Canto XVII

Canto XVII

 

“Assim”: usando a mesma expressão que encerra o Canto I (“So that”), Pound dá início à série seguinte.

“… as vinhas se despencam de meus dedos”: o ato sagrado da manifestação divina (aqui, dionisíaca), deus e homem se tornando um só. Isso é reiterado em outras passagens do Canto. Algo similar ocorre no Canto VI, na passagem com Guillaume de Poitiers.

“E as abelhas pesadas de pólen”: o mel (ou os favos), outro componente dos rituais gregos em homenagem aos deuses.

“um som felino”: Pound conjurando um mundo embalado pelo sono, com suas “abelhas pesadas” e “pássaros sonolentos nos galhos”. (E a pantera está no emblema de Zagreus.)

“ZAGREUS”: a primeira hipóstase de Dionísio. Filho de Zeus e Perséfone. Como Hera estivesse com ciúmes, a criança foi despedaçada e devorada pelos titãs. Atena salvou o coração e o levou para seu pai. Zeus comeu o coração e gerou o filho outra vez com Semele, que deu à luz Dionísio. Daí ele ter esse nome, δίγονος, “digonos”, o “nascido duas vezes”. Ele também é Dionysos Khthonios, Dionício Ctônico. Tendo morrido, guarda certa afinidade com o mundo ínfero — a manifestação de um deus da vida como (e potencialmente) um deus dos mortos.

A “deusa dos belhos joelhos” é Ártemis (Diana, na mitologia romana), a deusa grega da caça, da natureza e da castidade, protetora das mulheres, das crianças e dos nascimentos. Ela já marcou presença no Canto IV e retorna nos Cantos XXI, XXIX e, sobretudo, XXX.

“palazzi”, “palácios”: a visão de Veneza irrompe oniricamente. A cidade é o destino do viajante recém-egresso do mundo ínfero, a saída para a “água conhecida” que será mencionada ao final do Canto. Ainda no começo, o sonhador vê “as árvores crecendo n’água”, os troncos “de mármore gerados na quietude”. Mais adiante, ele encontra um “homem sustento sua vela” que espelha e enriquece a visão dessa “floresta de mármore”. Por fim, após três entre a vida e a morte, os braços de Koré sobre seu ombro, o viajante navega para “o lugar de pedra”, relembrando figuras que também foram para Veneza (Borso, Carmagnola, Sigismundo).

“Chrysophrase” é a calcedônia, uma pedra semipreciosa.

“Gruta de Nerea”: ninfa marinha criada por Pound, contraparte de Nereu. Ir à gruta é uma alegoria de uma alegoria, pois remete à catábase. O primeiro estágio da revelação é de confusão e erro, e só então ocorre a iluminação. Para Pound, há um elemento(-chave) sexual na catábase, que reencena os processos férteis e reprodutórios da natureza.

“Hermes”: na cultura helênica, o deus grego do comércio, da comunicação e das estradas, mensageiro entre os mundos divino e mortal. Os gregos passaram a identificá-lo com o deus egípcio Thoth, tido como o revelador, profeta e intérprete da divina sapiência e do divino logos. Nessa hipostasia, Hermes foi chamado de Hermes Trismegisto (“três vezes grandíssimo”) e ligado à escrita do Corpus Hermeticum, conjunto de textos iniciáticos, concebidos (provavelmente) entre os séculos I e III, e que se tornaram uma fonte de inspiração para os pensamentos hermético e neoplatônico renascentista. Na época, acreditava-se que a obra remontasse à antiguidade egípcia, fosse anterior a Moisés, prenunciando inclusive o cristianismo. Atena: deusa da sabedoria, nascida da cabeça de Zeus.

“Como agulha de bússola”: apontando, no caso, para um lugar entre o mundo helênico (governado por Atena) e o mundo egípcio-helênico (presidido por Hermes). Essa mistura corresponde ao espírito do Canto, ao seu caráter fronteiriço e algo difuso, entre “lá” e “cá”.

“Para a esquerda”: para o mundo greco-romano, das florestas, ninfas e ciprestes. Depois, temos a “grande aleia de Memnons” (o rei etíope que foi a Troia ajudar Príamo e acabou morto por Aquiles), que talvez esteja à direita, na direção do Egito (reforçando a distinção Hermes/Atena) — “Além, mar, crinas divisadas sobre as dunas”. Pound também pode ter pensado nas duas estátuas de Amenhotep III, na necrópole de Tebas, chamadas de Colossos de Mêmnon.

“Zotar”: figura mítica inventada por Pound como uma espécie de contraparte marítima das ninfas que dançam nas florestas. O nome reaparece no Canto XX.

“Aleta”: deidade marinha inventada por Pound. As algas (“sea-wrack”) nas mãos sugerem que ela preside sobre as tumbas dos marinheiros, uma espécie de Perséfone marítima.

O “irmão de Circe” é o próprio místico, que erra em todo o Canto entre a vida e a morte, antes de emergir para a luz do sol do mundo real.

“esplendor de Hermes”: remete à ideia de que a busca enfocada no canto é uma busca gnóstica, em que há um renascimento espiritual, com plena consciência de si, e a contemplação do esplendor da divindade.

“Sigmisundo, depois do naufrágio na Dalmácia”: após a derrota na Senigaglia, em 1462, Sigismundo viajou ao sul para ter com seus aliados. Ao retornar para Rimini, seu navio naufragou na costa da Dalmácia, e muitos acreditaram que tivesse morrido. Ele, contudo, voltou para Veneza, para quem então trabalhava, e dali retornou para Rimini, em outubro de 1462.

Canto XVI

 

Aqui, Pound emerge do inferno e chega ao purgatório terrestre. Nele, encontra alguns dos personagens que frequentaram os Cantos anteriores. Em seguida, o poema alude à Primeira Guerra Mundial e aos amigos de Pound que nela combateram, como Richard Aldington, T. E. Hulme, Henri Gaudier-Brzeska, Wyndham Lewis, Ernest Hemingway e Fernand Léger (cujo testemunho, inteiramente em francês, talvez seja a passagem mais importante do Canto; a tela que ilustra a postagem, os soldados jogando cartas, é de Léger). Por fim, temos uma transcrição do relato de Lincoln Steffens sobre o o início da Revolução Russa, e um epílogo acerca da ofensiva que encerrou a Grande Guerra.

Pound recorre bastante aos dois primeiros cantos do Purgatório de Dante. Mas, no lugar de Catão de Útica, Pound ecoa o apelo anti-imperialista por meio de outras figuras que aparecem no canto, como Sordello e William Blake.

“Vendo o inferno em seu espelho”: o “espelho” de Dante é, claro, A Divina Comédia.

“Contemplando-o em seu escudo”: Sordello da Goito (ca. 1200-1269) viu o inferno em suas carreiras como soldado e diplomata. Tanto o “espelho” quanto o “escudo” foram imprescindíveis para a emergência de Pound desde o inferno, conforme vimos ao final do Canto anterior.

“crimen est actio”, “crime é ação”. Em uma das versões anteriores do Canto, Pound foi mais explícito: “Crimen est actio, crime is an action/ evil a state of being”, “Crimen est actio, crime é uma ação / o mal, um estado do ser”.

“Palux Laerna”: Palus Lernae (“pântano de Lerna”), um lago na região de Argolis, na Grécia. Acreditava-se que ele fosse uma entrada para o mundo subterrâneao.

“a relvagem espessa”: referência ao Purgatório I, 94-105. Cato diz a Dante que ele precisa lavar o rosto e o envolva com “um junco liso” (“giunco schietto”).

“e agora um homem emerguiu…”: o homem é Victor Gustave Plarr (1863-1929), poeta inglês nascido em Strasbourg, trabalhava como bibliotecário no Royal College of Surgeons. Pound fez amizade com ele em seus primeiros dias em Londres. Plarr é o Mr. Verog em “Hugh Selwyn Mauberley”.

“muro… Estrasburgo”: referência ao poema “Strasbourg”, de Plarr, publicado em 1918, no qual celebrava a retomada da cidade pelos franceses ao final da Grande Guerra. A cidade fora invadida pelos prussianos em 1870. “Galliffet” é Gaston Alexandre Auguste, Marquês de Galliffet (1830-1909). Nesse trecho, usando o poema de Plarr, Pound remete à Guerra Franco-Prussiana de 1870, em especial à Batalha de Sedan, onde Galliffet ordenou à sua unidade de cavalaria, Les Chasseurs d’Afrique, que tentasse romper o cerco prussiano. Mesmo sabendo que cavalgavam para a morte, os soldados obedeceram às ordens.

“Aldington”: Richard Aldington (1892-1962), poeta e romancista inglês, vizinho e amigo de Pound, e partidário do imagismo. Serviu na Grande Guerra entre 1915 e 17. A partir dessa experiência, escreveu o romance Death of a Hero (1929).

“Henri Gaudier”: Henri Gaudier Brzeska (1891-1915), escultor francês e um dos amigos mais queridos de Pound. Alistou-se e morreu em Neuville St. Vaast no dia 5 de junho de 1915. Pound escreveu uma homenagem a ele, Gaudier Brzeska. A Memoir (1916).

“T. E. H.”: T. E. Hulme (1883-1917), britânico, foi crítico, poeta e teórico do modernismo. Suas palestras e traduções foram importantes na mediação dos pensamentos estéticos e filosóficos francês e alemão nos círculos intelectuais londrinos. Pound acrescentou os poucos poemas que Hulme escreveu ao seu livro Ripostes (1912). Lutou como voluntário e foi morto em 28 de setembro de 1917.

“Wyndham Lewis” (1884-1957), pintor e escritor britânico, outro amigo próximo de Pound, lutou na artilharia (como Hulme), mas sobreviveu à Grande Guerra. Pound manteve contato com Lewis no decorrer da guerra, organizando exposições e vendendo seus quatros, e o ajudou a publicar o romance Tarr.

“Windeler”: o australiano B. Cyril Windeler (1866-1961) foi um fazendeiro, criador de ovelhas e corretor de lã que Pound conheceu em Londres durante a guerra. William Bird republicou o conto “Elimus” (1918), de Windeler, em 1923, usando doze ilustrações de Dorothy Pound.

“Capitão Baker”: Lionel Guy Baker (c.1874–1918), um dos amigos de Wyndham Lewis. Morreu de influenza em 1918. Lewis fala sobre ele de forma afetuosa em sua autobiografia Blasting and Bombardeering.

“Fletcher”: Gareth Hamilton Fletcher (1895-1915), amigo de Dorothy Pound.

