Um esquema de XXX Cantos (1930)

Um esquema de XXX Cantos (1930)

CANTO I
Nekyia homérica via Andreas Divus. Preparação.
Invocação da Musa: Afrodite.

CANTO II
Metamorfoses em sucessão: Proteu.
Sordello(s), Eleonora, Helena.
Dionísio reconhecido por Acetes.

CANTO III
Pound na Itália. Morada(s) de Koré.
Perséfone, El Cid, Inês de Castro.

CANTO IV
Ruínas troianas, ruínas amorosas.
Tereu, Procne, Filomela: Et ter flebiliter, Ityn.
Cabestan. Actéon/Peire Vidal. Danaë.
Tamura, Takasago.
A poesia como Centauro.

CANTO V
Neoplatônicos. Sexto inverte Catulo.
Poicebot, de Tierci, de Maensac: “Troia em Auvergnat”.
“John” Borgia (ecos de Agamêmnon) e Alessandro de Médici, R.I.P.
Fracastoro, Navagero, Cotta.

CANTO VI
Odisseu – Guillaume.
Eleonora redux: Carlos, Raymond, Saladino (!), Henrique.
Cunizza da Romano alforria os escravos dos irmãos.
Teseu salvo pela espada.

CANTO VII
Ecos flaubertianos. Henry James.
Suicidas: Cravens, Ione, Niceia, Dido.
Camões veste Vasco da Gama.
Ecos de Lorenzino em D. Fitzgerald.
Obizzo nada no inferno.

CANTO VIII
Primeiro Canto MALATESTA:
Sigismundo Pandolfo Malatesta.
Verdade e Calíope: pesquisa histórica e levada épica.
Ferrara: João VIII Paleólogo, Gemisthus Plethon (ossos no Templo).
Peolo & Francesca: Parisina & Ugo.
Atridas, Malatestas.

CANTO IX
Segundo Canto MALATESTA.
Domenico narra.
Conflitos variados (e outros reiterados): Sforza e cia.
Traições: Alfonso, Sforza, Siena.
Mala postal roubada: oito cartas.
O Templo em construção. Isotta.

CANTO X
Terceiro Canto MALATESTA.
Æneas Silvius Piccolomini, papa Pio II, inimigo de Sigismundo.
A “oração” de Andreas Benzi. Excomunhão e queima da efígie.
Giacomo Piccinino: inimigo, depois aliado.
Nicolau de Cusa sendo fdp. Pasti numa enrascada.

CANTO XI
Quarto Canto MALATESTA.
Derrocada. Roberto Malatesta.
Tarento. A perda de Fano. Moreia.
Plano (frustrado) para assassinar Paulo II.

CANTO XII
Eliot & Pound na Arena di Verona (06.1922).
Frank Bacon, o Calvo, e seu esquema com os centavos cubanos.
José Maria dos Santos, o mercador português.
O Marinheiro Honesto e a esterilidade da usura.

CANTO XIII
Um passeio com Confúcio. Ordem interior.

CANTOS XIV e XV
Inferno poundiano: banqueiros, editores de jornais, escritores picaretas
e outros “perversores da linguagem” e da ordem social.
Dante e Plotino como guias.
O escudo de Perseu: comprometimento com a razão
e defesa possível em um ambiente intelectualmente depauperado.

CANTO XVI
Purgatório terrestre: Sordello, Peire Cardinal, Blake, Dante.
A Grande Guerra. Amigos perdidos no front.
O testemunho de Fernand Léger.
O início da Revolução Russa pelos olhos de Lincoln Steffens.

CANTO XVII
Reinício. Busca gnóstica.
Medianias: entre a vida e a morte,
entre os mundos divino e mortal.
Delírios, e um lento despertar: rumo a Veneza.

CANTOS XVIII e XIX
Exploração financeira e guerra.
Marco Polo e Kublai Khan.
Zaharoff, negociante de armas.
Encontro com Arthur Griffith. Lincoln Steffens e as revoluções.
Mensdorff, Benckendorff e a estupidez que levou à Grande Guerra.

CANTO XX
Homero, Catulo, Propércio, Ovídio,
Cavalcanti, Ventadour, Arnaut:
todos somam para a clareza da canção e seu ritmo.
NOIGANDRES.
Mais avatares de Helena: Zoe, Marózia, a Elvira de Lope de Vega.
Os lotófagos dão lugar à descrição
de um afresco de Francesco del Cossa:
terceiro paraíso — triunfo.

CANTOS XXI e XXII
Médici: Giovanni fala com Cosimo.
As conspirações contra a família:
Diotisalvi e cia.; depois, Pazzi & Baroncelli.
Ascensão de Lorenzo. Jefferson.
Dança daquelas levadas por Hades.
XXII: Douglas encontra Keynes;
viagens a Gibraltar.

CANTO XXIII
Intelecto humano. Formas de conhecimento.
De Ficino aos Curie.
Outro sono/passeio. Hélio desce à escuridão.
Peire de Maensac segundo Austors.
Anquises e Afrodite.

CANTO XXIV
Parisina e Ugo revisitados. A família Este de Ferrara.
Niccolò, o “pacificatore”, vai a Jerusalém.
Palazzo Schifanoia.

CANTO XXV
Livro do Conselho Superior: a burocracia veneziana.
A sensaria de Ticiano.
Sulpicia e Tibulo. Ecos de Sexto Propércio.
O mural de Ticiano.

CANTO XXVI
Pound relembra sua primeira visita a Veneza.
Malatesta revisitado(s).
A história veneziana entrevista.

CANTO XXVII
Spahlinger, Brisset, Curie.
As Graças.
Cadmo semeia a terra com os dentes do dragão.
Retorno a Ventadour.

CANTO XXVIII
Provincianismos: da Pensilvânia à Emilia-Romagna.
Viagem aos Pirenéus.
Os Massimo, o Discobolus, a queda do papado.
Aviadores e aviadoras: de Lindbergh a Elsie.

CANTO XXIX
Penella Orsini.
Cunizza revisitada.
Arnaut, Eliot e o “pecado”.
Evocação de Ártemis.

