Banville/Black (2) – “The Silver Swan”

Banville/Black (2) – “The Silver Swan”

THE SILVER SWAN (Picador, 2007).
Edição brasileira: O Cisne de Prata. Trad.: Talita M. Rodrigues. Rocco, 2013.

Não obstante uma barriguinha que irrompe ali pelo meio, estourando os botões da camisa, The Silver Swan é mais musculoso do que Christine Falls, mais direto e seguro, menos hesitante e, no que diz respeito à trama, mais belo & sujo. Em outras palavras, um senhor romance policial, inclusive (ou sobretudo) pelos contrapés que alcança. E, caralhos, um senhor romance policial é um senhor romance, ponto.

Depois de revelar à filha aquele segredinho familiar, Quirke agora lida com dois lutos reais: da esposa e da cunhada, morta (câncer) entre o primeiro e o segundo volumes da série. E, não muito depois, o protagonista também perde o pai de criação, o juiz Garret Griffin, figura importantíssima no desenrolar do romance anterior, por quem Quirke agora nutre sentimentos conflitantes, para dizer o mínimo.

No entanto, a defunta mais importante em termos narrativos é Deirdre Hunt (ou Laura Swan), que apareceu, nua, nas “pedras na costa da Ilha Dalkey” e pode ou não ter se matado. Billy Hunt, o viúvo, com seu cheiro “quente, forte e salgado (…), o cheiro de quem acabou de perder um ente amado”, foi colega de faculdade de Quirke, a quem procura com um pedido suspeitíssimo: que não haja autópsia.

Óbvio que Quirke ignora a (meia) promessa feita (“Vou ver o que posso fazer.”) ao colega e autopsia o corpo, encontrando indícios de homicídio. Mas, oscilando entre ser fiel ao viúvo (mentindo para ele) e saciar a própria curiosidade (mentindo para si mesmo), ele mente para a polícia — o excelente inspetor Hackett, um dos melhores personagens da série — e em juízo, e decide investigar a morte por conta própria. A partir daí, Banville/Black volta a brincar com algumas fórmulas do gênero.

Para começo de conversa, há dois momentos do livro que correspondem àquela passagem habitual em que o(a) investigador(a) confronta o(a) autor(a) do crime. Há duas resoluções, por assim dizer. O problema é que uma delas é falsa, ou melhor, em uma delas, o investigador está errado em suas conclusões e acusações, e confronta a pessoa errada enquanto a pessoa certa (mas não correta) está à solta, aprontando mais e pior. E, de novo, o erro traz consequências terríveis.

Uma das melhores coisas do romance é como Banville e Black deixam de disputar espaço e se tornam uma coisa só ou, melhor dizendo, uma terceira coisa, que alia a concretude do segundo à imageria do primeiro: “Ele foi até a janela e parou com as mãos nos bolsos, olhando para a grande lua pendurada no céu. Atrás dele, na cama, nenhum som, nenhum movimento, nada, apenas uma grande ausência, avolumando-se. No céu, bem baixo, uma massa de nuvens corcoveava, azul como uma baleia, com uma franja ao longo da borda superior brilhante como metal derretido”.

Banville/Black se diverte e nos diverte com a inversão de certos códigos: o investigador entende tudo errado, e mais de uma vez; há um clímax violento no romance, mas o melhor, o mais interessante, é o anticlímax que brutalmente engolfa o protagonista, lançando-o com tal força no chão de seus equívocos que ele (após meses de alguma sobriedade) recorre com todas as forças à bebida.

Sendo alguém que tentava entrar nos eixos, rodeando a filha que finalmente assumira, mas que previsivelmente o rejeita, Quirke é colocado em seu devido lugar: em um banco de praça, bêbado e sozinho, sem saber direito como, diabos, foi parar ali e, ao mesmo tempo, sabendo direitinho como, diabos, foi parar ali — e acho que isso dói muito, muito mesmo.

Banville/Black (1) – “Christine Falls”

Dentre os ficcionistas em atividade, o irlandês John Banville (1945) talvez seja o melhor prosador da língua inglesa. Frase por frase, construção por construção, ninguém é tão preciso e, ao mesmo tempo, tão imprevisível em sua imageria. Isso é facilmente verificável em qualquer romance publicado por ele desde a estreia, em 1971, com o pesadelesco Nightspawn.

Agraciado com o Booker Prize por O mar, autor de obras-primas como Luz antiga e The singularities, desde 2006 Banville também escreve obras policialescas situadas (em sua maior parte) na Dublin dos anos 1950, protagonizadas pelo patologista Quirke, alcoólatra, grandalhão e péssimo motorista.

A princípio, Banville usou o pseudônimo Benjamin Black para assinar esses autoproclamados “Dublin murder mysteries”. Nas investidas mais recentes (a partir de Snow, lançado em 2020), passou a estampar o próprio nome nas capas, pois, segundo contou (confessou?) por aí, ele trancou Black em um quarto escuro, deixando sobre a mesa uma garrafa de uísque e uma arma carregada.

Diferente do que faz nas “ficções literárias”, Banville escreve seus “mysteries” a toque de caixa, para desopilar e nos desopilar, com resultados nem sempre regulares (em especial nos primeiros volumes), mas sempre divertidos e repletos de uma beleza tão suja quanto insuspeita. No entanto, não obstante essas diferenças quanto à concepção e à execução, o autor afirmou em entrevista ao Guardian que Quirke “mora no apartamento que herdei da minha tia e circula pela área em que eu vivia quando me mudei para Dublin”, de tal forma que seus tropeços, investigações e andanças estão impregnados das lembranças do autor, “mais conectados às circunstâncias da minha vida do que os livros [que assino como] Banville”.

Acho isso fenomenal. Para se aproximar de si, o autor se distanciou dos (maravilhosos) vícios estilísticos que nutriu por décadas.

Dos dez livros protagonizados por Quirke, li apenas os quatro primeiros (lançados pela Rocco no Brasil). Talvez esperando que a editora carioca continuasse a publicar a série, não me ocupei dos outros, embora venha adquirindo as edições originais. Mas, ao que tudo indica, passados seis anos desde o lançamento de Morte no verão, creio que não haverá novas traduções por aqui. A Biblioteca Azul e a Rocco se esqueceram de Banville e Black como a Companhia das Letras se esqueceu de Ali Smith. Não, não vou julgar nem sacanear essas decisões editoriais (imagino que vendessem pouco em nossa pátria tão ilustrada), mas é algo que me entristece.

Saudoso, decidi retomar a leitura da série Quirke. Passados alguns anos desde que encarei aquele quarto volume, achei melhor reler os anteriores antes de encarar o quinto, o sexto etc. E, feliz por reencontrar um velho amigo, dediquei alguns parágrafos (repletos de spoilers) (foda-se) aos dois primeiros. Abaixo, o texto sobre Christine Falls; AQUI, sobre The Silver Swan. Talvez eu escreva sobre os demais. A ver.

Ah, só mais uma coisinha: acho que o nome Benjamin Black não foi escolhido por acaso, pois o protagonista de Nightspawn chama-se Benjamin… White. Aliás, Banville divertidamente afirmou que, aos 25 anos, quando escrevia aquele romance de estreia, “Trama, personagem, psicologia: palavras assim me faziam pegar o meu revólver”. Mas não creio que ele sinta o mesmo impulso ao lidar com Quirke.

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CHRISTINE FALLS (Picador, 2006).
Edição brasileira: O pecado de Christine. Trad.: Lia Wyler. Rocco, 2011.

O primeiro “Dublin murder mystery” assinado por Benjamin Black e protagonizado pelo patologista Quirke é irregular, mas eficiente. Constrói magnificamente a personalidade do personagem principal a partir do alcoolismo, da teimosia e do duplo luto que vivencia: pela esposa, Delia, morta & enterrada há muitos anos, e pela cunhada (irmã de precedente, como diria Oswald de Andrade), Sarah, por quem ele sempre foi apaixonado e que ainda está viva, mas casada com o irmão de criação de Quirke, Malachy (Mal).

A situação é ainda mais complicada: Delia morreu no parto da única filha que tiveram, Phoebe, mas esta não foi criada por Quirke e, sim, por Mal e Sarah, de quem ela acredita ser filha. Eventualmente, esse singelo segredo familiar será revelado, com consequências terríveis e duradouras.

