Manoela Sawitzki tematiza a impossibilidade dos encontros efetivos

Manoela Sawitzki tematiza a impossibilidade dos encontros efetivos

Resenha publicada no Jornal do Brasil em 11.09.2009.

Alguém morre de tristeza, e o livro começa. Suíte Dama da Noite, segundo romance da também dramaturga e jornalista Manoela Sawitzki, avança por meio de pequenas homorragias, pequenos cortes , uma voz ao mesmo tempo próxima e distante, familiar e intraduzível. É, acima de tudo, um livro sobre a espera ou, nas palavras da autora, o hiato entre o desejo e a realização , o fardo de um amor que nunca chegaria ao seu destino .

A protagonista tem, não por acaso, nome de personagem de romance barato, Julia Capovilla. Como em um folhetim, ela reencontra Leonardo, um amor que embalsamara muitos anos antes, mas ele está prestes a se casar com Ariana, que, por sua vez, é irmã de Klaus, esposo de Júlia. A ciranda está completa, mas é algo quebradiço, como se aqueles que a formam estivessem todos com os braços quebrados. Júlia e Leonardo, evidentemente, tornam-se amantes. Pode-se dizer que o livro vive mais dos momentos entre os encontros dos personagens do que dos encontros propriamente ditos. Ou talvez ele seja justamente sobre a impossibilidade de encontros efetivos, isto é, um romance inteiro alimentado por hiatos, pelo cansaço anterior ou posterior à consumação de algo que, de resto, nunca se consuma realmente.

Em um segundo momento, de heroína de folhetim (ou personagem frustrada de conto de fadas), é possível enxergar Júlia como um ser essencialmente trágico, uma espécie de prima de Emma Bovary, só que um pouco mais autoconsciente. O escritor norte-americano John Barth disse certa vez que o autoconhecimento é sempre uma má notícia . De maneira certa ou errada, Júlia parece saber de si mesma, e não seria de todo insensato ou pueril ler Suíte Dama da Noite como um acúmulo de más notícias alinhavadas de forma talentosa.

O livro é, evidentemente, uma ficção, mas uma ficção que se alimenta de uma série infindável de outras ficções criadas pela protagonista para si, sobre aqueles que a rodeiam. Júlia, de uma forma ou de outra, está quase sempre mentindo, para os outros e para si. Tudo nela, dela e para ela é uma invenção ou passa por invenções cada vez mais complexas, desde o que sente ou pensa sentir até o que vive ou pensa viver. Essa piscadela metalinguística serve não como desculpa para um exercício masturbatório, algo que se esgota em si mesmo, mas é justamente o que torna o livro invulgar na medida em que diz muito, quase tudo, da personagem principal e do mundo engendrado por ela.

Apenas ao final, quando jorra sins para o mundo e para si , Júlia Capovilla parece intuir o que Molly Bloom, que no desfecho do Ulisses de James Joyce também jorra sins para o mundo e para si , sabe tão completamente: experimentar sem pressa a vida que se apresenta como um movimento sempre presente . Ou talvez tudo não passe de uma falsa epifania, uma ficção a mais, outra mentira. Cada leitor que descubra por si.

Romance narra adultério pelo ponto de vista da mulher traída

Resenha publicada no Jornal do Brasil em 10.04.2010.

No romance Nada a dizer, de Elvira Vigna, temos a narrativa obsessivamente detalhada de um adultério. Surpreende que a voz que conta essa história em todos os seus mínimos detalhes seja não a de um dos amantes, mas, sim, a voz da mulher traída.

Com pouco mais de 60 anos, ela reconstitui cada passo do companheiro, Paulo, em sua malfadada aventura extraconjugal, bem como vários eventos anteriores e posteriores. A descrição cuidadosa, com toques masoquistas, de algo tão doloroso acaba se revelando um esforço da narradora no sentido de reconhecer ou, pior, vir a finalmente conhecer o seu companheiro, entender quem ele de fato é e como ele veio a se tornar quem se tornou.

Mais do que isso: ao não reconhecer ou desconhecer alguém com quem vivia há tanto tempo, a narradora também deixa de reconhecer ou passa a desconhecer a si própria: “Eu não esperava que isso fosse possível. Que eu pudesse não existir, que a minha existência pudesse não ser contabilizada pela pessoa que mais me conhecia no mundo”. Assim, além de administrar a dor pela traição, ela também se vê inteiramente esvaziada de sua identidade. Tudo aquilo que era ou julgava ser como que escorre pelos dedos de suas mãos.

