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"Abaixo do paraíso" – release

Por Álvaro Costa e Silva

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O desespero e a incerteza acompanham Cristiano, protagonista de Abaixo do paraíso, mais recente romance de André de Leones. Espécie de “hard novel” à brasileira, o livro, narrado em uma linguagem à flor da pele, acompanha as fugas e as tentativas do personagem de situar-se no mundo e, sobretudo, de encontrar-se consigo mesmo.
Cristiano é um foragido. Dá a impressão que nem ele mesmo sabe de quem ou do quê. Quando a ação se inicia, está de volta a Goiânia, mochila a tiracolo, de ressaca, depois de passar cinco meses viajando meio que sem rumo certo, “alguém criteriosamente mastigado pela entrada”. Procura o melhor amigo e, sem outra opção, volta a trabalhar no que fazia antes.
É um trabalho escuso e, quase sempre, ilícito. Cristiano é um faz-tudo do esquema político local. Durante as campanhas eleitorais, visita o interior de Goiás e fornece combustível de graça aos aliados, para que possam encher os tanques de seus carros e engrossar as carreatas. Também é responsável por levar, sem que ninguém veja, a amante do assessor de imprensa do governador ao dentista.
Mais uma entre tantas peças da engrenagem: “Fora da folha de pagamento, mas indispensável ao bom funcionamento da máquina. Levar e trazer. Comprar e vender. Trocar. Papéis. Documentos. Folhas manchadas de tinta. Fotografias, certa vez. (…) Que se enfurna num quartinho de hotel para se encontrar sabe-se lá com quem e comprar ou vender sabe-se lá o quê”.
No retorno à rotina, é encarregado de uma operação comum: um grosso envelope “amarrado feito uma pamonha”, contendo dinheiro, iria para as mãos de um funcionário da câmara de vereadores de Anápolis, que em troca entregaria um dossiê sobre um adversário político. No lugar marcado para o encontro, o que parecia simples se complica, e um crime violento acontece.
Cristiano agora tem mais uma razão para fugir. E se esconder. Apela à família, da qual andava distante: o pai, a madrasta, a tia, a meia-irmã, que moram em Silvânia, que o protagonista classifica de “purgatório” – mais uma pequena cidade do Centro-Oeste que compõe o cenário desolado do romance. No caminho da fuga, ainda dá tempo de relacionar-se com uma dona de hotel de beira de estrada.
Abaixo do paraíso lembra o título do primeiro romance de Scott Fitzgerald, Este lado do paraíso, mas sua temática está mais próxima da de outro escritor americano, William Faulkner, no que carrega de fúria, sexo brutal, ódio incontido e denúncia de uma sociedade que aniquila os indivíduos.
Autor de Terra de casas vazias e Dentes negros, ambos publicados pela Rocco, André de Leones chega ao quinto e seu mais maduro romance. O escritor mostra um forte sentido da História recente do Brasil, mas principalmente da história imaginada a partir da experiência vital do artista. Tudo parece ser regido pelo demônio do acaso que provoca encontros inesperados e apaixonados, não fossem os trechos da Bíblia que pontuam a narrativa e lhe conferem um caráter de destino inescapável.
Em sua trajetória de filho pródigo, Cristiano só encontra terra devastada. E deve se esforçar, para buscar o que está procurando – um outro que pode ser ele mesmo. Como na citação que o personagem evoca do versículo de João: “Por pouco tempo, a luz está entre vós. Caminhai enquanto tendes luz, para que as trevas não vos apreendam”.

…………

Abaixo do paraíso já está à venda no site da Rocco e chega às livrarias nos próximos dias. Leia um trecho do romance AQUI e saiba mais sobre o livro AQUI.

Pólio

Para E.M.,
que sobreviveu para me dar esta história.

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INCIPIT O som de um corpo atirado n’água, o seu próprio corpo – o primeiro som guardado na memória.

MERGULHO O pai foi apanhá-lo na cama, o hálito quente de cigarro, quente e áspero ao estreitá-lo junto ao corpo, a caminho do banheiro. Viu abaixo a bacia de alumínio com água fria até a borda e, acima, o rosto espinhento, mal barbeado, e os cabelos desgrenhados do pai, e o teto amarelo-enegrecido de ripas encaixadas, fodendo umas às outras como machos e fêmeas e machos e machos e fêmeas e fêmeas. O pai o largou dentro da bacia. Meio segundo de um mergulho que se prolonga até hoje.

PALIATIVO Antes de ter com a água, entreviu a cabeça da mãe enquadrada pela porta do banheiro, às costas do homem que se preparava para mergulhá-lo, seguindo à risca as ordens médicas de que assim, talvez, conseguissem aliviar as dores, um pouco que fosse.

