Um prólogo.

Um prólogo.

Abaixo, na íntegra, o prólogo do meu novo romance, que será lançado pela Record em 2023. Publiquei uma versão anterior desse mesmo trecho meses atrás. Esta é a versão final (acho). O romance é uma narrativa policialesca, espécie de “pequi noir que se passa sobretudo em Goiás e Brasília, em 1983. A imagem que ilustra o post é Garota com arma rosa (óleo sobre tela, 2012), de Claudia Alvarez.

………

P R Ó L O G O

T Á R T A R O

[1º.ABR.1983]

Desci ontem ao centro da cidade, ele diz após riscar um fósforo e antes de acender o cigarro que pende da boca, o levíssimo sotaque estrangeiro e a voz meio empostada insuflando cada vogal com algo que remete à ameaça de um bocejo. Dei uma boa olhada na festa.
Festa?
Uma primeira tragada, os olhos fixos na água corrente, depois na ponta do cigarro encaixado entre os dedos indicador e médio da mão direita, mão que agora repousa sobre a coxa. As cadeiras de metal a três passos da água; ele as trouxe no porta-malas do carro, emprestadas pelo pai dela, a ideia de se sentar no chão ou numa toalha estendida não apetecendo a nenhum dos dois. Estão ambos descalços, com bonés e roupas de banho, ela de biquini verde e bermuda jeans, ele usando uma sunga azul e uma camiseta com a bandeira do Arizona estampada, os treze raios vermelhos e dourados como o pôr-do-sol no estado do Grand Canyon, treze como as treze colônias originais, e a estrela acobreada, tenho um amigo que mora em Scottsdale, explicou minutos antes, comprei isso na última vez em que passei por lá para visitá-lo, ele não anda nada bem. No chão, entre as cadeiras, três garrafas grandes de água mineral, uma delas aberta e pela metade, e uma sacola plástica com a boca aberta e os restos do café da manhã: nacos e farelos de biscoitos de queijo e sanduíches de mortadela, dois caroços de maçã, três latinhas de refrigerante, vazias e meio amassadas, além de um amontoado de cascas de amendoim.
Festa?
Ele se abaixa e deixa o maço de Dunhill e o pacote de fósforos no chão, ao lado das garrafas de água mineral, depois alcança, em meio aos restos, uma das latinhas para usar como cinzeiro, endireita o corpo e dá outra tragada. Vou parar de fumar depois da páscoa, diz, batendo as cinzas.
Desde quando ateu faz promessa desse tipo?
Não sou ateu, e não é uma promessa.
Ah, não?
Uma decisão, só isso.
Uma escolha?
Sim, ele responde, abrindo os braços e um sorriso. Contemple as minhas boas escolhas.
Prefiro contemplar as suas bolas.
Minhas bolas ficam lisonjeadas.
E não é uma festa.
O quê?
Não sei se dá pra chamar aquilo de festa.
E chamaremos de quê?
Acho que o nome certo é procissão mesmo.
O nome correto?
Isso. Correto, apropriado.
Procissão, ele diz e sorri outra vez, depois leva o cigarro à boca, fechando os olhos ao tragar.
Procissão. Isso aí.
Expelindo a fumaça para o céu aberto: Certo. O que mais?
Também não sei se dá pra dizer que você desceu.
Mas eu senti como se descesse.
Ela cantarola: “Da planície racional, uns desceram sem razão…” Sabe o que foi essa porcaria toda?
Não, mas consigo imaginar.
Cachaça. Muita cachaça ontem.
Bebi menos do que você.
Sim, mas é disso que se trata.
Disso o quê?
Você bebeu muito e sentiu como se descesse. Eu bebi ainda mais e senti como se… qual é mesmo a palavra?… ascendesse.
Ele gargalha, batendo as cinzas na boca da latinha. Você ascendeu, sim, pequena.
Não foi?
Uma nova tragada e: Foi, sim. Você ascendeu do chão do banheiro à boca da privada e, entre uma golfada e outra, calhou de fazer umas previsões apocalípticas.
Ela sorri, satisfeita consigo mesma. É, acho que fiz isso.
Sim, você fez.
Eu fiz, sim.
E houve quem achasse assustador.
Claro que houve.
A velha do quarto vizinho disse que você estava possuída.
Uma gargalhada sincera, a cabeça lançada para trás. Ai, ai, ai. Quem sabe, né?
Mas você se lembra das coisas que falou?
Mais ou menos.
Entre outras bobagens que não consegui discernir, você disse que Goiás será consumido pelo fogo, e que isso vai acontecer muito em breve.
Mas isso não é uma bobagem.
Ah, não?
E não é uma previsão apocalíptica. Isso é uma previsão agrária. Essa merda acontece todo ano.
A dona da pousada veio falar comigo ontem à noite, quando voltei da procissão.
Falar o quê?
Ela ficou preocupada com o seu estado.
Vou sobreviver.
Foi o que eu disse pra ela. A velha e outros hóspedes reclamaram. Disseram que a nossa conduta foi um tanto desrespeitosa. Creio que alguém usou o termo “blasfêmia”. Estamos na Semana Santa, afinal.
E?
Nada. Você vai sobreviver. E a dona da pousada segurava o riso ao falar comigo. Acho que não estamos enrascados.
E os carolas que se fodam.
Porque alguém precisa se foder.
Sempre.
Outra tragada e ele se lembra de que: Era engraçado como você pronunciava fogo, engrossando a voz e subindo o tom de repente, e depois gargalhava de um jeito meio demoníaco.
Ou seja, a apreensão dos fiéis é compreensível.
Bastante compreensível.
Mas, agora que eu sei de tudo isso, sabe o que não é compreensível? Me deixar sozinha naquela merda de pousada, à mercê desses desvairados.
Você caiu no sono. Parecia bem.
Apedrejamentos, cruzadas e linchamentos foram promovidos por menos que minhas palavras junto à privada, eminência.
Suas previsões agrárias.
O fogo caminha com as próprias pernas.
Assim como eu. Saí e voltei bem rápido, você nem se deu conta.
Me deixou sozinha naquela bosta de quarto.
Eu queria ver a procissão, já que viemos até aqui.
Um turista.
Quando me convém. E agora os meus pés estão me matando.
O que dói é a porra da minha cabeça, ela esfrega os olhos com o polegar e o indicador da mão esquerda. Preciso rebater.
Achei muito bonita a procissão.
O turista achou muito bonita a procissão e disse: “Achei muito bonita a procissão”, disse o turista, que achou muito bonita a procissão.
Uma risada curta e ele dá uma última tragada, depois se abaixa, apaga o cigarro numa das pernas da cadeira e joga a guimba dentro da latinha, que devolve à sacola com os restos. Em seguida, endireita o corpo e corrige: Turista, não. Visitante.
Tá bom. O visitante achou muito bonita a procissão.
Achei mesmo. Estou falando sério. As luzes da cidade apagadas e todas aquelas tochas e velas, os tambores, a cantoria das pessoas. Só as roupas são meio tenebrosas.
Farricocos.
Como?
Tá falando das roupas dos caras que levam as tochas?
Sim.
Eles são chamados de farricocos. Representam os soldados romanos que vão atrás de Cristo.
Ah, sim. Essa parte eu entendi. Também gostei que Jesus seja representado por um… qual é o nome daquilo mesmo?
Sei lá. Estandarte?
Isso. Gostei que Jesus seja representado por um estandarte, e não por um ator não profissional, um amador de carne, osso e sotaque goiano.
Não é fácil ser o Messias.
Imagino que não.
Ainda mais em Goiás.
Não creio que seja fácil em lugar nenhum.
Mas você tem razão, é bem melhor usar a joça desse estandarte do que, sei lá, botar uma fantasia no sobrinho barbudo do sacristão.
Você sabe de onde é que veio tudo isso? Como foi que começou?
Ela respira fundo, coçando o queixo. Acho que um padre começou a brincadeira uns duzentos anos atrás. Claro que o troço não nasceu aqui, em Goiás. Lá na terrinha, na época da Inquisição, a brincadeira já rolava.
Bons tempos.
Ainda rola, na verdade.
Na Europa?
Em Portugal.
A Inquisição?
Não, seu palhaço. A procissão.
Foi o que eu imaginei.
Procissão do Ecce Homo ou das Endoenças.
Como é que você sabe de tudo isso?
Encolhe os ombros: Ué, sabendo. A procissão acontece todo ano, é claro. E todo ano tem matéria no jornal, na TV, e o escambau. Do que mais os caras vão falar na quaresma?
Endoenças, você disse?
Sim. Porque é na Quinta-Feira Santa, o dia das endoenças, das indulgências, do perdão, da limpeza.
Em vista de tudo isso, ele diz, meio sério, preciso confessar uma coisa.
Eu quero saber?
Não estou me sentindo particularmente limpo nesta manhã.
São as companhias.
Talvez eu dê um mergulho.
Mergulhou ontem.
Eu? Onde?
Na procissão. Sozinho.
Ah, sim. E meus pés estão me matando.
Acho que você consegue imaginar o quanto a brincadeira era mais animada no século XVIII, né? A galera se entregando à autoflagelação no meio da rua e tudo o mais.
E você não chama isso de festa?
Viu alguém chicoteando o próprio lombo ontem?
Infelizmente, não.
Ou, sei lá, o lombo de outro desvairado?
Infelizmente, não. Mas estava escuro.
E o senhor, bêbado.
Menos do que você.
Ascender é complicado.
Eu não saberia dizer.
Ela ri, esfregando os olhos outra vez. Nunca participei de procissão nenhuma. Acho tudo isso meio… sei lá.
Nenhum sentimento oceânico.
Não começa.
Quem sugeriu essa viagem foi você.
Não essa viagem. Não vim aqui pra acompanhar porra nenhuma de procissão.
Você não acompanhou a procissão.
Queria mesmo era vir pra cá.
Pra beira do rio.
Pra beira do rio, longe de todo mundo.
E aqui estamos.
Aqui estamos. Não vai mergulhar?
Pensando melhor, não.
Vou dar um pulinho no carro e pegar a cachaça.
Hora de rebater.
Hora de rebater.
Rebater. Sua ideia de endoença.
Como o senhor é perspicaz, ela diz e se levanta com dificuldade, ajeita a bermuda e capenga os doze metros até o Landau. Mas, antes de pegar a garrafa, para junto à traseira do carro, apoia-se no porta-malas e devolve o desjejum ao mundo exterior. Refrigerante, amendoim, biscoitinhos, pão, mortadela e queijo. Puta que pariu.
Dia das Endoenças, ouve, e uma gargalhada.
Vai tomar no cu!, berra. Isso foi ontem.
Se você diz.
Ela se abaixa e vomita mais um pouco. Acho que é tudo, pensa um instante depois. Biscoitinho maldito. E essa mortadela. E os amendoins que comeu a caminho dali, sacolejando na estrada. Queimação. Como se tivesse engolido as quarenta tochas dos farricocos. Ecce estômago. Minha procissão interior. Haja fígado. Ou do interior pro exterior. Ascensão? Espera mais um pouco. Ascensão. Então, contorna o carro, abre a porta do passageiro e alcança uma das garrafas sob o banco. Pouco mais de um terço. Alambique local. Fabricação artesanal. Os litros comprados num boteco de beira de estrada, não muito longe da cidade. Dois deles. Ou seja, na noite anterior, entornaram quase um litro, fora as cervejas. Eu entornei. Sim, a maior parte sozinha, porque esse gringo viado só fica bebericando. Quase dois terços. Uau. Melhor rebater mesmo. Vinde a mim o Cão. Tira a rolha, respira fundo. Um gole. Fogo. Como se tivesse engolido as quarenta tochas e os farricocos. Firma o golpe. Isso. Segura essa joça aí dentro. Isso, mulher. Contar até. Dez? Mais. Passado um minuto, a coisa parece se assentar. Sim: nem sinal de uma possível nova devolução. O poder de ablução da cachaça. O que ele tá cantarolando lá embaixo? Minha ideia de endoença: rebater. I get ideas, I get ideas. Mais um golezinho. Que belo vozeirão. Se o estômago é por nós, quem será contra nós? Ele canta safadezas. Estômago. Ele faz safadezas. Estômago, fígado. Ele vive de safadezas. Estômago, fígado, cabeça. Enfim. Cabeça: invadida a terra sacripanta. Cercada a cidadela. Derrubados os portões. Rompida a derradeira linha de defesa. Abatida a usurpadora — ressaca. Cabeças fincadas em estacas, nos muros, mas não a minha, jamais a minha. Agora: caos, pilhagem e devastação. É isso aí.