Para além da crise conjugal, há uma espécie de mapeamento do que significa esse episódio para a narradora em função do que ela pensou e viveu desde a juventude, nos anos 60. Nas palavras dela: “Fomos nós, os que fizemos 60 anos no início do século 21, os que lutaram e enfrentaram hostilidades de todo tipo para que pudéssemos viver, todos, do jeito que quiséssemos (…)”.

Ao relembrar o percurso de sua relação com Paulo, ela chama a atenção para as mudanças ocorridas não só em seu relacionamento, mas no mundo. Há 40 anos, eles defendiam o ideário esquerdista e lutavam pela liberdade e pelos direitos do proletariado . Panfletavam, acolhiam fugitivos da ditadura, enfrentavam o calamitoso estado de coisas vigente no Brasil.

Não muito tempo depois, com o fim da repressão, ela vê o companheiro empregar-se em uma grande companhia e colocar em dúvida opiniões que eles sempre tiveram e sobre as quais não havia como ter dúvidas . No discurso, eles renegavam esses papéis predeterminados, toda a suposta imbecilidade pequeno-burguesa ou coisa que o valha.

Na prática, e aqui está a ironia, o leitor vê como eles, sobretudo Paulo, acabam se encaixando justamente nos papéis predeterminados. Vemos o descompasso cada vez maior entre o discurso e as expectativas de outrora e os rumos que suas vidas e o mundo tomaram e continuam a tomar.

A narradora, contudo, não sugere que a decadência de seu relacionamento se deva, de uma forma ou de outra, seja direta ou indiretamente, à falência de todo aquele ideário. Não se trata disso. O que ela faz é conferir tridimensionalidade a esses personagens e às suas motivações por meio de uma contextualização histórica e também pelo registro dessas mudanças bastante significativas, de quem eles foram um dia e de quem eles se tornaram, tanto um para outro quanto em relação ao mundo.

Assim, os acontecimentos narrados ganham maior ressonância e Nada a dizer, longe de se tornar um exemplo de prosa confessional monocórdia e autoindulgente, exibe toda a riqueza de um ponto de vista consciente de si, do outro e do que os cerca.

Em busca de Liu Ying – Gay Talese e o futebol feminino

Artigo publicado em 24.07.2023 no Estadão.
Na edição impressa, o artigo saiu em 26.07
(clique na imagem para ampliá-la; título e subtítulo são dos editores, não meus).

Em 1999, cinco anos após Roberto Baggio errar aquele pênalti, os EUA sediaram outra Copa do Mundo, dessa vez de futebol feminino. O palco da finalíssima foi o mesmo no qual a seleção brasileira sacramentara seu quarto título mundial: o tórrido Rose Bowl em Pasadena, Califórnia. E, a exemplo de Brasil e Itália, as finalistas de 1999 também empataram em 0x0 no tempo regulamentar e na prorrogação, e o título foi definido nos pênaltis. EUA e China se enfrentaram naquele 10 de julho, e um dos registros mais célebres do evento está no livro Vida de Escritor, de Gay Talese (Cia. das Letras, tradução de Donaldson M. Garschagen).
O autor alterna a narração da final com a descrição de uma partida da “Subway Series”, como são apelidados os confrontos entre os times novaiorquinos Yankees e Mets. É um prazer extra para o leitor brasileiro contrapor a tranquilidade com que Talese discorre sobre beisebol ao didatismo meio desajeitado na abordagem do “soccer”. Mas ele é tão sagaz que intui aquilo que o grande Bill Shankly disse certa vez: “Futebol não é uma questão de vida ou morte, é muito mais importante do que isso”.
Talese atenta para as questões políticas envolvidas (a tensão entre os países após o bombardeio acidental, por caças norte-americanos, da embaixada chinesa em Belgrado), os detalhes mais significativos (a única negra em campo era a goleira Briana Scurry, autoproclamada “mosca no leite”; Scurry se adiantou na cobrança que decidiria o jogo, infração ignorada pela arbitragem) e o símbolo da derrota chinesa: a meio-campista Liu Ying, que errou o pênalti. A final seria um gancho formidável para “mostrar muita coisa a respeito dessas duas sociedades”. E Talese embarcou para a China.
Lá, muita coisa mudara desde as manifestações de 1989. As autoridades enfrentavam com maior rapidez os membros da seita Falun Gong, para que o movimento não crescesse como os protestos de estudantes e trabalhadores que culminaram no Massacre da Praça da Paz Celestial. A abordagem de Talese do morticínio, incluindo as simplificações ocidentais, os relatos contraditórios e uma referência ao que ele próprio testemunhara em Selma, Alabama, em 7 de março de 1965 (quando manifestantes negros pró-Direitos Civis foram brutalmente agredidos pela polícia), é um dos pontos altos do livro.
Mas como encontrar Liu Ying? A Nike já possuía fábricas na China, e Talese conhecia o presidente da empresa, Phil Knight (sim, aquele sujeito interpretado por Ben Affleck no filme Air). Graças aos contatos do amigo, conseguiu a primeira entrevista com a jogadora. Depois, também falou com a mãe e a avó de Liu Ying, e acompanhou a seleção chinesa por meses.
O futebol é a janela pela qual observamos a história. As histórias dessas mulheres são atravessadas pelas enormes mudanças ocorridas no século XX, desde a queda do último imperador até o processo de transformação econômica alavancado por Deng Xiaoping, passando pelos horrores da Revolução Cultural. Tais mudanças são muito bem simbolizadas pelo que acontece com o lar da família de Liu Ying, uma das “residências baixas e seculares, com portais treliçados em arco, que se abriam para um beco antigo chamado hutong”. No processo de canibalização modernizadora, e em vista das Olimpíadas de 2008, que Beijing sediaria, “a casa com pátio em que Liu Ying nascera e fora criada” acaba demolida, “sua localização (…) perdida em montanhas de entulho”. A comunidade familiar que assistiu pela TV à final da Copa de 1999 se dispersa. O custo humano da “modernização” é incalculável.
Por fim, a busca de Talese não esconde certa ânsia por redenção. Ele gostaria que Liu Ying alcançasse um triunfo que obliterasse o pênalti perdido. Mas, como o próprio Baggio (ou o nosso Zico) poderia atestar, as coisas não funcionam assim, seja no futebol, seja na vida.

