Canto XXXVI

Canto XXXVI

“Pede-me uma dama”: os versos 1-84 são uma tradução (ou reimaginação, como veremos) da canzone “Donna mi prega”, de Guido Cavalcanti. Canzone é um poema feito para ser cantado, com cinco estrofes de catorze versos e um envoi de cinco versos, totalizando setenta e cinco versos, todos hendecassílabos. Embora Cavalcanti inicie com a frase “Pede-me uma dama”, seu poema é uma resposta ao soneto do amigo Guido Orlandi, “Onde si muove and donde nasce l’Amore” (escrito “em nome de uma dama”). Pound traduziu o poema de Orlandi duas vezes, em Spirit of Romance e no ensaio “Cavalcanti”.

“Falar na hora azada”: um provável paralelo com o início do Canto XXXI, “Tempus loquendi / Tempus tacendi”.

“afeto” (no original, “affect”): tradução poundiana para “accidente”. Cavalcanti está respondendo a uma pergunta de Orlandi, sobre se o amor é substância, acidente (no sentido aristotélico dos termos) ou memória? A tradução de Pound não é gratuita, pois ele seguiu o “Comentário” de Dino Del Garbo, para quem “acidente” é uma “paixão”, um “apetite da alma”. Essa decisão também é coerente com a decisão de Pound de se distanciar do vocabulário filosófico usado por Cavalcanti, contaminado pelo aristotelismo e pelo averroísmo medievais, tornando o poema mais genérico e compreensível para os leitores contemporâneos.

“… de baixo cor” (no original, “low-hearted”): Cavalcanti acreditava que a capacidade de amar era algo que independia da riqueza e do berço. Assim, qualquer indivíduo podia ser superficial, desleal e inconstante, isto é, “de baixo cor“; o poema não se destina a esse tipo de gente.

“… trazer visor a tal razão”: no poema de Cavalcanti, “A tal ragione portj chonoscenza”. Ou seja, Pound passa a substituir substantivos e verbos relativos ao conhecimento por termos ligados à visão. A canzone afirma expressamente que o amor não pode ser visto.

“natural demonstração”: na época de Cavalcanti, a noção filosófica (ecoando Aristóteles via Averróis e Avicena) era de que, grosso modo, tudo o que existe no mundo natural poderia ser conhecido e demonstrado. Essa noção tinha conexões com a teologia, mas não era determinada por ela. Embora use esse vocabulário metafísico, Cavalcanti mantém uma distância subjetiva (“psicológica”) tanto da filosofia quanto da teologia então correntes. Ele nunca “engoliu” Aquino, como o próprio Pound afirma em seu ensaio “Cavalcanti”.

“Onde mora a memória”: tendo afirmado que o amor não é substância, mas acidente, Cavalcanti o localiza na memória, respondendo a outra pergunta de Orlandi, sobre onde “reside” o amor.

“diáfana”: do grego διαφανές, “transparente”. O termo aparece em uma passagem belíssima do De Anima, de Aristóteles, quando o filósofo se dispõe a explicar o que é a luz (418b3): “Existe, de fato, algo transparente, e chamo de transparente o que é visível, mas não visível por si mesmo, falando de maneira simples, mas por meio de cor alheia. Deste tipo são o ar, a água e muitos sólidos. Pois eles são transparentes não como água, nem como ar, mas porque existe neles uma certa natureza imanente que é em ambos a mesma, bem como no corpo superior eterno. Luz é a atividade disto, do transparente como transparente. E onde ele está em potência há também a treva. Luz é como que a cor do transparente, quando se torna transparente em atualidade pelo fogo ou por algo do tipo, como o corpo superior, pois nele subsiste algo que é uno e o mesmo” (tradução: Maria Cecília Gomes dos Reis. São Paulo: Editora 34, 2006).

A “sombra” vinda de Marte diz respeito às influências que a astrologia associa ao planeta, tais como a impulsividade, o desejo, a violência etc.

“nome de bom senso”: no original, “sensate name”. Em Vita Nuova, Dante afirma que “os nomes são consequências das coisas” (“nomina sunt consequentia rerum”), isto é, o som de uma palavra expressa a qualidade do objeto real que lhe é correspondente.

“vertu”: “a potência, a propriedade eficiente de uma substância ou pessoa” (em Sonnets and Ballate of Guido Cavalcanti. Tradução e introdução: Ezra Pound. Londres: Stephen Swift, 1912).

“vestígio elaborado”: no original, “forméd trace”; em Cavalcanti, “formato locho”. Em uma perspectiva platônica, o “vestígio” seria da “forma vista” que tem lugar na mente do amante (na segunda estrofe: “Veio de forma vista que, entendida, / Fica e permanece / ao alcance do intelecto”).

“Nem é sabido (…) seu alvo”: aqui, Pound difere do original. Cavalcanti escreve que o amor “non si puo chonosciere per lo viso”, isto é, não é algo visível (daí a menção à cor branca, “biancho in tale obbietto chade”). Pound acrescenta a noção de luz, “branca luz”, expandindo a (ou criando outra) imagem. O amor não “é sabido pela sua face”, mas “divisado em branca luz”.

“projetado em cor”: no original, “set out from colour”. Um sumário da definição de amor oferecida por Cavalcanti na canzone: o amor é sem cor, “Fuor di cholore”, ou seja, sem forma, incorpóreo; “partido” (“essere diviso”), “dividido” a partir do ser, um acidente, não uma substância; está “em plena treva” e “[a]pascenta a luz”, é uma paixão da alma sensível e, portanto, algo diverso da (ou mesmo contrário à) razão. No entanto, é do amor que “provém mercê”.

“Apascenta a luz”: no original, “Grazeth the light”; em Cavalcanti, “Luce rade”. “Rade” é “eliminar”, “apagar”; Pound opta por “graze”, “roçar”, “arranhar”, e acrescenta a frase “um movendo-se pelo outro” (“one moving by other”) para ressaltar sua interpretação do amor como algo que se move com(o) a luz em meio à treva.

“Chamou tronos…”: Dante, Paraíso IX, 61 (fala Cunizza, amante de Sordello); “balascio”, rubi (v. Paraíso IX, 67-69).

“Eriugina”: João Escoto Erígena (ou Johannes Scotus Eriugena, c.810-877), teólogo, filósofo, poeta e tradutor irlandês, revitalizador do neoplatonismo, o qual procurou reconciliar com o cristianismo. Foi quem introduziu os “tronos” como uma ordem angelical. Autor de De Divisione Naturae.

“o que talvez explique…”: Pound cita sua fonte, o comentário de Francesco Fiorentino sobre Scotus em seu Manuale di storia della filosofia.

“maniqueus”: nova alusão à Cruzada Albigense (v. Canto XXIII), no século XIII. Os maniqueus eram seguidores do profeta iraniano Mani (216-274). O maniqueísmo foi uma religião gnóstica que se baseava na oposição de dois princípios (luz/escuridão, bem/mal). Seus adeptos foram perseguidos pelos católicos desde o século V e, à época da Cruzada Albigense, a religião já se encontrava extinta. No entanto, o papa declarou que os cátaros eram maniqueus.

“Assim desenterraram…”: de fato, De Divisione Naturae foi banido da Universidade de Paris em 1210, junto com os livros de Aristóteles. Para Pound, Scotus e Cavalcanti seriam parecidos, dois rebeldes intelectuais contrários à horrenda autoridade católica medieval.

“‘A autoridade vem da razão certa…'”: Scotus, De Divisione Naturae — “Auctoritas siqui ratione processit, ratio uero nequaquam ex auctoritate”.

“… Aquino com a cabeça mergulhada num vácuo”: se a Comédia era tida como a “Suma Teológica em versos” (dada a influência de Aquino sobre Dante), Pound ecoa o destino dos papas simoníacos no Inferno XIX, 43-120. Conforme já dito, Pound não via em Cavalcanti a mesma influência de Aquino.

“Sacrum, sacrum, inluminatio coitu”, “Sacra, sacra, a iluminação pelo coito”.

“Sua Santidade”: o papa Clemente IV (1190-1268). Com a ajuda de Carlos I, Conde de Anjou (1227-1285), Clemente conquistou a Sicília em fevereiro de 1266 (Batalha de Benevento). Em uma carta de 22 de setembro de 1266, ele lembrou o rei de seus deveres e mencionou Sordello.

“Dilectis mihi familiaris… castra Montis Odorisii / Montus Sancti Silvestri pallete et pile”, “Aos meus queridos soldados e familiares… os castelos do Monte Odorisio / Monte São Silvestre, Paglieta e Pila”: excerto do ato pelo qual Carlos I presenteou Sordello com cinco castelos nos Abruzos, em março de 1269. Alguns versos acima, o ato já é mencionado no poema, bem como (outra vez) o início da biografia medieval de Sordello (“Lo Sordels si fo di Mantovana”, “Sordello era de Mântua”).

