Canto XXXVII

 

Este Canto se ocupa de Martin van Buren (1782-1862), cofundador do Partido Democrata, senador por Nova York e 8º presidente dos EUA (1837-1841).

Durante seu mandato, van Buren lidou com o Pânico de 1837, crise financeira que causou uma recessão que se arrastaria até meados a década seguinte. Uma das causas da crise remonta ao mandato do antecessor de van Buren, Andrew Jackson: o veto, em 1832, à renovação da licença do Second Bank of the United States (BUS), que operava como uma espécie de banco central e agente fiscal público (o Federal Reserve só seria criado em 1913). Sem o BUS, bancos do Oeste e do Sul passaram a emprestar dinheiro sem maiores cuidados, comprometendo suas reservas. Jackson também promulgou a “Circular do Dinheiro em Espécie” (Specie Circular, 1836), obrigando que a compra e venda de terras do Oeste fossem feitas mediante o uso de moedas de ouro e prata. A ideia era conter a especulação e a inflação, mas a Circular teve efeito contrário. Por sua vez, a Lei do Depósito e Distribuição (1836) estabeleceu que bancos de todo o país fossem abastecidos com reservas federais, o que provocou um esvaziamento dos centros financeiros localizados na costa leste — sem lastro, os bancos cortaram os empréstimos. A posse de Martin van Buren ocorreu apenas cinco semanas antes do estouro da crise. , que foi empossado presidente em março de 1837, foi altamente responsabilizado pois sua posse antecedera o pânico em apenas cinco semanas. Van Buren tentou substituir o BUS com um Independent Treasury, concebido como um banco que se limitaria a depositar os recursos da União, mas a lei proposta foi bloqueada pelo Partido Whig (favorável a um banco nacional). James K. Polk, sucessor de van Buren, reapresentou a proposta em 1846, conseguindo a aprovação. O Independent Treasury seria utilizado como instrumento de administração dos recursos governamentais até a criação do Federal Reserve.

Quando da escrita desse Canto (1933), o presidente Franklin Delano Roosevelt também procurava uma forma de reformar o sistema financeiro, que fora incapaz de evitar ou conter a Grande Depressão. Assim, ele lidava com problemas similares aos enfrentados por Jackson e van Buren: o Federal Reserve deveria ser fechado? O equilíbrio entre dólar e ouro precisava ser revisto? O padrão ouro deveria ser mantido? Como proteger os pequenos correntistas, ameaçados pelas falências bancárias? Entre 5 e 13 de março de 1933, após semanas de fuga dos bancos, com as pessoas sacando todo o seu dinheiro, FDR decretou um feriado bancário e fechou todo o sistema para melhor reavaliá-lo. No dia 12, ele assegurou os correntistas de todo o país que, quando os bancos reabrissem, o dinheiro estaria seguro. As pessoas confiaram em sua palavra e, quando os bancos reabriram, depositaram o dinheiro de volta.

“metê-los na cadeia por dívidas” / “que um imigrante…”: van Buren foi senador entre 1812 e 1821. Desde então, já vociferava a favor dos pequenos correntistas e contra os banqueiros, financistas e especuladores. Durante o breve período em que foi governador de NY (entre janeiro e março de 1829), ele também apoiou a criação de um Safety Fund para proteger os correntistas de eventuais falências bancárias. O valor do dinheiro de papel era extremamente volátil, prejudicando sobretudo os trabalhadores (incluindo os imigrantes) mais pobres.

“usuário rico” (no original, “rich patroon”): um grave problema na tradução de Grünewald aqui. Em primeiro lugar, conforme observado anteriormente, o termo correto é “usurário”, não “usuário”. Mas, aqui, ele também perverte completamente o sentido original ao não traduzir “patroon” como “senhorio” ou coisa similar. Explico: conforme a antiga lei holandesa, “patroons” eram os donos de vastas porções de terras coloniais, alguém que também gozava de privilégios sociais e políticos. No estado de Nova York, a maior propriedade pertencia à família van Rensselaer. O sistema de “patroons” deixou de existir por volta da década de 1840s, quando essas grandes propriedades de terras foram gradualmente vendidas e transformadas em propriedades menores. Em sua atividade como advogado (1803-11), van Buren defendeu e protegeu pequenos proprietários de terras contra as invasões dos “patroons”.

“esprit de corps”: de um discurso de van Buren, então senador, contra os juízes da Suprema Corte.