Três cartas de William Gaddis

Do livro THE LETTERS OF WILLIAM GADDIS
(ed. Steven Moore. Dalkey Archive Press, 2013).
A Dalkey lançou há pouco uma nova edição, revista.
Mais sobre Gaddis
AQUI.

Para Charles Socarides.

[Um amigo de Harvard (…). Esta é a primeira carta em que é explicada a ideia fundamental e a trama de The Recognitions.]

Pedro Miguel, Zona do Canal
[fevereiro ou março de 1948]

prezado Charles.
Primeiro — por favor, não se alarme com o peso desta correspondência que pareço despejar em você. Mas, quando você escreve uma carta como a que acabei de receber, sinceramente, eu perco a cabeça de tanta empolgação. Terrivelmente nervoso agora.
Tudo porque estive fora por 3 dias, em uma ilha próxima, trabalhando freneticamente nesse romance. Que parece tão ruim. Mas, assim: veja, o que você diz nessas cartas — mais especificamente na última — me aborrece porque as imagens que você traça, os fatos que apresenta, são exatamente como esse romance que está crescendo. É um bom romance, excelente, todo o encadeamento da história, os acontecimentos, o frenesi. O homem que (metaforicamente) se vende para o diabo, o jovem assim à caça de uma figura paterna, perseguindo o mais velho até a sua (do jovem) morte. E a “garota” — que acaba perdendo por completo a própria identidade, que tentou criar um mito original, ela se perde porque sua última testemunha (um camarada que usa heroína) é preso — o jovem (“herói”) sendo o delator. Eis o ponto avassalador: que tudo isso aconteceu. Não para valer, talvez, mas com os fatos da vida recente e a minha fuga, aconteceu. O tempo inteiro, a cada minuto, a coisa cresce em mim, eu “penso em” (ou me lembro de) novos fatos do romance — a Verdade sobre o Passado (título alternativo). (O título é Ducdame, chamaram ‘algumas pessoas que estavam nuas’¹.) Mas essa ficção que cresce se encaixa tão insanamente bem nos fatos da vida que, às vezes, não consigo suportá-la, preciso descarregar (como estou fazendo aqui). E então eu a arruíno por escrever mal. Como ao tentar ser inteligente — talvez por medo de ser sincero? Mas me vejo arruinando tudo. E então — porque quando escrevia na faculdade eu exagerava tanto, agora [o que escrevo] deve ser reservado, sutil, insinuado. Ou os trechos ruins de escrita simplesmente se acumulam. Veja: “Há poucas situações em que não tentamos controlar o tempo; seja ao incitá-lo desvairadamente, ou quando, apavorados, assistimos à passagem de sua carruagem alada, que respinga em nós a lama que chamamos de memória”. Não é tão horrível. Veja, isso simplesmente aconteceu, estava fora do meu controle até que a sentença chegou ao ponto final. Ser superficial pode matar o que deve estar vivo.
(…) Estamos sozinhos, nus — e a nudez deve escolher entre a vulgaridade e a razão. Cada um de nós, responsáveis. (…)
Gostaria de vê-lo agora, se você pudesse dar uma olhada nessa coisa, condensá-la peremptoriamente (partes dela) — a escrita, exposição. Deus, eu conheço todo esse medo, mas não simpatizo com ele. Tolos. Não posso me dar ao luxo de ser um.
É como se a sua carta antecipasse exatamente o que estou escrevendo como ficção.
Não posso ir para casa antes de junho. Por causa de dinheiro. Sempre isso. Posso viver em Long Island depois de junho, mas não antes do verão, entende? Preciso trabalhar nesse maldito canal até abril, espero economizar cerca de 600 dólares, o bastante para sobreviver até junho e ir para casa. Eu odeio isso, ser pago 12 dólares por dia — ou noite — para desperdiçar. Agora são 10:15 da noite — e tenho que estar no canal às 11, “trabalhar” até as 7 da manhã. Mas preciso fazer isso por causa do dinheiro. Talvez seja uma coisa boa não ter dinheiro, me apaixonei loucamente pela filha do governador local da ilha — não é mexicana, panamenha, mas espanhola. Nariz esplêndido. Pelo amor de Werther, não lhe cai mal. É um inferno não ter tempo nem dinheiro para viver.
Então, há esse homem aqui que vai para a Suécia em um veleiro. E, se o romance de repente parecer ruim demais, devo ir com ele, precisa de alguém para trabalhar, um barco bem pequeno, à vela.
Deus, a fuga, fuga. Você entende, não? Eu, quase. Mas, se eu não conseguir criar um bom romance, então devo continuar fugindo, até que saiba tudo por mim mesmo — não só como fato filosófico, como uma verdade na qual “acredite” e esteja tentando vender — mas que eu possa me sentar e saber sem ter de tentar vendê-la (escrevendo) para todo mundo.