CANTO XXX
Três casos sórdidos: Afrodite e Hefesto,
Pedro e Inês de Castro,
Alfonso d’Este e Lucrécia Borgia.
Soncino e a edição de Petrarca.
Morre o papa Borgia, enterra-se os Malatesta,
encerra-se a primeira parte dos Cantos.

Canto I

 

Pound inicia a obra com uma tradução de parte do canto XI d’A Odisseia de Homero. Ele não recorre diretamente ao original grego, mas à tradução latina do renascentista Andreas Divus, datada de 1538. Ou seja, trata-se da tradução de uma tradução. Em todo caso, ler ou reler o referido canto (sugiro a tradução de Trajano Vieira. São Paulo: Editora 34, 2011) será de grande ajuda aqui.

No canto XI, Odisseu e seus companheiros, orientados por Circe, vão à boca do Hades ter com os mortos. O herói precisa questionar Tirésias sobre como retornar a Ítaca, seu lar, mas acaba falando com outras “sombras” nessa jornada ínfera: o companheiro Elpênor, morto há pouco em um acidente estúpido; a mãe, Anticleia; Agamêmnon, que conta como foi assassinado pela própria esposa, Clitemnestra, e por Egisto; Aquiles (“Não queiras / embelezar a morte, pois preferiria / lavrar a terra de um ninguém depauperado, / que quase nada tem do que comer, a ser / o rei de todos os defuntos cadavéricos”, 487-491); etc. Trata-se, em suma, de uma nekyia, rito pelo qual os mortos são invocados (não confundir com a catábase, em que o indivíduo desce ao Hades e por lá passeia).

Não é por acaso que Pound inicia Os Cantos com esse consórcio com os mortos, pois eles — representando o passado — serão cruciais para a constituição da obra e de seu projeto, que, novo, aponta para o futuro, é inteiro possibilidade(s).

“E pois com a nau no mar”: o primeiro verso se inicia com um “e” que aponta desde o começo para tal continuidade.

“Assim:”: o derradeiro verso (o uso dos dois pontos é uma escolha (feliz) de Grünewald, pois Pound se limita a não colocar um ponto final, o “So that” seguido pelo espaço em branco, espaço a ser preenchido, espaço convidativo) nos lança para o que virá e, ao mesmo tempo, encerra a preparação. Pound introduziu o herói e se introduziu na tradição, e invocou a musa, a deusa Afrodite.

Note que Pound acena para Divus, explicitando sua tradução-da-tradução, ao usar alguns termos latinos, e não gregos — como Avernus, que nos remete para o canto VI (237-42) da Eneida de Virgílio (desta, sugiro a tradução de Carlos Alberto Nunes. São Paulo: Editora 34, 2016) —, e então, ao final do Canto, dirige-se a ele: “Divus, repousa em paz, digo, Andreas Divus, / In officina Wecheli, 1538, vindo de Homero”.

E depois chegamos à invocação: “Venerandam, / Na frase em Creta, e áurea coroa, Afrodite, / Cypri munimenta sortita est, alegre, orichalchi, com dourados / Cintos, faixas nos seios, tu, com pálpebras de ébano / Levando o ramo de ouro de Argicida. Assim:”.

Aqui, temos outra tradução de tradução, de alguns fragmentos do Segundo Hino Homérico para Afrodite, via Georgius Dartona, que Pound encontrou no mesmo volume em que estava a Odisseia de Divus.

O “Argicida”, no caso, é Hermes, sendo o termo a forma latina de seu epíteto Argeiphontes, “assassino de Argos”; o ramo de ouro é o seu caduceu, aqui trazido/levado por Afrodite.

Tradução livre dos trechos em latim: “Veneranda, com uma coroa dourada”; “A quem concederam as fortalezas do Chipre”; orichalchi, “de cobre”.

A “officina Wecheli” foi onde a tradução de Divus da Odisseia foi impressa.

“E assim:” — continuemos.

……

Imagem: tela de Johannes Stradanus,
Odisseu na entrada do Hades (c. 1600-05).

‘Os Cantos’, de Ezra Pound

A partir de hoje, e paulatinamente, passo a coligir neste espaço notas e informações sobre Os Cantos, de Ezra Pound. A ideia é que isso sirva a outros leitores de primeira viagem, em especial àqueles que não são fluentes em inglês e, portanto, não têm acesso à extensa bibliografia existente sobre a obra.

Minhas fontes principais são o site The Cantos Project e o clássico A Companion to The Cantos of Ezra Pound (Berkeley/Los Angeles/Londres: University of California Press, 1980), de Carroll F. Terrell (tenho esse livro em PDF; quem quiser, é só pedir). Quaisquer outras fontes serão devidamente citadas nos posts em que forem utilizadas.

As edições de que disponho da obra de Pound são Os Cantos (tradução: José Lino Grünewald. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002), única disponível em nosso português até o momento, e The Cantos (Nova York: New Directions, 1986). A tradução de Grünewald foi reimpressa diversas vezes, inclusive em formatos de bolso, e pode ser facilmente encontrada por aí.

Farei um post sobre cada Canto (às vezes dois, quando forem complementares e/ou exigirem poucas notas), e vou incluir e atualizar os links conforme a leitura avançar. Os posts também serão revistos sempre que necessário, com mais informações e coisas do tipo. Logo, quaisquer sugestões e correções são muito bem-vindas. Farei as postagens conforme tiver tempo e disposição, de tal forma que a empreitada se prolongará por bastante tempo. É isso.

Tempus loquenditempus tacendi.

 

Sumário

 

UM ESQUEMA DE XXX CANTOS (1930)

ONZE NOVOS CANTOS (1934)

A QUINTA DÉCADA DOS CANTOS XLII-LI (1937)

CANTOS LII-LXXI (1940)

OS CANTOS PISANOS LXXIV-LXXXIV (1948)

SEÇÃO: PERFURATRIZ DE ROCHAS DE LOS CANTARES LXXXV-XCV (1955)

TRONOS DE LOS CANTARES XCVI-CIX (1959)

ESBOÇOS & FRAGMENTOS DOS CANTOS CX-CXVII (1969)

 

Mabe

[Texto originalmente publicado na revista Vida Simples,
em meados de 2010
.]

