Canto XLIV

Canto XLIV

“E”: Pound inicia o Canto dessa forma a fim de sublinhar a força das reformas perpetradas por Pietro Leopoldo na Toscana após se tornar Grão-Duque. É algo similar ao início do Canto XXXVII, com aquele “Você não vai (…) metê-los na cadeia por dívidas” de Martin van Buren. Pietro Leopoldo (1747-92), filho de Francisco I e Maria Teresa de Habsburgo, era o irmão caçula de José II, imperador da Áustria. Ele se tornou Grão-Duque da Toscana em 1765 e governou até a morte de seu irmão em 1790, quando se tornou imperador do sacro império romano-germânico como Leopoldo II. A principal fonte de Pound é o volume 6 de Il Monte dei Paschi di Siena e le aziende in esso riunite, a partir do qual delineia as reformas de Leopoldo (que elenca no início e no final do poema, e a elas retorna no Canto L), em especial a legislação introduzida em 1766.

“motu proprio”, “por seu próprio impulso”: decreto feito por iniciativa do rei ou governante.

“Ferdinando”: Ferdinando III (1769-1824), segundo filho de Pietro Leopoldo, tornou-se Grã-Duque em 1790. Seu irmão mais velho, Francisco, tornou-se imperador após a morte de seu pai em 1790. Ferdinando foi forçado a deixar o ducado quando da invasão da Itália por Napoleão, em 1799. Ele fugiu para Viena e abdicou em 1801, mas retornou quando Napoleão foi derrotado, em 1814, e governou a Toscana até morrer, em 1824.

“Bandeiras, trombetas…”: houve uma celebração pública em Siena quando Ferdinando proibiu a exportação de grãos em 5 de dezembro de 1792. Pound aprovava a autossuficiência, e acreditava que a primeira obrigação de todo governante é para com seus súditos locais.

“di tutte le qualità”, “de todos os tipos”: isto é, pessoas de todas as classes sociais. Nos versos anteriores, Pound se refere a diversos locais e edifícios de Siena, como a Capela de Alexandre e o Palácio dos Senhores (o Palazzo Pubblico, a câmara da cidade).

“mortaretti”, “pequenos morteiros”.”Evviva Ferdinando il Terzo”, “Viva Ferdinando III”. “Dovizia annonaria”, “abundância de provisões”.

“Frumentorum licentia (…) conservit”: no original, “Frumentariorum licentia coercita / Re annonaria laxata / Pauperum aeque ac divitum bono / consuluerit”, “(Para a segurança / de Ferdinando III da Áustria / porque /) quando a licença dos comerciantes de milho foi restringida / e as provisões foram reduzidas / ele tomou medidas / para o bem dos pobres e dos ricos”. “Frumentorum” é um erro do impressor, apontado por Pound em suas anotações; o correto seria “Frumentariorum”, e o “Re” deveria ser “De”. Pound errou ao transcrever “consuluerit” como “conservit” no Canto.

“1796”: na verdade, conforma já assinalado acima, “il più galantuomo del paese” (“o cavalheiro mais gentil do país”), fugiu da Toscana em 1799. A referência ao “padre cidadão” aponta para o domínio napoleônico, pois, conforme o vocabulário revolucionário francês, todos eram “cidadãos”. Pound também sublinha a inflação da fanga de trigo após a chegada de Napoleão, de 7,50 para 12 scudi.

“… vieram homens de Arezzo”: de fato, forças italianas foram a Siena para tentar expulsar os invasores, mas, em vez de atacar os franceses no castelo, fizeram um pogrom, perseguindo e matando a população judia. Quando, em 3 de julho, finalmente atacaram o forte, descobriram que tinham sido sabotados. Napoleão restabeleceu o controle sobre a Toscana após a Batalha de Marengo, em 14 de junho de 1800.

“respectons les prêtres”, “respeite os padres”: em carta para Talleyrand (1754-1838) de 22 de novembro de 1800, Napoleão disse que, para evitar rebeliões dos camponeses italianos, era preciso respeitar os clérigos locais.

“Premier Brumaire”: no calendário revolucionário francês, brumário era o mês que ia de 20 de outubro a 20 de novembro. “Vous voudrez citoyen”, “Cidadãos, vocês irão”.

“Delort”: Jacques Antoine Adrien Baron Delort (1773-1846), oficial do exército de Bonaparte. “Dupont”: Pierre-Antoine, Conde Dupont de l’Étang (1765-1840), outro oficial.

“Luis Rei da Etrúria, Primus”: após conquistar a Itália, Napoleão queria que a Espanha se tornasse sua aliada contra os ingleses. Para tanto, ele tornou Luís, o duque de Parma (e membro da família Bourbon, que governava a Espanha), rei da Etrúria, reino recém-criado na Toscana que existiu por sete anos (1801-1807). Luís morreu de epilepsia em 1803. Sua viúva, Maria Luísa, tornou-se regente (Carlos Luís, filho de ambos, era menor de idade). Ferdinando III foi compensado com o Eleitorado de Salzburgo.

“Gen. Clarke”: Henri Jacques Guillaume Clarke (1765-1818), franco-irlandês que iniciou a carreira nas guerras revolucionárias francesas.

“Ministro degli Esteri”, “Ministro das Relações Exteriores”: no caso, Talleyrand.

“proveitos do Monte”: juros então correntes no Monte dei Paschi.

“Madame / ma soeur et cousine”, “Madame / minha irmã e prima”: de uma carta de Maria Luísa, viúva de Luís I, rei da Etrúria, em 1807, depois que Napoleão extinguiu o reino e queria que a região da Toscana fosse anexada pela França. Maria Luísa era filha do rei Carlos IV, da Espanha, e queria voltar para casa.

“General Reile”: Honoré Charles Michel Joseph Reille (1775-1860), do exército de Napoleão.

“importar tropas de Lisboa”: na fonte original, lê-se “Livorno”. Pound deve ter se confundido porque a próxima na fila de conquistas napoleônicas foi Lisboa, como se vê a seguir. Bonaparte invadiu Portugal no dia 19 de novembro de 1807, forçando a família real a fugir para o Brasil. A resistência portuguesa ganhou corpo em julho de 1808. Em agosto, sob o comando de Arthur Wellesley, tropas britânicas aportaram na Baía do Mondego, e teve início a Guerra Peninsular. Napoleão e Maria Luísa se encontraram em Milão, mas não chegaram a um acordo. Ele prometeu a ela o Reino da Lusitânia do Norte, isto é, a região correspondente de Portugal, após a conquista do país pelas forças franco-espanholas e conforme o Tratado de Fontainebleau (que também anexou a Etrúria à França). Napoleão queria que Maria Luísa se casasse com seu (dele) irmão, Lucien Bonaparte, mas ambos se recusaram: Lucien teria de se divorciar da esposa, a quem era apegado, e Maria Luísa não queria tomar o que era de sua irmã mais velha, Carlota Joaquina. Napoleão, então, quis que Maria Luísa se estabelecesse em Nice ou Turim, mas ela preferiu se juntar aos pais na Espanha, o que eventualmente ocorreu.

“aqueles homens”: em 14 de maio de 1809, Napoleão deu o ducado da Toscana para sua irmã, Maria Ana Elisa Bonaparte (1777-1820), princesa de Lucca e Piombino. O diarista Francesco Antonio Bandini (c.1762-1838) relatou que, quando ela entrou em Siena, os homens tiraram os cavalos de sua carruagem e a puxaram, mas que ele tinha certeza de que a ação não foi baseada em entusiasmo genuíno. Os diários de Bandini estão na biblioteca pública de Siena.

“‘Semíramis'”: Maria Ana Elisa Bonaparte foi comparada com a rainha Semíramis, da Babilônia, por seu apoio às artes.

“E antes dele”: após comentar as melhorias feitas por Bonaparte, Narciso Mengozzi retorna a Pietro Leopoldo e, por três páginas, elenca suas reformas, terminando com as introduzidas por Ferdinando III. Pound coloca a redução da dívida pública no topo da lista.

“mortmain”, “morte main”, “mão morta”: privilégio da propriedade perpétua da terra, geralmente concedido ao clero, mas também às corporações.

“Val di Chiana”: vale do rio Chiana, na Toscana. A referência ao “porto franco” se refere ao fato de que Leopoldo II, filho e sucessor de Ferdinando III, abriu o porto de Livorno.

“Madame Letizia”: Maria Letícia Ramolino Bonaparte (1750-1836), mãe de Napoleão. Ela esteve em Siena entre 3 a 13 de agosto de 1815. A visita de um membro da família Bonaparte em Siena, dois meses após a Batalha de Waterloo, tornou-se uma notícia qualquer, registrada pelo diarista Bandini.

“Provveditore”, “supervisor”.

Canto XLIII

“serenissimo Dno”, “sereníssimo Senhor”: esta e as seguintes são frases do Documento C (v. Canto anterior).

“et omnia alia juva [jura]”, “e todos os outros direitos”; “eiusdem civitatis Senén” [“ejusdem Civitatis Senarum”], “da mesma cidade de Siena”. A partir de “no terceiro lugar” estão as garantias oferecidas pela cidade de Siena à família Ducal florentina em caso de falência do Monte. “M Dux” é o “Magnus Dux”, o “Grande Duque”; “videlicet alligati”, “a saber, o que se segue”.

“No Nome de Deus…”: a partir daqui, a fonte é outro documento (B1), no qual está registrada a deliberação do Generale Consiglio del Populo (117 membros) na Sala del Mappamondo, em Siena, no dia 4 de março de 1623, após o aval de Florença para a criação do banco.

“Tuscanissimo”: abreviação de “Toscana Serenissimo”; “siano soddisfatti”, “estão satisfeitos”; “Ob pecuniae scarsitatem”, “por causa da escassez de dinheiro”.

“SP. (…) civitatis”: no documento original, “Senatus Populusque Senensis, ac pro eo amplissimum Baliae Collegium cujus vigilantiae totius Civitas”, “o Senado e o povo de Siena e, em seu nome, o Ilustre Colegiado do Bailio e sua vigilância sobre todo a cidade”.