Obrigado. Vou escrever para você.
W.

¹ Ducdame, called ‘some people who were naked’: “Ducdame” é uma palavra nonsense da canção de Jacques em Como gostais, de Shakespeare, a qual ele jocosamente define como “uma invocação grega para juntar bobos em um círculo” (5.2.53). “Algumas pessoas que estavam nuas” é provavelmente da peça Vestir os Nus, de Pirandello (…). (N.E.)

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Para J. Robert Oppenheimer.

[Físico norte-americano (1904-67), conhecido por seu trabalho no desenvolvimento da bomba atômica. Em 26 de dezembro de 1954, ele deu uma palestra intitulada “Perspectivas nas Artes e Ciências” durante as celebrações do bicentenário da Universidade de Columbia. A palestra foi reproduzida em seu livro The Open Mind (1955). A carta a seguir é um rascunho corrigido.]

Cidade de Nova York
4 de janeiro de 1955

Caro Doutor Oppenheimer.
Já tomei uma liberdade maior do que esta (…) ao ligar para a Harcourt, Brace & Co., que está publicando um longo romance que escrevi, e pedir a eles que enviassem um exemplar para o senhor. O senhor deve receber todo tipo de correspondência, mensagens excêntricas e cartas de fãs de todos os tipos, mas poucas, penso eu, contendo meio milhão de palavras. E, uma vez que posso também imaginar que o senhor raramente lê romances, nem que seja pela falta de tempo, é uma imposição a mais lhe enviar um [romance] tão volumoso.
Mas, por ter lido sua recente palestra no aniversário da Columbia, eu jamais deveria ter considerado fazer algo assim. Mas fiquei tão abalado com a concisão, e o uso da linguagem, com que o senhor indicou os problemas que me tomaram sete anos para reunir e quase mil páginas para apresentar, que a primeira coisa a me ocorrer foi o envio do exemplar. E submeto esse livro ao senhor com o mais profundo respeito. Porque eu acredito que The Recognitions foi escrito sobre “o caráter colossal da dissolução e da corrupção da autoridade na fé, no ritual e na ordem temporal (…)”, sobre as nossas histórias e tradições como, “ao mesmo tempo, laços e barreiras entre nós”, e [sobre] a nossa arte, que “nos une e separa”. E, se eu puder continuar usando as suas palavras, é um romance no qual demoradamente tentei o meu melhor para mostrar “a integridade da arte mais íntima, detalhada, verdadeira, a integridade do trabalho artesanal e da preservação do que é familiar, cômico e belo”, em “enorme contraste com a vastidão da vida, a imensidão do globo, a alteridade das pessoas, a diversidade dos caminhos e a escuridão que a tudo abarca”.
O livro é um romance sobre fraude. Sei que, caso venha a lê-lo, o senhor encontrará passagens maçantes, incidentes ofensivos e algumas imaturidades belas e dolorosas, tudo isso em minhas tentativas de apresentar “os males da superficialidade e os terrores da exaustão” tal como os vi: tentei expor a sombria luta de um homem cercado por aqueles que “se dissolveram em uma confusão universal”, aqueles que “nada sabem e nada amam”.
(…)

