“Dias Vazios” – quo vadis?

“Dias Vazios” – quo vadis?

Dias Vazios

Dias Vazios, de Robney Bruno Almeida, é uma adaptação do meu romance Hoje está um dia morto. O longa teve sua primeira exibição pública no dia 25 de janeiro de 2018, na 21ª Mostra de Cinema de Tiradentes. No Cine PE, em junho, Dias Vazios foi agraciado com os prêmios de Melhor Direção de Arte (Letycia Rossi), Melhor Ator (Arthur Ávila) e Melhor Atriz Coadjuvante (Carla Ribas).

Confira o trailer clicando AQUI e, abaixo, links para algumas resenhas do filme.

::: Luiz Carlos Merten (Estadão)
::: Francisco Russo
(AdoroCinema)
::: Pedro Tavares
(Multiplot!)
::: Matheus Bongiovani
(Culturadoria)
::: Luiz Joaquim
(Cinemaescrito)
::: Francisco Carbone
(Vertentes do Cinema)
::: Cecília Barroso
(Cenas de Cinema)
::: Rafael Oliveira (Plano Crítico)
::: Raul Arthuso (Cinética)
::: Fabrício Cordeiro (Revista Janela)
::: Odorico Leal (Cinerocinante)
::: Leonardo Ribeiro (Papo de Cinema)
::: Amanda Aouad (Cine Pipoca Cult)
::: Luiz Zanin Oricchio (Estadão)

Aliança possível

Resenha publicada ontem no Estadão.

Judith Butler celebrizou-se no Brasil pelo que ocorreu em 2017, e não me refiro ao lançamento de Caminhos Divergentes – Judaicidade e Crítica do Sionismo. Em novembro, quando veio a São Paulo para o colóquio “Os Fins da Democracia”, uma horda assomou à porta do SESC Pompeia e ateou fogo a uma boneca da filósofa, que ainda foi achacada no aeroporto antes de embarcar para os EUA. A grita se deu não pelo evento – embora seguramente sirva para ilustrar as discussões sustentadas ali, sobretudo se lermos “fins” como “términos” –, mas porque Butler, doutora por Yale e professora de literatura comparada em Berkeley, é autora do famigerado Problemas de Gênero. Mas, no exterior, a controvérsia diz respeito menos aos estudos de gênero e mais ao que ela tem a falar sobre a possibilidade de uma crítica ao Estado de Israel que, mesmo antissionista, não possa ser tida como antissemita. Dentre outras coisas, é disso que trata Caminhos Divergentes.

Com esse livro, a autora conseguiu a proeza de irritar direita e esquerda. Uns acusaram-na de antissemitismo e de cumplicidade ideológica com organizações terroristas como o Hamas; outros, de que o trabalho é academicista, descolado da realidade e do sofrimento palestino. Antes de abordar a obra, é bom ressaltar que tais ataques não se sustentam: por um lado, ela não usa termos como “Palestina ocupada” e jamais equivale Israel à Alemanha nazista; por outro, e aqui entramos no escopo de sua reflexão, ela se propõe a refletir “sobre a necessidade de demorar-se no impossível”, ou seja, afirmar “que uma crítica judaica da violência de Estado israelense é (…) possível” e “eticamente obrigatória”.

Indo além, Butler se esforça para demonstrar que a coabitação é algo intrínseco à própria judaicidade (e o uso do termo em detrimento de “judaísmo” não é um acaso), entendida como “um projeto anti-identitário”, pois “ser judeu supõe assumir uma relação ética com o não judeu”. Isto decorreria da “condição diaspórica” da própria judaicidade: “a vida em condições de igualdade em um mundo socialmente plural é um ideal ético e político”.

Recorrendo aos palestinos Edward Said e Mahmoud Darwish e a leituras nem sempre ortodoxas de Lévinas, Walter Benjamin e Hannah Arendt, ela foge à apropriação ideológica dos termos da discussão pelo Estado de Israel. Noutras palavras, Butler critica o controle da judaicidade pelo sionismo e advoga a necessidade de se extrapolar o quadro referencial majoritariamente judaico para lidar com a questão. Sendo o judaico definido e delimitado pelo não-judaico (vide as ideias de Said relativas a uma “origem mais diaspórica” do judaísmo e de Arendt quanto à manutenção de tal identidade), torna-se essencial incluir a alteridade no cerne da reflexão. O deslocamento estaria no DNA de palestinos e judeus, constituindo a “base de uma aliança possível” que levasse à coabitação e a um “binacionalismo uniestatal”.

