Chineses e ruínas

Chineses e ruínas

 

DA AUTOSSUPRESSÃO DA TEORIA DO CONHECIMENTO
À METAFÍSICA DESCRITIVA DE STRAWSON

Intro.

O percurso a ser percorrido neste texto será dividido em dois movimentos. No primeiro deles, discorrerei sobre a crítica feita por Friedrich Nietzsche à metafísica dogmática e ao projeto kantiano no primeiro capítulo de Para Além de Bem e Mal. A ideia é explicitar como se deu a implosão da teoria do conhecimento naquele contexto histórico-filosófico, ocasionando, dentre outras coisas, o surgimento e o recrudescimento do positivismo e do cientificismo. Em vista dos efeitos de tal implosão (ou “autossupressão”, como afirma Jürgen Habermas em Conhecimento e Interesse), sentidos ainda hoje, tentarei arrastar a discussão pelos cabelos até o século XX, expondo que o abismo aberto pela modernidade nunca foi colmatado, e que, dado o desenrolar das próprias discussões filosóficas, ele talvez seja incontornável. Tal contatação, no entanto, não significa necessariamente a débâcle da filosofia enquanto tal, mas, pelo contrário, talvez possa ser encarada como um indício de sua sobrevivência. Para calçar essa hipótese, usarei como exemplo o projeto de metafísica descritiva concebido pelo filósofo britânico Peter F. Strawson na obra Indivíduos.

Talvez inadvertidamente, e segundo o entendimento supracitado, a ânsia delimitadora kantiana teria resultado no estrangulamento das pretensões filosóficas “maiores”, por assim dizer. As “grandes questões” ainda pairam sobre as cabeças de alguns pensadores, mas não passariam de fantasmagorias desligadas de qualquer possibilidade efetiva de (re)apresentação ou reformulação. O vocabulário metafísico restaria esvaziado, e todas as tentativas de reconstituí-lo esbarrariam nos rumos da filosofia contemporânea, por um lado, e nos limites da linguagem humana, de outro. Tropeçaríamos na intraduzibilidade e/ou inacessibilidade daquelas questões, como que alijados do núcleo inquiridor da filosofia tal como ela era ou foi encarada e exercitada até a modernidade. Nesse contexto, a abordagem de Strawson só seria metafísica (se tanto) em um sentido fraco, restrito, castrado.

A argumentação que procuro desenvolver vai, contudo, em outra direção: de que, não obstante a incontornabilidade do abismo (ou mesmo por causa dela), os esforços de Strawson e de outros pensadores nada têm de “menores” ou vazios; de que também incontornável é o impulso para perseguir tais e tais questões fundamentais, ainda que em registros mais pontuais (ligados à filosofia da linguagem, por exemplo) e/ou modestos (relativamente aos grandes edifícios teóricos outrora erigidos e posteriormente bombardeados); e, por fim, de que a insistência e a sustentação desses esforços acabam por salvaguardar a própria dignidade filosófica.

 

1.Nietzsche contra Kant.

A julgar pelo aforismo 11 de Para Além de Bem e Mal, o despertar do sono dogmático referido por Immanuel Kant[1] foi algo buñueliano. Refiro-me aqui, a título de ilustração, a uma sequência do filme O Discreto Charme da Burguesia (Le Charme Discret de la Bourgeoisie, 1972), em que um dos personagens desperta de um sonho para se ver dentro de outro sonho. Haveria, por assim dizer, um encadeamento “dormitivo”, no qual o despertar jamais é alcançado, jamais se efetiva. Ou, nas palavras de Rubens Rodrigues Torres Filho em “A virtus dormitiva de Kant”, “a suspeita de que este despertar é uma ilusão, de que com ele se passa um sono mais profundo, ou se começa a sonhar” (TORRES FILHO, 1987, p. 34). Portanto, o filósofo de Königsberg jamais teria se libertado da modorra que o acometia e à filosofia.

Em seu projeto de reelaboração e radicalização do projeto kantiano operado no livro supracitado, Nietzsche enxerga na resposta à questão “como são possíveis juízos sintéticos a priori?” uma tautologia: “Em virtude de uma faculdade”. Para ele, isso não passaria de “niaiserie allemande”, de uma falsa resposta na qual encontramos uma mera “repetição da pergunta”. Em sendo assim, ele propõe a substituição da inquirição por outra: “por que é preciso a crença em tais juízos?”. No entender de Nietzsche, cujo aforismo é traduzido na íntegra por Torres Filho em “A virtus dormitiva de Kant”, trata-se de

conceber que para fins de conservação da essência de nossa espécie tais juízos têm de ser acreditados como verdadeiros; com o que naturalmente poderiam ainda ser juízos falsos! Ou, para dizê-lo mais claramente, e de modo mais grosseiro e radical: juízos sintéticos a priori não deveriam de modo algum “ser possíveis”, não temos nenhum direito a eles, em nossa boca são puros juízos falsos. Só que, por certo, é preciso a crença em sua verdade, como uma crença de fachada e uma aparência, que faz parte da ótica-de-perspectivas da vida. (Ibid., p. 32-33).

Retomando a citação do primeiro parágrafo, Torres Filho fala em “despertar do sono dogmático para cair no sono tautológico”. Eis aí o enredamento buñueliano, tal como procurei descrevê-lo.

A circularidade da coisa diria respeito ao próprio caráter transcendental da filosofia crítica, pelo qual o sujeito cognoscente, “antes de confiar em seus conhecimentos adquiridos diretamente”, precisa se certificar “das condições do conhecimento que é em princípio possível para ele”; no entanto, de que maneira essa faculdade do conhecimento “poderia ser investigada criticamente, se também essa mesma crítica tem de pretender ser conhecimento?” (HABERMAS, 2011, p. 31)[2]. Hegel tampouco escapou da armadilha, tratando, na verdade, de “aprimorá-la”:

Com Hegel, surge o mal-entendido fatal de que a pretensão que a reflexão racional levanta contra o pensar abstrato do entendimento seria sinônima da usurpação do direito das ciências autônomas por parte de uma filosofia que entra em cena, tanto agora como antes, a título de ciência universal. Já o primeiro golpe de vista sobre o progresso científico, realizado independentemente da filosofia, iria desmascarar essa pretensão, como sempre mal-entendida, considerando-a mera ficção. É sobre isso que se ergue o positivismo. (Ibid., p. 55-56.)

Para Nietzsche, e recorro agora à leitura de Scarlett Marton, o que faltou a Kant foi radicalidade: “Ao impor limites ao conhecimento humano, o ‘chinês de Königsberg’ tornou a moralidade indiscutível, restaurou o mundo suprassensível e reintroduziu sub-repticiamente os objetos da metafísica dogmática” (MARTON, 1990, p. 161). O esforço de extirpar o suprassensível da teoria do conhecimento foi comprometido ou anulado na medida em que o mesmo foi eventualmente readmitido na ética por meio da segunda Crítica. Nesta, é como se o suprassensível entrasse por uma janela lateral do edifício kantiano, janela arrombada com um pé-de-cabra chamado imperativo categórico. E, “ao colocar Deus como objeto de crença, [Kant] abriu espaço para que fosse avaliado enquanto valor moral” (Ibid., p. 163). Em outras palavras, Kant teria substituído um dogmatismo por outro, o que justifica aquela imagem do despertar de um sono (ou de uma “modorra”[3]) para cair nos braços de outro(a).

