Le Carré em campo

Le Carré em campo

Artigo publicado hoje n’O Popular.

“Putin sempre foi um espião de quinta categoria”, escreve John Le Carré em Agente em Campo. “Agora era um espião transformado em autocrata que interpretava toda a vida nos termos de konspiratsia. Graças a Putin e sua gangue de stalinistas irrecuperáveis, a Rússia não avançava para um futuro brilhante, mas para trás, de volta para seu passado obscuro e delirante.” O livro (ed. Record, tradução de Marta Chiarelli) foi o último publicado por Le Carré em vida. Morto em 2020, o ex-espião que se reinventou como romancista para escrever algumas das obras fundamentais da literatura contemporânea, como O Espião que Saiu do Frio e A Garota do Tambor, ainda estava afiadíssimo aos quase 90 anos de idade.

Ao lado do também excelente Len Deighton, Le Carré retirou dos livros de espionagem a pegada aventuresca à James Bond, dando-lhes densidade, realismo, ambiguidade, ironia e tragicidade. Como diria Ivan Lessa, as histórias são simples e as tramas, complicadas. Bem e mal deixam de ser facilmente identificáveis e, em muitos casos, constituem uma categoria que não é sequer aplicável. Não há um mundo a ser “salvo” (não no sentido Marvel do termo, pelo menos), mas um jogo a ser jogado. Todos têm seus momentos de vilania, e o “heroísmo” só aparece como piada ou como um respiro antes do desastre. Em resumo, Le Carré escrevia para adultos inteligentes.

Em A Guerra no Espelho, por exemplo, o teor satírico explicita a falta de sentido de certas “missões”. Há um esforço notável e muito bem-sucedido para desmistificar a coisa. Trata-se, afinal, de uma sucessão de guerras sujas, travadas nas sombras e protagonizadas por seres humanos comuns, isto é, falhos, confusos e nada confiáveis. Aliás, essa é uma das razões pelas quais os livros de Le Carré não envelhecem (ou envelhecem muito bem): as questões geopolíticas mudam a todo momento, mas o caráter humano (e todas as desgraças que lhe são inerentes) permanece constante.

Uma das melhores passagens de Agente em Campo não diz respeito a nenhuma escaramuça ou intriga de espiões, mas, sim, ao momento em que o protagonista conta à filha o que faz para ganhar a vida: “Então é isso, Steff, agora você já sabe. Tenho vivido uma mentira necessária, e é só isso que tenho permissão para lhe contar”. A reação da filha, uma millennial típica, é espernear.

Não é simples escrever para adultos, quanto mais para adultos inteligentes. Na medida em que o mundo se infantiliza, as expectativas são frustradas continuamente, alimentando uma massa raivosa na qual cegos guiam outros cegos. Descarrilhamentos autoritários se tornam frequentes. Movimentos autocráticos e messiânicos sempre resultam em desastres. Vimos isso muitas vezes no decorrer da história. Estamos vendo agora, no Brasil e em outros lugares. A ânsia por clareza tropeça na opacidade do mundo. E é essa opacidade que Le Carré descreve tão bem.

Trabalhando com os elementos de um gênero literário que ajudou a estabelecer, Le Carré sempre remou contra as simplificações, fossem elas políticas ou literárias. O mundo é um lugar cruel e complicado. Não existem soluções fáceis. Não existem desfechos redentores. É preciso abraçar a incerteza e compreender que, nesse mundo, nessa vida, todo salto é um salto no escuro. Procure saltar bem acompanhado.

Canto XLIX

“Para os sete lagos”: “Sete Lagos” (七澤) é uma expressão típica da tradição poética chinesa para se referir aos lagos das regiões de Hunan e Hubei, que em tempos antigos pertenciam ao reino de Chou ou Zhou.

“Chuva; rio vazio”: os versos de 2 a 31 são baseados em uma sucessão de oito pinturas e poemas chineses que constavam de um livro pertencente à família de Pound: The Eight Views of Xiao Xiang (As Oito Paisagens (ou Vistas) do Xiao-Xiang; em japonês: Sho-Sho Hakkei). Geograficamente, Xiao-Xiang é uma região em Hunan onde o rio Xiang, alargado pelas águas do Xiao, deságua no lago Dongting ao norte da cidade de Changsha. O livro foi produzido no Japão como uma série de trípticos. Estes consistiam em um poema chinês, uma pintura paisagística e um poema original japonês sobre o mesmo tema. Os poemas chineses foram livremente traduzidos pela missionária chinesa Pao Swen Tseng quando ela visitou Pound, em maio de 1928. A primeira cena das Oito Paisagens é “Chuva noturna no Xiao e no Xiang” (瀟湘夜雨):

“e falam os bambus em tom de choro”: na China antiga, as filhas do imperador Yao, Ehuang e Nuying, choraram por dias em luto por seu falecido marido, o imperador Shun, e suas lágrimas mancharam os bambus da região. Incapaz de conter a dor, elas se mataram pulando no Xiang. As narrativas estão documentadas na antologia de Qu Yuan, Chuci (Canções do Sul), no capítulo “As Nove Canções”. Este contém as seções “Ao Senhor do Rio Xiang” e “A Senhora do Xiang”.

“Lua outonal (…) juncais”: a segunda cena das Oito Paisagens é “Lua outonal sobre o lago Dongting” (洞庭秋月):

“Atrás do monte (…) vento”: a terceira cena das Oito Paisagens é “Sino vesperal do templo encoberto pela névoa” (煙寺晚鐘):

“Uma vela (…) rio”: a quarta cena das Oito Paisagens é “Veleiros retornando de uma paragem distante” (遠浦歸帆):

“Quando a flâmula vinho (…) sopram”: a quinta cena das Oito Paisagens é “Névoa sobre a cidade na montanha” (山市晴嵐):

“Vem a crosta da neve (…) frio”: a sexta cena das Oito Paisagens é “Rio e céu na neve vesperal” (江天暮雪):

“qual lanterna”: no original, “like a lanthorn”, termo mais arcaico e sonoro.