“Os Calhouns”: John Caldwell Calhoun (1782-1850), senador pela Carolina do Sul, foi também vice-presidente de John Quincy Adams e Andrew Jackson (no primeiro mandato deste, 1825-31). As posições políticas de Calhoun (favorável aos direitos dos estados e à escravidão, contrário aos altos impostos etc.) favoreciam os estados escravagistas do Sul em detrimento dos interesses econômicos dos Norte, criando e sedimentando divisões internas (que culminariam na Guerra da Secessão). As posições de Jackson e van Buren eram mais unionistas. Foi a esposa de Calhoun, Floride, a responsável por ostracizar Peggy Eaton (Margaret O’Neill (ou O’Neale) Timberlake Eaton, esposa do Secretário da Guerra no governo Jackson, John Eaton) por questões “morais” (Peggy não teria respeitado o período convencional de luto, casando-se com Eaton nove meses após a morte do primeiro marido), escândalo que ficou conhecido como “The Petticoat Affair” (v. Canto XXXIV; “Petticoats”, “anáguas”, “combinações”). Como as discussões políticas dos membros do gabinete não raro ocorriam nas soirées das esposas (controladas por Floride), Calhoun foi capaz de criar enormes dificuldades para o governo Jackson em seus primeiros anos. Ele bloqueou a chamada “Tarifa das Abominações” (1828), tida como prejudicial para os estados do Sul. Jackson tentou, sem sucesso, convencer as esposas dos membros do gabinete a não ostracizar os Eaton. Por conseguinte, van Buren renunciou ao cargo de Secretário de Estado, forçando o restante dos membros do gabinete a fazer o mesmo. Jackson pôde, então, apontar um novo gabinete, excluindo Calhoun e seus correligionários, e governar com mais tranquilidade a partir de 1831.

O “Sr. Adams” citado é John Quincy. Pound, mais uma vez, recorre a uma entrada do diário dele, como fizera no Canto XXXIV.

“Ambrose (Sr.) Spencer”: Ambrose Spencer (1765-1848), figura política do Partido Republicano em Nova York, aliado do governador DeWitt Clinton (1769-1828). Membro da Suprema Corte de Nova York, era um adversário político de van Buren. “Sr. Van Renselaer”: Stephen van Rensselaer III (1764-1839), um “patrão” novaiorquino, republicano, um dos homens mais ricos dos EUA na época. Acreditava que o termo de residência dos contribuintes no estado deveria aumentar antes que eles pudessem votar (o cidadão precisava residir e pagar impostos no estado por um período mínimo antes de ter direito ao voto).

“extensão do direito ao voto”: discussão ocorrida em 19 de setembro de 1821 na Convenção Constituinte de Nova York. Na época, mais do que a metade dos homens estavam impedidos de votar por questões financeiras.

“Convenção Do Estado de 1821”: foram discutidas as questões da extensão do direito ao voto, o tempo dos mandatos e os poderes de veto do judiciário e do executivo. Van Buren apoiava uma maior democratização das estruturas políticas, liderando a facção dos “Bucktails” (contrários a DeWitt Clinton, Spencer e cia.).

“Dixit Spencer”, “Spencer disse”.

“Kent disse”: James Kent (1763-1847), jurista, Chief Justice (1804-1814) e chenceler de Nova York (1814-1823). Também se opunha à extensão do sufrágio.

“Tompkins”: Daniel D. Tompkins (1774-1825), governador de Nova York (1807-1817) e presidente da Convenção.

“Duas palavras”: taxação e representação. Trata-se do princípio democrático de que, se uma pessoa paga impostos, ela deve ter direito à representatividade.

“quando uma barreira…”: quando senador (1821-1829), van Buren se opunha à participação do governo federal em projetos como a construção de canais e estradas, que deveriam ser levados a cabo pelos governos locais.

“não submeter nossa conduta…”: de um discurso de van Buren quando senador, referindo-se à abolição do tráfico de escravos no Atlântico e objetando o direito dos ingleses de revistarem navios norte-americanos.

“as classes trabalhadoras (…) bancárias”: de um discurso de van Buren quando em campanha presidencial, referindo-se ao equilíbrio entre o ouro e o dinheiro de papel.

“os negociantes…”: agora, o Canto se ocupa da crise de 1837, pela qual muitos historiadores culpam as medidas fiscais tomadas por Andrew Jackson quando presidente (a não renovação do BUS, a exigência de que terras só fossem negociadas mediante pagamento em prata ou ouro (Specie Circular) e o Distribution Act, pelo qual a renda dos impostos era distribuída por 23 bancos dos estados) .

