No deserto em expansão

No deserto em expansão

Um trecho de VENTO DE QUEIMADA, meu novo romance.
Lançamento em maio, pela Record. Mais informações
AQUI.

No hotel, toma um banho e veste a mesma camiseta, outro jeans, outra jaqueta, depois coloca as roupas usadas em uma sacola plástica que resgata do fundo da mochila. Precisa se livrar delas. Precisa se livrar de tudo. A coisa tão rápida, tão atabalhoada. Um serviço todo errado. E agora outro serviço todo errado. Rápido, atabalhoado. Sim, aquilo trouxe paz. Pensar em Gordon. A primeira vez, todas as vezes subsequentes. Mas, e agora? O que poderia trazer paz agora? Neste exato momento? Não pensar. Não pensar demais. Faça o serviço, disse Gordon. Receba o pagamento. Vá pra casa.
(Deixe essa merda pra trás.)
Pede uma pizza, come duas fatias, espera. Come uma terceira. Onze e cinco da noite quando ligam da recepção.
Alô?… Sim, deixa subir.
Ela se levanta, entreabre a porta, depois volta a se sentar na cama. Olha para a pistola sobre o criado-mudo, ao alcance da mão direita. Visível. É bom que esteja visível. Evita mal-entendidos. Ou trata de acelerá-los. Seja como for, é o melhor que pode fazer na situação atual.
Duas leves batidas na porta.
Entra.
Dois homens. Parecem os mesmos que estavam na porteira da chácara horas antes, mas pode estar enganada. Peões. São todos mais ou menos iguais. São todos peões. Ela também. De certa forma. E o pai. Peões. Como aquele que ajudou a matar no Abaporu. Não. Quem matou foi a Elizete, eu só castrei. Calibre 22. Mas parecem os mesmos, sim. Estômago, bagos, merda. Com roupas limpas agora, botinas engraxadas, perfumados. Um deles usa chapéu de vaqueiro, não um chapéu qualquer, parece caro, um artigo de luxo, e segura uma sacola preta. O outro, barbudo e gordo, entra no banheiro e começa a mijar.
Ou!, diz o primeiro, tirando o chapéu. Cê podia fechar a porta pelo menos, disgraçado.
Eu, hein, diz Isabel, impassível. Não esperava uma coisa dessas do Bud Spencer.
Hein?
Aôôôô, é a resposta que vem do banheiro, alguém sinceramente maravilhado com a potência do próprio mijo.
Desculpa ele aí, moça.
Sem problema.
Tem gente que não tem educação.
Podia ser pior.
Como assim?
Pelo menos ele não foi cagar.
O homem solta uma risadinha, concordando, e dá dois passos à frente. Olha para a pequena televisão ligada, depois aponta para a pistola sobre o criado-mudo, ao alcance da mão direita dela. Tinha necessidade disso, não.
O som da descarga.
Tinha necessidade nenhuma disso, ele insiste, voltando os olhos para a televisão.
Isabel não diz nada.
Cê viu A Super Máquina mais cedo?
Silêncio.
Acho que ia estrear hoje. Queria ver aquilo.
O barbudo sai do banheiro, subindo a braguilha. Av’Maria, tava apertado demais da conta, sô.
Falei pra ir aquela hora, mas cê é teimoso.
Eu não tava com vontade aquela hora.
Mas é claro que ia ficar depois por causa das cerveja. Melhor mijar por precaução.
Mijar por precaução. Essa é boa.
O outro suspira, recolocando o chapéu na cabeça, e estende a sacola preta para Isabel. Tá tudo aí dentro, viu? Endereço, chave do carro, foto, ferramenta. Tudim.
A gente vai levar o Corcel agora, diz o barbudo, coçando o saco.
Ferramenta?
É essa aí?, aponta para a chave que está sobre o criado-mudo, ao lado da pistola.
Isabel concorda com a cabeça.
O barbudo pega a chave e entrega para o parceiro, que a coloca no bolso da jaqueta e diz: A gente trouxe uma procê com silenciador.
Melhor usar ela, diz o barbudo.
Taí dentro. Depois deixa tudo lá com o Chiquinho.
O barbudo olha para ela, sorrindo. Melhor usar ela que essa outra aí. Ninguém quer fazer barulho de noitão.
A moça tem quarenta e oito hora, diz o outro, repentinamente sério, como se quisesse encerrar logo a conversa. Domingo e segunda ele costuma ficar no endereço que a gente anotou no verso aí da foto.
Ele usa o apartamento pra comer gente. Aproveita que a muié vai quase todo fim de semana pra roça e fica nesse apartamento co’as menina.
A muié costuma voltar na terça de manhã.
Ele diz que aproveita o fim de semana pra trabaiá, mas não trabaia, não, só fica comendo as menina mesmo.
Um bando de menina novinha.
Por esses dia tem uma menina que chega mais cedo, mas tem outra que só chega ou devia chegar lá pra meia-noite.
Ela mente pros pai, tem base?
Sai de fininho.
Mentia, né. Saía.
E devia chegar porque não vai aparecer hoje, não.
Nem amanhã.
Num vai aparecer mais.
Eles gargalham, olhando um para o outro, como se o fato de a menina não aparecer fosse a coisa mais engraçada do mundo.
Se não conseguir pegar ele no apartamento, diz o barbudo, o endereço da casa também tá aí, mas lá ia ser bem mais complicado.
Muié, criança, um monte de empregado.
Melhor dar um jeito de pegar ele aqui no centro mesmo, moça, hoje ou amanhã.
É um desses prédio baixinho ali pra cima, na Anhanguera mesmo, perto do teatro. Tem pouco apartamento ocupado.
Prédio véi, sem porteiro.
O safado escolheu o lugar direitim.
É.
Pra comer as menina em paz.
A chave da portaria taí dentro.
Tá tudo aí.
A moça não vai ter pobrema.
Depois que terminar, leva o carro lá pro Chiquinho.
Deixa tudo com ele.
É. Quer perguntar alguma coisa?
Ela engole em seco. E o meu pai?
Uai. Saudável.
Tava bebendo com o patrão e vendo TV quando a gente saiu de lá. Eles ia ver a Super Máquina.
Mais saudável que nós aqui.
A moça faz o que tem que fazer, depois liga dum orelhão pro número anotado aí no verso da foto.
Liga, volta pra cá e espera.
A gente ou outra pessoa vem e traz o pagamento.
A gente ou outra pessoa vai ficar de sobreaviso, o barbudo bate uma continência torta.
O carro é um Oggi.
Oggi?, ela pergunta.
É, um Oggi pretim.
O Voyage gasta menos na cidade.
É verdade, diz o barbudo, cutucando o outro. Cê sabia? Li isso na Quatro Roda.
Grandes bosta. O carro tá no estacionamento do hotel, moça. Cê precisa de mais alguma coisa?
Balança a cabeça: não.
Boa sorte, então.
Fica com Deus.
Eles dão meia-volta e saem, fechando a porta, o barbudo ainda falando sobre a matéria na Quatro Rodas: Mas escuta, o Voyage faz quase dez quilômetro por litro na cidade, e tem o câmbio longo, a quarta marcha dele…
Ela olha para a sacola preta que segura no colo. Fica com Deus. Fica com Deus é o caralho, vai tomar no cu.
E decide não esperar.
Abre a sacola. Não havia necessidade da foto, bastava dizer o nome do alvo e onde e quando encontrá-lo. Um filho da puta famoso, que merda. Ela memoriza o endereço e o número do telefone, depois rasga a foto, vai ao banheiro, joga na privada e dá a descarga. Observa que o barbudo, pelo menos, não mijou fora do vaso. De volta ao quarto, tira a chave do carro, a arma e o silenciador de dentro da sacola. Parece tudo em ordem. Taurus PT92. Tenho uma igual. A “filha” da Beretta 92. Uma cópia, na verdade. Deus abençoe a indústria nacional. O petróleo é nosso, e o fogo também. Pente carregado. A Beretta foi arma com que aprendeu a atirar. Uma delas, pelo menos. Enrosca e desenrosca o silenciador. Sim, tudo em ordem. É raro que usem silenciadores, ela e o pai, ela ou o pai. Em geral, a ideia é fazer barulho. Ou, na verdade, dada a natureza da maioria dos serviços executados, o barulho é irrelevante. Como na birosca horas antes. Poeira. Fumaça. Uma prega inflamada dos cus de Goiás. Ou naquele posto em Frutal. Três e pouco da manhã. Noite feia. Chuva forte a caminho. Respira fundo e coloca tudo na mochila, inclusive a SIG que a acompanha desde cedo. Não esperar. A gente ou outra pessoa vai ficar de sobreaviso. Grandes bosta. Boa sorte, então.
Fica com Deus é o caralho, diz antes de sair.
Onze e cinquenta e dois quando dirige pela Anhanguera. O ideal seria apenas fazer um reconhecimento. Sacar o lugar. Dar uma boa olhada.
Foda-se.
Agora, pensa não em Gordon ou no pai, mas na menina que só chega ou devia chegar por volta da meia-noite. Eu sou essa menina. Hoje, agora. Acelera para cruzar a Goiás. Deserto. Uma rua após a outra. Lá está. Teatro Goiânia. Dobra à esquerda, cortando transversalmente a Araguaia (o lado direito do manto da Santa) (supostamente), e estaciona na rua 23. Desliga o carro. O teatro às escuras. Onze e cinquenta e cinco. Imóvel por alguns segundos, as duas mãos no volante. Ninguém por perto. O centro, esse ermo. Deserto em expansão, o fora pulsando no escuro — aqui.
Agora, porra.
Alcança a mochila que está no banco ao lado, pega o boné (não aquele com que foi presenteada), coloca, pega a Taurus, checa outra vez, enrosca o silenciador, recoloca na mochila e sai do carro.
Vento frio. Cidade morta.
Segue pela calçada. O prédio logo após a esquina. Consultório odontológico. Uma loja de colchões.
Aqui.
Olha para a direita, depois para a esquerda: ninguém, nada. Cidade morta. Pega a chave no bolso da jaqueta. Será que era a tal menina? Destranca a porta. Na chácara, de topless, jogando conversa fora com a mulher do Velho? Entra. A menina que não vai aparecer mais. Uma lâmpada falha no teto, prestes a queimar. Provável que sim, mas.
(Presta atenção.)
Pega a arma, respira fundo outra vez, ajeita a mochila nas costas e sobe até o segundo andar.
(Presta atenção no que tem que fazer, caralho.)
Tudo escuro, tudo silencioso, exceto pelo zumbido baixo de uma ou outra televisão ligada, poucas.
(Aqui.)
Para diante da porta. Música em volume baixo rolando lá dentro.