PÓLIO A mãe aflita às costas do pai, pelo mergulho e pelo que o antecedera, o diagnóstico, a febre alta, o horror diante das piores perspectivas: pulmões, cérebro, morte. Restaria vivo afinal, exceto por noventa por cento da musculatura da perna esquerda, setenta por cento da musculatura da perna direita e alguns músculos do lado esquerdo do peito. Vivo, a não ser por isso; restou assim.

NÃO-LADOS A mãe aflita fitando as costas do pai para não ver o que mais houvesse, o peso em seu próprio lado esquerdo do peito. Mergulhara o filho no mundo para vê-lo agora mergulhado na febre pela doença e na água fria pelo pai, quente e áspero ao descê-lo assim. Os lados quente-adoecidos da cama trocados repentinamente pelos não-lados da água em sua fluidez de entropia e desespero.

BRANCO Os pais se casaram virgens. A família dele era de holandeses e alemães e, claro, se pudesse escolher, teria preferido uma boa moça com a mesma ascendência, em vez de uma – daquela – brasileira. Eles se casaram virgens, foram de branco pela igreja escura, caminhando pelos intestinos da discórdia familiar. Aos tropeços, mas não cabisbaixos.

NOMES Ela abdicou do sobrenome marrano a fim de abraçar o sobrenome alemão do marido. Mas o que há num nome?, talvez pensasse e dissesse a si mesma. O nome dele, o meu. Famílias, histórias. A ideia quimérica de forçar a união, anular-se (em parte) para receber o outro. Um primeiro passo no sentido de contornar o mal-estar. Inútil, logo veria.

OVOS Maria terminou o curso ginasial e foi ganhar a vida, trabalhar como auxiliar de escritório. Seu irmão mais velho era jornaleiro. O outro, engraxate. A mãe, Vicentina, enviuvara aos vinte e cinco anos. Cuidava do pai. Fazendo uso dos filhos, mendigava alguns trocados do velho. Depois de muita insistência, ele liberou o galinheiro para a neta, Maria. Ela separava cinco ovos para si, a mãe e os irmãos. Vendia o resto.

GALINHA Na vida cotidiana, transformada numa sucessão de pequenas violências, os outros (a família dele) falavam em alemão para excluir e provocar a recém-chegada. Falavam mal dela e de sua família. Trabalhando fora desde cedo, Maria nunca aprendera direito as tarefas domésticas. Por exemplo: era incapaz de depenar uma galinha. Ou, depenado por outrem, ela calhou de atirar o animal inteiro na panela, sem mais. Inaceitável. Onde é que você foi arranjar essazinha? O que você foi fazer, Junior? O que você foi inventar?

ESTADO NOVO O pai de Maria fora o primeiro dentista formado em Santo Amaro. Claro, isso não impressionava a família do marido. Ela pensava no finado pai. Ele cuidava dela e dos irmãos para que a mãe fosse ao cinema com as amigas, no domingo. Lia e estudava bastante, conversava prazerosamente, cuidava bem dos pacientes. Preso como subversivo, a maldita simpatia pelos comunistas, solto unicamente para morrer. O coração não aguentou. Metido numa cela, maltratado por gostar de ler e conversar. As leituras erradas, as conversas erradas. Na contramão. Um tal rolo compressor. O que é que sobra quando assim?

BRASIL O país assolado pela epidemia. Como se a doença a princípio externa refletisse a doença interna, intramuros, entre as paredes daquela casa. A família cindida. O desarranjo, a discórdia: a doença lá fora vê isso e resolve entrar. Uma espécie de punição. A doença é D’us ou, melhor dizendo, é uma exteriorização d’Ele. D’us a movimenta com os olhos. Adoece o que . Sequer é preciso tocar. Ele vê. Pisca vez por outra. O que não vê, escapa. Mas D’us vê tudo. Breve desconcentração, talvez, ou um qualquer desinteresse momentâneo. Adoecer tudo e todos não parece interessante. O projeto é gratuito, mas jamais indiscriminado. D’us move a praga com os olhos. Tiro ao alvo. Acerta uns. Muitos. Vê o menino. Acerta-o. Maria, ademais, é o Brasil. Representativa dele. Brasileira. País mal ajambrado, desorganizado, corrupto, sem higiene, errado. Jogam isso na cara dela. A família dele. Maria como o Brasil: um erro.