“Et ma foi (…) fabrique”: Fernand Léger (1881-1955) falando sobre a guerra. O célebre pintor combateu em Verdun e conversou a respeito com Pound. Seu relato contrasta com a narrativa de Plarr; este romantiza Galliffet e a vitória francesa na Grande Guerra, ao passo que Léger é impiedoso em seu realismo, destacando a impossibilidade de que haja glória e honra na guerra, mas apenas terror e loucura. Pound fez questão de que Léger lesse a passagem e aprovasse a sua inclusão no Canto. Segue uma tradução livre: “E, de fato, você sabe / todos os nervosos. Não, / Há um limite; os animais, os animais não / São feitos para isso, um cavalo não dura muito. / Homens de 34 anos, de quatro, gritando “mamãe”. Mas os fortes / No fim, lá em Verdun, havia apenas esses sujeitos grandalhões / E eles viam tudo com extrema clareza. / O que eles valem, os generais, o tenente, / eles não valem nada, / não há nada além de madeira, / Nosso capitão era muito, mas muito fechado em si mesmo, / um velho engenheiro, mas firme, / sua cabeça era firme. Lá, você sabe, / tudo, tudo funciona, e os ladrões, todos os vícios, / Mas os rapinadores, / havia três em nossa companhia, todos foram mortos. / Eles saíram para pilhar um cadáver, a troco de nada, / eles saíram só para fazer isso. / E os boches, o que você quiser, / militarismo, etcetera, etcetera. / Todas essas coisas, mas, MAS, / o francês só luta depois de comer. / Mas esses pobres sujeitos / No fim das contas eles atacaram para comer, / Sem ordens, bestas selvagens, foram feitos / Prisioneiros; os que conseguiam falar francês disseram: / “Por quê? É verdade, nós atacamos para comer.” // É o óleo, a graxa do eixo / os trens deles andavam a três quilômetros por hora, / E eles guinchavam e rangiam, dava para ouvi-los a cinco quilômetros de distância. / (Foi isso que acabou com a guerra.) // Lista oficial de mortos: 5.000.000. // Ele diz a você, bom, tudo cheirava a combustível. / Mas, Não! eu o xinguei. / Eu disse a ele: Você é um vigarista! Você perdeu a guerra! // Ah, sim! todos homens de bom gosto, eu admito, / Tudo isso de volta. / Mas um sujeito como você! / Esse cara, um tipo como ele! / O que ele poderia ter arranjado! / Ele estava numa fábrica.”

“leur trains”, “os trens deles”: o ponto da controvérsia entre Léger e seu interlocutor é que não foi o controle de combustível, mas a importância das linhas de abastecimento de alimentos que decidiu a Batalha de Verdun. Os alemães eram abastecidos por trens vindos de Metz; os franceses, por meio de caminhões que vinham pela Voie Sacrée (eram 60 km de distância entre Bar-le-Duc e Verdun). Andando a três quilômetros por hora, os trens eram muito lerdos, e a fome se tornou um sério problema para os alemães. Daí eles terem atacado “para comer”, “sem ordens, bestas selvagens”, e foram vencidos.

“terrasiers (…) exact”, o esquadrão de enterro, com suas cabeças / viradas para trás, desse jeito / arriscou suas vidas por uma pá de terra / [o buraco no chão] tinha que ser quadrado, preciso…”

“Dey vus…”: a imitação que Pound faz de um carregado sotaque russo sugere que a pessoa que fala seja o adido militar Nikolai Lavrentievich Golijewski, que, após deixar a Rússia em 1918, viveu em Londres, Paris e nos EUA, retornando a Moscou em 1954.

“Brest-Litovsk”: tratado firmado entre a Rússia e as potências centrais (Alemanha, Áustria, Bulgária e Turquia), assinado em 3 de março de 1918, pelo qual a Rússia se retirou da Grande Guerra. As condições impostas à Rússia foram draconianas, mas as potências perderam a guerra meses depois e o tratado foi revogado. Alguns territórios perdidos pela Rússia com o tratado, como a Bielorrússia e a Ucrânia, foram reanexados após a Guerra Civil Russa (1918-21).

“Un de posch”, “um dos boches”, isto é, dos alemães.

“Esse é o truque”: a partir daqui, Golijewski dá lugar a Lincoln Steffens, que relata o que observou em Petrogrado, na primavera de 1917, em meio à Revolução Russa. Steffens viajou de Nova York no mesmo navio em que estava Trotski. Este ficou detido em Halifax por um mês. Steffens seguiu viagem, chegou à Rússia em abril e assistiu aos primeiros discursos de Lênin — daí o verso “Lá estava um homem falando”. Os ministros do Czar, sabedores do aumento do ímpeto revolucionário, resolveram repetir a carnificina de 1905: reunir o povo nas ruas de Petersburgo (com a desculpa de que distribuiriam comida) e abrir fogo. Mas, na ocasião narrada, os cossacos foram gentis (“Pojalouista”, “Por gentileza”), demonstrando que não abririam fogo. No fim das contas, eles desobedeceram a ordem de atacar e se confraternizaram com o povo, “E aquilo foi a revolução…”.

“Haig”: Douglas Haig (1861-1928), comandanta da Força Expedicionária Britânica (BEF) durante a Grande Guerra. O “ataque” é uma provável referência à Ofensiva dos Cem Dias (agosto-novembro de 1918), que forçou a Alemanha a assinar o armistício de 11 de novembro e encerrar a guerra. A contraofensiva aliada foi coordenada pelo general francês Ferdinand Foch.

Cantos XIV e XV

Os Cantos XIV e XV recorrem à Divina Comédia e vemos Pound circulando por um inferno repleto de banqueiros, editores de jornais, escritores picaretas e outros “perversores da linguagem” e da ordem social. Nesse inferno poundiano, Dante e Plotino assumem o papel de guias que, nas duas primeiras partes da Comédia, cabe a Virgílio.

 

CANTO XIV

“Io venni (…) muto”: Inferno V, 28, a chegada de Dante ao segundo círculo infernal — “vim a um lugar mudo de todo lume”. Pound desce à escuridão para, ao final do Canto XV, voltar à luz. Seu inferno terá três elementos formais: escuridão, turbulência e barulho.

“……….e”: David Lloyd George (1863-1945), político liberal britânico e primeiro-ministro à época da Grande Guerra. (Nos Cantos, os nomes que aparecem assim disfarçados têm o mesmo número de pontos que o de letras.)

“………n”: Woodrow Wilson (1856-1924), político norte-americano, presidente dos EUA entre 1913 e 1921. Pound criticava Wilson por ter demorado muito a se envolver na guerra, pelo aumento da burocracia e pelo uso desajeitado da linguagem oficial.

“………r”: Alfred James Balfour (1848-1930), político britânico conservador, primeiro-ministro entre 1902 e 1905 e ministro das relações exteriores no cabinete de Lloyd George durante a guerra.

“………m”: Arthur Hamilton Lee, visconde de Fareham (1868–1947), soldado, diplomata e filantropo britânico. Durante a guerra, foi diretor-general da produção de alimentos; depois, tornou-se Ministro da Agricultura. Pound comparou o presidente norte-americano Harding a Balfour e Fareham, dizendo que, por trás de sua elegância, eles eram demagogos e negligenciavam a linguagem de forma criminosa.

“………..f”: Basil Zaharoff (1849-1936), nascido na Turquia como Zacharias Basileos, foi um criminoso, sabotador e corrupto. Na guerra, vendia armas para ambos os lados do conflito. Tornou-se negociante de armas da Nordenfelt Armament e, depois, um diretor na Vickers Armstrong. Foi condecorado com Ordem do Banho e a Ordem da Jarreteira após a guerra.

“……..n e a malta da imprensa”: o escritor e jornalista Gilbert Keith Chesterton (1878-1936), odiado por Pound como um picareta e um dos maiores responsáveis por um sistema no qual jornalistas escreviam sobre coisas e pessoas que mal conheciam, escondendo a própria ignorância por meio do estilo.

“Pearse”: Patrick Henry Pearse (1879-1916), líder do Sinn Fein e comandante das forças irlandesas no Levante da Páscoa de 1916, executado após se render. “MacDonagh”: Thomas MacDonagh (1878-1916), patriota irlandês engajado no Levante, também executado. “Capitão H”: Capitão J. Bowen Colthurst (1880-1965), oficial do exército britânico, veterano da Primeira Guerra e que lutou contra os irlandeses no Levante. Descobriu-se que ele atirou em prisioneiros irlandeses e matou civis pelas ruas. Depois de grandes esforços e insistência, foi julgado por uma corte marcial e preso no Broadmoor Criminal Asylum, mas solto um ano depois. Ele, então, emigrou para o Canadá, onde viveu bem e a salvo do IRA. “Capitão H” é um erro de impressão; nos rascunhos de Pound, está “Capitão B”.

“Verres”: Gaius Verres (120-43 a.C.) foi um administrador romano extremamente corrupto, indiciado por Cícero.

Pound tinha uma péssima opinião sobre Calvino (1509-64), a quem considerava um estúpido por pretender aplicar as leis concebidas para uma tribo nômade aos cidadãos modernos. Claro que o antissemitismo de Pound já se insinua nessa opinião; no Guide to Kulchur, ele se refere aos “textos” e aos “registros bárbaros dos hebreus”.

O verso “untuoso como o céu sobre Westminster” remete à “cidade irreal” (e aos versos seguintes) de Eliot em “A Terra Devastada”, que Pound tinha acabado de revisar quando escreveu este Canto.

“…………..”: Giacomo Polo Givanni della Chiesa (1854-1922), ou papa Bento XV (1914-1922), tentou interceder pela paz, mas foi ignorado pelos políticos da época. Pound o ridiculariza por conta de sua estridente propaganda pelo controle sexual.

“pets-de-loup”, “peidos de lobo”: apelido dos eruditos e acadêmicos, a quem Pound também culpava pela perversão da linguagem e da literatura.

“……….m”: Arthur Foley Winnington-Ingram (1858 –1946), bispo de Londres de 1901 a 1939, moralista ferrenho que encabeçou uma campanha para “limpar” Londres da prostituição, da promiscuidade e do…teatro.

 

CANTO XV

Grasse é uma cidade no Sul da França, famosa por sua importância na indústria do perfume.

“……….r”: Balfour, de novo. A seguir, “…..Episcopus…..sis” é Winnington-Ingram, a quem Pound aplica a mesma pena que, no oitavo círculo do Inferno de Dante, recebem os religiosos culpados de simonia: é enterrado de cabeça para baixo, as pernas deixadas para fora. Winnington-Ingram também era famoso por apreciar golfe, daí a menção ao “grupo de golfistas femininos”.

“……..n”: Edward Carson (1854-1935), político irlandês unionista, participou da divisão da Irlanda em 1921. ERRATA: edição brasileira, que está um “….m”.

“………h”: Karl Theodor Helfferich (1972-1924), político, economista e financista alemão. Tido por Pound como um “incitador da violência”, foi contra o Tratado de Versalhes, a República de Weimar e o pagamento de reparações pela guerra. Foi importante para criar o clima que favoreceu a ascensão do nazismo.

“………ll”: Churchill, é claro.

“USURA”: no inferno poundiano, é o monstro que preside o inferno. Pound concordava com a visão de C. H. Douglas de que os bancos foram importantíssimos para financiar a Primeira Guerra, lucrando horrores com a carnificina.

“laudatores temporis acti”, “admiradores dos tempos passados”. É de Horácio, “Ars poetica” 173. No original, lê-se: “Laudator temporis acti”.

“fabianos”: a Sociedade Fabiana foi fundada em 1884, na Inglaterra, como um grupo socialista comprometido com um lento, mas seguro progresso rumo à justiça social. O nome vem do general romano Quinto Fábio Máximo (275 –203 a.C.), apelidado de “Cunctator” (“Procastinador” ou “Protelador”) por ter enfrentado o exército de Aníbal por meio de manobras evasivas, evitando o conflito aberto (pense no Atletico de Madrid do Simeone). Sob a orientação de Sydney e Beatrice Webb, os fabianos contribuíram para a formação do partido Trabalhista em 1900, do qual são afiliados desde então. Eles propuseram a criação do salário mínimo em 1906 e a fundação do serviço nacional de saúde em 1911, entre outras coisas. Também fundaram a London School of Economics em 1900. Pound era um crítico dos fabianos por achar que eles subsumiam o indivíduo à arregimentação.

“…….s”: Cyrus Hermann Kotzschmar Curtis (1850–1933), editor norte-americano do Saturday Evening Post e do Ladies’ Home Journal. “………….ffe”: Alfred Harmsworth, Lorde Northcliffe, dono do Times e do Daily Mail, entre outros; ERRATA: na edição brasileira, está um “…..e”.