I know it’s late, I know you’re weary
I know your plans don’t include me.

Sorri ao tocar a campainha. Passado um instantezinho, o som da chave girando na fechadura.

Why should we worry?…

O sorridente homem de meia-idade que surge à porta segura um copo americano com cerveja pela metade e ostenta uma cueca amarela e um princípio de ereção, botas de couro preto, um chapéu marrom enfiado na cabeça, a pança inchada como a de uma criança com esquistossomose e uma grossa corrente (com o indefectível crucifixo de ouro) pendurada no pescoço. Um feixe de luz vem de um cômodo próximo, à esquerda dele; o quarto, provavelmente.
Opaaaa, estala a língua, depois tenta firmar as vistas. Uai, menina, cê veio disfarçada, e esse bonezim, quê q
O primeiro tiro acerta bem no meio da arcada superior, o quadro (Sagrado Coração de Jesus) pendurado atrás dele e a parede tingidos de vermelho por um borrifo grosso e escuro em que se misturam massa encefálica e lascas de crânio e estilhaços de dentes.
O copo se quebra ao cair: ploft.
Cheiro de cerveja.
Ela atira outras três vezes, no rosto e na testa e no alto da cabeça, acompanhando a descida do corpo, costas contra a parede.

We’ve got tonight
Who needs tomorrow?

Antes que a bunda dele chegue ao chão, Isabel levanta a cabeça, dá meia-volta e desce as escadas com rapidez, mas sem correr, guardando a arma na mochila. Quando está prestes a ganhar a rua, ouve um berro ecoando desde o segundo andar. Estridente. Essa também não vai aparecer nunca mais, pensa.

 

Limpeza e sujidade

Artigo publicado n’O Popular em 07.03.2023.

Que tal essa ideia de “editar” A Fantástica Fábrica de Chocolate e outros livros de Roald Dahl e os romances de Ian Fleming protagonizados por James Bond. Os editores estão limpando os textos de quaisquer termos e expressões ofensivos. No caso de Dahl, por exemplo, também serão extirpadas referências desairosas à aparência e ao peso de alguns personagens. Sobre Fleming, a piada que circulava nas redes sociais é que, se forem mesmo eliminar tudo o que há de malsoante neles, os romances de Bond serão transformados em contos.

Brincadeiras à parte, o precedente aberto por esse tipo de decisão editorial é o pior possível. Existem várias maneiras de lidar com os pendores racistas, misóginos, homofóbicos e/ou gordofóbicos dos autores e autoras de antanho. Retocar ou “editar” os textos não deveria ser uma delas. Não se mexe em texto de ninguém dessa forma, ainda mais em se tratando de gente morta. Para contextualizar, informar, preparar e alertar os leitores contemporâneos sobre quaisquer ruídos e potenciais ofensas, os editores têm à sua disposição ferramentas como prefácios, introduções, notas de rodapé, posfácios e o diabo a quatro.

Contextualizar não é o mesmo que relevar ou desculpar o que há de inaceitável em determinadas obras e pessoas. Muitos autores geniais também foram seres humanos detestáveis. Submetê-los a um banho forçado nessa espécie de lava-rápido moralizador é falseá-los, transformá-los em algo diferente do que foram, em artistas mais palatáveis para a sensibilidade contemporânea. É criar uma mentira em vez de encarar e discutir todos esses problemas.

Acredito que o contato com as obras clássicas tais como elas são auxilia no desenvolvimento de uma relação crítica com a literatura, com o mundo e consigo mesmo. A ideia de alterá-las é condescendente e paternalista, pois impede que os novos leitores lidem com conflitos e contradições vitais ao desenvolvimento daquela relação crítica. Ler Os Cantos sabendo que Ezra Pound, além de antissemita, foi um militante fascista e apoiador de Mussolini. Estudar Heidegger ciente de seu apoio pontual ao regime hitlerista e do quanto isso contaminou ou não sua filosofia. Ver O Nascimento de uma Nação sabendo que D. W. Griffith criou a gramática do cinema moderno, mas também foi um racista que encarou (e filmou) os animais terroristas da Ku Klux Klan como heróis.

Aos que não conseguem fazer tal esforço, há outras coisas a serem lidas, estudadas e vistas. Mas é preciso ter consciência da importância dessas obras, por piores que tenham sido seus criadores. O cancelamento e a faxina stalinista não são o caminho.

Em uma entrevista ao podcast Foro de Teresina, o escritor Marcelo Rubens Paiva contou ter feito esse serviço de desbaste para a nova edição de Feliz Ano Velho. Não sei o que resultou, mas, em princípio, acho terrível, mesmo que seja o próprio autor a manusear a tesoura. O romance é um registro vívido de uma época, quando as pessoas agiam de tais e tais formas e se expressavam de tais e tais maneiras. Temo que, em sua nova roupagem, Feliz Ano Velho tenha se tornado o registro de um autor sessentão com cagaço de ser cancelado. Espero que não seja o caso. Mas não custa lembrar que: 1) o autor sempre está nu; 2) cedo ou tarde, todos seremos cancelados — ajamos de acordo.

 

A primeira estrela paira entre seus pés

Hoje, 28 de fevereiro de 2023, O Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon, completa cinquenta anos de sua publicação. Eu me lembro do dia em que nos conhecemos.

Em 27 de dezembro de 2004, uma segunda-feira, eu estava em Goiânia. Escrevia sobre as estreias de cinema para um site local e, como morasse no interior, ia à capital uma vez por semana assistir aos filmes recém-lançados. Não recebia nada para fazer isso. Ganhava alguns trocados lecionando na rede pública, mas era dezembro e eu estava de férias. Na mochila, um caderno repleto de rascunhos do que viria a ser Hoje está um dia morto.

Não lembro quais filmes vi naquela semana. Poderia pesquisar, descobrir o que estreara por aqueles dias, escrever um relato detalhado, mas a verdade é que isso não importa. O que importa é que, na rodoviária de Goiânia, naquela segunda-feira abafada, mormacenta, eu me deparei com uma liquidação na Livraria Nobel e com um exemplar d’O Arco-Íris da Gravidade com 50% de desconto.

Eu nunca ouvira falar de Thomas Pynchon, mas apreciava calhamaços. Questões financeiras. Como ganhasse pouco, não podia comprar muitos livros. Volumes longos são mais caros, mas duram mais, por assim dizer. Isso sempre facilitava as minhas escolhas nas livrarias e sebos. Ulisses em vez d’O Túnel. Os Buddenbrook em vez de Timbuktu. Os Versos Satânicos em vez d’O Buda do Subúrbio. Glamorama em vez de Rituais. Claro que jamais me esquecia dos deixados para trás. No decorrer da vida, segui o exemplo de John Rambo e voltei para resgatá-los sempre que possível.