“Urbano (…) eleito”: no documento original, “Urbano Octavo Summo Pontifice, Ferdinando Secundo Romanorum Imperator electo, et Sermo Ferdinando Secundo Hetruriae Magno Duce quinto, Domino Nostro feliciter dominante”, “Urbano VIII, Sumo Pontífice, Fernando II, Imperador Romano eleito, e o Sereníssimo Ferdinando II, o quinto Grão-Duque da Toscana, Nosso feliz governante”. Urbano VIII era Maffeo Barberini (1568-1644), filho de um nobre florentino; tornou-se papa em 1623. O Grão-Duque da Toscana era Ferdinando II (1578-1637).

“1251 dos Protocolos”: local em que estava guardado o documento nos arquivos de Siena. O documento estava em uma coleção chamada “Notarile postcosimiano”, e o nº 1251 era o “Libro dei protocolli del notaio Livio Pasquini”, “Livro dos protocolos do notário Livio Pasquini”.

“carroccio”: espécie de carro alegórico que desfila no Palio, em Siena, após a corrida de cavalos. É puxado por quatro bois.

“águias de ouro”: símbolo da guilda predominante na “contrada” (distrito) onde Pound alugou um quarto em Siena. No caso, a guilda dos notários (Aquila). Mais adiante, Pound menciona “17 estandartes” porque apenas 17 distritos podiam participar do Palio.

“São Jorge…”: Pound enumera os símbolos que viu no carroccio. “Nicchio” era o nome de outra contrada, simbolizada por uma concha marinha.

“salite”, “caminho da colina”; “laudate pueri”, “louvem, meninos”; “Duomo” é a catedral de Siena.

“quocunque aliunde”, “quorumcumque aliorum”, “quaisquer outros”: cada cidadão de Siena seria responsabilizado e taxado em caso de falência do Monte a fim de ressarcir a família ducal.

“ducatorum? no. ducentorum”, “de ducados? não. de duzentos”.

“Estar ou não estar amarrado à Loja de Penhores”: o Monte dei Paschi estava “amarrado” ao Monte di Pietà no negócio.

“libris septem”, “sete libras”; “summam, scutorum”, “a soma dos scudi”.

“Fora de Siracusa”: Pound se refere a uma história contada por Demóstenes no discurso “Contra Zenothemis”.

“S.O.”: Standard Oil. Referência ao escândalo Teapot Dome (1921-23), no qual o então Secretário do Interior do governo Harding, Albert B. Fall (1861-1944), recebeu 385 mil dólares de propina para dar a concessão de uma lucrativa reserva de petróleo em Teapot Dome, no Wyoming, à Standard Oil. Fall cedeu a concessão sem que houvesse concorrência pública. Um operador local, enfurecido com tudo isso, escreveu para um dos senadores que representavam o estado e exigiu uma investigação. As concessões não eram ilegais, ao contrário do súbito enriquecimento de Fall. Ele foi o primeiro membro de um gabinete presidencial a ser preso por corrupção. A pena foi de um ano.

“PIEDADE”: o Monte di Pietà, também chamado de Loja de Penhores, pois oferecia empréstimos com juros baixos para os mais necessitados. Em outras cidades, instituições assim foram fundadas pelos franciscanos, mas, em Siena, o Pietà pertencia à cidade. Dada a sua indisposição para com quaisquer práticas usurárias, Pound sustenta que o Pietà não era nenhuma instituição de caridade, mas algo capaz de fomentar bons negócios e ajudar a população.

“Illus Balia eseguisca in tutto”, “L’Illre. Balia eseguiva in tutto” (“o ilustre Bailio executa em tudo”): diretiva no ato pelo qual Maria Maddalena Tutrice cede o poder executivo relativo ao Monte dei Paschi para o Bailio de Siena, em dezembro de 1622.

“hoc die decim’ octavo”, “neste décimo oitavo dia”: Pound retorna à transcrição de Pasquini (B2), datada de 18 de julho de 1623. O latim correto seria “hac die decima octava”.

“Celso”: Celso Cittadini (1555-1627), filólogo e arquivista de Siena.

“elevado a Senhoria”: o Monte tinha poderes políticos e judiciais em Siena.

“Paris Bolgarini”: membro do Bailio que participou das deliberações sobre a petição para a criação do Monte.

“cancellarius”: “secretário”.

“entrate”: “entradas”, isto é, receitas advindas dos impostos.

“gabelle”: imposto especial de consumo, do tipo que recai em produtos como sal, combustível, tabaco etc.

“dogana”: alfândega, aduana.

“janeiro de 1622”: referência ao documento (A2) de aprovação ducal.

“dinheiro negro”: dinheiro em chumbo.

“Monte di Firenze, vacabile”: banco florentino fundado por Ferdinando I em 1591. O termo “vacabile” se refere à taxa de juros dos títulos emitidos pelo banco (8,5%), títulos que se extinguiam com a morte do obrigacionista. Os títulos do Monte dei Paschi eram “non-vacabili”: perpétuos, com 5% de juros.

“admitiram os bandidos”: no original, “gangsters admitted”. Que tal “bandidos admitidos”? Ou “admitem-se bandidos”?

“Orazio della Rena”: secretário de Maria Maddalena.

“Orbem bellis, urbem gabellis (…) implevit”, “Urbano VIII encheu o mundo de guerras e a cidade de impostos”.

“Monte Paschale, fatto Signoria”: Montepescali, cidadezinha perto de Grosseto, ao Sul de Siena.

“1676 (…) Grão-Duque”: no caso, trata-se de Cosimo III (1642-1723, reinou entre 1670 e 1723), filho de Ferdinando II.

“non intendeva di quella materia”, “ele não entendia aquelas questões”.

“Buonomini”, “bons homens”. No caso, seria “dos Buonomini”.

“fundação Tolomei”: Celso Tolomei deixou dinheiro para um colégio, ao qual o Monte fez um empréstimo sem juros em 1678.

“Paschi di detta Città”, “pastagens da referida cidade”.

“Cautele”, “garantias”.

“Florença 1749 (…) 12,000”: empréstimos feitos pelo imperador dos Habsburgo, Francisco I, para a construção de obras públicas. Os empréstimos foram feitos após a extinção da família Medici, em 1737, mas antes que Pietro Leopoldo se tornasse Grão-Duque, em 1765.

A quinta década dos Cantos XLII-LI (1937)

 

CANTO XLII
A fundação do Monte dei Paschi, em Siena.

CANTO XLIII
Ainda o Monte dei Paschi.
Demóstenes, “Contra Zenothemis”.
Escândalo de Teapot Dome.

CANTO XLIV
As reformas de Pietro Leopoldo.
Invasão napoleônica da Toscana,
tornada Reino da Etrúria.
O caráter de Maria Luísa.

CANTO XLV
O célebre “Canto da Usura”.

CANTO XLVI
No qual voltamos ao ideário econômico
advogado por Pound.
O “crime” do Banco da Inglaterra.
“Hic est hyper-usura.”

CANTO XLVII
Voltamos à cama de Circe,
que informa a Odisseu o que ele precisa fazer
(invocar as ânimas dos mortos e falar com Tirésias).
O mito de Adônis (Tamuz):
catábase, dromena, epopteia.

CANTO XLVIII
Império Otomano: dissolução.
Grande Guerra Turca e Cerco de Viena.
As memórias de von Unruh.
Mais escrotidão antissemita de Pound.
Das memórias de Mary de Rachewiltz.
Pound e Eliot revisitados (1919).

CANTO XLIX
O “canto dos sete lagos”.
As Oito Paisagens do Xiao-Xiang.
E dois poemas antigos das notas de Fenollosa.

CANTO L
Leopoldo e a decadência de Florença.
Napoleão: ascensão e queda.
Lalage e Dirce.

CANTO LI
O “quinto elemento” segundo Napoleão.
Os versos sobre a usura (XLV) revisitados
com uma dicção moderna.
Grosseteste e a luz.
O voo de Geryone. A Liga de Cambrai.
Retificação dos nomes.

Canto XLII

“Palmerston”: Henry John Temple, 3º Visconde Palmerston (1784-1865), político britânico e lider do Partido Liberal. Foi primeiro-ministro entre 1855 e 65. Pound cita uma carta dele para John Russell (1792-1898), outro político liberal, escrita em 1863. Palmerston reaparece nos Cantos 52, 89 e 104, e é apresentado sempre favoravelmente.

re / Chas. H. Adams”: Charles Francis Adams (1807-1886), neto de John Adams, historiador e político norte-americano. Como os britânicos importavam algodão dos estados sulistas, temia-se que eles se posicionassem contra a União e a favor dos Confederados. Assim, durante a Guerra Civil, Adams atuou como enviado dos EUA na Inglaterra e conseguiu assegurar a neutralidade inglesa.

“velho etcetera… monumento”: referência ao memorial da Rainha Vitória, localizado defronte ao Palácio de Buckingham.

“H.G.”: Herbert George Wells (1866-1946), romancista britânico.

“Lex salica”: a Lei Sálica foi criada por Clovis I, rei dos Francos, no século V. Entre outras coisas, ela excluiu as mulheres das sucessões reais. Acaso a Inglaterra seguisse essa lei, Vitória (por exemplo) jamais teria assumido o trono.

“Lex germanica”: na lei alemã, havia uma igualdade entre os irmãos herdeiros e, caso não houvesse homens, as mulheres podiam herdar e até mesmo controlar a propriedade. Pound sugere, com ironia, que a sucessão britânica segue a lei germânica.

“Antoninus”: Antonino Pio (86-161 d.C.), imperador romano tido como um excelente administrador.

“a lei regia no mar”: resposta de Antonino à petição de um mercador da Nicomédia (atual İzmit, na Turquia) chamado Eudaemones. O mercador alegou que seu navio tinha naufragado, e que fiscais das Cíclades confiscaram suas propriedades. Chamando Antonino de “kyrios”, “Senhor do Mundo”, Eudaemones pede que seja poupado do confisco. Daí a resposta de Antonino: “Eu governo a terra, mas a lei [de Rodes] governa o mar, e nisso não contradiz a lei romana”. Essa “lei marítima” previa a usura, justificando o confisco dos bens do mercador para saldar as dívidas que tivesse. Pound retorna à resposta de Antonino nos Cantos 46, 78 e 87.