Na beira do rio, ele acendeu outro cigarro. Melhor?
Nada como o cheiro de vômito pela manhã, ela responde e, em vez de se sentar, coloca a garrafa no chão com todo o cuidado, livra-se da bermuda e a pendura no encosto da cadeira. Em seguida, alcança uma das garrafas de água mineral, abre e toma um gole bem longo, fecha, recoloca onde estava, entre as cadeiras, vira-se, pega a garrafa de cachaça e avança alguns passos, adentrando o rio até que a água cubra os joelhos. A correnteza ali não é forte. Ela se vira e mergulha a metade inferior da garrafa, malditos grãos de areia, depois se abaixa e, com a outra mão, joga um pouco de água no rosto, esfregando os olhos e os lábios. Quando termina, encara o homem sentado na margem. Uma troca de sorrisos. Do que é que eu falava mesmo, eminência?
Do cheiro de vômito pela manhã.
Ah, sim.
Que tal?
Cheira a vitória.
Se você diz.
Eu digo.
Cuidado pra não molhar o curativo.
Olha para a própria barriga e sorri. Essa porra tá quase boa.
Se você diz.
Eu digo, e em seguida tira a rolha da garrafa e toma outro gole. A careta se confunde com uma risada, e a risada dá lugar a um arroto curto, mas: Auspicioso. Curada, doutor.
Quase.
Quase. Seguimos.
Seguimos, ele repete, desviando os olhos para o rio. Bate as cinzas na boca da latinha. E diz, bem alto: Riverrun.
Que merda é essa?
Um rugido que precede um trovão.
Tá mais prum arroto, talvez?
O que você quiser que seja.
Se incomoda se eu…?
O quê? Ah, não. Capricha.
Não obstante estarem em plena Sexta-Feira da Paixão, a imagem é algo carnavalesca: ela puxa o biquini para o lado e deita um formidável jato de urina no leito do rio, dizendo com os olhos voltados para baixo: Note a alvura do mijo, excelência. Sublinhe, frise, destaque, celebre. Amarelo-claro, na verdade. Sim, excelência. Pareço saudável.
Prankquean, diz ele.
É a mãe.
Uma princesa.
Nesse caso, sorri, ajeitando o biquini, três tapinhas no púbis, euzinha mesmo.
Ele repete os gestos de antes: uma última tragada e se abaixa, apaga o cigarro numa das pernas da cadeira, depois joga a guimba dentro da latinha, que devolve à sacola com os restos. Me dá um gole, pede ao endireitar o corpo.
Dê-me um gole, diz a gramática do professor e do aluno e, salvo engano, do mulato sabido.
Sou um bom negro, retruca, piscando o olho esquerdo. Anda logo.
Rindo, vai até ele e diz ao estender a garrafa: Mas não da Nação Brasileira. Aqui, meu bom senhor.
Mas não da Nação Brasileira, ele concorda, pegando a garrafa. Agradecido, senhorita.
A senhorita vai se sentar, ela diz, sentando-se. E a senhorita acha que devia ter rebatido antes de comer. Devia ter rebatido antes de escovar os dentes, antes de levantar da cama, antes de abrir os olhos. Porra, a senhorita acha que devia ter rebatido antes de acordar.
Ele respira fundo e dá um golezinho, depois outro, e faz uma careta medonha.
Tudo bem por aí?
Deus me perdoe, mas estou pensando no meu fígado.
Não penso muito no meu, mas sei o que ele pensa de mim.
Devolve a garrafa, tossindo três vezes em sequência. Acho que vou me ater à cerveja a aos destilados mais amigáveis daqui por diante.
Outra promessa de ateu?
Quem vomitou foi você.
Um momento, coronel. Eu vomitei o desjejum antes de dar início aos trabalhos. Logo, a cachaça que ingeri está onde deveria estar, no estômago e pela corrente sanguínea, a caminho da cabeça.
E ontem? Vomitou o quê?
Ontem, conforme já discutimos e atestaram os testemunhos colhidos nas proximidades da cena do crime ou, melhor dizendo, nas proximidades da ocorrência, ontem foi um caso evidente de possessão demoníaca.
Ele sorri, concordando com a cabeça. Quando você foi ao carro, fiquei pensando que aqui é um bom lugar pra acampar.
Deve ser.
Embora eu não tenha mais idade pra dormir no meio do mato, dentro de uma barraca, ou consiga passar a noite ao redor de uma fogueira.
Fogueiras: melhor evitar.
Sobretudo em Goiás.
É isso aí. Ainda mais em Goiás.
William costuma vir aqui, certo? Pescar?
Sim. Quer dizer, não aqui, exatamente. Um pouco mais pra baixo. E também pros lados do Mato Grosso, perto da divisa dos estados. Britânia.
Britânia?
É o nome de uma cidade.
Ele sorri: Claro que é.
Meu pai gosta muito de pescar no Rio Vermelho.
E você?
Eu? Não, pescar não é comigo, não.
E ela negou três vezes.
Não, não e não. É isso aí.
William nunca te convidou?
Ele sempre me convida. Ele convida todo mundo, o tempo inteiro, sem parar. A vida dele é uma longa pescaria, com alguns intervalos. Quando não tá pescando, tá chamando os outros pra pescar. Ele já convidou você.
Sim, é verdade. Várias e várias vezes. Siga-me, e eu farei de você pescador de peixes.
Não, não e não.
Estive com ele na segunda-feira.
Ela toma um golezinho, pressentindo que a maldita conversa se aproxima e não terá para onde fugir. Colocaram o papo em dia?
Falamos sobre a sua barriga.
Um sorriso, a boca da garrafa ainda tocando os lábios. Ora, mas que surpresa, não é mesmo?
Quero saber o que aconteceu, pequena.
Gosto de como você vai direto ao ponto.
Direto ao ponto? Estamos juntos desde ontem e só agora perguntei a respeito.
Tecnicamente, você ainda não perguntou.
Não seja por isso. O que aconteceu?
Bom, ela pensa, tomando outro gole curto, se é pra falar dessa merda, melhor que seja agora e aqui, na beira do rio, uma conversa movida a cachaça e gracinhas, e não entocados num quarto de pousada ou no carro, ressacados, pegando a estrada. E diz, recolocando a rolha: Tá bom. O que aconteceu? Um corte. Fui cortada. Alguém me cortou.
E quanto aos detalhes?
Sorri: Claro, excelência. Os detalhes.
Olha para ela, sério: Sim, os detalhes. Por favor.
Eu acho que…
Não me entenda mal. Não quero te chatear, não quero te encher o saco. Sei como esse tipo de conversa pode ser sacal.
Quer o quê, então?
Eu me preocupo com você. Só isso. E não vou poder te ajudar se não souber o que aconteceu. Não me entenda mal.
O sorriso desapareceu, os olhos agora fixos na outra margem. No barranco. Eu sei, diz, passado um momento. Eu sei.
Parece que William e o Velho se estranharam.
Eu soube.
Você não está preocupada?
Um pouco, mas que merda eu posso fazer? E que merda eu podia fazer naquelas circunstâncias?
Eu não sei das circunstâncias. Não sei dos detalhes.
Tava fora.
Eu estava fora.
Tem passado muito tempo fora.
Trabalho. Que merda eu posso fazer?
É, eu sei.
Vai me contar o que aconteceu?
Vou te contar o que aconteceu.
Estou ouvindo.
Quê que você sabe?
Sei de uma confusão num boteco. Sei que você foi a esse lugar a pedido de alguém. Sei que acabou se machucando. E sei que sobrou pra essa outra pessoa, a pessoa que te machucou.
Sabe de uma coisa ou outra.
Algumas. Poucas.
É, poucas.
Como disse, não sei dos detalhes.
Não foi num boteco.
Não?
Foi num puteiro.
E o puteiro é do Velho? Daí a confusão?
Não, não, não. O puteiro não é do Velho.
E de quem é?
Arranca a rolha, frustrada, e toma outro gole, depois respira fundo. Ok, meritíssimo. Vamos aos detalhes. Conhece o Abaporu?
O quadro?
Não, caralho. O puteiro.
Abaporu?
Tem um puteiro com esse nome em Goiânia. Pensei que um cavalheiro como o senhor, enturmado como é, conhecesse o Abaporu.
Não frequento puteiros.
Mas frequenta pessoas que frequentam puteiros, e as pessoas falam, contam histórias, comentam, sei lá.
Abaporu.
Abaporu. Depois dessa história, é o Devil’s Whorehouse da música dos caras. Puta que pariu. Quando eu peco, peco pra valer.
Música de quem?
Como, de quem? Vou nem responder essa. Eu, hein? O senhor é um filisteu.
Depois eu procuro saber. Dou uma olhada nos seus discos.
A dona do Abaporu, Elizete, é amiga do meu pai. Amiga desde os tempos dele na Civil, sabe?
Sim, mas por que o puteiro se chama Abaporu?
Porque a Elizete teve elefantíase.
Uma gargalhada. Claro, claro.
O lugar tem outro nome, na verdade, mas algum engraçadinho apelidou de Abaporu e todo mundo só chama assim, inclusive quem não faz ideia do que significa a porra desse nome.
Entendi.
Eu tava na casa do meu pai, sozinha. Ele foi pescar numa chácara perto de Anápolis e me deixou lá, disse que voltava no domingo e a gente ia almoçar num lugar bacana. Passei a tarde de sábado na beira da piscina, fiz umas caipirinhas, ouvi música, e depois, à noite, pedi uma pizza, comi e fui cedo pra cama. Acordei com o telefone tocando. Duas da manhã, por aí.
Elizete.
A própria. Tava desesperada. Um sujeito tinha comido uma puta e se recusava a pagar porque a moça teria chupado o pau dele com uma bruta má vontade.
Acontece.
E aconteceu dele dar uns socos na cara da menina e chutar ela até um segurança entrar no quarto e deitar o imbecil na porrada. E agora cê deve tá pensando: um peão batendo numa puta a troco de nada?
Acontece o tempo todo.
E, porque acontece o tempo todo: o que Isabel e William têm a ver com essa confusão?
Você imita a minha voz muito mal, mas, sim, o que você e William têm a ver com essa confusão?
A questão, eminência, é quem era o sujeito, e o que fizeram com ele.
São duas questões, então.
Foda-se. A Elizete foi até o quarto pra ver o que tinha acontecido e reconheceu o desgraçado. Ele não era um peão, não era um cliente qualquer, não era um eletricista, contador ou borracheiro farreando no dia do pagamento. Nada disso. Ele era um funcionário do Velho. E a Elizete entrou em desespero, não sabia o que fazer. Daí, mandou o segurança arrastar o sujeito pro escritório dela, amarrar numa cadeira e amordaçar.
Que ideia estúpida.
Depois, ligou pra casa do meu pai.
Que não estava.
Mas eu, sim.
E você foi até lá.
Fui. Bêbada e desarmada, mas fui.
E por que foi desarmada?
Porque tava bêbada, chapada, morrendo de sono, saí numa correria desembestada e… enfim.
Enfim?
Foi isso. Cagada minha.
E o que aconteceu?
Cheguei lá e a cena era uma beleza. Todo mundo no escritório, o sujeito amarrado numa cadeira, pelado e com a fuça estourada, o segurança com cara de bunda, a menina com o nariz e uns dentes quebrados, segurando uma fronha de travesseiro assim junto da boca e gemendo de dor, e a Elizete arrancando os cabelos. Tirei a mordaça do imbecil e perguntei se ele me conhecia. Ele disse que me conhecia e conhecia o meu pai. Perguntei se não seria o caso de resolver a situação sem criar mais problema pra ninguém. Desescalar a coisa, por assim dizer. Ele respirou fundo e, pra minha surpresa, foi incrivelmente sensato. Disse que tava mais calmo e menos bêbado, pediu todas as desculpas do mundo, pediu que fosse desamarrado, disse que só queria tomar um banho e se vestir, disse que é claro que ia pagar tudo o que devia, arcar com todos os prejuízos, incluindo o conserto dos dentes da moça, ele disse moça, não puta, disse que ia pagar tudinho e iria embora numa boa, sem criar caso. Eu queria conversar mais um pouco, ver qual era, mas a Elizete já foi logo mandando o segurança desamarrar o cara.
Outra ideia estúpida.
Tanto quanto o segurança, que não conseguia desfazer a porra do nó.
O que ele fez?
Puxou um canivete.
É claro que ele puxou um canivete.