Agora, a escrita, o “estilo”. É possível ver o autor lutando para ser menos Banville e mais Black nesse primeiro volume. Curiosamente, ele alcança excelentes resultados em ambas as raias, por assim dizer. Exemplos?

Banville: “No hall de entrada de sua casa havia o habitual odor que ele jamais conseguia identificar, pardacento, exaurido, uma aragem da infância, se infância fosse a palavra para aquela primeira década de pobreza que ele suportara. Subiu pesadamente a escada com os passos de um homem subindo à forca, chapinhando os sapatos encharcados.”

Antes de invocar a voz de Black, uma observação: o trecho acima parece saído de Eclipse (Biblioteca Azul, trad.: Celso Mauro Paciornik): “De início era uma forma. Ou nem mesmo isso. Um peso, um peso extra; um lastro. Eu o senti naquele primeiro dia no campo. Era como se alguém houvesse silenciosamente acertado o passo ao meu lado, ou melhor, dentro de mim, alguém que era distinto, um outro, e ainda assim familiar. (…) Parei, surpreso, surpreendido por aquele frio infernal que eu viera a conhecer tão bem, aquele frio paradisíaco”.

Agora, sim, Benjamin Black: “A mulher havia sido amarrada a uma cadeira de cozinha, imobilizada nos tornozelos com as próprias meias e nos pulsos com pedaços de fio elétrico. A cadeira tinha virado e ela estava caída no chão sobre o lado direito. Tinha conseguido soltar um dos braços das amarras. Quirke se surpreendeu com a pose, os joelhos dobrados e os braços para o alto: mais um manequim”.

Afirmei que Christine Falls é irregular, mas eficiente. E, com efeito, a irregularidade diz mais respeito a certas hesitações, quando Banville/Black desacelera quando deveria acelerar e vice-versa. Tenho a impressão de que, ao escrever, ele tateava, divertindo-se com as fórmulas policialescas, permitindo-se não pensar nem pesar demais cada elemento narrativo.

Assim, acho que ele entrega muito e muito cedo sobre o crime central, uma rede de tráfico de bebês que serão canalizados para o clero, o que soa absurdo, mas só no começo (afinal, a Igreja Católica criou redes de proteção para coisas incomparavelmente piores: pedófilos). Além disso, nem sempre a alternância de ambientações (entre Irlanda e EUA) é bem alinhavada, por mais interessante que seja o principal personagem norte-americano na brincadeira, um caminhoneiro alegremente infanticida e estuprador.

O desfecho também se arrasta um bocado, mas é muito feliz na medida em que atesta a relativa inutilidade das investigações de Quirke: sim, ele desvenda tudo, mas tarde demais, e suas descobertas não terão quaisquer consequências para os criminosos, sendo que um deles (o mais reles) ainda comete um crime hediondo contra alguém próximo de Quirke antes de sair de cena. Acho que isso engrandece o romance, pois foge à conclusão típica ou formulaica dos maus exemplares do gênero, alinhando-se com o amargor e o desarvoramento dos grandes (Hammett, Chandler, Macdonald, Highsmith, Ellroy).

O barão partido ao meio

Resenha publicada no Estadão.

Em O retorno do barão de Wenckheim, Krasznahorkai constrói uma narrativa de muitas vozes num mundo em extinção.

É preciso ressaltar logo de cara duas das maiores qualidades do romance O retorno do barão de Wenckheim (Companhia das Letras, tradução de Zsuzsanna Spiry), de László Krasznahorkai: o humor e o ritmo. Premiado com o Nobel de Literatura em 2025, o húngaro foi descrito por aí (em geral por gente que desconhece seu trabalho) de forma sisuda, como um autor de ficções ásperas, friorentas e caudalosas que transitam por cenários apocalípticos ou quase. Ora, é perfeitamente possível possuir tais e tais características, mas também ostentar um estilo que nada tem de opaco, hermético ou árido. Em outras palavras, Krasznahorkai escreve tão bem que não raro é divertido — não obstante os horrores descritos aqui e ali.

Sim, ele adora construir longos blocos narrativos. Um de seus romances mais recentes (ainda inédito no Brasil), Herscht 07769, tem mais de 400 páginas e é estruturado em uma única frase, ainda que haja quebras em subseções oferecendo respiros aqui e ali. O retorno do barão de Wenckheim é menos radical, mas também desafiador à primeira vista: cada uma de suas partes (“danças”) é composta por parágrafos e períodos que, às vezes, prolongam-se por páginas e páginas, alternando uma infinidade de vozes, momentos e pontos de vista. Aqui, mais uma vez, faz-se necessário frisar que a dificuldade é apenas aparente. Dentro do jogo narrativo que engendra, o autor utiliza com tanta destreza as ferramentas que esses períodos extensos e as alternâncias não escondem ou obscurecem nada, mas abrem um mundo aos nossos olhos. Uma vez acostumados com o ritmo das “danças”, acompanhamos sem maiores dificuldades as andanças, angústias e intrigas dos personagens.

O barão do título é um sujeito arruinado que vive há décadas em Buenos Aires. Preso por dívidas de jogo, é resgatado por distantes parentes vienenses, receosos de que o escândalo manche o nome da família, e retorna, sessentão, à Europa. Retendo na memória a imagem (da imagem) de uma paixão juvenil, ele decide regressar à cidade natal nos cafundós da Hungria, “o lugar onde tudo começou, para buscar a origem daquilo que parecia tão bonito, mas a partir do que tudo se configurou tão, tão errado”. A notícia do regresso deixa o local em polvorosa: políticos, autoridades e moradores creem na chegada de um benfeitor que doará sua fortuna às causas públicas e privadas, legais e escusas (sobretudo escusas). No entanto, o que aterrissa na cidade é um aristocrata falido e amalucado, cujos olhos logo percebem que “não restou nada daquele mundo que existia ali”, pois “existe um deserto no lugar da cidade que um dia deixou” e ele é a “vítima estúpida de uma ‘realidade ilusória’”. Parafraseando Italo Calvino, não tardará para que tenhamos um barão partido ao meio.

O melhor do romance está na teia de vozes que o compõem: a paixão do protagonista (Marika), o líder de uma gangue de motoqueiros neonazistas (não por acaso, aliados das forças de segurança locais), o “Professor” perseguido pela tal gangue, a bibliotecária apaixonada pelo chefe, o prefeito, o comissário, o autoproclamado “secretário” do barão, Dante (que assume o apelido porque sua cabeleira lembra a do zagueiro brasileiro que jogou pelo Bayern de Munique), e muitos outros.

Krasznahorkai alterna momentos de humor absurdo — como a “Advertência” que abre o livro, o imbróglio envolvendo o “Professor” e sua filha ativista e, claro, a recepção que oferecem ao barão, na qual motoqueiros com suas buzinas e um coral de senhoras trucidam Don’t cry for me, Argentina, do musical Evita — e outros de extrema densidade filosófica — como as elucubrações do “Professor” que fecham a “dança” intitulada “Infinitas dificuldades”: “um colapso imenso acontecerá (…) quando realmente entendermos que toda a cultura humana é falsa em seus fundamentos”.

Diante do colapso, ressalte-se que tudo degringolou muito antes, “quando todas as localidades estão chafurdando na miséria, (…) este país miserável foi abandonado por completo, (…) estamos à mercê de trapaceiros, ladrões, assaltantes e assassinos”. Assim, a cidade, as relações sociais e, por fim, a própria realidade se esfarelam pouco a pouco, mas de forma cada vez mais acelerada, e a frase de ecos pynchonianos que encerra o grosso da narrativa — “Agora todo mundo” — sugere que o próprio romance vai pelos ares com o resto. Por sorte, é só uma impressão passageira, pois o objeto e seu conteúdo persistem, e o peso d’O retorno do barão de Wenckheim é considerável mesmo neste mundo de “leveza” apocalíptica e ignorância orgulhosa de si.

Três histórias de Natal

Artigo publicado no Estadão.