A edição brasileira d’O Arco-Íris da Gravidade é muito bonita. Olhei para aquele livro de quase oitocentas páginas. O nome do autor soava bem demais. Paulo Henriques Britto, tradução. Que avião fantasmagórico é esse na capa? “Um grito atravessa o céu. Já aconteceu antes, mas nada que se compare com essa vez.” Folheei. “Norte é morte.” “Pökler era uma extensão do foguete, muito antes de ele ser construído.” “Num Estado corporativista, é necessário haver um lugar para a inocência e suas inúmeras utilidades.” “As Nacionalidades estão em movimento. É uma grande correnteza sem fronteiras a fluir.” “A estrada forma uma curva pela abertura em ogiva, e perde-se nos prados escuros.” “(…) ainda que às vezes ele pareça estar indo para o lado errado, essa rede de todas as tramas talvez termine por levá-lo à liberdade.” “Onde não há comida, levam-se armas. As armas e a comida estão firmemente associadas na mente governamental desde que existem armas e comida no mundo.” “‘Existem coisas a que se apegar, sim. Ainda que possa parecer o contrário, há algumas coisas que são reais. Realmente.'” “A primeira estrela paira entre seus pés.”

Uau.

Comprei e saí correndo para pegar o ônibus. Os dias seguintes se confundem em minha cabeça. Sei que quase não saí de casa. Comecei a ler e não consegui parar. Queria o livro ao meu lado o tempo inteiro, mesmo quando descansava os olhos e a cabeça. Sonhava com os fantasmas amontoados nos beirais. Sonhava com o esgarçamento do mundo. Ouvia as bombas, sentia o cheiro da carne queimada. Tive um pesadelo em que trepava com uma enfermeira e o meu esperma era Imipolex G. Ela se levantava, limpando a porra que escorria pelas coxas, aquela porra-polímero, e olhava ao redor. Estávamos em um prédio bombardeado, ruínas, sem telhado. Ela roubava a minha mochila e saía correndo pela noite afora. E o livro estava dentro da minha mochila. Eu gritava, desesperado. Acordei gritando. Não. Sim, ufa!: o livro na mesinha de cabeceira. Ali, comigo. No meu quarto. Era como se aquele fosse o último exemplar do mundo, perdê-lo seria insuportável. Precisava cuidar dele.

Paralelamente, impressionado com a voz, as situações, o humor e a obscuridade do livro, comecei a reescrever os meus próprios rascunhos. Acho que não teria terminado Hoje está um dia morto sem ler O Arco-Íris da Gravidade. Acho que não teria me tornado escritor sem ler O Arco-Íris da Gravidade. Pynchon me ofereceu uma noção claríssima de estruturação e sentido. E mostrou que eu podia escrever o que quisesse e como quisesse, desde que fosse consequente, desde que soubesse para onde estava indo, desde que dominasse os elementos com os quais lidava, desde que lançasse mão de cada um deles no momento oportuno e com essa clareza de propósito.

Ao ler as páginas finais, eu sentia como se o romance esfarelasse em minhas mãos. “Tantas coisas têm de ser deixadas para trás agora, tão depressa.” Uma experiência leitora de quase-morte, de Ascensão e Queda, de uma Queda que culmina numa explosão irredentora — mas, antes do fogo, do fim, talvez possamos tocar a pessoa ao lado, ou colocar a mão entre as nossas “próprias pernas frias”, ou ainda cantar uma canção. O narrador pede que acompanhemos a bolinha, e termina o romance com um convite: “Agora todo mundo —”.

Uma experiência leitora de quase-morte, sim, mas também de renascimento.

Aquela época (2004, 2005) trouxe alguns desses momentos definidores, e eu tive muita sorte por encontrar Pynchon e William Faulkner (e reencontrar James Joyce) nesse eterno piquenique à beira da estrada que é a vida de um leitor. Dez anos depois, William Gaddis viria se juntar a nós — o choque necessário em uma encruzilhada barulhenta, enevoada e repleta de acidentes. A gente escolhe as nossas companhias para a vida e somos meio que definidos por elas e pelo que elas também nos trazem. Não me refiro àquela idiotice “inspiracional” das “referências”. É algo muito mais sério, tangível e amoroso. São a ideia e o consolo de ter sempre com quem conversar, mesmo que os caminhos se distanciem ou divirjam, mesmo que as estradas se bifurquem de novo e de novo e de novo, enquanto tudo (não) vai pelos ares.

E assim encontramos “uma Alma em cada pedra da estrada”.

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Reli O Arco-Íris da Gravidade duas vezes nos últimos dezenove anos. Na segunda dessas oportunidades, escrevi três pequenos ensaios sobre certos aspectos e passagens do romance, AQUI, AQUI (meu predileto) e AQUI.

O hóspede caminha pela casa

Texto publicado n’O Popular em 07.02.2023.

Foram trinta dias de hospedagem. Um mês. Imagino o clima na casa do lutador durante esse período. Imagino o hóspede circulando por ali. Sobrevivendo, ou quase. Exibindo as fraturas expostas. Lambendo as feridas purulentas. Reclamando dos cortes e escoriações. Comendo as próprias entranhas. Trinta dias. Alguns momentos de euforia obliterados por dias e noites intermináveis de medo e torpor. As dezenas de carpideiras lá fora, delirantemente firmes derrota após derrota após derrota. Um mês. Dez vezes setenta e duas horas. Presos naquela escatologia obscena. Na Segunda Vinda abortada de novo e de novo e de novo. Na promessa não cumprida do Retorno.

Trinta dias de hospedagem. Imagino as perorações, a choradeira, os acessos de raiva, as ideias tresloucadas, as piadas de mau gosto, as dores de barriga, a espuma nos cantos da boca, a mitomania, as dores de barriga, o bodum, a gritaria com o mundo, as dores de barriga, a esperança do Retorno, a histeria, as dores de barriga, os tiros pela culatra, as notícias do fracasso, a culpabilização dos comparsas, o medo da cadeia e, claro, as dores de barriga.

Imagino o hóspede no sofá, alta noite, rindo a bandeiras despregadas de um vídeo qualquer, um quadro de programa humorístico a que assiste no celular enquanto o resto da casa tenta, sem sucesso, dormir. Ele gargalha, ele se debate, ele vê e revê o mesmo vídeo até para se certificar de que entendeu mesmo a piada. Quanto mais óbvia, melhor. Quanto mais abjeta, melhor. Ninguém ri como ele. Não àquela hora, pelo menos. E, por certo, não daquelas coisas.

No inverno de seu descontentamento, o comportamento do hóspede é ainda mais errático do que o habitual. Ele é visto diante do espelho, apalpando as bochechas macilentas. Ele é visto no gramado, observando uma fileira de formigas. Ele é visto no quarto, sentado na beirada da cama enquanto a noite cai. Ele é visto a uma janela, mãozinhas para trás, os olhos vazios fitando o muro defronte. Ele é visto diante da geladeira aberta, às três da manhã, comendo os restos frios de uma pizza de pepperoni. Ele é visto lá fora, choramingando com as carpideiras e prometendo uma reação. Ele é visto devorando frango frito em uma lanchonete, cotovelos sobre a mesa, as mãos emporcalhadas de gordura e os lábios finos trabalhando em desacordo com os dentes.

À mesa do desjejum, certa manhã, o hóspede reclama das dores de barriga e afirma sentir saudades de passear de moto com o pessoal. Ninguém diz nada. Ele conta que teve um sonho no qual ascendia aos céus. Como?, alguém pergunta. Montado em uma motocicleta, claro. E sem usar capacete. Ele diz isso e gargalha. Alguém esbarra em uma xícara, que se espatifa no chão. Ainda rindo, o hóspede desvia os olhos para fora. Há nuvens no céu, enrugadas e dispersas. Ele tem a impressão de que o firmamento adquiriu uma coloração esquisita, adoentada, como se fosse muito velho e estivesse prestes a despencar. O sorriso desaparece do rosto do hóspede. Usando termos chulos, ele diz que precisa ir ao banheiro e, com movimentos bruscos, levanta-se da mesa e desaparece casa adentro. Olhando para a cadeira vazia, recém-abandonada, o lutador respira fundo. Está exausto.

“Vento de queimada” – orelhas

 

VENTO DE QUEIMADA, meu novo romance, está chegando às livrarias. Aí vai o texto das orelhas assinado por ninguém menos que Luisa Geisler.

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“Goiás, DF: nosso velho (centro-)oeste”, isso define Vento de queimada. Um Tarantino tropical, mas não tanto, já que é seco. Seco em linguagem, seco em personagens. Enquanto nos movemos, vamos nos aprofundando no que parece ser um grude, Brasília, Goiânia, a estrada, Silvânia, Santos, o bordel Abaporu. Descobrimos que esse grude é na verdade merda. Como já nos diz Isabel, quanto mais perto da merda melhor. Vento de queimada é a história dessa merda toda.

Acompanhamos Isabel, formada em História e portadora de uma história tão traumática quanto. Transforma outros em história. Acompanhamos o pai, capangas que mijam de porta aberta, o chefe, o meio-que-namorado de Isabel e o outro meio-que-namorado de Isabel. Ao redor deles, na poeira do Goiás e de Brasília, a terra sem lei. Desvendamos o que move os personagens de pouco em pouco. Uma humilhação num filme que envolve um cavalo. Uma vingança. Um desejo de poder, de dinheiro. Um passado obscuro. Uma gravidez indesejada. Uma vontade humana de salvar a própria pele antes de tudo. É difícil saber o que nos salva, Isabel conta. Nada.