Puxou um canivete e cortou a corda. Só vi a cotovelada bem no meio da cara do segurança e o canivete já na mão do outro, que me deu um pontapé no peito e voou pra cima da moça. Ela tava sentadinha no sofá, coitada, zonza, mais preocupada com o sangue que ainda botava pelo nariz e pela boca, acho que nem entendeu direito o que acontecia. Ele meteu o canivete nela com gosto.
E o que você fez?
Bom, tudo isso aconteceu bem rápido, ele quebrar o nariz do segurança, pegar o canivete, me chutar e começar a furar a menina daquele jeito. Assim que consegui me levantar, alcancei uma garrafa quase vazia de Natu Nobilis que tava em cima da mesa e acertei na cabeça do vagabundo. Achei que ia ganhar um tempinho com isso, talvez até desmaiar o corno, mas ele já se virou rasgando a minha barriga. Dei um pulo pra trás, meio desequilibrada, mas consegui pegar uma cadeira e, a partir daí, a gente ficou se rodeando no meio do escritório, ele pelado e rindo e coberto de sangue, a moça estrebuchando, caída assim de lado no sofá, uns furos horríveis no pescoço, nos peitos e até na cara, o segurança ainda largado no chão, com o nariz sangrando, sendo inútil como só homem sabe ser nessas horas, e a burra da Elizete com os olhos esbugalhados atrás da mesa, paralisada. Não sei quanto tempo a gente ficou nisso, ele com o canivete na mão, rindo e xingando sem parar, e eu segurando a garrafa quebrada com a mão direita e a cadeira com a esquerda, igual a uma domadora.
Bela imagem.
Só diz isso porque não tava lá no meu lugar.
Em geral, é assim que funciona.
O quê?
As coisas que a gente diz.
Não é fácil a vida no circo.
Prossiga, por gentileza.
Pois não. Como eu disse, não sei quanto tempo a gente ficou se rodeando daquele jeito. Provável que menos de um minuto, mas pareceu uma eternidade, sabe como é. O corte na minha barriga sangrava um bocado, meu peito doía feito o diabo por causa do chute, e eu me lembro de ficar ali pensando que tava fodida porque não ia demorar muito pra desmaiar, o cara ia pular em cima de mim e me furar igual furou a coitada da menina. Só sei que, felizmente, a Elizete saiu do coma e resolveu tomar uma atitude, porque o desgraçado acusou um golpe assim do nada, soltou o canivete e colocou as duas mãos na boca do estômago.
Você não ouviu o tiro?
Não, não ouvi porcaria nenhuma, meus ouvidos tavam um zumbido só, e eu nem sabia que a paspalha da Elizete tinha uma arma ali, ou tinha pegado ao chegar, antes que desamarrassem o vagabundo. Primeira coisa que teria feito, pode apostar. Olhei pro lado e vi o 22 na mão da Elizete. Olhei pro sujeito e ele se tremia todo, tinha começado a chorar. Um bocado de merda escorria pelas pernas dele. Larguei a cadeira e a garrafa, tomei o revólver da mão da Elizete, cheguei bem perto do babaca e dei um tiro nos bagos dele. O cara foi direto pro chão e ficou lá se contorcendo e soltando uns berros curtos, como se não tivesse mais fôlego, todo encolhido e sujo de sangue e de bosta.
Caramba.
Gostou dessa imagem também?
Não é fácil a vida no circo.
Foi o que eu falei.
Foi o que você falou.
O desgraçado demorou um bocado pra morrer.
E depois?
Falei pra Elizete empacotar os corpos do jeito que desse, limpar a sujeira e mandar o segurança ou algum outro inútil que trabalhasse pra ela atrás do meu pai. Expliquei onde ele tinha ido pescar e tudo.
Quem cuidou do seu ferimento?
Liguei pro Chiquinho e ele mandou uma conhecida nossa, auxiliar de enfermagem. Ela fez o serviço lá no puteiro mesmo, num dos quartos. Trabalhou direitinho. Não infeccionou nem nada. Dormi por lá. Quando acordei, já tinham limpado a bagunça, e a Elizete veio me dizer que meu pai ia almoçar com o Velho pra colocar uns panos quentes na situação.
Na 85?
Isso, na churrascaria do Velho. Eu voltei pra casa do meu pai, tomei um banho, troquei o curativo e fiquei descansando.
Discutiram feio nesse almoço, pelo que eu soube.
Pois é. Meu pai voltou à tardezinha e me contou. Ele acabou oferecendo uma compensação.
Que o Velho aceitou.
Aceitou, né. Fez todo o cu doce do mundo, mas aceitou.
Mas as coisas ainda ficaram mal aparadas.
Ficaram. Foi uma bagunça desgraçada.
Quase sempre é, pequena.
Voltei pra casa uns dias depois e não pisei mais em Goiânia desde então. Achei melhor dar um tempo.
É o melhor a fazer.
Ela concorda com a cabeça e se levanta.
Uma bagunça desgraçada, repete, pensativo.
Outro aceno de concordância enquanto dá alguns passos rio adentro. Fica ali por um bom tempo, de costas para ele. Toma mais um gole de cachaça. Quase no fim. Quase . Os olhos se voltam para o céu por um instante. Talvez se chovesse, pensa. As gotas de chuva no rio. Água na água. Mas, e daí se chovesse? As costas ardem com o sol. Um dia virá um incêndio de verdade. Um incêndio pra valer. Era isso que falava na noite anterior, largada no chão do banheiro? Sorri. Fogo. Sim, era isso. Ou coisa parecida. Quando afinal se vira, ele já acendeu outro cigarro. Sente que precisa dizer alguma coisa. O quê? Não faz ideia. Mais um gole de cachaça e: Porra, eu não fui lá no Abaporu pra matar ninguém, não.
Eu sei.
Só queria resolver a bosta do problema.
Eu sei.
Problema que nem era meu.
Eu sei.
Pois é, diz e sai da água, os braços largados ao longo do corpo, a garrafa batendo contra a coxa direita. Fica parada defronte à cadeira, de costas para o rio. Outro gole. Devagar, pensa. Devagar? Não. Devagar é o caralho. E o encara: Cê falou com o Velho?
Falei, sim.
E?
Daquele jeito.
De que jeito?
Você sabe. Com essa história entalada na garganta.
Mesmo depois de receber a compensação.
Mesmo depois de receber a compensação.
Ela faz que sim com a cabeça, exausta. Pois é. Esse tipo de coisa nunca se resolve, nunca vai embora.
Acho que não.
Ainda mais com o Velho.
Acho que não.
Certeza que não.
Eu… não sei o que dizer.
Não tem o que dizer. Não tem o que fazer. Ele nunca aceitou isso de não controlar o meu pai.
Os dois são muito teimosos.
Inferno, ela diz, sentando-se outra vez.
Ele apaga o cigarro; é o último, mas há outro maço no porta-luvas do carro. Joga a latinha cheia de guimbas na sacola, depois pega a garrafa de água mineral, abre e toma um gole, depois outro, e mais outro, e então fica com a garrafa vazia sobre o colo, como se não soubesse o que fazer com ela.
Enquanto isso, meio que espelhando alguns dos gestos do parceiro, ela mata a cachaça com uns goles curtos e reencaixa a rolha, mas não retém o litro vazio — deixa cair e rolar pelo chão, na direção do rio. Adeus, parceira. Quase chega à água. Rolando. Mais alguns centímetros e. Descer o rio. Fica olhando para ela. Podia jogá-la na água. Assim, sem mais nem menos. Sem que nem por quê. Ou não. Não, não. Jogá-la, sim, mas com algum propósito. Aí, sim. Escrever alguma coisa num pedaço de papel, meter ali dentro e (aí, sim) jogar a porra da garrafa na bosta do rio. Mas. Não. Escrever? Escrever o quê? No momento, não tem nada a dizer para ninguém. Nada a informar. Nada a segredar. Nenhum mapa do tesouro. Nenhum tesouro. Nada. Um aviso, quem sabe. Sim. Um aviso. Fique longe do Abaporu. Se precisar ir até lá, não vá bêbada e desarmada. Fique longe de Goiás. Não. Melhor deixar a garrafa como e onde está. Vazia, a poucos centímetros da água. Longe da sacola com os restos. Longe do lixo. Vazia. A outra garrafa no carro, sob o banco do passageiro. Cheia. Passageira. Buscar daqui a pouco. Eu sou a passageira. Devagar? Devagar é o caralho.
No que está pensando?
Em buscar mais cachaça.
Eu busco.
Cuidado pra não pisar no meu vômito.
Quero pegar outro maço de cigarros.
Não.
Não o quê?
Espera.
O quê?
Espera um pouco. Fica aqui comigo.
Ok.
Mais um bom tempo olhando para a garrafa vazia no chão, perto da água, depois para os dedos dos pés, as pernas esticadas, depois para a outra garrafa, também vazia, que ele ainda segura.
Viajo de novo daqui a uns dias.
De novo?
De novo.
E quando é que volta?
Creio que no começo de junho.
Volta os olhos para o rio. Tá bom.
Você vai ficar bem?
Acho que sim.
Acha que sim?
Acho que consigo me virar sem você.
Tenho certeza disso, ele sorri. Tenho certeza que consegue.
Se você diz.
Eu digo.
Tá bom, então.
Antes de viajar, devo me encontrar outra vez com o Velho. Se eu sentir qualquer sinal de problema, dou um jeito de te avisar.
Certo. Obrigada.
Enquanto isso, permaneça quieta lá em Brasília.
Certo.
Até a poeira abaixar.
Certo.
Faça isso.
Vou fazer isso.
Ótimo.
Tô fazendo isso.
Ótimo.
Se preocupa, não. Eu sei me cuidar.
Sim. Você sabe se cuidar, pequena.
Isso vai se resolver.
Vai, sim. Isso vai se resolver.
De um jeito ou de outro.
De um jeito ou de outro.
Os olhos de ambos se perdem nos arredores. Sem cigarros, sem cachaça. Por enquanto. Até que um deles se levante e vá até o carro e contorne o vômito e pegue o outro maço no porta-luvas e a outra garrafa debaixo do banco. Melhor esperar mais um pouco, ela pensa. Melhor não saltar da ressaca pro porre. Melhor não saltar direto, pelo menos. Tem o dia todo. Eles têm o dia todo. Aproveitar o dia. Sexta-Feira da Paixão. Aproveitar a paisagem. Primeiro de Abril. Um bom lugar pra acampar. Isso é engraçado. Longe do resto. Justo num 1º de abril? Longe. Por que me abandonaste? Longe do quê? Te abandonei porra nenhuma, é 1º de abril. Sorri, olhando para o curativo no lado esquerdo da barriga. Um belo corte. Trago o corte comigo. Um corte: fui cortada: alguém me cortou. As coisas mal aparadas. Compensação paga. Um chute no peito, um corte na barriga. Compensações. Uma merda, tudo uma merda. Toda compensação é uma merda. A merda escorrendo pelas pernas do desgraçado. A puta sentada no sofá. Moça, não puta. Fodida por dentro e por fora. Porque alguém precisa se foder. Nariz, boca, dentes. Fodida de novo e de novo. Depois furada uma vez, duas, quatro, setenta vezes sete. Fodida por um imbecil. Rosto, pescoço, peitos. Fodida a troco de nada. Se eu não estivesse bêbada e apalermada. Não, não posso me culpar por causa disso. Se eu tivesse pensado. Mas fiz o melhor que pude, moça. Fodida a troco de. Fui correndo pra lá, não fui? Estrebuchando, morrendo. Fui e quase me estrepei. Morrendo. Fui e matei o desgraçado. Matando. A troco de nada. Matei. Troco (compensação?): os bagos estourados a bala. Estrebuchando. Não, não que isso sirva de consolo. Até morrer. Os mortos não serão consolados. (Clara que o diga, mas é melhor não pensar nisso agora.) (Evite pensar nisso.) (Evite pensar nela.) (Evite pensar em todas aquelas coisas.) Bagos estourados a bala: pelo menos isso. Os mortos não serão consolados, ninguém será consolado. Desfeito em merda e sangue. Não há consolo possível para ninguém. Mesmo assim, morto. Pelo menos isso. Desfeito em merda. Pelo menos isso. Desfeito em sangue. Pelo menos isso. Agora, repita um milhão de vezes: pelo menos isso. E esconda a porra do choro.
Isso vai se resolver, ele repete.
Um aceno com a cabeça, uma concordância tímida.
Ele estica o braço esquerdo e coloca a garrafa de água mineral junto com as demais, entre as cadeiras, como se não estivesse vazia.
Olha, ela diz, apontando na direção do rio.
O quê?
Ali. Descendo.
Uma enorme câmara de ar desce o rio. Preta, girando em meio às pedras; pneu de caminhão ou coisa que o valha.
Parece que alguém perdeu a boia.
Ele sorri, levantando-se. Tomara que não tenha se afogado.
Sim, ela concorda, também sorrindo. Pelo menos isso.