“E em San Yin (…) lazer”: nome derivado de dois caracteres não traduzidos da fonte chinesa. No quinto verso do poema, “san yin” (山陰) significa “atrás da montanha”. Na paráfrase da tradução de Pao Swen Tseng, eles não foram traduzidos, e Pound os reaproveitou como se fossem o nome de um local. Sanehide Kodama sugere como essa mudança de significado pode ter ocorrido, referindo-se a uma anedota que Tseng talvez conhecesse: “O último verso alude a um episódio de O-Kishi [chinês: Wang Huizhi]. Certa noite, depois que parou de nevar, ele viu a lua, começou a beber e escreveu um poema. Então, sentiu vontade de visitar seu amigo Tai-Ando [chinês: Dai-Andao]. Ele remou seu barco desde San In e depois caminhou até o portão da casa de seu amigo, mas voltou para casa sem vê-lo. Quando perguntado a respeito, respondeu: ‘Venho quando me sinto interessado e vou embora quando perco o interesse. Por que eu deveria necessariamente ver Ando?’!” (Kodama 136n.6). A anedota está em A New Account of the Tales of the World (世說新語), que consiste em observações concisas sobre diferentes pessoas que viveram entre 150 e 420 d.C. O livro foi traduzido e editado em inglês por R. B. Mather. Tanto “San Yin” quanto “Ten-Shi” podem ser encarados como elementos da mítica contrageografia do Canto. Pound tem o cuidado de evitar nomes reais ou apontar para uma região específica no mundo real. Ele usou estratégias semelhantes nos cantos XVII, XXI e XXXIX.

“Gansos selvagens (…) janela”: a sétima cena das Oito Paisagens é “Gansos selvagens descendo para o banco de areia” (平沙雁落):

“Move-se luz na linha norte ao céu; (…) na linha sul do céu”: a oitava e última cena das Oito Paisagens é “Crepúsculo sobre a pequena vila de pescadores” (漁村夕照):

“Nos mil e setecentos veio Tsing…”: “Tsing” pode se referir a Qing (1644-1912), a última dinastia imperial chinesa. Pound talvez evoque o imperador Kangxi (governou entre 1661 e 1722), que teria feito visitas de inspeção ao sul, na região desses “lagos da colina”. Kodama apontou que o verso liga a primeira seção do poema, baseada nas Oito Paisagens, à segunda parte, baseada em dois antigos poemas chineses que Pound encontrou nos manuscritos de Fenollosa.

“Criando riquezas (…) endividar-se”: expressão da crença de Pound no Crédito Social, na ideia de que o Estado não deve se endividar com bancos privados a fim de tocar quaisquer projetos e obras. Tinha em mente o exemplo do “dinheiro estatal” de Kublai Khan, que o imperador usava como inesgotável recurso financeiro.

“Geryon”: v. Dante, Inferno XVII, 1-3 e 7-12. Trata-se de um monstro dantesco que personifica a fraude.

“TenShi”: segundo R. Taylor, embora usado como o nome de um lugar, “TenShi” é a combinação de duas palavras japonesas, significando “Filho de Deus”. Para A. Vantaggi, “Ten-Shi” seria o equivalente japonês do chinês “T’ien-tzu”, “Filho do Céu” — uma designação do imperador. O canal “segue suave” até o assento do Filho do Céu, isto é, até a capital do império.

“velho rei”: o imperador Sui Yangdi (569–618) continuou o trabalho de seu pai, Yang Jian, e construiu o Grande Canal (cerca de 1800 km) a fim de abastecer a capital, Luoyang, e os exércitos da fronteira norte. O Grande Canal foi concluído entre 604 e 609, primeiro ligando Luoyang a Yangzhou, e depois estendendo-o até Pequim, ao Norte, e Hangzhou, ao Sul.

“KEI MEN RAN KEI / KIU MAN MAN KEI / JITSU GETSU KO KWA / TAN FUKU TAN KAI”: transliteração japonesa de um clássico poema chinês em escrita romanizada, conforme Ernest Fenollosa legou a Pound em suas notas sobre o “Curso de História da Poesia Chinesa”, do professor Mori, em 4 de junho de 1901. O poema também é conhecido como “Canção das Nuvens Auspiciosas” (卿雲; Ch’ing-yun ko). As sílabas são lidas do modo ocidental, transversalmente, da esquerda para a direita, da forma como estão nas notas de Fenollosa. O original chinês (ao qual Pound não teve acesso) é escrito da seguinte forma:

卿雲爛兮,
糺縵縵兮
日月光華,
旦復旦兮

Em tradução livre, a partir da versão em inglês: “As nuvens auspiciosas são vívidas / Juntas elas circulam ao redor. / O sol e a lua têm brilho e esplendor, / Retornando aurora após aurora”. O original chinês está incluído em Shangshu dazhuan (尚書大傳; comentário ao Livro dos Documentos, de Fu Sheng (200-100 a.C.)). O autor imagina o poema como sendo cantado pelo imperador Shun (2294-2184 a.C.) ao anunciar que seu sucessor não seria o filho, mas o homem que resolvera o problema das inundações no país: Yu, o Grande (2123–2025 a.C.). Os versos celebram alguém que voluntariamente passou o controle do governo para a pessoa que considerou mais qualificada, sentimento que inspirou a República da China a usá-lo como hino nacional de 1913 a 1915, e, depois, de 1921 a 1928. O hino foi novamente usado por colaboracionistas durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa.

“Sol subiu (…) e para nós o que é?”: Pound encontrou esse poema nas notas de Fenollosa sobre o “Curso de História da Poesia Chinesa”, realizado em 28 de maio de 1901. O título original é “Canção da Batida do Torrão” (擊壤歌; Chi-yang ko). Nele, elogia-se a ordem harmoniosa durante o reinado do imperador Yao (2356–2255 a.C.), antecessor de Shun. Pound também não teve acesso à versão chinesa.

日出而作,
日入而息。
鑿井而飲,
耕田而食,
帝力於我何有哉

Em tradução livre, a partir da versão em inglês: “O nascer do sol significa trabalho, / O crepúsculo significa voltar para casa. / Cavando o poço para beber, / Lavrando o trigo para comer. / A autoridade está muito longe de mim”.

“A quarta: (…) feras”: essa elevada “dimensão do sossego” (ou da “quietude”) é um lugar sem caos e desordem, conforme é sugerido na referência às “feras”, do nosso mundo tridimensional. O verso derradeiro final também serve como um colofão e ecoa o final do Canto XLVII, quando Pound evoca o poder órfico sobre os animais indomados e todos os outros seres vivos (ver a derradeira nota lá).

Canto XLVIII

“E se o dinheiro fosse arrendado”: v. Canto XLVII e a forma como o Bank of England cobrava juros do governo inglês para emitir moeda. No verso seguinte, uma referência ao “dinheiro que desaparece” (“Schwundgeld”) citado por Silvio Gesell. Em Wörgl, uma cidadezinha austríaca, entre 1932 e 33, Gesell observou que era preciso colar um selo a cada semana em cada nota para preservar o valor desta. Quando não havia mais lugar para colar os selos, a nota era jogada fora e substituída. O selo poderia ser considerado um “imposto sobre o dinheiro” ou “arrendamento” (ou “aluguel”).

