Prenunciando a jornada derradeira

v2

Norte é morte.
Pynchon

O Arco-Íris da Gravidade termina não com o lançamento do Foguete montado por Enzian e os hereros (00001), condenados, talvez, a flanar pela Zona (a Europa no pós-Guerra) com as diversas partes da Arma, sempre prestes a montá-la e dispará-la, flertando com a auto-obliteração e com uma vingança do Südwest, do continente invadido e estuprado pelos europeus, uma promessa apocalíptica (ainda) não cumprida. O romance termina com um flashback, narrado no tempo presente, do lançamento original do 00000 por Weissmann “Blicero”, encarnação não só do nazismo, mas da própria Morte (p. 335):

“E para Enzian o nome Bleicheröde evoca ‘Blicker’, o apelido que os germânicos antigos davam à Morte. Viam a Morte — ou o Morte, como eles dizem — branco: branco de descorado, branco de vazio. Depois o nome foi latinizado para ‘Dominus Blicero’. Weissmann, encantado, adotou-o como seu codinome na SS (…). Weissmann trouxe o nome novo para casa, para seu herero de estimação, não exibindo o nome propriamente, e sim indicando a Enzian mais um passo a ser tomado em direção ao Foguete, em direção a um destino do qual ele ainda não consegue ver mais que essa sinistra criptografia de nomes, uma configuração rarefeita (…)”.

Sabemos, então, que o dispositivo Schwarzgerät ou S-Gerät seria uma cápsula acoplada ao Foguete, onde o escravo sexual de Blicero, Gottfried, é colocado para o lançamento, ainda que o brilho do fogo seja “forte demais para que se possa ver Gottfried lá dentro, senão como categoria erótica, projetada em alucinação para fora daquela violência azul, para fins de autoexcitação” (p. 783).

O Foguete cairá sobre um cinema (p. 785): “A tela é uma página pálida estendida antes nossos olhos, alva e calma. O filme está partido, ou então queimou a lâmpada do projetor”. As pessoas assistem à Morte na tela, “na extensão terrível da tela, cada vez mais escura, alguma coisa persiste, um filme que aprendemos a não ver… agora é o close de um rosto, um rosto que todos conhecemos (…)”, e é bem ali, naquele “ponto, este quadro escuro e mudo, que a ponta do Foguete, caindo a um quilômetro e meio por segundo, absoluta e eternamente sem som, alcança seu último imensurável intervalo acima do telhado deste velho cinema, o último delta-t”.

Não é coincidência que, de fato, no dia 16 de dezembro de 1944, um V2 atingiu um cinema na Antuérpia. Mil e duzentos espectadores assistiam a uma exibição de Jornadas Heroicas, de Cecil B. DeMille. A explosão matou quinhentas e sessenta e sete pessoas.

(Eu me pergunto se houve tempo, “se este conforto lhe parece necessário, de tocar a pessoa a seu lado, ou de pôr a mão entre as suas próprias pernas frias…” (p. 785), antes do Fim.)

Voltando ao romance, prefiro continuar falando não sobre o seu desfecho (antes do lançamento, a fragmentação de Slothrop, seus pedaços supostamente assumindo “diversas personae individuais coerentes”, de tal forma que não seria possível “saber quais dos habitantes atuais da Zona são derivados de sua dispersão” (p. 766), fragmentação que se liga à da própria estrutura do romance, algumas das páginas finais assumindo uma sequência de delírios que podem muito bem ser daquelas “personae” slothropianas (slothroentrópicas?), enfim, tudo isso mereceria ou merecerá um outro texto), mas de uma passagem anterior e que, a exemplo daquela protagonizada por Pökler, sempre me impressionou muito.

Um livro é tão bom quanto os sonhos ou pesadelos que alimenta. Em O Arco-Íris da Gravidade, há os crimes cometidos pela atriz de “filmes de horror vagamente pornográficos” (p. 407) Margherita (Greta) Erdmann em um balneário apropriadamente chamado Bad Karma. Quem fala a esse respeito (para Slothrop, óbvio) é o tenente japonês Morituri, a bordo do Anubis. Os crimes prenunciam o Crime, o Horror que já se instalava, a Shoah. São como uma promessa direcionada ao abismo, uma oferenda perpetrada por uma sonâmbula entre outras, tantas e tantas outras.

