O desjejum de Vonnegut

Texto publicado hoje n’O Popular.

café

A sátira não é para amadores, e aqui eu me refiro não só aos satiristas, mas também aos leitores — essa espécie em extinção. O norte-americano Kurt Vonnegut (1922-2007) é um dos grandes satiristas do século XX, e é um alento que a editora Intrínseca — ignorando a supracitada extinção dos leitores e também o desprezo pela inteligência e o avanço da censura — tenha relançado, em novas traduções, dois de seus melhores romances: Matadouro-Cinco e Café da Manhã dos Campeões. Vamos aproveitar que ainda não arrancaram os nossos olhos e curtir a prosa divertidíssima de Vonnegut. E vamos combinar o seguinte: como os livros são muito bons, vou dedicar um texto para cada, em vez de abordar os dois de uma vez.

Começo, então, pelo Café da Manhã dos Campeões, traduzido por André Czarnobai. Lançado originalmente em 1973, o livro gira em torno de dois personagens: Kilgore Trout, um obscuro autor de ficção-científica cujas histórias (“117 romances e 2 mil contos”) são publicadas (ou escondidas) em revistas pornográficas, e Dwayne Hoover, um empresário bem-sucedido que enlouquece depois de ser “envenenado” por uma das narrativas de Trout. O próprio Vonnegut aparece como personagem, mas revelar em que contexto isso se dá estragaria uma das melhores piadas do romance.

No entanto, até porque isso é contado logo no começo, posso dizer qual é “a essência das ideias erradas que Trout incutiu em Dwayne: todas as pessoas na Terra eram robôs, exceto uma — Dwayne Hoover”. Em outras palavras, “de todas as pessoas do universo, Dwayne era o único que pensava, sentia, se preocupava, fazia planos” e, claro, “possuía livre-arbítrio”.

O encontro entre Trout e Dwayne (e o próprio Vonnegut) ocorre em uma cidade fictícia chamada Midland, em Ohio. Convidado a participar como palestrante do festival de artes local, Trout comenta com seu periquito: “Eles não querem simplesmente o Kilgore Trout. Eles querem Kilgore Trout usando smoking, Bill. Tem alguma coisa errada”. Apesar da desconfiança, ele acaba viajando para o festival, com direito a uma parada deveras traumática em Nova York e outras atribulações pelo caminho.

Em meio às fanfarronices e ao estilo simples, mas jamais simplório, de Vonnegut, inserem-se discussões filosóficas muito importantes. A maior delas é acerca do livre-arbítrio, problematizado a partir do delírio de Dwayne e do poder epidêmico das “ideias erradas”. A loucura do personagem concentra e espelha a loucura de toda a nação: “Pelo jeito, o único tipo de trabalho que um americano consegue hoje em dia é cometer suicídio de alguma maneira”. Não custa ressaltar que, à época do lançamento do livro, os EUA estavam enrolados em uma guerra desastrosa (no Vietnã) e eram controlados pela gangue de criminosos chefiada por Richard Nixon.

É desse caldo de neuroses e psicopatias que Vonnegut arranca, com seu humor peculiar, sacadas geniais: “Trout não conseguia diferenciar um político de outro. Para ele, era como se fossem um bando de chimpanzés amorfos e maníacos. Ele escreveu certa vez um conto sobre um chimpanzé que se tornou presidente dos Estados Unidos”. Atente, também, para o lance com as leveduras (pág. 279).

Mas, claro, esse “não é o tipo de livro no qual as pessoas recebem o que merecem no final”. Como boa sátira que é, Café da Manhã dos Campeões é regado a desespero e desengano. Vonnegut aborda a destruição do meio-ambiente, a violência contra as minorias e os pobres (vide o personagem Wayne Hoobler), todas as nossas doenças políticas e sociais. É um livro que comenta, antecipa e sacaneia a nossa própria implosão. É o livro que a gente merece. No desjejum de Vonnegut, nós somos o prato principal.