RIO A mudança para o Rio de Janeiro não ajudou muito. O sogro transportava mercadorias de São Paulo para a capital federal e vice-versa. Junior assumira a filial em Barra Mansa. No entanto, a fúria familiar os perseguia e Junior, em vez de defendê-la, preferia se calar. O homem recém-egresso do trabalho sentado a um canto, ensimesmado. Fazendo palavras cruzadas. Calado. Como se habitasse o silêncio da cisão. Perdido entre lá e cá. Incomunicável.

BENÇÃO É quando a praga se instala no menino. O resultado de ser visto assim, pelo Alto. Uma benção. Diferente dos outros. A lembrança de D’us, de sua onipotência. A existência como um lugar e um tempo assolados por D’us. O seu próprio corpo, o lugar d’Ele. O corpo assim preenchido, tomado. Os músculos retorcidos pelo Espírito. Moídos pelo Criador. A dor altissonante, ensurdecendo a criança e seus pais. Abençoados sejam. Malditos.

MULETAS O menino terá de percorrer a existência assim, com tal dificuldade. Com a ajuda de muletas. Cada passo um riso metálico engendrado na infância. Cada passo remetendo à dor altissonante-ensurdecedora e ao mergulho interminável. Cada passo é para trás.

SILÊNCIO Acusavam o pai e a mãe. Se você nos tivesse ouvido, Junior. Se você nos tivesse ouvido em vez de se casar com essa aí. Ela é o que é, menos que nada. Atrapalhando o seu caminho. Um tropeço. Ela e os dela, e a doença é responsabilidade deles. Brasileiros sujos. Maria não aceitava, não compreendia o silêncio do marido. Passivo, atônito, paralisado. Qual é o seu problema? Por não me defende? Por que não se defende? Por que não diz nada? Diz alguma coisa. Qualquer coisa. Por que não fala? Os irmãos dela distantes, em São Paulo, que podiam fazer? Consolavam à distância, na medida do possível, e Maria restava só. O silêncio do marido como uma expressão d’Ele, também. Como se Junior soubesse. Não há o que dizer. O mutismo como sintoma da presença de D’us no filho. O pai viu aquilo e se calou, horrorizado. Surdo para o ruído familiar. Surdo para as discussões incessantes, para os apelos dela. Defender-nos? Defender-nos do quê? Olha o que já fizeram com o nosso filho. Não há o que defender. Seguir em frente, se e como for possível. No prolongamento daquela benção. Junior também restava só.

CHISTE O filho, um resto de existência. A família cindida ao meio. O menino cindido ao meio. Isto como um reflexo daquilo. Um chiste divino.

DESERTO Eles fizeram as malas e voltaram para São Paulo, mas guardando distância. Maria ainda debatia e se debatia no inferno da cisão familiar. Junior, não. Talvez tivesse alcançado uma compreensão maior de tudo, para além da balbúrdia de ressentimentos. No silêncio, de dentro dele (silêncio), talvez enxergasse melhor o deserto inteiro.

PÁRIAS Em vez de discutir, Junior optou por se afastar da família. Assumir de vez a condição de pária. De certa forma, alinhava-se com o filho e a esposa. Pai, mãe e filho palmilhando no deserto da doença. As muletas afundam na areia, mas o menino prossegue. Pai e mãe desencontrados, errando. O filho, não. O filho adivinha um norte. Segue, incerto. Mas segue, um passo, depois outro, e mais outro, e.

FINIS O que há para se ver num deserto? O próprio silêncio.

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Paton

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“É precisamente aí que sua importância deve ser encontrada para os dias atuais. Ele (Kant) acredita que um empirismo não mitigado destina-se a acabar num completo ceticismo, e que a única forma de evitar isso é considerar a atividade que pertence à razão em seu próprio direito. Em um tempo como o presente, quando o suposto conhecimento é reduzido à apreensão de tautologias e à recepção de dados dos sentidos, é difícil ver como o mundo pode ser feito inteligível — mesmo tão inteligível quanto parece ao homem comum. É ainda mais difícil ver como podemos ter quaisquer princípios de conduta; e de fato o problema da ação moral tende a ser tratado como uma questão de explicar — ou não explicar — crenças morais nos termos de uma teoria do conhecimento que tem sido adotada sobre outras bases bem distintas, e puramente teóricas. O resultado é que inevitavelmente as nossas vontades, em vez de serem guiadas por princípios inteligíveis, são entregues aos meros caprichos ou à autoindulgência ou à tradição ou mesmo ao fanatismo, sendo que os últimos três não passam de formas particulares de capricho. E a doutrina inteira deve levar, como já o fez no caso de Hume, ao ceticismo no que concerne à própria existência de algo como a mente humana.”

H. J. Paton em The Categorical Imperative – A Study in Kant’s Moral Philosophy  (University of Pennsylvania Press: Philadelphia, 1971). A citação está na página 30.
A tradução é caseira em todos os sentidos, mas acho que está legível.