“et nulla fidentia inter eos”, “nenhuma confiança entre eles.”

“dorsos contraídos”: referência ao Inferno XVII, 46-57, em que os usurários ficam de pé sobre um chão quente, sob uma chuva de fogo.

“……….c”: The New Republic, revista norte-americana de opinião fundado em 1914 por Herbert Croly, Walter Lippmann e Walter Weyl. A publicação influiu na decisão de Wilson de engajar os EUA na Primeira Guerra. Pound afirma que muitas das revistas britânicas eram cópias da TNR.

“…….nn”: Walter Lippmann (1889-1974), jornalista norte-americano, um dos fundadores da TNR. Após a guerra, tornou-se conselheiro de Wilson e ajudou a conceber a Liga das Nações.

“meu guia”: Pound escolhe Dante e depois Plotino como guias; aqui, como sugere o “Andiamo” alguns versos depois, ele está sendo guiado por Dante.

“Neste bolge“: com relação aos Malebolge (“maus bornais”) no oitavo círculo do Inferno dantesco, Pound parece se referir ao décimo e último deles, o dos falsificadores.

“… o sugar do lodaçal”: segundo Plotino, a alma do homem é parte do mundo das formas eternas e inteligíveis (o nous), e também de um corpo mortal e, portanto, comprometida com a materialidade da experiência sensorial. Assim, a alma pode ser engolfada pela matéria, caso não separe as duas esferas e não aspire se reunir com a parte de si ligada ao nous. O “ele disse” a seguir se refere a Plotino (c.205-270), que viveu em Alexandria e Roma.

“… olhos no espelho”: assim como Perseu matou a Medusa ao se fixar no reflexo dela em seu escudo (presenteado por Palas Atena), Pound usa isso como metáfora do seu comprometimento com a razão e o estudo (isto é, com os “reflexos”. A história da Medusa é bem conhecida e está nas Metamorfoses (IV, 765-804). O uso que Pound faz do escudo (“petrificando o solo”, “traçou firme a trilha” — ERRATA na edição brasileira: “escuro” em vez de “escudo”) alude à estupidez e à ignorância que encontrou na Inglaterra pós-Primeira Guerra.

“Fosse em Naishapur ou Babilônia”: verso do Rubaiyat, de Omar Khayyam.

“‘Hέλιoν τ’ ‘Hέλιoν”, “o sol, o sol.”

Canto XIII

“Andava Kung”: Confúcio (551-479 a.C.), filósofo chinês que é apresentado por Pound neste Canto com um método de ensino similar ao de Aristóteles e dos peripatéticos. Mas, tradicionalmente, diz-se que Confúcio ensinava em um pomar ou sob um damasqueiro (referido ao final do canto como apricot).

Khieu, Tchi e Tian: três discípulos de Confúcio. Alguns versos depois, um outro nome (Thseng-sie) é mencionado. Os discípulos tinham ao menos dois nomes: aqueles com os quais foram registrados pelas respectivas famílias e os nomes “de cortesia”, dados na puberdade e usados em circunstâncias formais. Assim, Thseng-Sie é o nome de cortesia de Tian, discípulo fundamental para a transmissão dos ensinamentos de Confúcio para a posteridade.

“E ‘nós somos desconhecidos’, disse Kung”: vivendo em um período conturbado, na Dinastia Tang, Confúcio teve várias de suas ambições frustradas, e procurava manter vivos os valores da Dinastia Chou. Ele queria colocar suas ideias em prática, mas sentia que era ignorado pelos governantes. A questão colocada aos discípulos expressa essa vontade de mudar as coisas.

“carros de guerra”: a condução de carros de guerra era uma das seis artes (e a mais humilde delas) que constituíam o currículo de um cavalheiro chinês nos tempos de Confúcio. As outras cinco eram o manejo do arco, os ritos, a música, a caligrafia e a matemática.

A “prática da oratória” é algo mais ligado aos mundos grego e romano.

Tseu-lou era o nome de cortesia de Zhong Yóu, o discípulo que mais aparece nos Analectos — embora não fosse o predileto de Confúcio.

Sobre “as defesas em ordem”, trata-se de uma recriação interpretativa da resposta de Tseu-lou, dada a maneira como ele aparece às vezes nos Analectos. Aqui ele seria, então, o estrategista militar. Khieu (Ran You; nome de cortesia: Ran Qiu), por sua vez, é retratado como um administrador. Tchi (Gongxi Chi; Gongxi Hua) seria um eremita ou um monge (embora, nos Analectos, esteja mais para um burocrata religioso). Tian (Zeng Dian; Zeng Xi) seria o sonhador, o artista (músico).

“E Kung sorriu igualmente para todos”: no texto original, ao ouvir a resposta de Tian, Confúcio sorri e diz concordar com ele. Aqui, no entanto, Pound opta por se distanciar dos Analectos, colocando a arte no mesmo patamar que o governo e a espiritualidade.

“Yuan Jang (…) respeito”: Pound usa e comenta a passagem 14.43 dos Analectos. Ao citar Confúcio a seguir (“Respeite as faculdades de uma criança”), Pound sugere que merece respeito não quem é velho e/ou possui autoridade e poder, mas alguém cuja natureza ainda não foi corrompida e que faz algo de útil.

“suas riquezas estarão bem empregadas”: comentário traduzido do Tchoûng-Yoûng, é uma piscadela para Malatesta, que se cercava de artistas, humanistas e arquitetos.

“… ordem dentro de si”: inspirado pelo Ta Hio, Pound começa pelo indivíduo, diferentemente de Confúcio, que inicia falando do ordenamento do estado.

“deferência fraterna” é um conceito-chave para Confúcio, visto por Pound como um contraponto “ama o próximo” dos cristãos. A “deferência” implica respeito pela privacidade alheia.

“fixar-se no meio”: outro conceito fundamental.

“Se um homem assassina…”: Pound enfatiza a rebeldia confuciana com relação ao estado, na medida em que o pensador coloca a lealdade familiar acima da autoridade governamental.

Kong-Tchang e Nan-Young foram outros discípulos de Confúcio.

Wang: possível referência ao reinado de Wu Wang (?-1063 a.C.), o primeiro imperador da Dinastia Chou. Ele venceu a batalha de Mou Ye contra a dinastia anterior, a corrupta Shang, em 1046 a.C. Ele reaparece no Canto LIII.

Deixar “hiatos em seus escritos” reitera a poética poundiana e seu uso dos fragmentos históricos nos Cantos.

“Sem caráter”: primeira tradução de Pound do princípio confuciano do Ren (“humanidade”), aqui assimilado à “virtú” e à “natureza”.

“Odes”: o Livro das Odes (Shi Jing) é a mais antiga coleção de poesia chinesa, também chamado de o Quinto Clássico. Os Cinco Clássicos (Wujing) são, como o nome indica, os cinco textos clássicos chineses, cuja compilação é tradicionalmente atribuída a Confúcio: “Livro das Mutações” (I Ching ou Yì Jīng), “Clássico da História” ou “Clássico dos Documentos” (Shū Jīng), “Clássico da Poesia” ou “Livro das Odes”, “Clássico dos Ritos” (Lǐ Jì) e “Os Anais de Primavera e Outono” (Chūn Qiū).

“… impedir-lhes o cair”: ou seja, que os ensinamentos não sejam esquecidos.

Canto XII

 

“E nós cá sob / a muralha sentamos”: Pound encontrou T. S. Eliot em Verona no começo de junho de 1922. Foi a segunda vez em que passaram alguns dias juntos, depois da Provença, em 1919. Pound também alude a esse encontro nos Cantos XXIX (145) e LXXVIII (501). Nos primeiros meses de 1922, Pound editou “A terra devastada”, de Eliot, e envolveu-se em sua publicação. Também tentou levantar recursos para que Eliot não precisasse mais trabalhar no banco e tivesse mais tempo para escrever. Em Verona, Eliot disse a Pound que estava criando uma revista literária, The Criterion. Pound publicara o oitavo Canto (que se tornaria o Canto II ao ser publicado em livro, em 1925) em maio daquele ano. E, duas semanas antes de encontrar Eliot em Verona, estivera em Rimini e visitara o Templo Malatestiano pela primeira vez. Os Cantos XII, XIII, XIV e XV foram rascunhados por esses dias.

“Arena romana”: Arena di Verona, construída no século I d.C., ou seja, antes do Coliseu romano. A forma concêntrica do teatro remete à geografia do Inferno dantesco.

“Diocleciano”: Gaius Aurelius Valerius Diocletianus Augustus (244-312), imperador romano entre 284 e 305. Pound usava um Baedecker que erroneamente apontava Diocleciano como o construtor da arena, mas a verdade (hoje sabemos) é que ela começou a ser construída muito antes, no período júlio-claudiano (14-68 d.C.), e finalizada por volta de 80 d.C.

“les gradins (…) calcaire”, “os degraus, quarenta e três em pedra calcária.” Outras fontes indicam quarenta e quatro, discrepância da qual Pound estava ciente (v. Canto XI, a referência aos “quarenta e quatro mil anos”).

“O calvo Bacon”: Frank Bacon, empresário norte-americano que Pound conheceu em 1910. O poeta apreciava o caráter inquieto e cheio de esquemas de Bacon.

“Henrique”: no original, “Henry”, possível referência a Henry Longfellow, poeta épico norte-americano.

“Nicholas Castaño”: Nicolás Castaño y Capetillo (1836-1926), empresário e banqueiro espanhol de origem basca, uma das pessoas mais ricas de Cuba por aqueles dias.

“Centavos públicos”: um dos esquemas do Calvo. As moedas de um centavo eram feitas de cobre e pesadas, e nem sempre eram aceitas em transações comerciais. Bacon comprava essas moedas com prata, mas pagando menos do que seu valor nominal (10 centavos = 1 real de prata; 1 peseta = 20; 1 peso = 100). Ao acumular uma grande quantidade de centavos, o Calvo provocou escassez e, com isso, tratou de vendê-los acima de seu valor nominal. Como os cubanos ainda não estivessem acostumados com o novo sistema fiscal, ele pôde fazer isso por um bom tempo, e lucrar bastante (“11 mil em quatro meses”, como é dito posteriormente no Canto), antes de deixar o país em 1906.

“Pollon d’anthropon iden”, “as muitas urbes que mirou” (na tradução de Trajano Vieira). Odisseia I, 3. A referência sugere que Pound encarava o Calvo como uma espécie de Odisseu meio tresloucado, com esperteza e inteligência para se livrar das situações mais complicadas.

“angelos”, “mensageiros”. Mais abaixo: “Habitat cum”, “Viveu (ou morou) com”.

Pound conheceu Quade e o Calvo na mesma época, e Quade é “mencionado em outra parte”, isto é, na peça curta “Stark Realism”, publicada em Pavannes and Divisions, em 1918.

“José Maria dos Santos”: a anedota sobre o mercador português ilustra a crença de Pound de que o investimento de capital deve favorecer o crescimento da verdadeira riqueza, e não servir á especulação financeira.

“Apovitch, Chicago não tem tudo!”: provável pseudônimo de Carl Sandburg (1878-1967), escritor e historiador norte-americano. Ganhou o Pulitzer por uma biografia de Lincoln. Em seu poema “Chicago”, diz que a cidade mata porcos para o mundo inteiro, fabrica ferramentas, empilha trigo etc., é a “Cidade dos Ombros Largos”.

“John Quinn” (“Jim X”): contou a história do Marinheiro Honesto para Pound.

“usuários in excelsis“: Grünewald (ou o editor) cometeu um erro aqui e no verso seguinte, pois no original temos “usurers”, “usurários”. Ou seja, Pound está introduzindo um de seus temas mais caros, o da usura. “In excelsis”, “nas alturas”, referência à canção “Sanctus”, cantada pelos católicos durante o ritual da comunhão”.