“In partibus Thetis”, na região de Chieti, nos Abruzos; “Pratis nemoribus pascuis”, “Pradarias, florestas e pastagens”.

“… venderam o maldito lote…”: Carlos cedeu as terras em 5 de março de 1269, e Sordello as vendeu em 30 de agosto, quatro anos após Cunizza da Romano (primeiro amor de Sordello) libertar seus escravos em Florença, na casa de Cavalcante dei Cavalcanti, pai de Guido. V. Canto VI.

“Quan ben m’albir e mon ric pensamen”, “Quando penso profundamente em minhas ricas meditações”: verso do poema XXI de Sordello, “Atretan deu ben chantar finamen”.

Canto XXXV

“Mitteleuropa”: Europa Central, aqui subsumida ao Império Austro-Húngaro, cujos sinais de decadência Pound delineia no Canto. Importante ressaltar o grotesco tom antissemita de alguns trechos. Pound atribui a depauperação do referido império à presença dos judeus, e alude de forma similar à situação de Veneza pós-apogeu mais para o final do Canto (“Diga ao Vizir…”).

“Sr. Corles”: Alfred Perlès (1897-1990), judeu austríaco, poeta. Pound conheceu Perlès em Paris, em 1931. O apelido “Corles” pode ser lido como “core less”, ou seja, “sem centro”, “descentrado”. “Sr. Fidacz”: Tibor Serly (1900-78), compositor húngaro. “Nataanovitch”: Leopold Stokowski (1882-1977), maestro britânico de ascendência polonesa que Pound tomou como judeu (talvez fosse mesmo; Stokowski dava pistas confusas sobre a própria biografia como forma de se autopromover). “Fraulein Doktor”: Drª. Marie Franziska Stiasny (1887-1958), que Pound conheceu em Viena, em 1928. Segundo Terrell, ela trabalhava na livraria Wilhelm Braumüller. Também foi secretária do educador e filantropo austríaco Eugenie Schwarzwald. Sobre a menção ao Tirol, a Áustria perdeu parte dessa região para a Itália por ocasião do Tratado de Versalhes. “François Giuseppe” é, claro, o imperador austro-húngaro Franz Josef (1848-1916). “Sr. Lewinesholme”: Richard Lewinsohn (1884-1968), jornalista judeu-alemão, autor da biografia de Basil Zaharoff.

“… almoços com Dortmund”: no caso, regados a Dortmund Pils, uma cerveja alemã.

“Egéria”: conforme a mitologia, uma ninfa, consorte e conselheira de Numa Pompílio (753-673 a.C., segundo rei de Roma).

“Hall Caine”: Sir Thomas Henry Hall Caine (1853-1931), romancista inglês de grande sucesso em vida, hoje esquecido.

“dixit sic felix Elias”, “assim falou o alegre Elias”: nos versos seguintes, Pound ridiculariza um suposto sotaque judaico.

“Eljen”, “Ave” ou “Salve” (no sentido de “Ave, César” ou “Heil, Hitler”): Pound encontrou a expressão no livro Das verwundete Land (“A Pátria Ferida”), de Lajos Hatvany (1880-1961), judeu húngaro aristocrata, escritor e colecionador de arte. A história narrada a seguir também está no mesmo livro, e é recontada por Pound à sua maneira. Em todo caso, ela expõe a ideia de que um idealismo difuso e a ignorância da realidade levaram à ruína das elites políticas húngaras. A “conferência” mencionada foi uma tentativa malsucedida, realizada em Belgrado, em 7 de novembro de 1918, de se negociar um armistício entre a Hungria e a Entente. Sendo “sócia” da Áustria, a Hungria estava do lado perdedor na Primeira Guerra Mundial e, por isso, perdeu porções significativas de seu território (como a Eslováquia). Em outubro de 1918, a monarquia foi abolida no país por um golpe de estado, e Mihály Károlyi foi empossado como líder de uma república social-democrata de vida curtíssima, pois, em abril do ano seguinte, sob a liderança de Béla Kun, a Hungria se tornou uma nação comunista. Na supracitada conferência, Károlyi julgou que, ao abolir a monarquia e permitir a participação da classe trabalhadora no governo, isso estabeleceria uma base de confiança entre a Hungria e os países vencedores, ignorando (como aponta Hatvany) que a França não era pacifista, democrática e idealista, mas liderada por uma classe militarizada e aristocrática. O fracasso na conferência contribuiu para a ascensão de Béla Kun.

“Comment! Vous êtes tombé si bas?”, “O quê! Como vocês decaíram tanto?”

“General Franchet”: Louis Felix Franchet d’Espèrey (1856-1942), comandante das forças aliadas nos Balcãs. Nas negociações em novembro de 1918, disse aos húngaros que eles não seriam considerados “neutros”, mas derrotados pela Entente, e tratados dessa forma.

“VIRTUSH!”: Pound se volta para a Itália do século XV. A ideia é contrapor a desintegração dos austro-húngaros ao pragmatismo dos italianos renascentistas por meio de alguns exemplos (Mântua, 1401; Veneza, 1423; e, de passagem, Ferrara, 1502). O caso de Mântua foi descrito em um artigo de Alfonso Michielotto, publicado pela Rivista del diritto commerciale em 1931. Michielotto tentou elucidar as causas do declínio econômico da cidade ao final da Idade Média (escassez de capital e competição com outras cidades), e descreveu a tentativa de Francesco I Gonzaga de refrear a crise ouvindo sugestões dos cidadãos. Uma dessas soluções (descrita por Michielotto e abordada por Pound no Canto) foi proposta por Franciscus Abbatibus e envolvia a criação de uma câmara comercial (fontego) que emprestaria dinheiro aos fabricantes e seria paga em mercadorias (ou seja, não seria uma instituição usurária). Importante: o significado de “fontego” é explanado no Canto, embora Grünewald erre ao traduzir o original “chamber” como “sala”; trata-se, sim, da citada “câmara” (comercial). Não há registro da implementação (ou não) dessa sugestão.

“scavenzaria”: “scavezaria”, “loja”; “schavezo” (ou “scavezzo”) é relativo à venda no varejo; “inficit umbras” (Ovídio, Metamorfoses X, 596), “projeta sua sombra” (Pound associa a expressão ovidiana à prática, referida por Abbatibus, de tingir os tecidos a fim de torná-los mais atrativos aos consumidores); “una grida”, “uma proclamação”.

“Madame ὔλη”, “hilé”, “matéria”; “Madame la Porte Parure”, “de alto porte”: trata-se de apelidos poundianos para Lucrécia Borgia (v. Canto XXX).

“A Dominante”: Veneza. A referência a Vasco da Gama (1460-1524) não se dá por acaso, uma vez que a nova rota para a Índia empreendida por ele (em 1497-99), contornando a África, prejudicou Veneza (que utilizava rotas marítimas e terrestres via Mediterrâneo e Levante).

“omnes de partibus ultramarinis”, “tudo de regiões ultramarinas”. Veneza monopolizava o comércio de sal na Itália. A citação “quem comanda o mar…” é do britânico Walter Raleigh (1552-1818), explorador, corsário, espião, escritor. “Vitória”, claro, é a rainha britânica (1819-1901); Pound compara a situação dos venezianos com a da Grã-Bretanha no século XIX, cuja riqueza também dependia do comércio colonial. Foi em 1423 (não “b.c”, como coloca Grünewald, mas “d.C.”) que morreu o doge Tomasso Mocenigo (1343–1423), época em que Veneza chegou ao ápice (ele estendeu os domínios da cidade a Trentino, Friuli e Dalmácia). Em seu leito de morte, Mocenigo instou seus pares a não elegerem Francesco Foscari como o novo doge, afirmando que ele levaria Veneza a guerras dispendiosas e desnecessárias, que enfraqueceriam a cidade. Foscari foi eleito, e a previsão de Mocenigo se concretizou.

“Ragusa”: nome italiano de Dubrovnik, cidade croata às margens do Adriático.

“Tola”: tarifas sobre bens importados e exportados; “octroi”: tarifas relativas à circulação de bens produzidos e negociados internamente, isto é, dentro das fronteiras de um país; “decime”: imposto sobre a propriedade.

Canto XXXIV

O Canto XXXIV é estruturado a partir dos diários de John Quincy Adams (1767-1848), advogado, diplomata e estadista norte-americano, filho mais velho de John Adams e sexto presidente dos EUA (1825-1829).

A primeira entrada pinçada por Pound diz respeito a um jantar com Jefferson na Casa Branca, em 3 de novembro de 1807. Quincy Adams se refere a uma boa conversa que teve com o dr. Samuel Mitchell (1763-1831), referida de novo mais adiante no Canto. Na época do jantar, Quincy Adams era senador e membro do Partido Federalista, mas se aproximava de Jefferson e dos republicanos. Como resultado desse apoio, ele perderia a cadeira no senado nas eleições seguintes. Assim, a decisão de Madison de nomeá-lo embaixador dos EUA na Rússia, em 1809, talvez tenha sido uma espécie de compensação. A passagem ecoa a conversa entre Sigismundo Malatesta e Platina em Roma, na antecâmara papal, recriada no Canto XI.

