Estava lendo “Há quem prefira urtigas”¹ (1929), de Junichiro Tanizaki, e pensando no quanto algumas passagens, embora divertidas (para o leitor cínico, não para a criançada gatilhesca e muito menos para os personagens), pareciam meio pedestres. Eu me refiro, especificamente, à visita do primo do protagonista, à manhã sonolenta em que a criança brinca com os cachorros, o pai folheia uma tradução inglesa d’“As mil e uma noites” e, enquanto come iguarias ocidentais, a mulher conta ao hóspede uma “novidade” das mais inquietantes. Claro que o tom dos diálogos serve para sublinhar o desconforto da situação vivida pelo casal (o primo tenta aconselhá-los, mas a indolência dos cônjuges parece incontornável), e a coisa oscila entre uma risível sensação de vergonha alheia e a mais pura aflição.
A situação do casal é puro Tanizaki: o marido, Kaname, perdeu o interesse sexual pela esposa, Misako; ela sofre muito com isso, e sofre mais ainda ao se apaixonar por um colega do curso de francês (detalhe importante); Kaname, achando-se magnânimo, faz um acordo com ela: autoriza o adultério, desde que haja discrição, e combina um divórcio lento, gradual e seguro, que não choque (muito) as famílias dos envolvidos nem transforme Misako em uma pária. O problema é que, passados dois anos, nada mudou: ela se encontra discretamente com o amante, Kaname leva a situação com a barriga (enquanto visita regularmente uma prostituta ocidental, claro, porque ninguém é de ferro) e o filho deles já percebeu que há algo de errado.
Os impactos da ocidentalização do Japão permeiam o livro inteiro. Tanizaki contrasta o comportamento e os gostos “modernos” do casal com a postura do pai de Misako, com seu apreço pelo bunraku (o tradicional teatro de bonecos) e a companhia de Ohisa, uma moça décadas mais jovem (a certa altura, Kaname confunde a concubina do velho com um boneco bunraku). Eles todos parecem fundamentalmente deslocados. Kaname se pretende “moderno”, mas divide as mulheres entre “caseiras” e “rameiras”, “deusas” e “passatempos”, o que obviamente explica sua impotência conjugal e o interesse tanto pela puta europeia (“rameira”, “passatempo”) quanto pela concubina do sogro (“deusa”, “caseira”).
Kaname oscila, o que também se reflete em seus interesses estéticos: lê a caríssima edição inglesa d’“As Mil e uma noites”, mas também vai com o sogro ao teatro bunraku e a uma interminável apresentação de joruri² (talvez a melhor passagem do livro). Na verdade, e isso é bem engraçado, Kaname como que passa a se imaginar vivendo como o sogro dali a alguns anos (e talvez na casa dele!), um velho aferrado às tradições e à sua concubina.
O desfecho inconclusivo reafirma todas essas inadequações, covardias e ambivalências. Tanizaki não tem a sutileza de um Kawabata, mas seu tom relativamente desbragado encontra beleza em outros lugares e de outras maneiras, como no enamoramento (pelos motivos “errados”, mas foda-se) de Kaname pelo bunraku e na preocupação genuína do velho para com o casal. Aliás, o trecho final é de uma ironia deliciosa: o pai tentando se impor sobre a filha; o genro tomando banho na mesma água usada pelo sogro e fantasiando isso e aquilo; depois, a boneca pendendo no escuro, de tal forma a confundir Kaname; e a chuva oferecendo um alívio tão momentâneo quanto ilusório.
E ainda há quem prefira urtigas.
¹ Li a edição da Cia. das Letras, com tradução de Leiko Gotoda.
² Canto narrativo com acompanhamento do shamisen, aquele instrumento japonês tradicional de três cordas. As canções do bunraku são joruri, claro. Não por acaso, o bunraku também é chamado de Ningyo joruri, sendo “ningyo”, “boneco”.