………

Contra a realidade

Artigo publicado hoje nO Popular.

Confesso que ri bastante ao ler que a XP Investimentos mudará a metodologia das pesquisas eleitorais que encomenda ao Ipespe todos os meses. O motivo é que a reiterada aferição do derretimento de Jair Bolsonaro incomoda os clientes bolsonaristas da empresa. A mudança da metodologia vai diminuir ou mesmo anular o desprezo que a maioria dos brasileiros nutre pelo presidente? Óbvio que não. Mas o caso é exemplar porque demonstra pela enésima vez que a briga dos bolsonaristas é com a própria realidade.

Em sua maioria, eles vivem em uma bolha forrada de mentiras e asneiras delirantes. E uma coisa que aprendemos nos últimos anos é que a disposição para mastigar e engolir o chorume ideológico produzido pelo pior presidente da história brasileira independe de classe social e formação intelectual. Semanas atrás, na fila para tomar a primeira dose da vacina, uma advogada me disse que contraiu Covid e não teve sintomas graves porque tomou cloroquina. Como se vê, confundir correlação com causalidade não é privilégio de analfabetos funcionais. A miséria cognitiva é democrática.

Claro que nem todos os bolsonaristas são desinteligentes. Muitos são oportunistas, julgam ter mais a ganhar do que a perder com o desgoverno em curso. Embora formado em medicina, Marcelo Queiroga, atual Ministro da Saúde, não corrigiu os seguidores que postaram tolices nas redes sociais, como: “tomou as duas doses da vacina, usou máscara, mas se contaminou”. Queiroga está cumprindo quarentena em Nova York, isolado em um hotel de luxo (às nossas custas), depois de contrair o coronavírus durante a Assembleia Geral da ONU, entre um gesto obsceno e outro. Não sei vocês, mas eu aprendi no ensino fundamental que nenhuma vacina impede a pessoa de contrair o que quer que seja; o que as vacinas fazem é evitar que os imunizados desenvolvam formas mais graves das doenças.

Queiroga fez pior do que se calar diante do desfile de ignorância e canalhice dos seguidores: ele repostou no Instagram (e depois apagou) um desses “questionamentos”, chancelando, assim, a mentira inerente ao negacionismo. Acaso vivêssemos em um país sério, o Conselho Federal de Medicina obrigaria Queiroga a se retratar. Mas o problema é que o próprio CFM tem agido de forma pusilânime desde o início da pandemia — não é por acaso que, em seu grotesco discurso naquela mesma Assembleia Geral, Bolsonaro tenha citado o CFM no mesmo fôlego com que voltou a defender tratamentos comprovadamente ineficazes contra a Covid. Ter um presidente que se esmera em delinquir “autoriza” os outros a também delinquir. Forma-se uma cadeia de maus exemplos e péssimas atitudes. O descuido, a grosseria e o crime são normalizados.

Suponho que o CEO da XP e seus sensíveis clientes bolsonaristas não sejam tão afetados pela inflação e pela incompetência de Bolsonaro quanto a maior parte dos brasileiros. Nem todos podem se dar ao luxo de olhar para o outro lado ou tapar o sol com a peneira. Muitos estão abandonados, entregues à aflição e ao desespero, sem trabalho e sem ter o que comer. A real percepção de que o país está arruinado não aumenta ou diminui conforme a “metodologia” das pesquisas. Mentiras não enchem a barriga de ninguém.

Devolvendo a espingarda para Hemingway

Conto originalmente publicado na São Paulo Review em 09.11.2015.

1.

O que é que eu posso dizer? Gosto de atirar nos pombos. Eu gosto, e pronto. A minha mulher acha um horror, fica toda histérica quando me vê pegando a espingarda, escancarando a janela ou ajeitando a escada para subir no telhado, os desgraçados gostam de se reunir lá em cima e arrulhar e empestear a porra toda. São uns bichos nojentos, e poucas coisas me fazem tão bem quanto mirar no mais gordo da turminha e engatilhar e atirar. Quando acerto em cheio – e, modéstia à parte, eu acerto em cheio em noventa e nove por cento das vezes –, o desgraçadinho explode numa festa de sangue e penas, e eu me sinto verdadeiramente realizado. E daí que a patroa está lá embaixo berrando, me chamando disso e daquilo, dizendo que os vizinhos vão reclamar, Ketchum é uma cidade pequena e não sei mais o quê? Tem coisas que as mulheres não entendem. E quais são essas coisas? Bem, pela minha experiência, são justamente as coisas mais importantes. Ela que se foda. Pombos são bichos nojentos. E eu gosto de atirar neles.

2.

Fui pescar outro dia com um conhecido nosso, um sujeito enorme que já viajou pelo mundo inteiro e agora, tenho que dizer, parece meio acabado. Minha mulher diz que é escritor. Ele não me diz porra nenhuma sobre isso, graças a Deus. A gente fala de outros assuntos ou só fica lá, calado e bebendo, o que, aliás, é a melhor coisa que um homem crescido pode fazer: calar a boca e encher a cara. A casa dele tem uma vista muito bonita, dela você vê o vale com o rio Wood, e eu gosto de ir pra lá, a gente se senta ali fora, quando não está muito frio, conversa um pouco e bebe um monte e fica contemplando a paisagem. É sempre bom. Volto pra casa relaxado. O velho Ernest anda meio acabado, como eu disse, mas sempre me tratou bem, e a mulher dele, Mary, parece gostar quando eu apareço, como se eu ajudasse a distrair o sujeito do que quer que esteja incomodando aquela cabeçorra branca dele. Outro dia eu falei pra minha mulher, vai que é ela que está incomodando o desgraçado, e ri, mas a infeliz não achou muita graça. O que eu fiz? Peguei a espingarda e fui atirar nuns pombos. Acertei dois em cheio sem fazer muito esforço, eles são uns animais meio burros. Depois, bebi mais um pouco e resolvi tirar um cochilo. A vida não está fácil, vocês sabem. Quando acordei, a mulher tinha detonado a minha espingarda com uma marreta. Só não matei a filha-da-puta porque uma vizinha veio acudir. Contei tudo isso pro Ernest quando a gente foi pescar, ele soltou um grunhido e falou que ia me emprestar uma espingarda, desde que eu não usasse o troço pra matar a minha mulher. Ele consegue ser engraçado, às vezes. E eu aceitei a oferta, é claro, dizendo que ia usar só por umas duas semanas; quando a minha mulher recebesse, ia pegar a grana com ela e comprar uma espingarda nova (ela não gostou da ideia, mas acho que me ver com a porra da marreta na mão, bem, acho que isso convenceu a cretina a me ressarcir, sabe como é).

3.

Os dias passaram rápido, e fiquei bem surpreso porque eu não tive de lembrar a fulana de me dar o dinheiro. Comprei uma Stoeger de cano duplo e fui devolver a do Ernest. Ele estava sentado na cozinha, metido num roupão, e acho que devia estar bebendo desde cedo. Coloquei a arma em cima da mesa e falei, comprei uma nova hoje, vim devolver a sua. O desgraçado me encarou de um jeito esquisito. Que foi?, perguntei. Ele balançou a cabeça e agradeceu, disse, você veio em boa hora, vou mesmo precisar dela. Ué, eu falei, se tava precisando, era só ligar, eu te devolvia no ato. Não, ele encolheu os ombros, nada assim urgente. Eu me sentei ali com ele e a gente passou o resto da tarde enchendo a cara. Teve um momento em que ele olhou pra espingarda e depois pra mim, e os olhos dele se encheram de lágrimas. Cê tá bem?, perguntei. E ele me disse uma coisa bem estranha: você veio aqui pra me matar. Eu comecei a rir, como assim, porra?, mas ele insistiu nessa história por um tempo, e depois pediu desculpas, disse que andava meio paranoico. Minha mulher tinha falado alguma coisa sobre ele ter sido hospitalizado uns meses antes, mas eu achava que era por causa da bebida. Caralho, até eu precisei dar um tempo na enfermaria certa vez. Depois, ele disse que ia fazer um piquenique no dia seguinte, ele e Mary, e eu falei que era uma boa, piqueniques ajudam a relaxar. Quando fui embora, já estava escuro, e a última coisa de que lembro é do velho Ernest metido naquele roupão espalhafatoso, sentado na cozinha, os dois braços sobre a mesa, as mãos ao redor do copo, olhando pra espingarda largada ali em cima como se esperasse ouvir alguma coisa dela, algum segredo, alguma novidade, qualquer coisa, mas os dois canos da desgraçada continuavam mudos feito Deus.