Os dizeres de Antonino ligam o início do Canto (em que a postura de Palmerston deixa claro que, embora Vitória seja retratada como a “imperatriz do mundo”, quem governa são os ministros e políticos) à principal história do poema: a fundação do Monte dei Paschi. Sobre a fundação do Monte, vemos como as receitas dos impostos poderiam ser usadas para garantir um empreendimento bancário dos mais arriscados, em uma época na qual o poder político na Toscana era débil. Assim, o Canto expõe ao ridículo as contradições entre os soberanos e as leis que regem, de fato, um determinado estado ou comunidade. Assim como Eudaemones pediu uma reparação ao imperador, os senenses pediram aos seus governantes que ajudassem a cidade, estendendo os acordos legais existentes entre Siena e Florença.

“Ilustre Colegiado”: Collegio di Balìa, o senado de Siena, constituído por vinte membros (“Bailio”) escolhidos pelo duque.

“Monte”: o Monte dei Paschi (Monte das Pastagens) derivou seu nome do já existente Monte di Pietà, a casa de penhores de Siena. Embora Pound apresente a fundação do Monte como tendo ocorrido em 1624 e en separado do Monte di Pietà, historiadores demonstraram a continuidade entre as duas instituições e consideram uma só data para a criação de ambos (1472).

“banco di giro”: faz movimentações financeiras entre contas de indivíduos e empresas por meio de anotações nos livros de cada conta, sem a necessidade de lançar títulos ou cheques.

“pareceres”: nos Cantos 42 e 43, Pound recorre a três conjuntos de documentos: o relatório do senado florentino para a família ducal com respeito à petição dos senenses e, depois, a aprovação da petição em 30 de dezembro de 1622, autenticada em 2 de janeiro de 1623; a reunião dos membros do conselho senense para discutir o estatuto e as garantias do banco na Sala del Mappamondo da câmara da cidade, em 4 de março de 1623, autenticada por Livio Pasquini em 18 julho de 1623; e o documento de fundação do Monte, escrito em latim e italiano, em 2 de novembro de 1624, assinado por Pasquini (representando Siena) e Nicolaus Ulixis (representando Florença). Pound inicia sua apresentação dos materiais de Siena in medias res, com a reunião dos conselheiros em 4 de março de 1623. Ele retorna à mesma cena (e ao que foi acordado ali) no começo do Canto 43.

“Senado”: Cosimo I derrotou Siena na guerra de 1555, quando a cidade perdeu sua independência e se tornou parte do Grande Ducado da Toscana. Assim, todas as decisões relativas à criação do Monte dei Paschi foram tomadas em Florença, cujo Senado era composto por 48 homens. Foram eles quem apresentaram à família ducal a petição do Bailio senense para criar um novo “Monte” a partir de recursos recebidos via impostos, em um relatório de 29 de dezembro de 1622.

“contrato”: no original, “contrade”. Trata-se de uma mancada do tradutor. “Contrade”, em italiano, significa “bairros”, “distritos”.

“cai a onda…”: esses quatro versos funcionam como uma transição lírica entre a primeira parte, sobre o estabelecimento do Monte, à segunda, que retorna à petição dos senenses.

“AA VV”: “Altezze vostre”, “vossas altezas” (letras duplicadas como indicativo do plural). Mais abaixo, “Luoghi”, “instituições”, “organizações”.

“Grão-Duque”: à época, Ferdinando II (1610-1670), que ainda era menor de idade.

“‘A Abundância'”: “L’Abbondanza”, magistratura responsável pela distribuição de grãos em tempos de escassez.

“Nicolo (…) Gionfiglioli”: Pound escreve erroneamente os nomes desses dois signatários. O correto: Niccolò dell’Antella e Horatio Gianfigliazzi.

“Tutrice”: tutora. “Xembre”: dezembro.

“Fabbizio bollo vedo”: Pound parodia o nome de Fabrizio Colloredo. “bollo vedo” significa “vejo um selo” em italiano. Com “Cenzio Grcolini”, outra paródia (de Orazio Ercolani).

“ACTUM SENIS”, “transacionado em Siena”.

“o eco retornou à minha mente”: referência a três cidades do norte da Itália, localizadas entre Milão e Veneza — Pavia, Vincenza e Verona (a igreja San Zeno e o rio Adige são citados no trecho).

“Nicolaus Ulivis de Cagnascis”: Nicolaus Ulixis de Magnanis, notário florentino que assinou o documento de fundação do Monte dei Paschi junto com o notário senense Livio Pasquini. “Ulivi”, “oliveiras”; “Ulixis” remete a “Ulisses”.

“Senatus Populusque Senensis”, “o Senado e o povo de Siena”; “OB PECUNIAE SCARSITATEM”, “por causa da escassez de dinheiro”; “Monte non vacabilis publico”, “ações não expiram com a morte”. Aqui, Pound retorna ao documento de 2 de novembro de 1624, no qual os senenses apresentam as razões para a fundação do Monte.

“com precauções”: no caso, as garantias que Siena oferecia à família ducal para a criação do banco. A primeira precaução é de que os lucros seriam usados para cobrir perdas, e que o banco manteria uma pequena reserva para quaisquer eventualidades.

“die decima ottava”: dia 18.

“Della Rena”: Horatio della Rena, secretário da tutora Maria Maddalena e um dos signatários do ato de 30 de dezembro de 1622, pelo qual o estabelecimento do Monte foi aprovado pela família ducal. “Don Ferdinandus”: Ferdinando II, o Gão-Duque.

O logo que aparece no Canto é o brasão da família Chigi, banqueiros em Siena desde o século XV. Agostino Chigi estava entre os primeiros magistrados do Monte. Em 1933, quando o conde Guido Chigi Saracini fundou sua Accademia Musicale Chigiana, ela foi patrocinada pelo Monte. Olga Rudge, a amante de Pound, tornou-se a primeira secretária da Accademia, o que suscitou o interesse do poeta por Siena e sua história.

“Chigi, Soffici (…) St. Alban”: Agostino Chigi, Alessandro de Sozzini, Marcellus de Agostini, Cesare Marescotti di Mont’Albano, os oficiais responsáveis pela administração do Monte dei Paschi em 1624.

“Loca Montis”: ações no Monte.

“ex certe scientia et”, “a partir de conhecimento certo” (segundo a tradução do próprio Pound no verso anterior).

“de libris septeno”: o correto seria “de libris septem”, “de sete libras”. Cada escudo valia 7 libras.

Canto XL

“esprit de corps”: Pound cita uma carta de Jefferson para Albert Gallatin (13 de dezembro de 1803), em que o norte-americano enumera as vantagens da rotatividade dos congressistas dos EUA.

“De banchis cambi tenendi…”, “banco de câmbio”: citação de Storia delle banche, de Pietro Rota. Em 1361, o senado veneziano discutiu a necessidade da criação de bancos para regular as taxas e as transações entre os diversos estados. No entanto, foi apenas em 1584 (“guardado por uns dois séculos”) que o primeiro banco público foi criado na cidade, o Banco della Piazza del Rialto.

“sete merlins”: no original, “seven marlin”, isto é, “espadins”. De uma carta de Hemingway para Pound, 22 de julho de 1933.

“Peabody”: George Peabody (1795-1869), banqueiro norte-americano, especializou-se em canalizar investimentos britânicos para os EUA. Era um concorrente dos Rothschild. Em 1857, durante uma crise, o Bank of England tentou arruiná-lo ao recusar um empréstimo substancial.

“D’ARCY”: William Knox D’Arcy (1849-1917), negociante britânico que investiu na prospecção de petróleo na Pérsia. Criou a Anglo-Persian Oil Company.

“’62, relatório do comitê”: em 1862, um comitê do congresso dos EUA investigou e identificou várias fraudes cometidas durante a Guerra Civil, algumas delas pelo banqueiro John Pierpont Morgan (1837-1913), que vendeu armas danificadas que pertenciam à União para a própria União, lucrando horrores com isso. No ano seguinte, e isso também é mencionado no Canto (“por forçar a alta do ouro”), Morgan comprou uma grande quantidade de ouro a um preço baixo e enviou a metade para a Inglaterra; com a escassez de ouro no mercado dos EUA, o preço foi às alturas. Além disso, o preço do ouro subia com as vitórias dos Confederados e caía com as vitórias da União, fato mencionado pela fonte de Pound (Lewis Corey, House of Morgan).

“Boutwell”: George S. Boutwell (1818-1905), político de Massachusetts, foi Secretário do Tesouro no governo de Ulysses Grant (1869-73).

“A igreja de Beecher”: Henry Ward Beecher (1813-87), da Plymouth Church, no Brooklyn, Nova York, e irmão de Harriet Beecher Stowe.

“Belmont representando os Rothschild”: August Belmont (1816-90), financista e político de ascendência judia. Nascido na Alemanha, aprendeu o ofício no banco dos Rothschild em Frankfurt. Enviado por eles para representar seus interesses nos EUA, chegou a Nova York em meio ao Pânico de 1837. Fundou a bem-sucedida firma de investimentos Belmont & Co., participou ativamente do Partido Democrata (então escravista e apoiador do Sul).

“… nenhuma instituição central”: referência à crise de 1907, que contribuiu para a criação do Federal Reserve poucos anos depois.

“A investigação de Pujo”: Arsène Paulin Pujo (1861-39), advogado e congressista pela Louisiana, presidiu um subcomitê que investigou a criação de monopólios por banqueiros de Wall Street. Eles descobriram que poucos financistas controlavam as manufaturas, os transportes, as minas, as telecomunicações e os mercados financeiros. No caso, corporações controladas por Morgan, George F. Baker (presidente do First National Bank, o “tenente” de Morgan, segundo Corey) e James Stillman. Essas descobertas levaram à ratificação da 16ª Emenda, à criação do Federal Reserve e à aprovação do Clayton Antitrust Act.

“Palladio”: Andrea Palladio (1518-1580), arquiteto nascido em Pádua, trabalhou em Veneza e região.

“ÁGALMA”: ornamento.