“E um criado negro…”: em 5 de agosto de 1809, Quincy Adams embarcou com a família e um criado negro chamado Nelson para a Rússia, onde já estivera antes: entre os 14 e os 16 anos (1781-83), por ser fluente em francês, trabalhara como secretário de Francis Dana em São Petersburgo (note-se que Dana nunca foi reconhecido oficialmente como embaixador por Catarina, a Grande).

“Consistente com sua paz…”: Quincy Adams assegurou o czar Alexandre I que os EUA manteriam um política de neutralidade com relação à Europa, ecoando a postura de seu pai (entre os motivos pelos quais John Adams não fora reeleito presidente em 1800 está a recusa em guerrear contra a França). A ideia de não intervenção na política europeia (e, claro, da não intervenção dos europeus nas Américas, contrariando as possibilidades de recolonização e estabelecendo a noção de Destino Manifesto) seria formulada como a Doutrina Monroe em 1823.

“auf dem Wasser”, “na água”.

“En fait de commerce (…) étourdi”, “Em questões comerciais, esse (Bonaparte) é um tonto”.

“Romanzoff”: Nikolai Petrovich Rumyantsev (1754-1826), ministro russo das relações exteriores.

“São os únicos membros…”: o general espanhol Pardo e Joseph de Maistre.

“Abade Delile”: Jacques Delille (1738-1813), poeta e classicista francês.

“Monsieur Adams (…) vu”, “Senhor Adams, não vejo o senhor há um século”.

“un peu interessantes”, “de pouco interesse”.

Oranienbaum: residência imperial nos arredores de Petersburgo.

“Ld Cathcart”: William Shaw, 1º Lorde de Cathcart (1755-1843), embaixador britânico na Rússia. “Madame de Staël”: Germaine de Staël (1766-1817), intelectual francesa, filha de Jacques Necker, banqueiro suíço e ministro da economia de Luís XVI.

“Qu-il fit la sottise de Moscou”, “Que ele cometeu a tolice de Moscou”: no caso, a ideia desastrosa que teve Napoleão de tomar Moscou.

“Sr. Gallatin”: a Rússia se dispôs a mediar as negociações de paz entre os EUA e a Inglaterra, procurando encerrar a Guerra de 1812. Madison enviou Albert Gallatin e James Bayard para se juntar a Quincy Adams, mas os britânicos não quiseram iniciar as tratativas. A paz só seria selada em Ghent, na véspera do Natal de 1814. Como a notícia do tratado só chegou aos EUA semanas depois, ainda foi travada a Batalha de Nova Orleans (8 de janeiro de 1815), em que as forças norte-americanas, lideradas pelo Andrew Jackson, impediram que os britânicos invadissem a Louisiana. O Tratado de Ghent só seria ratificado pelo senado dos EUA em 16 de fevereiro.

“Na ópera”: Quincy Adams assistiu a Tamerlano, ópera de Peter von Winter, e ao balé Télémaque, de Boïeldieu, em 14 de março de 1815. Bonaparte havia fugido de Elba em 25 de fevereiro e “era esperado” em Paris. A entrada relativa à ida de Quincy Adams à ópera sugere que ele estava em Paris por esses dias.

“Ney”: Michel Ney (1769-1815), comandante militar francês, um dos dezoito ou Marechais do Império nomeados por Napoleão (a designação anterior, “Marechal de França”, fora abolida pela Revolução). Embora tivesse jurado proteger a Casa de Bourbon e Luís XVIII, ao reencontrar o velho comandante em Auxerre, Ney desertou e lutou ao lado de Bonaparte até o fim. Após a derrota em Waterloo, Ney foi executado como traidor por ordem de Luís XVIII.

“Rei de Roma”: François Charles Joseph Napoleon (1811-32), filho de Bonaparte com sua segunda esposa, Marie Louise.

“Vinte de março”: em 20 de março de 1815, Bonaparte chegou a Paris (Quincy Adams circulou pelas ruas da cidade para observar a reação das pessoas). No dia anterior, o exército real desertara em nome dele. A despeito de ter jurado na Séance royale (reunião com a Assembleia Nacional) que morreria defendendo a França, Luís XVIII fugiu para Ghent pela estrada de Beauvais, e lá ficou durante os cem dias de governo de Bonaparte.

“Ah vouis, vive le Roi”, “Ah, sim, vida longa ao Rei”.

“James Mackintosh”: Quincy Adams, Gallatin e outros chegaram a Londres para negociar um tratado com os britânicos em 25 de maio de 1815. Dias depois, em 2 de junho, em um jantar na Holland House com Sir James Mackintosh, membro do parlamento, este perguntou se era verdade que Benjamin Franklin fora sincero ao lamentar a revolução. A resposta de Quincy Adams está nos versos seguintes.

“(E no seu retorno…)”: Pound assume a narração nos versos entre parênteses para demonstrar que os comentários tolos feitos para Mackintosh não afetaram a reputação de Quincy Adams nos EUA. E, de fato, em 11 de agosto de 1817, ele foi recepcionado em Nova York com um jantar oferecido por Gouverneur Morris (Grünewald comete um erro aqui: “Gouverneur” era o nome desse que foi um dos Pais Fundadores, autor do preâmbulo de Constituição americana e, por isso, apelidado de “Penman of the Constitution”; Morris jamais foi governador de Nova York, mas, sim, senador por esse estado) e John Jacob Astor (1763-1848), homem de negócios que fez fortuna negociando peles e imóveis. Quincy Adams fora chamado de volta aos EUA para se tornar Secretário de Estado do presidente James Monroe (referido mais à frente apenas como “Presidente”).

“Sr. Onis”: Don Luis de Onís y González-Vera (1762-1827), diplomata espanhol, serviu como embaixador nos EUA entre 1809 e 1819.

“Sr. Madison”: voltamos à conversa entre Quincy Adams e o Dr. Mitchell. A convenção de (17)87 resultou na promulgação da constituição americana, tendo Madison (que ajudara a conceber a constituição da Virgínia onze anos antes) desempenhado um papel importantíssimo no processo.

“Sr. Bagot”: Charles Bagot (1781-1843), diplomata britânico, embaixador nos EUA, Rússia e Países Baixos. A verdadeira avaliação que Quincy Adams fazia dele não é tão sarcástica quanto sugere o trecho citado.

De Witt Clinton (1769-1828) foi senador, prefeito de Nova York e governador do estado de NY, sendo responsável pela construção do Canal de Erie. Candidatou-se a presidente em 1812, perdendo a eleição para o incumbente James Madison. Quincy Adams traça um retrato bastante desfavorável de Clinton em seus diários, como se vê nesse trecho do Canto.

“Coronel Johnson”: Richard Mentor Johnson (1780-1850), membro da Casa dos Representantes (1807-19) e do senado (1819-29), propôs a Quincy Adams que os EUA vendessem armas para o exército revolucionário de Simon Bolívar usando um amigo, o jornalista William Duane (1760-1835), como intermediário do negócio.

“secretissime”, “secretíssimo”: outra proposta feita ao governo dos EUA, de que cedessem soldados para Bolívar ao mesmo tempo em que alegassem neutralidade. Quincy Adams negou.

“à venda”: quando se tornou claro, na primavera de 1820, que Monroe seria reeleito, a única questão aberta dizia respeito à vice-presidência. Daniel D. Tomkins seria reeleito como tal, mas, antes, o “Sr. Clay” (Henry Clay, 1777-1852, presidente do congresso) tinha esperanças de ocupar o cargo.

“Sr. Calhoun”: John Caldwell Calhoun (1782-1850), senador pela Carolina do Sul, foi também vice-presidente de John Quincy Adams e Andrew Jackson no primeiro mandato deste, 1825-31 (sobre Calhoun, v. Canto XXXVII). “Sr. Noah”: Mordecai Noah (1785-1859), jornalista e diplomata, tentou estabelecer uma comunidade judaica perto de Buffalo, a cidade de Ararat (cuja pedra fundamental foi lançada em setembro de 1825). Eventualmente, abandonou o projeto. Há outra menção à Ararat e Noah na parte final do Canto.

“George”: o filho mais velho de Quincy Adams, George Washington Adams (1801-1829). George Clinton (1739-1812), soldado, advogado e estadista novaiorquino, republicano, governador de NY (1777-95) e vice-presidente de Thomas Jefferson e James Madison (1805-12). Elbridge Gerry (1744-1814), estadista de Massachusetts, vice-presidente de James Madison (1813-14) após a morte de George Clinton. Gerry participou da criação e da aprovação da Declaração dos Direitos dos Estados Unidos.