“Mahomet VIº Yahid Eddin Han”: Mehmet VI Vahideddin (1861-1926) foi o último sultão (1918-1922) do Império Otomano, o qual foi dissolvido após a derrota na Primeira Guerra Mundial e substituído, em 1922, pela República da Turquia, tendo Mustafá Kemal como primeiro presidente (outubro de 1923). Mehmet era filho de Abdul Mejid (1823-1861, reinou entre 1839 e 61), morto quando o filho tinha apenas seis meses de idade. Mejid fez diversas reformas e aproximou o império das potências ocidentais, em especial da Inglaterra e da França.

A “beatificação” referida é de Paula Frassinetti (1809-1882), em 8 de junho de 1930. Ela era uma freira que dedicou a vida a ajudar os mais necessitados. Foi canonizada em 1984.

“Guerra da Turquia”: a Grande Guerra Turca (1677-83) entre o Império Otomano e a Liga Santa (Áustria, Polônia, Veneza e Rússia). Culminou no Cerco de Viena, no qual os otomanos foram derrotados pelo rei polonês Jan III Sobiesk.

“Sr. Kolschitzky”: Jerzy Franciszek Kulczycki (1640-1694), nobre polonês que estabeleceu uma empresa de comércio em Viena e que, durante o cerco, ajudou a resistência contra os otomanos. Chegou, inclusive, a se disfarçar de soldado otomano, passar pelas linhas inimigas e pedir ajuda a Charles V, duque de Lorraine (1643-90), o que se revelou indispensável para a vitória final.

“de Banchiis cambi tenendi”, “banco de câmbio”: Pound não aprovava Kulczycki, por assim dizer, independentemente de seu papel heroico contra os otomanos.

“mil e seiscentos”: em 1683, o Império Otomano chegou ao ápice territorial. A derrota no cerco de Viena (12 de setembro de 1683) e a Paz de Karlowitz interromperam a expansão turca na Europa central, provocando uma política de contenção e declínio que levaria, por fim, à malfadada aliança com a Áustria na Primeira Guerra Mundial.

“Von Unruh”: Fritz von Unruh (1885-1970), escritor alemão que vivia em Zoagli, perto de Rapallo, e amigo de Pound, já citado no Canto XLI.

“Kaiser”: o imperador alemão Guilherme II (1859-1941), chamado por Pound de “aquele nojento em Berlim” no verso 47 do Canto XXXVIII.

“Verdun”: a mais longa batalha da Primeira Guerra, travada entre 21 de fevereiro e 18 de dezembro de 1916. Estima-se que mais 700 mil perderam a vida por lá.

“e o que escreveu”: Fritz von Unruh escreveu sobre suas experiências na guerra no romance Opfergang (1918). A anedota sobre o sargento não aparece no livro.

“Sr. Charles Francis Adams”: Pound retorna ao papel de Adams em Londres durante a Guerra Civil, já referido no Canto XLII. Como os britânicos importavam algodão dos estados sulistas, temia-se que eles se posicionassem contra a União e a favor dos Confederados. Assim, durante a Guerra Civil, Adams atuou como enviado dos EUA na Inglaterra e conseguiu assegurar a neutralidade inglesa.

“Van Buren havendo registrado”: referência à autobiografia do presidente norte-americano.

“John Adams”: possível referência a uma carta de Adams para Jefferson datada de 9 de julho de 1813, em que o missivista comenta sobre a obliteração de registros históricos. Essa carta será novamente mencionada no Canto LXXI.

“tornem-se pais…”: d’O Capital, quando Marx se refere à exploração do trabalho infantil na Inglaterra vitoriana.

“Bismarck”: Otto von Bismarck (1815-1898), estadista alemão. Bismarck é tido como o responsável pela vitória alemã na Guerra Franco-Prussiana (1870-71) e a unificação da Alemanha. Da unificação, em 1871, até 1890, ele foi o primeiro chanceler do país.

“culpava”: do artigo “The Mystery of the Civil War and Lincoln’s Death”, de Dudley Pelley, no jornal Liberation (10 de fevereiro de 1934). O antissemitismo de Pound volta a marcar presença, em especial aqui e nos versos seguintes, quando se ocupa de desancar os Rothschild e Benjamin Disraeli (1804-1881), primeiro-ministro inglês (1874-1880) de ascendência judia. A suposta fala de Lionel de Rothschild (1808-1879) para Disraeli é citada no livro Money: Questions and Answers, do padre Charles Coughlin (1891-1979), célebre propagandista do nazismo.

“Δίγονος”, “digonos”, “nascido duas vezes”: Dionísio.

“Cawdor, 23 de set.”: carta de A. E. Evans para o príncipe de Mônaco. Diferentemente do cachorro Dhu Achil (“Aquiles Negro”, em gaélico), o “Sr. Rhumby”, Bainbridge Colby (1869-1950), secretário de estado no governo de Woodrow Wilson, não tinha “pedigree” e foi escolhido para o cargo em meio a uma bebedeira.

“err’ un’ imbecile (…) mondo”, “era um imbecil e emburreceu o mundo” (no caso, Galileu).

“12% de rendimentos na Bitínia”: a província da Bitínia localizava-se no noroeste da Turquia, nas margens do Mar de Mármara (Propontis) e do Mar Negro (Pontus Euxinus), a leste de Tróia. Fez parte do Império Romano e Bizantino de 74 a.C. até ser conquistada pelos otomanos em 1333. A informação sobre os rendimentos está em Claudius Salmasius, De Modo Usurarum.

“Athelstan”: neto de Alfredo, o Grande, Athelstan viveu entre 894 e 939 e foi um rei anglo-saxão (924-39). Graças aos sucessos militares contra os vikings, Athelstan unificou os reinos de Mércia, Wessex, Nortúmbria e York, e é considerado o primeiro a governar todos os ingleses em um reino unido (Rex totius Britanniae). Pound o apresenta como um governante que entendeu a natureza da soberania inglesa como algo baseado no poder marítimo e comercial.

“aqui”: Gais, no Tirol do Sul, onde a filha de Pound, Mary Rudge (depois Mary de Rachewiltz), foi criada por uma família local. Pound e Olga visitavam-na ocasionalmente.

“nuova messa”, “nova missa”.