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Para Johan Thielemans.¹

[Em seu livro Vrijheid in de steigers (Haarlem: In de Knipscheer, 1985), o crítico holandês Graa Boomsma narra uma visita a William Gaddis (pág. 24, com Joseph Heller dando uma passadinha), e, algumas páginas depois, descreve como, estando ele e Gaddis na varanda, Thomas Pynchon apareceu para bater um papo (pág. 28).]

Wainscott, Nova York 11975
11 de outubro de 1985

Caro Thielemans,
Obrigado pela sua carta de 30 de setembro com a notícia — inédita para mim — de que Graa Boomsma não só nos visitou em Long Island como encontrou Thomas Pynchon aqui! Ele me escreveu sobre essa viagem para os Estados Unidos, esperando que nos encontrássemos, mas houve alguma confusão & isso nunca aconteceu, certamente não aqui, e por certo não com [a presença de] Pynchon (a quem eu nunca conheci, não obstante as muitas alegações dos críticos acerca da similaridade entre nossas obras: vejo que ambos somos classificados como paranoicos & conspiratórios, mas quem, à exceção de James Michner², não é?). E, então, eu ficaria muito agradecido se você pudesse me enviar, quando tiver tempo, uma cópia desse trecho traduzido. Muito curioso.
(…)

¹ O belga Johan Thielemans é um crítico literário especializado em literatura norte-americana. Publicou vários artigos sobre a obra de Gaddis.
² Imagino que Gaddis esteja se referindo ao norte-americano James A. Michener (1907-1997), autor best-seller de longos (e anódinos) romances históricos e sagas familiares, coisas como Fogos da Primavera, Sayonara e Texas.

No Estadão: “Geração Cerrado”.

Por Amanda Calazans.

Com o peito inchado de tristeza após a partida de um filho, Zé Minino, protagonista de Farejador de Águas, observa a Lua subir e cobrir de luz tudo o que os olhos enxergam na imensidão do chão e se pergunta: “Pra que sair daqui, gente?”.
O romance da escritora goiana Maria José Silveira, publicado pela editora Instante em junho, divide o cenário do Cerrado do Centro-Oeste com os livros de André de Leones (Vento de Queimada, Record, 2023), Fabiane Guimarães (Como se Fosse um Monstro, Alfaguara, 2023) e Paulliny Tort (Erva Brava, Fósforo, 2021). São autores com tempo variado de produção anterior, mas todos com novos livros que exploram uma paisagem ainda rara na literatura brasileira.
A sincronia literária acompanha a maior representação do Centro-Oeste no cinema, como em Mato Seco em Chamas e Fogaréu, lançados no ano passado, e no mercado de artes plásticas, com a inauguração recente da Cerrado Galeria, em Goiânia. Na cultura pop, a região com a população que mais cresce no País é representada na novela da Globo Terra e Paixão e pelo fenômeno do “agronejo”, em que se destaca Ana Castela, cantora mais ouvida no Brasil hoje.

Paisagem rara

O Cerrado do Centro-Oeste, no entanto, ainda é uma paisagem rara na literatura brasileira, mesmo entre o repertório de leitores da região. Foi assim na infância de Paulliny Tort, de Brasília. Além de Cora Coralina, ela não teve contato com outras narrativas baseadas em sua terra.
“Eu não fugi à regra”, diz Maria José Silveira, que hoje vive em São Paulo. Embora tivesse autores goianos à disposição na biblioteca do pai, eles não despertavam seu interesse. “Os leitores preferem ler quem já foi aprovado pelo eixo Rio-São Paulo e os estrangeiros.”
Fabiane Guimarães, nascida em Formosa (GO), também só descobriu referências locais depois de adulta, já vivendo no Distrito Federal. “Várias vezes me falaram que eu fui a primeira autora que eles leram que escreve sobre Brasília. Aí, eu começo a puxar outros”, conta ela.
Já André de Leones leu mais autores do Centro-Oeste, como Yêda Schmaltz, Bernardo Élis e José J. Veiga, antes de se tornar escritor. Radicado em São Paulo, ele costuma doar exemplares de seus livros para a Biblioteca Pública Coronel Pirineus, de Silvânia (GO), onde cresceu.