“… procurando uma saída”: transição para a segunda parte do Canto, dedicada à viagem do cartaginês Hanno (ou Hanão) pela costa oeste africana, em c. 470 a.C. Hanno fundou sete cidades no litoral marroquino, todas elas citadas no decorrer do Canto: Thumiatehyon (atual Mehdia), Karikon, Gutta, Akra, Meli e Arambo. Os “pilares de Herakles” correspondem ao Estreito de Gibraltar. “Lixos” (ou Lixus”) era o nome antigo do rio Draal, o mais extenso do Marrocos. “Lixtus” são a Cordilheira do Atlas. “Xrestes”: o rio Senegal, provavelmente. A “ampla baía ou estuário” pode ser a boca do rio Gâmbia.

“De tais coisas procurando uma saída”: paralelismo entre a corrupção nos EUA mencionada anteriormente e a viagem de saques e colonização empreendida por Hanno.

“empíreo”: ἔμπυρος, “em fogo”, a parte mais elevada do Paraíso (conforme Dante, Paraíso XXXI).

“Nous”: aqui, refere-se ao mundo platônico/neoplatônico das ideias.

“Karxedonion Basileos”, “[do] rei dos cartagineses”.

“templo”: o templo fenício de Baal, onde Hanno gravou em uma estela votiva o relato de sua viagem ou périplo pela África.

Canto XLI

“Ma questo (…) è divertente”, “Mas isso é divertido”: Mussolini, o “Chefe”, teria dito isso para Pound ao folhear o exemplar de A Draft of XXX Cantos com que fora presenteado pelo poeta, quando da célebre audiência em 30 de janeiro de 1933. O que ele achou divertido foi o inglês estropiado que Pound colocou na boca de um judeu em um dos poemas.

“Esperou 2000 mil anos”: Pound apresenta Mussolini como um homem que intuiu tudo aquilo de que a Itália precisava, mas era por demais inerte (a Itália, não Mussolini) para atingir seus objetivos por culpa do conservadorismo reinante. Assim, as realizações de Mussolini após chegar ao poder (citadas no Canto: as drenagens e construções de canais em Vada e na região do Monte Circeo) são dignas de comparação com as construções e projetos da Antiga Roma.

“XI de nossa era”: a “Era Fascista” começara em 27 de outubro de 1922, com a Marcha sobre Roma e a ascensão de Mussolini ao poder.

“mezzo-yit”: “meio judeu”.

“confine”: “confino”, “colonie di confino”. Lugares de detenção forçada para os politicamente “indesejáveis”, em ilhas isoladas: Ustica, Favignana, Lipari, Pantelleria, Lampedusa, San Nicola e San Domino.

“Noi ci facciam sgannar per Mussolini”, “Nós nos deixamos ser massacrados por Mussolini”.

“‘Onde vai o Papa…'”: Giovanni Uzzano descrevendo as dificuldades monetárias na Florença do século XV. “Messire Uzzano”: Pound não leu o livro de Uzzano, La pratica della mercatura (1442), mas encontrou uma citação em Storia delle banche, de Pietro Rota.

“Onze horas…”: nesse trecho, Pound reconta algumas anedotas sobre Mussolini narradas na biografia Dux, de Margherita Sarfatti.

“Geschichte und Lebensbilder…”: o livro de Baur citado (em tradução livre, “História e Imagens da Vida [da] Renovação da Vida Religiosa nas Guerras de Libertação Alemãs”) foi publicado em 1864; a cópia de Unruh era da edição de 1908. Pound intercala o título original do livro com algo que Mussolini escreveu em seus diários: “In guerra, poi, l’elemento temperatura ha enorme importanza; e nella guerra d’alta montagna, importanza assoluta, anche agli effetti pratici”.

“Augusta Victoria”: Augusta Victoria von Schleswig Holstein (1858-1921), imperatriz alemã e rainha da Prússia por seu casamento com Guilherme II. Ela teria dado o exemplar do livro de Baur para Unruh.

“na guerra da montanha”: a região ao norte da Itália, onde esta pretendia conquistar territórios do Império Austro-Húngaro na Primeira Guerra Mundial.

“ordine, contrordine e disordine”, “ordem, contraordem e desordem”: outra entrada dos diários de Mussolini citada por Sarfatti; “una pace qualunque”, “qualquer paz”.

“… o hospital onde Mussolini”: no inverno de 1916-17, Mussolini lutou nas trincheiras em Doberdó, como parte do esforço italiano de abrir caminho rumo a Trieste. Em 23 de fevereiro de 1917, ele foi gravemente ferido e levado para um hospital próximo. Os austríacos bombardearam o prédio em 18 de março de 1917. Os pacientes foram evacuados, mas, como o estado de Mussolini fosse grave, ele permaneceu no hospital com os médicos, enfermeiros e o capelão. A foto que ilustra o post é de Mussolini no front.

“Feldmarshall Hindenburg”: ninguém menos que Paul von Hindenburg (1847-1934), general e político alemão, veterano de várias guerras, vencedor na Batalha de Tannenberg, presidente da Alemanha durante a República de Weimar e personagem importantíssimo (por omissão e falta de traquejo político) na ascensão de Hitler à chancelaria.

“Mas o pai de Fritz”: Karl von Unruh (1843-1912), militar e pai do escritor e pacifista alemão; Pound conheceu Fritz em 1912, em Rapallo.

“Batalha de Waffenschlag”: inventada por Pound. “Waffenschlag” é um trocadilho bobo, significando “golpe por/de arma”.

“… àquela águia um portento”: em Udine, no dia 20 de setembro de 1922, durante um comício de Mussolini, as pessoas viram uma águia preta voando e interpretaram como um augúrio. Pouco mais de um mês depois, em 28 de outubro, ocorreu a Marcha sobre Roma.

“de licença na França”: deserção.

“… a mamãe de Winston”: Lady Randolph Churchill (1854-1921).

“… Winston ao seu primo”: o primo-irmão, no caso, é John Randolph Leslie (1885–1971), diplomata e escritor.

“Crevel”: René Crevel (1900-1935), escritor surrealista francês. “Esperanza, Primrose e Augusta” são, respectivamente, a duquesa de Monte Putina, a marquesa de Sussex e arquiduquesa austríaca, e as três protagonistas do romance Les Pieds dans le plat, de Clevel.

“Cosimo Primeiro”: Cosimo I de Médici (1519-74), grande duque da Toscana. Ele “garantiu” a fundação do banco Monte dei Paschi em Siena após conquistar a cidasde em 1554.

“Woergl”: Wörgl, cidadezinha austríaca que colocou em prática a teoria do Schwundgeld, de Silvio Gesell. O “C.H.” citado antes é, claro, Clifford Hugh Douglas, inventor do Crédito Social.

“Conde de Vergennes”: Charles Gravier (1719-1787), diplomata e estadista francês, Ministro do Exterior de Luís XVI, trabalhou para enfraquecer a Grã-Bretanha usando fundos estatais para financiar insurreições na América e na Índia. Pound cita uma carta de Jefferson para Gravier. O norte-americano era, então, embaixador dos EUA na França, daí a menção no verso seguinte ao “consumo de tabaco” (produto exportado pela Virginia). Nos versos seguintes, Pound cita várias cartas de Jefferson, para a “Sra. Trist”, Eliza House, que cuidou da filha dele enquanto ele esteve em Paris, e para James Monroe e Gallatin.

“Sr. Hatfield”: Robert Abbott Hadfield (1858-1940), britânico, dono da Hadfield Steel Foundry, em Sheffield.

“ad interim”, “por agora”.

“Ado”, de Connie Willis

Eis um excelente conto da norte-americana Connie Willis (1945). Quem me enviou foi a querida Maira Parula. O conto integra a coletânea Impossible Things (Bantam Books, 1994) e foi publicado no Brasil pela Isaac Asimov Magazine nº 3 (julho de 1990). A tradução é de Ronaldo Sergio de Biasi.

Leia “Ado” clicando AQUI.

 

 

Canto XXXIX

“Na trilha da colina: ‘thkk, thgk'”: Pound alude à localização do palácio de Circe segundo Victor Bérard, em Les Phéniciens et l’Odyssée, sugerindo que se trate da casa da violinista Olga Rudge (foto) em San Ambrogio. Rudge (1885-1996) foi amante de Pound por mais de cinco décadas. Eles tiveram uma filha, Mary de Rachewiltz (1925). O “thkk, thgk” era o som dos ramos de oliveira no térreo da casa. Pound sugere que, a exemplo de Circe, a sedução de Olga se dava por meio da música.

“Quando na lareira de Circe…”: é Elpênor, um dos companheiros de Odisseu, quem fala. A morte de Elpênor (bêbado, caindo do telhado da casa de Circe) é referida no Canto I.

“obesos leopardos”: possível referência a Dionísio (o manto com o qual ele às vezes aparece é de pele de leão ou leopardo), sugerindo que o vinho era abundante. A “tisana” é a poção mágica de Circe.

“kακὰ φάρμακ’ ἔδωκεν”, “enfeitiçados por apavorantes fármacos”: Odisseia X, 213 (na tradução de Trajano Vieira. Ed. 34). Pound recorreu a uma edição bilíngue da Odisseia, com o texto em grego e latim: Homeri opera omnia: ex recensione et cum notis Samuelis Clarkii, S.T.P. Accessit varietas lectionum ms. lips. et edd. veterum, cura Jo. Augusti Ernesti: qui et suas notas adspersit. 5 volumes. Glasgow, Londres: Andrew Duncan, Richard Priestley, 1814.

“λύκοι (…) ὀρέστεροι ἠδὲ λέοντες”, “lobos monteses (…) e leões”: Odisseia X, 212 (na tradução de Trajano Vieira. Ed. 34). Pound omite uma palavra (ἦσαν) ao citar o verso: “(…) ἀμφὶ δέ μιν λύκοι ἦσαν ὀρέστεροι ἠδὲ λέοντες”.

“nascida de Helios (…) gêmea”: Circe, é claro.