Mapa da dor

Conto originalmente publicado no Blog do IMS em 02.03.2017,
inspirado pela imagem abaixo¹.

No dia em que levei meu pai para a frente do pelotão de fuzilamento, ele me disse que, entre os seus pertences, havia um livro surrado e, dentro dele, uma fotografia. “Seus pertences serão queimados junto com o seu corpo”, eu retruquei. “Eu sei”, ele disse, “mas, por favor, guarde a fotografia, fique com ela.” “Por quê?” “Você saberá quando vir.” Eu me afastei sem dizer mais nada. Estava tudo pronto. Ele gritou alguma coisa incompreensível, tudo o que ele disse a vida inteira me soava incompreensível, e foi com certo alívio que o observei ser vazado pelos tiros. Ordenei aos soldados que jogassem o corpo na carroça junto com os outros, todos seriam queimados logo mais, e que trouxessem o próximo e dessem prosseguimento aos fuzilamentos, sem descanso. “Quantos faltam?”, perguntei ao sargento. “Quarenta e oito, senhor.” “Tragam de cinco em cinco. Daqui a pouco escurece. Não podemos perder tempo.” Não era seguro fuzilar lá fora, no local onde os corpos seriam queimados, o que só nos dava mais trabalho. Saí do pátio pensando que, não fosse pelo cheiro, eu os queimaria ali dentro mesmo, uma pilha enorme ardendo noite adentro. Segui pelo corredor que levava às celas. Desde o dia em que meu pai fora preso e eu o visitara ali, não o vira mais. “Você vai morrer”, eu dissera na ocasião. “Eu sei.” “Claro que vão te interrogar antes.” “Eu sei.” “Sugiro que diga o que sabe.” “Vocês não vão arrancar nada de mim.” Mas, ao ser interrogado, entregou algumas posições e esconderijos depois que lhe arrancaram o polegar e o indicador da mão esquerda, os companheiros cercados e (os que sobreviveram) presos na noite seguinte. A porta da cela estava aberta e os pertences, jogados sobre a cama: uma Bíblia, um caderno repleto de anotações em uma língua que eu desconhecia, um toco de lápis e o tal livro, Titus Andronicus, que peguei e folheei ao acaso. Havia passagens sublinhadas. Mapa da dor, que fala por sinais, / Mesmo que o coração lhe bata louco / Não poderá dar golpes para acalmá-lo. A fotografia estava numa página em que ele circulara com força a seguinte frase: Rezem ao diabo; os deuses desistiram de nós. Joguei o livro no chão, com força, sentei-me na cama, respirei fundo e passei a observar a foto. Lá fora, no pátio, mais tiros, mais corpos. Por que meu pai queria que eu ficasse com aquilo? Não havia nada escrito no verso. Engraxates num cenário urbano e empoeirado que logo reconheci, ocupados com um jogo de bolinhas de gude. À direita, cortada ao meio por um poste, uma carroça com seu condutor em pé, ao que parecia fustigando o cavalo ou, olhando melhor, talvez não, talvez o homem olhasse para o grupo ali reunido, um braço erguido, como se acenasse ou chamasse alguém. Então me fixei na roda de jogadores e espectadores. As roupas sujas. Os chapéus, os bonés. Alguns descalços. Uns sujeitos observando bem de perto, lado a lado, um deles meio escondido pelo primeiro. Dois garotos agachados, envolvidos no jogo, e um terceiro como que prestes a se agachar, os olhos fixos no que acontecia. Outro, contudo, olhava não para o chão, mas adiante, como se prestasse atenção na conversa dos sujeitos, a caixa de engraxate presa às costas tapando o rosto de um menino negro, sentado logo atrás. Havia também um garoto à direita, ao lado dos sujeitos; a exemplo do outro, também não olhava para o chão, ignorando o jogo, mas parecia olhar além, o rosto virado para o lado contrário ao da lente, fitando a calçada pela qual, longe, uma mulher caminhava na direção deles. Foi quando me ocorreu. A mulher. Sim. Por mais distante e desfocada que estivesse. Era ela, só podia ser. Levantei-me no momento em que mais tiros se fizeram ouvir, as mãos trêmulas, e saí para o corredor. Um prisioneiro choramingava na cela vizinha. Outro parecia rezar mais ao fundo. O ar no corredor era pesado e úmido. Assim que voltei ao pátio, um sargento veio me dizer que a carroça estava lotada e a outra que mandara buscar ainda não tinha chegado. “Sigam com o trabalho mesmo assim”, eu disse. “Amontoem os corpos naquele canto, junto ao muro. Qualquer coisa, usamos a mesma carroça, descarregamos e carregamos de novo.” Ventava forte. Atravessei o pátio ainda olhando para a fotografia, distraído. Onde será que ele a encontrara? E como soubera? Eu a imaginei seguindo pela calçada e se aproximando do grupo de meninos, contornando para não atrapalhar o jogo, talvez sorrindo para um deles. Parei ao lado da carroça. Agora havia outros três ou quatro corpos atravessados sobre o meu pai, mas seu rosto e parte do tronco ainda eram visíveis. Um dos tiros lhe acertara o pescoço. Vi outros furos no peito. O braço esquerdo estava estendido, a mão mutilada pendendo para fora. Mapa da dor, que fala por sinais. Eu me debrucei e meti a fotografia sob a camisa empapada de sangue. “É sua.” Endireitei o corpo e olhei para trás no momento em que o sargento se aproximava. “A outra carroça quebrou a um quilômetro e meio daqui, senhor. Vieram correndo me contar.” Respirei fundo. “Sem problemas. Leve e queime esses aqui, depois volte para buscar mais.” Afastei-me enquanto ele chamava alguns soldados para ajudá-lo e gritava para que abrissem o portão. Alguns metros à frente, o pelotão apontou os fuzis para a leva seguinte de condenados. Por alguma razão, fechei os olhos antes que atirassem.

…………

¹ Vincenzo Pastore. Meninos engraxates jogando bola de gude. São Paulo, SP. Circa 1910.

Granada

Conto originalmente publicado na Pessoa em 14.12.2019.

 

Murder would also be suicide.
— William H. Gass, Omensetter’s Luck.

 