“S.A.”: South-American securities.

No restante do Canto, por meio da história do Marinheiro Honesto, Pound insiste no papel social e cultural que os bancos deveriam ter, em vez de se comportar como meros especuladores e usurários. Ele também traça uma distinção acerca da natureza da verdadeira riqueza. Na economia clássica, a riqueza é mensurada pelo dinheiro, e sua lógica é a do lucro, “aumentar” um capital já existente, fazendo-o “render”. Essa lógica foi questionada por Aristóteles e Dante; dinheiro não “gera” dinheiro, uma moeda não dá à luz outra moeda. Dante, aliás, colocou os usurários e os sodomitas no mesmo círculo infernal (o Sétimo, no Canto XVII do Inferno): ambos seriam estéreis, por assim dizer. Na história, o Marinheiro acredita ter gerado um filho em um encontro homossexual, da mesma forma como, na lógica absurda do capitalismo financeiro, seria possível gerar algo a partir de um processo “antinatural”. A usura como algo (no entender de Pound) contrário à natureza é uma ideia que será retomada sobretudo nos Cantos XLV e LI.

Canto XI

 

“E gradment (…) annutii”: o Canto começa onde o anterior terminou, com o discurso de Sigismundo para suas tropas antes da batalha em Nidastore.

“E ele nos pôs…”: o “nos” se deve ao fato de que o narrador do Canto é um soldado do exército, talvez o próprio Broglio.

“Roberto”: Roberto Malatesta (1442–1482), filho mais velho de Sigismundo com Vannetta dei Toschi, tornado legítimo pelo papa Nicolau V em 1450. Lutou ao lado do pai. Mas, ao descobrir que Roberto trocou Cesena por propriedades menores após a morte de Malatesta Novello em 1465, Sigismundo o deserdou em favor de seu (dele, Roberto) irmão caçula, Sallustio, ao voltar de Moreia, em 1466. Após a morte de Sigismundo, Roberto voltou a Rimini, assassinou Sallustio e se tornou o novo lorde, assumindo o título de Roberto Magnifico. A exemplo do pai, tornou-se condottiere e lutou por vários patrões, incluindo Veneza e o papado.

“fanti”, “soldados de infantaria”; “E gli homini (…)”, “E os homens do senhor Sigismundo / não chegavam a mil e trezentos”.

“… em agosto seguinte”: as tropas de Sigismundo foram derrotadas na Senigallia no dia 12 de agosto de 1461.

“E Roberto foi batido em Fano” em 25 de setembro de 1463, ao defender a cidade das forças papais lideradas por Federico de Montefeltro.

“Tarento”: Sigismundo foi a Tarento para visitar o príncipe da cidade, Gianantonio Orsini, em 25 de agosto de 1462, e discutir a situação com Piccinino e seus aliados angevinos. Em sua ausência, Federico da Montefeltro e as forças papais invadiram seus territórios.

“anti-Aragons”: membros da família Anjou, René d’Anjou, Duque de Lorraine, e seu filho, Jean d’Anjou, Duque da Calábria, que tentavam conquistar o Reino de Nápoles desde a morte de Alfonso, em 1458. A aliança fora firmada em Troia, em 18 de agosto de 1462, por Ferdinando de Aragon e Alessandro Sforza. Mas, àquela altura, a causa angevina estava perdida, e eles não tinham como ajudar Sigismundo.

“Par che e fuor di questo Sigis…”, “Parece que ele está fora desse… Sigis… mundo”: trocadilho poundiano com o nome de Sigismundo, baseado em um trecho de uma carta de Federico da Montefeltro para Cicco Simonetta, datada de 21 de outubro de 1463, na qual celebrava o triunfo contra o inimigo.

“E ele esteve nos hospitais…”: na primavera de 1463, as intenções de Federico da Montefeltro de cercar Rimini foram frustradas pela peste, que contaminou muitas pessoas na cidade em seus arredores.

“Quali lochi sono questi”, “Estes são os lugares”: lista das cidades e regiões que Sigismundo rendeu ao papa ao firmar o tratado de paz em outubro de 1463.

“… placas de sal”: referência a Cervia, que Malatesta Novello foi forçado a vender para Veneza em abril de 1463; a localidade era lucrativa por conta da venda de sal.

“… o aleijado Novvy”: Domenino (Malatesta Novello) era aleijado desde os 29 anos, quando sofreu um acidente. Em agosto de 1463, firmou um acordo com o papa que estipulava que ele poderia governar Cesena enquanto vivesse, mas que a cidade passaria para as mãos do papa após sua morte. Domenico morreu em 1465 e Roberto tentou manter o controle sobre Cesena, mas teve de se render às forças papais lideradas por Federico da Montefeltr em 1466, enquanto seu pai estava em Morea.

“… jovem Piero”: Pierfrancesco de Medici (1430–1476). Pound se refere a uma carta escrita por Sigismundo para ele em 5 de dezembro de 1463.

“chiexa”, “igreja”.

“O velho Zuliano”: de uma carta de Sigismundo para Roberto (18 de junho de 1463), referindo-se a Giuliano Agulani, cujos filhos deveriam receber qualquer coisa que ele tivesse deixado.

“E Vanni”: de outra carta de Sigismundo para Roberto (24 de março de 1463), referindo-se a Giovanni Riccio.

“E os processos tramitam em Fano”: as cartas supracitadas foram escritas quando Roberto ainda detinha o controle sobre Fano, antes de perdê-la para Federico da Montefeltro em 25 de setembro daquele ano. Logo, estão entre os derradeiros documentos de Sigismundo como lorde de Fano.

“Pelo longo pavimento sobre os arcos”: referência à casa dos Malatesta em Fano, construída por Pandolfo III, pai de Sigismundo, entre 1413 e 1421, e então usada para reuniões do conselho citadino. Hoje, é parte do Museu Cívico.

“Sub annulo piscatoris”, “Sob o anel do pescador”: “Sob o selo da Igreja, o palácio ou corte que pertencia aos Malatesta”. O pescador, no caso, é São Pedro. Seu “sucessor”, papa Pio II, tomava posse da suprarreferida casa.

“… d”’ e b”’ e colonne”, “com as belas colunas”: no caso, da Biblioteca Malatestiana e do Hospital da Sagrada Cruz, construídos em Cesena por Malatesta Novello.

“E o imenso diamante…”: joia preciosa comprada por Sigismundo em Veneza, em 1457, por 15 mil ducados, paga (com a aprovação do conselho de Fano) em cinco anos com grãos e pastel-dos-tintureiros.

“Moreia” era o nome do Peloponeso na Idade Média. Sigismundo foi para lá como capitão dos venezianos, em 1464-66, o único condottiere que aceitou combater os otomanos. Sua campanha, no entanto, foi mal financiada e prejudicada pela incompetência e pela burocracia dos venezianos. O único “ganho” foram os ossos de Gemistos, conforme mencionado na postagem sobre o Canto VIII.

“Lakedaemon”: antigo nome de Esparta.

“… quarenta e quatro mil anos”: Pound reutiliza a fórmula “E aqui nós sentamos”, como no Canto IV, indicando a Arena di Verona. A arena possui quarenta e quatro círculos concêntricos, e Caterina Ricciardi observou: “mille per ogni gradino”, “mil [anos] para cada degrau”.

“E eles o pilharam…” (no original, “trapped him”): referência à emboscada armada por Astorre Manfredi em 1446, mencionada no Canto IX. Sigismundo teve de fugir dos cachorros de Astorre e se esconder no pântano por três dias.

“Rocca Sorano”: nova menção à fortaleza de Sorano, cercada por Sigismundo entre outubro e dezembro de 1454 (v. Cantos IX e X).

“Platina”: Bartolomeo Sacchi (1421–81), membro de um grupo secreto chamado Accademia Romana, cujos membros compartilhavam um entusiasmo pela antiguidade pagã e literatura latina, usavam togas, conversavam em latim clássico e escreviam poesia homoerótica. Em fevereiro de 1468, eles foram presos sob suspeita de conspirarem contra a vida do papa Paulo II, mas soltos logo depois. Platina foi interrogado sobre o que ele e Sigismundo conversaram em 1467, enquanto esperavam pelo papa.

“Barbo, ‘Formosus'”: Pietro Barbo sucedeu Pio II em 1464. Como era considerado bonito, queria ser chamado de “Formosus”, mas os cardeais protestaram e ele optou pelo nome Paulo II.

“de litteris e de armis, praestantibusque ingeniis”, “sobre as letras e as armas, e as mentes excelentes”: a resposta de Platino ao ser perguntado sobre o que ele e Sigismundo conversaram.

“sexaginta quator nec tentatur habere plures”, “sessenta e quatro lanças, e não tente arranjar mais”: a derradeira humilhação imposta pelo papa.

“para vigiar os venezianos”: enquanto Sigismundo estava em Moreia, os venezianos postaram uma guarnição na cidade a fim de preservar domínio de Sigismundo enquanto estivesse fora. Sabedor do desejo dos venezianos de ocupar Rimini, o papa disse que as sessenta e quatro lanças eram para proteger a cidade, caso os venezianos tentassem alguma coisa.]

“E ele deixou três cavalos (…)”: em 1467, Sigismundo soube que o papa Paulo II queria tirá-lo de Rimini, oferecendo em troca um domínio menor, como Spoleto e Foligno, daí a sua intenção de assassinar o pontífice. O papa recebeu Sigismundo na presença de sete cardeais. Ao perceber que não teria como levar adiante o plano de assassinato, Sigismundo se ajoelhou e implorou que o papa levasse em conta os anos de serviço da família Malatesta ao papado e não o desalojasse de Rimini. O papa negou que tivesse essa intenção e o contratou como condottiere do exército papal, pagando oito mil ducados por ano. O contrato foi mantido até a morte de Sigismundo, em 1468. Os tais cavalos serviriam para a fuga de Sigismundo caso matasse o papa, que é referido por Pound nos versos seguintes como “Paolo Secundo” e “Fatty” (“gordinho”).

“E o castelão de Montefiore”: ao retornar de Moreia, o navio de Sigismundo aportou em Montefiore, que outrora possuíra. O castelão da cidade escreveu aos venezianos para dizer que Sigismundo ainda era muito popular entre os moradores da cidade.

“Henrique”: Enrico de Aquabello. Sigismundo fez um acordo por escrito segundo o qual Enrico receberia um manto verde com brocado de prata caso aguentasse qualquer piada que Sigismundo no decorrer de quatro meses. Enrico também poderia brincar com Sigismundo, desde que não exagerasse.

“Actum (…) Aquabello”, “Ato firmado na fortaleza de Sigismundo, na presença de Roberto Valturio (…) de boa vontade e com pleno conhecimento (…) para Enrico de Aquabello.”

Canto X

Várias das referências iniciais deste Canto (Sorano, Pitigliano, a epístola de Trachulo) encontram-se esmiuçadas na postagem sobre o Canto IX.

“Sigui, meu caro”: a fonte de Pound para a carta de Pitigliano é Luciano Banchi (no Canto, nos versos 24-25, temos a referência completa). No original, “Siggy darlint”: Nancy Cunard começava suas cartas para Pound com “Ezra darlint”.

“Careggi”: os venezianos enviaram tropas adicionais sob o comando de Carlo Gonzaga e Piero Brunoro, e os senenses pediram a ajuda de Ghiberto da Correggio, Conde de Brescello. Todos eles estavam sob o comando de Sigismundo.