“renda para as carências do governo”: a principal preocupação de van Buren era proteger o dinheiro público, evitando que ficasse à mercê da especulação e do risco ao ser depositado nos bancos dos estados. Essa é a razão pela qual ele criou o Independent Treasury, que funcionava como um banco para depositar o dinheiro do governo, separando-o das transações ordinárias.

“… diminuir o patrocínio governamental…”: ao instituir o Independent Treasury, van Buren fez com que o governo deixasse de ter “bancos de estimação” nos estados.

“… o marinheiro / não deve ser açoitado a não ser por ordem da corte”: ordem presidencial de março de 1839.

“terra / para o colono”: van Buren era a favor de que as terras no Oeste fossem compradas a um preço menor por aqueles que a ocupassem, contrariando a política de Henry Clay (que defendia o “Sistema Americano”: terras vendidas paulatinamente para aqueles que tivessem dinheiro para comprar, aplicando os lucros em obras pelo país). Clay (1777-1852), político do Kentucky, cabeça do partido Whig, foi um adversário político de van Buren. Ele também defendia o Second Bank of the United States e, após o veto de Jackson, a criação de um novo banco nacional. Clay impediu a implementação do Independent Treasury Act durante o governo van Buren.

“Sr. Eaton”: quando Peggy ainda estava casada com seu primeiro marido, Timberlake, o pai dela faliu e teve de vender a casa em que vivia. Eaton comprou a casa em um leilão e a devolveu ao pai de Peggy.

“desregramento moral”: de um comentário de John Quincy Adams em seu diário (11 de janeiro de 1831), após ler 50 páginas da Autobiography de Jefferson.

“Servilismo”: de outra entrada no diário de John Quincy Adams (9 de setembro de 1837), após visitar o então recém-eleito van Buren.

“‘Em nenhum lugar…'”: do segundo discurso anual de Jackson perante o congresso, em 1830. Andrew Jackson (1767-1845), advogado e general do Tennessee, o 7º presidente dos EUA (1829-1837), admirado em todo o país por conta de sua vitória contra os britânicos na Batalha de Nova Orleans (1815), era tido como um representante das pessoas comuns. Van Buren foi Secretário de Estado no primeiro mandato de Jackson, e vice-presidente no segundo.

“Deram cinco anos à União”: em seu diário, John Quincy Adams discorre sobre duas conversas que teve com Henry Clay e James C. Calhoun em fevereiro de 1820. Clay previu que, em cinco anos, os EUA se fragmentariam em três confederações. Calhoun disse que, caso a União se dissolvesse, os estados do Sul deveriam se aliar à Inglaterra.

“moeda uniforme”: dito por Jackson em seu primeiro discurso anual para o congresso, referindo-se ao Second Bank.

“importariam cereais”: observado por van Buren quando do início da crise de 1837. A referência ao Banco da Inglaterra se deu quando van Buren foi pressionado para restabelecer um banco nacional.

“Sr. Webster”: Daniel Webster (1782-1852), senador por Massachusetts e membro do partido Whig. Webster fui um grande oponente das políticas de Jackson e van Buren quanto ao Second Bank. Pound cita um discurso feito não por Webster, mas por Henry Clay em 25 de setembro de 1837.

“Maccoboy”: anedota reiterada sobre certo dia no senado, em 1833, quando Daniel Webster e Henry Clay tentavam persuadir o senado dos problemas econômicos causados pela remoção dos depósitos governamentais no BUS, em setembro daquele ano. A anedota é de que Clay, dirigindo-se a van Buren, implorou que este dissesse ao presidente qual era a verdadeira situação dos norte-americanos, as “lágrimas de viúvas indefesas que não podem mais ganhar seu pão, e dos órfãos desnudos e não alimentados”. Van Buren teria ouvido o discurso com toda a atenção e, quando Clay terminou, aproximou-se deste, pediu um pouco de tabaco Maccoboy e foi embora.

“pela diminuição da dívida”: van Buren, em consonância com Jefferson, discordava da ideia de Hamilton, de que a dívida nacional seria uma “benção”.

“Marshall”: John Marshall (1755-1835), presidente da Suprema Corte (1801-35). Pound reitera o que Jefferson disse acerca dele no Canto XXXII.

“Tip an’ Tyler”: “Tip” era o General Benjamin Harrison (1773-1841), famoso pela Batalha de Tippecanoe (1811), candidato Whig, venceu van Buren na eleição de 1840; John Tyler (1790-1862) era o candidato a vice de “Tip”. Harrison morreu em abril de 1841, logo após ser empossado.