Caminhos Divergentes traça uma cartografia instigante, repleta de desvios pelos quais podemos enveredar. Concordando ou não com Butler, usando ou não suas chaves interpretativas, aceitar que determinados posicionamentos (sobretudo aqueles típicos do sionismo mais extremo) devem ser questionados é imprescindível para uma fundamentação mais consequente da discussão. Sem isso, a coabitação é impossibilitada e Israel seguirá envolvido numa guerra permanente contra os vizinhos e si mesmo.

“In God’s name, when was that?”

Gass

“The path took Henry Pimber past the slag across the meadow creek where his only hornbeam hardened slowly in the southern shadow of the ridge and the trees of the separating wood began in rows as the lean road in his dream began, narrowing to nothing in the blank horizon, for train rails narrow behind anybody’s journey; and he named them as he passed them: elm, oak, hazel, larch and chestnut tree, as though he might have been the fallen Adam passing them and calling out their soft familiar names, as though familiar names might make some friends for him by being spoken to the unfamiliar and unfriendly world which he was told had been his paradise. In God’s name, when was that? When had that been? For he had hated every day he’d lived. Ash, birch, maple. Every day he thought would last forever, and the night forever, and the dawn drag eternally another long and empty day to light forever; yet they sped away, the day, the night clicked past as he walked by the creek by the hornbeam tree, the elders, sorrels, cedars and the fir; for as he named them, sounding their soft names in his lonely skull, the fire of fall was on them, and he named the days he’d lost. It was still sorrowful to die. Eternity, for them, had ended. And he would fall, when it came his time, like an unseen leaf, the bud that was the glory of his birth forgot before remembered. He named the aspen, beech, and willow, and he said aloud the locust when he saw it leafless like a battlefield. In God’s name, when was that? When had that been?”

Trecho de Omensetter’s Luck,
de
William H. Gass.

Ainda Stevens

Texto publicado hoje n’O Popular.

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Em novembro do ano recém-enterrado, discorri aqui sobre o clássico Os Brutos Também Amam (Shane). Bom, para começar 2018 falando sobre algo de que gosto (dizem que é mais saudável do que falar sobre o que odeio, desprezo ou me irrita, embora isso às vezes seja necessário), quero abordar outro filmaço dirigido pelo mesmo George Stevens: Um Lugar ao Sol, lançado em 1951.

Se, conforme escrevi lá no outro texto, Shane trata da fixação de um país e do ocaso de um determinado modus vivendi (ou operandi?), os EUA que vemos em Um Lugar ao Sol já estão, por assim dizer, demarcados interna e externamente, tendo inclusive já tomado parte das duas Guerras Mundiais. Contudo, no lugar do personagem que dá título àquele faroeste, temos outro “estrangeiro” selvagem, George, um arrivista interpretado por Montgomery Clift.

No começo do longa, George procura um parente rico, quer que o sujeito lhe arranje um emprego em sua fábrica. É um rapaz quieto, tímido, mas que traz consigo um determinado tipo de selvageria, mais sutil do que aquela exibida pelos animais em extinção vistos em Shane, os pistoleiros vividos por Alan Ladd e Jack Palance; ele quer aquilo que o título anuncia, um lugar ao sol, e a desgraça é que conseguirá (e não) muito, mas muito mais do que almeja.

Aos poucos, nosso George sobe na vida e, ao mesmo tempo, desce inexoravelmente: o noivado com a menina rica, Angela (Liz Taylor), é ameaçado pela gravidez indesejada de uma colega de trabalho, Alice (Shelley Winters), alguém que, solitário e entediado, conheceu e com quem se relacionou nos primeiros dias na nova cidade, antes de se engraçar com a herdeira.

Óbvio que ele tenta (inutilmente) fazer com que Alice aborte. A cena no consultório médico é uma obra-prima de construção cênica, a câmera a uma certa distância da atriz, sublinhando seu desespero crescente. O efeito é estarrecedor. Similarmente, quando George dança pela primeira vez com Angela, a câmera os enquadra da outra sala, bem longe deles, a meu ver sugerindo o vácuo moral que cerca e acabará por solapar o rapaz.

Creio que em nenhum outro trabalho Stevens se valeu tanto e tão bem da câmera como instrumento narrativo. É um mestre da composição, e sua imaginação, aqui, revela-se à altura do melhor Hitchcock. Dou outros exemplos: a escuridão dentro do carro, quando Alice sai do consultório médico e diz a George (cujo rosto só vemos quando ele acende um cigarro) que a única coisa que lhes resta fazer é casar; as costas de Angela, George deitado em seu colo, enquanto ela fala de um casal que se afogou no lago que está à frente; a conversa franca entre George e o sogro sobre o passado, focalizada quase que do ponto de vista de Angela.