 

 

A última tela de Manabu Mabe continua em seu ateliê, confortavelmente recostada em um cavalete. Ela traz uma das imagens-assinatura do pintor, uma figura algo disforme, meio arredondada. O fundo preto ao mesmo tempo realça e oprime as cores vivas (vermelho, amarelo, azul) da figura em primeiro plano, como se ela estivesse sendo abraçada ou engolfada pela escuridão. Nesse sentido, a tela talvez possa ser observada como uma metáfora sobre o fim: Mabe faleceu em 1997, antes de terminá-la.

Muito embora seja um dos pintores abstratos mais importantes e premiados do século XX, o interesse pela sua obra, ao invés de aumentar, arrefeceu desde a sua morte. Isso se deveu a uma série de fatores, como, por exemplo, uma gestão política sofrível, que não prima pela preservação e divulgação dos nossos bens culturais e artísticos, e também ao fato de o mercado estar repleto de compradores emergentes que, sem o devido conhecimento de arte, negociam obras irrefletidamente. Com a desvalorização, houve também um crescente desinteresse midiático pelo pintor. Felizmente, graças a diversas iniciativas perpetradas pelo Instituto Manabu Mabe, isso começou a mudar e ele, aos poucos, reassume o lugar que lhe é devido.

Dentre essas iniciativas, está a inauguração de um museu nipo-brasileiro de artes visuais que funcionará no prédio do antigo Colégio Campos Salles, na Liberdade, tradicional bairro paulistano de imigrantes orientais, e um espetáculo de butô-MA inspirado nas telas de Mabe e coreografado pelo respeitadíssimo Tadashi Endo. O museu era um sonho antigo do próprio Mabe, e a ideia original era instalá-lo em sua própria residência. Para tanto, ele começou, inclusive, a comprar de volta algumas de suas obras; Mabe viajava muito e produziu uma quantidade considerável de telas que foi deixando pelo mundo. Hoje, uma das atribuições do Instituto (em parceria com o Espaço Arte e Cultura), capitaneado por Joh e Yugo Mabe e Ely Sayemi Iutaka, respectivamente filhos e sobrinha do pintor, é localizar e registrar essas obras. Quando possível, catalogá-las e consegui-las de volta a fim de expor no futuro museu.

 

MABISMO

Mabe veio para o Brasil aos dez anos, em 1934, a bordo do navio La Plata Maru. Com ele, vieram os pais, os irmãos e os crayons que usava para desenhar na escola primária no Japão. A família veio, a exemplo de tantos outros imigrantes japoneses, para trabalhar nos cafezais do interior paulista (não por acaso, a autobiografia de Mabe, lançada em 1994 e esgotada há anos, intitula-se “Chove no Cafezal”). Estabeleceram-se primeiro na região de Birigui, no noroeste do estado, depois em Guararapes e posteriormente em Lins, a oeste. Sempre que o trabalho na lavoura permitia, Mabe desenhava. Em 1945, comprou um tubo de tinta a óleo e começou a pintar com esse material. Pintava paisagens e naturezas mortas em papelões e tábuas de madeira, dissolvendo a tinta em querosene. Também fazia cópias de pinturas de Antonio Parreiras (1860-1937) publicadas em calendários. Ele conta em sua autobiografia: “Como o cafezal exigia meu trabalho até aos sábados, e como meus amigos contavam comigo, constantemente, para jogar beisebol, a pintura ficava reservada aos domingos, feriados e dias de chuva”.

Seu primeiro professor foi um fotógrafo de Lins que estudara pintura, Teisuke Kumazaka. Com ele, Mabe aprendeu a preparar a tela, a dissolver a tinta com terebentina e óleo de linhaça e, sobretudo, a fazer croquis. Em 1947, durante uma passagem por São Paulo, visitou Tomoo Handa (1906-1996), pintor e jornalista bastante respeitado na época, mostrou a ele algumas pinturas e recebeu conselhos valiosos, como: “Não pinte conceitualmente. Observe melhor”. Dois anos depois, perderia o pai, vitimado por um câncer no estômago. Mesmo no hospital, Mabe aproveitava para praticar, desenhando seus croquis.

Por essa época, foi convidado a frequentar o Grupo Quinze, criado por artistas como Handa, Yoshiya Takaoka (1909-1978), Yuji Tamaki (1916-1979) e Tadashi Kaminagai (1899-1982), entre outros. O próprio Mabe narra, em sua autobiografia, como foi a primeira reunião com o grupo, um estudo de nu: “A modelo era uma brasileira de 23 anos. Pela primeira vez, vi uma mulher nua. Os melhores ângulos, entretanto, estavam todos ocupados pelos que chegaram primeiro. O único lugar disponível era aos pés da moça deitada, sob um ângulo muito delicado da modelo, vista por baixo. Era totalmente impossível produzir uma pintura naquelas condições”.

família no mesmo ano em que ele, 1934. Tiveram três filhos: Joh, Yugo, que hoje também pinta, e Ken, arquiteto. Com o passar do tempo, a pintura se tornara a atividade mais importante para Mabe, em vez de ser apenas um hobby, conforme lhe sugerira o pai. Assim, em 1957, disposto a arriscar, ele vendeu o cafezal e se mudou com a mulher e os filhos para São Paulo. Passaram por muitas dificuldades a princípio, com o artista fazendo molduras, tingindo gravatas e até mesmo pintando placas para sobreviver. Sua persistência, contudo, foi recompensada.

A revista Time, em um artigo dedicado a ele e publicado na edição de 02 de novembro de 1959, chamaria aquele de “o ano de Manabu Mabe”: foi considerado o melhor pintor nacional na V Bienal de São Paulo, quando recebeu o certificado das mãos de Juscelino Kubitschek, e, pouco depois, premiado na I Bienal Jovem de Paris. No decorrer dos anos e décadas seguintes, continuaria expondo em museus, bienais e galerias de todo o mundo, incluindo em seu país natal.

