A normalidade do desconforto

Resenha publicada em 10.08.2020 no Estadão.

A certa altura de O Avesso da Pele (Cia. das Letras), lemos algo sobre a “perversidade do racismo”, que impede o indivíduo de “revisitar os próprios infernos”. No entanto, é tal revisita que alimenta o romance de Jeferson Tenório. Um de seus vetores principais está no destrinchar de uma relação paterno-filial, algo que é de certa forma anunciado desde a epígrafe, retirada de Hamlet, o gélido bafejo do fantasma mais famoso da literatura ocidental. Tampouco é por acaso que, em sua maior parte, a narrativa seja endereçada ao pai já ausente e, por conseguinte, a nós — em uma obra crivada de exclusões de toda espécie, a narração em segunda pessoa, aquele “você” tantalizante, está ali para incluir o leitor, convocá-lo, agarrá-lo.

A voz do filho desfia uma orfandade essencial, que abarca também as solidões paterna e materna. O filho — essa voz solitária, percuciente — se chama Pedro; os pais, Henrique e Martha. Boa parte do romance se detém, de forma alternada, nas histórias desses pais. O tom direto procura alcançar algo dessas vivências, dessa lida constante com os “afetos na precariedade”. Os protagonistas são negros, e é inevitável que muito de suas vidas seja condicionado pela raça ou, mais precisamente, pelo racismo. Assim, a “normalidade do desconforto” acompanha cada passo que eles dão, cada escolha, cada desvio, cada recuo, cada avanço, cada salto. Ressalte-se o longo trecho (no quarto capítulo da terceira parte) em que são descritas todas as abordagens policiais sofridas por Henrique ao longo da vida, e “sofridas” é o termo obviamente apropriado, dada a violência estrutural e desestruturante desse tipo de “ação” do Estado.

A brutalidade policial não é a única que atravessa o romance, claro, embora talvez seja a mais evidente, por razões que o leitor perceberá desde o começo (“E ser confundido com bandido vai fazer parte da sua trajetória”). Há outras brutalidades, exploradas com um viés quase antropológico — o advogado “babaca”, o noivado de Henrique com uma moça branca, o primeiro casamento de Martha (sobretudo no que diz respeito à relação com a sogra: “Agora você é da família e isso significa que pode ajudar a manter a casa dos seus sogros limpa também. Uma moreninha forte igual a você pode ajudar bastante”), a crise conjugal, as condições terríveis em que Henrique trabalha como professor de escola pública etc.

São muitos infernos, como se vê, e Tenório investe em um esquematismo convoluto para visitá-los e revisitá-los. Em algumas passagens, os personagens discursam em vez de falar ou conversar, e não raro parecem forçados pelas próprias circunstâncias a mergulhar em algum nível de estereotipização. Há um método aí. Mesmo quando não funciona tão bem, ele lembra o leitor de que, em nosso país, até a violência opera por clichês, condenados que estamos à trágica reiteração das desgraças cotidianas.

Por outro lado, a melhor passagem de O Avesso da Pele foge um pouco desse procedimento: o professor Henrique encontra uma forma de apresentar Dostoiévski aos seus alunos ou, melhor dizendo, de fazê-los perceber que a São Petersburgo de Crime e Castigo é um estado de espírito bastante familiar, uma paisagem que também lhes diz respeito. O reencontro de Henrique com o prazer de lecionar é efêmero, mas a anormalidade do conforto emociona, sobretudo em um romance que nos mostra a cada página que, no Brasil, o avesso é a norma.