As velhas estrelas do país da Dor

kzTunnel2

Agora fantasmas amontoam-se sob os beirais.
Pynchon

N’O Arco-Íris da Gravidade, mais do que em qualquer outro romance de Thomas Pynchon (incluindo Mason & Dixon), eu me deparo com o Tempo compaginado à Palavra. O desenrolar do texto oferece uma panorâmica enevoada da primeira metade do século XX, sendo a Guerra (a segunda) o eixo em torno do qual tudo espirala.

Em vez de, tal e qual um Tolstói, catapultar personagens e tramas numa abertura, Pynchon opta por uma sucessão ensandecida de fechamentos. Cada bloco narrativo encerra um buraco negro. As bordas do romance e os desenhos que ele traça emprestam perspectivas fugidias, constituindo um horizonte de eventos que raramente está onde esperamos que esteja. A história espelha a História.

Tome-se, como exemplo, a insistência do narrador em algo que poderíamos chamar de presentificação: mesmo quando o tempo narrativo permanece no pretérito, acontecimentos passados são nivelados com o agora. Os fatos são erupções imprevistas. Os acontecimentos se amontoam, são entortados, confundidos, de tal modo que o leitor não sabe exatamente onde está, e com quem. Passeamos por um museu cujas luzes foram apagadas, e onde as estátuas ganham vida. O coronel Blicero escorre, assim, por décadas e décadas de desgraças, desde o sudoeste africano no começo do século XX até as entranhas do Forno, o inferno crematório engendrado pelos nazistas.

Antes (1904-7), quando dois grupos de nativos, os hereros e os namas (ou namaquas), famintos e mal armados, resolveram se rebelar contra a dominação alemã, cada qual a seu tempo, o kaiser Guilherme II não aliviou: fez descer sobre eles o general Lothar von Trotha, veterano de massacres na China, durante a revolta dos Boxers, e no próprio continente africano, em outros territórios. Os alemães não se limitaram a sufocar a revolta. Calcula-se que 70% da população herero e 50% dos namas tenham sido executados. Blicero esteve por lá duas décadas depois (p. 107, trad. Paulo Henriques Britto – Cia. das Letras, 1998):

“Mas todo deus de verdade é ao mesmo tempo organizador e destruidor. Criado num meio cristão, ele teve dificuldade de compreender isso, até que foi para o Südwest: até sua conquista africana. Entre os fogos abrasivos do Kalahari, sob o céu de faixas longas da costa, fogo e água, ele aprendeu. (…) Levando em sua bagagem um exemplar das Elegias de Duíno, recém-publicadas quando ele embarcou para o Südwest, presente que a mãe lhe dera no embarque, o cheiro de tinta fresca entontecendo-lhe as noites enquanto o velho navio de frete atravessava um trópico e depois o outro… até que as constelações, como as novas estrelas do país da Dor, se tornaram todas desconhecidas, e as estações do ano inverteram-se…”

Só para constar, o ocorrido no sudoeste africano já fora abordado por Pynchon em seu primeiro romance, V. (p. 302, trad. Marcos Santarrita – Paz e Terra, 1988):

“(…) Muitas vezes, sob o sol nublado, sonhava acordado; lembrando-se das aguadas cheias até a borda de cadáveres negros, as orelhas, narinas e bocas em tons verde, branco, preto, iridescentes de moscas e suas larvas; piras humanas cujas chamas pareciam alcançar o Cruzeiro do Sul; a fragilidade dos ossos, o arrebentar de um saco de cadáveres, o peso súbito até mesmo de uma frágil criança.”

Voltando a O Arco-Íris da Gravidade, Pynchon não intenta engarrafar o Tempo ou domesticar a História. Talvez por isso o estilo e a abordagem asselvajados. Talvez por isso a tremenda instabilidade narrativa, com suas quebras, seus volteios, seu aparente descontrole, traduzindo literariamente o sentido mesmo da Conflagração.

O grito que atravessa o livro parece amarrá-lo com arame farpado, ensurdecendo a própria constituição da narrativa e da realidade por ela recriada e subvertida. Não há simetria possível. Só há entropia. Simetrias, esses “luxos do tempo de antes da guerra” (p. 110). Ocorre que nunca houve um Tempo anterior à Guerra.

…………

PYNCHON, Thomas. O Arco-Íris da Gravidade. Tradução: Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.