Artisticamente, a evolução de sua técnica levou inclusive à criação de uma categoria, o “mabismo”. Inadvertidamente, a melhor descrição desse estilo, que nunca deixou de sofrer mudanças, isto é, de evoluir, foi feita pelo próprio artista em sua autobiografia, referindo-se a um outro gênio: “Mas, depois que passei ao abstrato, sinto-me atraído pelo estilo de vida de Picasso, que pintasse o que quisesse, seria sempre Picasso. Sente-se o seu cheiro, na sua pintura”. De fato, sobretudo a partir dos anos de 1950, quando completou sua “fase de estudo” e experimentou o expressionismo abstrato, o impressionismo e o fauvismo para, mais tarde, abraçar um abstracionismo de cores cada vez mais vibrantes, é impossível olhar para uma tela de Mabe sem se sentir jogado em uma espiral sinestésica, em que cheiros e sons particularíssimos vêm à mente do observador. O estilo seria, ainda, fruto de uma junção oriente-ocidente: seus traços e formas denotam uma sensibilidade japonesa, ao passo que as cores fortes, vivas, dizem respeito à brasilidade desenvolvida desde que aportou em Santos.

 

MA BE MA

O espetáculo inspirado nas telas de Mabe intitula-se Ma be Ma e foi coreografado por Tasashi Endo, um dos maiores dançarinos e coreógrafos de butô em todo o mundo. Endo foi discípulo de Kazuo Ohno e, a exemplo de Mabe, criou um estilo próprio e inconfundível no âmbito de sua arte, chamado de butô-MA. No entanto, não é “apenas” isso que aproxima os dois artistas: a exemplo de Mabe, Endo também se mudou cedo para um outro país (no caso, a Alemanha, onde vive há quarenta anos) e ali desenvolveu o seu trabalho. Tanto quanto o pintor, o coreógrafo compreende perfeitamente o que é estar entre dois lugares, duas culturas, e criar artisticamente a partir desse estado de suspensão. Na verdade, é justamente esse o conceito do butô-MA: colocar-se no espaço que há entre as coisas.

Ma be Ma estreou em São Paulo em agosto, no SESC Ipiranga, onde teve três apresentações. Outras estariam previstas para meados de setembro. O Museu Manabu Mabe, por sua vez, está praticamente pronto e logo será inaugurado. Será um espaço para que se conheça e aprecie não só a obra de Mabe, mas também as de outros artistas nipo-brasileiros. Levando-se em conta a grandeza de Manabu Mabe, estava mais do que na hora de sua arte voltar à ordem do dia.

 

Saiba mais sobre Manabu Mabe e as ações do Instituto Manabu Mabe clicando AQUI.

Coreanos

Um conto.

 