“Monumentos bem modestos”: Quincy Adams achava que os EUA deviam construir um memorial para enterrar os Pais Fundadores.

“semi-educado (…) interesses europeus”: resumo da crise internacional de 1823 que levou à criação da Doutrina Monroe.

“Interfere em seu encargo oficial?”: em 16 de junho de 1826, Quincy Adams foi chamado para decidir sobre as limitações da intervenção governamental.

“‘Sylva’, de Evelyn”: John Evelyn, Sylva, Or A Discourse on Forest Trees and the Propagation of Timber in His Majesty’s Dominions (1664).

“Algum sentimento ao partir”: Quincy Adams, a exemplo do pai, não conseguiu se reeleger. A entrada de 16 de março de 1829 narra esse encontro com Henry Clay.

“A Sra. Eaton”: o escândalo envolvendo membros do gabinete de Andrew Jackson e suas respectivas esposas, o “Petticoat Affair”, estourou em 1829, logo no começo do governo Jackson, e é abordado por Pound no Canto XXXVII. Em resumo: lideradas por Floride, esposa do vice-presidente John C. Calhoun, essas mulheres (as “Petticoats”, “anáguas”, “combinações”) ostracizaram John Eaton, então Secretário da Guerra, e sua esposa, Margaret O’Neill (ou O’Neale) Timberlake Eaton (Peggy Eaton), por desaprovarem as circunstâncias de seu casamento (ela não teria respeitado o período convencional de luto, casando-se com Eaton nove meses após a morte do primeiro marido). Para as “Petticoats”, Peggy Eaton não estava à altura dos “padrões morais” de uma esposa de membro de gabinete. Como as discussões políticas dos membros do gabinete não raro ocorriam nas soirées das esposas (controladas por Floride), Calhoun foi capaz de criar enormes dificuldades para o governo Jackson em seus primeiros anos. Ele bloqueou a chamada “Tarifa das Abominações” (1828), por exemplo, tida como prejudicial para os estados do Sul. Jackson tentou, sem sucesso, convencer as esposas dos membros do gabinete a não ostracizar os Eaton. Por conseguinte, van Buren renunciou ao cargo de Secretário de Estado, forçando o restante dos membros do gabinete a fazer o mesmo. Jackson pôde, então, apontar um novo gabinete, excluindo Calhoun e seus correligionários, e governar com mais tranquilidade a partir de 1831. No fim das contas, o escândalo facilitou a ascensão de Martin van Buren à presidência, além de arruinar as pretensões políticas de Calhoun.

Nicholas Biddle (1785-1844), presidente do Second Bank of the United States. Eleito para o congresso em 1831 (“assento Número 203”) por Massachusetts, Quincy Adams vendeu suas ações para evitar conflitos de interesses.

“Srta. Martineau”: Harriet Martineau (1802-76), escritora inglesa, autora de Illustrations of Political Economy (1832-4). Quincy Adams a visitou em 18 de janeiro de 1835. Em seu diário, errou o título do livro (erro reiterado por Pound).

“Os velhos estados…”: comentário de Quincy Adams sobre o célebre debate entre Daniel Webster, senador por Massachusetts, e Robert Y. Hayne, senador pela Carolina do Sul, ocorrido entre 19 e 27 de janeiro de 1830, acerca das tarifas protecionistas. A “Segunda Réplica de Webster para Hayne”, comentada por Quincy Adams, é tida como o discurso mais eloquente da história do congresso dos EUA. A descrição do governo como algo “feito pelo povo, para o povo etc.” foi parafraseada por Lincoln em Gettysburg.

“Legaré”: Hugh Swinton Legaré (1797-1843), advogado e político da Carolina do Sul. No entanto, isso que Pound atribui a ele foi dito pelo congressista Andrew Pickens (o que foi corretamente anotado no diário por Quincy Adams).

“Clubes de Tippecanoe”: criados para celebrar a vitória de William Henry Harrison (1773-1841) contra uma confederação de tribos nativas” em Tippecanoe Creek, no território de Indiana (1811). Esses clubes foram importantes para a eleição de Harrison (que morreria no 31º dia de seu mandato em função de uma pneumonia). Da janela de sua casa, Quincy Adams assistiu ao desfile no dia da posse de Harrison, conforme mencionado mais à frente (“Harrison sobre um cavalo de triste aspecto”).

“O mundo, a carne…”: entrada no diário de 29 de março de 1841, escrita após Quincy Adams defender os escravos do Amistad perante a Suprema Corte em 24 de fevereiro e 1º de março daquele ano. Steven Spielberg dirigiu um filme a respeito disso, homônimo do navio.

“haec sunt infamiae”, “essas são as infâmias”.

“Esses são os pecados da Georgia”: referência à maneira como a nação Cherokee, após ser distribuída pela Georgia conforme o Tratado de New Echota (1835), foi forçada a se realocar para o Território Indígena (hoje, Oklahoma) entre 1836 e 1839. Isso se deu durante a presidência de Van Buren, e o militar responsável pela realocação foi o General Wingfield Scott (referido como “Scott” no Canto). Os desrespeitos aos tratados e as realocações forçadas de nativos norte-americanos causaram diversos problemas e confrontos no século XIX, como a Guerra dos Nez Perce (magnificamente narrada por William T. Vollmann no romance The Dying Grass).

“Buchanan”: James Buchanan (1791-1869), presidente dos EUA entre 1857 e 1861.

“O Sr. Dan Webster parlapateando”: em uma entrada de 7 de junho de 1843, Quincy Adams comentou em seu diário sobre a inauguração de um monumento em Boston dedicado à Batalha de Bunker Hill (17 de junho de 1775).

“A procissão dos bombeiros…”: em julho de 1843, Quincy Adams fez duas viagens ao meio-oeste e foi recebido com discursos, festejos e procissões.

“Morse”: Samuel Finley Morse (1791-1872), norte-americano que inventou o telégrafo. Quincy Adams ficou maravilhado com a rapidez com que as mensagens passaram a ser transmitidas.

O ideograma ao lado, usado por Pound no encerramento do Canto, é o xin ou hsin e significa “integridade, confiança, sinceridade”.

“Constans proposito… / Justum et Tenacem”, “Firme no propósito… / Justo e tenaz”: Horácio, Odes III.3. Uma paráfrase desses versos estava inscrita em um anel com que Quincy Adams foi presenteado: “To John Quincy Adams, Justum et tenacem propositi virum” [homem de vontade correta e vigorosa]. Ele ficou até envergonhado pela grande alegria que sentiu ao receber esse presente. É a última entrada em seu diário, datada de 13 de março de 1845.

Canto XXXIII

“Quincey”: outrora ligada a Braintree (e identificada como tal), Quincy é a cidade natal de John Adams e está localizada a cerca de 13 quilômetros de Boston. Depois de apear da presidência, Adams se retirou para a sua fazenda na região. Entre 1812 e sua morte, ele se reaproximou de Thomas Jefferson e manteve com ele uma intensa correspondência. Ambos morreram no mesmo dia, 4 de julho de 1826.

“Se as tropas pudessem…”: carta de Jefferson para Patrick Henry (1736-99), então (março de 1779) governador da Virgínia, na qual tentava convencê-lo, por questões humanitárias e econômicas, a não transferir os prisioneiros de guerra britânicos capturados na Batalha de Saratoga (outubro de 1777) e mantidos no condado de Albemarle.

“cerca de vinte e cinco milhões de pessoas…”: de uma carta de Adams para Jefferson de setembro de 1813 (não 1815, como escreve Pound mais à frente). Nela, fica clara outra discordância entre os dois homens, acerca da possibilidade de se alcançar uma autêntica democracia republicana, escapando da corrupção do sistema e do despotismo aludido no início do Canto. Jefferson era contrário à concentração de poder nas mãos do poder executivo, coisa que Adams julgava necessária.

“garanhões de Teógnis”: alusão ao poeta grego Teógnis de Mégara (570-485 a.C.). Leia AQUI um bom texto sobre ele.

“Chanceler Livingston e o General Humphries”: Robert Livingston (1746-1813), advogado, político e diplomata novaiorquino, era chamado de “chanceler” por ter chefiado o escritório jurídico do estado de Nova York por um quarto de século. Ele integrou o comitê que escreveu a Declaração de Independência. David Humphreys (1752-1818), militar e empreendedor de Connecticut, foi coronel do exército durante a Revolução, ajudante de ordens de Washington e diplomata em Portugal e na Espanha. Em 1802, levou ovelhas da raça merino da Espanha para os EUA, sendo considerado o “pai” da indústria de lã norte-americana.

“kalos k’agathos”, “belo e bom”.

“diferença atribuída…”: de uma carta de Jefferson para Giovanni Fabbroni (v. Canto XXI). Em outra carta citada a seguir, Jefferson sugere a Adams procurar o Grão-Duque de Toscana (na época, Pietro Leopoldo, 1747-92) com vistas a conseguir ajuda financeira para a Guerra de Independência (Adams viajara à Europa com esse objetivo). A menção a Franklin não é por acaso, uma vez que ele gozava de excelente reputação na Europa.

