Pnin

Vladimir Nabokov afirmou que seu livro “mais alegre” (gayest) é “King, queen, knave”. Está no prefácio que ele escreveu para a versão em inglês¹ do romance, o segundo que publicou na vida, em 1928, quando vivia em Berlim e ainda romanceava em russo. Esse livro não é editado no Brasil desde a década de 1970; eu o li em meados dos anos 1990 e, de fato, ri bastante do triângulo amoroso, do frustrado plano de assassinato, da morte imprevista de um dos vértices e, claro, daquele riso histérico no final.

Na mesma época, encarei “Pnin”² pela primeira vez. Nabokov começou a escrevê-lo concomitantemente à revisão final de “Lolita”. Muito já se falou sobre o quanto os protagonistas desses dois romances são diferentes: o hebéfilo, abusador e assassino Humbert Humbert dispensa apresentações; já Timofey Pnin é uma criatura tão desastrada quanto fundamentalmente boa, e todos deveríamos conhecê-lo melhor.

Há muito de Nabokov em Pnin. Ambos são expatriados russos. Ambos leciona(ra)m em universidades norte-americanas. Ambos perderam entes queridos nos campos de concentração nazistas: Nabokov perdeu o irmão, Sergei, que morreu disentérico e faminto em Neuengamme; e Pnin perdeu seu primeiro amor, a judia russa Mira Belochkin, assassinada em Buchenwald.

Véra, a esposa de Nabokov, também era judia. E eles quase não escaparam dos nazistas: fugiram de Paris para os EUA em maio de 1940, quando os alemães já raivavam no horizonte. Sergei não sabia da fuga do irmão, cujo apartamento encontrou vazio ao chegar a Paris (ele morava em Berlim), e decidiu continuar na Europa por amor ao seu companheiro, Hermann Thieme. Em 1941, Sergei foi preso pela Gestapo por ser homossexual; libertado graças aos apelos de uma prima³, acabou preso outra vez em 1943 por criticar abertamente o regime nazista. Dessa vez, não aliviaram e ele foi despachado para Neuengamme.

“Pnin” apresenta formas peculiares de lidar com os mortos, tanto os ficcionais quanto os reais. No começo, eles surgem como uma alucinação depois que Pnin tem um piripaque, quase como uma espécie de efeito colateral: “Assassinados, esquecidos, carentes de vingança, intocados pela decomposição, imortais, muitos de seus velhos amigos espalhavam-se pela sala mal iluminada (…)”. Ele não vê seus mortos no além, pois não há além (morrer, afinal, é apenas “despojar-se”, “mesclar-se à paisagem”); ele vê seus mortos aqui, em um delírio (quase) terminal.

Mas, quando sofre outro piripaque, não há mais fantasmas ou alucinações; o que há é coisa bem pior: a lembrança quase palpável dos que se foram e a dor que isso acarreta, pois “Mira continuava a morrer muitas mortes na mente dele, ressuscitando a cada vez para morrer de novo, e de novo”. Há, em suma, a consciência da morte e dos mortos, e a certeza da inexorabilidade da coisa. Mas a hora de Pnin ainda não chegou, o “espasmo” passa e ele vai tomar chá e jogar uma partida de xadrez com um amigo (outro expatriado russo; outro egresso de uma Rússia morta e enterrada), não sem antes constatar que também o “céu estava morrendo”.

Além do humor, o que mais me agrada no livro é a maneira como o narrador — cuja identidade é revelada apenas ao final, quando passamos a desconfiar ainda mais dele — jamais ridiculariza ou sacaneia o personagem-título. Ele descreve suas trapalhadas, seu inglês tosco, seus desencontros, mas Pnin nunca é transformado em um idiota (muito embora, realisticamente, muitos dos que convivem com ele o enxerguem como tal; mas essas são pessoas mesquinhas, antipáticas e boçais, como o picareta que chefia o departamento de francês, mas não fala francês). Sentimos ternura por Pnin mesmo quando o ouvimos (sic) levando um tombo na escada.

Aliás, instado pelo grande editor Pascal Covici, Nabokov desistiu de matar Pnin e fez alterações importantes na história, concebendo, inclusive, uma circularidade narrativa das mais felizes — o romance como que espelhando o formato da cabeça de Timofey, aquela “vasta cúpula bronzeada” de alguém assim “idealmente calvo”. Talvez Pnin seja o “cadáver fluorescente” em cujo interior vivemos (e morremos) todos.

É um livro que, não obstante a vida acidentada, nômade e solitária do protagonista, transmite uma alegria muito própria. Às vezes, essa alegria está nos lances francamente cômicos, “pninianos”; mas, no geral, ela se faz presente desde a urdidura do texto, repleto de imagens e achados nabokovianos.

“Era apreciado (…) por suas inesquecíveis digressões, quando removia os óculos para lançar um olhar benigno sobre o passado enquanto massageava as lentes do presente.”

“‘Entretanto’, acrescentou Pnin com grande objetividade, ‘a polícia metafísica russa também sabe quebrar ossos físicos muito bem.’”

“Ele não acreditava num Deus autocrático. Acreditava, vagamente, numa democracia de fantasmas. As almas dos mortos talvez formassem comitês que, em sessão permanente, cuidavam dos destinos dos vivos.”

“Para Pnin, (…) o novo período escolar começara excepcionalmente bem: nunca tivera tão poucos alunos (…) nem tanto tempo para suas pesquisas. Havia muito essas pesquisas tinham atingido o estágio fascinante em que a busca supera o objetivo e surge um novo organismo, qual parasita numa fruta que apodrece.”

Viram? Alegria pura.

(Agora, preciso revisitar o gayest “King, queen, knave”.)

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¹ A versão em inglês de “King, queen, knave” é de 1968. Foi revisada pelo autor; a tradução coube ao filho dele, Dmitri Nabokov. A edição que li nos anos 1990 — “Rei, valete & dama” — era da Record, com tradução de A. B. Pinheiro de Lemos (salvo engano). Essas edições brasileiras dos anos 1960 e 70 estão pelos sebos.

² A edição mais recente de “Pnin” saiu pela Cia. das Letras em 1997, traduzida por Jorio Dauster (o livro ainda não ganhou uma reedição pela Alfaguara, como vários outros do autor).

³ A prima que ajudou Sergei a se safar era Sofia Dmitrievna Fazold (née Nabokova), irmã mais velha do compositor Nicolas Nabokov. E o livro de Nabokov no qual a sombra do irmão morto se apresenta de forma mais densa talvez seja “A verdadeira vida de Sebastian Knight”.