Nunca teve problemas com vizinhos. Até que começou a ter problemas com vizinhos. Mas, por meses e meses, não obstante os problemas, preferiu não reclamar com a síndica. Torcia para que os problemas se resolvessem sozinhos. Talvez eles passem a se comportar de outra forma, pensava, talvez se mudem, talvez morram, talvez se matem, olha como brigam, os filhos da puta. Mas os vizinhos não passaram a se comportar de outra forma, não se mudaram, não morreram.
E assim os problemas continuaram.
Certa manhã de domingo, por volta das sete, ao acordar pela enésima vez com uma canção gospel, o arrastar de um móvel e o som de berros e passos, quem anda de salto alto às sete da manhã de um domingo?, concluiu que não tinha mais escolha. Fez uma reclamação por escrito. A síndica disse que ia tomar providências, mas não fez nada. Semanas depois, os vizinhos tiveram a pior briga até ali. A mulher berrava. O homem berrava. Objetos foram atirados. Portas batendo. Urros. Xingamentos. Outra reclamação por escrito. A síndica não gostava de problemas com os vizinhos, e sua política se tornou evidente: a não ser que seja caso de polícia, o condomínio se limita a advertir os moradores problemáticos.
Uma advertência, e mais nada?
Veja bem…
Nem mesmo uma multa?
Não.
Ele vai acabar esganando essa mulher. Daí a senhora vai ter o seu problema de polícia.
Isso não vai acontecer. Aqui só mora gente de bem.
Ela berrou que vai partir a cabeça dele com um martelo.
O senhor deve ter ouvido errado.
Eu ouvi certinho.
O senhor deve ter ouvido errado.
As paredes são finas, o teto parece de papelão, dá pra ouvir tudo.
O senhor deve ter ouvido errado.
Se estou deitado na cama e esse vizinho vai ao banheiro, eu ouço o sujeito mijando e peidando e cagando.
Que horror. Por que o senhor ouve essas coisas?
Porque é impossível não ouvir.
O senhor não devia ouvir isso.
Mas é o que estou tentando te dizer. É impossível não ouvir. As paredes são finas, o teto parece de papelão, dá pra ouvir tudo. E eles berram. Eles sempre berram. Eles berram o tempo todo, sem parar.
Ninguém berra o tempo todo, sem parar.
Eles berram quase que o tempo todo. Ficou melhor assim?
É bem difícil entender o que uma pessoa diz quando berra.
Eu não acho nem um pouco difícil entender o que uma pessoa diz quando berra. Eu acho difícil entender o que uma pessoa diz quando fala baixinho. E aqueles dois são incapazes de falar baixinho. Eles nunca cogitaram falar baixinho na vida. Acho que eles nem sabem o que é falar baixinho. Eles devem achar que nem existe isso de falar baixinho. Falar baixinho não é uma opção pra eles. E é por isso que eles só sabem berrar. E eles berram quase que o tempo todo. E ela berrou que vai partir a cabeça dele com um martelo.
O senhor deve ter ouvido errado, aqui só mora gente de bem.
Gente de bem.
Eles são casados há pouco tempo.
O que isso tem a ver?
Tem casal que demora a se acertar.
Eles ficam o tempo inteiro se acertando.
Aqui só mora gente de bem.
Gente de bem? Que diabo é isso?
Gente de bem é gente de bem. Todo mundo sabe o que é gente de bem, ora essa.
Gente de bem, gente de bem, gente de bem. Minha senhora, presta atenção: não existe gente de bem NA PORRA DESSE PAÍS.
Como as advertências da síndica não surtissem efeito (na verdade, ele começou a duvidar que a síndica os tivesse advertido; a única coisa que os acalmava era interfonar para a portaria e pedir ao porteiro que interfonasse para os vizinhos, dizendo que alguém estava reclamando dos barulhos e da gritaria; envergonhados, os dois evitavam brigar por alguns dias, mas a vergonha passava logo, ou o ódio mútuo — e o ódio dela à sogra — suplantava a vergonha, e tudo recomeçava), e sem saber o que fazer, ele resolveu papear com um dos zeladores do condomínio, o mais falastrão deles. Quem eram os vizinhos, afinal? Sabia muita coisa acerca do casamento (como foi dito, a mulher não suportava a sogra, e as piores brigas ocorriam às vésperas dos feriados prolongados, quando a visita da sogra ou à casa da sogra era incontornável; embora casados há pouco tempo (segundo a síndica), raramente trepavam, e ele culpava a mulher por isso, aos berros, ao que ela respondia, também aos berros e chorando, que ele era um animal, você que é uma frígida de merda, eu não sou frígida, você é que é um bruto, bruto?, é, um bruto, um bronco, um bicho, você gosta, gosto porra nenhuma, toda mulher gosta, gosta porra nenhuma, gosta, sim, você me machuca, você é um animal, ah, vai se foder, vai você se foder, seu babaca, cala essa boca, sua frígida, eu vou partir a sua cabeça com um martelo, tá me ouvindo? TÁ ME OUVINDO?) e da rotina deles (iam a uma igreja evangélica nos finais de semana, daí a barulheira dominical, música gospel às sete da manhã, o apreço do homem por berrar que ela estava atrasada de novo, ao que ela respondia, e daí?, só vou nessa merda pra você não me encher o saco, pois não precisa ir se não quiser, ah, mas eu vou, sim, pra você e pra bosta da sua mãe não me encherem o saco, você é que enche o meu saco, vou contar pro merda do seu pastor o animal que você é, pode contar, não tô nem aí, vou contar mesmo, e eu vou contar que você é uma frígida de merda que não dá essa sua bucetinha de ouro pro marido, se o meu marido não fosse um animal escroto eu talvez sentisse vontade de transar com ele, porra nenhuma, você sempre foi essa merda frígida, por que casou comigo, então?, porque eu sou burro, eu sou burro pra caralho, bem que a minha mãe avisou, avisou que você é burro, burro pra caralho?, vai tomar no cu, vai tomar no cu você e a bosta da sua mãe, a sua mãe que se foda, não fala assim da minha mãe, eu falo como eu quiser daquela vaca, vai tomar no cu, sua frígida babaca, para de me chamar disso, então para de me encher o saco e para de xingar a minha mãe, pega a porcaria da toalha pra mim, pega você, eu tô saindo do chuveiro, azar o seu, vou molhar o quarto inteiro, azar o seu, quê que custa levantar essa sua bunda gorda da cama, abrir o armário e pegar a porcaria duma toalha pra mim?, quê que custa não se atrasar pra igreja?, vou atrasar mais ainda se você não pegar logo essa toalha, seu jumento, vou pegar a toalha, mas é pra enfiar no seu cu, que inferno, pega a toalha, por favor, só pega a toalha, que toalha que nada, eu vou enfiar é outra coisa no seu cu, sua cretina, que é pra você aprender, enfiar o quê?, você sabe muito bem o quê, vai enfiar porra nenhuma, me provoca pra você ver, essa sua lombriga aí nem fica dura direito, seu porco meia-bomba, não fica dura porque você é uma cretina e ninguém tem tesão em mulher cretina, e ninguém tem tesão num hipopótamo gordo, desajeitado e bruto que nem você, vai à merda, vai cagar, vai você, vai você, babaca, babaca é você, você que é, você), mas não sabia quem e como eram.