Marcha para o Oeste

“Claro que isso tem a ver com a formação colonial do País, que começou ali pelas bordas, e o centro só foi ocupado há pouco tempo”, diz Fabiane sobre a atenção diferente dada a obras do Centro-Oeste. A construção da capital federal, bem como a passagem da Coluna Prestes por Goiás, a Marcha para o Oeste, o movimento de Santa Dica e a Revolta de Trombas e Formoso, está presente no livro de Maria José.
Embora reconheça que o vazio de referências literárias do Centro-Oeste existiu na sua formação como leitora, Paulliny afirma que não o sentiu. “Em nenhum momento eu falei ‘puxa, como eu gostaria de ler um livro que se passasse na minha cidade’. Acho que eu pensava ‘puxa, como eu gostaria de escrever um livro que se passasse aqui’.” Sua obra Erva Brava, finalista do Prêmio Jabuti 2022 na categoria de contos, reúne histórias localizadas em Buriti Pequeno, cidade fictícia do interior de Goiás.

Cerratense

Mais do que personagens típicos do Centro-Oeste, Paulliny buscou retratar nos contos que compõem Erva Brava um mundo em desaparecimento que ela teve a oportunidade de conhecer. “Brasília foi construída para aproximar esta região do litoral, e isso foi muito recente, então nós temos pessoas vivas que viveram esse isolamento.” Longe de ser regra, alguns de seus personagens nunca viram o mar, “um símbolo de outras coisas que não estão acessíveis”. No conto Má Sorte, por exemplo, que narra um acidente com um trabalhador em um silo de soja, ela escreve: “Justo você, que nunca viu o mar, vai morrer em mar seco”.
Embora Vento de Queimada tenha uma personagem adulta que vai à praia pela primeira vez em Santos, De Leones discorda que a pouca familiaridade com o mar seja uma característica comum do cerratense. “Mas, por outro lado, gosto de pensar que as amplidões do Cerrado, o clima seco, a vegetação, tudo isso influencia de alguma forma no temperamento dos meus personagens.”
No romance, um “pequi noir” segundo o autor, pai e filha trabalham como matadores em Goiás. Os muitos diálogos e monólogos interiores do livro são cheios de expressões locais como “tem base um trem desse?”, “disgrama”, “uai”, um “jeito de falar oscilando entre a caipirice e um registro mais urbano a depender da companhia e/ou do grau de irritação ou alcoólico”, como é definido o ex-policial civil assassino.

‘Criatura do deserto’

Já a gastronomia típica do Centro-Oeste está presente principalmente em Farejador de Águas, em que Maria José descreve o passo a passo de uma pamonhada e o cozimento do pequi. Em Erva Brava, além dos alimentos da terra há o domínio do refrigerante e o café muito doce. “A relação com o açúcar tem muito de uma memória afetiva minha. Mas acho que não é só aqui”, diz Paulliny.
“A gente tem paisagens que são muito interessantes para se explorar numa ficção”, afirma Fabiane. “Acho incrível estar em Brasília, num prédio que parece uma coisa alienígena, aí, você dirige 20 minutos e chega a um paraíso com cachoeiras.” Em Como se Fosse um Monstro, uma mulher que foi barriga de aluguel nos anos 1980 recebe uma jornalista com motivações pessoais para entrevistá-la. Damiana, a entrevistada no romance, sai de Formosa para Brasília, “uma cidade chique e bonita, porque é onde o presidente mora”.
A chuva em Brasília é um acontecimento, diz Fabiane em uma manhã de junho coincidentemente chuvosa. “Eu acho que todo mundo que vive aqui é no fundo uma criatura do deserto.” Uma forma comum de o cerratense fazer as pazes com a água, segundo ela, é ir tomar banho de cachoeira no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, no nordeste de Goiás.