Um Lugar ao Sol é inteirinho dotado de uma angústia surda. Mais do que um assassinato (mas sem jamais irrelevar o caráter hediondo do crime), há uma condenação. A exemplo de muitos de nós, seu protagonista é culpado de querer, a tal ponto que tudo se encaminha para o irredimível de uma tragédia sem catarse. Ao final, a sensação é de que todos nos afogamos quase sem que nos déssemos conta.

Humboldt

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Voltei a O Legado de Humboldt uns vinte anos após a primeira leitura. É um dos livros que fizeram a minha cabeça naquela idade ébria para os que têm senso de humor e insuportável para os que têm um pingo de bom senso (eu gostava de pensar que tinha um pouco de cada) (estava errado, é claro). Falando em humor, o de Bellow é não raro excruciantemente doloroso (embora, em Humboldt, não chegue às raias do desespero como em Herzog), mas sempre recompensador. No âmbito superficial da bipolaridade de tons em sua produção (Augie March/Seize the DayHenderson/Herzog, Sammler/Humboldt), e creio que Philip Roth disse algo nesse sentido em um artigo célebreHumboldt é (quase) uma espécie de meio-termo, aliando o ritmo desbragado de seus romances mais soltos com a carga reflexiva das narrativas menos aceleradas. Quero dizer, há passagens nas quais se faz presente certa porralouquice (por exemplo: a carta de George para Citrine, o narrador, contando suas desventuras na África) e outras em que somos engolidos por digressões que por sua vez engolem outras digressões. Dizendo de outra forma, o que acontece é que sempre há alguém (a amante, a ex-mulher, os advogados, o gangster Cantabile, a mãe da amante, o contador, o sócio picareta, mais advogados, o irmão, a viúva de Humboldt, o próprio Humboldt, a ex-namorada dos tempos de juventude etc.) pronto para arrancar Citrine de sua introspecção, mas ainda assim ele arranja um jeito de mergulhar em si. Penso nele (por exemplo) esperando para falar com o juiz que vai lhe arrancar o couro, ou flanando por Madri, falido, com o filhinho da amante a tiracolo enquanto ignora as investidas da dinamarquesa manca, ou ainda quando é coagido a, como uma espécie de penitência carcamana, testemunhar Cantabile dando uma bela cagada. Mesmo em situações extremas, ou sobretudo nelas, para Citrine há sempre algo a se pensar, desenvolver, filosofar, rememorar, mitificar ou desmitificar. Assim, lá estão as digressões inesperadas (pelos momentos em que irrompem e pelo que as constitui) (Steiner, meus amigos, Steiner!). E o que mais? Bom, a velha mania de Bellow ressituar personagens e situações como bem entende — às vezes, tem-se a impressão de que não são eles que se movem, mas o chão sob seus pés; ou, por outra, acompanhá-los é como caminhar atrás de pessoas que andam ou muito devagar, ou rápido demais, por uma calçada repleta de gente vindo na direção contrária. Tudo isso exige atenção, mas a graça está sobretudo aí, nessas idiossincrasias narrativas e no “estado chicagoano” em que elas nos colocam. E também é Bellow puro a maneira como o livro cresce para todos os lados, e no final é uma cidade completinha, com seus poetas exilados ou em trânsito ou mortos & enterrados (de novo e de novo), gangsteres, papa-defuntos, advogados, pistoleiras, editores, parentes e fantasmas, fantasmas por toda parte, e Citrine tentando falar com eles, a linha sempre ocupada. Aliás, parte da tragicomédia americana, intrínseca ao romance, ao seu narrador e à relação deste com os demais personagens, sobretudo Humboldt, reside no fato de que a conversa com os fantasmas só se dá numa direção. (Nota: na Europa, ocorre o contrário, e são os vivos que já não ouvem mais nada.)

Aharon

Appelfeld

Aharon Appelfeld faleceu ontem em Jerusalém. Tinha oitenta e cinco anos de idade.

Eu o li pela primeira vez em 2009, em Israel. Antes, graças ao Operação Shylock de Philip Roth, lera sobre sua vida e o que passara. Nascido e criado na Bucovina, entre os judeus assimilados de cultura alemã, expostos à brisa da Haskalá. A Segunda Guerra irrompendo quando ele ainda era uma criança. A mãe assassinada. Ele e o pai prisioneiros de um campo de trabalhos forçados na Ucrânia. A fuga. Errando sozinho pelas florestas por anos, lidando com partisans, ladrões de cavalos, prostitutas. Finda a guerra, a ida para Israel. A dificuldade em aprender o hebraico, em se adaptar ao país em gestação. O início da carreira literária, a marginalização que sofreu por escrever sobre o mundo no qual crescera, o Leste Europeu do começo do século XX; acusavam-no de levar a galut, o exílio judaico, para o novo lar. Ele insistiu.