“… recusou um convite para almoço”: anedota contada por Pio II. Os senenses contrataram Sigismundo e Roberto Corrigiano, que teriam prometido a Piccinino que mudariam de lado. Corrigiano foi convidado ao palácio em Siena e executado, o corpo atirado pela janela, na praça lá embaixo. Sigismundo conseguiu fugir. Essa anedota não é corroborada por outras fontes.

Francesco Busone da Carmagnola (1385–1432) era um condottiere contratado pelos venezianos, mas estes descobriram que ele negociava em segredo para ter um estado próprio. Os venezianos “convidaram Carmagnola para almoçar”, mas, ao chegar à cidade, foi preso, julgado por traição e executado entre as colunas da Praça de São Marcos.

“Et / anno messo (…)”, “E eles deram o saque para Sigismundo”. De uma carta de Filippo Strozzi, o Velho (1428–1491, banqueiro e estadista florentino), para Zanobi Lottieri, embaixador florentino em Nápoles, datada de 31 de dezembro de 1454.

Carlo Gonzaga retirou suas tropas de Sorano e ocupou Ortobello, consternando os senenses. Querendo passar o inverno em Ortobello, Sigismundo teve o pedido a princípio aceito, mas depois negado por Gonzaga. Por conta disso, viu-se obrigado a fazer um caminho bem mais longo para voltar para casa, em um clima péssimo e sem provisões, perdendo muitos equipamentos.

“Gorro Lolli”: Gregorio Lolli, proeminente advogado senense, sobrinho de Æneas Silvius Piccolomini e, depois, secretário do mesmo quando Æneas se tornou o papa Pio II. Broglio conta que Lolli presenteou Sigismundo com um presente, um cavalo coberto com uma roupa ornamentada com fios de ouro. Sigismundo aceitou o presente, mas não ofereceu nada em troca para Lolli. Como Lolli sempre falasse favoravelmente de Sigismundo antes disso, e desfavoravelmente depois, Broglio concluiu que ele se sentiu insultado. Por falta de tato, Sigismundo perdeu um possível aliado na corte papal.

“Piccinino”: Conde Giacomo Piccinino (1415–1465), condottiere de menor expressão cuja sobrevivência foi ameaçada pelo Tratado de Lodi, de 1454. Tinha um exército, mas não possuía terras, e costumava ocupar fortalezas em Siena, Florença e territórios papais. Entre 1457 e o Tratado de Mântua (1459), foi contratado por Ferdinando, Rei de Nápoles (também chamado de Ferrante, 1458–1494) para combater Sigismundo. Quando o papa Pio quis mediar a paz entre Nápoles e Rimini, a posição de Ferdinando era de que arrancassem terras de Sigismundo e dessem para Piccinino. Mas, após firmarem o tratado, ele não recebeu nada e se aliou aos angevinos e aos irmãos Malatesta, e tentou destronar Ferdinando. Foi executado pelo rei em 1565.

“… a velha disputa com Nápoles”: os eventos de 1447, já mencionados em postagens anteriores, em que Sigismundo se recusou a devolver o que recebeu de Alfonso. Após a morte deste em 1458, seu filho e herdeiro, Ferdinando, seguiu exigindo reparações de Sigismundo. Na conferência de paz em Mântua, em abril de 1459, decidiu-se que Sigismundo pagaria 50 mil ducados para Ferdinando e entregaria algumas fortalezas à custódia do papa Pio II, que administraria a dívida. Sigismundo também teria de devolver alguns castelos que tomara em Montefeltro para Federico da Urbino. Sigismundo aceitou os termos onerosos porque lhe foi prometido que ficaria sob a proteção da Paz de Lodi, mas, com o passar do tempo, ao observar que o papa não cumpriria a promessa in totum, rompeu com o tratado e se aliou aos angevinos em sua tentativa de abocanhar o Reino de Nápoles. Os angevinos deram dinheiro e tropas para que Sigismundo defendesse seus territórios e os auxiliasse.

“… estava aceito em Mântua”: trata-se de outra conferência em Mântua, em agosto de 1459, para discutir acerca da ameaça imperial otomana. Sigismundo argumentou contra a ideia de armar os países fronteiriços com a Turquia, dizendo que era melhor que eles se virassem sozinhos e que os italianos se armassem sozinhos, confiando em seu potencial bélico. Isso é contado por Pio II em seus Comentários.

Borso d’Este (1413–1471), Duque de Ferrara, cuja família era amiga dos Malatesta. Borso convidou Sigismundo e Federico da Urbino para que acertassem suas diferenças, mas nenhum deles estava disposto a tanto e quase chegaram às vias de fato. Nos conflitos que se seguiram, Federico liderou campanhas militares contra Sigismundo nas guerras deste contra Nápoles (1457-59) e o papa (1460-63), saindo-se vitorioso.

“Te cavero…”: “‘Vou arrancar suas entranhas.’ O conde (Federico) se levantou: ‘Vou arrancar o seu couro’.” Sigismundo e Federico batendo boca na casa de Borso.

“Cosimo”: Cosimo de Médici, o Velho (1389–1464), banqueiro e estadista florentino.

“Drusiana”: Drusiana Sforza (1437–1474), filha ilegítima de Francesco, casou-se com Giacomo Piccinino em 1464 após dez anos de noivado.

“un sorriso malizioso”: Giovanni Soranzo, fonte usada por Pound, comentou que não fazia diferença para Piccinino se ele teria ou não um “estado” no território de Sigismundo, desde que este não estacionasse suas tropas muito perto da Toscana.

“INTEREA (…) FLAGAVIT”: há, aqui, um salto temporal, e estamos na primavera de 1462; o texto em latim trata da excomunhão de Sigismundo por Pio II e da queima de sua efígie. Trata-se de um trecho dos Comentários do papa:

Enquanto isso, em frente aos degraus [da Basílica] de São Pedro, foi construída uma grande pira de madeira seca, em cima da qual foi colocada uma efígie de Sigismundo imitando as feições e vestes desse homem perverso e amaldiçoado de forma tão exata que parecia uma pessoa real, e não uma imagem. Mas, para que ninguém se enganasse quanto a isso, uma inscrição saía da boca da figura, na qual se lia: ‘Sigismundo Malatesta, filho de Pandolfo, rei dos traidores, odiado por Deus e pelos homens, condenado às chamas por voto do santo senado’. Essa inscrição foi lida por muitos. Então, enquanto a multidão estava de pé, o fogo foi aplicado à pira e à imagem, que imediatamente se incendiou.

“Andreas Benzi”: advogado senense e funcionário do tesouro papal. Em 16 de janeiro de 1461, fez uma oração na qual acusava Sigismundo de vários crimes (citados abaixo).

“Papa Pio Secundo”: papa Pio II II (1405-1464), cujo nome era Æneas Silvius Piccolomini. Nasceu em Corsignano, uma cidadezinha próxima de Siena. Após uma carreira política de sucesso, ordenou-se em 1447, tornou-se bispo de Siena em 1450, foi eleito cardeal em 1456 e se tornou papa dois anos depois. Inimigo de Sigismundo, sua caracterização perversa de Malatesta perdurou por séculos. Nos Comentários, seu relato memorialístico, é possível observar a extensão do ódio que sentia por Sigismundo e sua família. Na época do cerco de Sorano, era bispo em Siena e pode ser que o cerco tenha alimentado essa animosidade. Segundo outros autores, a preferência de Pio por Federico da Urbino também ajudou nisso (e a carta de Federico para Sigismundo escrita em 1444, é a fonte das calúnias na oração de Benzi).

“Stupro (…) concubinarius”: “Estuprador, açougueiro, adúltero / assassino, parricida e perjurador / matador de padres, temerário, devasso / (…) fornicador e assassino / traidor, violador, incestuoso, incendiário e mantenedor de concubinas.”

“nisi forsitan epicureae”, “exceto, talvez, a [seita] dos epicuristas”.

“Lussurioso…”: “luxurioso, incestuoso, pérfido, imundo e glutão / assassino, ganancioso, avaro, soberbo, indigno de confiança / falsário, sodomita, matador de esposa.”

“Orationem…”: “Ouvimos um discurso muito elegante e altamente ornamentado de nosso reverenciado irmão em Cristo e filho mais amado.” Provável pastiche de Pound da retórica de Pio. Benedetto Reguardati chama a atenção para que a oração deve ter sido escrita pelo próprio papa. Benzi recebeu 300 ducados de Pio para fazer a oração, isto é, apresentá-la.

“testibus idoneis”, “testemunhas idôneas” (no caso, Federico de Urbino e Alessandro Sforza). Citação da Discipula Veritatis de Pio II, referindo-se ao consistório privado de 14 de outubro de 1461, no qual Nicolau de Cusa apresentou suas conclusões da investigação feita a fim de verificar as acusações de Benzi.

“il cardinale di San Pietro in Vincoli”: Nicolau de Cusa foi apontado por Pio para fazer outro julgamento no qual Sigismundo pudesse se defender. Nicolau de Cusa enviou uma intimação, mas Sigismundo a ignorou e, um mês depois, em julho de 1461, derrotou as tropas papais em Nidastore. Pio, então, pediu a Nicolau que se apressasse. Um consistório secreto composto apenas de cardeais foi estabelecido. Os registros desse julgamento não estão acessíveis, mas as acusações foram repetidas e duas bulas papais foram emitidas, privando Sigismundo de Rimini.

“tanta novità”: ainda amigo de Sigismundo na época, Borso criticou a queima da efígie e disse a conhecidos em Roma que ele estava desesperado com a perseguição papal. Em janeiro de 1461, em visita a Veneza, Borso também disse que o papa queria tomar as terras de Sigismundo e dá-las a outras pessoas.

“I.N.R.I…”: “Jesus Cristo, Rei dos Judeus. Imperador Sigismundo, Rei dos Traidores”. Esta última expressão, “Rex Proditorum”, foi escrita na inscrição que saía da boca da efígie.

O “velho Pills” era Ugolino de Pilli, embaixador e condottiere que trabalhou para Pandolfo III, guardião dos três filhos deste e tutor de Sigismundo. Benzi alegou que Sigismundo teria matado Ugolino. Este fora preso por traição, mas estava vivo, e foi libertado em 1469.

“Et les angloys…”: “E os ingleses foram incapazes de erradicar… o veneno da traição.”

Gisors: fortaleza normanda cuja posse foi disputada entre franceses e ingleses em diversos confrontos, até ficar com a França após a Guerra das Rosas, em 1453. Pound traça um paralelo entre Gisors e as fortalezas disputadas entre Sigismundo e Federico da Urbino.

“… os angevinos”: a família plantageneta era da Casa de Anjou e lutou contra a coroa francesa pela Normandia no século XII. Na época de Sigismundo, um galho angevino reclamava a Sicília e Nápoles. Malatesta fez uma aliança com Jean d’Anjou em 1456 e se envolveu na guerra da família por Nápoles (como forma de se proteger do papa) após 1460. O rei francês Luís XI (1423–1483) apoiou a causa angevina.

“tiers Calixte”: o papa Calisto III morreu em 1458.

“… alúmen em Tolfa”: Giovanni da Castro descobriu alúmen nas terras papais. Muito usado na Ásia para tingir lã, o alúmen rendeu bastante dinheiro a Pio II, recursos que ele usou na guerra contra Sigismundo.

“mal hecho”: segundo Soranzo, um florentino presente à queima da efígie reclamou que a figura estava “malfeita”. Quase foi preso por isso, mas reiterou que a imagem não era parecida com Sigismundo.