Coreanos, respondeu o zelador. Mas tem certeza que o barulho vem do apartamento deles?
Absoluta.
Essas coisas enganam, às vezes.
Tenho certeza.
Eles são caladinhos e educadinhos.
Ela tava no banho e pediu pra ele pegar uma toalha. Ele disse que ia pegar, sim, mas pra enfiar no cu dela.
Eita.
Isso foi a coisa mais leve que ele falou.
Rapaz.
Os dois aos berros.
Jesus.
Eles não são caladinhos nem educadinhos.
Caralho.
Já reclamei por escrito duas vezes, já falei com a síndica, mas ela não fez nem vai fazer porra nenhuma, isso eu já entendi.
Ela é gente de bem.
Claro que é. Aqui só mora gente de bem. Como é que a síndica não ia ser gente de bem?
Calma. Ela só gosta de conversar bastante antes de multar ou coisa parecida. Na verdade, pra ser sincero, acho que ela nunca multou ninguém na vida. Fica só na base da conversa mesmo, mas tudo acaba se resolvendo. A gente nunca teve nenhum problema assim sério aqui.
Pois eu acho que ela nem falou com eles. Só disse que ia falar pr’eu sair do pé dela.
É possível. Ela não gosta de bate-boca.
Que bate-boca? Ela é a síndica. É só pedir pro casalzinho dar uma maneirada.
A gente nunca sabe como as pessoas vão reagir.
Mas isso faz parte do trabalho dela, caramba.
Ela é meio tímida, fica sem graça de chamar a atenção dos outros.
Ela fica dizendo que eu tô ouvindo errado.
Olha, pode ser.
Eu não tô ouvindo errado.
Se o senhor diz, eu acredito no senhor. Mas pode ser.
Não durmo direito faz um tempão. Eles não têm hora pra brigar. Chego no banco parecendo um zumbi. Não consigo dormir nem no domingo.
Por quê?
Eles me acordam todo domingo com a desgraça daquela música insuportável.
Que música?
Gospel.
O senhor me desculpe, mas não tem nada de errado com música de louvor.
Não tô dizendo que tem algo de errado com a desgraça dessa música.
Louvor e adoração não fazem mal pra ninguém.
Tô dizendo que é errado ligar o som na maior altura às sete da manhã de domingo.
“Deus proverá.”
Tô dizendo que é errado ficar berrando, berrando, berrando feito dois possuídos.
Não fala uma coisa dessas, por favor.
Achei que seria apropriado, dadas as circunstâncias e o rumo dessa conversa.
Olha só, eu…
O quê?
Já que o senhor insiste, eu vou trocar uma ideia com o irmão. Ele é gente boa.
Ele não é nada bom com a porra da mulher dele.
O senhor xinga demais, isso não é bonito.
A minha vida não anda nada bonita, e a culpa é desses dois arrombados.
Eu prefiro não sair por aí xingando e julgando os outros.
Bom, eu me reservo o direito de xingar e julgar quem fica berrando na minha orelha.
Vou falar com ele.
“Deus proverá.”
Não é certo fazer piada com isso.
Eu não tô rindo, não.
Tá, sim, senhor. Mas tudo bem. Cada um sabe da própria vida.
E eu sei da vida desses dois, mas a verdade é que eu não queria saber, não. Não queria saber nada.
Vou falar com ele.
Obrigado. Até mais.
Se o zelador conversou ou não com o sujeito, ele não soube nem procurou saber. Provável que tenham se reunido para falar mal dele. Sujeitinho desrespeitoso, o senhor precisava ver. Deve ser ateu. Trabalha em banco, mas aposto que é comunista.
Etc.
E os problemas continuaram.
Agora, pelo menos, ele sabia quem eram. Coreanos. Passou a prestar mais atenção. E não demorou muito para encontrá-los no elevador. Sorriram, simpáticos. Ele, gordo, mais de 1,90 de altura, camiseta, bermuda e tênis. Ela, 1,50, magrinha, de saltos e terninho, crachá de empresa de TI, cabelos tingidos de castanho-claro, rosto bonito, bem maquiada. Ambos na faixa dos 20 e tantos anos. Trocaram sorrisos e cumprimentos. Sabiam que era ele o vizinho reclamão? Provável que sim. O zelador sempre com muito a dizer. Reclamou da música de vocês. Que espécie de pessoa reclama de louvor a adoração? Eu achava que aqui só morava gente de bem. Esse sujeito é um debochado. Toma cuidado com esse tipo de pessoa.
Etc.
Naquela noite, por coincidência, ele os ouviu trepando. Era raro, mas acontecia. O homem fazia um som monótono, similar a um motor estacionário. A mulher respondia a cada estocada com uma sequência regular de oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh, sem quaisquer variações de intensidade ou volume. Às vezes, reclamava que doía, assim não, porra, mas era ignorada. Pelo som da coisa, percebeu que ela estava de quatro, num extremo da cama, e ele de pé, as solas arrastando no chão de vez em quando. Dada a grande diferença de estatura, talvez fosse a melhor opção disponível. Como de hábito, e para a sorte dela, a brincadeira não demorou. Ou melhor, ele não demorou: menos de três minutos na função e o motor estacionário fez um som mais grosso, como se uma correia estivesse prestes a arrebentar, o ritmo das estocadas aumentou, os intervalos entre os oh oh oh oh oh dela ficaram mais curtos, e então houve um instante de silêncio absoluto (Eles são caladinhos e educadinhos.), e a próxima coisa que se ouviu foi o som de passos, seguido pelo de uma camisinha sendo retirada e jogada na privada. Em seguida, o coreano mijou. E a voz fina da coreana pediu (o berro se sobrepondo ao som da caixa de descarga em processo de reabastecimento) um copo d’água.
Vai buscar você, respondeu o marido, batendo a porta do banheiro.
Ele conheceu poucos coreanos na vida, a maioria no trabalho, como gerente de contas jurídicas em uma agência da Caixa na Liberdade, e achou todos muito simpáticos. Também teve um colega coreano na faculdade, gente finíssima, engraçado, tranquilo. Mas os vizinhos eram simpáticos. Eram simpáticos com o zelador, com a síndica. Eram simpáticos no elevador. Mas não eram simpáticos entre si.
E os problemas continuaram.
