Christie

Christie

Um crime é tão interessante quanto as narrativas que engendra no âmbito de uma história maior. Essas narrativas dizem respeito a várias coisas: às versões das testemunhas, às descrições dos investigadores, aos registros processuais, às omissões (propositais ou não) dos envolvidos, etc. Dentre muitos outros motivos, Agatha Christie construiu uma obra tão perene porque soube valorizar o aspecto narrativo e, portanto, intrinsecamente literário da coisa.

Trecho do meu artigo sobre Agathe Christie, publicado na edição de hoje d’O Estado de São Paulo. Leia na íntegra AQUI.

Izhaki

Resenha publicada no Estadão em 23.07.2017.

Tentativas

Antes de abordar Tentativas de Capturar o Ar, terceiro romance do carioca Flávio Izhaki, deixo claro que conheço o autor, com quem já trabalhei e de quem sou amigo. Meu nome está nos agradecimentos do novo livro, mas não precisava: ao contrário do que se afirma lá, não pude ler os originais. Ou seja, Izhaki é um ficcionista até na parte dos agradecimentos.

Estruturado como a biografia fracassada de um escritor chamado Antônio Rascal (autor do melhor romance brasileiro dos últimos 25 anos), e fracassada porque o biógrafo, Alexandre Pereira, morre num acidente antes de concluí-la, Tentativas de Capturar o Aré organizado em blocos: há o diário do biógrafo, transcrições de entrevistas que ele fez com pessoas próximas do biografado (a viúva, a agente, o editor, um amigo, etc.), duas narrativas de Rascal (sendo que uma delas pode ou não ser a confissão de um crime) e um texto autobiográfico do filho do escritor.

No início, o romance pode dar a impressão de ser (mais) uma jornada ao intestino grosso do meio literário mediante uma estruturação “esperta”. Não é o caso, felizmente. O que Izhaki proporciona é menos óbvio e mais profundo. Seu romance encerra uma procissão de fracassos, na qual ele próprio não se inclui: de pais com os filhos e vice-versa, de um biógrafo amador com seu projeto e, sobretudo, de um escritor com o mundo ao redor e com a própria vocação – por motivos inexplicados, Rascal lançou apenas três livros, e nenhum em suas últimas décadas de vida. O crime que ele confessa (ou não) poderia ser a razão do silêncio autoimposto.

Note-se que Izhaki retoma aspectos e temas explorados em seus dois romances anteriores: do primeiro, De Cabeça Baixa (ed. Guarda-Chuva), algumas brincadeiras formais (como a inclusão de resenhas literárias no corpo da narrativa) e o modo como um autor lida com a repercussão de seu trabalho e enseja uma fuga (momentânea lá, incontornável aqui); do segundo, Amanhã Não Tem Ninguém (Rocco), o desenho opaco das relações familiares, com suas vozes dissonantes e misérias cotidianas, e o peso da sombra paterna – especialmente quando tal sombra é o índice de uma ausência.

Tentativas de Capturar o Ar é, assim, outro passo na construção de uma obra singular, ciente de seus temas e das melhores formas de explorá-los. Sua força está na honestidade com que evolui e no domínio técnico do autor, posto a serviço dos personagens e, por decorrência, dos leitores – e jamais em detrimento destes ou daqueles.

Yanagihara

little

Parafraseando um trechinho de Uma Vida Pequena, de Hanya Yanagihara, às vezes acordo tão distante de mim que levo um tempo para me lembrar do que sou. Há uma escuridade na vida, ou em certas passagens dela, que encerra um passado de dor, e o esforço de distanciamento é tão inevitável ou instintivo quanto, no fim das contas, inútil. O longo romance de Yanagihara está entre as coisas mais dolorosas que já li, e a sua verdade reside não na crueza com que aborda a violência sofrida por um dos personagens, uma violência primeiro infligida (por anos a fio, na infância, na adolescência, e depois, por um breve mas chocante período, na maturidade) e depois autoinfligida (porque alguém que sofre o que ele sofreu custa a crer que mereça algo além do que ser continuamente brutalizado; é o que há, e a pessoa sempre espera que eles voltem, não importa como ou onde, e quaisquer alívios só podem ser falsos ou momentâneos), mas na teia compreensiva que lança sobre esse e outros personagens, no modo como se debruça sobre cada mínimo aspecto de suas vidas pequenas, tão pequenas quanto a minha ou a sua, e deixa reluzir, a despeito de toda a brutalidade que alguns sofremos, o poder e a beleza de coisas como a amizade, a real capacidade de sacrificar-se pelo outro, a compreensão das limitações de cada um e a necessidade, não raro insuportável, de se deixar ir embora e/ou permitir que o outro vá. Uma Vida Pequena sempre estará comigo, e não só porque é um belíssimo romance, mas sobretudo pela proeza de verbalizar coisas que eu julgava impossíveis e me lembrar, com o cuidado dos melhores amigos, do que eu sou. Isto não é nada pequeno, acreditem.

N'A Escotilha

Embora o livro parta de um imbróglio envolvendo políticos corruptos (isso é pleonasmo?) e até seja eventualmente compreendido como um produto de seu tempo, dada a atualidade do tema, creio que neste romance interessa menos o submundo do paletó e gravata do que o desmoronamento moral e psicológico do personagem. Abaixo do Paraíso fala sobre as distâncias entre uma solidão e outra (o sexo como salvação niilista), fala sobre um homem tentando escapar do presente refugiando-se num passado que, em vez de ser um porto seguro, talvez seja o seu verdadeiro algoz (…).

Trecho da resenha de Abaixo do Paraíso por Eder Alex para A Escotilha. Leia na íntegra AQUI.