
Prae, de Miklós Szentkuthy¹, se passa na Côte d’Azur e uma de suas protagonistas é Leatrice, prostituta russo-judia que trabalha em um clube noturno (“Perspective”; nome quase tão bom quanto “Bada Bing!”, vai). A certa altura do romance (no final do primeiro volume), ela decide mudar de vida e abraçar uma existência menos materialista, por assim dizer. Há outros personagens centrais: Ena, amiga de Leatrice; Leville-Touqué, filósofo e escritor francês; Halbert, um inglês; e o pai de Halbert, um clérigo (e aqui é impossível não pensar no pai de Wyatt em The Recognitions) (mitraísmo: quem nunca?).
O romance tem três partes, as quais são divididas em 14 capítulos. Segue um resumo. Parte 1 (capítulos 1-8): Leatrice tem uma discussão com Leville-Touqué e Halbert, após o que ela vai para um hotel e aluga um quarto com vista para o Mediterrâneo. Parte 2 (capítulos 9-13): Leatrice contempla o mar e rememora o passado. Parte 3 (capítulo 14): os diários do pai de Halbert.
Como se vê, externamente falando, muito pouco “acontece” no romance, que se fixa mais nas rememorações e digressões dos personagens. E, mesmo aqui, não são flashbacks usuais: Szentkuthy lança mão de uma estruturação idiossincrática, em que os personagens, por meio de livres associações, evocam paisagens, sonhos, objetos, indivíduos e sentimentos diversos; essas evocações, não raro, são repisadas por meio de digressões e análises detalhadíssimas, nas quais um simples gesto (por exemplo) é desmontado à exaustão. Em geral, apresenta-se um arremedo de concepção conceitual a partir do gesto (ou objeto, ou sentimento, ou evento, ou indivíduo) evocado, e o narrador recorre a inúmeras analogias visuais para melhor destrinchar tal conceituação.
Szentkuthy alcança um efeito quase delirante com esse estilo idiossincrático, pois a conceituação está ancorada em uma imageria “puramente” literária e não é, portanto, “filosófica” de fato (embora deva muito — e não raro parodie — o discurso filosófico); a preocupação maior não está em desenvolver um “sistema”, uma epistemologia, uma estética (não obstante as passagens metanarrativas) ou sequer um ideário (por mais que, reitero, vários trechos do romance sejam estruturados assim: premissas sendo destrinchadas, possibilidades sendo examinadas, conclusões sendo ensaiadas), pois o texto é continuamente “contaminado” pelo teor poético.
Um trecho do primeiro capítulo (tradução ligeira a partir da versão em inglês): “A amostra do girassol e as linhas do tema eram caracterizadas por uma sufocante estaticidade; a terceira imagem (que introduzirei de imediato), por uma abertura redentora. Abertura, não movimento no modo como até mesmo um tranquilo, mas pequeno lago significa abertura infinita: um espelho negro de sinceridade. A sinceridade dos lagos não é um gesto moral, mas o chic óptico da infinitude: quanto mais eu olho, para mais próximo de um estrato dormente sou carregado, estrato que, de forma cada vez mais precisa, expressa o estrato do substrato; é como uma bola de chumbo que, em alta velocidade, continua sempre a mergulhar mais e mais fundo: pode ser que isso, fisicamente, seja chamado de movimento, mas, espiritualmente, os grandes limites da lascívia de um lago significam a nudez perpetuamente desnudável e cada vez mais nua da vida espacial: toda abertura pode ser um pouquinho mais aberta: eis a sugestão sádica dos tranquilos lagos de jardim” (p. 14).
Sim, Szentkuthy leu bastante Heidegger enquanto escrevia Prae (1928-1934). Aquilo que Agamben chamou, n’O Aberto, de “jogo metafísico de pressuposições e reenvio”, em que se lança o ser humano enquanto “formador de mundo” (weltbildend). Curioso como esse jogo é sublinhado pelo estilo: os dois pontos usados em profusão indicam (apontam para) esse constante esforço de abertura, ou ao menos (para) a possibilidade de/disponibilidade para abrir-se, abrindo o texto e, por meio deste (e desta abertura), tocar ou aludir a algum “estrato dormente” do mundo.
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¹ Tradução: Tim Wilkinson. Contra Mundum Presss, dois volumes, 788 e 740 páginas.