“dodicesimo anno E.F.”, “o décimo segundo ano da Era Fascista”: entre 28 de outubro de 1933 e 27 de outubro de 1934, segundo o calendário fascista.

“Posso retornar ali”: em Discretions, suas memórias, Mary conta que, em uma viagem ao Lido com seu pai, ela disse que queria ir para “casa”, isto é, Veneza, mas Pound entendeu que ela queria voltar para Gais. Os “sapatos de domingo”, por sua vez, referem-se a um momento de ternura vivido com o pai.

“Veludo (…) orquídea”: metáfora enigmática inspirada em uma tradução de Remy de Gourmont feita por Pound.

“… escada ainda rachada”: Pound visitou Montségur em 23 de junho de 1919. A visita também é mencionada no Canto XXIII (74-81).

“Val Cabrere”: entre Valcabrère e San Bertrand, são pouco mais de dois quilômetros. Pound e Dorothy passaram por ali naquela viagem, e é possível que tenham ido a pé de uma cidade à outra.

“Savairic”: Savari de Mauléon (c.1181-1233), soldado francês, senhor de Mauléon, senescal de Poitou, poeta e patrono de Gaubertz de Poicebot. V. Canto V.

“… não estariam sob Paris”: referência ao Tratado de Paris-Meaus (1229), que pôs fim à Cruzada Albigense e à autonomia política da Occitânia. O protetor militar dos cátaros, Raimundo VII de Toulouse, admitiu a derrota e tornou-se vassalo do rei da França, Luís IX. Suas terras foram transferidas para a coroa francesa após sua morte. Pound gostava de pensar que cavaleiros e trovadores provençais como Savari de Mauléon, Gaubertz de Poicebot e Peire de Maensac não se submeteram à nova situação: ele os imagina indo a Montségur para continuar sua resistência ao poder da Igreja.

“Tombando Marte”: referência a um assassinato brutal no mundo dos insetos que Pound testemunhou em Excideuil, em agosto de 1919, referido por ele em J/M: uma vespa despedaçando uma aranha.

“… ao nível do topo da torre…”: Pound revisita a cena em Excideuil, onde Eliot lhe contou um segredo. Isso já foi referido antes, no Canto XXIX (136-42). As duas cenas, da confissão do poeta e da vespa matando a aranha, são complementares. Elas levam o leitor àquele momento em agosto de 1919, quando dois homens e poetas muito diferentes “se abriram”, por assim dizer. Pound admirava a vespa e se identificava com os trovadores-soldados que resistiram à Igreja; Eliot estava mais preocupado com o problema cristão do pecado e com a própria salvação.

“cesta de pedras”: na praia do Lido, a tarefa desse velho era colocar pedras nas roupas para que não fossem levadas pelo vento.

Péricles está morto

Artigo publicado n’O Popular em 02.08.2022.

De todas as expressões sedimentadas em nosso desgraçamento antirrepublicano, “cidadão de bem” é uma das piores. Quando ainda possuía perfis nas redes sociais, eu procurava bloquear todo e qualquer novo seguidor que, em sua minibio, declarasse ser um “cidadão de bem”. Em geral, a expressão vem acompanhada de símbolos variados, como a bandeira nacional, imagens religiosas e arminhas. No inexorável processo de milicianização do Brasil, as ideias de “cidadão” e de “bem” foram as primeiras que corromperam.
Vivemos em uma espiral de corrupções. Tempos atrás, um “cidadão de bem” invadiu uma festa e matou o aniversariante por se sentir ofendido com a decoração ambiente, dedicada a Lula e ao PT. Pessoalmente, acho ridícula e não raro doentia qualquer tipo de adoração a figuras políticas. Mas ninguém merece ser abatido a tiros por ser ridículo.
Animada por anos de discursos extremistas, mentiras, apologias da violência e legislação irresponsável, uma parcela da população anda armada por aí, pronta para matar, morrer e/ou ceder — inadvertidamente ou não — as armas para o crime organizado. No entanto, a maior parte dos brasileiros quer distância de pistolas e pistoleiros. Somos 69%, segundo pesquisa recente do Datafolha.
A conflagração está na ordem do dia. Em vez de uma corrida eleitoral, teremos uma confrontação marcada por atos violentos, ameaças e tentativas de golpe, tudo embalado por um messianismo constrangedor. É verdade que, à esquerda, os lulistas têm a sua cota de fanatismo, mas quaisquer equiparações com a insanidade bolsonarista seriam impróprias ou mesmo absurdas. Nos governos do PT, a corrupção era material e sustentada por quase todo o sistema político. No governo Bolsonaro, além de material e sustentada por quase todo o sistema político, a corrupção também é anímica. Eis um outro nível (subterrâneo) de perversão nacional, mais generalizado e profundo.
Em 2006, a pior “violência” que sofri por declarar meu voto em Alckmin foi ser chamado de “fascista” por esquerdistas partidários do que o jornalista Jerônimo Teixeira definiu como “stalinismo odara”. Em 2022, declarar que nunca votei e jamais votaria em Bolsonaro pode me render um tiro na cara.
Para concluir, penso em Atenas. Sócrates circulava por lá com a intenção de ser a “parteira” da verdade inerente à opinião (fundamentada) de cada um, o que, para ele, seria imprescindível para a reconstituição de uma comunidade. Tal postura era uma forma de distanciar os cidadãos da animosidade que grassava entre eles, uma das razões pelas quais a cidade decaíra tanto desde a morte de Péricles. Recorrendo a Aristóteles, temos um espírito de comunidade desde que os cidadãos, por mais diferentes que sejam entre si, consigam se igualar politicamente por meio da amizade. É o oposto de matar todos que pareçam dissonantes, com vistas a promover uma “uniformidade” impossível. O que acontece entre amigos é que um procura compreender a verdade do outro, isto é, enxergar o mundo pelos olhos alheios. Tal esforço compreensivo não tinha lugar naquela Atenas decadente (não por acaso, Sócrates foi condenado à morte), e por certo não tem lugar nesse Brasil arruinado. Péricles morreu há muito tempo.

Canto XLVII

“Que, morto…”: a referência, aqui, é a Odisseu em seu cativeiro na ilha de Circe, o momento em que ele implora à deusa que o deixe retomar sua viagem de volta para Ítaca. Ela concorda, mas diz que ele deve primeiro invocar as ânimas dos mortos, em especial a de Tirésias, que lhe apontará o caminho de casa. A fala é de Circe: “‘(…) Outra viagem haverás / de executar primeiramente, à residência / do Hades e da terribilíssima Perséfone, / a fim de consultar a psique do tebano / Tirésias, vate cego de epigástrio sólido: só a ele, mesmo morto, concedeu Perséfone / o sopro da sapiência. Os outros vagam: sombras'” (Odisseia X, 489-495, na tradução de Trajano Vieira, ed. 34).