A fim de ilustrar isso, lanço mão de uma das formulações do imperativo categórico: age apenas segundo a máxima pela qual possas ao mesmo tempo querer que ela se torne uma lei universal” (KANT, 2009, p. 215). Como, por exemplo, jamais mentir: “É, portanto, um mandamento sagrado da razão, que ordena incondicionalmente, não restringido por nenhuma conveniência: [deve-se] ser verídico (honesto) em todas as declarações” (KANT cit. in PUENTE, 2002, p. 73). Em outras palavras, o imperativo categórico comanda que sempre digamos a verdade porque é irracional pressupor que uma mentira qualquer, grande ou pequena, inofensiva[4] ou não, dita por conveniência, possa vir a ser encarada como uma lei universal.

Mais do que isso: na Metafísica dos Costumes, Kant afirma que mentir é uma “rejeição” e uma “destruição da própria dignidade do homem”, e que o mentiroso “tem um valor ainda menor do que se fosse simplesmente uma coisa” (KANT, 2011, p. 358-9). Ou seja, o indivíduo deprimido que, diante de estranhos, procura esconder sua condição (como no exemplo abaixo, na nota 4), ou um policial disfarçado que mente para o chefe de um cartel de drogas a fim de se proteger, armar um flagrante e prender o criminoso, bem, eles são ainda menores do que uma coisa, pois rejeitaram e destruíram a própria dignidade do ser humano enquanto tal.

O absolutismo dessa visão filosófica escancara o dogmatismo fundamental que a anima. Levando-se em conta esse escancaramento, talvez nem seja o caso de dizer, como Marton, que os objetos da metafísica dogmática foram reintroduzidos de forma sub-reptícia. A radicalização dessa proposta por Nietzsche, ainda que mire uma “superação”, uma “transvaloração”, é perpetrada mediante a utilização de um mesmo vocabulário, até porque não temos outro. Além disso, será que o uso de expressões e construções hipotéticas (“supondo que”, “parece-me”, “talvez” etc.) chega a camuflar o teor asseverativo de trechos como “Uma criatura viva quer antes de tudo dar vazão a sua força — a própria vida é vontade de poder”, “O que é chamado ‘livre-arbítrio’ é, essencialmente, o afeto de superioridade em relação àquele que tem de obedecer”, “A causa sui [causa de si mesmo] é a maior autocontradição até agora imaginada, uma espécie de violentação e desnatureza lógica” e “Toda a psicologia (…) tem estado presa a preconceitos e temores morais: não ousou descer às profundezas”?[5]. É difícil ignorar a certeza de alguém que argumenta com um martelo na mão.

Habermas (2011, p. 427) sublinha o fato de que a radicalização empreendida por Nietzsche psicologizou “o nexo de conhecimento e interesse”, convertendo-o “em fundamento de uma dissolução metacrítica do conhecimento em geral”. Com isso, ele concluiu a “autossupressão da teoria do conhecimento” iniciada pelos filósofos idealistas que o antecederam, identificando como inexequível a autorreflexão do sujeito cognoscente, presa na circularidade metacrítica que engendra. Homem de seu tempo, Nietzsche respirou os ares positivistas e também se contaminou.

Abrindo um pequeno parêntese, talvez seja interessante ressaltar a ironia relativa à acusação nietzschiana de falta de radicalidade no pensamento kantiano, pois, nos Prolegômenos, em passagem também referida por Torres Filho (op. cit., p. 37), é exatamente isso que Kant enxerga em Hume, o qual não teria “representado o problema em toda a sua amplidão”, mas “apenas por um lado”, sendo necessário “ir mais longe” do que aquele “a quem se deve a primeira centelha desta luz” (KANT, 2008, p. 17). Nietzsche não parece enxergar centelha alguma na investida kantiana, na tentativa (malograda?) de se firmar um compromisso entre empirismo e racionalismo, e na censura feita tanto ao dogmatismo quanto ao ceticismo — inclusive, como ressalta Torres Filho (op. cit., p. 40), no que percebe ou enxerga como dogmático no próprio ceticismo.

Em se tratando do esforço (de)limitador empreendido na primeira Crítica com relação ao estatuto e aos objetos da metafísica, e dado o recuo ou concessão já citado, procedido na Crítica da Razão Prática pela via da moralidade, talvez não seja exagerado enxergar em Kant aquele que, de fato, filosofou com o martelo: ao inadvertidamente quebrar os joelhos da teoria do conhecimento, o “chinês de Königsberg” abriu caminho para o “mal-entendido” hegeliano e, com isso, para o positivismo e o cientificismo. Mas, tendo em vista a inoperância dos sistemas propostos a seguir, tanto por partidários quanto por opositores do kantismo e do neokantismo, e seja ou não por “culpa” do próprio Kant, é forte a propensão para encarar boa parte dos filósofos surgidos desde então como uma sucessão de “chineses”[6]: o chinês de Rammenau, os chineses de Tübingen, o chinês de Röcken, o chinês da Floresta Negra, os chineses de Frankfurt, e assim por diante. O que uniria essa enorme China filosófica seria a incapacidade de colmatar o abismo aberto nos estertores do século XVIII e ampliado no decorrer do XIX, de superar a deposição (definitiva?) da “rainha”[7].

Em se tratando do chinês de Röcken, dizer ou anunciar a morte de Deus (por exemplo) não leva, por si só, a qualquer superação ou transvaloração. A rigor, não leva sequer a um velório — acaso levasse, é provável que o caixão estivesse vazio.[8] Aqui, abrindo mais um parêntese, lembro do Pai Morto que é arrastado pelos filhos no romance homônimo de Donald Barthelme (itálico do autor):

Morto, mas ainda conosco, ainda conosco, mas morto.
(…)
Nós queremos que o Pai Morto esteja morto. Sentamo-nos com lágrimas nos olhos querendo que o Pai Morto esteja morto — enquanto fazemos coisas fantásticas com as mãos. (BARTHELME, 2015, p. 16-17.)

E mais:

Não gosto disso, disse o Pai Morto.
Do quê?, Julie perguntou. Do que você não gosta, meu querido idoso?
Você estão me matando.
Nós? Nós não. Nós, de maneira alguma. Processos estão matando você, não nós. Processos inexoráveis. (Ibid., p. 216.)

Palmilhando em meio aos estilhaços do idealismo alemão, à carnificina positivista, à subsunção da teoria do conhecimento ao cientificismo, à referida autossupressão da teoria do conhecimento, não é difícil perceber como o vazio deixado por aquela Morte, nos processos instaurados por meio e a partir dela, horrores inúmeros tiveram, têm e terão lugar. Há uma linha reta entre o correr desenfreado das ciências assim divorciadas da teoria do conhecimento, livres de quaisquer fundamentações e anteparos epistemológicos e éticos, e eventos como a Shoah.