Nessa história de personagens que precisam se virar no escuro, nos atemos ao que podemos. A Isabel. A Garcia. A Gordon. Ao velho. A Emanuel. A Clara. Mas a gente sabe que não deveria. Os fragmentos da história começam a se armar num nó que sufoca mais e mais e, na linguagem justa de André de Leones, apertam onde dói de verdade — os testículos.

A violência se monta numa linguagem tão precisa que se sente o fedor, se ouve em cada fala. A violência existe na leitura de um Brasil que é um amontoado de países estrangeiros, uns entrelugares. A violência existe nas pessoas, entrepessoas, não só em suas intenções. Os danos colaterais se abrem mais e mais em diversas direções. Entrelugares, entrepessoas, entreviolências. Os mortos na beira de estrada, as testemunhas indesejadas se centralizam, a ponto de não sabermos como chegamos ao trevo de Silvânia. Mas chegamos.

Luisa Geisler

Chineses e ruínas

 

DA AUTOSSUPRESSÃO DA TEORIA DO CONHECIMENTO
À METAFÍSICA DESCRITIVA DE STRAWSON

Intro.

O percurso a ser percorrido neste texto será dividido em dois movimentos. No primeiro deles, discorrerei sobre a crítica feita por Friedrich Nietzsche à metafísica dogmática e ao projeto kantiano no primeiro capítulo de Para Além de Bem e Mal. A ideia é explicitar como se deu a implosão da teoria do conhecimento naquele contexto histórico-filosófico, ocasionando, dentre outras coisas, o surgimento e o recrudescimento do positivismo e do cientificismo. Em vista dos efeitos de tal implosão (ou “autossupressão”, como afirma Jürgen Habermas em Conhecimento e Interesse), sentidos ainda hoje, tentarei arrastar a discussão pelos cabelos até o século XX, expondo que o abismo aberto pela modernidade nunca foi colmatado, e que, dado o desenrolar das próprias discussões filosóficas, ele talvez seja incontornável. Tal contatação, no entanto, não significa necessariamente a débâcle da filosofia enquanto tal, mas, pelo contrário, talvez possa ser encarada como um indício de sua sobrevivência. Para calçar essa hipótese, usarei como exemplo o projeto de metafísica descritiva concebido pelo filósofo britânico Peter F. Strawson na obra Indivíduos.

Talvez inadvertidamente, e segundo o entendimento supracitado, a ânsia delimitadora kantiana teria resultado no estrangulamento das pretensões filosóficas “maiores”, por assim dizer. As “grandes questões” ainda pairam sobre as cabeças de alguns pensadores, mas não passariam de fantasmagorias desligadas de qualquer possibilidade efetiva de (re)apresentação ou reformulação. O vocabulário metafísico restaria esvaziado, e todas as tentativas de reconstituí-lo esbarrariam nos rumos da filosofia contemporânea, por um lado, e nos limites da linguagem humana, de outro. Tropeçaríamos na intraduzibilidade e/ou inacessibilidade daquelas questões, como que alijados do núcleo inquiridor da filosofia tal como ela era ou foi encarada e exercitada até a modernidade. Nesse contexto, a abordagem de Strawson só seria metafísica (se tanto) em um sentido fraco, restrito, castrado.

A argumentação que procuro desenvolver vai, contudo, em outra direção: de que, não obstante a incontornabilidade do abismo (ou mesmo por causa dela), os esforços de Strawson e de outros pensadores nada têm de “menores” ou vazios; de que também incontornável é o impulso para perseguir tais e tais questões fundamentais, ainda que em registros mais pontuais (ligados à filosofia da linguagem, por exemplo) e/ou modestos (relativamente aos grandes edifícios teóricos outrora erigidos e posteriormente bombardeados); e, por fim, de que a insistência e a sustentação desses esforços acabam por salvaguardar a própria dignidade filosófica.

 

1.Nietzsche contra Kant.

A julgar pelo aforismo 11 de Para Além de Bem e Mal, o despertar do sono dogmático referido por Immanuel Kant[1] foi algo buñueliano. Refiro-me aqui, a título de ilustração, a uma sequência do filme O Discreto Charme da Burguesia (Le Charme Discret de la Bourgeoisie, 1972), em que um dos personagens desperta de um sonho para se ver dentro de outro sonho. Haveria, por assim dizer, um encadeamento “dormitivo”, no qual o despertar jamais é alcançado, jamais se efetiva. Ou, nas palavras de Rubens Rodrigues Torres Filho em “A virtus dormitiva de Kant”, “a suspeita de que este despertar é uma ilusão, de que com ele se passa um sono mais profundo, ou se começa a sonhar” (TORRES FILHO, 1987, p. 34). Portanto, o filósofo de Königsberg jamais teria se libertado da modorra que o acometia e à filosofia.

Em seu projeto de reelaboração e radicalização do projeto kantiano operado no livro supracitado, Nietzsche enxerga na resposta à questão “como são possíveis juízos sintéticos a priori?” uma tautologia: “Em virtude de uma faculdade”. Para ele, isso não passaria de “niaiserie allemande”, de uma falsa resposta na qual encontramos uma mera “repetição da pergunta”. Em sendo assim, ele propõe a substituição da inquirição por outra: “por que é preciso a crença em tais juízos?”. No entender de Nietzsche, cujo aforismo é traduzido na íntegra por Torres Filho em “A virtus dormitiva de Kant”, trata-se de

conceber que para fins de conservação da essência de nossa espécie tais juízos têm de ser acreditados como verdadeiros; com o que naturalmente poderiam ainda ser juízos falsos! Ou, para dizê-lo mais claramente, e de modo mais grosseiro e radical: juízos sintéticos a priori não deveriam de modo algum “ser possíveis”, não temos nenhum direito a eles, em nossa boca são puros juízos falsos. Só que, por certo, é preciso a crença em sua verdade, como uma crença de fachada e uma aparência, que faz parte da ótica-de-perspectivas da vida. (Ibid., p. 32-33).

Retomando a citação do primeiro parágrafo, Torres Filho fala em “despertar do sono dogmático para cair no sono tautológico”. Eis aí o enredamento buñueliano, tal como procurei descrevê-lo.

A circularidade da coisa diria respeito ao próprio caráter transcendental da filosofia crítica, pelo qual o sujeito cognoscente, “antes de confiar em seus conhecimentos adquiridos diretamente”, precisa se certificar “das condições do conhecimento que é em princípio possível para ele”; no entanto, de que maneira essa faculdade do conhecimento “poderia ser investigada criticamente, se também essa mesma crítica tem de pretender ser conhecimento?” (HABERMAS, 2011, p. 31)[2]. Hegel tampouco escapou da armadilha, tratando, na verdade, de “aprimorá-la”:

Com Hegel, surge o mal-entendido fatal de que a pretensão que a reflexão racional levanta contra o pensar abstrato do entendimento seria sinônima da usurpação do direito das ciências autônomas por parte de uma filosofia que entra em cena, tanto agora como antes, a título de ciência universal. Já o primeiro golpe de vista sobre o progresso científico, realizado independentemente da filosofia, iria desmascarar essa pretensão, como sempre mal-entendida, considerando-a mera ficção. É sobre isso que se ergue o positivismo. (Ibid., p. 55-56.)

Para Nietzsche, e recorro agora à leitura de Scarlett Marton, o que faltou a Kant foi radicalidade: “Ao impor limites ao conhecimento humano, o ‘chinês de Königsberg’ tornou a moralidade indiscutível, restaurou o mundo suprassensível e reintroduziu sub-repticiamente os objetos da metafísica dogmática” (MARTON, 1990, p. 161). O esforço de extirpar o suprassensível da teoria do conhecimento foi comprometido ou anulado na medida em que o mesmo foi eventualmente readmitido na ética por meio da segunda Crítica. Nesta, é como se o suprassensível entrasse por uma janela lateral do edifício kantiano, janela arrombada com um pé-de-cabra chamado imperativo categórico. E, “ao colocar Deus como objeto de crença, [Kant] abriu espaço para que fosse avaliado enquanto valor moral” (Ibid., p. 163). Em outras palavras, Kant teria substituído um dogmatismo por outro, o que justifica aquela imagem do despertar de um sono (ou de uma “modorra”[3]) para cair nos braços de outro(a).

A fim de ilustrar isso, lanço mão de uma das formulações do imperativo categórico: age apenas segundo a máxima pela qual possas ao mesmo tempo querer que ela se torne uma lei universal” (KANT, 2009, p. 215). Como, por exemplo, jamais mentir: “É, portanto, um mandamento sagrado da razão, que ordena incondicionalmente, não restringido por nenhuma conveniência: [deve-se] ser verídico (honesto) em todas as declarações” (KANT cit. in PUENTE, 2002, p. 73). Em outras palavras, o imperativo categórico comanda que sempre digamos a verdade porque é irracional pressupor que uma mentira qualquer, grande ou pequena, inofensiva[4] ou não, dita por conveniência, possa vir a ser encarada como uma lei universal.