“Venter venustus, cunni cultrix”, “barriga como a de Vênus, cuidadora da cona”; “Ver novum, canorum, ver novum”, “nova primavera, cantando, nova primavera”. Do poema Pervigilium Veneris (a “Vigília de Vénus”), poema provavelmente escrito no século IV. Há quem o atribua a Tiberiano, há quem diga que é obra de Publius Annius Florus.

“Καλὸν ἀοιδιάει”, “plenirressoando a voz sublime” (de Circe): Odisseia X, 227.

“θεòς, ήὲ γυνή…..φθεγγώμεθα θα̃σσον”, “‘(…) ou uma deusa / ou uma mulher. Chamemo-la, soerguendo a voz!'”: Odisseia X, 227-8. É Polites, outro companheiro de Odisseu, quem fala.

“illa dolore obmutuit pariter vocem”, “[Ela], com a dor, fica muda. / Esta afoga-lhe ao mesmo tempo a voz (…)”: Metamorfoses XIII, 538-39 (na tradução de Domingos Lucas Dias. Ed. 34). “Ela”, no caso, é Hécuba, rainha da Troia, ao contemplar o corpo de seu filho caçula, Polidoro, que julgava a salvo na Trácia. Na edição da Odisseia usada por Pound, esse trecho de Ovídio está em uma nota de rodapé relativa ao momento em que Euríloco retorna ao navio para contar a Odisseu e aos outros a recepção que tiveram na casa de Circe, que transformou os companheiros em suínos (Odisseia X, 246-8): “Falhava nas palavras, por mais que as buscasse, / que a dor profunda o solapava. Seu olhar / vidrava, o coração queria prantear”.

“Ἀλλ᾽ ἄλλην χρὴ πρώτον όδὸν τελέσαι, καὶ ἱκέσθαι 490/5 (…) Περσεφόνεια”: “Outra viagem haverás / de executar primeiramente, à residência / do Hades e da terribilíssima Perséfone, / a fim de consultar a psique do tebano / Tirésias, vate cego de epigástrio sólido: / só a ele, mesmo morto, concedeu Perséfone / o sopro da sapiência. Os outros vagam: sombras” (Odisseia X, 489-95).

“Hathor”, “Mava”: não se trata de Hathor, a deusa egípcia, mas de uma entidade masculina, “espécie de Adão ou homem prototípico cuja separação dos animais está apenas começando” (como escreve Richard Sawyer AQUI). Nos primeiros rascunhos do Canto, analisados por Sawyer, Elpênor (estendido “na lareira de Circe”) narrava uma série de fábulas bestiais envolvendo Hathor e outros seres. Mava é outra deidade inventada por Pound.

“Che mai da me non si parte il diletto”, “que nunca o deleite se afaste de mim”: variação de “che mai da me non si partì ‘l diletto” (Paraíso XXIII, 129), “tal que mais nunca esqueci sua querença” (trad.: Italo Eugenio Mauro. Ed. 34).

“Fulvida di folgore”, “de fulgores fulgindo”: do Paraíso XXX, 62.

“Vim aqui despercebida com Glaucus”: embora Grünewald opte por uma voz feminina, o mais provável é que seja Odisseu quem fale — o que é corroborado pelo trecho em latim “nec ivi in harum / Nec in harum ingressus sum”, “não fui ao chiqueiro / Nem entrei nele”, frase escrita por Pound com referência ao momento em que Odisseu resiste ao feitiço de Circe (Odisseia X, 315-45). A história envolvendo Glauco, Circe e Cila é narrada por Ovídio nas Metamorfoses XIV, 1-74.

“Discuta isso na cama disse a dama”: uma vez que não consegue enfeitiçar Odisseu, Circe se lembra da profecia de Hermes, de que ele (Odisseu) viria, e o convida para se deitar com ela; “Εὺνῆ καὶ φιλότητι, ἔφατα Κίρκη”, “nós dois ao tálamo! A união de nossos corpos / no amor”, Odisseia X, 335-36); “Ἐς θάλαμόν”, “ao próprio tálamo” (Odisseia X, 340).

“Eurilochus”: um dos companheiros de Odisseu, está no primeiro grupo que vai à casa de Circe, mas, “temendo o ardil”, não entra e não é enfeitiçado (transformado em suíno). Euríloco corre ao navio para contar a Odisseu que os companheiros não retornaram. Depois (Odisseia XI), é o mesmo Euríloco quem insta os companheiros a matar e comer os gados de Hélio-Sol, causando a morte de todos (exceto, claro, Odisseu).

“Macer”: Macareu é outro companheiro de Odisseu, que, nas Metamorfoses (XIV, 223-314), reconta a história envolvendo Circe, Odisseu e os demais. Sendo um dos transformados em porcos, afirma que Euríloco adentrou a casa, mas não bebeu a poção de Circe, e só então foi alertar Odisseu. Ou seja, Macareu deve sua vida a Euríloco (até porque deserta antes que cheguem à ilha de Hélio-Sol).

“… com boas escândeas”: Pound introduz, assim, a perspectiva dos desertores (Macareu) e traidores (Euríloco).

“Ad Orcum autem (…) pervenit”, “Para o Hades nenhum homem jamais foi em embarcação escura”: Pound parafraseia o verso da tradução latina da Odisseia (X, 502) que está lendo, “Ad Orcum autem nondum quisquam pervenit nave nigra”. No original, “Ἄϊδος δ᾽ οὔπώ τις ἀφίκετο νηὶ μελαίνῃ”, “Jamais / alguém desceu ao Hades num baixel escuro” (Trajano Vieira). Em seguida, volta a parafrasear/parodiar: “Já foi de bote para o inferno?”.

Os dois versos seguintes são de Catulo, 34 (“Hino a Diana”): “Sumus in fide”, “sob a tutela [de Diana]”; “Puellaeque canamus”, “puras cantaremos”. A seguir, uma expressão retirada de um verso de Virgílio, Eneida VI, 268: “sub nocte”, “sob a noite”. Os versos (269-69) completos: “Ibant obscuri sola sub nocte per umbram / perque domos Ditis vacuas et inania regna:”, “Sem vacilar, adiantaram-se pelo negrume da noite / e as moradias inanes de Dite e seus reinos desertos” (na tradução de Carlos Alberto Nunes. Ed. 34). Sobre Catulo, leia AQUI um estudo e uma tradução do poema.

“Flora”: deusa romana da primavera e das flores.

“ERI MEN AI TE KUDONIAI”, “na primavera os marmelos”.

“Betuene Aprile and Merche”: possível referência ao poema “Alisoun”, cujo primeiro verso é “Bitweene Merch and Averil”. Leia AQUI.

“Por Circeo, por Terracina”: Pound visitou esses lugares em outubro de 1930. Circeo é um promontório a cerca de 100km a sudoeste de Roma. Bérard afirma em seu livro que Circeo seria, na verdade, a ilha de Circe (“Circeo” seria uma tradução latina do nome homérico (semítico) “Aeaea”). Terracina é um pequeno porto localizado a 25Km a leste de Circeo. Perto de Terracina, estão as ruínas de um templo dedicado a Zeus e Juno.

“‘Fac deum!’ ‘Est Factus.'”, “‘Faça deus!’ ‘Está feito.”

“A traverso le foglie”, “através das folhas”.

“Sic loquitur (…) nupta”, “Assim falou a noiva / Assim cantou a noiva”. A “noiva” seria Olga? E o encontro carnal descrito (“Mesclado de carne e luz), dela com Pound? Talvez.

Canto XXXVIII

“Il duol (…) moneta”: Dante, Paraíso XIX, 118-20. Na tradução de Italo Eugenio Mauro (ed. 34): “Lá será visto o mal que sobre o Sena / causa, falsificando a sua moeda, / quem sofrerá na caça a última pena”. A referência de Dante é o rei Filipe IV (1268–1314), ou Filipe, o Belo. Ele governou a França de 1285 até sua morte, e foi também rei de Navarra (como Filipe I, 1284-1305) por conta de seu casamento com Joana I. Em dificuldades fiscais por conta das guerras frequentes, Filipe desvalorizou a moeda francesa, reduzindo a proporção de prata em cada moeda. Em 1306, com o país acossado pela inflação, tentou restituir a proporção de prata anterior. A recessão levou à revolta popular e caos nas ruas. A fim de levantar a quantidade de prata necessária, o rei exilou alguns e executou outros de seus credores (os judeus e a Ordem dos Templários) recorrendo a acusações infundadas. A estupidez de Filipe se contrapõe à inteligência de Kublai Khan (como vimos no Canto XVIII). Pound inicia o Canto com a desastrosa política de Filipe, conforme observada por um poeta que lhe era contemporâneo, e o termina com a situação da França no período entreguerras. A estratégia francesa de “defesa em primeiro lugar” levou à construção da Linha Maginot e ao desenvolvimento da marinha, em consonância com a indústria armamentista coordenada pelo Comité des Forges. Não obstante todas os preparativos, a França foi derrotada em um mês pelos alemães, em maio-junho de 1940.

“Metevsky”: pseudônimo do negociante de armas Basil Zaharoff (v. Canto XVIII). Com a retração pós-Primeira Guerra Mundial, os negociantes de armas procuraram clientes no extremo oriente e na América do Sul. Note-se que China e Japão compravam armas dos mesmos fabricantes (de forma similar, Zaharoff vendeu armas para Grécia e Turquia em 1887).

“e as maneiras do Papa eram tão parecidas com as do Sr. Joyce”: Ambrogio Damiano Achille Ratti (1857-1939), papa Pio XI 1922-39), foi o primeiro a se instalar no recém-criado estado do Vaticano. Ele também foi o primeiro a fazer transmissões radiofônicas (em latim). Pound conheceu Ratti quando ele era diretor da Biblioteca Ambrosiana, em Milão. Nas cartas que enviou a Pound, James Joyce era polido e convencional.

“Marconi”: Guglielmo Marconi (1874-1937), engenheiro italiano tido como o inventor do rádio. Ele instalou uma estação de rádio no Vaticano, e Pio XI fez sua primeira transmissão no dia 12 de fevereiro de 1931.

“Jimmy Walker”: James Walker (1881-1946) foi prefeito de Nova York (1926-1932) durante a Lei Seca, em uma administração repleta de escândalos de corrupção. Roosevelt, governador do estado, tendo assegurado sua candidatura à presidência, forçou Walker a renunciar em 1932.