“antes de Lexington”: em 19 abril de 1775, a primeira batalha da Guerra de Independência ocorreu nessa cidadezinha próxima de Boston.

“a remoção seria necessária…”: Pound retorna à carta de Jefferson para Henry.

“Bonaparte, Pobre Diabo!”: pouco antes de Adams escrever essa carta para Jefferson, Bonaparte perdeu a Batalha de Waterloo (18 de junho de 1815) para o general Wellington. A seguir, não se sabe a qual Cromwell o poema se refere: Oliver Cromwell (1599-1658) ou Thomas Cromwell (1485-1540)? Acerca deste último, sugiro a estupenda trilogia Wolf Hall, de Hilary Mantel. Escrevi sobre os dois primeiros volumes AQUI. Wat Tyler (1341-1381), líder da rebelião camponesa de 1381, foi apunhalado pelo prefeito de Londres ao se encontrar com Ricardo II (então com 14 anos) para negociar o fim da sublevação. Conseguiu fugir, mas foi capturado e decapitado. Jack Cade (?-1450) liderou uma rebelião contra Henrique VI em 1450. Ferido ao ser capturado, morreu antes de chegar a Londres para o julgamento. Sobre Arthur Wellesley, 1º Duque de Wellington (1769-1852), já citado anteriormente, e ao contrário do que diz Adams, não era “desprezado por todos os barões, condes” etc. por conta de sua origem irlandesa, tanto que foi considerado um herói nacional e chegou ao cargo de primeiro-ministro. O termo “parvenu” vem do francês “parvenue”, “arrivista”.

“Litterae nihil sanantes”, “a literatura não cura nada”: ao comentar sobre as pesquisas de Jefferson acerca dos povos originários, Adams explicita seu ceticismo para com esse tipo de construção teórica. A mesma atitude pode ser observada mais adiante no Canto, em sua avaliação (negativa) de Platão. Em seguida, ele remete à história de Cadmo e à fundação de Tebas, “se os dentes da serpente produziram homens” (Metamorfoses III, 1-130), referidas no Canto XXVII.

“… nessa violenta tempestade de neve”: no começo da carta para Jefferson (1813), Adams comenta sobre tropas norte-americanas que enfrentaram uma nevasca durante a guerra contra os britânicos (1812-15).

“os velhos Whigs”: referência ao partido britânico, pois, na época dessa carta de Adams (1816), o partido Whig ainda não existia nos EUA.

“pais desta geração”: Pound cita Karl Marx para se referir às consequências hediondas da escravidão para a Grã-Bretanha no século XIX. Em seguida, alude à desregulamentação do trabalho nas fábricas e à falta de pessoal para inspecionar as instalações e o uso de mão-de-obra (inclusive infantil) em condições subumanas.

“Rogier”: Charles Latour Rogier (1800-1885), estadista belga. Marx se refere à situação na Bélgica para corroborar a falta de regulamentação e o uso de mão-de-obra infantil nas fábricas britânicas. Charles Augustus Ellis, Barão Howard de Welden (1799-1868), foi um diplomata inglês.

“Factory Act”: uma das várias leis aprovadas pelo parlamento inglês no decorrer do século XIX para regulamentar as condições de trabalho fabril. No Capital, Marx demonstra como os industriais driblavam essas leis. John Cam Hobhouse (1786-1869), político liberal britânico, promoveu atos legislatórios em 1825 e 1831 destinados a controlar o trabalho infantil e impedir que donos de fábricas pudessem julgar os próprios casos nos tribunais. Leonard Horner (1785-1864) foi um reformador inglês e inspetor do Factory Act de 1848.

“avenement (…) (allemand)”, “a chegada da revolução alemã trouxe novos problemas, o comércio rotineiro [a] ser substituído pela criação de dois fundos, ouro e trigo, destinados ao vitorioso proletariado (alemão)”: o texto citado em francês tem alguns erros gramaticais. A passagem diz respeito à certeza de Stálin de que a revolução comunista na Alemanha era inevitável, e que a URSS devia estar pronta para enviar ajuda.

“bureaucrat paisible (…) sanguinaire”, “Van Tsin Vei, um burocrata pacífico, provou-se bastante incapaz de liderar uma revolução sangrenta”: Wang Jinwei (1883-1944), político chinês, líder do Kuomingtang, Partido Nacionalista Chinês, distanciou-se dos comunistas com o passar do tempo, a despeito de seu apreço pela influência soviética na década de 1920. Besedovsky o chamou de “burocrata pacífico” a fim de dissociá-lo de seu rival, Chiang Kai-Shek, responsável pela unificação da China por meio das armas. Chiang era totalmente imune à influência comunista reinante no partido, ao passo que os agentes de Stálin consideravam Wang muito influenciável. “Monsieur Bessedovsky”: Grigori Zinovyevich Besedovsky (1896-1963), diplomata soviético, serviu na Alemanha, na França e no Japão nos anos 1920. Desertou e fugiu para a França em 1930, ano em que publicou suas memórias, traduzidas para o francês com o título Oui, j’accuse!. Alguns pesquisadores afirmam que a deserção foi falsa, e que Besedovsky (por meio dos livros que publicou) era um agente da propaganda soviética. O retrato de Stálin nas memórias, contudo, não é simpático ao líder soviético.

“Faturas descontadas em taxas exorbitantes…”: com referência às relações comerciais entre a URSS e a Inglaterra, Besedovsky explica que Stálin optou por pagar as contas do país com juros extorsivos, em vez de negociar empréstimos maiores (e taxas menores) com o Midland Bank. Segundo Besedovsky, Stálin temia que relações comerciais mais profundas e harmoniosas poderiam levar à perda do vigor revolucionário. As consequências dessa postura para a população russa foram monstruosas, além de facilitar esquemas de corrupção entre os parceiros comerciais ingleses e os comissários soviéticos, que superfaturavam as transações. A política stalinista de promover revoluções na Alemanha, na China, na França e na Inglaterra também dificultou as relações comerciais da URSS, custo que foi pago pela população mais pobre. Por meio dessas citações, Pound cria um contraste enorme entre a cretinice de Stálin e a inteligência de Adams e Jefferson, evidenciada anteriormente.

“e ele até”: “ele” é William P. G. Harding, presidente do conselho do Federal Reserve em 1920. Pound, aqui, passa a outra fonte: o discurso de S. W. Brookhart (1869-1944) no senado dos EUA em 25 de fevereiro de 1931. Brookhart referiu-se a uma reunião do conselho do Federal Reserve em 1920 para argumentar que “a deflação é um crime” que não deveria ser repetido. Desse modo, ele se posicionou contrariamente à eleição de Eugene Meyer como novo presidente do conselho em 1931, entendendo que Meyer daria continuidade à política deflacionária instituída por Harding.

“Swiftarmoursinclair” Gustavus Franklin Swift (1839-1903) e Philip Danforth Armour (1832-1901) eram rivais na indústria da carne em Chicago. Swift foi o primeiro açougueiro a processar carne na cidade e distribuí-la para outras cidades usando vagões de trem refrigerados. Em 1931, suas empresas eram líderes na indústria. A Sinclair Oil Corporation foi fundada por Harry F. Sinclair em maio de 1916, em Nova York. Essas três empresas sobreviveram à Grande Depressão e ainda existem. A referência à superinflação diz respeito à reunião do conselho do Federal Reserve que decidiu subir os juros a fim de conter a inflação. Óbvio que os banqueiros presentes vazaram a informação aos seus maiores clientes, que puderem contrair empréstimos a juros mais baixos antes que a decisão do conselho fosse colocada em prática.

Canto XXXII

“… nas cabeças do povo”: lendo a correspondência de John Adams, Pound entendeu que ele acreditava que a verdadeira revolução se dá na mente do povo, o que já teria ocorrido quando a Revolução propriamente dita teve início.

“Amphitrite”: embarcação enviada em 1777 por Pierre Beaumarchais com armas, munições e mantimentos para os revolucionários norte-americanos.

“et des dettes des dites Echelles”, “e as dívidas das chamadas Echelles”: os portos na região do Mediterrâneo. Controlados na época pelo Império Otomano, cujo sultão abriu mão de algumas prerrogativas em favor da França (“Capitulações”). O domínio francês trouxe grande prosperidade ao país, mas terminou com a Revolução e a ascensão de Napoleão. Os britânicos, então, controlariam a região até meados do século XX.

“dans les arrêts principaux du Conseil, decembre ’soixante-six”, “nos principais decretos do Conselho, dezembro de [17]66”: na verdade, esses decretos (relativos a uma reforma administrativa nas Echelles) datam de 1776.