John Cheever. Foto: Allen Green/Getty.
Nada como cear na companhia de Tchékhov, Cheever e Carver

Por razões literárias e psiquiátricas, o Natal talvez seja o feriado mais explorado pelos ficcionistas. Familiares reunidos e ébrios oferecem material farto para a fabulação. Dentre os exemplos mais conhecidos, estão as investidas de Charles Dickens e Mário de Andrade. O primeiro nos deu o celebérrimo Uma canção de Natal (trad.: Rodrigo Lacerda, Penguin Companhia), e o paulistano é autor d’“O peru de Natal” (Contos novos, Nova Fronteira), um dos pontos altos do modernismo. Recensear as narrativas curtas situadas nessa época do ano seria contraproducente. Assim, peço licença a São Nicolau e escolho três dessas histórias.

A primeira delas é “Nas festas de Natal”, do russo Anton Tchékhov (em Últimos contos, Todavia, trad.: Rubens Figueiredo). O conto é um exemplo primoroso do estilo do autor, que trabalhava por meio da alusão e da sutileza, escrevendo com uma clareza que nada tem de simplória. A sofisticação de Tchékhov reside na forma como ele sublinha os ruídos entre o que (não) é dito e o que sentem os personagens. As palavras não expressam as sensações dos indivíduos, seja porque estes não possuem o vocabulário para tanto, seja porque as convenções e coerções sociais não permitiriam isso.

O conto estabelece o que Rubens Figueiredo chama de “tensão interna e insolúvel”: sua aparente incompletude e o final brusco salientam o que expressa. Se tivesse uma “resolução” convencional, o conto trairia a si mesmo. E o que acontece nele? A filha de camponeses se mudou para São Petersburgo com o marido e não manda notícias há anos. Analfabetos, os pais recorrem a um escrevedor de cartas que os ignora e deita uma saraivada de asneiras no papel; ademais, a mãe se vê incapaz de exprimir tudo o que quer. Na segunda parte da narrativa, a carta chega às mãos da filha e compreendemos as razões de seu suposto silêncio. Tudo sem qualquer sentimentalismo.

“Uma conversa séria”, de Raymond Carver (68 contos, Cia. das Letras, trad.: Rubens Figueiredo), é uma história sobre términos e ressentimentos. Separado da esposa e dos filhos, homem faz uma visita (pouco) natalina, mas é informado de que precisa “ir embora às seis horas”, pois o “amigo” da mulher irá “com os filhos para jantar”. Assim escanteado, o macho age como se espera dele: infantilmente. Depois, quando volta para se desculpar, piora ainda mais as coisas e a conversa séria do título é sempre adiada, pois todos carecem de maturidade para sustentá-la.

O estilo direto de Carver, influência de Tchékhov, transforma esse conto suburbano em uma tragicomédia com a qual nos identificamos. A dor que perpassa a narrativa contamina os objetos, e alguns deles (em especial o cinzeiro que não é cinzeiro) como que simbolizam as sensações de raiva e abandono. Em tempo: a versão estendida do conto (antes de sofrer os cortes do editor Gordon Lish) está no volume Iniciantes (mesmos tradutor e editora) com o título “Torta”. As duas versões são excelentes.

Por fim, recomendo “O Natal é uma época triste para os pobres”, de John Cheever (28 contos, Cia. das Letras, trad.: Jorio Dauster e Daniel Galera). Obrigado a trabalhar no dia de Natal, um ascensorista reclama com os moradores ricos do prédio e, comovendo-os nem sempre de forma honesta, acaba recebendo muito mais do que esperava. É claro que a situação se torna insustentável, mas o que Cheever ressalta com seu humor característico é a persistência da caridade: “Uma luz beatífica recobriu seu semblante quando ela percebeu que poderia doar, levar alegria aos outros, remediar um caso pior que o dela”. Ainda que tal sensação seja ironizada (pois é “uma sensação de poder”), aqueles que se beneficiam dela continuam acolhidos e presenteados. E, de uma forma ou de outra, é essa “generosidade irrestrita” que o Natal deveria inspirar, não?

Mainardi ‘fecit fecit’

No estupendo Meus mortos: um autorretrato (Record), Diogo Mainardi não chega a inventar uma linguagem que não existia, mas certamente retrata um mundo que deixou de existir. Este mundo é tanto particular — no começo da década, ele perdeu o pai, o irmão e a mãe em questão de meses — quanto universal. O livro, que li como um romance gráfico de não ficção (com fotografias e reproduções pictóricas em vez de desenhos), passeia não só pelas memórias do autor, mas sobretudo por Veneza, ocupando-se majoritariamente das obras de Tiziano (“Deus”) e Rubens (“seu profeta”), entre outros artistas.

Essa longa reflexão sobre a transitoriedade, a finitude e a persistência do obscurantismo talvez seja a obra literária brasileira que mais se aproxima das “marginálias” que (des)orientam os nove volumes do Breviário de São Orfeu, de Miklós Szentkuthy. Não estou afirmando que a obra do autor húngaro é uma referência para Mainardi. Estou dizendo que, ao ler Meus mortos e suas digressões sub specie mortis acerca da arte e da civilização ocidentais, eu, André, lembrei-me de Szentkuthy.

Aliás, parafraseando Zéno Bianu em sua introdução a Marginalia on Casanova, em uma era na qual quase todos, “mesmo sob o signo do pior conformismo”, louvam a marginalidade ou se apresentam como vozes “marginais” (creio que o termo preferido é “periféricas”), Mainardi aparece como, de fato, “o escritor da margem absoluta” e, eu diria, da margem última — aquela da qual ninguém retorna, se me permitem o desvio semântico.

Meus mortos demonstra como o triunfo artístico não raro caminha em paralelo ao (ou nasce do) fracasso da espécie e da civilização humanas. Mainardi sublinha que a fase mais radical de Tiziano, por exemplo, também decorre das crescentes opressões e brutalidades dos conflitos religiosos que vieram na esteira da Reforma e da Contrarreforma, sepultando a relativa liberdade renascentista:

“Em resposta aos energúmenos que, na fase final de sua carreira, atacavam-no pelo aspecto mal-acabado de suas obras, ele assinou [na Anunciação da Igreja de San Salvador] ‘Titianus fecit fecit’ (feito e refeito) a fim de esclarecer, de maneira propositalmente redundante, que aquelas manchas eram deliberadas (e que o quadro estava terminado). O último Tiziano, que se rebelou aos limites impostos por seu tempo, está resumido nessa assinatura. Num ambiente cada vez mais repressivo, em que uma certeza doutrinária violentava a outra, ele reagiu tornando sua pincelada cada vez mais livre.”

Nos estertores do tempo humano, nesta interminável descida rumo ao nada, as relações entre os facínoras e a arte adquirem contornos curiosíssimos. Na pilhagem nazista de obras de arte pela Europa afora, Hermann Göring roubou uma das Danae de Tiziano: o chefe nazista da Luftwaffe “conseguia conviver ao mesmo tempo com Tiziano e Auschwitz”, e afixou a tela “no teto de seu quarto, como num motel”.

Similarmente, Perseu e Andrômeda “foi roubada do Hermitage por Stálin em 1931” e vendida “para financiar as monstruosidades cometidas durante seu primeiro plano quinquenal. O sacrifício da carne nua pintada por Tiziano, nesse caso, acabou resultando no assassinato de 7 milhões de pessoas”.

Diante das monstruosidades históricas e cotidianas, há em Meus mortos um contínuo apelo à reclusão ou, melhor dizendo, à restrição do espaço social e virtual como forma de sobrevivência, por um lado, e como estratégia para alcançar ou manter alguma liberdade artística e criativa, por outro. É preciso cultivar e proteger o que ainda nos resta, desde as pessoas que amamos até nossas obsessões, pois vivemos sempre “com os carniceiros celestiais de um lado e a humanidade bestializada do outro, enquanto um cachorro aproveita para lamber o sangue derramado”.

Aos meus olhos, persiste no livro uma oscilação entre a consciência da inutilidade de tudo, inclusive da arte, e o apreço pela expressão, incluindo a expressão da inutilidade. Não é fácil conviver com Tiziano e Auschwitz, mas, felizmente, ainda existem autores contrariando a famigerada e estúpida fórmula adorniana (e qual fórmula adorniana não é estúpida?).