“Pasti”: Matteo da Pasti (1420–1467), artista residente em Rimini, conhecido por suas medalhas. Colaborou com Alberti na construção do Templo Malatestiano. Sigismundo contratou Pasti para pintar um retrato de Mehmet II, sultão otomano também conhecido como Maomé II, o Conquistador (1432-1481). Pasti foi enviado a Constantinopla em novembro de 1461, levando consigo documentos incriminatórios (como um mapa da costa italiana e um exemplar do tratado de Valtúrio, De Re Militari. Detido em Creta, foi enviado para Veneza; suspeitavam que fosse um mensageiro traidor. No fim das contas, foi solto e retornou a Rimini.

“Novvy venderá (…) Giacomo”: Malatesta Novello, irmão caçula de Sigismundo, lorde de Cesena, e Giacomo Piccinino eram amigos, e Malatesta permitiu que os exércitos de Piccinino passassem o inverno de 1460 em suas terras. Nessa época, Sigismundo e Piccinino chegaram a um entendimento e, de antigos inimigos, tornaram-se aliados na guerra contra Nápoles.

“E gradment li antichi…”, “Os cavaleiros da Roma Antiga punham grande fé nesses augúrios”: trecho do discurso de Sigismundo para suas tropas antes da batalha em Nidastore (2 de julho de 1461). O augúrio era uma águia que pousou em uma estaca da tenda de Sigismundo.

Canto IX

“Certo ano, chegaram as enchentes”: em 1440, Rimini sofreu com as enchentes.

“Certo ano (…) nevar”: 1444, saiu em meio a uma nevasca para auxiliar Sforza, provocando a rendição de Monte Gaudio.

“Certo ano, caiu o granizo”: 1442.

Astorrre Manfredi di Faenza: condottiere, inimigo de Malatesta e aliado de Federico da Urbino. A emboscada ocorreu no inverno de 1446-47, quando Malatesta passava pelas terras de Astorre, nas proximidades do Castello Rossi, ao voltar de uma campanha para Filippo Maria Visconti. Sigismundo começou a remodelar a igreja em 1446. Nela, colocou duas inscrições em grego nas quais afirma ter se prestado ao trabalho como agradecimento por escapado com vida dessa e de outras ameaças.

“E ele lutou em Fano”: cidade ao sul de Pesaro, outrora domínio do pai de Sigismundo. Em novembro de 1431, houve uma rebelião em Fano. O líder era o padre Don Matteo Buratelli de Cuccurano. Sigismundo acorreu à cidade com trezentos homens, mas quase foi morto nas ruas. Dada a falta de apoio da população de Fano à rebelião, Don Matteo se rendeu e foi enforcado em Rimini.

“E veio o imperador…”: Em 1433, Sigismundo V da casa de Luxemburgo (1368–1437) viajou a Roma para ser coroado pelo papa. Ao retornar, visitou Rimini, onde foi recebido com toda a pompa, e tornou Sigismundo e Domenico cavaleiros. Esse evento influenciou o afresco de Piero della Francesca no Templo Malatestiano, no qual Sigismundo está de joelhos, rezando para seu santo padroeiro.

“… e nos armou”: no original, “knighted us”, isto é, tornou-os cavaleiros. Quem narra é Domenico, irmão de Sigismundo. Pound os apresenta como companheiros, embora, na vida real, tenham entrado em conflito diversas vezes.

“Basínio” é Basinio Basini, ou Basinio de Parma (1425–1457), erudito humanista e poeta, que viveu em Rimini a partir de 1450 sob a proteção e o patronato de Sigismundo. Ele é o autor de Liber isottaeus (três livros com dez elegias cada, escritos à maneira epistolar das Heroides de Ovídio, como uma troca de cartas entre Sigismundo e Isotta) e Hesperis (épico inacabado de 13 livros sobre as batalhas entre Sigismundo e a Casa de Aragão). Ele está enterrado em um dos sarcófagos no lado direito do Templo Malatestiano.

“Madame Ginevra”, Ginevra d’Este (1418–1437), filha de Parisina d’Este e primeira esposa de Sigismundo. Casaram-se em 1434 e tiveram um filho, morto ainda bebê. Ginevra morreu aos 22 anos. Pio II acusou Sigismundo de tê-la envenenado.

“Rocca”: o Castelo Sismondo, a cidadela de Rimini, que Sigismundo construiu no lugar de uma fortaleza mais antiga, entre 1437 e 1446.

“Monteluro”: batalha travada em 8 de novembro de 1443, em que Sigismundo combateu como aliado de Sforza contra uma coalizão liderada por Niccolo Piccinino, Federico d’Urbino e o próprio Domenico Malatesta, que lutavam em nome do papa.

“16 de março”: data do contrato firmado entre Galeazzo, o Inepto, Alessandro Sforza e Federico d’Urbino, pelo qual Galeazzo vendeu Pesaro para Sforza e Fossombrone para Federico.

Alessandro Sforza: irmão de Francesco e Lorde de Pesaro por meio de seu casamento com a sobrinha de Galeazzo, Constanza, em dezembro de 1444.

“Fedricho d’Orbino”: Federico da Montefeltro (1422–1482), Lorde de Urbino e grande inimigo de Malatesta.

“bestialmente”: caracterização de Gaspare Broglio, amigo de Sigismundo.

“Rei de Ragona”: na primavera de 1447, Sigismundo foi contratado por Alfonso, Rei de Aragão, em uma aliança com Milão, o papado e Nápoles contra Veneza e Florença. Como o rei não pagasse o que devia a Sigismundo, ele trocou de lado e, em dezembro, assinou uma condotta com Florença. Sendo uma decisão importante, ela foi debatida no conselho da cidade. Valtúrio aconselhou Sigismundo a lutar por Florença e não devolver o dinheiro já recebido de Alfonso, conselho considerado temerário por alguns. De fato, embora contratualmente não fosse “errada” ou “condenável”, e até algo comum entre os condottieri, o fato de ofender um rei teria contribuído para a queda da Casa de Malatesta. Ou seja, politicamente falando, foi uma decisão desastrosa.

Roberto Valtúrio (1414–1489), humanista italiano. Após dez anos lecionando retórica e poesia em Bologna (1427-37) e outros dez anos como secretário apostólico, tornou-se conselheiro de Sigismundo em 1446. Valtúrio é o autor de De Re Militari, escrito em latim entre 1446-1455 e impresso em 1472. O livro é uma compilação de fontes clássicas, mas Sigismundo gostava bastante dele. Contém muitas ilustrações de armas e cercos atribuídas a Matteo da Pasti. Valtúrio está enterrado em um dos sarcófagos na parte exterior do Templo.

O “velho calculoso” é Pio II, responsável pela péssima reputação que Sigismundo teria nos séculos subsequentes; “rem eorum saluavit”, “isso salvou a causa deles”. Trata-se de uma paráfrase do que escreveu Pio II em seus Comentarii: “nec dubium quio ea Sigismundi proditio rem Florentinam salvaverit”, “sem dúvida, a traição de Sigismundo salvou a causa florentina”.

“Polixena”, Polissena Sforza (1428–1449), filha de Francesco Sforza e segunda mulher de Sigismundo.

“E o velho narigudo-narigudo (…) Milão”: a cidade se rendeu a Sforza em 1450 e ele se tornou o Duque, encerrando a guerra pela sucessão iniciada em 1447. “E ele falou sobre isso com Feddy”: Federico de Montefeltro. Embora tenha tomado a cidade, Sforza ainda era alvo de ataques, sobretudo dos venezianos, que usavam os serviços de Sigismundo (daí a carta enviada a Giovanni de Médici, v. VIII). Francesco fez com que Sigismundo rompesse os laços com Veneza (contrariando os alertas e promessas do “velho Foscari”, Francesco Foscari (1373–1457) Doge de Veneza) ao lhe prometer ajuda militar para cercar Pesaro. No entanto, ao chegar lá, descobriu que Francesco o traíra, enviando ajuda militar não para ajudá-lo, mas para defender a cidade. Aqui, além da artimanha de Sforza, há alusões à depredação e ao roubo da Basílica de São Apolinário, em Classe (perto de Ravena), e ao estupro e assassinato de uma jovem alemã em Verona (pelo qual Pio II acusou Sigismundo (outra calúnia, provavelmente); o perpetrador nunca foi pego). Os “casos” são esmiuçados nos versos seguintes: “Casus est talis”, “o caso é o seguinte”.

“Filippo, comendatário”: Filippo Calandrini (1403-1476), irmão do papa Nicolau V e Cardeal de Bologna, responsável pela abadia. No entanto, a espoliação ocorreu em 1448, antes que Calandrini assumisse o posto (o abade era Luigi dal Pozzo, referido em seguida como “Aloysius Purtheo”; ele teria recebido uma compensação de Malatesta pelo ocorrido).

“Santa Maria de Trivio”, igreja construída em Rimini no século IX, reformulada para se tornar a Igreja de São Francisco no século XIII e, depois, o Templo.

“Poliorcetes”, “POLUMETIS”: “tomador de cidades” (ref. a Demétrio, Rei da Macedônia), “multiversátil” (alusão a Odisseu).

“m’l’ha calata”, “ele me enganou”.

“Vada”: alusão à vitória de Sigismundo contra as tropas de Aragão em 1453. Ele, de fato, combateu na lama.

“Até que ele pactuou com Siena”: após a Paz de Lodi, em 1454, os trabalhos militares se tornaram escassos para Sigismundo. Ele foi contratado por Siena para lutar contra o Aldobrandino Orsini (1420–1472), Conde de Pitigliano, que tomara a fortaleza de Sorano. Sigismundo não levou o trabalho a sério (talvez por pena de Orsini, como sugere Pound), daí os “dois montes de tufos”. Como o cerco se prolongasse, Siena desconfiou que Sigismundo estivesse de conluio com Pitigliano e contratou outros condottieri para ajudá-lo. Por fim, Sigismundo fez uma trégua com Pitigliano e o cerco terminou. Agora convencidos de sua traição, os senenses atacaram seu quartel-general e tomaram sua mala postal, que continha em torno de cinquenta cartas. Destas, oito são citadas por Pound (a partir de Yriarte).

“E os pobres-diabos (…)”: a verdadeira razão pela qual o cerco chegou ao fim; os soldados estavam em péssimas condições.

“Ex Arimino (…) singularissime”, “De Rimini, 22 de dezembro, magnífico e poderoso, meu excelentíssimo senhor”: primeira das cartas citadas no Canto, de Matteo Nuti, arquiteto enviado por Malatesta Novello para ajudar na construção do Templo enquanto Alberti estivesse fora.

“… mestre Alwidge”: Luigi Alvise, supervisor dos carpinteiros e pedreiros na construção.

“Jhesus / (…) Mio”, “magnífica excelência, meu senhor”: eis a segunda carta, escrita pelo filho de Alvise (com o pai ditando). O “Sr. Genaro” mencionado é Pietro di Genari, chanceler de Sigismundo e supervisor das obras no Templo. “Sagramoro” é Jacopo Sagramoro da Soncino, secretário.

“Illustre (…), “meu senhor ilustre”: terceira carta, de 17 de dezembro de 1454, escrita por Matteo da Pasti e Pietro di Genari. “Messire Battista” é Leon Battista Alberti (1404–1472), arquiteto do Templo Malatestiano, cujo projeto inicial não foi levado a cabo por conta dos problemas financeiros e políticos de Sigismundo, sobretudo a partir de 1455. Como estivesse a serviço do papa Nicolau V, Alberti foi chamado de volta a Roma e deixou o trabalho sob responsabilidade de mestres de obras locais. Não custa reiterar que o Templo permanece interminado até hoje.

“MONSEIGNEUR”: quarta carta, de 21 de dezembro de 1454, ditada por Isotta para a sua secretária, na qual relata seu encontro com a filha de Galeazzo, amante de Sigismundo. “Mi pare che avea decto hogni chossia”, “Parece-me que ela disse tudo”.