Mais do que isso: na Metafísica dos Costumes, Kant afirma que mentir é uma “rejeição” e uma “destruição da própria dignidade do homem”, e que o mentiroso “tem um valor ainda menor do que se fosse simplesmente uma coisa” (KANT, 2011, p. 358-9). Ou seja, o indivíduo deprimido que, diante de estranhos, procura esconder sua condição (como no exemplo abaixo, na nota 4), ou um policial disfarçado que mente para o chefe de um cartel de drogas a fim de se proteger, armar um flagrante e prender o criminoso, bem, eles são ainda menores do que uma coisa, pois rejeitaram e destruíram a própria dignidade do ser humano enquanto tal.

O absolutismo dessa visão filosófica escancara o dogmatismo fundamental que a anima. Levando-se em conta esse escancaramento, talvez nem seja o caso de dizer, como Marton, que os objetos da metafísica dogmática foram reintroduzidos de forma sub-reptícia. A radicalização dessa proposta por Nietzsche, ainda que mire uma “superação”, uma “transvaloração”, é perpetrada mediante a utilização de um mesmo vocabulário, até porque não temos outro. Além disso, será que o uso de expressões e construções hipotéticas (“supondo que”, “parece-me”, “talvez” etc.) chega a camuflar o teor asseverativo de trechos como “Uma criatura viva quer antes de tudo dar vazão a sua força — a própria vida é vontade de poder”, “O que é chamado ‘livre-arbítrio’ é, essencialmente, o afeto de superioridade em relação àquele que tem de obedecer”, “A causa sui [causa de si mesmo] é a maior autocontradição até agora imaginada, uma espécie de violentação e desnatureza lógica” e “Toda a psicologia (…) tem estado presa a preconceitos e temores morais: não ousou descer às profundezas”?[5]. É difícil ignorar a certeza de alguém que argumenta com um martelo na mão.

Habermas (2011, p. 427) sublinha o fato de que a radicalização empreendida por Nietzsche psicologizou “o nexo de conhecimento e interesse”, convertendo-o “em fundamento de uma dissolução metacrítica do conhecimento em geral”. Com isso, ele concluiu a “autossupressão da teoria do conhecimento” iniciada pelos filósofos idealistas que o antecederam, identificando como inexequível a autorreflexão do sujeito cognoscente, presa na circularidade metacrítica que engendra. Homem de seu tempo, Nietzsche respirou os ares positivistas e também se contaminou.

Abrindo um pequeno parêntese, talvez seja interessante ressaltar a ironia relativa à acusação nietzschiana de falta de radicalidade no pensamento kantiano, pois, nos Prolegômenos, em passagem também referida por Torres Filho (op. cit., p. 37), é exatamente isso que Kant enxerga em Hume, o qual não teria “representado o problema em toda a sua amplidão”, mas “apenas por um lado”, sendo necessário “ir mais longe” do que aquele “a quem se deve a primeira centelha desta luz” (KANT, 2008, p. 17). Nietzsche não parece enxergar centelha alguma na investida kantiana, na tentativa (malograda?) de se firmar um compromisso entre empirismo e racionalismo, e na censura feita tanto ao dogmatismo quanto ao ceticismo — inclusive, como ressalta Torres Filho (op. cit., p. 40), no que percebe ou enxerga como dogmático no próprio ceticismo.

Em se tratando do esforço (de)limitador empreendido na primeira Crítica com relação ao estatuto e aos objetos da metafísica, e dado o recuo ou concessão já citado, procedido na Crítica da Razão Prática pela via da moralidade, talvez não seja exagerado enxergar em Kant aquele que, de fato, filosofou com o martelo: ao inadvertidamente quebrar os joelhos da teoria do conhecimento, o “chinês de Königsberg” abriu caminho para o “mal-entendido” hegeliano e, com isso, para o positivismo e o cientificismo. Mas, tendo em vista a inoperância dos sistemas propostos a seguir, tanto por partidários quanto por opositores do kantismo e do neokantismo, e seja ou não por “culpa” do próprio Kant, é forte a propensão para encarar boa parte dos filósofos surgidos desde então como uma sucessão de “chineses”[6]: o chinês de Rammenau, os chineses de Tübingen, o chinês de Röcken, o chinês da Floresta Negra, os chineses de Frankfurt, e assim por diante. O que uniria essa enorme China filosófica seria a incapacidade de colmatar o abismo aberto nos estertores do século XVIII e ampliado no decorrer do XIX, de superar a deposição (definitiva?) da “rainha”[7].

Em se tratando do chinês de Röcken, dizer ou anunciar a morte de Deus (por exemplo) não leva, por si só, a qualquer superação ou transvaloração. A rigor, não leva sequer a um velório — acaso levasse, é provável que o caixão estivesse vazio.[8] Aqui, abrindo mais um parêntese, lembro do Pai Morto que é arrastado pelos filhos no romance homônimo de Donald Barthelme (itálico do autor):

Morto, mas ainda conosco, ainda conosco, mas morto.
(…)
Nós queremos que o Pai Morto esteja morto. Sentamo-nos com lágrimas nos olhos querendo que o Pai Morto esteja morto — enquanto fazemos coisas fantásticas com as mãos. (BARTHELME, 2015, p. 16-17.)

E mais:

Não gosto disso, disse o Pai Morto.
Do quê?, Julie perguntou. Do que você não gosta, meu querido idoso?
Você estão me matando.
Nós? Nós não. Nós, de maneira alguma. Processos estão matando você, não nós. Processos inexoráveis. (Ibid., p. 216.)

Palmilhando em meio aos estilhaços do idealismo alemão, à carnificina positivista, à subsunção da teoria do conhecimento ao cientificismo, à referida autossupressão da teoria do conhecimento, não é difícil perceber como o vazio deixado por aquela Morte, nos processos instaurados por meio e a partir dela, horrores inúmeros tiveram, têm e terão lugar. Há uma linha reta entre o correr desenfreado das ciências assim divorciadas da teoria do conhecimento, livres de quaisquer fundamentações e anteparos epistemológicos e éticos, e eventos como a Shoah.

Não se trata de lamentar o Falecimento, óbvio. Passado tanto tempo, e conforme demonstrado pelo andamento da própria história da filosofia, o problema que levou àquela autossupressão permanece. Diversos pensadores, como Heidegger e Habermas, tentaram superá-lo com todas as suas forças, caindo em armadilhas outras e/ou esbarrando nos limites impostos pela própria linguagem para significar e ressignificar tais e tais coisas.

Assim, a insistência em se dirigir ao problema talvez seja tão incontornável quanto o abismo aberto por ele. Mas seria um erro encarar isso como uma paralisia. Pois, ainda que os objetivos últimos permaneçam inalcançados (e talvez sejam mesmo inalcançáveis), a filosofia segue lidando com aspectos inescapáveis da vida e do pensamento humanos. A precarização e o eventual “fracasso” desses esforços não podem ser confundidos com uma indignidade, e é isso que tentarei demonstrar a seguir, usando Strawson à guisa de exemplo.

 

2. O chinês de Oxford circula pelas ruínas.

Peter Frederick Strawson (1919-2006) é um caso sui generis no âmbito da filosofia contemporânea. Embora seja identificado com o chamado “grupo de Oxford” e tenha publicado trabalhos importantes no campo da filosofia analítica, dentre os quais se destaca o clássico artigo “On referring” (1950)[9], ele também escreveu um autoproclamado “ensaio de metafísica descritiva” intitulado Indivíduos (1959).

A metafísica descritiva, conforme ele explica na introdução do livro, “contenta-se em descrever a estrutura real do nosso pensamento sobre o mundo”, ao passo que o que chama de “metafísica revisionista” tenta “produzir uma estrutura melhor”. Strawson salienta que nenhum metafísico foi, “tanto em intenção, como de fato, totalmente uma coisa ou a outra”, mas identifica Descartes, Leibniz e Berkeley como “revisionistas”, e Aristóteles e Kant como “descritivistas” (STRAWSON, 2019, p. 13). Em seguida, ele procura distinguir a metafísica descritiva da análise filosófica, lógica ou conceitual, e o faz ressaltando seus âmbito e generalidade, pois ela visa “revelar os aspectos mais gerais da nossa estrutura conceitual”. Tal estrutura não se mostra “na superfície da linguagem de imediato, mas jaz submersa” (Ibid., p. 14). Como se pode observar, Strawson advoga a existência de “um núcleo central maciço do pensamento humano”, o qual

não tem história — ou nenhuma história registrada nas histórias do pensamento; há categorias e conceitos que, no seu caráter mais fundamental, não mudam nada. Obviamente, eles não são as especialidades do pensamento mais refinado. São os lugares-comuns do pensamento menos refinado e são, contudo, o núcleo indispensável do equipamento conceitual dos seres humanos mais sofisticados. É com eles, suas interconexões e a estrutura que formam, que uma metafísica descritiva estará primariamente preocupada. (Ibid., p. 15.)