Se, parafraseando Mainardi, é incontornável a sensação de que somos indivíduos cinzas, pertencentes a estirpes cinzas que viveram em épocas igualmente cinzas, também me parece incontornável a atualização desse esforço civilizatório intrínseco à produção literária e artística — por mais que o presente e o futuro sejam resolutamente analfabetos.

No contradomínio do exílio

 

“No entanto, a consciência deve encontrar maneiras
de continuar operando dentro da história.”
— Hauffnitz.

 

No começo de Shadow ticket, de Thomas Pynchon, há uma explosão que, “quando ocorre, parece vir de algum lugar além do rio e perto do Lago. Garfos e taças parados entre a mesa e a boca, como se todos observassem um momento de quietude, e ninguém parece surpreso”. Estamos em Milwaukee, o ano é 1932, e àquela altura o detetive particular Hicks McTaggart ainda não antevê nem adivinha o exílio.

O romance começa em ritmo de hardboiled, mas se desenrola como um sonho que, se não chega a esboroar as paredes da própria narrativa como n’O arco-íris da gravidade, lança-nos em uma realidade outra: contra o dia, a contrarrealidade pede uma contranarrativa. Essa realidade outra não é, jamais, “melhor” do que a “nossa” realidade: aqui e lá, o futuro é a guerra, o futuro é aniquilação.

No decorrer do livro, várias travessias se sucedem, e a penúltima delas, o retorno/não retorno de Bruno Airmont aos EUA (“Não existe Estátua da Liberdade, Bruno, nada disso, não aonde você está indo.”(1)), sublinha um exílio para além do exílio, um “contradomínio do exílio”, e os personagens navegam “rumo a uma fronteira” de cuja existência “apenas suspeitam”. A narrativa não se desfaz em nossas mãos, pelo contrário (o romance termina com a carta afetuosa de um amigo (2) para o protagonista (3)), mas o mundo, sim, enquanto a “história avança (…) rumo ao nosso futuro fascista”.

A trama? Hicks é incumbido de localizar Daphne, filha do ricaço Bruno Airmont, o “Al Capone do queijo”. Ela teria fugido com um clarinetista, Hop Wingdale, repetindo, talvez e/ou de certa forma, o movimento do pai — ele próprio desaparecido após tungar uma grana do (sim) Sindicato Internacional do Queijo. Hicks namora com uma cantora, April, por quem um mafioso local, Don Peppino Infernacci, é apaixonado. De repente, dois sujeitos fantasiados entregam um presente explosivo para Hicks e ele se vê obrigado a sair de Milwaukee por uns tempos. Em Nova York, primeira parada, é drogado e embarcado no mesmo Stupendica (4) que aparece em Contra o dia, navegando para a Europa em plena efervescência nazifascista. Em Belgrado, um agente cocainômano da Interpol “recruta” Hicks para sair à caça de um capanga de Bruno, Ace Lomax, e assim, como diria Chico Buarque (5), vamos dar em Budapeste. Ali, os personagens tropeçam uns nos outros e em “aportistas” (Dr. Zoltan von Kiss!), agentes do MI3b (sic), gangues de motoqueiros antissemitas (Vladboys!), um golem ciborguesco (6) (num aceno a V.: Zdenek!) etc.

Hicks está no encalço de Daphne, que procura Hop (sim, o clarinetista desapareceu), e (por um momento) de Ace, em cujo encalço está Bruno, que, por sua vez, é perseguido por meio mundo — há sempre alguém perseguindo alguém e sendo perseguido por outrem, em fugas que se retroalimentam, e tudo isso às vésperas da Alemanha ter um novo chanceler, todos sabemos quem.

Por outro lado, Hicks não parece estar realmente no encalço de ninguém; ele eventualmente encontra Daphne (a quem, aliás, já conhecia de outros carnavais ou, melhor dizendo, outras fugas), mas e daí? E, similarmente, encontra Ace, mas não o mata nem apreende, pelo contrário: “Acho que poderia olhar pro outro lado enquanto você escapa…”. E Daphne, quando afinal reencontra Hop, confirma que ele na verdade é outra coisa (em fuga de si mesmo?) e segue o próprio caminho. Encontros e desencontros parecem efêmeros, provisórios, frágeis. Diferentemente de Vício inerente, efetiva paródia de um hardboiled onde quase todas as questões são mais ou menos encerradas, Shadow ticket não está interessado em “fechar” nada.

Voltando a Hicks, era no passado que ele “agia”, trabalhando como capanga corporativo, um brutamontes especializado em espancar grevistas, e sua mudança se dá a partir do momento em que evita matar um indivíduo ou, melhor dizendo (e no espírito do romance), o porrete com o qual arrebentaria a cabeça do infeliz é paranormalmente “aportado” (desaparece, some, onde está?, onde foi rematerializado?). Essa ocorrência insólita faz com que ele experimente a “estranha sensação” de “alívio por não ter matado alguém”, “uma dessas oportunidades para mudar de ideia que, com sorte, às vezes podem surgir”.

Hicks muda de ideia e de profissão, mas, a certa altura, um tanto confuso, procura aconselhamento com o detetive veterano Lew Basnight (o mesmo de Contra o dia), que diz: “Desde que você não seja mais um desses detetives metafísicos, buscando a Revelação. Leem muita ficção policial nas revistas, começam a pensar que tudo se resume a quem fez o quê. O que realmente aconteceu. História oculta. Ah, sim. Ver todas as cartas no fim da rodada. Pra alguns, esse tipo de coisa fica religiosa bem rápido”. Hicks: “Já tenho o bastante pra me preocupar na vida real”. Ao que Lew: “Boa sorte, então, filhinho. Odeio ter que dizer isso, mas o ‘real’ só entra em cena quando alguém atira em você. Na prática, ‘real’ significa morto — tirando isso, sempre tem espaço pra alguma conversa”.

A encruzilhada na vida de Hicks remete às encruzilhadas da História e, no corpo do romance, às encruzilhadas dele próprio (romance), narrativas e contranarrativas. Na medida em que se recusa a “apenas” reiterar as estruturas romanescas que (também) homenageia/parodia (noir, hardboiled, spy novel), inserindo uma sequência de desvios e fugas e digressões, Shadow ticket alcança a excelência justamente por ser um objeto tão estranho e difícil de encaixar. Longe das investidas californianas do autor, ele está mais próximo das sombras que adensam um dos capítulos mais belos de V., o terceiro (ele próprio a reescrita do conto “Under the Rose”), onde uma história envolvendo intriga, espionagem e assassinato é “reconstruída” por um dos personagens a partir de oito pontos de vista.

Aqui, há outra espécie de reconstrução, e ela se dá internamente: Hicks se torna consciente das escolhas morais que fazemos todos os dias e do peso dessas escolhas. A certa altura, esse peso é mensurado por algo que Daphne e o protagonista não dizem, mas poderiam ou deveriam dizer:

Fique ou vá. Duas sinas começando a se separar — voltar aos EUA, casar, constituir família, construir uma vida que você se convence de ser livre do medo, enquanto, aqui, o outro desfecho continua a se desenrolar, a girar na escuridão como o fim dos tempos. Aqueles que você poderia ter salvado, que poderia de algum modo ter desviado para um trecho mais seguro do caminho, são, um por um, roubados, surrados, assassinados, capturados e levados para o inominável, o irrecuperável.

Até que, uma noite, tarde demais, você acorda e compreende o que deveria estar fazendo da sua vida durante todo esse tempo.

E não é assim?

Embora superpovoado, Shadow ticket tem apenas 293 páginas (dos livros do autor, só O leilão do lote 49 é mais curto), 792 a menos do que o mais longo, Contra o dia. Como leitor de Pynchon, gostaria de ter outro tijolaço sob os olhos, mas a concisão do novo romance ajuda a incrementar seu caráter de comentário espirituoso, embora melancólico, de uma realidade outonal, em acelerado esgarçamento.