“sagramoro (…)”: referência à carta do dia 17/12, citada acima. Sagramoro, secretário de Sigismundo, precisava de dinheiro.

“Messire Malatesta”: Malatesta de Malatestis (1449–1458), filho de Isotta e Sigismundo. Lunarda da Palla era o tutor do menino. Esta é a carta de número cinco, de 20 de dezembro de 1454.

“‘… inspencionando (…) os muros de…'”: trechos da carta de 17/12. “Magnifice ac potens”, “magnífico e poderoso”.

“Malatesta de Malatestis ad Magnificum Dominum Patremque suum”, “Malatesta de Malatestis para seu magnífico senhor e pai”: saudação da carta de 22 de dezembro de 1554 (sexta carta).

“Ilustrissimo… Anibal”: sétima carta, de 18 de dezembro de 1454, do poeta Servulo Trachulo. Nela, o poeta aconselhava Sigismundo a ganhar tempo com os sieneses até que estivessem divididos. Foi uma das provas que eles usaram para acusá-lo de traição. Aníbal (247–183 a.C.), general cartaginense, era um dos modelos de Sigismundo. Não por acaso, ele usava elefantes como emblema e se dizia descendente de Cipião Africano (m. 183 a.C.), que derrotou Aníbal na Batalha de Zama (202 a.C.), encerrando a Segunda Guerra Púnica.

“Magnifice ac potens domine (…) premissa”, “Magnífico e poderoso senhor, meu mais estimado, envio minhas mais humildes saudações”: oitava carta, de 18 de dezembro de 1454, escrita por Pietro di Genari.

“et amava perdutamente”: tradução para o italiano de “perdite amaverat”, que significa literalmente “amava livremente”, isto é, fora do casamento. A expressão foi usada pelo cardeal Jacopo Ammanati para se referir a Isotta, amante e depois terceira esposa de Sigismundo; “ne fu degna”, “foi digna [de seu amor]”; “constans (…) grata”, “firme em sua resolução / ela agradou aos olhos do princípe / adorável de ser contemplada / querida pelo povo” (Yriarte citando Pseudo-Alessandro); “Italiaeque decus”, “e a honra da Itália” (referência à Eneida XI, 508, “O decus Italiae virgo”; daí Matteo da Pasti ter gravado na medalha colocada sobre a tumba de Isotta, “Isote Ariminensis. Forma et Virtute Italie decori” (e, do outro lado, o elefante malatestiano); essa medalha foi coberta por uma placa de bronze com outra inscrição (“D Isottae Ariminensi BM sacrum MCCCCL”), mas descoberta posteriormente.

Canto VIII

 

Os Cantos VIII-XI abordam a história de Sigismundo Pandolfo Malatesta (1417-1468), condottiere, nobre, poeta, patrono das artes e lorde de Rimini e Fano a partir de 1432.

“Estes fragmentos que você guardou (preservou)”: “você”, no caso, é Eliot, e Pound se refere ao verso 431, um dos derradeiros d'”A terra devastada”, “These fragments I have shored against my ruins”, “Com fragmentos tais foi que escorei minhas ruínas” (na tradução de Ivan Junqueira, em Poesias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981). Assim, Pound inicia o Canto se referindo ao uso de fragmentos na poesia e do papel que eles representam na presentificação do passado, por assim dizer.

Calíope é a musa da poesia épica. Os Cantos Malatesta são a primeira tentativa de Pound de reconciliar a verdade história com a poesia épica. Aqui, à diferença do que fez em Cantos anteriores (como o V, no qual escreveu como um historiador contemporâneo, o VI, no qual compõe uma crônica fragmentada de eventos, ou o VII, em que o passado é reconstituído intuitivamente com o auxílio de traços materiais visíveis), Pound busca essa “verdade” por meio de uma rigorosa pesquisa histórica, complementada por uma recriação de ecos épicos dos fatos pesquisados. Assim, os Cantos Malatesta são “verdadeiros” enquanto relatos daquilo que Pound considera fascinante e relevante acerca de Sigismundo (distanciando-se da “objetividade” do historiador, portanto).

“sous les lauriers”, “sob os louros”.

Aquele Alessandro”: Alessandro de Médici, cujo assassinato foi relatado no Canto V. Ele, de fato, era filho de uma criada negra. Pound parece sugerir um contraste entre a inércia e o fatalismo de Alessandro, morto pelo primo Lorenzino, e a vida ativa de Sigismundo.

“Frater (…) carissime”: de uma carta de Sigismundo para Giovanni de Médici, de 7 de abril de 1449 — “Tão querido para mim quanto um irmão, a companhia mais querida”. Pound leu a carta no livro de Charles Yriarte, Un condottiere au XV siècle, e, depois de pesquisar no Archivio di Stato, em Florença, corrigiu dois erros cometidos por Yriarte: a saudação a expressão “buttato via”, “jogado fora”, “descartado”, “desperdiçado” (que Yriarte transcreveu erroneamente como “gettato via”). Na época em que escreveu a carta, Sigismundo estava sob contrato dos florentinos. Em outubro de 1448, eles o haviam liberado para liderar o exército veneziano na Lombardia. Veneza e Florença eram aliadas na guerra pela sucessão em Milão, contra Alfonso e o papa.

“(…) a paz entre você e o Rei de Ragona”: Sigismundo deveria fazer parte das negociações entre Florença e Alfonso, rei de Nápoles. Graças à vitória dele em Piombino, Florença devia muito a Sigismundo, coisa que até o papa Pio II, seu arqui-inimigo, não deixou de notar (v. Canto IX, 51-55). No entanto, quando a paz foi acordada em Lodi, em 1454, Alfonso (por conta da traição de Sigismundo em 1447), exigiu que ele fosse excluído das negociações, e os florentinos não objetaram. O “Rei de Ragona”, no caso, é Alfonso (1396–1458), Rei de Aragão, Valência, Maiorca, Sardeña e Córsega, Sicília, e Conde de Barcelona. Após a morte do Duque de Milão, Filippo Maria Visconti, em 1447, Alfonso reivindicou a cidade afirmando que o Duque, que não teve herdeiros homens, havia dito que ele o sucederia. A fim de reforçar sua reivindicação, Alfonso se mudou para a Toscana e contratou Sigismundo para lutar contra Veneza e Florença, que também reivindicavam a cidade. Como Alfonso pagou muito menos do que prometera, Sigismundo mudou de lado e assinou com os florentinos em dezembro de 1447. Pound narra esses eventos no Canto IX, 46-55.

“Maestro di pentore”: não se sabe ao certo a quem Sigismundo se referia. Yriarte supõe que fosse Piero della Francesca por causa da data em que foi pintado o afresco no Templo Malatestiano (a catedral de Rimini, construída no século XIII e inteiramente reformada por Sigismundo).

“affatigandose (…) mai”, “de tal modo que ele possa trabalhar como quiser, ou desperdiçar tempo como quiser, nunca faltando provisão”.

“In campo (…) contra Cremonam”, “No campo dos mais ilustres senhores de Veneza, 7º dia de abril de 1449, diante de Cremona”: Sigismundo, como general dos venezianos, liderou um cerco malsucedido a Cremona nos primeiros meses de 1449.

“… e porque o supracitado (…) dez do Bailio”: trecho do contrato firmado entre Sigismundo e os “dez do Bailio” (o conselho florentino) em 5 de agosto de 1452, pelo qual ele deixaria o serviço de Milão e lutaria por Florença, com a aprovação do Duque de Milão. Este, na época era Francesco Sforza (1401–1466), que iniciou sua carreira militar a serviço do Duque anterior, Filippo Maria Visconti. Ele se casou com a filha de Filippo, Bianca, em 1441. Após a morte do sogro, defendeu a cidade contra as reivindicações de Veneza e Alfonso de Aragão. Em 1450, vitorioso, ele se instalou como o novo Duque de Milão.

Penna e Billi: rochedos no Monte Carpegna, nos Apeninos. Entre eles, está a cidade originária dos Malatesta, Pennabilli.

“Lyra”: pastiche de um poema mais longo encontrado no livro de Yriarte, que este atribui erroneamente (embora Pound não soubesse disso) a Sigismundo. L. Rainey aponta, com base na crítica de Aldo Francesca Massèra, que esse longo poema citado no livro de Yriarte não foi escrito por Sigismundo, mas por Simone Serdini, poeta senês falecido em 1420 (quando Sigismundo tinha três anos, portanto).

“Sob as plumas…”: em maio de 1442, um mês após o casamento de Sigismundo com Polissena Sforza, Bianca e Francesco Sforza visitaram Rimini e foram esplendidamente recebidos. Sigismundo esperava que Sforza o ajudasse a tomar Pesaro de Galeazzo, o Inepto, um primo pertencente a outro ramo da família Malatesta.

“… as guerras ao sul”: Francesco estava a caminho de uma batalha em Ancona, ao sul de Rimini.

O “imperador grego” era João VIII Paleólogo (1392–1448), imperador bizantino que, em 1438, viajou para a Itália a fim de firmar de aliança com o papa e os príncipes italianos. Seu objetivo maior era vencer os turcos. Um concílio foi organizado para que as igrejas ocidental e oriental se reconciliassem e deveria ocorrer em Ferrara, mas, como esta cidade sofresse com a peste, foi transferido para Florença. As discussões teológicas e políticas se prolongaram até o ano seguinte, chegou-se a um acordo e o papa prometeu ajuda militar ao imperador. No entanto, quando ele voltou para Constantinopla, houve enorme revolta contra a possibilidade de reconciliação, e o acordo caiu por terra.

O bizantino Gemisthus Plethon (Georgios Gemistos, às vezes referido em português como Gemistos Pletão, c.1355–1452) foi um filósofo neoplatônico. Estabeleceu uma escola platônica em Mistras e era consultado pelos imperadores bizantinos acerca de questões filosóficas e legais. Participou como delegado do Concílio de Ferrara. Graças à impressão que Gemistos causou em Florença, Cosimo de Médici pediu a Marsilio Ficino que traduzisse as obras de Platão e dos neoplatônicos para o latim. Em 1466, depois de lutar contra os turcos a mando dos venezianos, Sigismundo levou os ossos de Gemistos para a Itália e os colocou em um dos sarcófagos do Templo.

“… a guerra ao lado do templo em Delfos”: Gemistos se refere às “quatro guerras sacras” entre cidades-estados gregas pelo controle do templo, o que permitiu que Filipe II da Macedônia, aproveitando a divisão interna, tomasse a Grécia após vencer a Batalha de Queroneia (338 a.C.). A analogia com o século XV é óbvia: apenas uma frente cristã unida poderia enfrentar os perigos externos.

“… POSÍDON, concrete Allgemeine“, “universal concreto”: segundo a teologia pagã de Gemistos, Posídon, “filho de Zeus”, seria a “causa primeira do universo”, entidade sem representação antropomorfizada e, portanto, a personificação da Ideia Platônica que se manifesta nas formas individuais.

“Com a igreja contra ele”: embora tenha tido uma relação passável com quatro papas (Martinho V, Eugênio IV, Nicolau V e Calisto III), Sigismundo entrou em rota de colisão com Pio II (seu maior inimigo) e Paulo II.

A filha de Francesco é, claro, Polissena, com quem Sigismundo se casou para reforçar a aliança com Sforza. Mas este, em vez de ajudá-lo a tomar Pesaro de Galeazzo, mediou a venda da cidade para seu irmão, Alessandro Sforza, por 20 mil florins, em 1444 ou 1445.