“Este som veio no escuro”: Circe e Odisseu estão na cama, deitados lado a lado, quando ele faz o pedido e ela indica o que ele precisa fazer. Aqui, é uma paráfrase de Pound (no Canto XXXIX, ele recorreu à passagem homérica).

“Primeiro deves…”: o uso do “deves” (“thou”) sublinha a oscilação entre as linguagens arcaica e moderna do início do Canto.

“Cego que era”: Ovídio conta nas Metamorfoses (III, 314-36) como Tirésias perdeu a visão, mas ganhou o dom da profecia. Hera e Zeus chamaram-no para arbitrar uma discussão: quem tem mais prazer no sexo? Hera acreditava que era o homem, ao passo que Zeus afirmava que era a mulher. Tirésias, que havia sido homem e mulher em sua vida, concordou com Zeus. Furiosa, Hera o cegou. Zeus não conseguiu desfazer o ato de Hera, mas deu a Tirésias o dom da profecia, a capacidade de ver o que não é visível aos olhos.

“bestas entorpecidas”, e depois “phtheggometha thasson”, “φθεγγώμεθα θασσον” (na tradução de Trajano Vieira, “Chamemo-la, soerguendo a voz”): da Odisseia X, 208-44, quando os companheiros de Odisseu são recebidos por Circe, drogados e transformados em porcos.

“Lâmpadas apinhadas na enseada”: celebrações da Madonna di Montallegro, em Rapallo.

“Tamuz!”: ou Dumuzid, antigo deus mesopotâmio, principal consorte da deusa Inanna (Ishtar). Ele morre e é ressuscitado todos os anos para incorporar o ciclo sazonal e de fertilidade da natureza. Na Síria, Tamuz passou a ser chamado de Adonis, e seu relacionamento com Ishtar foi adaptado em uma história de amor entre Adonis e Afrodite. A morte de Tamuz/Adonis é lamentada no verão, na época da colheita.

“Por este portão…”: o portão da morte.

“Os cães de Scilla”: as ondas batendo nos recifes do Estreito de Messina, onde Cila e Caribde estariam. Pound utiliza a grafia italiana do nome. Homero descreve ambas na Odisseia XII, 79-110. Ovídio fala de Cila nas Metamorfoses XIV, 1-74).

“τὺ Διώνα / TU DIONA”, “você, Diona”: Diona é um dos nomes de Afrodite, usado no poema “Lamento por Adonis”, de Bíon de Esmirna. O verso seguinte, “Kai MOIRAI’ ADOÑIN”, “E as Moiras… Adonis”, é do poema de Bíon: “Não, até as Moiras choram e choram por Adônis, invocando seu nome”. “Adônis” é o nome fenício do deus babilônico Tamuz, derivado da palavra semítica “Adon” (“Senhor”). (A imagem que ilustra o post é a tela Despertando Adônis, de John William Waterhouse.) Do Dicionário Mítico-Etimológico, de Junito de Souza Brandão (ed. Vozes): “O mito de Adônis está ligado à ‘deusa oriental’ Afrodite, transposição evidente, embora bastante retocada, de Ishtar-Astarté (…). De qualquer forma, a morte de Adônis, deus oriental da vegetação, do ciclo da semente, que morre e ressuscita, daí sua katábasis para junto de Perséfone e a consequente anabasis em busca de Afrodite, era solenemente comemorada no Ocidente e no Oriente”.

“Rebentos de trigo”: referência aos jardins de Adônis.

“naturans”, “obedecendo à sua natureza”.

“Molü”: erva mágica que Hermes dá a Ulisses para protegê-lo da magia de Circe, de tal forma que ela não consiga transformá-lo em porco, como fez com seus companheiros (v. Odisseia X, 275-301; Trajano Vieira traduz o nome da erva como “moly”).

“Principia teu lavrar”: d’Os Trabalhos e os Dias, de Hesíodo. Este transmite o conhecimento sagrado da natureza, da fertilidade e da vida.

“Tellus”, “terra” (latim): deusa romana da terra.

“Io”: grito extático de um homem iniciando o ato sexual.

“Adônis tomba”: a morte de Adônis, a hora da colheita (meados de julho).

“que tem o domínio das feras”: verso que também é encontrado no Canto XLIX. Para Demetres Tryphonopoulos, o iniciado no mistério em Elêusis, depois de descer à escuridão (katábasis), de vagar e lutar (dromena), e de ser transformado pela iluminação extática religiosa (epopteia) compreende a misteriosa relação entre o processo natural e o coito e adquire poderes mágicos de cura e de controle sobre as feras.

Canto XLVI

“Reverendo Eliot”: trata-se, é claro, de T. S. Eliot (1888-1971). Eliot converteu-se ao anglocatolicismo em 1927 e passou a explorar temas religiosos em seus escritos. Diferentemente de Pound, que considerava a ideologia da economia de mercado a mola-mestre da cultura capitalista, Eliot pensava que a religião era o que havia de mais importante na sociedade.

“vocês que pensam (…) a jato”: é possível que Pound esteja se endereçando aos leitores de “A terra devastada”, de Eliot, que enxergaram ali o inferno de nossa modernidade. Ele talvez queira dizer que o inferno ainda marcará presença nos Cantos.

“Zoagli”: cidade próxima de Rapallo.

“Dezessete anos (…) dezenove anos, noventa anos”: “dezessete” se refere ao ano de 1918 (sendo que esse Canto foi escrito em 1935-36), quando Pound conheceu Clifford Hugh Douglas, o teórico do Crédito Social, na redação da revista The New Age; “dezenove” diz respeito à origem dos Cantos (em 1916, ele começou a trabalhar nos “Three Cantos”); “noventa anos”, no caso, dos esforços para combater o capitalismo financeiro, nas décadas de 1830 e 40, esforços mencionados pelo autor nos Cantos XXXIII e XXXVII. O “sujeito bobo” mencionado a seguir é o próprio Pound quando era jovem e vivia em Londres. Os “dividendos” são um ponto importante das teorias econômicas de Douglas (referido nesse trecho do Canto como “major”): a ideia de se criar um “dividendo nacional” que diminuísse o abismo entre os salários e os preços.

“Decennio”: La Mostra della Rivoluzione Fascista, exposição que comemorou o décimo aniversário da chegada dos fascistas ao poder, foi aberta por Mussolini em 28 de outubro de 1932, em Roma.