Correspondência

Respondi a ESTE texto do Flávio Izhaki sobre Abaixo do paraíso, meu novo romance (nas livrarias em março), na forma de uma carta.

São Paulo, 25 de fevereiro de 2016.

Prezado Flávio,

Desde que combinamos trocar correspondências publicamente como forma de divulgar Abaixo do paraíso, venho pensando sobre o que conversaríamos. “Sobre o livro, idiota!”, você poderia responder, mas o livro está aí, pronto e editado, e não há muito mais que podemos fazer por ele, certo? Exceto, talvez, passear pelo terreno acidentado no qual ele repousa, os pés mais ou menos firmes no chão.
Vivemos num país de batedores de carteiras, e talvez a minha intenção, ao começar a escrever esse romance, três anos atrás, fosse me aproximar de um desses espécimes que voejam ao redor dos políticos mais ou menos como fazem os besouros junto aos montes de estrume nos pastos infinitos do meu estado natal.
Sim, talvez fosse isso. Mas nunca tenho certeza.
A verdade é que não tenho muita coisa boa a dizer sobre o lugar de onde vim. Viajei um bocado e pretendo viajar muito mais, pois considero importante ter uma boa perspectiva da nossa desolação. As paisagens se sucedem externa e internamente, e o que fazemos com elas? Eu sinto necessidade não de ordená-las, até porque o ordenamento é não raro uma empresa tediosa em sua arbitrariedade, mas de revisitá-las, descrevê-las e, acima de tudo, povoá-las. Parafraseando James Joyce, essa raça e esse país e essa vida me fizeram, e não tenho escolha a não ser me expressar tal como sou.
Óbvio que não sou Cristiano, o protagonista de Abaixo do paraíso, mas não posso deixar de compreender algumas das atitudes que ele toma e conclusões a que chega, ainda que de forma tortuosa. No Brasil, tudo exsuda uma promiscuidade doentia. Mundo e submundo são uma coisa só, está dito no romance. É um país incapaz de vivência política porque jamais estabeleceu quaisquer parâmetros civilizacionais e/ou culturais que permitissem a elaboração de uma ética propriamente dita. Aqui, não se procura estabelecer conceitos sobre ações concretas porque o próprio esforço de conceituação gira em falso, perdido entre a demagogia e a burrice.
Quando a palavra é maltratada, o mundo que ela põe (e do qual dispomos) é espúrio.
E Cristiano é tão espúrio quanto o lugar em que se coloca. Talvez surja daí o sentimento de inadequação, típico dos bastardos e ao qual ele reage com tanta violência. Não sei se você concorda, Flávio, mas, a meu ver, diferentemente de seus pares, ele não está à procura de uma sombra, mas, sim, de um lugar ao sol que não lhe custe a própria pele. O problema é que não há atalhos para isso, não como ele esperava ao se imiscuir naquela vida – ou talvez (como muitas vezes é o caso) ele não tenha se dado ao trabalho de pensar a respeito até que fosse tarde demais.
Antes de terminar, acho bom dizer que nunca pensei em Abaixo do paraíso como um “romance filosófico” (ou seu afilhado, o “romance de ideias”), graças a D’us. E sei que você não o leu dessa maneira ao editá-lo. Está mais para o que escrevi acima: apenas procurei revisitar, descrever e povoar ficcionalmente uma parte ínfima do espaço depauperado em que somos pilhados e asfixiados todos os dias.
Sou um escritor asmático. Estou sempre à procura de oxigênio.

Um grande abraço, Flávio, e obrigado por tudo.
André.

Pais e filhos

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::: Demorei muito para ler O Iluminado, de Stephen King, porque (diferentemente do autor) gosto bastante da adaptação cinematográfica de Stanley Kubrick. Eu sempre soube (porque me disseram) que o livro tinha outra pegada, mais aterrorizante, por um lado, e melhor resolvida (em termos estruturais), por outro. Quis conviver com o filme de Kubrick (visto algumas dezenas de vezes no decorrer dos anos) por mais tempo antes de me entregar às linhas de King. Foi uma boa escolha, e não sei explicar direito por quê. Talvez isso soe estranho, mas demorei a ter maturidade para encarar o romance.