Essa concepção talvez possa ser identificada por alguns com aquilo que, no aforismo 354 d’A Gaia Ciência, Nietzsche chama de “metafísica do povo”, típica dos “teóricos do conhecimento que se enredaram nas malhas da gramática” e ancorada em ficções tais como “a oposição entre sujeito e objeto”[10] (NIETZSCHE, 2012a, p. 223). No entanto, ao se concentrar nos pressupostos para a identificação dos particulares (sendo que os objetos materiais seriam os particulares básicos) e nas relações entre universais particulares, Strawson aponta para o mundo, procura dizer algo acerca dele e das maneiras como nos relacionamos com ele:

(…) Nós reinterpretamos a tarefa principal do filósofo (a tarefa metafísica) como a de responder à pergunta: quais são os conceitos e categorias mais gerais que organizam nosso pensamento, nossa experiência, acerca do mundo? E como se relacionam entre si dentro da estrutura total do pensamento? Ao responder a essa questão, respondemos incidentalmente à questão na sua forma mais geral, como realmente concebemos que o mundo é, ou qual é realmente a nossa ontologia básica (a ontologia em atividade). (STRAWSON, 2002, p. 54.)

Essa “ontologia em atividade” é algo que transcende as “malhas da gramática”. Strawson enxerga a ontologia, a epistemologia e a lógica como “três aspectos duma única investigação unificada” (Ibid., p.54).

Embora utilize termos e expressões como “tarefa metafísica” e “ontologia”, ele circula por um ambiente comparativamente bem mais modesto e aferrado à dimensão pragmática da linguagem do que, por exemplo, alguém como Descartes. São “chineses” com pretensões distintas: o francês se propõe a construir toda uma malha ferroviária, ao passo que o britânico se limita a mapear as ferrovias existentes e as paisagens que incidentalmente consegue observar. Enquanto “descritivista”, Strawson não intenta conceber um sistema que revise a nossa estrutura conceitual ou busque criar algo “novo”. Os trilhos já estão colocados.

Reitero: essa postura modesta talvez seja incontornável, dada a implosão da teoria do conhecimento e os rumos tomados pelas ciências não apenas destituídas de qualquer direcionamento filosoficamente consequente, mas, ao que tudo indica, até mesmo infensas a qualquer coisa do tipo. Em um certo sentido, a autossupressão da teoria do conhecimento teve como resultado não a saudável delimitação pretendida por Kant, mas o estrangulamento das pretensões “maiores” da filosofia. Não custa repisar que as tentativas posteriores a Kant de reformulação (por Hegel, Nietzsche, Heidegger e Habermas, por exemplo) não alcançaram o que pretendiam alcançar, mas, sim, ensejaram descarrilhamentos diversos.

No entanto, seria tolice deplorar essas e outras tentativas, bem como os esforços mais modestos (de novo: comparativamente) de “chineses” como Strawson. Há bastante tempo, os pensadores circulam, andrajosos, pelas ruínas dos grandes edifícios filosóficos, os quais eles mesmos, não raro de maneira inadvertida, trataram de implodir. Não há indignidade nisso, não há indignidade nesse palmilhar andrajoso. E temo que não haja como evitá-lo.

Talvez ele seja algo que poderíamos chamar de um impulso — no que o “chinês” de Röcken sorriria — ou, quem sabe, de um destino — no que o “chinês” da Floresta Negra se regozijaria. Aliás, em se tratando deste último, sua expectativa de ecos nietzschianos (na medida em que aponta para a superação das dicotomias) vem a calhar para os rumos da discussão, além de ser um tanto comovedora:

Talvez exista um pensamento fora da distinção entre racional e irracional, mais sóbrio ainda do que a técnica apoiada na ciência, mais sóbrio e por isso à parte, sem a eficácia e, contudo, constituindo uma urgente necessidade provinda dele mesmo. Se perguntarmos pela tarefa deste pensamento, então será questionado primeiro, não apenas este pensamento, mas também o próprio perguntar por ele. (…) (HEIDEGGER, 1979, p. 81.)

Visto por esse lado, isto é, pelo lado da “urgente necessidade provinda dele mesmo [pensamento]”, talvez não haja, afinal, nada de modesto nos esforços metafísico-descritivos de Strawson. Ao mesmo tempo em que sobrevive como pensador, ele não se deixa esmagar sob o peso das grandes questões e tampouco se ocupa de perquirições menores ou marginais. Por tudo isso, a insistência em referir-se a essa “estrutura submersa”, em procurar desvelar a nossa “ontologia básica”, é uma tarefa que nada tem de “grosseira”.

E, mesmo que não seja o caso, mesmo que Strawson não passe de mais um exemplo daquela “raça dura e laboriosa” referida por Nietzsche (2012b, p. 20), a verdade é que não chegaríamos a lugar algum sem “operários” como ele. Há, sim, muito o que ver e apreender por essa via que se coloca explícita e nomeadamente como descritiva, ou seja, não explicativa.

Em suma, ao sustentar o caráter descritivo de sua metafísica (e ao insistir em utilizar o termo em um momento que ele havia sido desterrado do vocabulário filosófico), Strawson acaba por justamente salvaguardar a dignidade filosófica. O que ele busca, na medida do possível e do factível, é a manutenção de uma discussão fundamental. Dada a precariedade do nosso tempo e, a rigor, de qualquer tempo, e não obstante os becos sem-saída com os quais os filósofos se depararam e continuam a se deparar[11], é possível que o sentido esteja em tal manutenção, esteja nesse esforço contínuo de adensamento e clarificação conceituais.

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NOTAS

[1] No prefácio dos Prolegômenos a Toda a Metafísica Futura que Queira Apresentar-se como Ciência, a célebre admissão de Kant: “Confesso francamente: foi a advertência de David Hume que, há muitos anos, interrompeu o meu sono dogmático e deu às minhas investigações no campo da filosofia especulativa uma orientação inteiramente diversa” (KANT, 2008, p. 17).

[2] Convém ressaltar que Habermas está, no trecho mencionado, ecoando um argumento sustentado por Hegel no início da Fenomenologia do Espirito. Não por acaso, a seção do livro Conhecimento e Interesse da qual foi retirada a citação se intitula “A crítica de Hegel a Kant: radicalização ou superação da teoria do conhecimento”.

[3] Conforme aponta Torres Filho, o termo usado por Kant na passagem mencionada dos Prolegômenos é “Schlummer”, que também pode ser traduzido como “sono pesado”, “letargia”, “modorra”.

[4] Um exemplo extremo: dois vizinhos se encontram no elevador. Não são amigos ou próximos. Por educação, quase como um reflexo social, um pergunta para o outro: “Tudo bem?”. E esse outro não está nada bem, passa por dificuldades pessoais e profissionais, mas responde: “Tudo ótimo. E com você?”.

[5] NIETZSCHE, 2012b, p. 19, 23, 25, 27.

[6] O teor racista da tirada nietzschiana soa inaceitável para a contemporaneidade, mas, por outro lado, a imagem é boa demais para não ser reaproveitada.

[7] Convém observar que, no prefácio da primeira edição da Crítica da Razão Pura, Kant já se refere ao status majestático da metafísica como algo já superado (grifos meus): “Houve um tempo em que esta ciência (a metafísica) era chamada de rainha de todas as outras” (KANT, 2010, p. 3).

[8] E, mesmo que víssemos ali o tal Cadáver, Nietzsche talvez não pudesse ser chamado de deicida, da mesma forma como não é um homicida alguém que, passeando pela rua, tropeça em um defunto.

[9] O artigo é uma crítica da teoria das descrições definidas de Bertrand Russell. Nele, Strawson distingue entre pressuposição e implicação. Grosso modo, ele institui três dimensões expressivas: sintática (relativa à maneira como as expressões são formadas), semântica (relativa ao significado das expressões) e pragmática (relativa ao uso). O significado de uma expressão linguística é, portanto, representado pelos conjuntos de regras, convenções e hábitos que, por assim dizer, “disciplinam” o seu uso. Há, portanto, uma distinção entre uso e significado: este é algo que atribuímos à expressão de maneira intrínseca; aquele, algo que depende do falante e do contexto da enunciação. Com isso, Strawson afastou a filosofia da linguagem da filosofia da lógica.

[10] A identificação e reidentificação de particulares são cruciais na descrição de Strawson do nosso esquema conceitual. A condição de possibilidade para a identificação dos particulares espaço-temporais é o esquema conceitual, cujas unicidade e singularidade possibilitariam a comunicação, dada a já citada imutabilidade das categorias e conceitos em “seu caráter mais fundamental”.

[11] “Em que círculo movemo-nos e, na verdade, de maneira inevitável?”, pergunta o mesmo Heidegger (Ibid., p. 81).

