobos em um círculo” (5.2.53). “Algumas pessoas que estavam nuas” é provavelmente da peça Vestir os Nus, de Pirandello (…). (N.E.)

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Para J. Robert Oppenheimer.

[Físico norte-americano (1904-67), conhecido por seu trabalho no desenvolvimento da bomba atômica. Em 26 de dezembro de 1954, ele deu uma palestra intitulada “Perspectivas nas Artes e Ciências” durante as celebrações do bicentenário da Universidade de Columbia. A palestra foi reproduzida em seu livro The Open Mind (1955). A carta a seguir é um rascunho corrigido.]

Cidade de Nova York
4 de janeiro de 1955

Caro Doutor Oppenheimer.
Já tomei uma liberdade maior do que esta (…) ao ligar para a Harcourt, Brace & Co., que está publicando um longo romance que escrevi, e pedir a eles que enviassem um exemplar para o senhor. O senhor deve receber todo tipo de correspondência, mensagens excêntricas e cartas de fãs de todos os tipos, mas poucas, penso eu, contendo meio milhão de palavras. E, uma vez que posso também imaginar que o senhor raramente lê romances, nem que seja pela falta de tempo, é uma imposição a mais lhe enviar um [romance] tão volumoso.
Mas, por ter lido sua recente palestra no aniversário da Columbia, eu jamais deveria ter considerado fazer algo assim. Mas fiquei tão abalado com a concisão, e o uso da linguagem, com que o senhor indicou os problemas que me tomaram sete anos para reunir e quase mil páginas para apresentar, que a primeira coisa a me ocorrer foi o envio do exemplar. E submeto esse livro ao senhor com o mais profundo respeito. Porque eu acredito que The Recognitions foi escrito sobre “o caráter colossal da dissolução e da corrupção da autoridade na fé, no ritual e na ordem temporal (…)”, sobre as nossas histórias e tradições como, “ao mesmo tempo, laços e barreiras entre nós”, e [sobre] a nossa arte, que “nos une e separa”. E, se eu puder continuar usando as suas palavras, é um romance no qual demoradamente tentei o meu melhor para mostrar “a integridade da arte mais íntima, detalhada, verdadeira, a integridade do trabalho artesanal e da preservação do que é familiar, cômico e belo”, em “enorme contraste com a vastidão da vida, a imensidão do globo, a alteridade das pessoas, a diversidade dos caminhos e a escuridão que a tudo abarca”.
O livro é um romance sobre fraude. Sei que, caso venha a lê-lo, o senhor encontrará passagens maçantes, incidentes ofensivos e algumas imaturidades belas e dolorosas, tudo isso em minhas tentativas de apresentar “os males da superficialidade e os terrores da exaustão” tal como os vi: tentei expor a sombria luta de um homem cercado por aqueles que “se dissolveram em uma confusão universal”, aqueles que “nada sabem e nada amam”.
(…)

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Para Johan Thielemans.¹

[Em seu livro Vrijheid in de steigers (Haarlem: In de Knipscheer, 1985), o crítico holandês Graa Boomsma narra uma visita a William Gaddis (pág. 24, com Joseph Heller dando uma passadinha), e, algumas páginas depois, descreve como, estando ele e Gaddis na varanda, Thomas Pynchon apareceu para bater um papo (pág. 28).]

Wainscott, Nova York 11975
11 de outubro de 1985

Caro Thielemans,
Obrigado pela sua carta de 30 de setembro com a notícia — inédita para mim — de que Graa Boomsma não só nos visitou em Long Island como encontrou Thomas Pynchon aqui! Ele me escreveu sobre essa viagem para os Estados Unidos, esperando que nos encontrássemos, mas houve alguma confusão & isso nunca aconteceu, certamente não aqui, e por certo não com [a presença de] Pynchon (a quem eu nunca conheci, não obstante as muitas alegações dos críticos acerca da similaridade entre nossas obras: vejo que ambos somos classificados como paranoicos & conspiratórios, mas quem, à exceção de James Michner², não é?). E, então, eu ficaria muito agradecido se você pudesse me enviar, quando tiver tempo, uma cópia desse trecho traduzido. Muito curioso.
(…)

¹ O belga Johan Thielemans é um crítico literário especializado em literatura norte-americana. Publicou vários artigos sobre a obra de Gaddis.
² Imagino que Gaddis esteja se referindo ao norte-americano James A. Michener (1907-1997), autor best-seller de longos (e anódinos) romances históricos e sagas familiares, coisas como Fogos da Primavera, Sayonara e Texas.