::: Não pretendo comparar filme e livro, exceto para reiterar que são peças muito distintas, cujo único ponto em comum reside justamente no que têm de mais superficial: a capacidade de assustar. Kubrick, um cético, esconde bem as muitas falhas de sua adaptação por meio de elipses que alimentam um terror puramente cinemático; King, um crente, trabalha a sua carpintaria narrativa com calma e parcimônia, construindo uma tríade de personagens (Jack, Wendy e Danny) cujas lembranças ajudam, e muito, na construção do horror. Na verdade, e pretendo desenvolver isso melhor abaixo, o grande barato do livro está no modo como algumas das sequências mais aterrorizantes não dizem respeito, apenas, ao que acontece nos corredores do famigerado Overlook Hotel, mas, também, a eventos familiares brutalmente corriqueiros, revisitados em flashbacks muito bem localizados no desenvolvimento do romance.

::: Confesso não ter lido muitos romances de King (creio que sete, contando com O Iluminado), mas a forma é muitíssimo bem trabalhada aqui. Ele recorre, por exemplo, aos discursos indireto e indireto-livre com propriedade, utilizando-os para explicitar o avanço do desequilíbrio deste ou daquele personagem (notem como a voz do barman fantasmagórico é primeiro “ouvida” em discurso indireto, quando Jack ainda não se entregou totalmente ao hotel, e só depois em discurso direto). Até coisas simples como quebras de parágrafos e interferências das vozes dos personagens, “poluindo” faulkneriamente o texto (embora não chegue à radicalidade da primeira parte de O Som e a Fúria), funcionam no estabelecimento do desequilíbrio, como se o livro se debatesse, exsudando o horror que aumenta a cada página.

::: E é uma estrutura tal que se inicia com um equilíbrio tênue, instável como o(s) humor(es) do pobre Jack, alcoólatra e quase falido, agarrando-se a um emprego de zelador enquanto sonha terminar uma peça que, no fundo, sabe não ser grande coisa. Tal equilíbrio é rompido aos poucos por uma força extrínseca e sobrenatural, impregnada nas paredes e cômodos do próprio hotel e dependente da anuência de seu veículo (Jack) para atingir seus objetivos — eternizar a violência que alicerça e mantém o lugar e absorver o poderoso Danny, um “iluminado”.

::: Ressalte-se: o Mal é extrínseco e ecoa uma infinidade de tragédias e atos perversos que ocorreram no hotel ao longo de sete décadas (muitos deles esmiuçados em detalhes por King), mas Ele não teria lugar sem a óbvia consonância interna do veículo; para se fazer real e palpável, logo ameaçador, o Mal precisa conversar com alguém, precisa dos ouvidos, dos braços, pernas e mãos do outro.

::: O horror mora nos detalhes e na maneira como estes são articulados para dar estofo à sua expressão mais óbvia (fantasmas, alucinações, violência, fogo). Se não houvesse tal articulação, ou se ela fosse malsucedida, teríamos apenas uma sucessão tediosa de sustos e brutalidades. Mas King é um exímio articulador. Por exemplo: ele nos conta sobre o que levou à demissão de Jack de seu (bom) emprego anterior; sobre quando ele agrediu o filho num acesso de fúria; volta anos e anos e traça um retrato apavorante do pai de Jack, da mesma forma como, analogamente, discorre acerca da relação tormentosa de Wendy com a mãe. Tais coisas preenchem o quebra-cabeças familiar para melhor desmontá-lo; se não tivéssemos a visão do todo, não nos importaríamos. Se não nos importássemos, tudo (história familiar, história de terror) cairia por terra.

::: Assim, o foco maior está na relação familiar, destrinchada em seus melhores e piores momentos e conforme o ponto de vista de cada personagem, paralelamente ao cerco que se forma à medida que avança o inverno e aumenta o isolamento. A violência maior nasce e se expressa por meio dela, família, e o clímax fantasmagórico é também uma caricatura grotesca dos horrores cotidianos. A fonte do horror é o núcleo disfuncional. Qualquer pessoa que tenha sofrido violência física de alguém que não deveria estar infligindo aquilo reconhecerá tal desamparo. Quando o Mal se movimenta, é a voz do pai que ouvimos. É a voz do pai abusivo de Jack que primeiro lhe ordena matar a mulher e o filho. E é a voz transtornada do pai que Danny ouve desde o começo em suas visões, quando tudo parece lhe dizer (gritar) para não ir ao hotel.

::: A realidade se estilhaça à medida que o tênue equilíbrio familiar se desfaz. O amor entre eles é verdadeiro (e é particularmente tocante a proximidade entre Jack e Danny, apesar de tudo), o que só torna os desdobramentos ainda piores e mais aterrorizantes. Nas entranhas do hotel, o Mal mastiga o pai para cuspi-lo sobre a mãe e o filho. King não alivia. As chamas virão. E a tranquilidade aparente do epílogo não esconde (ou sublima) o horror pretérito, presente ou futuro.