Dexter Kimball (1865-1952) foi um engenheiro norte-americano, professor em Cornell e autor de Industrial Economics (1929), citado por Pound no Canto.

“Akers”: pseudônimo da Vickers, empresa armamentista britânica na qual Basil Zaharoff trabalhou entre 1897 e 1927.

“Sr. Whitney”: Richard Whitney (1888-1974), corretor de ações novaiorquino, presidente da bolsa de valores da cidade entre 1930 e 35. Em meio à Depressão, Whitney desviou fundos a fim de salvar suas ações e manter o alto padrão de vida. Seus crimes foram descobertos em 1938. Condenado, passou três anos preso em Sing Sing e foi proibido de voltar a trabalhar no mercado financeiro.

“venda a futuro” (no original, “shortselling”): talvez a tradução mais correta seria “venda a descoberto”. Trata-se de uma prática financeira especulativa que consiste na venda de um ativo ou derivativo, esperando que o preço caia para então comprá-lo de volta e lucrar com a diferença.

“Genebra”: onde ficava a sede da malfadada Liga das Nações (1920-1946).

“Sr. D’Arcy”: William Knox D’Arcy (1849-1917), empresário britânico. Em 1901, adquiriu uma concessão do Xá da Pérsia para prospectar petróleo no Irã. Em 1908, descobriu o primeiro poço de petróleo comercialmente viável no país, fundou a Anglo-Persian Oil Company (APOC), que prometia pagar royalties de 16% para o governo local pelos próximos sessenta anos (porcentagem inferior aos impostos pagos pela APOC na Inglaterra). Em 1914, o governo britânico se tornou o maior acionista da empresa. Ao citar D’Arcy, Pound explcita a relação entre petróleo, intervenção estrangeira, colonialismo e guerra. O Irã só passaria a controlar suas reservas de petróleo com a Revolução Iraniana, em 1979.

“Sr. Melon”: Andrew Mellon (1855-1937), empresário norte-americano, foi Secretário do Tesouro (1921-32) durante o período que Pound considerava a “era da vergonha”: os mandatos dos republicanos de Warren G. Harding (1921-23), Calvin Coolidge (1923-29) e Herbert Hoover (1929-32). Em 1932, para evitar o impeachment, Mellon foi apontado embaixador dos EUA no Reino Unido, mas retornou à vida privada em 1933, quando Franklin Delano Roosevelt foi eleito presidente.

“Sr. Wilson”: Woodrow Wilson (1856-1924) foi presidente dos EUA (1913-1921). Queria concorrer a um terceiro mandato, mas estava muito doente (por conta de um derrame, não de prostatite).

“Sua Senhoria”: Maud Cunard (1872-1948), socialite norte-americana, esposa de Bache Cunard, neto de Samuel Cunard, fundador da empresa de transportes marítimos que leva o nome da família. Certa vez, Maud ouviu de uma rival, a condessa Margot Asquith (1864-1945), que sua filha, a escritora, mecenas e musa modernista Nancy Cunard (1896–1965; referida no Canto como “Jenny”), mantinha um relacionamento amoroso com Henry Crowder (1890–1955), um jazzista negro. Maud fez de tudo para separar o casal: tentou deportar Crowder, contratou detetives para espionar o casal, efetuou ligações ameaçadoras e cortou a mesada de Maud. O racismo de Maud é um dos sintomas de decadência cultural abordados no Canto. Asquith é referida no poema como “Agot Ipswitch”; ela era a esposa de Herbert Asquith (1852-1928), primeiro-ministro britânico (1908-1916).

O “nojento em Berlim” é Guilherme II (1859-1941), último imperador da Alemanha (1888-1918). Foi responsável pela instituição de uma política belicosa e confusa, culminando na garantia de apoio militar ao Império Austro-Húngaro (uma das causas para a eclosão da Primeira Guerra Mundial).

“François Giuseppe”: afrancesamento do nome de Francisco José (1830-1916), imperador austro-húngaro. O assassinato em Sarajevo de seu sobrinho e herdeiro presuntivo do trono, Francisco Ferdinando, em 28 de junho de 1914, foi um dos fatos que levaram ao início da Primeira Guerra.

“Mitsul”: o correto é “Mitsui”. Trata-se de um conglomerado japonês de bancos e holdings industriais.

“‘A madeira (…) coronhas'”: John Quincy Adams, em seu diário.

“… pântanos italianos (…) Tibério”: a bonifica (1930-39) foi um dos projetos mais importantes de Mussolini, e consistia na drenagem dos pântanos localizados nos arredores de Lazio. No entender de Pound, projetos desse tipo (a exemplo dos de Gandhi e Douglas) eram construtivos e visavam a paz, em oposição à escalada armamentista e belicosa verificada ne época. Tibério (42 a.C.-37 d.C.) foi um imperador romano.

“Beebe”: Charles William Beebe (1877-1962), naturalista, explorador e biólogo marinho norte-americano, autor de Beneath Tropic Seas.

“Rivera”: Miguel Primo de Rivera (1870-1930), aristocrata e general espanhol, primeiro-ministro do país entre 1920 e 30. O “infante” referido era Afonso, filho mais velho do rei Afonso XIII, e sofria de hemofilia.

“Schlossmann”: pseudônimo para Julius Sachs, repórter do Neues Wiener Journal que entrevistou Pound em maio de 1928, em Viena.

“Anschluss”, “unificação”, “anexação”: a anexação da Áustria pela Alemanha foi proibida pelo Tratado de Versalhes, mas levada a cabo pelos nazistas em 12 de março de 1938.

“Der im Baluba das Gewitter gemacht hat”, “que fez a tempestade em Baluba”: Pound reconta a seu modo um episódio de Erlebte Erdteile, do antropólogo alemão Leo Frobenius (1873-1938). A anedota original é de que Frobenius e seu time adentraram uma zona de guerra na África e usaram os tambores para sinalizar suas intenções pacíficas. Os tambores também anunciaram a participação de todas as vilas da região em uma batalha na manhã seguinte, mas uma tempestade caiu por volta da meia-noite e, por isso, não houve nenhuma batalha. Os locais acharam que o homem branco “fizera” a tempestade a fim de evitar a guerra. Pound conheceu Frobenius em Frankfurt, em maio de 1930.

“nobre húngaro”: Lajos Hatvany (v. Canto XXXV).

“Kosouth”: Ferenc Kossuth (1841-1914), engenheiro civil e político húngaro. Após viver na Itália por alguns anos, ele retornou para a Hungria e iniciou uma carreira política. Em 1889, era presidente do Partido da Independência, que aboliu a monarquia e separou a Hungria da Áustria.

“1927”: na verdade, Pound esteve em Viena em 1928.

“Bruhl”: Lucien Lévy Bruhl (1857-1939), filósofo e sociólogo francês. É é citado no Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade. Pound ligava o trabalho de Bruhl ao de Fenollosa como impulso e modelo para a poesia.

“Romeu e Julieta”: o caso dos amantes vienenses está mais para um sintoma de exaustão anímica e cultural, e ecoa o possível pacto suicida entre o príncipe austríaco Rudolf e a baronesa Maria Vetsera, encontrados mortos em Meyerling no dia 30 de janeiro de 1889. Rudolf era o único filho varão do imperador Francisco José, e sua morte criou uma instabilidade sucessória que comprometeu a reconciliação entre a Áustria e facções húngaras do império, culminando no assassinato daquele apontado como o herdeiro presuntivo, o arquiduque Francisco Ferdinando (sobrinho de Francisco José).

“Sr. Blodgett”: Sherburne C. Blodgett, um dos inventores de um protótipo da máquina de costura, que Isaac Singer viria a aperfeiçoar e comercializar a partir de 1850.

“Eu evidentemente jamais disse que o dinheiro em caixa…”: citação de The New and Old Economics, ensaio em cinco partes que C.H. Douglas publicou na New English Weekly em 1932.

“Douglas”: Clifford Hugh Douglas (1879-1952), economista, engenheiro de formação, criador da teoria econômica chamada de Crédito Social. No Canto XXII, Pound narra um encontro dele com John Maynard Keynes (1883-1946), lá identificado como “Mr. Bukos”.

“Uma fábrica…”: nos versos 107-25 (até “preços de um modo geral”), Pound apresenta o Teorema A + B, conforme explicado no livro Credit Power and Democracy, de Douglas.

“Herr Krupp”: Alfred Krupp (1812-1887), fabricante de armas de Essen. Sua fábrica ficou célebre por fabricar canhões de alta qualidade. Seu primeiro grande negócio se deu em 1847, quando vendeu armas para a França e o Egito. Ele foi um pioneiro nesse mercado, e um dos primeiros a não levar em consideração quaisquer interesses nacionais.

“Encomenda de Pedro o Grande”: no original, “Order of Pietro il Grande”. Desliza na tradução brasileira. “Order”, no original, refere-se não a uma “encomenda” de Pedro (até porque esse czar morreu em 1725), mas à Ordem de Pedro, o Grande, condecoração com a qual Krupp foi agraciado depois de vender canhões para a Rússia. Pound escreveu o nome em italiano como um aceno para a fonte que utilizou ao pesquisar sobre Krupp: I Mercanti di Cannoni (1932), do jornalista Paolo Zappa.

“Napoleon Barbiche”: no original, “Napoléon Barbiche”. Trata-se de Napoleão III (1808-1873), sobrinho de Bonaparte.

“Creusot”: a companhia de armamentos Schneider era a concorrente francesa de Krupp. A empresa foi fundada pelos irmãos Adolphe e Eugène Schneider (mencionado alguns versos depois, foi ta) em 1848, e sua sede se localizava em Creusot, no nordeste da França. Após a Segunda Guerra, a empresa passou por várias mudanças, e hoje é a multinacional Schneider Electric, especializada em automação digital e energia. Conforme mencionado alguns versos depois, Eugène foi também membro do parlamento francês, ministro da agricultura e presidente da câmara dos deputados. Adolphe, por sua vez, dedicou-se à administração financeira do negócio.

