Édipo, Aquiles.

Dentre as inúmeras coisas que fazem de “O Poderoso Chefão – Parte III” um filme que, embora não chegue às alturas do segundo, encerra a série de um modo mais do que digno, estão os arcos narrativos de Michael e Vincent Corleone, ao mesmo tempo contrários e complementares.

Aqui, peço licença para dispor as coisas horizontalmente e lançar mão do que me aprouver.

Michael, como se sabe, debate-se desde o primeiro filme quanto ao destino que lhe foi reservado: mata os inimigos para que o pai não seja assassinado por eles; assume a chefia da família porque o primogênito é metralhado e o outro irmão é um fraco; trucida os cabeças das outras famílias antes que o trucidem; etc.

No segundo filme, engolfado pela paranoia homicida como um Macbeth, abraça a hybris e, como ele próprio sugere a certa altura (em uma conversa com a mãe), ao fazer de tudo para salvar a família, acaba por perdê-la: a esposa o deixa e, ao final, ele ordena a morte do irmão que restava.

O terceiro é, assim, o desfecho expiatório que Michael, velho e doente, acossado por novos inimigos e, sobretudo, pelo passado, pede a D’us ao velar um velho amigo.

Vincent, o sobrinho, filho bastardo daquele irmão metralhado no primeiro filme, a despeito de sua juventude, é um mafioso da velha escola. Enquanto Michael, no paroxismo da culpa, quer porque quer sair, Vincent quer porque quer entrar, ou melhor, permanecer para mergulhar ainda mais fundo.

Vincent não conhece outro mundo. As coisas são como  são.

Noutras palavras, Vincent é tudo aquilo que Michael não foi ou, retificando, ele o é sem culpa, sem a menor intenção de se legitimar. A única dor que vemos nele é por ter de desistir de seu amor pela prima. É o preço a ser pago pela vida que escolheu, diz o tio. Ele sofre, mas não hesita, não titubeia. A vida que escolheu é aquela. O que é que se pode fazer?

A ironia disso é dilaceradora.

Depois de todo o esforço (inútil, uma vez que o mundo “legítimo” é tão repleto de açougueiros quanto o submundo, inclusive no Vaticano) feito por Michael para se legitimar, nós o vemos, fraco, ceder o lugar para o sobrinho, alguém muito consciente de sua própria natureza e do que precisa ser feito, custe o que custar.

E, de tanto pedir, Michael paga o preço. É uma figura trágica, ao passo que Vincent pertence a um outro universo, homérico. Michael abraça Édipo. Vincent está lá atrás, os braços dados com Aquiles. Não por acaso, quando o vemos pela última vez, está de arma em punho, logo depois de dar cabo daquele que cumprira com o projeto divino expiatório ao, tentando assassinar Michael, em vez de tirar a vida deste, matar-lhe a filha.

Michael temia restar sozinho. Vincent sempre soube não ter ninguém. Michael é soterrado pela culpa e goza a expiação que lhe impingem. Vincent soterra o mundo com a fúria, afoga-o com o sangue dos inimigos.

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