O título diz respeito a uma passagem, isto é, um bilhete de viagem conseguido por algum meio escuso, por baixo dos panos ou mediante uma troca nem sempre salutar ou lícita. É, por exemplo, com um shadow ticket que Hicks inadvertida e inconscientemente embarca para a Europa, de onde talvez não retornará. E o próprio livro, enquanto contranarrativa, contrarromance, é um shadow ticket para a realidade outra que ironiza e devassa a nossa — lembre-se, a Estátua da Liberdade não está mais lá. (7)

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(1) E, de certo modo, estão vindo para agora, não? Há inúmeras alusões aos EUA hodiernos no romance, sendo a mais engraçada delas quando alguém se assusta que haja republicanos mancomunados com gângsteres.
(2) Ao que parece, o pai de Zoyd Wheeler, protagonista de Vineland.
(3) O romance é, em si, uma carta afetuosa de Pynchon para cada leitor, como se dissesse: “O mundo foi pro saco, mas ainda estamos juntos, ao menos por enquanto; vamos aproveitar esse momento”.
(4) Um navio transmorfo tem quantas formas (e vidas) quiser, não é mesmo? Não por acaso, sobreviveu a Veneza.
(5) Formidável quebra-gelo: em vez de “E aí, já foi a Budapeste?”, perguntar “E aí, já foi dar em Budapeste?”.
(6) Cuidado com o BAGEL (Bureau Administering Golems Employed Locally).
(7) Se é que esteve algum dia, não é mesmo?

Sobre meninos e bombas

A cineasta norte-americana Kathryn Bigelow filma e monta melhor do que a esmagadora maioria dos marmanjos cujos filmes vejo por aí. Portanto, se há interesse em Casa de dinamite, ele se deve sobretudo ao talento da diretora e do montador Kirk Baxter (colaborador de David Fincher desde Benjamin Button, sendo um dos responsáveis pela estupenda arquitetura fílmica d’A rede social). Bigelow, para quem não sabe ou não se lembra, é responsável por dois dos melhores filmes deste século: Guerra ao Terror (pelo qual ela ganhou o Oscar de direção) e A hora mais escura (que deveria ter rendido outro Oscar para ela).

O cenário proposto em Casa de dinamite é pisado e repisado naquela levada apocalíptica em que Godot está efetivamente a caminho, ainda que, sendo Godot, não o vislumbremos no final. Se, como escreveu o poeta italiano Eugenio Montale, “os inícios são sempre irreconhecíveis”, nossos olhos tampouco distinguem o fim, pois já estão mortos ou enterrados vivos. E o fim, aqui, é o fim para valer, ao menos para o mundo tal qual conhecemos.

É certo que ouvimos as explosões durante os créditos finais, ainda que distantemente, como se estivéssemos no interior de um bunker (ufa!). Logo, aprecio a decisão de encerrar o filme ao fechar o círculo tensional pela terceira vez, algo como o derradeiro nó na corda que nos enforcará; o epílogo e o som das explosões estão ali para nos informar (sem dizer, o que é ótimo) qual foi a decisão presidencial quanto à retaliação.

Claro que filme algum sobre uma possível hecatombe nuclear chega aos pés de Dr. Fantástico (1964), clássico de Stanley Kubrick que teima em não envelhecer, até porque a nossa maldita espécie teima em não amadurecer. Sim, é Dr. Fantástico uma comédia. E das melhores.

Tenho a seguinte opinião, e não é de hoje: a única forma sã de encarar uma hecatombe nuclear provocada por gente muito louca, estúpida e poderosa é pela via da insânia humorística. Mas Kubrick, sendo Kubrick, vai muito além da comédia rasteira e cria uma pérola do humor-negro, expondo a propalada aventura humana como a farsa genocida e suicida que ela, de fato, é. Eu sempre sorrio ao contemplar as bombas que explodem enquanto Vera Lynn canta “We’ll meet again”. A bem da verdade, sinto um tremendo alívio diante daquelas imagens. Para mim, Dr. Fantástico é um filme otimista.

Casa de dinamite não é um filme otimista e tampouco farsesco ou engraçado. Ou melhor, é possível vê-lo com olhos otimistas, farsescos e/ou engraçados, a depender do seu apreço pela raça humana e do tipo de humor que anima a sua alma e as suas retinas, mas não é possível relaxar enquanto ele se desenrola. Bigelow jamais permitiria uma coisa dessas.

Por certo, é interessante o movimento descrito pelo roteiro de Noah Oppenheim, de uma corrida contra o tempo para uma série de vinhetas dramáticas concentradas em determinados indivíduos (incluindo o presidente dos Estados Unidos, interpretado por Idris Elba). Ao enfocar seres humanos diante da real possibilidade de aniquilação, Bigelow confere estofo a um filme que, enquanto thriller, já funcionaria muito bem, obrigado. Sim, ela já dirigiu coisas melhores (incluindo o pouco visto Detroit), mas esse vislumbre do abismo está longe de ser pueril.

Filme de Toledo

Um amigo presenciou a cena: em uma exibição especial d’O agente secreto em Recife, a governadora de Pernambuco subiu ao palco para (óbvio!) discursar e, mais de uma vez, chamou o cineasta Kleber Mendonça Filho de Kleber Toledo Filho. Talvez a gafe da governadora nos seja útil, pois, no filme, há o que poderíamos chamar de cenas de Mendonça e cenas de “Toledo”. Pense na gata de duas cabeças que aparece por lá; uma daquelas cabeças é muito talentosa.

Mendonça é o (ex-)crítico de primeiríssima linha e o cineasta capaz de criar filmaços como os curtas Vinil verde e Recife frio e os longas O som ao redor e Retratos fantasmas. “Toledo” seria o responsável por obras canhestras como Aquarius e Bacurau e pelo roteiro inverossímil e por várias cenas capengas d’O agente secreto. Como admirador de parte da obra do cineasta, torço para que, no futuro, Mendonça prevaleça sobre “Toledo”, pois, na última década, “Toledo” vem ganhando de lavada.

Não perderei (muito) tempo especulando sobre as razões pelas quais o diretor passou a telegrafar suas “mensagens”¹, pauperizar seus roteiros com didatismos e sentimentalismos variados e conceber alguns planos como se o parâmetro estético fosse Carga pesada (versão 2003-5) e não O comboio do medo. Desconfio que tenha algo a ver com os rumos políticos do Brasil desde o começo da década passada, os criadores sendo pressionados (e pressionando a si mesmos) para se posicionar e abordar questões de tal forma que qualquer primeiranista de ciências sociais não só compreenda o que se passa na tela como se sinta vingado e ejacule gostosamente pelos olhos.

Mas, beleza, vamos ao filme.

O agente secreto começa esplendidamente bem. Assistindo àquele prólogo de inspiração leonesiana, pensei: ele vai se manter nesse cume? Porque (parafraseando Haroldo de Campos) Leone salta de um cume a outro em Era uma vez no Oeste. Mas Mendonça sobe para “Toledo” descer. Há um momento em que, insatisfeito com o nível do mar, ele começa a cavar. Antes de investigar essas passagens subterrâneas, convém celebrar os momentos altaneiros.

Começo pelo Cine São Luís, um grande personagem ali. Às vezes, ele serve de janela (inclusive literalmente, em um dos melhores planos do longa) para o tempo enfocado e recriado na narrativa: Recife, 1977. Essa reconstituição histórico-nostálgica é impecável e algumas das melhores cenas têm os personagens circulando pela cidade — o protagonista (Wagner Moura) saindo do cinema e sendo engolido pelo bloco de carnaval (trilha impressionante), os pistoleiros comendo em um pé-sujo, o “passeio” deles com os policiais (embora a cena não cumpra o que promete) e toda a sequência de perseguição ou, melhor dizendo, perseguições (do sogro pelo pistoleiro, do pistoleiro pelo outro pistoleiro, mas — desgraçadamente — não do protagonista pelo seu algoz).

A cinefilia do diretor se manifesta nas imagens que abrem o longa e no uso inteligente de filmes em exibição naquele momento, como A profecia (“Não gosto de filme de terror”, diz um personagem que lida com sobreviventes de horrores variados) e O magnífico; também vemos os letreiros anunciando Carrie, por exemplo, e Tubarão é importante por diversas razões. Nesses momentos, eu — que, felizmente, tive a oportunidade de frequentar cinemas de rua e neles assistir a estreias e reprises, CassinoPickpocketAção entre amigosA regra do jogoLos Angeles – Cidade Proibida etc. — sorrio bestamente.