Bruno viu como o tio a empurrou escada abaixo, viu o movimento ligeiro do antebraço contra as costas da mulher, viu o ombro esquerdo se pronunciando à frente em uma coreografia similar à do zagueiro faltoso ao deslocar de forma desinteligente o atacante adversário diante de uma bola alçada na área e dos olhos incrédulos dos circundantes, uma clara penalidade, embora ali, naquela parte do navio e àquela hora do dia, não houvesse — não devesse haver — quaisquer testemunhas. Vindo pelo corredor, as mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta jeans, pensando na revista em quadrinhos que ia buscar na cabine, Bruno também viu os braços da tia se abrindo e ouviu o grito curto e agudo e algo infantil, e então o corpo dela desapareceu como se engolido por um alçapão.
Óbvio que o tio jamais imaginaria que Bruno estava logo ali, doze passos atrás, pois deixara o menino lá em cima, no convés, jogando conversa fora com Otto, a paciência do sujeito era mesmo ilimitada, horas ouvindo sobre filmes e enlatados e histórias em quadrinhos, sentia até uma certa pena e chegara a pedir a Bruno que desse um tempo, não precisa passar o dia inteiro grudado no infeliz, por que não arranja outra coisa pra fazer? Pouco antes de empurrar a esposa, enquanto se aproximavam do lance de escadas, olhou para trás a fim de se certificar de que estavam mesmo sozinhos, de que o momento era aquele, agora ou nunca, tão nervoso quanto no dia em que a pedira em casamento (afastou essa lembrança o mais rápido que pôde), e Bruno ainda não havia apontado no outro extremo do corredor, o lugar deserto e silencioso, repleto daquela fantasmagoria que talvez tenha tornado a decisão e o gesto mais fáceis. Após o empurrão, ficou parado por alguns segundos no topo da escada, olhando para o corpo que se debatia contra o metal, os mesmos segundos durante os quais Bruno, tendo visto o que vira, testemunhado a coisa, hesitou entre correr para acudir a tia e dar meia-volta. Por fim, olhos arregalados e coração aos pulos, ele optou por dar o fora e, em questão de instantes, estava trancado em um banheiro, trêmulo e sem a menor ideia do que faria a seguir. Ali ficou por quinze minutos, com medo de que o tio soubesse, com medo de que ele o tivesse visto e agora estivesse em seu encalço, pronto para também empurrá-lo do alto da escada, estrangulá-lo com os cadarços ou atirá-lo no mar. Quando se acalmou um pouco e conseguiu sair, olhou ao redor e não percebeu nenhuma movimentação suspeita ou anormal, nenhuma agitação, nenhum alarme, nenhuma correria. Respirou fundo, reuniu alguma coragem e retornou ao local do empurrão. Ninguém. Subiu, então, ao convés. Tranquilíssimo, o oceano ignorava todo aquele drama. Bruno sentiu uma súbita vontade de xingar o mar, cuspir nele.
— Ei! Onde você se meteu?
Olhou para Otto, parado à sua direita com as mãos para trás feito um padre ou alguém algemado, e tentou dizer alguma coisa. Não conseguiu. A tontura que sentiu ao gaguejar diante do amigo não era um enjoo qualquer, mas como se o navio não tocasse mais as águas do oceano, suspenso por uma mão gigantesca que, a qualquer momento, fosse virá-lo de cabeça para baixo, e todos morreriam afogados. Quando deu por si, estava sentado em uma espreguiçadeira, Otto agachado à sua frente com uma expressão preocupada no rosto, que diabo está acontecendo com você, garoto?
— Eu… ele, meu… ela foi e…
— Você está se sentindo mal? Vou chamar o médico.
— Não, eu… espera.
Bruno se afeiçoara a Otto desde o primeiro dia do cruzeiro, quando toparam ali mesmo no convés e jogaram conversa fora por um bom tempo, o menino atraído pelo porte do sujeito, um norte-americano de cara comprida e ombros largos, cabelos cortados à escovinha e um rosto que parecia incapaz de esboçar um sorrisinho que fosse.
— Nossos cabelos são iguais — Bruno comentou naquele dia. — O senhor é soldado?
A princípio, Otto tentou se desviar da saraivada de perguntas que se seguiu à resposta (fui um marine), desvencilhar-se do menino, não embarcara naquele navio para ficar de conversa fiada com um moleque de oito anos, queria apenas ser deixado em paz e espairecer por uns dias antes de voltar à terra firme e decidir o que faria da vida, mas havia algo no brasileirinho, algo que ele provocava, uma certa identificação, talvez, eu não era um pouco assim quando criança? Falastrão, carente, curioso? Lembrou-se do dia em que o pai voltara manquitolando da Coreia e, depois de mostrar as medalhas (Coração Púrpura, Estrela de Prata), sentou-se à mesa da cozinha, encheu um copo com leite até a borda e, diante dos olhares da mulher e do único filho, abriu um sorriso e disse que poucas coisas são tão boas quanto um copo cheio de leite bem gelado, não é mesmo? Depois de beber tudo em três ou quatro goles, ele ignorou as perguntas de Otto, dizendo que não falaria sobre a porcaria da guerra, pediu à mulher que, se possível, fizesse costeletas para o jantar e desandou a falar dos Cardinals — este, sim, um tópico aceitável, dos poucos que discutiria com o filho sempre que possível e até o fim da vida.
— Você está branco — disse Otto, a mão no ombro direito de Bruno. — Sua pressão baixou? Está enjoado?
O menino concordou com a cabeça. — Eu… tudo bem, já estou melhorando.
— O que aconteceu?
— Minha tia, ela… ela… um tombo e…
— Tombo? — havia certas palavras cuja sonoridade arredondada Otto apreciava bastante, mesmo após seis anos e meio no Brasil, e adorava repeti-las. — Ela levou um tombo?
— É, ela…
— Onde?
— Na escada, indo… perto das cabines ali… embaixo, ela…
Correram para a enfermaria. O tio não disfarçou a surpresa com a chegada repentina dos dois: — Como é que vocês?…
— Como ela está? — Otto perguntou. — E o bebê?
Encarou o sobrinho, que desviou os olhos para o chão. — Estão cuidando dela. Acho que quebrou um braço e… mas o bebê, ele…
Bruno levantou os olhos.
O tio forçou um sorriso. — Parece que foi só um susto e… está tudo bem com o bebê.
— Graças a Deus.
— Sim, foi bem…
— Ela caiu da escada?
— Caiu. Tropeçou e caiu.
— Nossa, eu…
— Pois é.
— Essas escadas são traiçoeiras.
— Nem me fale.
— E é um milagre que ela não tenha se machucado mais e…
— Sim, sim, um milagre. Escuta, Otto. Você se importa de ficar com o Bruno até… até a gente… eu não sei quanto tempo e…
— Claro. Sem problemas.
— … eu não sei quando é a gente vai sair daqui. Ela deve ficar em observação.
— Não se preocupe. Eu fico com ele.
Foram para a cabine de Otto, que fazia o possível para animá-lo, viu só? Um susto, mais nada. Agora vamos relaxar um pouco. Mas, sentado na cama, Bruno começou a chorar. Como explicar o que vira? Era uma coisa muito séria, muito grave. Criminosa. Otto tinha sido um soldado, e soldados prendiam ou matavam criminosos. Era para isso que serviam. Mas Otto não era um soldado brasileiro. Otto nem era mais soldado, na verdade. Ex-soldados americanos podiam prender criminosos brasileiros? Talvez nos Estados Unidos. E talvez ali onde estavam. No mar. As leis são diferentes no mar? Otto tinha lutado em uma guerra, e o pai de Otto tinha lutado em outra guerra. Será que o avô de Otto também lutou em uma guerra ainda mais antiga? E o filho de Otto, lutaria em alguma guerra no futuro? Otto não tinha filhos, mas poderia ter, pois era casado. Ou não, porque a mulher dele tinha ido embora. Mas ele podia se casar outra vez, com outra mulher. Não era isso que o pai ia fazer? Mas como falar a respeito do que vira? Otto entenderia? E se estivesse enganado? E se o movimento do tio fosse outro, não de empurrar a tia, mas de perceber que ela se desequilibrara e tentar segurá-la, impedir a queda? Sentado a uma cadeira ao pé da cama, Otto ignorava o choro de Bruno, queria dar espaço para o amigo e sabia muito bem que não havia nada que pudesse fazer ou dizer. Olhava, distraído, para a janelinha acima da cama, bebendo bourbon do cantil metálico que sempre levava no bolso interno do paletó. Bruno achava impressionante que ele bebesse tanto e, exceto pela fala um pouco mais arrastada e pela vermelhidão do rosto, continuasse mais ou menos do mesmo jeito. O tio se transformava. Os pais se transformavam. Todo adulto que ele conhecia virava outra pessoa depois de três ou quatro doses. Todo mundo, exceto Otto. Talvez porque fosse um ex-soldado.
— Vai ficar tudo bem — Otto disse, afinal. — Sua tia, o bebê. Todo mundo. Tudo muito bem. Você vai ver.
Bruno fez que sim com a cabeça, com veemência, não porque concordasse com o amigo, mas para espantar o choro de uma vez por todas. Esfregou os olhos e se recostou na parede, as pernas esticadas sobre o colchão, pés suspensos. Olhou para a mala aberta à direita, colada à cabeceira da cama. Dentro dela, a pequena bolsa preta. Otto abrira a mala quando entraram na cabine, guardara alguma coisa lá dentro, em meio às roupas, mas se esquecera de fechá-la.
— Não tem perigo dela explodir?
— Hein? Ah. Não, não. Fica tranquilo. Perigo nenhum. Zero perigo. Palavra.
— Por que você…
Otto bebeu mais um gole e olhou para o menino. — O que você gosta de fazer quando está em casa?
— Ver televisão.
— Televisão. Televisão é bom. Distrai. O que você gosta de ver?
Spectreman.
— Aquele seriado japonês?
— É. Também gosto do Tarzan.
— Tarzan é bom. Eu lia as histórias quando tinha a sua idade. Lia bastante, via bastante televisão. Meu pai estava sempre fora. Minha mãe também.
— Por quê? Por causa do trabalho?
— Meu pai, sim, meu pai era vendedor, do tipo que viaja muito. Depois que voltou do exército. Acho que ele não aguentava ficar parado num só lugar. Precisava ficar em movimento, sabe? Indo de um lado pro outro, de cidade em cidade. Ele se gabava de conhecer o país inteiro. Ele dizia: fala o nome de uma cidade. Eu falava e ele descrevia como era, onde ficava, como chegar lá, tudo isso. Era incrível.
— Meu pai também viaja muito.
— Sim, sim, você comentou. Minha mãe era enfermeira e trabalhava bastante, também. Às vezes, ela trabalhava a noite inteira.
— E quem cuidava de você?
— Ah, sempre tinha alguém. Minhas primas mais velhas, alguma vizinha. Sempre tinha alguém. Minha mãe pagava, sabe como é, e alguém ficava comigo. E depois o tempo passou e eu fiquei grandinho, não precisava mais disso.
— Minha mãe só trabalha em casa.
— Deve ser uma coisa boa.
— O quê?
— Ter a mãe por perto.
Bruno encolheu os ombros.
— Bom. Olha só. Eu tenho um plano. Você quer ouvir o meu plano?
— Quero.
— Vou tomar banho. Por que você não vai lá na sua cabine e toma um banho também? Daí a gente sobe junto pra jantar.
— Esse é o plano?
— Esse é o plano.
Bruno encolheu os ombros outra vez. — Pode ser.
— E tem a segunda parte do plano: depois do jantar, a gente visita a sua tia.
— Pode ser.
— Daqui a uma hora?
— Pode ser.
— Te espero aqui, então.
Ele ficou alguns minutos no corredor. Deixara a porta apenas encostada ao sair, sem que Otto percebesse. Calculou quanto tempo o amigo levaria para tirar a roupa, dar uma cagada, ligar o chuveiro. Esperou por cinco minutos, e só então readentrou a cabine. No banheiro, o som do chuveiro aberto. Calculara certo. Foi até a mala e pegou a bolsinha. Abriu o zíper. Uma pistola, dois pentes de munição e a granada. Na noite anterior, um Otto completamente bêbado mostrara como fazer. Mesmo que ele não tivesse feito isso, Bruno achava que não haveria problema. Vira incontáveis vezes na televisão. Claro que, se Otto não tivesse mostrado, ele não saberia que ali dentro daquela bolsinha havia uma granada. Como é que deixavam Otto andar por aí com uma coisa dessas? Ele não era mais soldado. Mas ali estavam: a granada na mão e o modo de usar gravado na cabeça. Otto fora muito didático. Está vendo isso aqui? É o pino. Você puxa ele assim, ó. Está vendo? Eu vou tirar e depois colocar outra vez. Não precisa ficar com medo, não vai explodir. Olha. Você tira o pino desse jeito. Presta atenção. Daí espera um pouquinho, uns dois segundos, joga na direção do inimigo e se protege. Bum. Agora deixa eu colocar isso de volta. Isso. Viu? Sem problema. Me passa a garrafa, por favor? Como era mesmo a palavra que ele usara? Estilhaços. Sim, Otto explicara, você já viu filmes de guerra? As pessoas morrem por causa dos estilhaços. A granada explode e vira um milhão de estilhaços. E os inimigos morrem. Quem estiver perto morre. Melhor não ficar perto. Melhor se proteger. Porque a granada explode, bum, os estilhaços voam, rasgando tudo, e fim de papo.
— Fim de papo — Bruno repetiu agora. Guardou a granada no bolso da jaqueta, depois fechou a bolsinha e a recolocou na mala. No banheiro, Otto tossiu uma, duas, três vezes. A garrafinha não estava à vista. Será que ele bebia até debaixo do chuveiro? Saiu da cabine com o coração apertado, mas Otto era ex-soldado, não seria difícil arranjar outra granada.
Andando com pressa pelo corredor, cabisbaixo, lembrou-se dele e do tio conversando dias antes, os quatro à beira da piscina. Bruno achava engraçado isso de ter uma piscina dentro de um navio, com aquele tanto de água ao redor. Questão de segurança? E também não seria possível o navio parar a todo momento para que as pessoas pudessem nadar, jamais chegariam a lugar nenhum se fizessem isso. O tio perguntava há quantos anos Otto vivia no Brasil e que tal era trabalhar no consulado. É tranquilo, Otto dizia, tranquilo até demais, mas não posso reclamar. O que você faz lá? Fico atrás de uma mesa, mexendo com papelada o dia inteiro. Bruno gostava de imaginar que Otto era um espião, mas o americano rira ao ouvi-lo sugerir algo nesse sentido. Era melhor quando estavam só os dois. O tio era muito, muito chato, mas não incomodava Otto com muitas perguntas porque preferia falar sobre si mesmo, sobre quando estudara na Inglaterra e depois na Alemanha, você não faz ideia do quanto é difícil a vida de professor no Brasil, meu caro, eu devia era ter dado um jeito de continuar na Europa. Mas, claro, aqui e ali pipocavam algumas perguntas de forma meio desinteressada. Não, Otto não sabia nada de filosofia. Não, Otto nunca pensou em retomar os estudos, fazer um doutorado ou coisa parecida, aquilo simplesmente não era para ele. Não, a mulher de Otto também não sabia nada de filosofia, ela era tradutora (francês, português) e tinha voltado para o Missouri meses antes, no final de abril, pouco depois do enterro do presidente. Não, Otto não sabia quando voltaria para os Estados Unidos, talvez em breve, talvez só dali a uns anos, era complicado e não dependia só dele. Sim, Otto gostava da vida e do trabalho no Rio, gostava do clima e das pessoas. Sim, Otto estivera no Vietnã. Embora tentasse disfarçar, o tio ficou incomodado quando Otto perguntou para quando era o bebê. Ainda faltam mais de três meses, a tia respondeu com um sorriso. Ele percebeu que havia algo de errado e não fez mais perguntas a respeito, nem mesmo dias depois, quando tomou aquele porre com o tio durante o jantar.
A verdade era que havia mesmo algo de errado, como demonstravam as discussões cada vez piores entre o tio e a tia. Piranha!, Bruno ouvira o tio berrar poucos dias antes do embarque. Queria voltar para casa, mas a tia explicou que ainda não seria possível, talvez no comecinho de janeiro, seu pai está viajando e a sua mãe tem umas coisinhas pra resolver, quem é que vai cuidar de você lá em Brasília?
— E a gente vai passar o réveillon no mar — a tia emendou, arregalando os olhos, procurando transmitir uma excitação que não estava lá. Era péssima atriz, mas Bruno gostava dela. Gostava de saber que se esforçava, pelo menos. Era mais do que a mãe vinha fazendo nos últimos tempos, depois que as viagens do pai se tornaram mais frequentes. — Não é o máximo?
— É. Acho que sim.
Certa noite, o tio chegou a socá-la na barriga. Bruno viu a tia caída no chão, aos prantos, encolhida. Acordara no meio da noite com a discussão, ela implorando, para, para com isso, por favor, você está bêbado, e ele:
— Quem, desgraçada? Quem?
Chegou à sala no momento em que o tio desferia o soco. Não conseguiu conter um berro, ao que o homem se virou e ordenou, apontando para o corredor escuro: — Volta pro quarto. Agora.
Não saberia dizer se a coisa terminou por ali, pois se trancou no quarto e meteu a cabeça debaixo do travesseiro. Não queria ouvir mais nada. Não aguentaria ouvir mais nada. Queria ir embora. Mas: tios, pais. Não tinha para onde ir. Não tinha para onde correr.
— E a gente vai passar o réveillon no mar.
Na manhã seguinte à noite do soco, o tio estava sozinho à mesa do café. Pediu desculpas pelo ocorrido, às vezes eu perco a cabeça, mas essas mulheres, elas põem a gente louco, sabia? — Vai saber quando for mais velho. Vai saber direitinho. Vai sentir na pele. Quer uma torrada?
— Cadê a tia?
— Descansando. A gente embarca depois de amanhã. Você já viajou de barco? Pode ser cansativo. Ela precisa descansar. Mas está tudo bem. Não esquenta a cabeça, tá bom?
Não houve resposta.
O tio levou a mão ao bolso da camisa, pegou e colocou três notas sobre a mesa, tapando-as em seguida; Bruno não conseguiu ver quantos mil cruzeiros eram. — Olha só. Me faz um favor? Não comenta sobre o que você viu ontem com o meu irmão.
— Eu nem sei onde o meu pai está.
— Nem com a sua mãe, tá? Aquilo foi um acidente. Um acidente, só isso. Não comenta nada. Com ninguém.
Ele pegou o dinheiro, mas só não disse nada porque não conseguiu falar com a mãe antes de embarcar. Mas talvez não comentasse mesmo se falasse com ela. Como explicar uma coisa daquelas?
Mantendo a mão direita no bolso da jaqueta, caminhou até a cabine que ocupava com os tios. Entrou sem bater porque imaginava que não haveria ninguém, mas lá estava o tio estirado na cama de casal, descalço, olhando para o teto, lata de cerveja encaixada na mão. As solas dos pés estavam meio sujas. Bruno contou nove latinhas espalhadas pelo chão. Vazias, amassadas. O homem não sorriu ao ver o sobrinho.
— Como… — pigarreou. — Como é que a tia está?
— Ela vai ficar bem — a voz alquebrada, os olhos ocos. Sua expressão desolada parecia comunicar uma má notícia.  — Ela vai passar a noite sob observação.
— Que bom — os lábios de Bruno esboçaram um sorriso, mas não foram acompanhados pelo restante do rosto.
— Daqui a pouco eu volto pra lá. Ela não está falando coisa com coisa, mas o médico disse que isso é normal. Quer ir comigo?
— Pode ser — o arremedo de sorriso desaparecera. Bruno desviou os olhos para o lado.
— Que foi?
— Acho que esqueci a minha carteira na cabine do Otto. Vou lá correndo buscar.
— Não demora. Vou descansar só mais uns minutinhos.
— Não vou demorar, não.
Bruno saiu da cabine e parou no meio do corredor. Olhou para a esquerda, depois para a direita. Ninguém. Sozinho. Tirou a granada do bolso. Notou que estava tranquilo. Respiração normal, coração calminho. Olhou para a granada na palma da mão esquerda. Com as mãos firmes, sem hesitar, tirou o pino, virou-se, abriu a porta da cabine, jogou a granada lá dentro, fechou a porta e correu na direção da escada, a voz de Otto ecoando na cabeça:
— Melhor não ficar perto. Melhor se proteger.

