Sobre “Vício Inerente”, de Thomas Pynchon

Resenha originalmente publicada no jornal O Globo, em 18/12/2010.

vicio

No livro “Bartleby e Companhia”, Enrique Vila-Matas conta a história de um professor que escreveu uma tese sobre a obra de Thomas Pynchon e queria muito conhecê-lo pessoalmente. Ocorre que o cultuado autor de “O arco-íris da gravidade” e do recém-lançado no Brasil “Vício inerente” é um recluso: não dá entrevistas, não circula pelos meios literários e acadêmicos, suas raríssimas fotografias que vieram a público datam de mais de meio século atrás e, claro, ele não aparece na televisão (exceto com um saco de papel na cabeça e em forma de desenho animado, como ocorreu anos atrás num episódio de “Os Simpsons”). Mas o tal professor insistiu e, sabe-se lá como, conseguiu encontrar-se com o escritor. Anos depois, convidado para uma festa em Los Angeles na qual Pynchon estaria presente, surpreendeu-se ao constatar que a pessoa que ali estava não era, em absoluto, a mesma com a qual se encontrara antes. Ao confrontá-lo, rememorando o encontro inicial e perguntando qual seria, afinal, o Pynchon genuíno, ainda teve de ouvir: “Então, você terá de decidir qual é o verdadeiro”.

A história, a exemplo de todas que se referem a Pynchon, pouco ou nada diz sobre quem ele é. Afinal, é perfeitamente possível que nenhum dos dois homens com quem o professor se encontrou fosse o escritor. Por outro lado, talvez ela nos diga bastante do tipo de narrativa que Pynchon vem desenvolvendo desde os seus primeiros trabalhos. Em tudo o que ele escreveu até hoje, há esse apreço pelo embaralhamento, pelo difuso, talvez a única maneira de enxergar uma realidade em constante esboroamento, entrópica por natureza e para todos os efeitos. Mais do que um mero ficcionista e menos do que uma “persona literária” (uma vez que optou por praticamente inexistir aqui fora), Pynchon seria uma espécie de princípio organizador por trás dessa realidade que recria, subverte, perverte, parodia e estilhaça por meio da (e peço perdão pela inicial maiúscula) Palavra.

“Vício inerente” é o seu romance menos ambicioso, mais relaxado (no bom sentido), mas isso não quer dizer que faça feio perante calhamaços estupendos como “Mason & Dixon” e “Against the day”. Mais do que nunca, Pynchon parece interessado em divertir, investindo em algo como um pastiche das narrativas policiais de mestres do gênero como Raymond Chandler e Dashiell Hammett, ao mesmo tempo em que desenvolve o enredo tresloucado habitual, no qual a paranoia, como sempre, reina absoluta.

A história se passa na mesma Califórnia que Pynchon recriou em “O Leilão do Lote 49” e “Vineland”, aqui no começo da ressaca do Flower Power, no primeiro semestre de 1970. O protagonista, Doc Sportello, é um detetive particular que lembra o “Dude”, interpretado por Jeff Bridges no filme “O Grande Lebowsky”, dos irmãos Coen. Está quase sempre chapado e, em função disso, tem um modo de funcionamento muito peculiar, flanando por aí e enxergando o que está ao redor e, sobretudo, o que muitas vezes não está ao redor. No curso da investigação, ele vivencia acontecimentos e, para concluir o que quer que seja, estabelece toda sorte de conexões, de tal maneira que o ponto ao redor do qual tudo parece orbitar e para o qual tudo ou quase tudo converge é mesmo o da boa e velha paranoia.

Logo no começo, Sportello é contratado por uma ex-namorada, Shasta, para descobrir o paradeiro do amante dela, um figurão do mercado imobiliário. Como não poderia deixar de ser em se tratando de uma viagem pynchoniana, a investigação desse sumiço vai resultar em coisa muito maior e bem mais complicada, uma tremenda conspiração que envolve uma multidão de personagens e um monte de intrigas paralelas.

Para além do enredo rocambolesco, é sempre um prazer imergir na prosa de Pynchon. Em “Vício inerente”, o uso das gírias locais, sobretudo por meio do lero de Sportello, reinstaura uma realidade que, de resto, nunca existiu daquela forma ou, mesmo que tenha existido, àquela altura (1970, reitero) já estava indo para o espaço. E é algo que parece estar sempre presente nos livros de Pynchon: personagens que perambulam por ambientes, físicos ou mentais, que estão ruindo, esfarelando, no contexto mesmo da entropia que a tudo desagrega.

Não por acaso (e, sejamos paranoicos, nada é por acaso), temos a neblina que a tudo engole no desfecho, quando “a terceira dimensão fica cada vez menos confiável”, desaparecendo com o mundo e atirando o protagonista na “silente brancura adiante”, em “uma caravana em um deserto de percepção”. Ali, sugere-se que aquela neblina densa não só se espalha, como parece prestes a se estabelecer por tempo indeterminado. Para um personagem como Sportello, marginal na mais completa acepção do termo, só resta parar no acostamento e contar com a sorte, esperar que a neblina se dissipe e que alguma outra coisa tome o lugar dela.

Em meio a essa densa neblina que ainda hoje nos envolve, “Vício inerente” é uma ótima pedida para o leitor interessado em mergulhar pela primeira vez nos livros do autor. Àqueles já familiarizados com a prosa de Pynchon, fica a sensação agradabilíssima e reconfortante de que o autor, aos setenta e poucos anos, segue escrevendo com a mesma fome e, se me permitem, lucidez de sempre.