Devastação ambiental

Assim como em Erva Brava, que fecha com uma enchente em Buriti Pequeno, a devastação ambiental também é o tema central de Farejador de Águas. No livro de Maria José, cem anos da história de Goiás e do Cerrado são contados a partir dos rumos de Zé Minino. Antropóloga, Maria José usa na literatura o método de histórias de vida, que são marcadas pelo entorno e pela cultura em que estão inseridas, segundo a autora. “É um romance que se passa no Cerrado, não se passaria em outro lugar.”
No romance, o único filho a estudar na Universidade de Brasília (UnB), que o irmão dele ajudou a construir, fala a Zé Minino a respeito de uma entrevista do pesquisador do Cerrado Altair Sales Barbosa, este um personagem da vida real, com quem o estudante aprendeu sobre a “floresta de cabeça para baixo”, a água retida que ajuda a formar as maiores bacias que abastecem o País, o risco do desmatamento de árvores como o buriti, que leva 500 anos para atingir 30 metros.
Além da preocupação com a devastação ambiental que ocorre no Cerrado, os autores ouvidos para esta reportagem atribuem a publicação de livros sobre o Centro-Oeste por editoras nacionais também a um interesse recente do mercado editorial por novas vozes. “Basta observar o saudabilíssimo aumento da diversidade de vozes. Há vozes da periferia, vozes gays, vozes pretas, vozes de toda parte, e isso é ótimo”, diz De Leones.
“Mas ainda falta”, avalia Paulliny. Para ela, os eventos literários continuam deixando a desejar na representação do Centro-Oeste. Com nove romances já publicados, Maria José sugere que as editoras busquem autores “novos não só na idade, mas de temas novos que digam alguma coisa além do que já foi demasiadamente dito”. Fabiane concorda: “Diversificar é urgente até para a nossa literatura caminhar e ganhar novos tons”.
O interesse do público pela literatura do Cerrado não tem limitações geográficas. “Eu não estou falando só de uma região, estou falando de um país”, afirma Fabiane, que percebe ter mais leitores de fora de Brasília. No caso de Erva Brava, segundo Paulliny, a identificação com o cenário onde seu livro é ambientado pode ocorrer com qualquer pessoa que tenha tido alguma experiência no campo. No entanto, a autora prefere que o interesse seja na perspectiva do autor do Centro-Oeste, e não em uma temática própria da região.
A autora reconhece que ser uma escritora mulher, jovem e do Centro-Oeste é uma chance de ser lida neste momento de valorização de vozes diversas. “Mas o que a gente quer é que todo mundo seja analisado como literatura brasileira.” Num país de tão poucos leitores, Paulliny, por sua vez, não se incomoda com rótulos que o seu livro possa receber. “Se for esse tom pitoresco, exótico, que vai atrair o leitor, que seja. O importante é que as pessoas estejam lendo.”

“Vento de queimada” – release

ROMANCE LEVA O LEITOR A UM FAROESTE À BRASILEIRA

Em Vento de queimada, André de Leones instiga o leitor a vivenciar aspectos pouco vistos e explorados do Brasil dos anos 1980. Isabel é a protagonista desse novo romance, que se desenrola em meio à violência na região centro-oeste. Com texto de orelha assinado pela escritora Luisa Geisler, a obra será adaptada para o cinema pela Conspiração Filmes.

Vencedor em 2006 do Prêmio Sesc de Literatura, que completa 20 anos em 2023, e finalista do Prêmio São Paulo, André de Leones traça em Vento de queimada um retrato de um país composto por beleza, mas também por horror. Isabel, a protagonista, é uma matadora. Junto com o pai, um ex-policial, ela executa serviços para figuras poderosas e influentes no estado de Goiás.
A história se passa em 1983, no centro-oeste brasileiro. Estamos nos estertores da ditadura, e bandidos de todos os tipos circulam pelos porões da cena política nacional. Vento de queimada é sobre o custo-Brasil: cadáveres e mais cadáveres se amontoam, e às vezes o único jeito de alcançar a saída é atirando. Uma narrativa amoral sobre criaturas imorais.

Trecho:

“Desceram ao mesmo tempo. Ela contornou o carro e se sentou ao volante, pronta, enquanto ele avançava, revólver em punho. O frentista terminara de abastecer e encaixava a mangueira na bomba, bocejando. Ainda fora do carro, o fulano tinha parado de dançar e dizia alguma besteira para a mulher, que ria bem alto. Um baque, o frentista caindo no chão. Depois, os disparos. A mulher se encolheu toda, escondendo a cabeça. Não gritou, não tentou fugir. Por um segundo, Isabel teve a impressão de que Garcia também a mataria, mas, depois de se abaixar e dar uma boa olhada na fulana, soltou uma risadinha e deu meia-volta, balançando a cabeça.”

 

VENTO DE QUEIMADA
André de Leones
518 págs. | R$ 89,90

Ed. Record | Grupo Editorial Record

Informações à imprensa:
Simone Magno
[email protected]
(21) 99998-7854

Sobre “Vento de queimada”

Vento de queimada é um romance sobre uma matadora chamada Isabel. A história se passa em 1983, em Goiânia, Brasília, interior de Goiás, São Paulo e outras vizinhanças¹. Estamos nos estertores da ditadura, e bandidos de todos os tipos, fardados ou não, orbitam em torno do corrupto, inchado e ingovernável estado brasileiro. Pessoas são assassinadas a troco de nada ou muito pouco, em intrigas e conflitos tão mesquinhos quanto não raro inexplicáveis, e muitos já anteveem o que lucrarão com a retorno previsto, mas ainda indefinido, das eleições diretas.