“armes et autre ustenciles qui ne peuvent être que pour/ le compte du gouvernement”, “armas e outros utensílios [que] só podem ser por conta do governo”: em 1776, com vistas a recuperar sua posição na Índia (perdida para a Grã-Bretanha na Guerra dos Sete Anos), a França enviou o diplomata Saint Lubin (citado a seguir como “Monsieur Saint-Libin”) para a Índia no navio Sartine (homônimo do então ministro responsável pela marinha do país), repleto de armas e munições para auxiliar os locais a guerrear contra os britânicos. A missão de Saint Lubin (armar e auxiliar os Marathas e restaurar as possessões coloniais francesas) fracassou desastrosamente. Ao retornar para a França, em 1780, ele foi encarcerado na Bastilha. Saint Lubin seria, então, uma espécie de Beaumarchais malsucedido — e possivelmente um traidor.

“très au fait des langues du Pays, connu des Nababs”, “muito bem informado acerca das línguas desse país, conhecido pelos nababos”: as “credenciais” de Saint Lubin; “nababos” eram os governantes indianos locais ou provinciais (depois, o termo passou a ser também usado para se referir a ocidentais que ocupavam posições importantes na Índia).

Hyder Ali (1722-82) foi um príncipe indiano do estado de Mysore. Lutou contra a Companhia Britânica das Índias Orientais em duas guerras (1767-69 e 1780-84). Seria, então, uma espécie de Washington indiano. Saint Lubin (à diferença de Beamarchais) traiu os indianos, recusando-se a vender munição para Ali (é possível, então, que o francês fosse um agente duplo).

“pour l’exciter et à tailler des croupières to the Anglois… / … peu délicat sur les moyens”, “para incitá-lo a seguir firme nos calcanhares dos ingleses… / … sem delicadeza quanto aos meios”.

“para romper nossos laços”: Pound muda a perspectiva narrativa para um espião inglês reportando as operações navais francesas na América do Norte e na Índia. A referência aos portugueses (“portuburros”) diz respeito à tentativa francesa de romper a aliança entre Portugal e Inglaterra, que colaboravam há séculos.

“Burr”: Aaron Burr (1756-1836), revolucionário e político, vice-presidente no primeiro mandato de Jefferson (1801-5). Acusado, em 1805, de conspirar para tomar territórios da Espanha além do Mississippi e constituir um novo estado no sudoeste, foi julgado e absolvido por falta de provas. No romance Burr, Gore Vidal oferece um relato contrário à iconografia tradicional do período, sobretudo em relação aos Pais Fundadores e ao próprio personagem-título. Ele não teria “interesse no canal de Ohio”, isto é, a expedição que ele organizou na região disfarçaria seus objetivos reais, segundo testemunhas. (A imagem que ilustra a postagem é de Burr.)

“coram non judice”, “não perante um juiz”: intimado, Jefferson se recusou a comparecer pessoalmente no julgamento de Burr (“privilégio executivo”), mas enviou os documentos que o juiz solicitou (embora editados).

“rectus in curia”, “correto do ponto de vista legal”: de uma carta de Jefferson para William Short, embaixador dos EUA na corte do czar Alexandre I (1777-1825). Ao final de seu último mandato, Jefferson tentou estender a permanência de Short na Rússia, mas sua decisão foi indeferida pelo Congresso e Short teve de retornar.

“Se retornar a nós…”: de uma carta de Jefferson para Pierre Dupont de Nemours, também ao final de sua presidência. Remete ao apelo similar de Sigismundo Malatesta a Pierfrancesco de Medici em 1463, citado no Canto XI.

“… muito se deseja que a guerra seja / evitada”: de uma carta de Jefferson para James Madison. O confronto a ser evitado seria contra a Inglaterra, que acossava o comércio marítimo dos EUA; isso não foi possível. A guerra se prolongou de 1812 a 1814, e foi encerrada com o Tratado de Ghent.

“fundição de tipos”: outra carta de Jefferson para Nemours, que providenciou o antimônio necessário. Anos depois, descobriu-se a substância em Vermont.

“para civilizar os índios”: carta de Jefferson para James Jay, na qual deplora a maneira como os povos originários eram “civilizados” (por meio do missionarismo religioso)

“… e como tantos”: alertado por um amigo acerca de um sermão agressivo feito por um clérigo, Jefferson respondeu que não se importava com esse tipo de ataque, e que o processo contra o agressor deveria ser extinto.

“quanto esse incansável trabalho…”: em carta para o juiz William Johnson, empenhado em escrever uma histórias dos partidos federalista e republicano, Jefferson delineia as diferenças entre esses partidos.

“seja num chiqueiro…”: de uma carta de Jefferson para John Langdon, que também será citada na parte final do Canto, sobre as visões do primeiro acerca da política externa. A frase “Os canibais da Europa estão de novo…” é de John Adams, e Pound também a usa para remeter à situação na Europa quando escrevia o Canto (início dos anos 1930). Em seguida, ele volta a citar Jefferson e sua visão das cabeças coroadas do Velho Continente, ressaltando o pacifismo do presidente norte-americano.

“Juiz Marshall”: John Marshall (1755-1835), jurista norte-americano e presidente da Suprema Corte (1801-1835), à qual foi indicado por John Adams. Jefferson teve uma relação problemática com Marshall, o juiz que o intimou a depor no julgamento de Burr e exigiu que apresentasse documentos particulares no processo.

“pelo qual permanecemos…”: após listar os monarcas europeus na carta para Langdon, Jefferson compara as monarquias hereditárias à criação de animais, afirmando que a endogamia leva à ruína.

“à guisa de leon (…) quando si posa”: Dante, Purgatório VI, 65-66. Refere-se ao encontro de Dante com Sordello, “sempre guardando / de leão pousado a figura altaneira”. Ao reconhecer Virgílio, outro mantuano, o patriota Sordello inspira esse mesmo sentimento em Dante, que se posiciona contra os imperadores e as rixas entre os italianos.

Onze novos Cantos (1934)

CANTO XXXI
Correspondências de Thomas Jefferson.
Nascimento e estabelecimento dos EUA.

CANTO XXXII
Mais correspondências de Jefferson.
Beaumarchais contraposto ao traidor Saint Lubin.
O julgamento de Aaron Burr.
Diatribe de Jefferson contra as monarquias.
No Purgatório, Dante encontra Sordello.

CANTO XXXIII
John Adams se corresponde com Jefferson:
humanidade e inteligência econômica.
“Bonaparte, Pobre Diabo!”
Consequências hediondas da escravidão e da desregulamentação
do trabalho fabril na Inglaterra (Marx).
Besedovsky sobre a burrice criminosa de Stálin.
A política de juros do Federal Reserve nos 1920s.

CANTO XXXIV
Os diários de John Quincy Adams:
toda uma vida e acontecimentos importantíssimos
da história dos EUA e da Europa
repassados a partir desses registros.

CANTO XXXV
Antissemitismo dando as caras.
A desintegração do império Austro-Húngaro
contraposta ao engenho italiano no século XV.
Veneza: Mocenigo.

CANTO XXXVI
Tradução de “Donna mi prega”, de Guido Cavalcanti.
Johannes Scotus Eriugena e Guido, rebeldes.
Sordello vende “o maldito lote”.

CANTO XXXVII
Martin van Buren.
Pânico de 1837.

CANTO XXXVIII
Exaustão europeia:
Filipe IV, Cunard, Guilherme II etc.
Indústria armamentista: Akers, Krupp, Schneider.
Negócios em primeiro lugar,
e as nações que se explodam.

CANTO XXXIX
Circe, mas também Olga Rudge.
Pound lê uma tradução latina da Odisseia.
Ele se rende a Circe/Olga, e com ela se deita.

CANTO XL
Da corrupção nos EUA da Gilded Age
ao Periplus Hannonis.

CANTO XLI
Mussolini se diverte com o antissemitismo de Pound.
Uzzano, Baur, Sarfatti.
Mais cartas de Jefferson.

Canto XXXI

Este e os três Cantos seguintes utilizam como base as cartas e outros escritos de Thomas Jefferson, John Adams, John Quincy Adams, Andrew Jackson, Martin Van Buren e outros políticos proeminentes para abordar o surgimento dos Estados Unidos e o desenvolvimento de seu sistema bancário. A citação do lema malatestiano (ver próximo parágrafo) serve para sublinhar Jefferson e Malatesta como indivíduos importantes nas histórias de seus respectivos países. Pound liga o “renascimento” italiano ao nascimento dos EUA, portanto.

“Tempus loquendi / Tempus tacendi”, “tempo para falar, tempo para calar”: o lema pessoal de Sigismundo Malatesta está gravado no Templo Malatestiano, sobre a tumba de Isotta degli Atti, e na Sala Malatestiana no castelo Gradara. A inspiração vem do Eclesiastes 3, 7: “tempo de calar, / e tempo de falar”.