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Vocês precisam conhecer o Cristiano.

O escritor Flávio Izhaki dedicou alguns parágrafos ao meu novo romance, Abaixo do paraíso. Autor dos ótimos De cabeça baixa e Amanhã não tem ninguém, Flávio editou dois livros meus: Paz na Terra entre os monstros e esse meu novo romance. Graças a ele, o primeiro resultou num volume menos descompensado, com nove contos e uma novela (em vez de dezessete narrativas e sabe D’us mais o quê), e o segundo foi repensado e adquiriu (espero) mais consistência. Leia abaixo o texto do Flávio.

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VOCÊS PRECISAM CONHECER O CRISTIANO
por Flávio Izhaki

Parte da crítica literária brasileira sussurra, de quando em quando, que a literatura nacional contemporânea circula demais pelo próprio umbigo, seja na autoficção ou em livros sobre escritores, em geral com romances urbanos no eixo Rio-SP-Porto Alegre. Cobram, de certa maneira, que os escritores sejam também seres políticos quando fazem literatura. Justa ou não a reclamação (e não vou entrar no mérito aqui), essa parte da crítica vai adorar conhecer Abaixo do paraíso, sexto livro de André de Leones.
O romance é centrado num tarefeiro, um faz-tudo do governador de Goiás que se movimenta pelo sub mundo de quartos de hotéis baratos, pequenas negociatas, transações e favores. Um subalterno, um encarregado que se descama aos olhos do leitor, que vai deixando sua pele pelas páginas, desencontrando-se aos esbarrões, errando de cidade em cidade, de mulher em mulher, de abandono em abandono, mas sabendo onde deve chegar.
O livro começa em Goiânia, entra por Anápolis, Brasília até alcançar Silvânia. Um Brasil que o Brasil da literatura pouco conhece. Mas escrever isso é diminuir o autor e o livro. Abaixo do paraíso é um grande romance não pela temática, mas pelo arcabouço psicológico que o autor consegue transmutar para o tarefeiro Cristiano. Vocês precisam conhecer o Cristiano…
Em seu sexto livro, o autor remonta a tríade que melhor descreve suas fixações: casa, sexo e morte. De certa maneira, a temática esteve presente em todos os seus livros, mas em Abaixo do paraíso, respira-se isso como foi o caso em seus dois primeiros livros, Hoje está um dia morto, que lançou De Leones como vencedor do Prêmio Sesc de Literatura na categoria romance, e Paz na Terra entre os monstros, única coletânea de contos do autor.
Como desaparecer completamente, Dentes negros e Terra de casas vazias mostram um caminho de depuração do escritor, testando temas, personagens, estruturas narrativas fragmentadas, espaços e vozes. Neste Abaixo do paraíso lemos um autor ainda mais consciente do peso que cada palavra adquire no papel, que organiza sua narrativa de maneira retilínea, mas não plana. De Leones é capaz de desconstruir uma ação pela sua narrativa, alternado focos, perspectivas e até a velocidade do que é narrado. Um autor que chega pronto ao sexto livro. Um autor que precisa ser lido.

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Abaixo do paraíso chega às livrarias em março, pela Rocco. Leia um trecho dele AQUI e um post meu a respeito AQUI.

Sintomas da doença da cultura

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Leio numa matéria d’O Globo: “Não é possível entender a mente de Hitler sem ler seus textos. Não é possível combater completamente e honestamente suas ideias sem combatê-las na fonte”. A fala é do publisher da Geração Editorial, Luiz Fernando Emediato, que está prestes a colocar no mercado uma nova edição de Minha Luta, de Adolf Hitler. Noutra matéria, publicada no Estadão, o mesmo Emediato afirma que se trata de uma “edição ‘antídoto’ de um clássico como outro qualquer”. Aqui já temos um problema.

Indo direto ao ponto: Minha Luta não é “um clássico como outro qualquer”. Não é sequer um clássico, e talvez Emediato devesse ler Calvino ou, caso esteja muito ocupado divulgando o livro de Hitler, recorrer a um bom dicionário antes de usar a palavra.

No Estadão, Emediato também responde ao escritor Ricardo Lísias, que se posicionou contra o lançamento de edições comerciais do livro, dizendo que ele teria começado “a fazer uma ridícula campanha contra a divulgação deste domingo no lançamento da Geração, e infelizmente agindo como o próprio Hitler (sic) – mentindo e distorcendo informações sobre a primorosa edição da Geração Editorial”. A ocorrência da Lei de Godwin não me parece inteligente, sobretudo neste caso. O texto de Lísias é claro, ponderado e bem fundamentado — assim como o de Miguel Sanches Neto, favorável à publicação, mas com ressalvas). Ademais, se Lísias agisse mesmo “como o próprio Hitler”, Emediato estaria em apuros. Quase todos nós estaríamos.