Esse emaranhado histórico, político, carnavalesco e cinefílico funciona relativamente bem até que o tempo presente rasga a tela para mastigar e cuspir o próprio filme na cara do espectador. Chega a ser desrespeitoso; Mendonça acha que precisamos dessa muleta? E é uma muleta quebrada, para piorar. Não, ninguém precisa daquelas duas pesquisadoras regurgitando o que já estamos vendo, explicando o que já é mostrado e sublinhando o que deveríamos sentir.

As falas delas são expositivas, pedestres, toscas. Além de imbecilmente escritas, dirigidas e interpretadas (o momento em que uma delas diz com ar sonso que gostava de ouvir a voz do protagonista é tão risível que torci para que fosse chutada na fuça pela perna cabeluda²), essas cenas arrastam o longa para o desfecho melodramático que nada fica a dever para outro “grande” momento de (sim) “Toledo” — o final de Aquarius. A vontade é de abandonar a sessão e comprar uma arma (ou um uísque).

Aqui, é preciso salientar que o roteiro d’O agente secreto não tem pé (embora tenha perna) (cabeluda) nem cabeça. Ora, se o protagonista (Wagner Moura) só descobre que há pistoleiros em seu encalço quando já está em Recife, por que usava uma identidade falsa antes disso? De quem ele fugia? De quem se escondia? Do regime militar? Por quê? Ele esteve na luta armada? Dificilmente, pois diz que nunca usou uma arma na vida nem socava ninguém desde o ginásio. Se não estava na luta armada, por que desaparecer na clandestinidade antes de saber que corre risco de ser assassinado? Ele, inclusive, fica surpreso ao tomar conhecimento de que seu passaporte foi bloqueado e, depois, fica muito surpreso ao descobrir que é um cabra marcado para morrer.

Pelo que o filme mostra, ele era um professor universitário que se desentendeu feio com um plutocrata. Ele não era um guerrilheiro que assaltava bancos e sequestrava embaixadores. Então, por que tem o passaporte bloqueado? E, na medida em que não é ou foi um guerrilheiro, por que fugiu de Recife? Onde ele estava? Se fosse o caso de correr com a sela pela troca de xingamentos e sopapos com o plutocrata e o filho deste, ele não teria comparecido à reunião de departamento no dia seguinte à briga e confrontado o vilão, certo? Você bateria em Fredo Corleone e se reuniria com Don Vito Corleone depois?

A cena da briga é particularmente ruim. Ela rescende a uma espécie de esprit d’escalier esquerdista: tudo o que você sempre quis dizer para um ricaço corrupto chupador de milicos, mas nunca teve oportunidade e/ou coragem de dizer. Por melhor atriz que seja Alice Carvalho, é impossível salvar uma cena tão mal escrita e mal filmada, concebida para inflamar o primeiranista supracitado e outros espécimes similares. Os personagens se insurgem contra uma caricatura, confrontam um vilão cartunesco.

Esse sujeito malvado, esse Capitão Caverna da Indústria (e seu filho Caverninha), faz os vilões dos filmes 007 com Roger Moore parecerem criações de Shakespeare. Impressiona que Mendonça pareça incapaz de criar um arrombado que seja crível em vez de infantilmente estereotipado, algo mais Gordon Gekko e menos Mojo Jojo³. Sabe aquela fantasia fascistoide do comunista comedor de criancinhas? Desde Aquarius, o cineasta investe em sua contraparte, o capitalista desalmado bebedor de uísque.

Mendonça: “Quero que você interprete o vilão”. Luciano Chirolli: “Beleza, como vai ser?”. Mendonça: “Pega um copo de uísque, faz cara de mau, fala pro cara que ele é um cabeludo comunista mas que a mulher dele é gostosa, depois contrata dois pistoleiros porque a fulana te deu uma mijada e o comunista deu um sopapo no seu filho, e diz pros pistoleiros que é pra dar tiro na fuça do comunistinha, um buraco, um buraco, quero um buraco, fala um buraco, um buraco como o Marlon Brando fala o horror, o horror”.

Em tempo: capitalista desalmado não bebe uísque blended vagabundo. Colocasse na mesa um single malt de respeito ou um turfadão como o Ardbeg — sei lá, a vilania também pode ser uma questão de fenóis. Se é para caricaturar, caricaturemos direito.

Falando sério, o vilão encomenda a morte do protagonista por causa daquele entrevero e porque não gosta de acadêmico cabeludo supostamente comunista? Quanto tempo se passou entre o entrevero e a contratação dos pistoleiros? Nesse meio-tempo, a esposa do protagonista adoece e morre, e ele cai no mundo? Mas por que ele cai no mundo? E, então, ele volta a Recife para reencontrar o filho (beleza), mas com uma identidade falsa? Por quê? E, coincidentemente, após todo esse tempo (quanto?), o vilão decide que aquele é o momento de encomendar a morte do desafeto porque, sei lá, faz uns meses que não mando matar ninguém e lembrei desse cretino que deu um tabefe no Caverninha?

O filme também nos apresenta os criminosos mais desastrados desde Matadores de velhinhas (versão Joel & Ethan Coen). Uns policiais corruptos precisam se livrar de uma perna cabeluda & incriminadora, mas, por razões que a própria razão desconhece, acham que a melhor maneira de fazer isso é jogá-la no rio Capibaribe. Os pistoleiros terceirizam o serviço, e o matador subcontratado decide que os melhores local e momento para dar cabo do protagonista é no instituto de identificação, ao lado de uma delegacia, em pleno horário comercial e diante de dezenas de testemunhas. Esperar o alvo ir embora? Tocaiá-lo em uma rua escura, deserta? Sequestrá-lo, levá-lo para o meio do mato e executá-lo? Não, isso é coisa de pistoleiro frouxo.

Mas, embora inverossímil, a sequência é cinematograficamente esplendorosa, desde os esforços de identificação (do protagonista em relação à mãe e do matador em relação ao protagonista; atente para o enquadramento à De Palma da imagem ao final deste texto) até o tiroteio e a perseguição subsequente — quando “Toledo” manda Mendonça à merda e sequestra o filme de vez. No lugar da resolução violenta, temos a conversa fiada pseudoapaziguadora. É como estar vendo Je suis à prendre, clássico com Brigitte Lahaie, e, no momento daquele clímax campestre, o diretor cortar para a coroação de Charles III. Amigo, isso não se faz. Não há nada de narrativamente subversivo em uma maçaroca dessas, pelo contrário, é a mais pura e abjeta covardia.

É a mesma crítica que fiz a Bacurau: o diretor prepara muito bem cenário, atmosfera etc., toda a arquitetura fílmica tensional, mas se recusa a ir às últimas consequências. Não digo que fosse necessário exibir as balas destroçando as feições de Wagner Moura (buraaaco, buraaaco), mas Mendonça perde a chance de, por exemplo, inverter a cena inicial com o observador agora no lugar do cadáver. Em vez disso (ou de qualquer outra coisa), ele opta por voltar ao presente, pagar pedágio para os cirandeiros e telegrafar bons sentimentos e emoções positivas, muitas emoções positivas, e algumas lamúrias inócuas, pois o filho compreensivelmente mal se lembra do pai.

O agente secreto é uma experiência de cinema autoanuladora. Como Penélope à espera de Odisseu, o diretor tece para destecer, mas sem esperança de retorno e ajuste; é um gesto inútil, sem finalidade, pois ele não ganha tempo como Penélope, mas perde e perde, esvaindo-se. Com isso, Mendonça investe no barateamento do próprio ato de tecer.

(Uma nota final: embora subaproveitados, Udo Kier e seus “amigos” mantêm o filme respirando aqui e ali. Um judeu sobrevivente da Shoah, respeitado e protegido porque os policiais corruptos acham que ele foi um soldado nazista? Brilhante. E é melhor esconder direito aquela menorá, queridão.)

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¹ Como diria Michael Haneke, quem entrega mensagem são os correios.
² O curta de terror que, a certa altura, invade o filme (e me fez lembrar d’A menina do algodão) é um momento no qual o longa volta a pulsar, divertindo-se e nos divertindo, para, em seguida, naufragar na cena da festinha de despedida — não obstante a presença de Tânia Maria, que empresta graça e verdade a um texto quase demencial.
³ Sacanagem, o Mojo Jojo pelo menos é engraçado.