“Sr. Jefferson”: Thomas Jefferson (1743-1826), autor da Declaração de Independência dos Estados Unidos e terceiro presidente do país (1801-1809). Nesse Canto, Pound traça um retrato de Jefferson a partir de suas cartas, além de utilizar duas missivas de John Adams e uma breve citação de James Madison. Os períodos enfocados (sem ordem cronológica) são anteriores e posteriores ao exercício da presidência por ele: 1785-1801 e 1811-1824.

“traje moderno para a sua estátua”: a citação é de uma carta de Jefferson para George Washington, quando este era presidente dos EUA e o primeiro, embaixador (“ministro”) em Paris.

“…..nenhum escravo ao norte do distrito de Maryland”: a linha de demarcação dos estados de Maryland, Pennsylvania e Delaware foi feita por Charles Mason e Jeremiah Dixon em uma expedição ocorrida entre 1763 e 1767. A linha Mason-Dixon passou a separar os estados sulistas e escravistas dos estados ao norte, os quais não possuíam escravos. O romance Mason & Dixon, de Thomas Pynchon, aborda (à maneira de Pynchon, claro) a história dessa expedição.

“Sr. Bushnell”: David Bushnell (1740-1826), inventor de Connecticut. Ele, de fato, inventou uma espécie de submarino movido a propulsão por hélice (o “Turtle”) em 1775.

“Sr. Adams”: John Adams (1735-1826), um dos Pais Fundadores e segundo presidente dos EUA (1796-1800). Junto com Jefferson e Franklin, concebeu a Declaração de Independência apresentada ao Congresso em Filadélfia no dia 26 de junho de 1776. Teve uma importância enorme na Guerra Revolucionária (ou de Independência, 1775-1783) e no estabelecimento do país, conseguindo financiamento nos Países Baixos em 1781-83. A história de Adams é contada em uma bela minissérie da HBO.

“Dr. Franklin”: Benjamin Franklin (1706-1790), claro. Em 1783, como plenipotenciário na França, foi um dos negociadores do Tratado de Paris (1783), que encerrou a Guerra Revolucionária.

“Tom Paine”: Thomas Paine (1737-1809), filósofo político inglês, foi também um ativista revolucionário. Seu panfleto Senso Comum (publicado na Filadélfia em 1776) inspirou os norte-americanos a lutarem pela independência. “Você manifestou o desejo…”: após 1800, Paine se desiludiu com Napoleão e expressou o desejo de deixar a França (onde vivia), no que foi auxiliado por Jefferson.

“Sr. Dawson”: John Dawson (1762-1814), advogado da Virginia e membro da Câmara dos Representantes dos EUA (equivalente à nossa Câmara dos Deputados). Foi enviado à França para receber a ratificação da Convenção de 1800 (ou Tratado de Mortefontaine), que encerrou a chamada “quase guerra” entre EUA e França.

“Maison Quarée”: Jefferson sugeriu que se usasse o templo romano de Nimes como modelo para o capitólio em Richmond.

“Com respeito a seus motivos…”: de um memorando de James Madison sobre Robert Smith (1757-1842), seu Secretário de Estado, para Jefferson. O documento é de 1811 e atesta a influência de Jefferson sobre a administração do país mesmo após apear da presidência. Ele também teve bastante ascendência sobre o sucessor de Madison, James Monroe.

“… desse país”: a Holanda; “Este país”: França.

“Sr. Beaumarchais”: Pierre Augustin Caron de Beaumarchais (1732-1799), diplomata e dramaturgo francês, apoiador de primeira hora da Revolução Americana. Supervisionou a ajuda secreta que a França deu aos norte-americanos na Guerra de Independência.

“Lafayette”: Marie Joseph Paul Yves Roch Gilbert du Motier, Marquês de Lafayette (1757-1834), aristocrata, militar e estadista francês, lutou ao lado dos norte-americanos na Guerra de Independência, atuando com distinção nas batalhas de Brandywine (setembro de 1777), Rhode Island (agosto de 1778) e Yorktown (outubro de 1781). Após retornar à França, apoiou a Revolução Francesa e, com a ajuda de Jefferson, auxiliou na escrita da “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão” (1789).

John Quincy Adams (1767-1848), advogado, diplomata e estadista norte-americano, filho mais velho de John Adams e sexto presidente dos EUA (1825-1829). Era levado pelo pai em suas viagens e missões diplomáticas (a primeira foi em 1777, quando John Quincy tinha dez anos) como parte de sua educação.

“Turgot”: Anne Robert Jacques Turgot (1727-1781), economista liberal francês. “La Rochefoucauld”: François Alexandre Frédéric, Duque de la Rochefoucauld (1747-1827), filósofo, político e filantropo francês. “Condorcet”: Marie Jean Antoine Nicholas de Caritat, Marquês de Condorcet (1743-1794), filósofo, matemático e político francês.

“Sr. Barlow”: Joel Barlow (1754-1812), diplomata norte-americano. Na época dessa carta, estava a caminho de Paris para negociar um tratado comercial com Napoleão.

“Gallatin”: Abraham Alfonse Albert Gallatin (1761-1849), economista norte-americano de ascendência suíça, foi Secretário do Tesouro nos governos Jefferson e Madison.

“Adair”: James Adair (1709-1783), negociante na Geórgia e nas Carolinas, autor de The History of the American Indians, orde argumentou que os indígenas descendiam dos judeus.

“Mas observe que o público…”: sumário das opiniões de Jefferson sobre a dívida pública em uma carta para John Wayne Eppes, de 6 de novembro de 1813. Eppes (1773-1823), congressista e depois senador norte-americano, era genro de Jefferson.

“Homem, uma criatura racional”: anedota contada por Franklin e relembrada por Adams em carta a Jefferson.

“Sintagma de Gosindi”: Pierre Gassendi (1592-1655), filósofo, teólogo e cientista francês, autor de Syntagma philosophiae Epicuri (“A constituição da filosofia de Epicuro”, 1649), uma tentativa de harmonizar as visões epicurista e cristã.

Patrick Henry (1736-1799), orador e patriota norte-americano. Frank Lee (1734-1797), estadista norte-americano, signatário de Declaração de Independência. Henry Lee (1756-1818), soldado e estadista da Virginia, lutou na Guerra de Independência, foi membro do Congresso Continental e da Casa dos Representantes. “D. Carr”: Daubney Carr (1773-1837), jurista, sobrinho de Jefferson.

“tiel leis”: discutindo o livro de John Cartwright sobre as relações entre as leis eclesiásticas e comuns, Jefferson chama a atenção para um erro de tradução do francês antigo para o inglês (“ancien scripture” como “Sagrada Escritura”).

“Hic Explicit Cantus”, “Aqui termina o Canto”.

Lançamento em São Paulo – “Movimento 78”, de Flávio Izhaki

Flávio Izhaki lançará o romance Movimento 78 em São Paulo daqui a uns dias. O convite vai abaixo. Essa livraria fica defronte ao Partisans. Ou seja, além do Flávio, que é muito gente boa (e ótimo escritor), há uma bela razão para ir ao lançamento. Ajudem a divulgar o evento, por favor.

(A propósito, resenhei o romance anterior do Flávio para o Estadão anos atrás. Leia AQUI.)

Canto XXX

 

“Prantear”: Pound parodia Geoffrey Chaucer, Complaynte Unto Pite.

“… liquidou as minhas ninfas”: no original, “slayeth”, mas no sentido de “superar”, “sobrepujar”.

Em Pafos, na costa do Chipre, diz-se que Afrodite emergiu das ondas. Em seguida, Pound usa o nome latino de Ares, Marte, para sugerir que a voz que fala no poema é medieval. Ares e Afrodite eram amantes, e a história de como o marido dela, Hefesto (o “covarde tolo”), flagrou-os no ato e os acorrentou, nus, envergonhando-os na frente dos outros deuses, é narrada por Homero na Odisseia VIII, 265-370. Zeus casou Afrodite e Hefesto por razões políticas, e nenhum autor clássico apresenta Hefesto como um “covarde tolo”. Aqui, o casamento da deusa do amor com esse velho “tolo” seria o primeiro caso elencado por Pound de situação antinatural, de amor sórdido, corrompido.

A história de Pedro I e Inês de Castro já é referida no Canto III. Aqui, o famigerado e macabro beija-mão seria algo como a segunda história sórdida de amor: a defunta exumada, entronada e homenageada como se estivesse viva.