“(’68)”: em abril de 1868, Krupp enviou a Napoleão III um catálogo ilustrado com os canhões que fabricava. A resposta do imperador, assinada pelo general Edmond Leboeuf (1809-1888), data de 29 de abril de 1868 e não se comprometia a comprar nada. Lebouef, depois, tornou-se Marechal de França e teve um papel importante na Guerra Franco-Prussiana (1870-71). Após a derrota francesa, retirou-se da vida pública.

“operai”, trabalhadores (números que Pound encontrou no livro de Zappa).

“53 mil”: número de canhões produzidos pela Krupp às vésperas da Primeira Guerra.

“Bohlem e Halbach”: no original, “Bohlem und Halbach”. Gustav von Bohlen und Halbach (1870-1950) havia assumido a empresa após a morte do sogro (casara-se com a única filha de Krupp, Bertha). “Bohlem” é um erro tipográfico que também consta do original. Por fim, escrever “Bohlem e Halbach” é outro deslize da tradução brasileira, pois sugere aos desavisados que se trata de duas pessoas. Nos versos seguintes, Pound afirma e reafirma as similaridades entre Krupp e Schneider, que vendiam armas de forma indiscriminada. O filho e o neto de Eugène, Henri (1840-1898) e Eugène II, foram membros conservadores do parlamento.

“Chantiers de la Gironde”: estaleiro em Bordeaux que pertencia, em parte, aos Schneider. Eles também controlavam o “Banco do Paris Union” e o “banco franco-japonês”.

François de Wendel (1874-1949) foi um industrial e político de Hayange, na Lorena. Presidiu o Comité des Forges (1918-1940). “Robert Protot”: provável que Pound esteja se referindo a Robert Pinot (1862-1926), secretário-geral do Comité des Forges e autor de Comité des Forges au service de la nation (Août 1914-Novembre 1918). O Comité des Forges foi um cartel das indústrias de aço e ferro na França, ativo entre 1846 e 1940, quando foi dissolvido pelo governo de Vichy. Eugène Schneider foi seu primeiro presidente, cargo que ocupou até morrer em 1875. Sob a presidência de François de Wendel, o Comité coordenou a produção francesa de armamentos durante a Primeira Guerra. Mais abaixo, Pound menciona as cifras que o Comité pagou a três jornais parisienses; no entanto, Zappa aponta 10 milhões para Le Temps, não 30, como escreve Pound. Journal de Débats era nacionalista; Écho de Paris fazia campanha contra o desarmamento.

“Hawkwood”: do romance Il Trecentonovelle (1399), de Franco Sachetti.

“Polloks”: gíria para “poloneses”, termo comum na Pensilvânia daqueles tempos. De fato, a Schneider ajudou os poloneses a construir bases navais e vendeu canhões, aviões e metralhadoras para eles, além de emprestar dinheiro.

“faire passer (…) nation, “faça com que seus interesses prevaleçam contra os interesses da nação”.

Canto XXXVII

 

Este Canto se ocupa de Martin van Buren (1782-1862), cofundador do Partido Democrata, senador por Nova York e 8º presidente dos EUA (1837-1841).

Durante seu mandato, van Buren lidou com o Pânico de 1837, crise financeira que causou uma recessão que se arrastaria até meados a década seguinte. Uma das causas da crise remonta ao mandato do antecessor de van Buren, Andrew Jackson: o veto, em 1832, à renovação da licença do Second Bank of the United States (BUS), que operava como uma espécie de banco central e agente fiscal público (o Federal Reserve só seria criado em 1913). Sem o BUS, bancos do Oeste e do Sul passaram a emprestar dinheiro sem maiores cuidados, comprometendo suas reservas. Jackson também promulgou a “Circular do Dinheiro em Espécie” (Specie Circular, 1836), obrigando que a compra e venda de terras do Oeste fossem feitas mediante o uso de moedas de ouro e prata. A ideia era conter a especulação e a inflação, mas a Circular teve efeito contrário. Por sua vez, a Lei do Depósito e Distribuição (1836) estabeleceu que bancos de todo o país fossem abastecidos com reservas federais, o que provocou um esvaziamento dos centros financeiros localizados na costa leste — sem lastro, os bancos cortaram os empréstimos. A posse de Martin van Buren ocorreu apenas cinco semanas antes do estouro da crise. Van Buren tentou substituir o BUS por um Independent Treasury, concebido como um banco que se limitaria a depositar os recursos da União, mas a lei proposta foi bloqueada pelo Partido Whig (favorável a um banco nacional). James K. Polk, sucessor de van Buren, reapresentou a proposta em 1846, conseguindo a aprovação. O Independent Treasury seria utilizado como instrumento de administração dos recursos governamentais até a criação do Federal Reserve.

Quando da escrita desse Canto (1933), o presidente Franklin Delano Roosevelt também procurava uma forma de reformar o sistema financeiro, que fora incapaz de evitar ou conter a Grande Depressão. Assim, ele lidava com problemas similares aos enfrentados por Jackson e van Buren: o Federal Reserve deveria ser fechado? O equilíbrio entre dólar e ouro precisava ser revisto? O padrão ouro deveria ser mantido? Como proteger os pequenos correntistas, ameaçados pelas falências bancárias? Entre 5 e 13 de março de 1933, após semanas de fuga dos bancos, com as pessoas sacando todo o seu dinheiro, FDR decretou um feriado bancário e fechou todo o sistema para melhor reavaliá-lo. No dia 12, ele assegurou os correntistas de todo o país que, quando os bancos reabrissem, o dinheiro estaria seguro. As pessoas confiaram em sua palavra e, quando os bancos reabriram, depositaram o dinheiro de volta.

“metê-los na cadeia por dívidas” / “que um imigrante…”: van Buren foi senador entre 1812 e 1821. Desde então, já vociferava a favor dos pequenos correntistas e contra os banqueiros, financistas e especuladores. Durante o breve período em que foi governador de NY (entre janeiro e março de 1829), ele também apoiou a criação de um Safety Fund para proteger os correntistas de eventuais falências bancárias. O valor do dinheiro de papel era extremamente volátil, prejudicando sobretudo os trabalhadores (incluindo os imigrantes) mais pobres.

“usuário rico” (no original, “rich patroon”): um grave problema na tradução de Grünewald aqui. Em primeiro lugar, conforme observado anteriormente, o termo correto é “usurário”, não “usuário”. Mas, aqui, ele também perverte completamente o sentido original ao não traduzir “patroon” como “senhorio” ou coisa similar. Explico: conforme a antiga lei holandesa, “patroons” eram os donos de vastas porções de terras coloniais, alguém que também gozava de privilégios sociais e políticos. No estado de Nova York, a maior propriedade pertencia à família van Rensselaer. O sistema de “patroons” deixou de existir por volta da década de 1840s, quando essas grandes propriedades de terras foram gradualmente vendidas e transformadas em propriedades menores. Em sua atividade como advogado (1803-11), van Buren defendeu e protegeu pequenos proprietários de terras contra as invasões dos “patroons”.

“esprit de corps”: de um discurso de van Buren, então senador, contra os juízes da Suprema Corte.

“Os Calhouns”: John Caldwell Calhoun (1782-1850), senador pela Carolina do Sul, foi também vice-presidente de John Quincy Adams e Andrew Jackson (no primeiro mandato deste, 1825-31). As posições políticas de Calhoun (favorável aos direitos dos estados e à escravidão, contrário aos altos impostos etc.) favoreciam os estados escravagistas do Sul em detrimento dos interesses econômicos dos Norte, criando e sedimentando divisões internas (que culminariam na Guerra da Secessão). As posições de Jackson e van Buren eram mais unionistas. Foi a esposa de Calhoun, Floride, a responsável por ostracizar Peggy Eaton (Margaret O’Neill (ou O’Neale) Timberlake Eaton, esposa do Secretário da Guerra no governo Jackson, John Eaton) por questões “morais” (Peggy não teria respeitado o período convencional de luto, casando-se com Eaton nove meses após a morte do primeiro marido), escândalo que ficou conhecido como “The Petticoat Affair” (v. Canto XXXIV; “Petticoats”, “anáguas”, “combinações”). Como as discussões políticas dos membros do gabinete não raro ocorriam nas soirées das esposas (controladas por Floride), Calhoun foi capaz de criar enormes dificuldades para o governo Jackson em seus primeiros anos. Ele bloqueou a chamada “Tarifa das Abominações” (1828), tida como prejudicial para os estados do Sul. Jackson tentou, sem sucesso, convencer as esposas dos membros do gabinete a não ostracizar os Eaton. Por conseguinte, van Buren renunciou ao cargo de Secretário de Estado, forçando o restante dos membros do gabinete a fazer o mesmo. Jackson pôde, então, apontar um novo gabinete, excluindo Calhoun e seus correligionários, e governar com mais tranquilidade a partir de 1831.

O “Sr. Adams” citado é John Quincy. Pound, mais uma vez, recorre a uma entrada do diário dele, como fizera no Canto XXXIV.

“Ambrose (Sr.) Spencer”: Ambrose Spencer (1765-1848), figura política do Partido Republicano em Nova York, aliado do governador DeWitt Clinton (1769-1828). Membro da Suprema Corte de Nova York, era um adversário político de van Buren. “Sr. Van Renselaer”: Stephen van Rensselaer III (1764-1839), um “patrão” novaiorquino, republicano, um dos homens mais ricos dos EUA na época. Acreditava que o termo de residência dos contribuintes no estado deveria aumentar antes que eles pudessem votar (o cidadão precisava residir e pagar impostos no estado por um período mínimo antes de ter direito ao voto).

“extensão do direito ao voto”: discussão ocorrida em 19 de setembro de 1821 na Convenção Constituinte de Nova York. Na época, mais do que a metade dos homens estavam impedidos de votar por questões financeiras.

“Convenção Do Estado de 1821”: foram discutidas as questões da extensão do direito ao voto, o tempo dos mandatos e os poderes de veto do judiciário e do executivo. Van Buren apoiava uma maior democratização das estruturas políticas, liderando a facção dos “Bucktails” (contrários a DeWitt Clinton, Spencer e cia.).

“Dixit Spencer”, “Spencer disse”.