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PÓS-ESCRITO DE 22.12.2025

Idiotas da subjetividade

Sim, já escrevi um texto sobre O agente secreto, mas certa conversa fiada que rola por aí a respeito do filme e, sobretudo, da recepção do filme me fez pensar em algumas coisas, que procuro formular abaixo.

Há um bocado de gente tentando vender uma “leitura” d’O agente secreto como um filme lacunar, elíptico ou coisa que o valha, objeto estético “complexo” que não se explica e, portanto, é “provocativo” e “faz pensar”. Logo, se algum espectador aponta o que há ali de objetivamente inverossímil, mal escrito e obtuso dentro da estrutura proposta pelo filme, dentro das regras do jogo que o filme propõe, é porque “não entendeu”, é incapaz de assumir uma postura ativa diante da obra e “construir” ou “reconstruir” a narrativa etc.

Eu acho isso bem engraçado.

No universo frequentado (assolado) pelos idiotas da subjetividade, tudo é relativizado — inclusive a ruindade. O que é porcaria aos olhos de x pode muito bem ser encarado como um sintoma (sic) de genialidade aos olhos de y. E, nesse caso, y olha para x com condescendência e pressupõe uma infinidade de coisas: x quer tudo mastigadinho (acusação engraçadíssima em se tratando d’O agente secreto, levando-se em conta o didatismo imbecilizado e imbecilizante da porção contemporânea da história), x não entendeu o que há “por trás” de tudo (sabe o que há por trás da tela? Vazio), x é um colonizado (outra acusação engraçadíssima, uma vez que os gêneros e códigos (mal) reprocessados pelo filme são quase todos gringos).

Ora, não estamos diante d’O agente secreto em Marienbad, mas, sim, de um filme que, longe de quaisquer dificuldades interpretativas que por ventura coloque (e ele não coloca nenhuma), evacua a sua “mensagem” urgente e necessária nas próprias mãos para depois esfregá-la na fuça do espectador. Quando aquelas duas patetas irrompem na tela para explicar o que já vemos, o diretor está dizendo: “Você é burro e precisa de uma ajudinha”.

Não há “lacunas” em O agente secreto. Não há “complexidade”, não há demanda por atividade interpretativa e de reconstrução. Há furos. Há escrita preguiçosa e irrefletida, incapaz de sustentar as próprias linhas traçadas — não, não de ligar os pontinhos, o que seria outra forma de dizer “Você é burro e precisa de uma ajudinha”, mas, sim, de oferecer elementos mínimos que iluminem ou (melhor ainda) competentemente obscureçam o périplo do protagonista.

Em vista de tudo isso, o que muitos fazem por aí é algo desonesto: louvam as supostas lacunas aqui e perdoam ou ignoram o didatismo rebarbativo & asinino ali. A bem da verdade, essa estratégia para desqualificar de saída as vozes discordantes é tão velha quanto foder em pé no Carnaval: diante de um objeto estético problemático, o cidadão (ou a cidadã) encara/afirma os problemas como “provocações” e sinais de sofisticação. Afinal, qual espectador que não tenha estrume na cabeça rejeitaria um filme formal e tematicamente “diferenciado”, na contracorrente de quaisquer banalidades e convencionalismos?

Eis o que os idiotas da subjetividade não compreendem ou fingem não compreender: os problemas d’O agente secreto são intrínsecos à proposta por ele delineada, e são problemas, não elementos de ousadia e arrojo. É um filme all over the place, coisa apontada por críticos honestos que gostaram dele. Ora, é perfeitamente possível apreciar uma obra a despeito de seus problemas, e nem me refiro ao apetitoso universo dos guilty pleasures. Cada pessoa que, diante da obra, some e subtraia, chegando a um resultado que lhe pareça ou não aceitável. Só não me venha com papo furado.

Um exemplo: gosto muito d’A última tentação de Cristo, de Martin Scorsese, mas suas condições de produção (baixíssimo orçamento, cronograma apertado etc.) e algumas escolhas (inclusive de elenco) evidentemente afetaram o resultado final. Há sequências achamboadas, mesmo risíveis, mas, para o meu gosto, somando e subtraindo, o filme sobrevive às suas muitas deficiências e oferece alguns belos momentos. Ainda me lembro da crítica de José Geraldo Couto publicada na Set à época do lançamento do filme em VHS: ele apontava as passagens ruins, mas também enxergava ali uma “inspiração sincera” que o animava e produzia bons momentos. Somar, subtrair.

Outro exemplo: Soberba é um dos meus filmes favoritos na vida, mas ele obviamente foi mutilado pelos produtores, e a versão de que dispomos (curta, atabalhoada, machucada) é bem distante daquela que Orson Welles entregaria se não tivessem arrancado o filme dele. Somando e subtraindo, aos meus olhos, o estrangulamento não mata sua beleza — mas, sempre que o revejo, sinto os dedos apertando a garganta.

Se escrevesse uma crítica d’A última tentação de Cristo ou Soberba, eu não fingiria que o filme é excelente e tampouco acusaria os que dele desgostam de limitação interpretativa, ignorância cinefílica, preconceito ou cegueira. Assim, se a bagunça (ou “pirraça”) d’O agente secreto lhe apetece, ótimo, seja feliz, sejam felizes, e torço (realmente torço) para que o filme siga colecionando prêmios e sendo visto pelo mundo afora: quanto mais visibilidade para o cinema brasileiro, melhor. Peço apenas que não boqueteie um cavalo e saia por aí dizendo que chupou um unicórnio, sim? Muito obrigado.

Recipiente duradouro

A terra da doce eternidade resgata a excelente prosa de Harper Lee em textos de ficção e não ficção

Resenha publicada em 21.10.2025 no Estadão.

“Nós, americanos, gostamos de colocar nossa cultura em recipientes descartáveis”, escreve Harper Lee (1926-2016). “Em nenhum lugar isso fica tão evidente quanto na maneira como tratamos nosso passado. Descartamos vilarejos, cidades pequenas e até mesmo cidades grandes quando envelhecem, e agora estamos no processo de descartar também os registros da nossa história.” O sentido da argumentação que ela traça a partir daí é tão surpreendente quanto acertado, e não queremos estragar a surpresa dos leitores. O texto é intitulado “Romance e grandes aventuras” e está na coletânea póstuma A terra da doce eternidade, recém-lançada pela Record, com tradução de Marina Vargas.

O volume é híbrido, apresentando dezesseis textos: oito contos do início da carreira da autora e oito “ensaios” (na verdade, peças variadas de não ficção que incluem uma palestra, uma aberta carta para Oprah Winfrey e uma receita culinária tão inusitada que parece um conto pós-modernista). Há, ainda, uma ótima introdução assinada pela jornalista Casey Cep.

Nascida no interior do Alabama, Harper Lee é uma das escritoras mais queridas de que se tem notícia graças a um único romance: O sol é para todos (1960), vencedor do Prêmio Pulitzer e um tremendo best-seller, com mais de 40 milhões de cópias vendidas mundialmente. A popularidade do livro se deve ao talento da autora que, mesmo enfrentando temas pesados como violência sexual e racismo no Sul dos Estados Unidos na década de 1930, exala bom humor e calor humano. Boa parte disso é devido à escolha e à voz da narradora concebida por Lee: Jean Louise “Scout” Finch, que no começo da história tem apenas seis anos de idade e é filha de Atticus Finch, a “bússola moral” da cidadezinha sulista onde vivem e um dos personagens mais íntegros da história da literatura — que Atticus não soe inverossímil ou mesmo pateta é um dos inúmeros méritos da autora.

Aqui, é importante esclarecer que o outro livro publicado em vida por Lee, Vá, coloque um vigia (2015), não é uma sequência de O sol é para todos (como, aliás, foi divulgado à época do lançamento pelas editoras norte-americana e britânica), mas uma versão anterior daquele mesmo romance que a consagrou. Ela terminou de escrever esse tratamento em 1957 e o editor Tay Hohoff achou que havia excelentes elementos ali, mas o livro parecia uma série de anedotas, não uma narrativa pronta e acabada. Animada pelas discussões com o editor, Lee repensou e rescreveu tudo, alcançando organicidade e fazendo alterações substanciais (em Vigia, por exemplo, Atticus é um segregacionista), além de, é claro, conceber o tom da obra final.