Voltando às primeiras aspas do publisher, de que não seria “possível entender a mente de Hitler sem ler seus textos”, bem, aqui temos outro problema. Tome-se a descrição que o historiador Ian Kershaw faz de Minha Luta em sua primorosa biografia Hitler (pág. 181):

“Num resumo conciso, o livro se reduzia a uma visão simplista e maniqueísta da história como uma luta racial na qual a entidade mais elevada, a ariana, estava sendo solapada e destruída pela mais baixa, a parasítica judia. Em suas palavras: ‘A questão racial dá a chave não somente para a história mundial, mas também para toda a cultura humana’. A culminação desse processo havia se dado com o domínio brutal exercido pelos judeus através do bolchevismo na Rússia (…). A ‘missão’ do movimento nazista era, portanto, clara: destruir o bolchevismo judeu. Ao mesmo tempo — num salto de lógica que avançava convenientemente para uma justificativa da conquista imperialista direta — isso propiciaria ao povo alemão o ‘espaço vital’ necessário para que a ‘raça superior’ se sustentasse.”

Não há mais do que isso em Minha Luta. O resumo de Kershaw é preciso e completo. E, dada a enorme quantidade de excelentes estudos sobre Hitler e o nacional-socialismo disponíveis, é realmente imprescindível para alguém que não seja um especialista ter contato com as “ideias” de Hitler “na fonte” para melhor “combatê-las”? E, sendo um livro tão estúpido quanto perigoso, mesmo uma edição crítica, comentada etc. não correria o risco de insuflar nos imbecis justamente o mal que pretende “combater”? E, vou me repetir agora, sendo um livro tão estúpido quanto perigoso, não é problemático que uma editora queira capitalizar com essa monstruosidade, mesmo que a partir de uma edição crítica, comentada etc.? E ficou evidente que a Geração Editorial quer, sim, capitalizar, e muito, conforme demonstrou sua primeira — e cretiníssima — ação publicitária, descrita na matéria do Estadão.

É claro que a opção da Centauro, de lançar uma edição “nua”, sem comentários, prefácios, contextualizações, nada, é ainda pior, de uma venalidade (em todas as acepções do termo) grotesca. Mas o posicionamento da Geração, explicitado pelas intervenções infelizes de seu publisher, transpiram a mesma venalidade, a mesma estupidez: “Ansioso para adquirir Minha Luta, de Adolf Hitler?”, perguntavam num e-mail promocional, enviado há alguns dias. A forma como você responde a essa pergunta diz muito a seu respeito, acredito. E afirma o editor Willian Novaes que “centenas de pessoas telefonam diariamente para a editora perguntando ansiosamente se e quando o livro vai sair”. Que espécie de argumento é esse? Voltarei a ele, mas aposto que, se colocarem nas prateleiras um Minha Luta para Colorir, milhares ligarão.

No estupendo Hitler e os alemães, o filósofo alemão Eric Voegelin recorre a Robert Musil para nos lembrar (pág. 133) de que toda estupidez “é sempre relacionada com a normalidade de um comportamento social determinado”, um comportamento “que não desempenha algo para o qual todas as condições, exceto as individuais, estão presentes”. Musil, segundo Voegelin, distingue diversos tipos de estupidez, e chega a um tipo “elevado, inteligente”, que se atreveria “a realizações a que não tem direito” (pág. 137). E ele prossegue com Musil: “Então, aqui vem o elemento de atrevimento, de hybris, de arrogância espiritual. A estupidez elevada ou inteligente é um distúrbio no equilíbrio do espírito”, uma espécie de “revolta contra o espírito, que dá ensejo a dizer ou fazer coisas contra o espírito”.

“Essa estupidez elevada é a verdadeira doença da cultura (mas para evitar mal-entendido: é um sinal de não-cultura, de incultura, de cultura que vai para o lado errado, de desproporção entre o material e a energia de cultura) [Então, todas essas negações da educação genuína.] e descrevê-la é uma tarefa quase infinita. Alcança a mais alta esfera intelectual.”

Que o editor da Geração se esconda atrás do fato de que “centenas de pessoas telefonam diariamente para a editora perguntando ansiosamente se e quando o livro vai sair” é algo deveras preocupante. E que o publisher da casa compare uma pessoa que se posiciona honesta, clara e contrariamente ao lançamento comercial com Hitler, mais do que preocupante, é um sintoma da doença descrita por Musil e citada por Voegelin. No meu entender, é um álibi muito frágil que a edição seja crítica, comentada etc., porque não disfarça os interesses reais e a pobreza moral dos que se escondem atrás dele, ambos, pobreza e interesses, cintilando nas fraturas expostas do discurso (“um clássico como outro qualquer”, “ansioso para adquirir?”, “agindo como o próprio Hitler”).