“Kent disse”: James Kent (1763-1847), jurista, Chief Justice (1804-1814) e chenceler de Nova York (1814-1823). Também se opunha à extensão do sufrágio.

“Tompkins”: Daniel D. Tompkins (1774-1825), governador de Nova York (1807-1817) e presidente da Convenção.

“Duas palavras”: taxação e representação. Trata-se do princípio democrático de que, se uma pessoa paga impostos, ela deve ter direito à representatividade.

“quando uma barreira…”: quando senador (1821-1829), van Buren se opunha à participação do governo federal em projetos como a construção de canais e estradas, que deveriam ser levados a cabo pelos governos locais.

“não submeter nossa conduta…”: de um discurso de van Buren quando senador, referindo-se à abolição do tráfico de escravos no Atlântico e objetando o direito dos ingleses de revistarem navios norte-americanos.

“as classes trabalhadoras (…) bancárias”: de um discurso de van Buren quando em campanha presidencial, referindo-se ao equilíbrio entre o ouro e o dinheiro de papel.

“os negociantes…”: agora, o Canto se ocupa da crise de 1837, pela qual muitos historiadores culpam as medidas fiscais tomadas por Andrew Jackson quando presidente (a não renovação do BUS, a exigência de que terras só fossem negociadas mediante pagamento em prata ou ouro (Specie Circular) e o Distribution Act, pelo qual a renda dos impostos era distribuída por 23 bancos dos estados) .

“renda para as carências do governo”: a principal preocupação de van Buren era proteger o dinheiro público, evitando que ficasse à mercê da especulação e do risco ao ser depositado nos bancos dos estados. Essa é a razão pela qual ele criou o Independent Treasury, que funcionava como um banco para depositar o dinheiro do governo, separando-o das transações ordinárias.

“… diminuir o patrocínio governamental…”: ao instituir o Independent Treasury, van Buren fez com que o governo deixasse de ter “bancos de estimação” nos estados.

“… o marinheiro / não deve ser açoitado a não ser por ordem da corte”: ordem presidencial de março de 1839.

“terra / para o colono”: van Buren era a favor de que as terras no Oeste fossem compradas a um preço menor por aqueles que a ocupassem, contrariando a política de Henry Clay (que defendia o “Sistema Americano”: terras vendidas paulatinamente para aqueles que tivessem dinheiro para comprar, aplicando os lucros em obras pelo país). Clay (1777-1852), político do Kentucky, cabeça do partido Whig, foi um adversário político de van Buren. Ele também defendia o Second Bank of the United States e, após o veto de Jackson, a criação de um novo banco nacional. Clay impediu a implementação do Independent Treasury Act durante o governo van Buren.

“Sr. Eaton”: quando Peggy ainda estava casada com seu primeiro marido, Timberlake, o pai dela faliu e teve de vender a casa em que vivia. Eaton comprou a casa em um leilão e a devolveu ao pai de Peggy.

“desregramento moral”: de um comentário de John Quincy Adams em seu diário (11 de janeiro de 1831), após ler 50 páginas da Autobiography de Jefferson.

“Servilismo”: de outra entrada no diário de John Quincy Adams (9 de setembro de 1837), após visitar o então recém-eleito van Buren.

“‘Em nenhum lugar…'”: do segundo discurso anual de Jackson perante o congresso, em 1830. Andrew Jackson (1767-1845), advogado e general do Tennessee, o 7º presidente dos EUA (1829-1837), admirado em todo o país por conta de sua vitória contra os britânicos na Batalha de Nova Orleans (1815), era tido como um representante das pessoas comuns. Van Buren foi Secretário de Estado no primeiro mandato de Jackson, e vice-presidente no segundo.

“Deram cinco anos à União”: em seu diário, John Quincy Adams discorre sobre duas conversas que teve com Henry Clay e James C. Calhoun em fevereiro de 1820. Clay previu que, em cinco anos, os EUA se fragmentariam em três confederações. Calhoun disse que, caso a União se dissolvesse, os estados do Sul deveriam se aliar à Inglaterra.

“moeda uniforme”: dito por Jackson em seu primeiro discurso anual para o congresso, referindo-se ao Second Bank.

“importariam cereais”: observado por van Buren quando do início da crise de 1837. A referência ao Banco da Inglaterra se deu quando van Buren foi pressionado para restabelecer um banco nacional.

“Sr. Webster”: Daniel Webster (1782-1852), senador por Massachusetts e membro do partido Whig. Webster fui um grande oponente das políticas de Jackson e van Buren quanto ao Second Bank. Pound cita um discurso feito não por Webster, mas por Henry Clay em 25 de setembro de 1837.

“Maccoboy”: anedota reiterada sobre certo dia no senado, em 1833, quando Daniel Webster e Henry Clay tentavam persuadir o senado dos problemas econômicos causados pela remoção dos depósitos governamentais no BUS, em setembro daquele ano. A anedota é de que Clay, dirigindo-se a van Buren, implorou que este dissesse ao presidente qual era a verdadeira situação dos norte-americanos, as “lágrimas de viúvas indefesas que não podem mais ganhar seu pão, e dos órfãos desnudos e não alimentados”. Van Buren teria ouvido o discurso com toda a atenção e, quando Clay terminou, aproximou-se deste, pediu um pouco de tabaco Maccoboy e foi embora.

“pela diminuição da dívida”: van Buren, em consonância com Jefferson, discordava da ideia de Hamilton, de que a dívida nacional seria uma “benção”.

“Marshall”: John Marshall (1755-1835), presidente da Suprema Corte (1801-35). Pound reitera o que Jefferson disse acerca dele no Canto XXXII.

“Tip an’ Tyler”: “Tip” era o General Benjamin Harrison (1773-1841), famoso pela Batalha de Tippecanoe (1811), candidato Whig, venceu van Buren na eleição de 1840; John Tyler (1790-1862) era o candidato a vice de “Tip”. Harrison morreu em abril de 1841, logo após ser empossado.

“sed aureis furculis”, “luxo, mas com garfos dourados”.

“O homem é um mau-caráter”: no original, “dough-face”. Na gíria da época, um “doughface” era um político do Norte que simpatizava com a escravidão e as políticas econômicas do Sul.

“(do banco) presidente”: Nicholas Biddle (1785-1844), financista e presidente do Second Bank of the United States (BUS).

“poder de veto”: embora a renovação do BUS tivesse sido aprovada pelas duas casas do congresso, Jackson a vetou em 10 de julho de 1832, pouco antes de disputar a reeleição. Como Jackson venceu as eleições contra o candidato do banco, Henry Clay, isso fez parecer que o povo apoiava o fechamento do banco.

“Lennox”: Robert Lennox (1759-1839), Presidente da Câmara de Comércio de Nova York.

“Hamilton”: James A. Hamilton (1788-1878), procurador novaiorquino. Filho de Alexander Hamilton, era contrário à existência do BUS.

“linha de descontos (…) Maio de 1837”: a data está incorreta; o correto é maio de 1832. Trata-se de linhas de créditos. Entre outubro de 1930 e maio de 1932, Biddle e o BUS aumentaram seus empréstimos aos estados do Oeste, julgando que os problemas causados pelo encerramento das atividades do banco (forçando, desse modo, o pagamento dos empréstimos) colocariam uma enorme pressão sobre o governo.

“Sorrento”: van Buren estava em Sorrento quando, em 1854, escreveu suas memórias.

“eu hessito”: no dia seguinte ao veto, em 11 de julho de 1832, Daniel Webster, eloquente senador por Massachusetts, fez um discurso para desacreditá-lo.

“Balanço de 4 a 5 milhões”: van Buren comenta acerca da enorme disparidade entre a renda do governo e o poder do presidente para fazer uso dela.

“verdadeiro comitê”: as atividades do BUS eram dirigidas por um comitê selecionado por Biddle, excluindo representantes do governo.

“Sr. Taney”: Roger B. Taney (1777-1864), jurista, membro da Suprema Corte, foi apontado Diretor do Tesouro por Andrew Jackson para supervisionar a remoção dos depósitos governamentais do segundo BUS. Apresentou dois relatórios sobre isso, o primeiro em dezembro de 1833, e o segundo em junho de 1834.

“Cambreling, Globe Extra 1834”: Churchill Caldom Cambreleng (1786-1862), empresário norte-americano e congressista democrata por Nova York. Em sua Autobiography, van Buren elogiou seu caráter, citando um discurso dele para jovens republicanos, publicado pelo Globe Extra.

“O Relato Pessoal de Peggy Eaton”: The Autobiography of Peggy Eaton foi publicada em 1832.

“Placuit oculis”, “agradável aos olhos”.

“Juiz Yeats”: Joseph Christopher Yates (1768-1837), jurista norte-americano e governador de Nova York

“Alex Hamilton”: já citado antes como “Sr. Hamilton”. Embora abominasse o fato de que Alexander Hamilton (1755-1804) tivesse criado o primeiro banco nacional (First Bank) dos EUA, em 1791, van Buren admirava sua coragem e sua integridade.

“compradores de lã”: reação a um célebre discurso de van Buren, “the Woollen Speech”, feito em Albany no dia 10 de julho de 1827.

“Sr. Knower”: empreendedor republicano, amigo de van Buren.

“Casa de Braintree”: embora fosse uma noção que circulasse na época, John Adams jamais foi monarquista. Braintree Massachusetts era a colônia onde os ancestrais dos Adams se estabeleceram por volta de 1632.

“procurando a luz das estrelas”: John Quincy Adams foi um grande apoiador dos projetos federais (incluindo grandes obras e construções) e instituições. Era favorável à criação de uma universidade nacional e do primeiro observatório astronômico dos EUA.

“Maldito biltre covarde”: segundo o boato, Clay teria se referido assim a Daniel Webster.

“decisão de Taney”: os meses entre o primeiro relatório de Roger Taney sobre a retirada dos depósitos governamentais do BUS, em dezembro de 1833, e a proposta de Clay para “restaurá-los” em maio de 1834.

“hic jacet fisci liberator”, “aqui jaz o libertador do tesouro”: referência à oposição de van Buren à ideia de criar um banco nacional durante a sua presidência.