“Onde estavam todos no verão antes da Guerra? Sonhando. Naquele verão, o verão em que o tenente Morituri veio para Bad Karma, os balneários estavam apinhados de sonâmbulos” (p. 491). Ele passa os dias “bebendo Pilsener Urquelle no café junto ao lago”, e o que vê é um “frenesi premeditado” que por certo “estaria acontecendo por toda a Alemanha”. Greta está por lá em companhia de Sigmund, tentando se recuperar de um colapso sofrido após fracassar em Hollywood. O colapso inclui “medo de adormecer”, de “não saber voltar depois” (p. 490) e um temor irracional (pois ela é ariana) de que a Gestapo “descubra” seu sangue judeu e venha buscá-la.

Em Bad Karma, quando “foi que Sigmund percebeu pela primeira vez as ausências de Margherita, ou então quando foi que elas se tornaram para ele algo mais que uma rotina?” (p. 491). Os jornais locais noticiavam algo relativo às crianças da região. Crianças judias.

Certa manhã, Morituri esbarra em Sigmund. Conversam. Preocupado, Sigmund fala sobre as “fantasias judaicas” e as ausências de Greta, os “sapatos sujos de lama negra seca”, uma “costura de seu vestido alargada” (p. 492). Leitor dos jornais, somando dois e dois, Morituri passa a segui-la. “Ela jamais olhava para trás, mas sabia que o japonês estava lá.”

Então, no “dia em que a tarde desceu sobre Bad Karma pálida e violenta: o horizonte era uma catástrofe bíblica” (p. 493), ele se depara com a boca da Noite, aberta, pronta para engoli-lo:

“Haviam chegado à margem da poça de lama negra: aquela presença subterrânea, antiga como a Terra, parcialmente cercada no balneário, devidamente rotulada… A oferenda de hoje seria um menino, que havia ficado para trás depois que todos os outros se foram. Seu cabelo era neve fria. (…)”

A certa altura, a voz se eleva e o menino, trêmulo, ouve: “Você já está no exílio há muito tempo. (…) Venha para casa, venha comigo (…), voltar para a sua gente”. É quando nos vemos diante da perversão final (ou o seu Anúncio), Greta dizendo (p. 494) andar “por toda a Diáspora, procurando crianças desgarradas. Eu sou Israel”.

Mais coisas são ditas, e outras, inúmeras, caladas. Aquela criança consegue se desprender e sair “correndo no crepúsculo”. Mas, sabemos, é uma exceção. Um intervalo na Sombra, um engasgue antes da jornada derradeira, aterradora.

Ainda que de formas diferentes, Greta e Blicero ensaiam e acenam para o Fim e, ao fazer isso, também o alimentam. São dois prenúncios, e ambos apontam para o Norte.

O “grito que atravessa o céu” (p. 09), abrindo o romance e rasgando a noite europeia, ainda ecoa, tornando o horizonte uma eterna catástrofe bíblica. Em meio a (sob?) tudo isso, só temos a precariedade terrena (o Foguete nos procura, lá no Alto), a pobreza ruinosa dos dias conflagrados, como aquele em que Slothrop acha “uma criança, viva, uma menininha, semi-sufocada sob um abrigo antiaéreo” (p. 31):

“Aguardando a padiola, Slothrop segurou-lhe a mãozinha, arroxeada de frio. Cães latiam na rua. Quando ela abriu os olhos e o viu, suas primeiras palavras foram: ‘Tem chiclete, moço?’. Presa ali dois dias, sem chiclete — e ele só tinha para lhe dar uma pastilha Thayer’s. Sentiu-se um idiota.”

Mas, apesar de tudo, e segundo lemos por ali, aquele “foi até um dia bom”. Não nos deixemos enganar por ele.

…………

Este é o último de três textos que escrevi nas últimas semanas sobre o romance de Pynchon. Os outros dois foram As velhas estrelas do país da Dor e Pökler.

…………

PYNCHON, Thomas. O Arco-Íris da Gravidade. Tradução: Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.