Não se trata de lamentar o Falecimento, óbvio. Passado tanto tempo, e conforme demonstrado pelo andamento da própria história da filosofia, o problema que levou àquela autossupressão permanece. Diversos pensadores, como Heidegger e Habermas, tentaram superá-lo com todas as suas forças, caindo em armadilhas outras e/ou esbarrando nos limites impostos pela própria linguagem para significar e ressignificar tais e tais coisas.

Assim, a insistência em se dirigir ao problema talvez seja tão incontornável quanto o abismo aberto por ele. Mas seria um erro encarar isso como uma paralisia. Pois, ainda que os objetivos últimos permaneçam inalcançados (e talvez sejam mesmo inalcançáveis), a filosofia segue lidando com aspectos inescapáveis da vida e do pensamento humanos. A precarização e o eventual “fracasso” desses esforços não podem ser confundidos com uma indignidade, e é isso que tentarei demonstrar a seguir, usando Strawson à guisa de exemplo.

 

2. O chinês de Oxford circula pelas ruínas.

Peter Frederick Strawson (1919-2006) é um caso sui generis no âmbito da filosofia contemporânea. Embora seja identificado com o chamado “grupo de Oxford” e tenha publicado trabalhos importantes no campo da filosofia analítica, dentre os quais se destaca o clássico artigo “On referring” (1950)[9], ele também escreveu um autoproclamado “ensaio de metafísica descritiva” intitulado Indivíduos (1959).

A metafísica descritiva, conforme ele explica na introdução do livro, “contenta-se em descrever a estrutura real do nosso pensamento sobre o mundo”, ao passo que o que chama de “metafísica revisionista” tenta “produzir uma estrutura melhor”. Strawson salienta que nenhum metafísico foi, “tanto em intenção, como de fato, totalmente uma coisa ou a outra”, mas identifica Descartes, Leibniz e Berkeley como “revisionistas”, e Aristóteles e Kant como “descritivistas” (STRAWSON, 2019, p. 13). Em seguida, ele procura distinguir a metafísica descritiva da análise filosófica, lógica ou conceitual, e o faz ressaltando seus âmbito e generalidade, pois ela visa “revelar os aspectos mais gerais da nossa estrutura conceitual”. Tal estrutura não se mostra “na superfície da linguagem de imediato, mas jaz submersa” (Ibid., p. 14). Como se pode observar, Strawson advoga a existência de “um núcleo central maciço do pensamento humano”, o qual

não tem história — ou nenhuma história registrada nas histórias do pensamento; há categorias e conceitos que, no seu caráter mais fundamental, não mudam nada. Obviamente, eles não são as especialidades do pensamento mais refinado. São os lugares-comuns do pensamento menos refinado e são, contudo, o núcleo indispensável do equipamento conceitual dos seres humanos mais sofisticados. É com eles, suas interconexões e a estrutura que formam, que uma metafísica descritiva estará primariamente preocupada. (Ibid., p. 15.)

Essa concepção talvez possa ser identificada por alguns com aquilo que, no aforismo 354 d’A Gaia Ciência, Nietzsche chama de “metafísica do povo”, típica dos “teóricos do conhecimento que se enredaram nas malhas da gramática” e ancorada em ficções tais como “a oposição entre sujeito e objeto”[10] (NIETZSCHE, 2012a, p. 223). No entanto, ao se concentrar nos pressupostos para a identificação dos particulares (sendo que os objetos materiais seriam os particulares básicos) e nas relações entre universais particulares, Strawson aponta para o mundo, procura dizer algo acerca dele e das maneiras como nos relacionamos com ele:

(…) Nós reinterpretamos a tarefa principal do filósofo (a tarefa metafísica) como a de responder à pergunta: quais são os conceitos e categorias mais gerais que organizam nosso pensamento, nossa experiência, acerca do mundo? E como se relacionam entre si dentro da estrutura total do pensamento? Ao responder a essa questão, respondemos incidentalmente à questão na sua forma mais geral, como realmente concebemos que o mundo é, ou qual é realmente a nossa ontologia básica (a ontologia em atividade). (STRAWSON, 2002, p. 54.)

Essa “ontologia em atividade” é algo que transcende as “malhas da gramática”. Strawson enxerga a ontologia, a epistemologia e a lógica como “três aspectos duma única investigação unificada” (Ibid., p.54).

Embora utilize termos e expressões como “tarefa metafísica” e “ontologia”, ele circula por um ambiente comparativamente bem mais modesto e aferrado à dimensão pragmática da linguagem do que, por exemplo, alguém como Descartes. São “chineses” com pretensões distintas: o francês se propõe a construir toda uma malha ferroviária, ao passo que o britânico se limita a mapear as ferrovias existentes e as paisagens que incidentalmente consegue observar. Enquanto “descritivista”, Strawson não intenta conceber um sistema que revise a nossa estrutura conceitual ou busque criar algo “novo”. Os trilhos já estão colocados.

Reitero: essa postura modesta talvez seja incontornável, dada a implosão da teoria do conhecimento e os rumos tomados pelas ciências não apenas destituídas de qualquer direcionamento filosoficamente consequente, mas, ao que tudo indica, até mesmo infensas a qualquer coisa do tipo. Em um certo sentido, a autossupressão da teoria do conhecimento teve como resultado não a saudável delimitação pretendida por Kant, mas o estrangulamento das pretensões “maiores” da filosofia. Não custa repisar que as tentativas posteriores a Kant de reformulação (por Hegel, Nietzsche, Heidegger e Habermas, por exemplo) não alcançaram o que pretendiam alcançar, mas, sim, ensejaram descarrilhamentos diversos.

No entanto, seria tolice deplorar essas e outras tentativas, bem como os esforços mais modestos (de novo: comparativamente) de “chineses” como Strawson. Há bastante tempo, os pensadores circulam, andrajosos, pelas ruínas dos grandes edifícios filosóficos, os quais eles mesmos, não raro de maneira inadvertida, trataram de implodir. Não há indignidade nisso, não há indignidade nesse palmilhar andrajoso. E temo que não haja como evitá-lo.

Talvez ele seja algo que poderíamos chamar de um impulso — no que o “chinês” de Röcken sorriria — ou, quem sabe, de um destino — no que o “chinês” da Floresta Negra se regozijaria. Aliás, em se tratando deste último, sua expectativa de ecos nietzschianos (na medida em que aponta para a superação das dicotomias) vem a calhar para os rumos da discussão, além de ser um tanto comovedora:

Talvez exista um pensamento fora da distinção entre racional e irracional, mais sóbrio ainda do que a técnica apoiada na ciência, mais sóbrio e por isso à parte, sem a eficácia e, contudo, constituindo uma urgente necessidade provinda dele mesmo. Se perguntarmos pela tarefa deste pensamento, então será questionado primeiro, não apenas este pensamento, mas também o próprio perguntar por ele. (…) (HEIDEGGER, 1979, p. 81.)