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BIBLIOGRAFIA

BARTHELME, Donald. O Pai Morto. Tradução: Daniel Pellizzari. Rio de Janeiro: Rocco, 2015.
HABERMAS, Jürgen. Conhecimento e Interesse. Tradução: Luiz Repa. São Paulo: Editora Unesp, 2014.
HEIDEGGER, Martin. “O Fim da Filosofia e a Tarefa do Pensamento.” Em Conferências e Escritos Filosóficos. Coleção Os Pensadores. Tradução e notas: Ernildo Stein. São Paulo: Abril Cultural, 1979.
KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Tradução: Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão. Lisboa: Fundação Calouste Gulbekian, 2010.
_______________. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Tradução: Guido Antonio de Almeida. São Paulo: Discurso Editorial; Barcarolla, 2009.
_______________. A Metafísica dos Costumes. Tradução: José Lamego. Lisboa: Fundação Calouste Gulbekian, 2011.
_______________. Prolegômenos a Toda a Metafísica Futura que Queira Apresentar-se como Ciência. Tradução: Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 2008.
_______________. “Sobre um pretenso direito de mentir por amor aos homens.” Tradução: Theresa Calvet de Magalhães e Fernando Rey Puente. Em PUENTE, Fernando Rey (org.). Os Filósofos e a Mentira. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002.
MARTON, Scarlett. Nietzsche – Das Forças Cósmicas aos Valores Humanos. São Paulo: Editora Brasiliense, 1990.
NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. Tradução: Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras (edição de bolso), 2012a.
___________________. Além do Bem e do Mal. Tradução: Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras (edição de bolso), 2012b.
STRAWSON, Peter Frederick. Indivíduos – Um Ensaio de Metafísica Descritiva. Tradução: Plínio Junqueira Smith. São Paulo: Editora Unesp, 2019.
TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. Ensaios de Filosofia Ilustrada. São Paulo: Editora Brasiliense, 1987.

 

[Imagem: Pablo Palazuelo – Omphale V.]

Canto LI

“Quinto elemento: lama”: observação que Napoleão teria feito na Polônia, ao retornar da campanha na Rússia — “Dieu, outre l’eau, l’air, la terre et le feu a crée une cinquième element, la boue”.

“Com usura (…) rebanho”: variação dos versos do Canto XLV, usando uma dicção moderna.

Para escrever os versos seguintes, com as referências às aves, Pound usou o catálogo The Art of Angling, de Charles Bowlker (daí o “número 2”, por exemplo).

“Quem tinha a luz de quem faz”: verso inspirado na filosofia do inglês Robert Grosseteste (1175-1253), cujo De luce é ancorado na ideia de que o primeiro “fazedor”, Deus, criou as formas materiais a partir da luz. No entender de Pound, a luz de quem faz é a inteligência da personalidade ativa, cujas ideias não são simplesmente teóricas, mas moldadas de tal maneira que se tornam aplicáveis ​​ao mundo real.

“deo similis quodam modo / hic intellectus adeptus”, “de certa forma similar a Deus / este intelecto adquirido”: Pound cita “Cavalcanti”, de Alberto Mangnus, via Avérroes et l’averroïsme, de Ernest Renan.

“Relva: nunca fora do lugar”: referência ao banco Monte dei Paschi, de Siena. Pound interpretou o sucesso do banco como resultado do uso das pastagens fora da cidade como garantia para os empréstimos. A base de sua própria segurança era, portanto, um recurso natural que se renovava a cada ano e crescia em todos os lugares.

“Assim falando em Königsberg”: Königsberg, à época da escrita desse Canto, era uma cidade prussiana, terra natal de Immanuel Kant. Muito bombardeada por aliados e soviéticos durante a Segunda Guerra Mundial, ela foi reconstruída, fagocitada pela União Soviética e, em 1946, rebatizada como Kaliningrado.

“Zwischen die Völkern erzielt wird”, “ser alcançado entre as nações”: citação abreviada de comentário de Rudolf Hess publicado no Völkischer Beobachter em 10 de julho de 1934. A citação completa: “Es is höchste Zeit daß endlich eine wirkliche Verständigung zwischen den Völkern erzielt wird” (“Já é hora de um acordo genuíno ser finalmente alcançado entre as nações”).

“modus vivendi”: Hess usa o termo alemão Verständigung, que Pound latiniza.

“girando em ar agitado”: referência ao Inferno XVII, 97-136. O voo de Gerião, um monstro mítico reimaginado por Dante para representar a fraude e ser o guardião do oitavo círculo infernal.

“os 12 (…) regentes”: os doze presidentes do Banco Central francês, todos financistas e industriais.

“Sou a ajuda dos velhos”: uma das estratégias dos fabricantes de armas era comprar jornais e angariar apoio político a fim de defender as armas como salvaguardas da paz. Além disso, arregimentavam apoio popular construindo hospitais e escolas.

“Liga de Cambrai”: liga criada pelo papa e pelo rei francês no começo do século XVI a fim de enfraquecer o poderio de Veneza. Foi por essa época que Vasco da Gama descobriu uma nova rota para a Índia, o que foi desastroso para Veneza.

Os caracteres chineses que encerram o Canto dizem respeito ao “cheng ming”, conceito político confuciano também conhecido como “retificação dos nomes”. É provável que Pound tenha encontrado os caracteres na edição bilíngue dos Quatro Livros por James Legge. A ideia é que, se a terminologia estiver incorreta, as instruções do governante não serão claras. E, caso as instruções não sejam claras, é impossível conduzir os assuntos do estado de forma apropriada.

Canto L

“‘A revolução’ disse o Sr. Adams ‘ocorreu nas / cabeças do povo'”: este Canto remete ao XXXII, no qual essa mesma citação (uma ideia recorrente de Adams, expressa em diversas cartas nos seus últimos anos de vida) aparece.

“… antes de Lexington”: em 19 de abril de 1775, a primeira batalha da Guerra de Independência ocorreu nessa cidadezinha próxima de Boston.

“… na época de Pedro Leopoldo”: Pietro Leopoldo (1747-92), filho de Francisco I, sucedeu seu irmão, José II, como imperador romano-germânico (1790-92), quando passou a se chamar Leopoldo II. Antes, foi Grão-Duque da Toscana (1765-90), a quem Adams procurou a fim de angariar ajuda financeira para a Guerra de Independência. No Canto XXXIII, Pound cita uma carta de Jefferson para Adams na qual o primeiro sugere que busquem a ajuda de Leopoldo. No Canto XLIV, Pound remete às reformas econômicas feitas por Leopoldo como Grão-Duque.

“Conde Orso”: também mencionado no Canto XLIII, a exemplo da “dívida quando os Médici tomaram o trono”. A jurisdição de Orso, concedida pelos Médici, limitava-se à cidadezinha de Monte Pescali, perto de Grosseto. Ele foi orientado a cobrar o imposto do sal, mas sem inflacionar do preço, a não proteger criminosos e a não inventar nada que criasse desaprovação popular. O controle dos Médici sobre a Toscana cessou em 1737.

“a primeira loucura”: Pound encontrou essas informações na Storia civile della Toscana, de Antonio Zorbi (1808-1879), um historiador anticlerical, contrário aos Médici e apoiador dos Habsburgo. A decadência da indústria têxtil de Florença se deu porque os florentinos importavam lã crua da Inglaterra e estabeleceram manufaturas no exterior, a fim de poupar os custos com o transporte. Isso fez com que Flandres e a Inglaterra desenvolvessem suas próprias indústrias e, eventualmente, parassem de trabalhar com Florença.

“as artes foram abaixo”: segundo Zorbi, houve uma decadência generalizada das artes e ciências sob o domínio dos Médici.

“Un’ abbondanza che affamava”, “uma abundância que enfaimava”: criado por Cosimo I no século XVI, o escritório da “Abbondanza” era responsável por supervisionar a importação e a distribuição de grãos na Toscana. Em certas épocas de crise e/ou escassez, o “Abbondanza” não conseguia fazer seu trabalho direito — daí a ideia da “abundância que enfaimava”.

“… o ensaio do Sr. Locke”: no caso, Several Papers Relating to Money, Interest and Trade.

“mas Gênova (…) para o prejuízo de Livorno”: na época da Guerra de Independência, o Sacro Império Romano assinou o tratado de neutralidade com a Inglaterra. Com isso, não obstante as vantagens de fazer comércio com os Estados Unidos, Leopoldo manteve a Toscana fiel a o tratado, e os norte-americanos firmaram uma parceria com Gênova. Ao final da guerra, em 1783, os EUA e Gênova já tinham uma relação comercial estabelecida, ao contrário da Toscana e de seu porto em Livorno. Os toscanos tiveram de recorrer a embarcações genovesas para transportar seus produtos para os EUA.

“Te, admirabile, O VashinnnTTonn!”, “Voi, popoli trasatlantici admirabili”: Zorbi louvando Washington e os EUA.

“e então enviaram-no para ser imperador”: no caso, Leopoldo após a morte do irmão.

“Francisco José”: a exemplo do que faz nos Cantos XVI, XXXV e XXXVIII, Pound expressa seu desprezo pelo imperador austríaco Francisco José (1830-1916).