“Il Popolo”: Il Popolo d’Italia, jornal fundado por Mussolini em Milão, em 1914, após sua expulsão do Partido Socialista Italiano. Deixou de circular em 1943, com a morte do ditador.

“o nosso foi assim”: referência à redação da New Age em Londres.

“granada de Mills”: granada de mão inventada por William Mills em 1915, a princípio fabricada em Birmingham, e usada pelos aliados na Primeira Guerra Mundial.

“sujeito de lábios grossos”: Alfred Richard Orage (1875-1934), editor da New Age e da New English Weekly, revistas com as quais Pound colaborou. Ele considerava Orage um grande amigo e benfeitor, e sentiu muito a sua perda.

“CRIME / De dois SÉculos”: referência à criação do Banco da Inglaterra em 1694 e ao crescimento da dívida nacional britânica. O crime foi que um grupo de acionistas privados criou uma sociedade anônima (Bank of England) para fazer empréstimos ao Estado. E, ao mesmo tempo, esses acionistas adquiriram o direito de emitir papel-moeda, usurpando uma das prerrogativas do Estado. Ou seja, o dinheiro é emitido pelo Banco da Inglaterra como um empréstimo com juros ao governo, o qual deve ser pago com impostos. O problema é que, dada as instabilidades políticas e as guerras, essa dívida nunca era paga, mas, sim, perpetuada. Pound afirmava que o Banco da Inglaterra era uma das causas das guerras, da exploração e da pobreza existentes. A situação foi corrigida no governo trabalhista de Attlee, que, em 1946, nacionalizou o banco.

“Dívidas do Sul”: a tese de Two Nations, de Christopher Hollis, para quem a Guerra Civil foi causada não só pela escravidão, mas pelas tensões econômicas entre os estados do Sul e do Norte dos EUA.

“Johnny Bull” é um apelido da Grã-Bretanha.

“G. B. S.”: George Bernard Shaw (1856-1950), dramaturgo irlandês.

“Sr. Xtertn”: Gilbert Keith Chesterton (1874-1936), escritor e jornalista britânico.

“Sr. Wells”: Herbert George Wells (1866-1946), romancista britânico, prolífico em vários gêneros e hoje lembrado principalmente por suas obras de ficção científica.

“John Marmaduke”: pseudônimo de Marmaduke William Pickthall (1875-1936), romancista inglês que se converteu ao Islã em novembro de 1917. Ele traduziu o Alcorão para o inglês em 1930.

“‘(…) jamais poderiam estabelecer uma NAÇÃO!'”: fato bastante conhecido, a Grécia antiga era constituída por cidades-estados independentes.

“Abdul Baha”: Abdu’l-Bahá (“servo de Bahá”), título de Abbas (1844-1921), líder da fé Bahá’i fundada por seu pai, Bahá U’lláh. Pound conheceu Bahá na Inglaterra, em 1911, e teve uma boa impressão dele e de seu movimento de unificação religiosa. No entanto, ao escrever o Canto XLVI, qualquer admiração que tivesse evaporara, pois Bahá é apresentado como alguém obtuso, incapaz de compreender o verdadeiro significado da religião. Embora Pound descreva uma conversa que teria envolvido Marmaduke e Bahá, é improvável que os dois tenham se encontrado dessa forma. Trata-se de uma maneira que o poeta encontrou para expor visões conflitantes.

“Paterson”: William Paterson (1658-1719), comerciante escocês, fundador do Banco da Inglaterra (1694) e do Banco da Escócia (1695). Ele também instigou o ruinoso esquema de Darien, cujo fracasso levou a aristocracia escocesa à falência e foi uma das causas diretas do Ato de União com a Inglaterra, em 1707, pelo qual a Escócia perdeu sua independência.

“cria do nada”: há quem diga que essa fala de Paterson seja apócrifa, inventada na década de 1930.

“o prédio carcomido”: em oposição à “casa de boa pedra” do Canto anterior, aqui Pound se refere ao sistema de “leasehold” inglês, em que uma casa não é vendida, mas arrendada ou alugada por 99 anos.

“Regius Professores”: cátedra de história moderna e línguas criada em Cambridge e Oxford em 1724. Cada professor tinha que ministrar uma conferência por ano e supervisionar um grupo de vinte acadêmicos.

“Liberalismo”: no original, “Whiggery”. A visão Whig da história moderna era uma narrativa de progresso que culminava no presente, o qual era considerado o melhor mundo possível. Tal ideário de inspiração leibniziana foi satirizado por Voltaire no Cândido (1754).

“Comissão Macmillan”: após o “crash” de 1929, o Comitê Macmillan foi formado pelo governo britânico para descobrir as causas da depressão econômica no Reino Unido. O comitê publicou suas conclusões em 1931, no Relatório Macmillan. A referência a Paterson no verso seguinte diz respeito ao trecho do relatório que se ocupa das origens e dos privilégios do Banco da Inglaterra.

“Marx”: Pound objetava que Marx não questiona o dinheiro enquanto tal.

“São Pedro (basílica)”: a construção da basílica foi, em parte, financiada pela venda de indulgências.

“Olhe os bairros pobres de Manchester”: no original, “Manchester slums”. Quem primeiro chamou a atenção para as condições em que vivia a classe trabalhadora foi Friedrich Engels, que descreveu a pobreza em Manchester por volta de 1840.

“Hic est hyper-usura”, “Eis aqui a hiper-usura”. A “hiper-usura” é a usura em nível nacional, a dívida pública criada pelos empréstimos contraídos de um banco central privado.

“Sr. Jefferson”: o que se segue é de uma carta de Thomas Jefferson para John Wayle Eppes datada de 24 de junho de 1813. Foi nessa carta que Jefferson afirmou que “a Terra pertence aos vivos”.

“Replevin”: também conhecida como “reivindicação e entrega”, trata-se de uma ação para recuperar bens pessoais que foram apreendidos ou retidos indevidamente.

“1527”: ano do saque de Roma pelas tropas de Carlos V, Sacro Imperador Romano, ocorrido durante o papado de Clemente VII (Giulio de Médici). Clemente era sobrinho de Lorenzo de Médici e primo de Leão X.

“barroco”: no entender de Pound, o barroco, que dominou a arte italiana nos séculos XVI e XVII, foi uma abominação criada por sociedades dominadas pela usura.