Visto por esse lado, isto é, pelo lado da “urgente necessidade provinda dele mesmo [pensamento]”, talvez não haja, afinal, nada de modesto nos esforços metafísico-descritivos de Strawson. Ao mesmo tempo em que sobrevive como pensador, ele não se deixa esmagar sob o peso das grandes questões e tampouco se ocupa de perquirições menores ou marginais. Por tudo isso, a insistência em referir-se a essa “estrutura submersa”, em procurar desvelar a nossa “ontologia básica”, é uma tarefa que nada tem de “grosseira”.

E, mesmo que não seja o caso, mesmo que Strawson não passe de mais um exemplo daquela “raça dura e laboriosa” referida por Nietzsche (2012b, p. 20), a verdade é que não chegaríamos a lugar algum sem “operários” como ele. Há, sim, muito o que ver e apreender por essa via que se coloca explícita e nomeadamente como descritiva, ou seja, não explicativa.

Em suma, ao sustentar o caráter descritivo de sua metafísica (e ao insistir em utilizar o termo em um momento que ele havia sido desterrado do vocabulário filosófico), Strawson acaba por justamente salvaguardar a dignidade filosófica. O que ele busca, na medida do possível e do factível, é a manutenção de uma discussão fundamental. Dada a precariedade do nosso tempo e, a rigor, de qualquer tempo, e não obstante os becos sem-saída com os quais os filósofos se depararam e continuam a se deparar[11], é possível que o sentido esteja em tal manutenção, esteja nesse esforço contínuo de adensamento e clarificação conceituais.

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NOTAS

[1] No prefácio dos Prolegômenos a Toda a Metafísica Futura que Queira Apresentar-se como Ciência, a célebre admissão de Kant: “Confesso francamente: foi a advertência de David Hume que, há muitos anos, interrompeu o meu sono dogmático e deu às minhas investigações no campo da filosofia especulativa uma orientação inteiramente diversa” (KANT, 2008, p. 17).

[2] Convém ressaltar que Habermas está, no trecho mencionado, ecoando um argumento sustentado por Hegel no início da Fenomenologia do Espirito. Não por acaso, a seção do livro Conhecimento e Interesse da qual foi retirada a citação se intitula “A crítica de Hegel a Kant: radicalização ou superação da teoria do conhecimento”.

[3] Conforme aponta Torres Filho, o termo usado por Kant na passagem mencionada dos Prolegômenos é “Schlummer”, que também pode ser traduzido como “sono pesado”, “letargia”, “modorra”.

[4] Um exemplo extremo: dois vizinhos se encontram no elevador. Não são amigos ou próximos. Por educação, quase como um reflexo social, um pergunta para o outro: “Tudo bem?”. E esse outro não está nada bem, passa por dificuldades pessoais e profissionais, mas responde: “Tudo ótimo. E com você?”.

[5] NIETZSCHE, 2012b, p. 19, 23, 25, 27.

[6] O teor racista da tirada nietzschiana soa inaceitável para a contemporaneidade, mas, por outro lado, a imagem é boa demais para não ser reaproveitada.

[7] Convém observar que, no prefácio da primeira edição da Crítica da Razão Pura, Kant já se refere ao status majestático da metafísica como algo já superado (grifos meus): “Houve um tempo em que esta ciência (a metafísica) era chamada de rainha de todas as outras” (KANT, 2010, p. 3).

[8] E, mesmo que víssemos ali o tal Cadáver, Nietzsche talvez não pudesse ser chamado de deicida, da mesma forma como não é um homicida alguém que, passeando pela rua, tropeça em um defunto.

[9] O artigo é uma crítica da teoria das descrições definidas de Bertrand Russell. Nele, Strawson distingue entre pressuposição e implicação. Grosso modo, ele institui três dimensões expressivas: sintática (relativa à maneira como as expressões são formadas), semântica (relativa ao significado das expressões) e pragmática (relativa ao uso). O significado de uma expressão linguística é, portanto, representado pelos conjuntos de regras, convenções e hábitos que, por assim dizer, “disciplinam” o seu uso. Há, portanto, uma distinção entre uso e significado: este é algo que atribuímos à expressão de maneira intrínseca; aquele, algo que depende do falante e do contexto da enunciação. Com isso, Strawson afastou a filosofia da linguagem da filosofia da lógica.

[10] A identificação e reidentificação de particulares são cruciais na descrição de Strawson do nosso esquema conceitual. A condição de possibilidade para a identificação dos particulares espaço-temporais é o esquema conceitual, cujas unicidade e singularidade possibilitariam a comunicação, dada a já citada imutabilidade das categorias e conceitos em “seu caráter mais fundamental”.

[11] “Em que círculo movemo-nos e, na verdade, de maneira inevitável?”, pergunta o mesmo Heidegger (Ibid., p. 81).

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BIBLIOGRAFIA

BARTHELME, Donald. O Pai Morto. Tradução: Daniel Pellizzari. Rio de Janeiro: Rocco, 2015.
HABERMAS, Jürgen. Conhecimento e Interesse. Tradução: Luiz Repa. São Paulo: Editora Unesp, 2014.
HEIDEGGER, Martin. “O Fim da Filosofia e a Tarefa do Pensamento.” Em Conferências e Escritos Filosóficos. Coleção Os Pensadores. Tradução e notas: Ernildo Stein. São Paulo: Abril Cultural, 1979.
KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Tradução: Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão. Lisboa: Fundação Calouste Gulbekian, 2010.
_______________. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Tradução: Guido Antonio de Almeida. São Paulo: Discurso Editorial; Barcarolla, 2009.
_______________. A Metafísica dos Costumes. Tradução: José Lamego. Lisboa: Fundação Calouste Gulbekian, 2011.
_______________. Prolegômenos a Toda a Metafísica Futura que Queira Apresentar-se como Ciência. Tradução: Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 2008.
_______________. “Sobre um pretenso direito de mentir por amor aos homens.” Tradução: Theresa Calvet de Magalhães e Fernando Rey Puente. Em PUENTE, Fernando Rey (org.). Os Filósofos e a Mentira. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002.
MARTON, Scarlett. Nietzsche – Das Forças Cósmicas aos Valores Humanos. São Paulo: Editora Brasiliense, 1990.
NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. Tradução: Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras (edição de bolso), 2012a.
___________________. Além do Bem e do Mal. Tradução: Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras (edição de bolso), 2012b.
STRAWSON, Peter Frederick. Indivíduos – Um Ensaio de Metafísica Descritiva. Tradução: Plínio Junqueira Smith. São Paulo: Editora Unesp, 2019.
TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. Ensaios de Filosofia Ilustrada. São Paulo: Editora Brasiliense, 1987.

 

[Imagem: Pablo Palazuelo – Omphale V.]

Canto LI

“Quinto elemento: lama”: observação que Napoleão teria feito na Polônia, ao retornar da campanha na Rússia — “Dieu, outre l’eau, l’air, la terre et le feu a crée une cinquième element, la boue”.

“Com usura (…) rebanho”: variação dos versos do Canto XLV, usando uma dicção moderna.

Para escrever os versos seguintes, com as referências às aves, Pound usou o catálogo The Art of Angling, de Charles Bowlker (daí o “número 2”, por exemplo).