Broglio: Gaspare Broglio Tartaglia (1407–1493) foi um dos conselheiros e comandantes mais leais de Sigismundo. Escreveu um relato da vida do chefe intitulado Cronaca Malatestiana del secolo XV (cujo manuscrito Pound consultou em Rimini, em março de 1923).

“templum aedificavit”, “construiu o templo”: frase dos Comentários de Pio II. Trata-se, é claro, da Igreja de San Francesco, também chamada de Templo Malatestiano, em Rimini. Uma das razões alegadas por Pio II para excomungar Sigismundo está o fato de que ele encheu o templo de imagens pagãs. Pound usa a frase de Pio II num sentido inverso, louvando a grandeza de Sigismundo.

“… até os 50”: 1450 foi o ano em que Francesco Sforza se tornou Duque de Milão e no qual ele traiu Sigismundo com relação a Pesaro. Com o fim das guerras pela sucessão em Milão, Sigismundo perdeu dinheiro e sua posição ficou mais e mais vulnerável.

“Galeaz”: Galeazzo, o Inepto. Além de Pesaro, ele também vendeu Fossombrone para Federico de Urbino por 13 mil florins. Foi excomungado pelas vendas dessas cidades consideradas “papais”.

Pound cita “Guillaume Poictiers” para traçar uma analogia entre ele e Sigismundo, sendo ambos seriam aristocratas, guerreiros e poetas.

“Mastin”: apelido de Malatesta da Verucchio (1212–1312). Verucchio é uma cidade próxima de Rimini.

“Paolo il Bello”: já citado no Canto V (quando o encontramos no Inferno, ao lado da amada Francesca da Rimini), eis Paolo Malatesta, (c.1250–1283), terceiro filho de Malatesta da Verucchio.

“Parisina”: uma história similar à de Paolo e Francesca. Parisina Malatesta (1404–1425), filha de Andrea Malatesta, casou-se com Niccolò III d’Este em 1418. Ela se apaixonou pelo enteado, Ugo. O marido descobriu e executou ambos em 1425. Quando morreu, Parisina já havia dado à luz três crianças. Sua filha mais velha, Ginevra (1419–1440), seria a primeira mulher de Sigismundo.

“Atridas”: a exemplo dos Malatesta, os atridas foram uma família célebre por membros trucidando uns aos outros: Agamêmnon sacrificou a própria filha, Ifigênia, e depois foi assassinado pela esposa, Clitemnestra, que, por sua vez, foi morta pelo filho Orestes — Ésquilo nos conta tudo isso na trilogia Oresteia).

“… naquele tempo”: setembro de 1429, quando morreu Carlo Malatesta, tutor e protetor de Sigismundo.

“… nenhuma dívida”: em janeiro de 1430, o papa Martinho V ameaçou confiscar as terras do Malatesta pelo não pagamento de dívidas, o que provocou uma grande reação da população local e dos irmãos Malatesta e seus aliados, a família Este de Ferrara. Por conta disso, o papa se dispôs a negociar e, em março, os irmãos cederam as terras de Ancona, San Sepolcro e Cervia, além de pagar 4 mil ducados, mas mantiveram Rimini.

“… lutaram nas ruas”: alusão à tentativa de Carlo II Malatesta de anexar Rimini, Cesena e Fano, em 1430.

Canto VII

Dando continuidade ao Canto anterior, seguimos com Eleonora, e “ela se consumia num clima britânico”: o casamento com Henrique II se deteriorou com o tempo, e ela chegou a ser aprisionada por mais de quinze anos (1173-1189), primeiro no Castelo de Chinon, depois em Salisbury e outros lugares, por ter se aliado aos filhos Henrique, o Jovem, Ricardo Coração de Leão e Godofredo em uma rebelião contra o rei, contando, inclusive, com o apoio de seu ex-marido, o rei francês Luís VII.

Este Canto retoma e reitera diversas expressões e elementos de Cantos anteriores, como as referências a Helena de Troia, à cegueira de Homero etc. Uma observação: Trajano Vieira traduz Έλέναυς, ‘έλανδρος, ‘έλέπτολις (termos novamente citados neste Canto) como “enleia-nau”, “enleia-herói” e “enleia-pólis” (em Agamemnôn, 689-90. São Paulo: Perspectiva, 2017). Bela solução.

“Si pulvis nullus erit (…) excute”: “Et si nullus erit pulvis, tamen excute nullum”, “se não houver poeira, abane do mesmo jeito” (Ars amatoria I: 151). Como se vê por essa citação, Ovídio estava mergulhado na vida cotidiana e criava poesia a partir de detalhes e observações de sua própria experiência, sem recorrer à mitologia. No caso, o poeta instrui o leitor sobre como seduzir uma dama no teatro: sente-se ao lado e, como quem não quer nada, com a desculpa de que há um pouco de poeira no colo dela, use as mãos para “limpar” a sujeira.

“… e li mestiers ecoutes”, “e escute os mestres”. Pound continua “incorporando” a voz de Ovídio.

“… mas sempre uma cena”: à diferença das crônicas, que apresentavam os eventos de forma cronológica, há exemplos na literatura medieval em que uma cena isolada é abordada e evocada em termos visuais, como em Bertran de Born.

“… y cavals armatz”, “e os cavalos de armadura” (Bertran de Born, “Bem platz lo gais temps de pascor”, “Muito me agrada o doce tempo da Páscoa”).

“Un peu moisi (…) baromètre”: Pound pinça algumas frases do quarto parágrafo de “Um Coração Simples”, de Flaubert, e os reordena de tal forma a sintetizar um período histórico.

“A imensa cabeça em abóbada”: aqui começa o retrato de Henry James como o grande e metódico modelo literário — “fantasma em lentidão”, “tragando o tom das coisas”, “tecendo uma frase sem fim”.

“,,, con gli occhi onesti e tardi”, “com olhos dignos e austeros”: variação sobre duas passagens da Comédia — 1) Inferno IV, 112/13: “gentes aí, de tardos, graves / olhares”; 2) Purgatório VI, 61-63: “Chamamo-la; ó lombarda alma sincera, / como estavas altiva e sobranceira / e, no mover dos olhos, digna e austera!”.

“Grave incessu”, “andar solene”. Variação da Eneida I, 45: “et uera incessu patuit dea”, “Deusa no porte, perfeita” (em que Virgílio descreve Afrodite).

“… visitas fantasmagóricas”: possível alusão a uma visita que Pound fez em 1919 ao apartamento de Margaret Cravens, uma amiga americana e sua primeira patrona, e que cometeu suicídio em junho de 1912.

“Ione” é Ione de Forest, nome artístico da dançarina Jeanne Heyse ou Joan Hayes. Pound assistiu a uma apresentação dela em Os Ritos de Elêusis, de Aleister Crowley. Ela se matou em agosto de 1912. Pound escreveu “Dance Figure” e “Ione dead the Long Year” em homenagem a ela.

Liu Ch’e é o imperador Wu-Ti (156-87 a.C.), da dinastia Han. Ele escreveu uma célebre elegia para Li Furen, sua concubina. Ele também visitava os aposentos da amada para sentir sua presença, o que reafirma um dos temas deste Canto — a persistência da memória.

O Elysée, no caso, é o Hotel Elysées, em Paris, próximo de onde ficava o apartamento de Margaret.

“Erard”: um piano projetado pelo prestigioso Sébastien Érard. Cravens, pianista bem-sucedida e rica, possuía um.

“… em ‘tempo'”: outra alusão ao conto já citado de Flaubert, que Pound usa para evocar o apartamento de Cravens.

“… garrafas de cerveja aos pés da estátua”: no caso, uma estátua no Jardim de Luxemburgo. O escritor holandês Fritz René Vanderpyl (1876-1965), citado em seguida pelo prenome, morava perto do Jardim.

“Smaragdos, chrysolitos”, “esmeraldas, topázios”: citação das Elegias (livro II, XVI, 43-46), o trecho em que Propércio lamenta o gosto de Cynthia pelo luxo.

Vasco da Gama (1469-1524), nosso velho conhecido, o explorador português que descobriu a rota marítima para a Índia. Herói dos Lusíadas, onde Camões o descreve (no Canto II, estrofes 97-98) assim:

(…)
Vestido o Gama vem ao modo Hispano,
Mas Francesa era a roupa que vestia,
De cetim da Adriática Veneza
Carmesi, cor que a gente tanto preza:

De botões douro as mangas vêm tomadas,
Onde o Sol reluzindo a vista cega;
As calças soldadescas recamadas
Do metal, que Fortuna a tantos nega,
E com pontas do mesmo delicadas
Os golpes do gibão ajunta e achega;
Ao Itálico modo a áurea espada;
Pluma na gorra, um pouco declinada.

Pound apreciava a qualidade “prosaica” dos Lusíadas, que, para ele, era melhor do que um romance histórico.

“E ‘Montanhas do mar concebem tropas'”: Pound parodia o estilo bombástico de Camões, para ele um sintoma da decadência portuguesa.

“Le vieux commode en acajou”, “a velha cômoda [ou baú] de mogno”.

“A cortina escarlate”: nova referência à tradução de Arthur Golding das Metamorfoses (X, 595-96), à passagem em que Atalanta corre.

“Luz de lampião em Buovilla”: diz-se que Arnaut apaixonou-se pela esposa de Guillem de Bouvila, mas não conseguiu seduzi-la. Pound o imagina com a dama em um quarto, vendo os contornos de seu corpo através das roupas, contra a luz, tal como Hipômenes fez com Atalanta. O trecho “e quel remir” (“para que eu possa contemplá-la”) é de um verso de “Doutz brais e critz”, de Arnaut.

Niceia era uma ninfa devota de Ártemis. Estuprada por Dionísio, matou-se depois de dar à luz. Logo, seu destino ecoa os destinos de outras personagens citadas no Canto, como Ione.

“O voi che siete in piccioletta barca”: Dante, Paraíso II, 1-6. Na tradução de Ítalo Eugênio Mauro (ed. 34):

Ó vós que em pequenina barca estais,
e o lenho meu que canta e vai, ansiados
de podê-lo escutar, acompanhais,

voltai aos nossos portos costumados,
não vos meteis no mar em que, presumo,
perdendo-me estaríeis extraviados

Dido, rainha de Cartago e personagem muito importante na Eneida. Siqueu foi seu primeiro amor e marido, assassinado pelo irmão dela, Pigmalião, rei de Tiro. Ela recebe Eneias, sobrevivente e, por assim dizer, náufrago da Guerra de Troia, e se apaixona por ele ao ouvi-lo narrar a destruição da cidade. Quando Eneias parte rumo à Itália, Dido se mata. No Canto, Pound sugere uma situação distinta, em que a antiga paixão não é substituída pela nova (e destrutiva), mas é, ela própria, destrutiva. Em seu bilhete de suicida, Ione culpou o ex-marido.

“O homem vivo, longe de terras e prisões, / agita os casulos secos”: ao escrever esses versos, Pound tinha o poeta e nacionalista irlandês Desmond Fitzgerald (1890-1947) em mente. Seria uma espécie de novo Lorenzino, que se sacrifica em nome da causa republicana.

Após repetir pequenos fragmentos de Varchi relativos ao assassinato de Alessandro de Médici por Lorenzino, Pound nos sai com um “E biondo”. Trata-se de uma possível alusão a Obizzo II d’Este (1247-1293), Duque de Ferrara, colocado por Dante no Inferno, em um rio de sangue reservado aos tiranos. Ali, um de seus companheiros é Ezzelino da Romano, irmão de Cunizza. Obizzo foi assassinado pelo próprio filho, a exemplo de Alessandro, isto é, que também foi morto por um membro da própria família.