“Madame ῾´ΥΛΗ”, “hilé”, “matéria”: apelido poundiano para Lucrécia Borgia. Eis o terceiro exemplo de sordidez: a filha bastarda de um papa vendida (mais de uma vez) para a aristocracia italiana. O uso do termo grego sugere que a beleza de Lucrécia era pura matéria, só corpo, por assim dizer, e desprovida de alma. E, de forma análoga, seus casamentos não passavam de alianças e arranjos políticos, servindo aos interesses do momento. No Canto, Pound remete ao terceiro desses casamentos, com Alfonso, filho de Ercole d’Este, duque de Ferrara, sendo que este último exigiu do papa Alexandre VI um dote gigantesco. O “problema” não era Lucrécia ser bastarda (muitos poderosos e poderosas da época o eram), mas, sim, ser filha de um papa, e também o destino dos predecessores de Alfonso d’Este (Giovanni Sforza foi forçado a se declarar impotente; Alfonso d’Aragon foi assassinado). Ele “passou por aqui sem dizer ‘Ó'” porque o casamento se deu por procuração, sem contatos prévios entre os noivos, e ele só foi encontrá-la depois de tudo acertado e assinado, aparecendo sem aviso no castelo Bentivoglio (Lucrécia estava a caminho de Ferrara, mas ele não quis esperar mais).

“Daí gravamos isso no metal”: o narrador do poema passa a falar de Hieronymus (Gershom) Soncino, editor judeu que se estabeleceu em Fano, em 1501. Pound cita as dedicatórias da edição impressa por Soncino das Opere volgari di Messer Francesco Petrarcha (1503). A expressão “no santuário de César” é uma referência ao nome da cidade, pois “Fano” deriva de “fanum”, “santuário”. A cidade teve grande importância para os Malatesta, pois era onde o pai de Sigismundo, Pandolfo, vivia; a família perdeu a cidade para Pio II em 1463; e, depois, de novo em 1500, quando Cesare Borgia a tomou de Pandolfo Malatesta IV (neto de Sigismundo). Cesare Borgia (1475-1507), era filho de Rodrigo (papa Alexandre VI), irmão de Giovanni, Gioffre e Lucrécia. Em 1498, após a morte de seu irmão, Giovanni (ver Canto V), Cesare renunciou à posição de cardeal e se tornou comandante do exército papal. Tomou vários territórios dos Malatesta, mas perdeu tudo em 1503, após a morte do pai. O novo papa, Júlio II, embora tivesse prometido que o manteria como general do exército papal, mandou prendê-lo. Cesare fugiu para a Espanha, onde foi assassinado em uma emboscada poucos anos depois. Pound se refere a ele como “Duque de Valente e Aemilia” porque o rei francês Luís XII nomeou Cesare Duque de Valentinois; e “Aemelia”, no caso, é a Emilia-Romagna.

“In Fano Caesaris”, “no templo (santuário) de César”.

Francesco da Bologna (Francesco Griffo) foi um criador de fontes, inventor do tipo cursivo. Trabalhou com o humanista e editor Aldus Manutius (ou Aldo Manuzio, 1449-1515; citado por Pound no Canto) em Veneza, e depois criou as fontes da edição de Petrarca impressa por Soncino. O “texto” é as Opere volgari di Messer Francesco Petrarcha. Para a composição da obra, Soncino contou com a ajuda de Lorenzo Abstemio (mencionado como “Messire de Laurentio”), cidadão de Fano que possuía um códice de Petrarca, e da biblioteca dos Malatesta (que gastavam fortunas com a compra de manuscritos; a Biblioteca Malatestiana, em Cesena, ainda existe).

“Alessandro Borgia” é, claro, Rodrigo Borgia, o papa Alexandre VI. Sua morte (“Il Papa morì”) encerra o ciclo malatestiano da obra, iniciado no Canto VIII. Sublinhe-se o azar de Soncino: o papa morreu poucos meses após a edição das obras de Petrarca, e ele perdeu um patrono que havia recém-adquirido, por assim dizer. Explicit canto, “fim do canto”, e fim da primeira parte dos Cantos. Sigamos.

Canto XXIX

O “lago” citado é, mais uma vez, o Garda. E, depois, a “arena” de Verona (e seus “gradins”), já mencionada antes.

“Pernella concubina”: Penelope ou Penella Orsini, prima e amante de Aldobrandino Orsini, conde de Pitigliano (1420-1472). Os eventos reproduzidos no Canto ocorreram em 1465. Pound se refere aos herdeiros “ainé”, “mais velho”, Niccolò II Orsini (1442-1510), conde de Pitigliano, e “puiné”, “mais novo”, Lodovico Orsini (1444-1465), este envenenado a mando de Penella (que queria favorecer seu próprio filho). Aldobrandino culpou os senenses pelo assassinato de Lodovico, e prendeu sem quaisquer provas dois cidadãos de Siena que estavam em Pitigliano, iniciando outro conflito entre as cidades. Por sorte, o papa interveio e as hostilidades cessaram. Então, o pajem que, seguindo as ordens de Penella, envenenou Lodovico confessou o crime para Niccolò. Este matou Penella e deu início a uma rebelião para tomar o poder. Aldobrandino já aparece nos Cantos IX e X.

“evitando o bando de tritões”: Eleutéria, ninfa criada por Pound (v. Canto II), transforma-se em coral para escapar do assédio dos tritões. No verso anterior a esse e nos seguintes, alusões a locais em Roma (Via Sacra, Circus Maximus/”hipódromo”).

“Liberans et vinculo ab omni liberatos”, “libertos e livres de quaisquer grilhões”: referência à libertação dos escravos por Cunizza (1198-1279), referida no Canto VI. Nobre italiana, irmã de Ezzelino III (1194-1259) e Alberico da Romano (1196-1260), ela libertou os escravos dos irmãos em 1º de abril de 1265. A alforria foi lavrada em Florença, na casa de Cavalcante dei Cavalcanti, pai de Guido. Já idosa, ela viveu na casa dos Cavalcanti, nos anos de formação do jovem Guido. No Paraíso IX, 13-66, Cunizza aparece como uma figura de beleza e amor na esfera de Vênus. Ela teve uma vida amorosa atribulada, tendo fugido com Sordello e sido amante de Bonius, um cavaleiro — fatos citados mais adiante no Canto, incluindo o casamento dela com Ricardo São Bonifácio. Picus de Farinatis, Don Elinus e Don Lipus assinaram como testemunhas no termo de alforria. Eles eram filhos de Ghibelline Farinata degli Uberti (1212-1264), que Dante colocou no Inferno X, 31-50.

“Castra San Zeno”: o castelo de San Zeno, localizado nas montanhas entre Bassano e Asolo. Cunizza refere-se ao cerco desse castelo pelas forças conjuntas de Verona, Vicenza, Pádua e Mântua, em 1260. O castelo foi defendido por Alberico da Romano, até este ser traído. Alberico teve de assistir ao massacre da própria família antes de ser executado. A ira de Cunizza é reservada àqueles que traíram o irmão; ela não quer libertá-los a princípio, mas acaba fazendo isso (depois os amaldiçoá-los).

“nimium amorata in eum”, “muito apaixonada por ele”: Bonius, ou Enrico Bonio, cavaleiro, juiz e procurador de Treviso (referida por Pound como “Tarviso”), casado quando se envolveu com Cunizza. Eles saíram em uma longa viagem, e só retornaram quando Alberico comandava a cidade. Pouco depois disso, Bonius morreu defendendo Treviso.

“A luz daquela estrela me domina”: parte da fala de Cunizza para Dante (Paraíso IX).

“Dizia Juventus”: referência à peça Lusty Juventus, peça do século XVI escrita por Richard Wever.

“o-hon dit…”, “ce qu’on dit au village”, “o que estão dizendo na vila (ou cidade, vilarejo etc.)”.

“nuvoletta”, “nuvenzinha”.

“Wein, Weib, TAN AOIDAN”: “vinho, mulher [em alemão], e música [em dialeto dórico]”. O dito é usualmente referido inteiro em alemão: “Wein, Weib, und Gesang”.

“Ailas e que’m fau (…) vuelh”, “Ah, que há de bom em meus olhos/ Que não veem o que quero ver” (tradução libérrima): de um poema de Sordello, “Er, quan renovella e gensa”. Creio que as expressões em italiano nos versos seguintes são bem evidentes. E, então, outra em francês: “Des valeurs…”, “valores em nome de Deus, e de novo valores”.

“Arnaut”: no caso, trata-se de Eliot, que confessou a Pound tal medo quando, no verão de 1919, eles visitavam o castelo de Excideuil. Na Comédia, Dante retrata Arnaut Daniel no Purgatório, entre os luxuriosos. Eliot tinha uma relação atormentada com o desejo sexual, para ele sinônimo de pecado — tanto que fez um voto de castidade em 1928.

“nondum orto jubare”, “luz (que) ainda não nasceu”: na tradução, Grünewald escreve erroneamente “nundum”; trata-se de um fragmento da mais antiga alba provençal escrita. Alba é uma canção da aurora, e essa dataria do século X.

“A torre, marfim…”: variações de versos do Canto XI (123-28). “Phoibos”, claro, é Febo Apolo. Mais adiante, “Os cães brancos na escarpa” é uma imagem que remetem a Ártemis. Aqui evocada, ela aparece no Canto seguinte.