Pais e filhos

shining

::: Demorei muito para ler O Iluminado, de Stephen King, porque (diferentemente do autor) gosto bastante da adaptação cinematográfica de Stanley Kubrick. Eu sempre soube (porque me disseram) que o livro tinha outra pegada, mais aterrorizante, por um lado, e melhor resolvida (em termos estruturais), por outro. Quis conviver com o filme de Kubrick (visto algumas dezenas de vezes no decorrer dos anos) por mais tempo antes de me entregar às linhas de King. Foi uma boa escolha, e não sei explicar direito por quê. Talvez isso soe estranho, mas demorei a ter maturidade para encarar o romance.

::: Não pretendo comparar filme e livro, exceto para reiterar que são peças muito distintas, cujo único ponto em comum reside justamente no que têm de mais superficial: a capacidade de assustar. Kubrick, um cético, esconde bem as muitas falhas de sua adaptação por meio de elipses que alimentam um terror puramente cinemático; King, um crente, trabalha a sua carpintaria narrativa com calma e parcimônia, construindo uma tríade de personagens (Jack, Wendy e Danny) cujas lembranças ajudam, e muito, na construção do horror. Na verdade, e pretendo desenvolver isso melhor abaixo, o grande barato do livro está no modo como algumas das sequências mais aterrorizantes não dizem respeito, apenas, ao que acontece nos corredores do famigerado Overlook Hotel, mas, também, a eventos familiares brutalmente corriqueiros, revisitados em flashbacks muito bem localizados no desenvolvimento do romance.

::: Confesso não ter lido muitos romances de King (creio que sete, contando com O Iluminado), mas a forma é muitíssimo bem trabalhada aqui. Ele recorre, por exemplo, aos discursos indireto e indireto-livre com propriedade, utilizando-os para explicitar o avanço do desequilíbrio deste ou daquele personagem (notem como a voz do barman fantasmagórico é primeiro “ouvida” em discurso indireto, quando Jack ainda não se entregou totalmente ao hotel, e só depois em discurso direto). Até coisas simples como quebras de parágrafos e interferências das vozes dos personagens, “poluindo” faulkneriamente o texto (embora não chegue à radicalidade da primeira parte de O Som e a Fúria), funcionam no estabelecimento do desequilíbrio, como se o livro se debatesse, exsudando o horror que aumenta a cada página.

::: E é uma estrutura tal que se inicia com um equilíbrio tênue, instável como o(s) humor(es) do pobre Jack, alcoólatra e quase falido, agarrando-se a um emprego de zelador enquanto sonha terminar uma peça que, no fundo, sabe não ser grande coisa. Tal equilíbrio é rompido aos poucos por uma força extrínseca e sobrenatural, impregnada nas paredes e cômodos do próprio hotel e dependente da anuência de seu veículo (Jack) para atingir seus objetivos — eternizar a violência que alicerça e mantém o lugar e absorver o poderoso Danny, um “iluminado”.

::: Ressalte-se: o Mal é extrínseco e ecoa uma infinidade de tragédias e atos perversos que ocorreram no hotel ao longo de sete décadas (muitos deles esmiuçados em detalhes por King), mas Ele não teria lugar sem a óbvia consonância interna do veículo; para se fazer real e palpável, logo ameaçador, o Mal precisa conversar com alguém, precisa dos ouvidos, dos braços, pernas e mãos do outro.

::: O horror mora nos detalhes e na maneira como estes são articulados para dar estofo à sua expressão mais óbvia (fantasmas, alucinações, violência, fogo). Se não houvesse tal articulação, ou se ela fosse malsucedida, teríamos apenas uma sucessão tediosa de sustos e brutalidades. Mas King é um exímio articulador. Por exemplo: ele nos conta sobre o que levou à demissão de Jack de seu (bom) emprego anterior; sobre quando ele agrediu o filho num acesso de fúria; volta anos e anos e traça um retrato apavorante do pai de Jack, da mesma forma como, analogamente, discorre acerca da relação tormentosa de Wendy com a mãe. Tais coisas preenchem o quebra-cabeças familiar para melhor desmontá-lo; se não tivéssemos a visão do todo, não nos importaríamos. Se não nos importássemos, tudo (história familiar, história de terror) cairia por terra.

::: Assim, o foco maior está na relação familiar, destrinchada em seus melhores e piores momentos e conforme o ponto de vista de cada personagem, paralelamente ao cerco que se forma à medida que avança o inverno e aumenta o isolamento. A violência maior nasce e se expressa por meio dela, família, e o clímax fantasmagórico é também uma caricatura grotesca dos horrores cotidianos. A fonte do horror é o núcleo disfuncional. Qualquer pessoa que tenha sofrido violência física de alguém que não deveria estar infligindo aquilo reconhecerá tal desamparo. Quando o Mal se movimenta, é a voz do pai que ouvimos. É a voz do pai abusivo de Jack que primeiro lhe ordena matar a mulher e o filho. E é a voz transtornada do pai que Danny ouve desde o começo em suas visões, quando tudo parece lhe dizer (gritar) para não ir ao hotel.

::: A realidade se estilhaça à medida que o tênue equilíbrio familiar se desfaz. O amor entre eles é verdadeiro (e é particularmente tocante a proximidade entre Jack e Danny, apesar de tudo), o que só torna os desdobramentos ainda piores e mais aterrorizantes. Nas entranhas do hotel, o Mal mastiga o pai para cuspi-lo sobre a mãe e o filho. King não alivia. As chamas virão. E a tranquilidade aparente do epílogo não esconde (ou sublima) o horror pretérito, presente ou futuro.

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