Os mesmos: discussões terríveis duas ou três vezes por semana, e as ruidosas manhãs de domingo, música gospel, bate-bocas, berros, xingamentos, portas batendo, arrastar de móveis, saltos.
Até que, certo dia, tudo parou.
Ele não percebeu de imediato porque estava acompanhado. Havia meses que não trazia ninguém para casa. A colega recém-transferida, divorciada há pouco, querendo trepar menos porque gostasse dele e mais porque quisesse exorcizar o ex-marido. Como isso não fizesse a menor diferença para ambos, foram a um bar após o expediente e depois para o apartamento mais próximo — o dele. Largada na cama, pernas abertas e olhos fechados, a colega disse que preferia não ser chupada (Tô imunda.), recusou-se a chupá-lo (Gosto muito disso, não.), insistiu que a coisa não demorasse muito (Fico meio assada depois, não sei o que acontece.), mas convidou-o a gozar onde quisesse (Menos na cara, sempre esguicha um pouco no cabelo e é um saco pra lavar depois.). Ele a chupou mesmo assim (ela resistiu no começo, mas depois relaxou e gozou uma vez), após o que ela gentilmente se dispôs a retribuir (por pouco tempo, pois chupava mal, os dentes machucando a glande, e ele disse, disfarçando: Que tesão, quero meter, vem.), e a coisa se prolongou sem maiores ruídos e em duas posições (De quatro, não. Tenho vergonha da minha bunda, viu como é quadradona?). Por fim, ele gozou com ela rebolando sobre, os olhos sempre fechados e os peitos que amamentaram quatro filhos (Junior fez direito e trabalha com o pai, mas quer prestar concurso e virar juiz, Janaína tá quase se formando em fisioterapia, Juliana só quer saber de farrear e encher a cara, Jussara era boa aluna, mas agora descobriu os meninos. Você nunca casou nem teve filho, né?) pendendo e balançando, agridoces, conforme o andamento dos trabalhos. Depois, deitados na cama, até para que ela parasse de falar do caso do ex-marido com a estagiária (Levou a piranha prum resort em Foz e me disse que tava numa convenção em Goiânia, o desgraçado.), ele contou sobre os coreanos. A colega sugeriu um processo, ao que ele retrucou que era uma possibilidade, mas só em último caso. Sem que tivessem falado ou combinado nada, passaram a noite de sexta e o dia de sábado juntos, a nítida sensação de que nenhum deles tinham para onde ir ou coisa melhor para fazer. A segunda trepada, na manhã seguinte, depois que se banharam (primeiro ela, depois ele, a porta do banheiro fechada em ambos os turnos), foi melhor. Ele explicou que o uso dos dentes era incômodo e ela prestou um pouco mais de atenção ao que fazia (mal, ainda, mas uma chupada é uma chupada). Ela se deixou chupar e gozou duas vezes em sequência, o segundo orgasmo de uma intensidade tremenda.
Mais tarde, à mesa da sala, comendo uma macarronada que cozinharam juntos, ela disse: Gosto de pau grande.
Por que tá me dizendo isso?
Por nada. Só conversando. Meu marido tem um pau enorme. Ex-marido. Ex-pau, sorriu.
A maioria das mulheres que conheci dizia não gostar de pau grande. Machuca. É o que elas falavam pra mim, pelo menos.
Bom, acho que tem gosto pra tudo. Minha instrutora de pilates adora dar o cu, coisa que só fiz uma vez e foi um horror. Outro dia, sem querer, ouvi a Juliana falando pruma amiga que adora engolir porra. Te juro, meu ex gozou na minha boca uma vez, gozou sem avisar, o filho da puta, porque ele é escroto assim, ele gozou na minha boca e eu vomitei.
Sério?
Corri pro banheiro e vomitei na mesma hora.
Caramba.
Mas pode ser que uma ou outra das suas conhecidas tenha dito aquilo pra não te deixar sem graça. Seu pau não é muito grande.
Meu pau é pequeno, pode dizer.
Ela riu. Pelo menos não me deixou assada.
Você não gozou comigo metendo.
Sempre tive dificuldade pra gozar com penetração, sei lá por quê. Com qualquer um.
Acontece.
Mas você chupa gostoso. Meu ex não chupava direito.
Se ele não chupava direito e você tem dificuldade pra gozar com penetração, então você não gozava muito.
Transando com ele? Quase nunca. Mas eu tenho os meus brinquedos e ele viajava bastante.
Você só teve o seu ex-marido?
Não. Tive outros antes dele. E outros depois. Nenhum durante. Devia ter tido. Casamento é um troço desgraçado demais.
Meus vizinhos coreanos que o digam.
Desgraçado demais.
Nunca casei. E, a essa altura da vida, acho que não vai rolar, não.
Nunca se sabe. Essas coisas acontecem quando menos se espera.
Que coisas?
A gente se apaixona sem mais nem menos.
Ah, é?
Vai por mim. É como pegar uma doença.
Depois, terminado o jantar, pediu a ela que escolhesse um filme. Viram Margin Call.
Esse Kevin Spacey é maravilhoso, ela comentou ao final.
Era meia-noite quando voltaram para o quarto. Ele a chupou de novo. Ela o masturbou, oferecendo os peitos. Dormiram logo depois.
Ele só percebeu o silêncio dos coreanos na manhã seguinte. Domingo, mas nada de música gospel. Nenhum berro. Silêncio total.
Acho que o zelador e a síndica estão certos, disse a colega. Estavam na porta, despedindo-se. Ela ia almoçar com a filha que só enchia a cara e gostava de engolir porra. Você está imaginando coisas.
Pode ser, ele sorriu.
Bom, até amanhã. Obrigada pelo finde.
Por nada. Tchau.
Passou o dia todo com os ouvidos atentos. Teriam viajado? A única explicação possível. Então, por volta das duas da madrugada seguinte, acordou com o som de algo muito pesado sendo arrastado. A coreana gemia. Era o mesmo oh oh oh oh oh oh oh de quando ela e o marido fodiam, mas era óbvio que não estavam fazendo nada disso. A coisa era arrastada para fora do quarto. Ele se levantou e acompanhou o ruído. Corredor, sala. Ouviu a porta do apartamento deles sendo aberta. O arrastar chegando à área comum. Não havia câmeras nas áreas comuns, apenas nos elevadores. Será que. Num impulso, fechou a porta do apartamento e correu para as escadas. Descalço, ficou ali parado, procurando não fazer barulho. O arrastar e os oh oh oh oh oh vinham desde o andar superior. Um oh mais forte, algo sendo empurrado. Uma sequência de baques nos degraus, e então uma coisa enorme, enrolada em vários sacos plásticos pretos e fita isolante, caiu no intervalo entre os dois lances de escadas que ligavam os andares. A coreana veio logo atrás, ofegando, de tênis e moletom vermelhos, os cabelos presos num rabo de cavalo. Assustou-se ao vê-lo parado ali, ao final do lance seguinte, e ergueu as mãos como quem se rende; as mãos estavam repletas de calos e bolhas. Ficaram imóveis por algum tempo, encarando-se. Então, ele respirou fundo, abriu um sorriso tranquilizador e disse: Me espera aqui. Vou calçar uns tênis.