………

Imagem: Hugo Simberg, Dança com a Morte (1899).

Necessidades

Um conto.

Cagar. O homem está sozinho, sentado à mesa, fuçando no telefone. Ele precisa cagar. O gabinete meio às escuras. Precisa muito cagar. Janelas e cortinas fechadas. Outra vez isso. Luzes apagadas, exceto por um abajur. Ele não aguenta mais. A noite avança lá fora. Cagar, por que é tão difícil cagar? Berros distantes, buzinaços. Os médicos disseram que. Panelas batendo? O que os médicos disseram? Sim, panelas, estão dizendo nas redes. Ora, o que os médicos sabem?
Canalhas, resmunga.
Mas ele precisa cagar. Mesmo. De verdade. De uma vez por todas. Deitar a mãe de todas as cagadas. Uma cagada-monstro. Uma cagada-brasil. Uma cagada-mundo. Uma cagada-china. Uma cagada escatológica. Ele não conhece várias dessas palavras. A única coisa que ele conhece é a necessidade/impossibilidade de cagar. Ele precisa cagar. Um pouco que seja. Um nada que seja. Bolinhas redondas e escuras, ressecadas. Merda de coelho. Qualquer merda. É isso, ou o fim. Acabar em merda. Soterrado pela própria merda. Não: entupido com a própria merda. Isso precisa ter um fim. Isso precisa terminar, findar, chegar. Acabar.
(Acabou, porra!)
Evacuar. Defecar. Bostar. Descomer. Obrar. Estercar. Borrar. Dejetar. Aliviar(-se). Sujar. Soltar um barro. Estrumar. Adubar. Bostejar.
Precisa, mas não consegue.
Sim, outra vez isso.
Tenta se distrair, respirar melhor. Mas é impossível se distrair, é impossível respirar melhor. Assim como está. Atulhado de merda. Merda, bosta, estrume, cocô. Tenta se distrair. Mas pensar em quê? Nos cavalos? É, nos cavalos. No gado. Até nos cachorros. Os bichos fazem parecer tão fácil. O cavalo que montou daquela vez, em plena Esplanada, cagando sem maiores problemas. Cagando em Brasília. Eu cavalgo, você caga. E se alguém me. Não. Impossível. Ninguém pode cavalgá-lo. Eu cavalgo, eu cago. Ele tem um exército. O meu exército caga, eu não cago. Todos os cavalos cagam. Todos os bois e vacas, todos os ministros, senadores, deputados, todos os juízes, até as porras dos juízes, até a porra daquele ex-juiz, todo mundo caga. Menos eu. Eu não cago. Eu tento e. Não. Negativo. Aquele cachorro que o dono veio buscar. Zeus. Não. Zeus, não. Zeus, porra nenhuma. Augusto. Augusto caga. As emas lá fora cagam. Todos os bichos, a mulher, a filha. Cagando, todo mundo cagando direito. Os canalhas ao redor da praça, nos outros prédios e gabinetes. Todo mundo caga. Até os bostas desses jornalistas. Cagando entre uma mentira e outra. Cagando enquanto mentem. E as porras dos índios lá no acampamento. Sim, os índios também cagam. Ele viu os banheiros químicos instalados. Pra que tanto conforto? Os putos não precisam disso. Vivem no mato. Cagam no mato. Todos cagam, por que eu. Não. Cagar dia sim, dia não: um sonho.
Preciso cagar, eu.
Sozinho, à mesa. Mexendo no celular. A respiração descompensada. Berros, buzinaços. Panelas.
Canalhas.
O lugar às escuras, exceto por um abajur e pela luz do visor. Meio azulada, a claridade distingue o rosto — azula a palidez acentuada. Aqueles índios ainda estão lá fora? Eles não vão embora? Cagando nos banheiros químicos. Por que não cagam no tribunal? A gente devia ter começado por eles, mas.
Cagões.
Enquanto mexe no celular, saltando de uma rede à outra, de um grupo a outro, sente dor. E sente raiva. Há quantos dias não caga? Não é possível. Não, não, não. A coisa mais simples que existe. Mais simples que comer. Isso é desumano, porra. É sacanagem. Tão querendo me matar. Isso lá é jeito de morrer? A barriga dura, a cabeça como que socada num torno. A dor se espalha pelo corpo inteiro. Desumano. Às vezes, tem a impressão de que os olhos vão saltar das órbitas, os dentes trincando e estourando, a cabeça em pedaços após a explosão final, sangue e miolos e. E merda. A cabeça do sujeito estourando num filme que viu outro dia. Um filme velho. As pessoas cagavam no filme? As pessoas cagam em todo lugar. As pessoas cagam nas novelas, as pessoas cagam em casa, as pessoas cagam no trabalho, os índios cagam no mato e nos banheiros químicos, os ministros cagam no tribunal e em mim.
Em mim!
Todo mundo caga, o tempo todo. As pessoas cagam sem parar. Cagam e cagam e cagam. Cagar é a coisa mais simples que existe, mas eu.
Senhor?
Não viu o bosta do assessor entrar. Está ali parado, no meio do gabinete. Nervoso. Na penumbra. As mãos dele na reunião horas antes. As mãos lavadas e perfumadas de quem passou pelo banheiro. Cagando depois do almoço. A coisa mais simples que existe. Cagou depois do almoço e agora está falando. Falando, falando. Senhor isso, senhor aquilo. Eles isso, eles aquilo. Eles quem? Eles também cagam. É, porra, todo mundo caga. O tempo todo. Opta por não dizer nada, o bostinha que fale sozinho. E ele fala. O lacaio fala sem parar. Nervoso, ali parado. Voz nervosa, mãos nervosas. Mãos lavadas e perfumadas. Mãos de quem cagou, mãos de quem ainda vai cagar mais, mãos de quem caga sempre que precisa, sem problemas, sem complicações, sem nada que. A coisa mais fácil. O que ele está dizendo?
As estradas, senhor, elas…
Volta a se concentrar no telefone. Que fale sozinho. Apaziguar os ânimos, convocar as lideranças, desescalar a coisa um pouco, só um pouquinho, até que possam repensar a. O quê? Estratégia? Precisa de uma estratégia pra cagar, isso sim. Dois generais, dois filhos e três ministros na sala vizinha, à espera. Falando merda. Todo mundo só fala merda. Todo mundo caga e todo mundo só fala merda. Na sala vizinha, em todo lugar.
Senhor, eles acham que…
Ele deixa o celular sobre a mesa com um gesto brusco, depois leva a mão à barriga. Por que essa merda tá acontecendo comigo? A garganta seca, as palmas suadas das mãos, um princípio de cãibra na panturrilha esquerda. Precisa de água. Precisa se deitar um pouco. Precisa cagar. Precisa dizer alguma coisa. Precisa tirar uma soneca, dar um pulo no quartinho e. Precisa falar com alguém. Não com esse lacaio de merda. Com um dos filhos, talvez. Mas o que o filho vai dizer? Dormir. O contrário do que diz o assessor. Dormir e não sonhar com nada. É agora ou nunca. Tantos pesadelos. Não dá mais pra recuar. No escuro. Já estão te chamando de frouxo por aí. Breu. Frouxo?
Frouxo, resmunga, a cabeça pendendo no escuro, como se tivesse caído no sono de repente, sem mais nem menos (dormir, não tem conseguido dormir muito, dormir e cagar, e se acontecer de cagar enquanto dorme?, cagar enquanto dorme, sujar a cama, sujar os lençóis, não a mulher, a mulher não dorme mais com ele, dorme noutro quarto, cagar enquanto dorme é melhor do que não cagar, qualquer coisa é melhor do que não cagar, eu quero, eu preciso, eu).
Senhor?
Hein? Ah. Nada.
Nada? Sim, nada. Não tem porra nenhuma aqui, pensa, pegando de novo o celular. Porra nenhuma. A porra dum deserto. O que as porras dos índios querem no meio desse deserto? A gente devia ter começado por eles. A gente devia ter começado melhor. A gente devia ter começado pra valer. A gente devia ter começado pior. Mas ainda tem como. Ainda tem por onde. Terminar o que começou. Ele só quer terminar o que começou, mas como? Não. Nem isso. Ele só quer cagar. Melhor não falar com ninguém. Esperar mais um pouco. Um pulinho no banheiro. Quem sabe consiga. Alguma coisa precisa sair. Qualquer tanto. Um pouquinho que seja. Não é possível que não tenha competência nem mesmo pra. Frouxo? Você aí, pensa ao ler a mensagem de algum filho da puta, pedindo, exigindo, implorando, tudo ao mesmo tempo. É, você. Canalha. Tenta fazer o que eu faço com o bucho entupido de bosta. Tenta, vai. Não é fácil, não, tá me entendendo? Porra. A coisa mais fácil do mundo. Cagar na cabeça dos ilustres magistrados. A coisa mais difícil. Todas aquelas palavras difíceis. Esticaram a corda. Meu filho, ele. A corda da descarga. Que se atrevam. Aquelas privadas antigas. Melhor nem pensar nisso. Uma cordinha junto à caixa, era cagar e se limpar e puxar. Melhor nem pensar em nada. Uma olhadinha antes. Por um tempo. Lá vai.
Tchau.
Senhor?
Hein? Ah. Nada.
Nada. Frouxo? Na semana anterior, era corno. Uma história circulando. Traído? Comia gente sempre que. Eu, eu comia. Metia no cu das vadias. Dei casa praquela ingrata. Meter no cu é simples, mas o pau precisa estar bem duro ou fica dobrando. Dei tudo, porra. Como endurecer o pau com esse bucho entupido de bosta? Ajudei todo mundo e é isso que eu ganho. Não dá pra pensar em mais nada. Traído por todos. Pelos outros. Frouxos são vocês. Meter no cu desses frouxos. Meter no cu de todo mundo antes que metam no meu. Não é uma boa ideia meter no meu cu, tô avisando, hein. Melhor procurar outro cu pra meter. Aqui? Traíras. Aqui, não. Canalhas. Eu ainda tô aqui. Eu não vou a lugar nenhum. Só saio daqui depois de cagar. Só saio daqui morto.
Eu ainda tô aqui.
Senhor?
Encara o assessor. Na penumbra. Mãos lavadas, perfumadas. Cagou hoje, né? Parabéns. Aposto que dá o cu. Largo. Viado. Não. Não tem nenhum viado aqui, não. Viado caga pra dentro. Pra dentro e pra fora. Viado caga. Todo mundo caga. Que se foda. Olhos no celular, volta a circular pelas redes e grupos. O assessor desiste, deixa o gabinete. Sozinho de novo. Trespassado pela dor. Intestinos. Os olhos ardendo, fixos no visor. E as polícias? Linhas cruzadas, conversas atravessadas. Todo mundo enlouquecido. Todo mundo batendo cabeça. Caos. Precisa de um gesto salvador. Messias. Motociata, motocada. Outro ultimato, quem sabe? Mais firme. Frouxo. Não sou frouxo, não, porra. Vocês é que são.
Vocês é que são, cambada de filho da puta.
Senhor?
Não viu o general entrar. O general e mais ninguém. Nem sinal dos filhos. Melhor assim. Não quer vê-los agora. Nenhum deles. O general está falando alguma coisa. Todo mundo está falando alguma coisa. Melhor não ouvir. Mas talvez devesse. Talvez precise. Precisa de tantas coisas. Não. Só precisa de uma coisa. Precisa cagar. Precisa cagar o quanto antes. A coisa mais simples do mundo. Não consegue pensar direito. O general está falando. Que fale sozinho. Se conseguisse cagar, talvez conseguisse ouvir. E pensar. Cagar direito, pensar direito. Ouvir. Merda até nos ouvidos? Faria tudo melhor. Faria tudo pior. Sem vacilos. Vacilões são eles. Sim. Todos eles. Todos, todos eles, os que cagam direito. Vacilões. Canalhas. Filhos da puta.
Desgraçados.
Senhor?
Ele solta um berro e atira o celular na parede.
O general se cala, as mãos para trás. Não parece surpreso ou intimidado.
Ele se vira após um momento, os olhos injetados, a respiração descompensada, e vocifera: Aqui não tem corno, não!
O general sorri, compreensivo, e deixa o gabinete sem dizer mais nada. O gabinete meio às escuras. Janelas e cortinas fechadas. Luzes apagadas, exceto por um abajur. Não aguenta mais isso. Precisa falar com alguém. Não quer falar com ninguém. Precisa fazer alguma coisa. Lá fora, na rua, algo explode. Qualquer coisa. Gritaria. Precisa fazer qualquer merda. Gritaria interminável. Ele precisa ligar pra alguém. O celular espatifado, ele precisa. Não. Cagar. Ele precisa cagar.