Isabel é historiadora por formação e matadora por deformação. As razões que levaram uma graduada pela Universidade de Brasília ao crime são delineadas a certa altura (mas só até certo ponto) do romance, e elas passam pela figura do pai, William Garcia, ex-policial e assassino profissional que ostenta uma tatuagem (invertida) de “Behemoth e Leviatã”, de William Blake, bem no meio das costas. Garcia está em conflito com o Velho, um bandido muito bem relacionado, amigo de ex-senadores e inimigo de mulheres magras. Há, também, a figura do Gringo, o misterioso Andrew J. Gordon — será que Isabel pode confiar nele?

Na maior parte do tempo, frequentamos a cabeça de Isabel e compartilhamos de suas dúvidas, temores e afetos. Uma mulher sozinha cercada por Homens de Bem™️. O que começa mal, termina mal, mas isso não é um spoiler. Vento de queimada é um romance sobre o custo-Brasil: cadáveres e mais cadáveres se amontoam, e às vezes o único jeito de alcançar a saída (qualquer saída) é atirando. Em sendo assim, é uma narrativa amoral sobre criaturas imorais. Um autêntico pequi noir.

A gênese do romance está no conto que dá título ao livro Paz na Terra entre os monstros² (leia AQUI), escrito por volta de 2004. Estão ali dois matadores, pai e filha, mas é claro que, mais de quinze anos depois, quando passei do conto ao romance, muita coisa mudou³. Quanto à estruturação, acho que escrevi uma carta de amor para Xenofonte (como se ele já não tivesse muitos problemas para resolver). Para o bem e para o mal, estamos mergulhados em um determinado oceano cultural e nele navegamos, abordando temas similares há milênios — família, poder, violência, memória, sexo, morte etc. Ter consciência disso, dessa tradição, e trabalhar com e a partir dela, é algo importantíssimo. Para um escritor, é a diferença entre saber nadar e se afogar.

Também procurei concretizar certas coisas que (vá lá) “teorizei” AQUI. Um mundo disfuncional pede histórias disfuncionais, e histórias disfuncionais são mais bem desenvolvidas assim disfuncionalmente. Eu poderia dizer que peco pelos excessos, mas não acredito em pecado e peso mais de noventa quilos.

Lancei meu primeiro livro há 17 anos. Vento de queimada é o sétimo romance que publico, e há nele algo da raiva que anima Hoje está um dia morto, bem como da explicitação de uma falsa dicotomia (entre “mundo” e “submundo”) que comecei a desenvolver em Abaixo do paraíso. Neste, Cristiano provou da violência e voltou correndo para a casa do pai. Talvez Isabel não tenha para onde correr. E, mesmo que tivesse, a verdade é que ela não correria. De jeito nenhum.

(Leia um trecho de Vento de queimada AQUI.)

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¹ Há um capítulo com vista para o Atlântico; cuidado para não se afogar.
² No mesmo livro, a novela “Aneurisma” apresenta uma personagem que escreveu um romance protagonizado por um matador; eu era ingênuo, achava que a ficção me protegeria de certas coisas.
³ Isabel, por exemplo, desaprendeu a rezar.

Putnam

Traduzi o artigo Cérebros em uma cuba (Brains in a vat), de Hilary Putnam. Clique AQUI para ler e/ou baixar.

É o primeiro capítulo de Reason, Truth and History (Cambridge University Press, 1981, pp. 1-21). O uso de Putnam de uma forma de argumento transcendental (em que, grosso modo, premissas subjetivas levam a uma conclusão objetiva) me parece mais consequente do que a formulação inicial de Peter Strawson em Indivíduos, embora também tenha recebido críticas. Vale ressaltar que algumas dessas críticas, como a de Crispin Wright em “On Putnam’s Proof That We Are Not Brains-in-a-Vat” (artigo publicado em Proceedings of the Aristotelian Society, 92), parecem algo despropositadas: Wright baseia seu ataque em apenas uma das ideações de Putnam (alguém cujo cérebro é arrancado do corpo por um cientista perverso etc.), ignorando que o filósofo, ao desenvolver o argumento, cogita outras possibilidades (apagamento da memória) e radicaliza a brincadeira (“Talvez não haja um cientista perverso, talvez (…) apenas calhou de o universo consistir em um maquinário automatizado que supervisiona uma cuba cheia de cérebros e sistemas nervosos”).