“Hic nefas commune sepulchrum”, “Aqui está o crime, a vala comum”: inspirado em Catulo, “Carmen 68b”, verso 89. Para o poeta latino, Tróia foi o crime e a vala comum da Europa: “Troia (nefas) commune sepulcrum Asiae Europaeque”.

“Aurum commune sepulcrum”, “ouro, a vala comum”.

“helandros kai heleptolis kai helarxe”, “destruidora de homens, destruidora de cidades, destruidora de navios”: do Agamêmnon de Ésquilo, trecho já citado diversas vezes (v. Canto II).

“Hic Geryon est. Hic hyperusura”, “Eis aqui Gerion. Eis a hiper-usura”: Gerion é o monstro que leva Dante e Virgílio a sobrevoar o oitavo círculo no Inferno. Na tradução de Italo Eugenio Mauro (ed. 34): “Ei-la, a fera que vem, de cauda aguda; / que montes, muros e armas vai vencendo, / e em todo o mundo o miasma seu ressuda” (XVII, 1-3).

“assinado F. Delano, seu tio”: o nome de Franklin Delano Roosevelt (1882-1945) reflete o grande papel que sua mãe, Sara Delano, desempenhou em sua vida. O tio de Roosevelt por parte de mãe era Warren Delano IV (1852-1920).

“… a França sob um foetor de governantes”: após ler um artigo de Francis Delaisi, “Nous n’avons plus de Roi, mais nous avons des Régents. Les vrais maîtres de la France siègent à la Banque de France” (1935), Pound ficou ainda mais convencido de que a França era governada por um grupo invisível de industriais e banqueiros. (V. Canto XXXVIII e o poder político do Comité des Forges.)

“O Sr. Cummings deseja o emprego de Farley”: a fofoca sobre as manobras políticas de Cummings foi publicada na coluna de Drew Pearson (“The Washington Merry Go Round”, 27 de novembro de 1935), veiculada nacionalmente. Homer S. Cummings (1870-1956), um péssimo procurador-geral (1933-39), queria se transferir para a chefia dos correios, cargo que supostamente vagaria em janeiro de 1936 porque seu ocupante, James Farley (1888-1976), gerenciaria a campanha para a reeleição de Roosevelt. No entanto, dado o sucesso da campanha, Farley manteve-se no cargo até 1940, quando se demitiu por discordar da busca de Roosevelt por um terceiro mandato. Por tudo isso, a fofoca que Pound lia nos grandes jornais não era, a rigor, uma notícia, mas apenas fofoca, ao passo que artigos como o de Delaisi eram publicados em veículos de pequena circulação.

Canto XLV

Antes de passar às notas sobre o Canto, publico aqui outra (bela) tradução do mesmo, feita em conjunto por Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos, e publicada no volume Ezra Pound – Poesia (São Paulo: HUCITEC; Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 1993), encontrável nos sebos. Para as notas, seguirei usando a tradução de Grünewald.

CANTO 45

Com Usura

Com usura nenhum homem tem casa de boa pedra
blocos lisos e certos
que o desenho possa cobrir,
com usura
nenhum homem tem um paraíso
pintado na parede de sua igreja
harpes et luthes
ou onde a virgem receba a mensagem
e um halo se irradie do entalhe,
com usura
ninguém vê Gonzaga seus herdeiros e concubinas
nenhum quadro é feito para durar e viver conosco,
mas para vender, vender depressa,
com usura, pecado contra a natureza,
teu pão é mais e mais feito de panos podres
teu pão é um papel seco,
sem trigo do monte, sem farinha pura
com usura o traço se torna espesso
com usura não há clara demarcação
e ninguém acha lugar para sua casa.
Quem lavra a pedra é afastado da pedra
O tecelão é afastado do tear
COM USURA
a lã não chega ao mercado
a ovelha não dá lucro com a usura
A usura é uma praga, a usura
embota a agulha nos dedos da donzela
tolhe a perícia da fiandeira. Pietro Lombardo
não veio da usura
Duccio não veio da usura
nem Pier della Francesca, nem Zuan Bellini veio
nem Usura pintou “La Callunia”.
Angelico não veio da usura; Ambrogio Praedis não veio,
Nenhuma igreja de pedra lavrada, com a inscrição: Adamo me fecit.
Nenhuma St. Trophime
Nenhuma Saint Hilaire,
Usura enferruja o cinzel
Enferruja a arte e o artesão
Rói o fio no tear
Mulher alguma aprende a urdir o ouro em sua trama;
A usura é um câncer no azul; o carmesim não é bordado,
O esmeralda não encontra um Memling.
Usura mata a criança no ventre
Detém o galanteio do moço
Ela
trouxe paralisia ao leito, jaz
entre noivo e noiva
…………..CONTRA NATURAM
Putas para Elêusis
Cadáveres no banquete
a comando da usura.

…………

“Com”: no original, “With”. Em uma carta de janeiro de 1938 para Carlo Izzo, seu tradutor para o italiano, Pound ressalta o “aroma opositor” do termo “with”, como em “withstand” significando “estar contra” (algo ou alguém). Não por acaso, Mary de Rachewiltz traduziu para o italiano como “Contro l’Usura”. Na mesma carta para Izzo, Pound deixa claro que “Com Usura” não é o título do poema, mas seu primeiro verso.

“Usura”: no original, Pound usa o termo em latim. Usura não é apenas “usura” (juros excessivos cobrados sobre empréstimos; no entender de Pound, qualquer coisa acima de 8%), mas um termo utilizado para definir a economia de mercado como um todo, entendida como algo fundamentalmente doentio, que afeta todas as esferas da vida e da criação humanas.

“paraíso pintado”: referência ao verso de François Villon em Grand Testament: “Paradis peint, où sont harpes et luths” (as “harpas e alaúdes” dos anjos pintados nas paredes da igreja).

“ou onde a virgem receba a mensagem”: referência não só à Anunciação, mas também à obra do florentino Fra Angelico (Guido di Pietro, 1387-1455), da mesma forma como o halo projetado do verso seguinte remete ao escultor florentino Agostino di Duccio (1418-1481) e seus desenhos entalhados no Templo Malatestiano. Duccio é citado nominalmente no Canto mais adiante.

“… Gonzaga seus herdeiros e concubinas”: afresco de Andrea Mantegna (1431-506) na “Camera degli Sposi” do palácio ducal em Mântua.

“o talhador não talha sua pedra”: em Memoir to Gaudier-Brzeska, Pound aponta que, não raro, o escultor não tem condições de comprar mármore, material precioso tantas vezes desperdiçado em lápides.