“Quem tinha a luz de quem faz”: verso inspirado na filosofia do inglês Robert Grosseteste (1175-1253), cujo De luce é ancorado na ideia de que o primeiro “fazedor”, Deus, criou as formas materiais a partir da luz. No entender de Pound, a luz de quem faz é a inteligência da personalidade ativa, cujas ideias não são simplesmente teóricas, mas moldadas de tal maneira que se tornam aplicáveis ​​ao mundo real.

“deo similis quodam modo / hic intellectus adeptus”, “de certa forma similar a Deus / este intelecto adquirido”: Pound cita “Cavalcanti”, de Alberto Mangnus, via Avérroes et l’averroïsme, de Ernest Renan.

“Relva: nunca fora do lugar”: referência ao banco Monte dei Paschi, de Siena. Pound interpretou o sucesso do banco como resultado do uso das pastagens fora da cidade como garantia para os empréstimos. A base de sua própria segurança era, portanto, um recurso natural que se renovava a cada ano e crescia em todos os lugares.

“Assim falando em Königsberg”: Königsberg, à época da escrita desse Canto, era uma cidade prussiana, terra natal de Immanuel Kant. Muito bombardeada por aliados e soviéticos durante a Segunda Guerra Mundial, ela foi reconstruída, fagocitada pela União Soviética e, em 1946, rebatizada como Kaliningrado.

“Zwischen die Völkern erzielt wird”, “ser alcançado entre as nações”: citação abreviada de comentário de Rudolf Hess publicado no Völkischer Beobachter em 10 de julho de 1934. A citação completa: “Es is höchste Zeit daß endlich eine wirkliche Verständigung zwischen den Völkern erzielt wird” (“Já é hora de um acordo genuíno ser finalmente alcançado entre as nações”).

“modus vivendi”: Hess usa o termo alemão Verständigung, que Pound latiniza.

“girando em ar agitado”: referência ao Inferno XVII, 97-136. O voo de Gerião, um monstro mítico reimaginado por Dante para representar a fraude e ser o guardião do oitavo círculo infernal.

“os 12 (…) regentes”: os doze presidentes do Banco Central francês, todos financistas e industriais.

“Sou a ajuda dos velhos”: uma das estratégias dos fabricantes de armas era comprar jornais e angariar apoio político a fim de defender as armas como salvaguardas da paz. Além disso, arregimentavam apoio popular construindo hospitais e escolas.

“Liga de Cambrai”: liga criada pelo papa e pelo rei francês no começo do século XVI a fim de enfraquecer o poderio de Veneza. Foi por essa época que Vasco da Gama descobriu uma nova rota para a Índia, o que foi desastroso para Veneza.

Os caracteres chineses que encerram o Canto dizem respeito ao “cheng ming”, conceito político confuciano também conhecido como “retificação dos nomes”. É provável que Pound tenha encontrado os caracteres na edição bilíngue dos Quatro Livros por James Legge. A ideia é que, se a terminologia estiver incorreta, as instruções do governante não serão claras. E, caso as instruções não sejam claras, é impossível conduzir os assuntos do estado de forma apropriada.

Canto L

“‘A revolução’ disse o Sr. Adams ‘ocorreu nas / cabeças do povo'”: este Canto remete ao XXXII, no qual essa mesma citação (uma ideia recorrente de Adams, expressa em diversas cartas nos seus últimos anos de vida) aparece.

“… antes de Lexington”: em 19 de abril de 1775, a primeira batalha da Guerra de Independência ocorreu nessa cidadezinha próxima de Boston.

“… na época de Pedro Leopoldo”: Pietro Leopoldo (1747-92), filho de Francisco I, sucedeu seu irmão, José II, como imperador romano-germânico (1790-92), quando passou a se chamar Leopoldo II. Antes, foi Grão-Duque da Toscana (1765-90), a quem Adams procurou a fim de angariar ajuda financeira para a Guerra de Independência. No Canto XXXIII, Pound cita uma carta de Jefferson para Adams na qual o primeiro sugere que busquem a ajuda de Leopoldo. No Canto XLIV, Pound remete às reformas econômicas feitas por Leopoldo como Grão-Duque.

“Conde Orso”: também mencionado no Canto XLIII, a exemplo da “dívida quando os Médici tomaram o trono”. A jurisdição de Orso, concedida pelos Médici, limitava-se à cidadezinha de Monte Pescali, perto de Grosseto. Ele foi orientado a cobrar o imposto do sal, mas sem inflacionar do preço, a não proteger criminosos e a não inventar nada que criasse desaprovação popular. O controle dos Médici sobre a Toscana cessou em 1737.

“a primeira loucura”: Pound encontrou essas informações na Storia civile della Toscana, de Antonio Zorbi (1808-1879), um historiador anticlerical, contrário aos Médici e apoiador dos Habsburgo. A decadência da indústria têxtil de Florença se deu porque os florentinos importavam lã crua da Inglaterra e estabeleceram manufaturas no exterior, a fim de poupar os custos com o transporte. Isso fez com que Flandres e a Inglaterra desenvolvessem suas próprias indústrias e, eventualmente, parassem de trabalhar com Florença.

“as artes foram abaixo”: segundo Zorbi, houve uma decadência generalizada das artes e ciências sob o domínio dos Médici.

“Un’ abbondanza che affamava”, “uma abundância que enfaimava”: criado por Cosimo I no século XVI, o escritório da “Abbondanza” era responsável por supervisionar a importação e a distribuição de grãos na Toscana. Em certas épocas de crise e/ou escassez, o “Abbondanza” não conseguia fazer seu trabalho direito — daí a ideia da “abundância que enfaimava”.

“… o ensaio do Sr. Locke”: no caso, Several Papers Relating to Money, Interest and Trade.

“mas Gênova (…) para o prejuízo de Livorno”: na época da Guerra de Independência, o Sacro Império Romano assinou o tratado de neutralidade com a Inglaterra. Com isso, não obstante as vantagens de fazer comércio com os Estados Unidos, Leopoldo manteve a Toscana fiel a o tratado, e os norte-americanos firmaram uma parceria com Gênova. Ao final da guerra, em 1783, os EUA e Gênova já tinham uma relação comercial estabelecida, ao contrário da Toscana e de seu porto em Livorno. Os toscanos tiveram de recorrer a embarcações genovesas para transportar seus produtos para os EUA.

“Te, admirabile, O VashinnnTTonn!”, “Voi, popoli trasatlantici admirabili”: Zorbi louvando Washington e os EUA.

“e então enviaram-no para ser imperador”: no caso, Leopoldo após a morte do irmão.

“Francisco José”: a exemplo do que faz nos Cantos XVI, XXXV e XXXVIII, Pound expressa seu desprezo pelo imperador austríaco Francisco José (1830-1916).

“na merda de Metternich na podridão absoluta”: Klemens von Metternich (1773-1859) foi um político austríaco. Foi nomeado ministro das relações exteriores em 1809 e chanceler em 1821. Ele é considerado o arquiteto da restauração conservadora na Europa pós-Napoleão. Caiu por conta dos levantes revolucionários de 1848.