Tornei-me tão próximo quanto possível da literatura de Appelfeld no final do verão e no decorrer do outono de 2009. Enfileirei leituras. Badenheim 1939, All Whom I Have Loved, Story of a Life, The Iron Tracks, Tzili. A maneira como ele não aludia diretamente aos campos e ao extermínio, mas, sim, àquele mundo depois estrangulado pelos nazistas, à tempestade raivando no horizonte. A forma como narra, de um lirismo (também ele) estrangulado. Potente demais. Único. E doloroso.

Desde que voltei de Israel, falo sobre Appelfeld e seus livros sempre que possível. Discorri sobre Badenheim 1939 no programa Livro de Cabeceira. Traduzi (da versão em inglês, Story of a Life) dois trechinhos da autobiografia Sipur Hayim, AQUI e AQUI. E, claro, recomendo a todos que leiam as excelentes traduções que Moacir Amâncio e Luis S. Krausz, respectivamente, fizeram de Badenheim 1939 e Expedição ao Inverno.

Sentar à mesa de um café em Mevaseret Zion e pensar sobre um mundo que não mais existe, mas cuja obliteração foi assinalada e, de certo modo, genialmente retificada por Aharon Appelfeld, alav ha-shalom.

Contornos da diáspora

Resenha publicada hoje no Estadão.

LUIS SERGIO KRAUSZ

Desde 2011, o paulistano Luis S. Krausz vem publicando um romance a cada dois anos: Desterro, Deserto, Bazar Paraná, vencedor do Prêmio Benvirá, e, agora, Outro Lugar, agraciado com o Prêmio Cepe Nacional de Literatura. São narrativas que trafegam no limiar entre a memória e a ficção e que, ao fazer isso, ensejam reflexões na medida ou a partir do momento em que seu narrador se coloca em movimento, em viagem. Vistas em conjunto, formam uma “longa história de diásporas dentro de diásporas” (como é dito a certa altura de Deserto). É como um desdobramento natural e coerente desse projeto literário que devemos encarar o excelente Outro Lugar.

Ao resenhar Bazar Paraná para este caderno, há dois anos, escrevi algo que talvez nos sirva agora: Krausz investe em um mapeamento afetivo-familiar do desterro. Em hebraico, há um termo que se refere ao exílio ou à dispersão dos judeus pelo mundo, “longe de sua terra”: galut. Em meados da década de 1980, o narrador de Outro Lugar deixa o Brasil e parte para Nova York. Independentemente de seus motivos imediatos (estudar na Columbia University), ao fazer isso ele dá prosseguimento àquele processo diaspórico no qual já se encontrava inserido de antemão – embora paulistano, descende (como o próprio Krausz) de judeus do leste que se viram obrigados a emigrar em função do antissemitismo e das agressões, para não falar da escalada nazista que, como sabemos, resultou na aniquilação de milhões de pessoas.

Na prosa do autor, o efeito mais visível da condição de desterrado está na disposição para discorrer sobre o outro, isto é, aqueles em quem esbarra em suas andanças: o amigo na sala de embarque do Aeroporto do Galeão, os colegas de trabalho, seja no Brasil, seja fora, parentes próximos e distantes etc. A narrativa é atravessada por fios e mais fios de lembranças, sejam do narrador, sejam de seus familiares ou conhecidos, criando uma tapeçaria que se espalha no tempo e no espaço, de São Paulo a Nova York, de Beirute a Düsseldorf, de Berlim a Petrópolis. O leitor se depara com “línguas estranhas e terras estranhas, a naturalidade perdida para sempre, a marca do foreigner estampada na testa”. Com “a ilusão de, por pertencer a mais de um lugar, pertencer ao mundo inteiro” caminhando para se tornar o “grande sonho esfacelado do cosmopolitismo”, o que resta (ao autor, ao narrador, aos personagens e, por fim, ao leitor) são esses recortes mínimos de indivíduos lançados daqui para lá e não raro engolidos pelo próprio avançar do tempo.