“Consideramos esse debate encerrado”, disse Novaes ao Estadão, “e estamos apenas dando informações para a sociedade.” A pressa em encerrar o debate é típica dos que não têm capacidade para se posicionar racional e moralmente nele. E a desculpa de que estão “apenas dando informações para a sociedade” só reforça a irreflexão e o descuido daqueles que, dizendo fazer o bem, estão na verdade vendendo o mal.

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Espero que as livrarias se recusem a comercializar Minha Luta. Assinei um manifesto pedindo isso hoje cedo. Que muitos mais também assinem.

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Sobre "Abaixo do paraíso"

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Abaixo do paraíso, meu quinto romance, já está em fase final de produção (miolo aprovado; no momento, definimos a capa). A previsão é que seja lançado em março, pela Rocco. (Leia um trecho AQUI e outro AQUI.)

Eu o escrevi entre janeiro de 2013 e janeiro de 2015. Ou seja, faz um ano que o dei como terminado e enviei para a editora. Lá, no decorrer do primeiro semestre do ano passado, foi lindamente editado por ninguém menos que Flávio Izhaki, responsável por uma sucessão de leituras críticas e sugestões que, é claro, acatei e (creio) só tornaram o livro melhor.

Foi um romance bem mais tranquilo de escrever que o anterior, Terra de casas vazias, que consumiu três anos e dois meses da minha vida e, por vezes, parecia um quebra-cabeças que eu jamais conseguiria montar. Alternava momentos de intensa produção (e animação) com outros nos quais eu queria fazer qualquer coisa, menos escrever. Aquela foi uma sensação inédita para mim, e eu cheguei a pensar em me dedicar a outra atividade. Cogitei desde a pesca submarina até a pistolagem, passando pelo retorno ao magistério e pela metalurgia. Em julho de 2012, contudo, ao final de um surto produtivo permeado por crises asmáticas, pornografia virtual e ao som da Quarta de Bruckner (a Romântica), consegui dar um ponto final em Terra de casas vazias, bebi uma garrafa de vinho, peguei no sono e só fui acordar em janeiro de 2013, largado no sofá e com um belo torcicolo. Levantei-me, tomei um banho, comi alguma coisa, peguei um caderno novo e comecei a escrever Abaixo do paraíso. (Ok, talvez eu tenha deixado passar alguns detalhes nessa reconstituição, mas os fatos não estão muito longe disso.)

Em muitos sentidos, Abaixo do paraíso é uma espécie de desdobramento do romance anterior. Não estruturalmente (Terra não tem um protagonista, mas vários, e alude ao desenho urbano da Velha Jerusalém em sua fragmentação meio autista, ao passo que Abaixo tem um protagonista e um desenrolar vetorialmente único, por assim dizer), mas em seu tom (compassivo, compassado) e nos termos de uma discussão de cunho moral acerca do nosso lugar em relação ao outro, inclusive (e socraticamente) entendendo a si próprio como um outro com quem primeiro dialogamos.

O protagonista, Cristiano, é um tarefeiro, um aspone, alguém responsável pelo tipo de serviço escuso que alimenta a nossa paupérrima República e confunde mundo e submundo, revelando-os como ambientes de um mesmíssimo — e apodrecido, repleto de infiltrações — edifício político. Cristiano é o sujeito que, nas eleições, vai ao interior oferecer combustível de graça para que os locais encham o tanque e engordem as carreatas de campanha; é o nobre funcionário que leva a amante do secretário da educação ao dentista; é o homem de confiança que se enfia num quarto de hotel vagabundo para se encontrar com outro homem de confiança, e envelopes trocam de mãos, algo vendido ou comprado; é um dente nessa engrenagem, uma peça no maquinário republicano. Então, algo acontece, e ele precisa fugir, esconder-se. O reencontro com a família (pai, madrasta, meia-irmã, tia) aponta para um ressituar-se, mas nada é assim tão simples. Cristiano deve voltar a si antes de se voltar para o outro, sob pena de confundir tudo. Ele se esforça. E é tal esforço que acompanhamos na segunda metade de Abaixo do paraíso.

Não seria inteligente falar mais (e talvez não tenha sido inteligente falar tanto) sobre o romance. Importa que, em breve, ele estará à disposição dos leitores. Haverá outros posts de divulgação, neste espaço e também no blog da editora.

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