É importante ressaltar isso porque alguns dos contos publicados em A terra da doce eternidade, escritos entre o final dos anos 1940 e o início da década seguinte, logo após a mudança da autora para Nova York (depois de abandonar o curso de direito), apresentam elementos que seriam desenvolvidos em O sol é para todos. “Binóculo” e o conto que dá título à coletânea antecipam, por exemplo, o segundo e o sétimo capítulos do romance.  Em “O suprassumo”, narrativa carregada de ironia (note a figura do “negro ianque”), Lee ainda está processando seus sentimentos para com a família e a terra natal, como, aliás, ainda fazia na versão que eventualmente publicaram como Vá, coloque um vigia.

Fugindo do universo e da “arqueologia” de seu grande romance, há três contos muito bem humorados que se passam em Nova York: “Um quarto cheio de ração” (em que também observamos uma transição do interior para a metrópole, passando pela vida universitária), “Os que assistem e os que são assistidos” (que, ao comentar os hábitos dos espectadores de cinema, talvez pudesse integrar a segunda parte da coletânea) e “Isso é showbusiness?” (em que a narradora caipira se vê trabalhando em algo que não entende e encarando tudo com uma espirituosidade hilariante).

Dentre os textos de não ficção, destacamos “Natal para mim” (em que o gesto generoso de um casal de amigos viabiliza sua dedicação à escrita), “Gregory Peck” (a visita aos sets da adaptação cinematográfica de O sol é para todos), “Truman Capote” (de quem Lee foi amiga desde a infância) e o já citado “Romance e grandes aventuras” (uma palestra sobre o historiador sulista Albert James Pickett).

Em geral, volumes que reúnem escritos assim dispersos costumam ser irregulares, e A terra da doce eternidade não foge à regra. No entanto, graças à organização perspicaz — sobretudo dos textos ficcionais — e ao quase ineditismo de certos textos, o livro pode interessar não só aos fãs de Harper Lee, mas a qualquer pessoa afeita à boa prosa, aqui disposta e apresentada em recipiente nada descartável.

As parábolas de Vollmann

Resenha publicada no Estadão em 25.10.2025.

Central Europa, um dos melhores romances do século XXI, é lançado no Brasil.

Antes de nos concentrarmos em Central Europa (Companhia das Letras, tradução de Daniel Pellizzari), convém apresentar seu autor, cuja originalíssima produção ficcional era até o momento ignorada pelas editoras brasileiras — em 2010, a Conrad publicou o ensaio Por que vocês são pobres?, traduzido por Michele de Aguiar Vartuli. Não que o californiano William T. Vollmann (1959) seja conhecidíssimo nos Estados Unidos, na Europa ou onde quer que seja. Central Europa foi agraciado com o National Book Award em 2005, mas convém lembrar a piada que o filho de outro gigante, William Gaddis (ele próprio “bicampeão”), fez sobre tal prêmio: para a maioria esmagadora do público, NBA significa National Basketball Association.

Há outra característica que costuma afastar os leitores (e também alguns editores) da obra de Vollmann: a extensão de vários de seus livros, tanto os de ficção quanto os de não ficção. The Dying Grass, sua obra-prima, ostenta irretocáveis 1356 páginas; a edição original de Rising Up and Rising Down, ensaio portentoso acerca da violência, soma 3352 páginas; e o próximo romance do autor, A Table for Fortune, a ser lançado em março de 2026, terá 3400 páginas. Perto disso, com míseras 768 páginas, Central Europa não passa de um catatauzinho.

Alternando ficção, ensaios e alguns tomos notáveis de pesquisa e reportagem, como Imperial, ou misturando tudo isso (The Rifles), Vollmann encontrou uma forma única de lidar (sem ser engolido) com o tsunami pós-modernista surfado por autores como John Barth, Thomas Pynchon, Joseph McElroy e David Foster Wallace. Ele desenvolveu uma abordagem musculosa que lembra John Steinbeck, mas com uma dicção particularíssima, conforme podemos observar neste trecho de Central Europa: “As florestas verdejavam ensandecidas e veranis, nutridas por atrocidades. Parecia a Gerstein, tamanha a profusão de folhagens, que o trem agora passava por dentro da terra, e por alguma ilusão o tremular das folhas lembrava veios de calcedônia cristalina. Afinal de contas já anoitecia, o céu ficando azul-da-prússia pelas janelas do trem. Mais adiante se estendia a ainda mais abundante escuridão folhosa do verão na zona rural polonesa. (Mas a Polônia, é claro, tinha deixado de existir.)”. Talvez seus melhores romances sejam aqueles pertencentes ao ciclo Seven Dreams, um gigantesco (quase 4 mil páginas até o momento) painel da colonização da América do Norte formado pelos romances The Ice-Shirt, Fathers and Crows, Argall e os já citados The Dying Grass e The Rifles. Vollmann ainda não “sonhou” dois dos sete livros planejados. Torçamos para que ainda faça isso.

Seven Dreams é um bom gancho para enfim chegarmos à obra resenhada aqui, pois o autor traça uma distinção importante entre suas investidas na seara dos romances históricos: Central Europa não tem “uma base tão rigorosa em fatos históricos” quanto o ciclo supracitado, constituindo “uma série de parábolas sobre agentes morais europeus — famosos, famigerados ou anônimos — em momentos de decisão”. Eis uma boa forma de descrever esse romance que abraça boa parte do século XX, e cujo centro (a partir do qual as “parábolas” espiralam) é a Segunda Guerra Mundial. Assim, entre os personagens reais que Vollmann recria e ficcionaliza ao longo de suas páginas, estão artistas como o compositor russo Dmitri Chostakóvitch, a artista plástica alemã Käthe Kollwitz e a poeta russa Anna Akhmátova, os indefectíveis tiranos Adolf Hitler (“sonâmbulo”) e Josef Stálin, e muitos outros. Por ter atravessado o grosso do século XX, sobrevivendo aos expurgos de Stálin, à invasão nazista e à esquizofrenia da Guerra Fria, Chostakóvitch é a figura que pontua a coisa toda, como um tema recorrente.

Em um livro tão extenso e nada convencional, convém ressaltar a estruturação inteligente que apresenta os capítulos aos pares, às vezes alternando seções longas e curtas, mas sempre complementares. É assim que observamos, por exemplo, o contraponto narrativo nas histórias de Vlasov (general soviético que se tornou colaborador nazista) e Paulus (oficial nazista que se aliou aos soviéticos para denunciar os crimes hitleristas e foi testemunha de acusação no Julgamento de Nuremberg). O primeiro protagoniza o capítulo “Ruptura”; o segundo é “O último marechal de campo”. Vollmann também usa personagens como Kurt Gerstein, um “evangélico infiltrado” nas SS-Totenkopfverbände (as “unidades da caveira” que administravam o Holocausto), para arriscar novas abordagens de temas já muito explorados. Além disso, ele é um mestre na criação de primeiras pessoas que oferecem perspectivas “internas”, por assim dizer, como as vozes do agente soviético Aleksandrov (que vigia e acossa Chostakóvitch) e de um soldado nazista em “Operação Cidadela” — “Quantos outros milhares teríamos de matar? O trigo subia até os ombros de nossos cavalos de aço, e então nos afogava”.

Vollmann também resgata indivíduos hoje um tanto obscuros, como a atriz alemã Lisca Malbran, cuja presença fantasmagórica paira sobre a derrocada do Terceiro Reich, e Hilde Benjamin, a ministra da justiça na Alemanha Oriental que vingou a perseguição que sofrera dos nazistas condenando inúmeros dissidentes e desafetos à morte; por tais expurgos, foi gentilmente apelidada de “Guilhotina Vermelha”.

Não obstante as atrocidades narradas, o que fica após a leitura é a resistência não raro silenciosa de indivíduos como Chostakóvitch. São exemplos como os dele que levaram Vollmann a afirmar, numa entrevista ao jornal Frankfurter Allgemeine em 2013, que Central Europa “é um livro otimista”, pois, ainda que a “nossa existência esteja sujeita a um controle total, ainda podemos permanecer nós mesmos até certo ponto”. Eis algo que também podemos dizer acerca desse autor e de seus esforços sem paralelos na literatura contemporânea.