No entanto, mais do que enfileirar histórias que testemunha ou sobre as quais ouve ou lê, o narrador trata de organizá-las de forma a ilustrar da melhor maneira possível o tema em questão. Por exemplo: ao remeter a uma viagem do pai a Düsseldorf, onde sofre um ataque cardíaco não diagnosticado, refere-se à sensação causada pelo retorno de um judeu à Alemanha, apenas dezesseis anos após o fim da Segunda Guerra. Similarmente, o destino de um velho fotógrafo, outrora conhecido na Velha Europa, é morrer anonimamente em um asilo em Petrópolis, deixando para a posteridade registros de um mundo que desapareceu, transformado em ruínas e entulhos. Ficam os contornos da diáspora, obtidos por meio de uma escrita que recupera, de forma episódica, mas fluida e calorosa, os traços de um povo que se recusa a sucumbir “à perfeição consumada do oblívio”.

Foto: Daniel Teixeira/ESTADÃO

Síndrome de Caim

Texto publicado no Blog da Rocco em 21.12.2017.

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O inferno é um lugar barulhento, e é por lá ou, melhor dizendo, por aqui, nesse inferno onde nos acotovelamos na interminável noite brasileira, que Patrícia Melo oferece um passeio em Gog Magog, Neste que é o décimo romance da autora paulista, o ódio irrompe como a doença nacional por excelência, a infecção que se espalha, a princípio silenciosa e por fim ensurdecedora, mas sempre anuladora, por todo o tecido social.

Tudo começa com uma desavença entre vizinhos. O narrador, um professor de escola pública, não entende “por que o ruído não é considerado um tipo eficiente de arma branca” e é cotidianamente achacado pelos barulhos perpetrados pelo morador do apartamento acima, Ygor, a quem chama de “senhor Ípsilon”. Por irascibilidade de ambos, as tentativas de contornar ou resolver o problema só alimentam a animosidade entre eles. O tal senhor Ípsilon não quer saber de conversa e acusa o outro de querer que ele “não exista”, pois viver “é barulhento” e não é possível fazê-lo “no ‘mute’”; o protagonista logo percebe que “aquilo não vai parar”, pois colocaram “outras forças em ação, forças que agora nos tratavam como escravos”. A partir daí, o ódio entre eles se abre “como um oceano majestoso e sem fim”.

E o país que salta das páginas do romance é uma ilha no oceano supracitado, um ponto sangrento “num mundo em que foi consumada a liquidação do silêncio”, uma aldeia na qual todo e qualquer vizinho é impossível de ser respeitado, posto que se tornou um inimigo ou o inimigo. Diante da ausência total de empatia, diante do fracasso de qualquer tentativa de diálogo, fala a violência: invade-se o lugar do outro e, por fim, o outro, “mutando-o”. Vivemos, então, em um lugar como que assolado por uma espécie de Síndrome de Caim, onde a obliteração do semelhante, pelos motivos mais torpes, mais banais, é algo assim mais do que corriqueiro.

É para isso que, a partir de um determinado momento, o cadáver mal ou sequer ocultado, que se dependura nas páginas do romance, parece apontar: a gratuidade das circunstâncias que o levaram àquele estado, a facilidade com que tudo acontece, com que tudo se desenrola, a opacidade moral que, acesa por um contratempo qualquer, leva um indivíduo a trucidar seu vizinho.

O desconforto é minuciosamente explorado pela narração em primeira pessoa: “Hoje”, diz o protagonista, “não tenho nenhuma vergonha de admitir meus desejos homicidas. Na verdade, é ignorância pensar que há algo patológico nesse tipo de prazer.” E mais: é enganoso “pensar que é infeliz o homem que odeia”, pois o ódio “é uma forma de entretenimento” e é “preferível odiar a não sentir nada”. E o ódio no qual ele se assenta é tão mais perturbador porque pedestre, banal, ou alimentado por circunstâncias pedestres, banais.

Para terminar, lendo Gog Magog, lembrei-me do incipit narrativo de outro belo romance brasileiro lançado há pouco: Gostar de Ostras, de Bernardo Ajzenberg. Ambos os livros têm algo em comum, essa indisposição (inicial no caso de um, terminal no caso do outro) para com os vizinhos barulhentos de seus respectivos narradores. Mas, desgraçadamente, nossa realidade imediata parece pender mais para o universo opressivo e infernal estabelecido por Patrícia Melo do que para a curva dolorosa, mas reparadora, ensejada pelo personagem de Ajzenberg. Neste, o ruído evolui para um diálogo, tanto interna quanto externamente, diálogo que parece inalcançável para a maioria de nós: o outro está ali para ser ouvido, aceito, compreendido. Em Gog Magog, o outro é o inimigo exterior que reflete o inimigo interior, e à anulação do primeiro segue a autoanulação. Que descansemos em paz.