“não vai a lã até a feira”: provável referência a uma passagem de Storia civile della Toscana, de Antonio Zobi, em que o autor discorre sobre como os mercadores florentinos, a fim de economizar os custos do transporte da lã crua de países distantes, criaram fábricas de lã em Flandres, na Inglaterra e noutros lugares. Com isso, outros povos aprenderam a lidar e a lucrar com o material. Pior: como tinham a matéria-prima, os ingleses pararam de exportá-la. Com isso, as fábricas de lã na Toscana declinaram.

“Pietro Lombardo” (1435-1515): arquiteto e escultor renascentista, erigiu o interior da igreja de Sta. Maria dei Miracoli, em Veneza, uma das prediletas de Pound. Lombardo “não veio via usura” porque seu trabalho foi pago por doações públicas.

“Pier della Francesca”: Piero degli Franceschi (1420-92) foi um pintor toscano, responsável pelo afresco “Sigismondo diante de São Sigismundo” no Tempio Malatestiano. Ele também pintou o retrato de Sigismondo Malatesta que hoje se encontra exposto no Louvre. O nome da obra de Piero pode ser considerado uma “assinatura verbal”, indicando aquilo que Pound considerava a melhor forma de mecenato, conforme evidenciado em uma carta datada de 7 de abril de 1449, escrita e enviada por Sigismondo Malatesta para Giovanni de Médici. É a carta citada no Canto VIII, que Pound encontrou no livro de Charles Yriarte, Un condottiere au XV siècle.

“Zuan Bellini”: Giovanni Bellini (1430-1516), ou “Zuan Bellin” (no dialeto veneziano), tido em seus dias como o pintor mais importante da república, tanto que recebia uma “sansaria” (uma bela “ajuda de custo” que o senado de Veneza concedia aos artistas mais proeminentes).

“‘La Calunnia'”: referência à “Calúnia de Apeles” (c.1495), pintura de Sandro Botticelli (1445-1510) que ilustra este post.

“Ambrogio Praedis”: Ambrogio de Predis (1455-1508), pintor milanês a serviço da família Sforza.

“Adamo me fecit”, “Adão me fez”: gravado por um arquiteto em uma coluna da catedral de San Zeno Maggiore, em Verona, construída entre 967 e 1398. Pound viu a inscrição em 1911, quando visitou a igreja com o arquiteto Edgar Williams (irmão de William Carlos Williams). Essa assinatura na coluna foi vista, decifrada e transcrita por John Ruskin (1819-1900) em The Stones of Venice. Tal referência sublinha a influência de Ruskin (um importante crítico de arte, desenhista e aquarelista britânico, cujos ensaios sobre arte e arquitetura continuam bastante influentes) sobre a visão econômica apresentada no poema.

“St. Trophime” e “Saint Hilaire”: igrejas românicas. St. Trophime foi construída no século XII, em Arles; Hilaire, no século XI, em Poitiers.

“O azul é necrosado…”: no Renascimento, a cor azul era geralmente feita de azurita (porções superiores oxidadas dos depósitos de minério de cobre). Com o tempo, a azurita tende a se degradar e assumir um tom esverdeado, por ter uma composição química similar à da malaquita (usada pelos pintores renascentistas como pigmento verde). Os clientes mais ricos costumavam estipular em contrato os pigmentos a serem usados ​​pelos pintores, e alguns pagavam pelo uso do ultramarino, pigmento azul muito mais estável derivado do lápis-lazúli.

“carmesim”: o “velours cramoisi” (veludo carmesim), sugerido pela primeira vez no Canto XX. Os pintores renascentistas costumavam indicar a beleza, a riqueza e o status de seus modelos por meio desses detalhes da alta moda, como os bordados feitos à mão em veludo carmesim. A própria cor era uma especialidade veneziana e comercializada em toda a Europa.

“Memling”: Hans Memling (1433-1495), pintor alemão que viveu em Bruges. Pintava no estilo flamengo de Jan van Eyck e Rogier van der Weyden. Memling tinha ricos patronos italianos em Bruges, como Tomasso Portinari, diretor do Banco dos Médici na cidade.

“CONTRA NATURAM”, “CONTRÁRIA À NATUREZA”: a noção de que a usura é algo contrário à natureza é encontrada em Aristóteles, que sustentava que o dinheiro é e deve ser apenas um meio de troca que substitui o escambo. Em outras palavras, o dinheiro é algo estéril, que não (deveria) se multiplica(r) naturalmente, como os seres vivos. V. Política I, III.23.

“… meretrizes para Elêusis”: aqui, a sugestão é óbvia, na medida em que a usura transforma o sexo, tido pelos antigos como um ato natural e sacramental, em uma transação comercial. É algo que remete à corrupção do templo pelo mercado. Os rituais religiosos mais importantes da Grécia antiga eram os mistérios de Deméter e Perséfone, celebrados no Templo de Elêusis (perto de Atenas). As festividades se prolongavam por vários dias, durante a primavera e o outono, e apenas os iniciados podiam testemunhar o que ocorria no interior do templo. A principal fonte de informação de Pound sobre os ritos de Elêusis foi Sacerdotesse e danzatrici nelle religioni antiche, editado por Edoardo Tinto. As mulheres tinham uma importância enorme nesses rituais, inclusive como sacerdotisas, pois eles eram mistérios acerca da fertilidade, encenando o brotar da semente de trigo na terra.. A cópula sacramental, portanto, imita os processos da natureza. Ao substituir as sacerdotisas por putas, Pound aponta uma corrupção do ritual e dos próprios processos naturais. Em sua carta para Carlo Izzo, Pound também afirma que o casamento, entendido tradicionalmente como a venda da fertilidade feminina para um único homem (e santificado pelo cristianismo), também é algo oposto a “Elêusis” e, enquanto tal, um componente da usura em sua acepção mais geral.

Por fim, na nota ao pé do poema (N.B., “nota bene”), é interessante notar que Pound distingue o Banco dos Médici do Monte dei Paschi: o Monte, banco que existe em Siena desde 1624, é uma instituição pública que concede empréstimos a juros baixos e a pessoas de quaisquer classes sociais, com vistas ao incremento da produtividade geral e ao crescimento econômico da região como um todo; o Banco dos Médici, fechado há séculos, era uma instituição privada que emprestava apenas aos papas, reis e nobres, e cujos empréstimos não tinham valor produtivo, mas, com frequência, serviam para financiar guerras. Dada a instabilidade política na Europa, esses empréstimos muitas vezes não eram pagos, pois vários desses monarcas e aristocratas morriam nos campos de batalha ou eram depostos ou assassinados em intrigas palacianas.