Ela hesitou, mas fez que sim com a cabeça.
Antes de deixar as escadas, ouviu a voz surpreendentemente baixa: Traz uma muda de roupas também.
Levaram dez minutos para descer os seis andares que faltavam. Foi só quando chegaram à garagem que ele se lembrou de que ali embaixo havia câmeras. A gente tá fodido.
Relaxa.
Relaxar como?
Só estão funcionando as do outro lado.
Desde quando?
Desde que eu dei um jeito nas desse lado.
Quando?
Agorinha mesmo.
Como?
O sistema do condomínio é uma porcaria.
Tá, mas.
Me espera aqui. Vou trazer o carro aqui pra perto.
Depois de arrastar o pacote até o Corolla, o porta-malas aberto e à espera, ele voltou a falar das câmeras. Ela suspirou como se lidasse com um oligofrênico e não disse mais nada. Em todo caso, era tarde demais.
A coreana dirigiu por uma hora, até uma pequena chácara não muito distante de Mairiporã. Não trocaram nenhuma palavra durante o trajeto. O buraco já cavado no quintal, a uns trinta metros dos fundos da casa. Tiraram o pacote do porta-malas e o arrastaram até a cova. Começou a chover. Em silêncio, ele pegou uma pá que estava por ali e terminou o serviço. Durante todo o tempo, ela ficou agachada, a cabeça coberta pelo capuz do moletom, apontando a lanterna na direção do buraco que ele fechava pouco a pouco.
Posso tomar um banho?, perguntou ao terminar.
Estava exausto. A coreana destrancou a porta dos fundos e o levou pela mão até a suíte. Não acendeu nenhuma das luzes, exceto a do banheiro, e se sentou sobre a tampa do vaso sanitário. Respirou fundo e fechou os olhos por um instante. Ainda segurava a lanterna com a mão direita. Como ela não indicasse que o deixaria só, ele se despiu, abriu o chuveiro e entrou no box. Água gelada. Foi só então que ela saiu. Voltou pouco depois com a muda de roupas que ele trouxera e uma toalha. Deixou tudo sobre a tampa do vaso, depois se abaixou, pegou as roupas sujas e desapareceu outra vez.
Foi reencontrá-la no quarto penumbroso, iluminado apenas pela luz que vinha do banheiro; estava sentada na beirada da cama, as mãos sobre o colo, olhando para o chão. A chuva lá fora engrossara. Depois eu queimo as suas roupas, disse em um tom baixo, gentil; nem parecia a mesma voz que berrava com o marido.
Eu tava pensando… e a mãe dele?
Morreu na semana passada, respondeu sem se virar.
Irmãos, primos?
Ele não tinha mais ninguém. Relaxa. Vai dar tudo certo.
Vai dar tudo certo, repetiu maquinalmente. O que você fez? Deu uma martelada na cabeça dele?
Ela riu de súbito, tapando a boca, o gesto de uma adolescente envergonhada. E depois: Não. Muita sujeira. Foi veneno.
Veneno.
Veneno. Relaxa. Eu cuidei de tudo. Vai dar tudo certo. Você quer dormir aqui?
Não seria melhor eu voltar? Manter a rotina? Tenho que trabalhar daqui a pouco.
Tem razão.
E eles voltaram. De novo, nenhuma palavra trocada no trajeto. Quase seis da manhã quando chegaram à rua em que moravam.
Me deixa ali na esquina.
Em silêncio, ela parou o carro.
Tem algum dinheiro?
Dinheiro?
Deixei minha carteira em casa.
Alcança a minha bolsa. Taí no banco de trás.
Uns vinte reais, só.
Ela achou uma nota de cinquenta e jogou a bolsa de volta.
Sem dizer mais nada, ele pegou o dinheiro, desceu e tomou a direção contrária à do prédio, ouvindo o carro arrancar às suas costas. Rua e calçadas desertas, o bairro sempre tranquilo àquela hora. Às segundas, tomava café na padaria.
Manter a rotina, repetiu.
Em casa, meia hora depois, tomou outro banho e se vestiu para trabalhar. Não estava atrasado. Ficou sentado na beirada da cama, a mesma posição que ela assumira na chácara, mãos sobre o colo, olhando para o chão. A cama desfeita. Ainda um cheiro forte de sexo no cômodo. No apartamento de cima, o som de passos, da tampa do vaso sendo abaixada, dela urinando, da descarga, da torneira da pia sendo aberta e fechada, mais passos, e o que ela fez? Não saiu do quarto. Deitou-se? É provável. Eu me deitaria, se pudesse. Como não pudesse, levantou-se e foi trabalhar.
Que cara é essa?, a colega perguntou tão logo entrou na agência. Parecendo um zumbi.
Dormi mal. Dormi pouco.
Sentiu a minha falta, foi isso?
Foram os coreanos.
Com uma expressão desinteressada, a colega suspirou e se encaminhou para a mesa que ocupava, não sem antes dizer: Malditos coreanos.
O dia se arrastou, monótono. Foi direto para casa ao final do expediente. E, então, viu-se na mesma posição daquela manhã, vestido e calçado, sentado na beirada da cama, mãos sobre o colo, olhando para o chão. E, como antes, ouviu quase os mesmos sons no apartamento de cima, passos, a tampa já abaixada porque o homem da casa não estava mais lá, a urina, a descarga, a torneira, mais passos, mas dessa vez os passos seguiram pelo corredor, seguiram até que não os ouvisse mais. Pouco depois, a campainha tocou. Ele destrancou a porta e abriu passagem. Sem dizer nada, ela caminhou até o quarto e se estirou na cama. Usava um pijama azul-marinho. Estava descalça, os cabelos desgrenhados. Nenhuma maquiagem. Ele descalçou os sapatos e se deitou ao lado dela. Ficaram olhando para o teto.
Dormi o dia inteiro, ela disse após alguns minutos.
Eu ainda não dormi.
Eu sei. Pode dormir agora.
Tá bom.
Que cheiro é esse?
Cheiro?
Esse cheiro.
Desculpa. Esqueci de trocar as roupas de cama.
Alguém veio aqui? Você esteve com alguém?
Pensou em mentir, mas por que faria isso? E respondeu: Na sexta, no sábado. Uma colega de trabalho.
Com um gesto rápido, meio ansioso, alcançou a mão direita dele. Entrelaçadas. Um aperto firme. E perguntou: Ela vai voltar?
Ele fechou os olhos antes de responder, sorrindo, que: Não. Ela não vai voltar, não.

 

***

 

Imagem: óleo sobre tela de Carina Aerden.

“Ulysses” aos cem

Escrevi um pequeno texto para a edição de hoje do caderno Pensar, d’O Estado de Minas, sobre as traduções de que dispomos do Ulysses, de James Joyce. Leia clicando na imagem abaixo. O romance completa cem anos de seu lançamento no dia 2 de fevereiro. Mais textos que escrevi sobre o Ulysses e outros livros de Joyce AQUI.