“Mas Ferdinando protelou um Anschluss”: Fernando III, filho de Leopoldo, tornou-se Grão-Duque da Toscana em 1790, depois da renúncia de seu pai em 29 de julho. A ideia era preservar a separação das coroas toscana e austríaca, bem como a independência da Toscana. Em 1799, Napoleão forçou Ferdinando a deixar o trono, o qual ele retomou em 1814. Reinou até morrer, em 1824.

“‘certas práticas denominadas religiosas’ disse Zorbi” / “‘falta de experiência em assuntos econômicos'”: Zorbi digressiona acerca das razões pelas quais o fulgor revolucionário foi bem-sucedido nos EUA, mas não na Toscana. Uma das razões seria a influência do clero sobre o povo. A incompetência toscana na administração econômica também é mencionada.

“Pio sexto, vigário da loucura”: o conde Giovanni Angelo Braschi (1717-1799) se tornou o papa Pio VI em 1775. Ele condenou a Revolução Francesa por razões óbvias. Em 1796, Napoleão derrotou as tropas papais em sua primeira campanha italiana. Dois anos depois, quando se recusou a renunciar ao poder temporal, Pio VI foi capturado e levado para a França, onde morreu meses depois.

“MARENGO”: a vitória contra os austríacos na Batalha de Marengo, em 14 de junho de 1800, assegurou o controle napoleônico sobre toda a Itália.

“Primeiro Cônsul”: Napoleão foi “Primeiro Cônsul” durante o período do “Consulado” (1799-1804), inaugurado pelo golpe do 18 de Brumário de 1799. Em 2 de dezembro de 1804, quando Napoleão foi coroado imperador, o Consulado chegou ao fim.

“Deixei paz. Encontrei guerra.”: impressões de Napoleão ao retornar do Egito, em outubro de 1799.

“1791”: erro. O correto é 1799.

“Marte significando, no caso, ordem / Aquele dia era o Direito junto ao vitorioso”: Pound liga o deus grego da guerra à figura de Napoleão, que instituiu uma ditadura com o golpe e consolidou seu poder após Marengo, após o que implementou (entre outras coisas) o seu código legal.

“juros de 24 por cento”: após a vitória de Napoleão em Marengo, houve um aumento da atividade dos usurários na Toscana, segundo Zorbi, o que contribuiu para o definhamento do comércio.

“1801 os triúnvirus…”: sob o domínio francês, houve diversas trocas de governantes na Toscana. Em 1801, ela chegou a ser administrada por três homens, Chiarenti, Pontelli e De-Ghores, os “triúnviros”. A desordem econômica e política era constante.

“Portoferraio”: cidade na ilha de Elba, na costa da Toscana, onde Napoleão foi exilado em maio de 1814, após sua derrota na Batalha de Leipzig (também chamada de Batalha das Nações), em 16-19 de outubro de 1813. Dois milhões (de francos) era a pensão que Napoleão recebia no exílio, metade dos quais ele repassava à esposa, Maria Luísa (1791-1847), filha do imperador Francisco I.

“recebeu um estado livre de dívidas”: referência à restauração das antigas monarquias europeias via Congresso de Viena (1814-15).

“reconduzir o Papa, mas / não reinstalar qualquer república”: o papa reconduzido foi Pio VII (1742-1823), que, eleito após a morte de Pio VI, também foi capturado por Napoleão. Pio VII permaneceu preso na França por catorze anos, só retornando a Roma após a derrota de Napoleão em 1813. Por sua vez, as repúblicas de Veneza e Gênova foram incorporadas aos reinos da Áustria e da Sardenha, respectivamente. Lucca foi dada a Maria Ana Elisa, irmã de Napoleão.

“ao dividir a Polônia”: no caso, entre Rússia, Áustria e Prússia.

“e aquele filho de uma cadela, Rospigliosi”: Giuseppe Rospigliosi (1755-1833) foi comissário especial para a Toscana, onde liderou um governo provisório entre maio e setembro de 1814, até o retorno de Ferdinando III.

“M… a no trono da Inglaterra, m…a no sofá austríaco”: “Merda” e “merda”, claro. No caso, George III (o louco), e Francisco I, além (provavelmente) de Metternich.

“… os quatro Jorges”: os “Jorges” da dinastia de Hanover, que governaram a Grã-Bretanha entre 1714 e 1830. O “pus” na Espanha são os Bourbon.

“… Wellington era um proxeneta de judeus (…) fazia”: Pound parece usar Wellington para xingar os Rothschild aqui, cuja ascensão se deu durante as Guerras Napoleônicas. Arthur Colley Wellesley, 1.º Duque de Wellington (1769-1852), foi um marechal e político britânico, e primeiro-ministro do Reino Unido por duas vezes. No entanto, a julgar por decisões tomadas em sua carreira política, é possível afirmar que Wellington não tivesse qualquer apreço pelos judeus.

“‘Deixe o Duque! Vá pro ouro!'”: durante o primeiro mandato de Wellington como primeiro-ministro (1828-1830) pelo Partido Conservador, houve uma campanha por reformas políticas que permitissem à classe média votar para o parlamento. Francis Place, um agitador radical, celebrizou os dizeres “Pare o Duque! Vá atrás do ouro!”. Com isso, ele queria dizer que uma corrida ao Banco da Inglaterra desestabilizaria a Câmara dos Lordes, forçando os conservadores a apoiar a reforma. Em junho de 1832, Wellington cedeu à pressão pública e desistiu de se opor à Lei de Reforma, permitindo que os Whigs (que chegaram ao poder em 1831) passassem seu projeto pelas duas casas e implementassem a lei (diluída) em 1833. Pound mudou os dizeres de Place, trocando “Stop” por “Leave”.

“‘Da brigantine Incostante'”: Napoleão deixou Elba no bergantim (“brigantine”) Inconstante e desembarcou em Cannes no dia 1º de março de 1815.

“Ney fora de sua sela / Grouchy demorou”: dentre os fatores que contribuíram para a derrota de Napoleão em Waterloo, estão a queda do Marechal Ney de seu cavalo e o fracasso do Marquês de Grouchy em impedir o exército prussiano de unir forças com Wellington.

“A palavra de Bentinck”: em 26 de abril de 1814, quando da capitulação de Gênova, o lorde William Bentinck, comandante militar das tropas britânicas, leu uma proclamação na qual reconhecia o desejo dos genoveses de voltar ao governo republicano. Mas, depois, o Congresso de Viena decidiu que Gênova seria incorporada ao Reino da Sardenha.

“ÓBITO, aetatis 57, quinhentos anos após D. Alighieri”: Napoleão morreu em 5 de maio de 1821 (Dante, em 1321), mas tinha 51 anos de idade (completaria 52 em 15 de agosto).

“Marie de Parma”: Maria Luísa, viúva de Napoleão.

“Mastai, Pio Nono”: Giovanni-Maria Mastai-Ferretti (1792-1878) foi eleito papa e se tornou Pio IX em 1846.

“D’Azeglio”: Massimo Taparelli, Marquês D’Azeglio (1798-1866), estadista, escritor e pintor piemontês.