“sed aureis furculis”, “luxo, mas com garfos dourados”.

“O homem é um mau-caráter”: no original, “dough-face”. Na gíria da época, um “doughface” era um político do Norte que simpatizava com a escravidão e as políticas econômicas do Sul.

“(do banco) presidente”: Nicholas Biddle (1785-1844), financista e presidente do Second Bank of the United States (BUS).

“poder de veto”: embora a renovação do BUS tivesse sido aprovada pelas duas casas do congresso, Jackson a vetou em 10 de julho de 1832, pouco antes de disputar a reeleição. Como Jackson venceu as eleições contra o candidato do banco, Henry Clay, isso fez parecer que o povo apoiava o fechamento do banco.

“Lennox”: Robert Lennox (1759-1839), Presidente da Câmara de Comércio de Nova York.

“Hamilton”: James A. Hamilton (1788-1878), procurador novaiorquino. Filho de Alexander Hamilton, era contrário à existência do BUS.

“linha de descontos (…) Maio de 1837”: a data está incorreta; o correto é maio de 1832. Trata-se de linhas de créditos. Entre outubro de 1930 e maio de 1932, Biddle e o BUS aumentaram seus empréstimos aos estados do Oeste, julgando que os problemas causados pelo encerramento das atividades do banco (forçando, desse modo, o pagamento dos empréstimos) colocariam uma enorme pressão sobre o governo.

“Sorrento”: van Buren estava em Sorrento quando, em 1854, escreveu suas memórias.

“eu hessito”: no dia seguinte ao veto, em 11 de julho de 1832, Daniel Webster, eloquente senador por Massachusetts, fez um discurso para desacreditá-lo.

“Balanço de 4 a 5 milhões”: van Buren comenta acerca da enorme disparidade entre a renda do governo e o poder do presidente para fazer uso dela.

“verdadeiro comitê”: as atividades do BUS eram dirigidas por um comitê selecionado por Biddle, excluindo representantes do governo.

“Sr. Taney”: Roger B. Taney (1777-1864), jurista, membro da Suprema Corte, foi apontado Diretor do Tesouro por Andrew Jackson para supervisionar a remoção dos depósitos governamentais do segundo BUS. Apresentou dois relatórios sobre isso, o primeiro em dezembro de 1833, e o segundo em junho de 1834.

“Cambreling, Globe Extra 1834”: Churchill Caldom Cambreleng (1786-1862), empresário norte-americano e congressista democrata por Nova York. Em sua Autobiography, van Buren elogiou seu caráter, citando um discurso dele para jovens republicanos, publicado pelo Globe Extra.

“O Relato Pessoal de Peggy Eaton”: The Autobiography of Peggy Eaton foi publicada em 1832.

“Placuit oculis”, “agradável aos olhos”.

“Juiz Yeats”: Joseph Christopher Yates (1768-1837), jurista norte-americano e governador de Nova York

“Alex Hamilton”: já citado antes como “Sr. Hamilton”. Embora abominasse o fato de que Alexander Hamilton (1755-1804) tivesse criado o primeiro banco nacional (First Bank) dos EUA, em 1791, van Buren admirava sua coragem e sua integridade.

“compradores de lã”: reação a um célebre discurso de van Buren, “the Woollen Speech”, feito em Albany no dia 10 de julho de 1827.

“Sr. Knower”: empreendedor republicano, amigo de van Buren.

“Casa de Braintree”: embora fosse uma noção que circulasse na época, John Adams jamais foi monarquista. Braintree Massachusetts era a colônia onde os ancestrais dos Adams se estabeleceram por volta de 1632.

“procurando a luz das estrelas”: John Quincy Adams foi um grande apoiador dos projetos federais (incluindo grandes obras e construções) e instituições. Era favorável à criação de uma universidade nacional e do primeiro observatório astronômico dos EUA.

“Maldito biltre covarde”: segundo o boato, Clay teria se referido assim a Daniel Webster.

“decisão de Taney”: os meses entre o primeiro relatório de Roger Taney sobre a retirada dos depósitos governamentais do BUS, em dezembro de 1833, e a proposta de Clay para “restaurá-los” em maio de 1834.

“hic jacet fisci liberator”, “aqui jaz o libertador do tesouro”: referência à oposição de van Buren à ideia de criar um banco nacional durante a sua presidência.