Exílio irredimível

Resenha publicada no Estadão em 25.08.2015.

bazar

A temática do desterro se faz presente em boa parte da melhor literatura produzida (vide autores tão díspares quanto Sebald e Appelfeld), e é possível ler o novo romance de Luis S. Krausz como um autêntico representante dessa vertente. De fato, o ótimo Bazar Paraná talvez possa ser descrito como um mapeamento afetivo-familiar do desterro. Muito embora, uma nota preliminar, o horrendo termo “autoficção” seja utilizado para se referir ao livro, o melhor é que o encaremos como uma “obra da imaginação” ou uma “heteroficção”, pois, ficcionalizando os outros e suas deambulações, o autor nos possibilita vivenciar a experiência do exílio que os constitui.

O mote do romance é uma viagem. Acompanhado pela avó e pela irmã, o narrador vai ao interior do Paraná, em meados dos anos setenta, visitar uma colônia agrícola mantida há décadas por refugiados alemães. Vários deles são sobreviventes da perseguição nazista, bem-sucedidos no modo como refizeram suas vidas nas entranhas inóspitas do Brasil, e alguns procuram manter “um pedaço vivo do passado”, cultivando a língua e a cultura da nação que, pouco antes, assassinara vários de seus parentes e amigos, e quase eles próprios.

Um exemplo dessa disposição pode ser verificado num dos personagens descritos por Krausz com sua clareza de estilo e elegância peculiares: “No recolhimento de seu exílio paranaense, o Dr. Max Hermann Maier tornava-se o guardião de relíquias que, como se congeladas no tempo, tinham ali nos trópicos uma sobrevida espantosa, enquanto os modelos originais, dos quais eram derivadas, tinham, muito antes, sido arrasados em solo europeu”.

A viagem e a narrativa se prolongam por três dias, mas são décadas e décadas cobertas por rememorações feitas às mesas e em salas de estar. O narrador passeia pelas casas e pelas vidas daqueles que o recebem, dando ao romance uma estrutura episódica, em que cada visita oferece uma nova perspectiva dessa grande “metáfora do destino de um grupo fadado ao desaparecimento”. A inadequação talvez seja o elemento mais forte, pois são pessoas “que se sentiam europeus em Israel, judeus na Europa, brasileiros nos EUA e passavam a vida em meio a dúvidas sobre qual seria, afinal, o lugar que lhes cabia no mundo”.

Dentre os relatos mais pungentes, estão o do casal Hinrichsen (em cuja fazenda o narrador e seus familiares se hospedam), com suas coleções de cartões-postais e de selos sublinhando a distância e a sensação de exílio; do Dr. Maier, condecorado na 1.ª Guerra e que jamais vira sua sensação de “germanidade” desaparecer, ainda que seus familiares que permaneceram na Alemanha tenham sido “deportados, em vagões de gado, para um destino desconhecido no Leste”; e de Lisbeth Neu, que optou por viver num kibutz, “pois via como única resposta digna, depois de acontecido o que aconteceu”, estabelecer-se em Israel.

Krausz dá forma a essas e outras histórias com extremo cuidado; o romance tem um andamento melancólico e parcimonioso. Os relatos se imbricam e se iluminam, alargando o horizonte narrativo, sem, contudo, recorrer às facilidades do sentimentalismo e da nostalgia fácil. Ao fim, Bazar Paraná oferece a seus personagens a possibilidade de um lar – o próprio romance, lugar em que suas vozes são reconstituídas e entregues à nossa fruição.