“Lord Minto”: Gilbert Elliot (1782-1859), segundo Conde de Minto, foi um diplomata britânico e político do partido Whig. Em 1847, ele foi enviado à Itália para incentivar reformas políticas e relatar as condições reinantes no país.

“Bowring”: John Bowring (1792-1872), político britânico, economista e defensor do livre comércio. Ele visitou a Itália em 1836 e escreveu um relatório para a Câmara dos Comuns.

“o novo Leopoldo”: Leopoldo II (1797-1870), filho de Ferdinando III e neto de Pedro Leopoldo.

“Lalage”: provável referência ao epigrama II.66, de Marcial, no qual uma senhora romana, Lalage, golpeia uma escrava com o espelho por causa de uma mecha solta de cabelos.

“… pela base do afresco”: possível referência a um afresco encontrado em Pompéia na chamada Casa do Grão-Duque da Toscana (é a imagem que ilustra o post). Representa Dirce sendo amarrada ao touro como punição pela perseguição de Antíope. A “sombra” pode se referir à cor mais escura entre as pernas do touro atrás de Dirce, ou talvez seja uma metáfora sobre como a crueldade de Lalage para com a escrava é apagada pela crueldade maior de Dirce para com Antíope. Lalage, um nome romano, é encontrado em algumas inscrições em Pompeia.

“Dirce”: rainha mítica de Tebas, Dirce perseguiu e torturou sua escrava Antíope, forçando-a a expor seus gêmeos recém-nascidos. Dirce tentou matá-la amarrando-a a um touro, mas, em vez disso, foram os filhos de Antíope que amarraram Dirce ao touro e a fizeram experimentar a morte que queria infligir à outra.

Le Carré em campo

Artigo publicado hoje n’O Popular.

“Putin sempre foi um espião de quinta categoria”, escreve John Le Carré em Agente em Campo. “Agora era um espião transformado em autocrata que interpretava toda a vida nos termos de konspiratsia. Graças a Putin e sua gangue de stalinistas irrecuperáveis, a Rússia não avançava para um futuro brilhante, mas para trás, de volta para seu passado obscuro e delirante.” O livro (ed. Record, tradução de Marta Chiarelli) foi o último publicado por Le Carré em vida. Morto em 2020, o ex-espião que se reinventou como romancista para escrever algumas das obras fundamentais da literatura contemporânea, como O Espião que Saiu do Frio e A Garota do Tambor, ainda estava afiadíssimo aos quase 90 anos de idade.

Ao lado do também excelente Len Deighton, Le Carré retirou dos livros de espionagem a pegada aventuresca à James Bond, dando-lhes densidade, realismo, ambiguidade, ironia e tragicidade. Como diria Ivan Lessa, as histórias são simples e as tramas, complicadas. Bem e mal deixam de ser facilmente identificáveis e, em muitos casos, constituem uma categoria que não é sequer aplicável. Não há um mundo a ser “salvo” (não no sentido Marvel do termo, pelo menos), mas um jogo a ser jogado. Todos têm seus momentos de vilania, e o “heroísmo” só aparece como piada ou como um respiro antes do desastre. Em resumo, Le Carré escrevia para adultos inteligentes.

Em A Guerra no Espelho, por exemplo, o teor satírico explicita a falta de sentido de certas “missões”. Há um esforço notável e muito bem-sucedido para desmistificar a coisa. Trata-se, afinal, de uma sucessão de guerras sujas, travadas nas sombras e protagonizadas por seres humanos comuns, isto é, falhos, confusos e nada confiáveis. Aliás, essa é uma das razões pelas quais os livros de Le Carré não envelhecem (ou envelhecem muito bem): as questões geopolíticas mudam a todo momento, mas o caráter humano (e todas as desgraças que lhe são inerentes) permanece constante.

Uma das melhores passagens de Agente em Campo não diz respeito a nenhuma escaramuça ou intriga de espiões, mas, sim, ao momento em que o protagonista conta à filha o que faz para ganhar a vida: “Então é isso, Steff, agora você já sabe. Tenho vivido uma mentira necessária, e é só isso que tenho permissão para lhe contar”. A reação da filha, uma millennial típica, é espernear.

Não é simples escrever para adultos, quanto mais para adultos inteligentes. Na medida em que o mundo se infantiliza, as expectativas são frustradas continuamente, alimentando uma massa raivosa na qual cegos guiam outros cegos. Descarrilhamentos autoritários se tornam frequentes. Movimentos autocráticos e messiânicos sempre resultam em desastres. Vimos isso muitas vezes no decorrer da história. Estamos vendo agora, no Brasil e em outros lugares. A ânsia por clareza tropeça na opacidade do mundo. E é essa opacidade que Le Carré descreve tão bem.

Trabalhando com os elementos de um gênero literário que ajudou a estabelecer, Le Carré sempre remou contra as simplificações, fossem elas políticas ou literárias. O mundo é um lugar cruel e complicado. Não existem soluções fáceis. Não existem desfechos redentores. É preciso abraçar a incerteza e compreender que, nesse mundo, nessa vida, todo salto é um salto no escuro. Procure saltar bem acompanhado.

Canto XLIX

“Para os sete lagos”: “Sete Lagos” (七澤) é uma expressão típica da tradição poética chinesa para se referir aos lagos das regiões de Hunan e Hubei, que em tempos antigos pertenciam ao reino de Chou ou Zhou.

“Chuva; rio vazio”: os versos de 2 a 31 são baseados em uma sucessão de oito pinturas e poemas chineses que constavam de um livro pertencente à família de Pound: The Eight Views of Xiao Xiang (As Oito Paisagens (ou Vistas) do Xiao-Xiang; em japonês: Sho-Sho Hakkei). Geograficamente, Xiao-Xiang é uma região em Hunan onde o rio Xiang, alargado pelas águas do Xiao, deságua no lago Dongting ao norte da cidade de Changsha. O livro foi produzido no Japão como uma série de trípticos. Estes consistiam em um poema chinês, uma pintura paisagística e um poema original japonês sobre o mesmo tema. Os poemas chineses foram livremente traduzidos pela missionária chinesa Pao Swen Tseng quando ela visitou Pound, em maio de 1928. A primeira cena das Oito Paisagens é “Chuva noturna no Xiao e no Xiang” (瀟湘夜雨):

“e falam os bambus em tom de choro”: na China antiga, as filhas do imperador Yao, Ehuang e Nuying, choraram por dias em luto por seu falecido marido, o imperador Shun, e suas lágrimas mancharam os bambus da região. Incapaz de conter a dor, elas se mataram pulando no Xiang. As narrativas estão documentadas na antologia de Qu Yuan, Chuci (Canções do Sul), no capítulo “As Nove Canções”. Este contém as seções “Ao Senhor do Rio Xiang” e “A Senhora do Xiang”.