“na merda de Metternich na podridão absoluta”: Klemens von Metternich (1773-1859) foi um político austríaco. Foi nomeado ministro das relações exteriores em 1809 e chanceler em 1821. Ele é considerado o arquiteto da restauração conservadora na Europa pós-Napoleão. Caiu por conta dos levantes revolucionários de 1848.

“Mas Ferdinando protelou um Anschluss”: Fernando III, filho de Leopoldo, tornou-se Grão-Duque da Toscana em 1790, depois da renúncia de seu pai em 29 de julho. A ideia era preservar a separação das coroas toscana e austríaca, bem como a independência da Toscana. Em 1799, Napoleão forçou Ferdinando a deixar o trono, o qual ele retomou em 1814. Reinou até morrer, em 1824.

“‘certas práticas denominadas religiosas’ disse Zorbi” / “‘falta de experiência em assuntos econômicos'”: Zorbi digressiona acerca das razões pelas quais o fulgor revolucionário foi bem-sucedido nos EUA, mas não na Toscana. Uma das razões seria a influência do clero sobre o povo. A incompetência toscana na administração econômica também é mencionada.

“Pio sexto, vigário da loucura”: o conde Giovanni Angelo Braschi (1717-1799) se tornou o papa Pio VI em 1775. Ele condenou a Revolução Francesa por razões óbvias. Em 1796, Napoleão derrotou as tropas papais em sua primeira campanha italiana. Dois anos depois, quando se recusou a renunciar ao poder temporal, Pio VI foi capturado e levado para a França, onde morreu meses depois.

“MARENGO”: a vitória contra os austríacos na Batalha de Marengo, em 14 de junho de 1800, assegurou o controle napoleônico sobre toda a Itália.

“Primeiro Cônsul”: Napoleão foi “Primeiro Cônsul” durante o período do “Consulado” (1799-1804), inaugurado pelo golpe do 18 de Brumário de 1799. Em 2 de dezembro de 1804, quando Napoleão foi coroado imperador, o Consulado chegou ao fim.

“Deixei paz. Encontrei guerra.”: impressões de Napoleão ao retornar do Egito, em outubro de 1799.

“1791”: erro. O correto é 1799.

“Marte significando, no caso, ordem / Aquele dia era o Direito junto ao vitorioso”: Pound liga o deus grego da guerra à figura de Napoleão, que instituiu uma ditadura com o golpe e consolidou seu poder após Marengo, após o que implementou (entre outras coisas) o seu código legal.

“juros de 24 por cento”: após a vitória de Napoleão em Marengo, houve um aumento da atividade dos usurários na Toscana, segundo Zorbi, o que contribuiu para o definhamento do comércio.

“1801 os triúnvirus…”: sob o domínio francês, houve diversas trocas de governantes na Toscana. Em 1801, ela chegou a ser administrada por três homens, Chiarenti, Pontelli e De-Ghores, os “triúnviros”. A desordem econômica e política era constante.

“Portoferraio”: cidade na ilha de Elba, na costa da Toscana, onde Napoleão foi exilado em maio de 1814, após sua derrota na Batalha de Leipzig (também chamada de Batalha das Nações), em 16-19 de outubro de 1813. Dois milhões (de francos) era a pensão que Napoleão recebia no exílio, metade dos quais ele repassava à esposa, Maria Luísa (1791-1847), filha do imperador Francisco I.

“recebeu um estado livre de dívidas”: referência à restauração das antigas monarquias europeias via Congresso de Viena (1814-15).

“reconduzir o Papa, mas / não reinstalar qualquer república”: o papa reconduzido foi Pio VII (1742-1823), que, eleito após a morte de Pio VI, também foi capturado por Napoleão. Pio VII permaneceu preso na França por catorze anos, só retornando a Roma após a derrota de Napoleão em 1813. Por sua vez, as repúblicas de Veneza e Gênova foram incorporadas aos reinos da Áustria e da Sardenha, respectivamente. Lucca foi dada a Maria Ana Elisa, irmã de Napoleão.

“ao dividir a Polônia”: no caso, entre Rússia, Áustria e Prússia.

“e aquele filho de uma cadela, Rospigliosi”: Giuseppe Rospigliosi (1755-1833) foi comissário especial para a Toscana, onde liderou um governo provisório entre maio e setembro de 1814, até o retorno de Ferdinando III.

“M… a no trono da Inglaterra, m…a no sofá austríaco”: “Merda” e “merda”, claro. No caso, George III (o louco), e Francisco I, além (provavelmente) de Metternich.

“… os quatro Jorges”: os “Jorges” da dinastia de Hanover, que governaram a Grã-Bretanha entre 1714 e 1830. O “pus” na Espanha são os Bourbon.

“… Wellington era um proxeneta de judeus (…) fazia”: Pound parece usar Wellington para xingar os Rothschild aqui, cuja ascensão se deu durante as Guerras Napoleônicas. Arthur Colley Wellesley, 1.º Duque de Wellington (1769-1852), foi um marechal e político britânico, e primeiro-ministro do Reino Unido por duas vezes. No entanto, a julgar por decisões tomadas em sua carreira política, é possível afirmar que Wellington não tivesse qualquer apreço pelos judeus.

“‘Deixe o Duque! Vá pro ouro!'”: durante o primeiro mandato de Wellington como primeiro-ministro (1828-1830) pelo Partido Conservador, houve uma campanha por reformas políticas que permitissem à classe média votar para o parlamento. Francis Place, um agitador radical, celebrizou os dizeres “Pare o Duque! Vá atrás do ouro!”. Com isso, ele queria dizer que uma corrida ao Banco da Inglaterra desestabilizaria a Câmara dos Lordes, forçando os conservadores a apoiar a reforma. Em junho de 1832, Wellington cedeu à pressão pública e desistiu de se opor à Lei de Reforma, permitindo que os Whigs (que chegaram ao poder em 1831) passassem seu projeto pelas duas casas e implementassem a lei (diluída) em 1833. Pound mudou os dizeres de Place, trocando “Stop” por “Leave”.

“‘Da brigantine Incostante'”: Napoleão deixou Elba no bergantim (“brigantine”) Inconstante e desembarcou em Cannes no dia 1º de março de 1815.

“Ney fora de sua sela / Grouchy demorou”: dentre os fatores que contribuíram para a derrota de Napoleão em Waterloo, estão a queda do Marechal Ney de seu cavalo e o fracasso do Marquês de Grouchy em impedir o exército prussiano de unir forças com Wellington.

“A palavra de Bentinck”: em 26 de abril de 1814, quando da capitulação de Gênova, o lorde William Bentinck, comandante militar das tropas britânicas, leu uma proclamação na qual reconhecia o desejo dos genoveses de voltar ao governo republicano. Mas, depois, o Congresso de Viena decidiu que Gênova seria incorporada ao Reino da Sardenha.

“ÓBITO, aetatis 57, quinhentos anos após D. Alighieri”: Napoleão morreu em 5 de maio de 1821 (Dante, em 1321), mas tinha 51 anos de idade (completaria 52 em 15 de agosto).

“Marie de Parma”: Maria Luísa, viúva de Napoleão.

“Mastai, Pio Nono”: Giovanni-Maria Mastai-Ferretti (1792-1878) foi eleito papa e se tornou Pio IX em 1846.

“D’Azeglio”: Massimo Taparelli, Marquês D’Azeglio (1798-1866), estadista, escritor e pintor piemontês.

“Lord Minto”: Gilbert Elliot (1782-1859), segundo Conde de Minto, foi um diplomata britânico e político do partido Whig. Em 1847, ele foi enviado à Itália para incentivar reformas políticas e relatar as condições reinantes no país.

“Bowring”: John Bowring (1792-1872), político britânico, economista e defensor do livre comércio. Ele visitou a Itália em 1836 e escreveu um relatório para a Câmara dos Comuns.

“o novo Leopoldo”: Leopoldo II (1797-1870), filho de Ferdinando III e neto de Pedro Leopoldo.

“Lalage”: provável referência ao epigrama II.66, de Marcial, no qual uma senhora romana, Lalage, golpeia uma escrava com o espelho por causa de uma mecha solta de cabelos.

“… pela base do afresco”: possível referência a um afresco encontrado em Pompéia na chamada Casa do Grão-Duque da Toscana (é a imagem que ilustra o post). Representa Dirce sendo amarrada ao touro como punição pela perseguição de Antíope. A “sombra” pode se referir à cor mais escura entre as pernas do touro atrás de Dirce, ou talvez seja uma metáfora sobre como a crueldade de Lalage para com a escrava é apagada pela crueldade maior de Dirce para com Antíope. Lalage, um nome romano, é encontrado em algumas inscrições em Pompeia.

“Dirce”: rainha mítica de Tebas, Dirce perseguiu e torturou sua escrava Antíope, forçando-a a expor seus gêmeos recém-nascidos. Dirce tentou matá-la amarrando-a a um touro, mas, em vez disso, foram os filhos de Antíope que amarraram Dirce ao touro e a fizeram experimentar a morte que queria infligir à outra.