Fuga com direção

Resenha publicada no Estadão em 05.05.2026
(na edição impressa, em 12.05.26).

Clique nas imagens para ampliar ou leia o texto abaixo.

Lá é o tempo, de Maria Fernanda Maglio, foge de resoluções fáceis ao lidar com amizade, violência e memória.

Uma forma de apresentar Lá é o tempo (Todavia), segundo romance da paulista Maria Fernanda Maglio, é dizer que ele gira em torno de dois assassinatos e um suicídio e da possível reconstrução narrativa que, no interior do livro, um escritor cheirador (ou cheirador escritor, é difícil estabelecer o que vem primeiro) tenta perpetrar a partir de uma investigação in loco. Outra forma é sublinhar um tanto sombriamente a bela amizade entre dois personagens e o modo como a violência primeiro os separa e depois, ironicamente, trata de uni-los.

Não há, obviamente, nenhum elogio da violência aqui, e o livro não se esgota nessas apresentações tão ligeiras quanto precárias. Mas, por outro lado, é importante assinalar que há nele “um presságio de desgraça misturado com uma euforia impaciente, uma sensação que é o contrário de sentir paz, exatamente o contrário de sentir paz”, de tal forma que o “mistério” não é destrinchado, mas alimentado do princípio ao fim.

Há duas dimensões narrativas principais ou, melhor dizendo, diretamente apreensíveis pelo leitor, aqui expostas conforme introduzidas no romance: em um primeiro plano, década de 1990, temos uma cidade interiorana e, nela, um garoto de treze anos chamado André, criado pela avó e pela mãe (desconhece o pai), impactado com a notícia do assassinato de um mecânico chamado Salu, de quem se sentia muito próximo; em um segundo plano, temos o “escritor” que, vivendo em São Paulo e trabalhando como professor, casado com uma mulher cujo interesse principal é engravidar (“Você nem sabe se quer ter filho.”), bebendo café com pouco açúcar e fazendo pilates (e aqui o leitor talvez pense: você perdeu feio, querido), enfim, esse sujeito ouve confusamente a história de André, Salu e cia. da boca de uma pedinte que parece saída de Twin Peaks e, sentindo que ali está a oportunidade incontornável de retomar seu projeto de escritor (cheirador), abandona a esposa, embarca para a tal cidadezinha e começa a investigar o(s) crime(s).

Esses dois momentos narrativos, por assim dizer, são intercalados com os poucos “depoimentos” que o escritor angaria em sua pesquisa, incluindo do advogado que defendera André (algo que não é spoiler, pois exposto logo no começo: André teria matado o suposto assassino de Salu) e de um dos amigos do garoto. Ele também se envolve com a filha do policial que lidara com os casos, homem agora senil e vivendo em uma casa de repouso, incapaz de falar — exceto por uma palavra dita perto do fim e que, também ironicamente, alimenta uma espécie de círculo quando, frustrado, o escritor busca uma linha narrativa ou uma corda para se salvar.

Maglio alterna técnicas distintas em momentos distintos. Há uma terceira pessoa limitada quando acompanhamos André em seu luto (a “sessão espírita”, a visita ao cemitério), na convivência com Salu (a oficina e os carros, a ida ao circo e o globo da morte, os pastéis etc.) e no desenrolar das violências (o mergulho na mata, a viagem com os policiais, a Febem etc.). A parte do escritor é narrada em segunda pessoa, o que provoca um curioso efeito simultâneo de aproximação e distanciamento, pois não temos um “eu” ou um “ele”, mas um “você”, e um “você” cada vez mais perdido e encalacrado na própria armadilha compulsiva que, pela sua própria natureza, jamais será saciada: “Você não está em uma encruzilhada, você estaria em uma encruzilhada se existissem várias possibilidades de caminhos”, mas “não há caminho nenhum, só um muro”. Por fim, quando dos “depoimentos” (e também em certas interações com a filha do policial), a voz do escritor desaparece e temos apenas as vozes dos interlocutores, como se eles dialogassem com um fantasma.

O título do romance nasce da justaposição de dois fragmentos. Temos uma palavra escrita no teto da oficina de Salu, “lá”, e uma frase curta, “é o tempo”, que André encontra em um pedaço de papel preso “à cordinha de descarga com um fiapo”, em um banheiro de posto de gasolina, quando está sendo levado por dois policiais para a Febem. Tanto o “lá” quanto o “tempo” são teimosamente elusivos no romance, deslocando-se e escapando a cada aproximação. De modo inteligente, Maglio evita quaisquer resoluções fáceis e parece abraçar a sensação de irrealidade sugerida desde o início, quando a pedinte apresenta ao escritor aquilo que o obcecará. Diante do mistério inalcançável, percebemos que importam a viagem e a busca — matérias que constituem a boa literatura.