“Lua outonal (…) juncais”: a segunda cena das Oito Paisagens é “Lua outonal sobre o lago Dongting” (洞庭秋月):

“Atrás do monte (…) vento”: a terceira cena das Oito Paisagens é “Sino vesperal do templo encoberto pela névoa” (煙寺晚鐘):

“Uma vela (…) rio”: a quarta cena das Oito Paisagens é “Veleiros retornando de uma paragem distante” (遠浦歸帆):

“Quando a flâmula vinho (…) sopram”: a quinta cena das Oito Paisagens é “Névoa sobre a cidade na montanha” (山市晴嵐):

“Vem a crosta da neve (…) frio”: a sexta cena das Oito Paisagens é “Rio e céu na neve vesperal” (江天暮雪):

“qual lanterna”: no original, “like a lanthorn”, termo mais arcaico e sonoro.

“E em San Yin (…) lazer”: nome derivado de dois caracteres não traduzidos da fonte chinesa. No quinto verso do poema, “san yin” (山陰) significa “atrás da montanha”. Na paráfrase da tradução de Pao Swen Tseng, eles não foram traduzidos, e Pound os reaproveitou como se fossem o nome de um local. Sanehide Kodama sugere como essa mudança de significado pode ter ocorrido, referindo-se a uma anedota que Tseng talvez conhecesse: “O último verso alude a um episódio de O-Kishi [chinês: Wang Huizhi]. Certa noite, depois que parou de nevar, ele viu a lua, começou a beber e escreveu um poema. Então, sentiu vontade de visitar seu amigo Tai-Ando [chinês: Dai-Andao]. Ele remou seu barco desde San In e depois caminhou até o portão da casa de seu amigo, mas voltou para casa sem vê-lo. Quando perguntado a respeito, respondeu: ‘Venho quando me sinto interessado e vou embora quando perco o interesse. Por que eu deveria necessariamente ver Ando?’!” (Kodama 136n.6). A anedota está em A New Account of the Tales of the World (世說新語), que consiste em observações concisas sobre diferentes pessoas que viveram entre 150 e 420 d.C. O livro foi traduzido e editado em inglês por R. B. Mather. Tanto “San Yin” quanto “Ten-Shi” podem ser encarados como elementos da mítica contrageografia do Canto. Pound tem o cuidado de evitar nomes reais ou apontar para uma região específica no mundo real. Ele usou estratégias semelhantes nos cantos XVII, XXI e XXXIX.

“Gansos selvagens (…) janela”: a sétima cena das Oito Paisagens é “Gansos selvagens descendo para o banco de areia” (平沙雁落):

“Move-se luz na linha norte ao céu; (…) na linha sul do céu”: a oitava e última cena das Oito Paisagens é “Crepúsculo sobre a pequena vila de pescadores” (漁村夕照):

“Nos mil e setecentos veio Tsing…”: “Tsing” pode se referir a Qing (1644-1912), a última dinastia imperial chinesa. Pound talvez evoque o imperador Kangxi (governou entre 1661 e 1722), que teria feito visitas de inspeção ao sul, na região desses “lagos da colina”. Kodama apontou que o verso liga a primeira seção do poema, baseada nas Oito Paisagens, à segunda parte, baseada em dois antigos poemas chineses que Pound encontrou nos manuscritos de Fenollosa.

“Criando riquezas (…) endividar-se”: expressão da crença de Pound no Crédito Social, na ideia de que o Estado não deve se endividar com bancos privados a fim de tocar quaisquer projetos e obras. Tinha em mente o exemplo do “dinheiro estatal” de Kublai Khan, que o imperador usava como inesgotável recurso financeiro.

“Geryon”: v. Dante, Inferno XVII, 1-3 e 7-12. Trata-se de um monstro dantesco que personifica a fraude.

“TenShi”: segundo R. Taylor, embora usado como o nome de um lugar, “TenShi” é a combinação de duas palavras japonesas, significando “Filho de Deus”. Para A. Vantaggi, “Ten-Shi” seria o equivalente japonês do chinês “T’ien-tzu”, “Filho do Céu” — uma designação do imperador. O canal “segue suave” até o assento do Filho do Céu, isto é, até a capital do império.

“velho rei”: o imperador Sui Yangdi (569–618) continuou o trabalho de seu pai, Yang Jian, e construiu o Grande Canal (cerca de 1800 km) a fim de abastecer a capital, Luoyang, e os exércitos da fronteira norte. O Grande Canal foi concluído entre 604 e 609, primeiro ligando Luoyang a Yangzhou, e depois estendendo-o até Pequim, ao Norte, e Hangzhou, ao Sul.

“KEI MEN RAN KEI / KIU MAN MAN KEI / JITSU GETSU KO KWA / TAN FUKU TAN KAI”: transliteração japonesa de um clássico poema chinês em escrita romanizada, conforme Ernest Fenollosa legou a Pound em suas notas sobre o “Curso de História da Poesia Chinesa”, do professor Mori, em 4 de junho de 1901. O poema também é conhecido como “Canção das Nuvens Auspiciosas” (卿雲; Ch’ing-yun ko). As sílabas são lidas do modo ocidental, transversalmente, da esquerda para a direita, da forma como estão nas notas de Fenollosa. O original chinês (ao qual Pound não teve acesso) é escrito da seguinte forma:

卿雲爛兮,
糺縵縵兮
日月光華,
旦復旦兮

Em tradução livre, a partir da versão em inglês: “As nuvens auspiciosas são vívidas / Juntas elas circulam ao redor. / O sol e a lua têm brilho e esplendor, / Retornando aurora após aurora”. O original chinês está incluído em Shangshu dazhuan (尚書大傳; comentário ao Livro dos Documentos, de Fu Sheng (200-100 a.C.)). O autor imagina o poema como sendo cantado pelo imperador Shun (2294-2184 a.C.) ao anunciar que seu sucessor não seria o filho, mas o homem que resolvera o problema das inundações no país: Yu, o Grande (2123–2025 a.C.). Os versos celebram alguém que voluntariamente passou o controle do governo para a pessoa que considerou mais qualificada, sentimento que inspirou a República da China a usá-lo como hino nacional de 1913 a 1915, e, depois, de 1921 a 1928. O hino foi novamente usado por colaboracionistas durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa.

“Sol subiu (…) e para nós o que é?”: Pound encontrou esse poema nas notas de Fenollosa sobre o “Curso de História da Poesia Chinesa”, realizado em 28 de maio de 1901. O título original é “Canção da Batida do Torrão” (擊壤歌; Chi-yang ko). Nele, elogia-se a ordem harmoniosa durante o reinado do imperador Yao (2356–2255 a.C.), antecessor de Shun. Pound também não teve acesso à versão chinesa.

日出而作,
日入而息。
鑿井而飲,
耕田而食,
帝力於我何有哉

Em tradução livre, a partir da versão em inglês: “O nascer do sol significa trabalho, / O crepúsculo significa voltar para casa. / Cavando o poço para beber, / Lavrando o trigo para comer. / A autoridade está muito longe de mim”.

“A quarta: (…) feras”: essa elevada “dimensão do sossego” (ou da “quietude”) é um lugar sem caos e desordem, conforme é sugerido na referência às “feras”, do nosso mundo tridimensional. O verso derradeiro final também serve como um colofão e ecoa o final do Canto XLVII, quando Pound evoca o poder órfico sobre os animais indomados e todos os outros seres vivos (ver a derradeira nota lá).