……

Imagem: Richard Hambleton, Shadow Head (óleo sobre tela, 2017).

Tagarelas e incendiários

Artigo publicado hoje n’O Popular.

Um conhecido foi a uma agência dos Correios. Enquanto esperava ser atendido, foi sequestrado. Não, não literalmente. Outra pessoa que também estava por ali tratou de sequestrá-lo para uma conversa despropositada. Tagarelas agem como buracos negros, sugando os incautos que tiveram a péssima ideia de deslizar por seu horizonte de eventos. Isso, para mim, é uma forma de sequestro. E do pior tipo, porque o sequestrador não pedirá resgate nem — caso seja uma pessoa honesta no âmbito desonesto de seu trabalho — libertará o sequestrado. Sim, poucas coisas são tão deseducadas quanto sequestrar um estranho para uma conversa despropositada. Isso não se faz, caramba.

E sobre o que o tal sujeito começou a tagarelar com o meu conhecido? O conceito de akrasia em Aristóteles? As estupendas atuações de Fabinho no meio-campo do Liverpool? O uso da montagem no esgarçamento da violência no cinema de Peckinpah? Não, nada disso. Como estavam em uma agência postal, ele começou a tagarelar sobre a privatização dos Correios. Em como o governo — que, segundo ele, faria muito mais se não fosse tolhido por coisas chatas e bobas como a Constituição — está certíssimo em “privatizar essa porcaria”. Acabou a mamata, certo?

Em princípio, não sou contra privatizações. Mas, também em princípio, sou totalmente contra qualquer privatização ou reforma levada a cabo pelo governo atual. Por quê? Ora, porque o governo Bolsonaro é inepto e iliberal. E o termo “iliberal” vai aqui em sua acepção mais ampla. Falei a esse respeito meses atrás, na coluna do dia 2 de março, quando citei uma entrevista que a economista Deirdre McCloskey cedeu ao Estadão: “A ideia principal do liberalismo é que não haja hierarquias: homem sobre mulher, heterossexuais sobre gays ou Estado sobre indivíduos”. Liberalismo envolve respeitar as liberdades e escolhas individuais conforme princípios democráticos basilares. Quando o neointegralismo bolsonarista (ou o stalinismo zumbi do outro extremo) fala em liberdade, ele está se referindo à liberdade para oprimir. Mas voltemos aos Correios.

Quando o meu colega cometeu o erro de redarguir à ladainha do fulano (nunca, jamais, discuta com cretinos), pontuando que talvez não fosse o caso de privatizar os Correios por agora, de forma tão descuidada e onerosa, a resposta do outro foi impagável. Ele não contra-argumentou. Ele não levantou razões pelas quais a privatização seria, sim, aconselhável. Nada disso. Ele fez uma careta de nojo e disse: “Você tem cara de universitário”.

Você sabe que está atolado em um país de idiotas desvairados quando o fato de a pessoa parecer alguém que se dedica ao estudo e à busca do conhecimento seja algo não apenas ruim, mas passível de desprezo. Sim, é isso mesmo. No Brasil, “universitário” é xingamento.

Em vista de tudo isso, não surpreende que o próximo dia 7 de setembro servirá não para celebrar a nossa independência e a comunhão das diferenças que formam (ou deveriam formar) a nação. Não, não. Ao que tudo indica, servirá para extravasar a sanha golpista daqueles que, animados por mentiras e pelo ódio, querem se curvar à mesmidade obtusa de uma nova-velha ditadura. Vivemos sob a certeza do eterno retorno do fogo

Medianias

Em Discurso sobre a metástase, de André Sant’Anna (ed. Todavia):

“(…) O povo indo à praia, no litoral do Dorival Caymmi, que bonito!, bebendo a cerveja daquela mulher que tem aquela bunda, aquele rabo!, na televisão, o alto-falante tocando aquela música da garrafa que entra no cu daquele cara com aquela barriga, todo suado, fedendo, dançando com aquela mulher dele, toda suada, bêbada, com uma espuminha branca no canto da boca, uma espinha enorme e purulenta na bunda, aquela bunda que é pura desmaterialização da arte, aquele casal que, depois da praia, vai praquela pousadinha the best, comer casquinha de siri com caipirinha de kiwi e depois fazer sexo com aquelas bundas, aquelas barrigas e aquele cheiro de ovo misturado com o cheiro do bafo das caipirinhas e das iscas de peixe com molho rosé. Espetáculo do crescimento!”

Descrição tão vívida quanto essa da mediania brasileira, só no conto “Basta um verniz para ser feliz”, do Marcelo Mirisola (no livro O Herói Devolvido, ed. 34):

“O que eu gosto nele é a vida minúscula e bem-sucedida que leva. O medo de mostrar o rabo, sujar a gravata. Duarte jamais vai cagar em cima do bolo de aniversário. É do tipo que frequenta sauna finlandesa às terças-feiras e reputa uma ‘personalidade vitoriosa’ por conta e obra da colônia importada que usa depois da barba: ‘gasto mil dólares por mês com a educação das crianças’, para ele a vida é barbear rente, hipócrita e macio, ‘outros tantos em Pet-shop, treinador’; e tudo, desde o nome (ou marca, tanto faz) do ‘Colégio’ das crianças até a conta do veterinário, absolutamente tudo, poderíamos incluir plano e saúde e câncer no cu, é uma sinopse deste sentimento comprado de vitória e frescura, depois da barba. Duarte é um babaca.”