Vento, fogo e fumaça

Artigo publicado hoje n’O Popular.

Saulo

Gênero ou subgênero cinematográfico muito conhecido é o dos chamados road movies, em que o ato de se lançar na estrada, seja em fuga, seja em busca de algo, seja por qualquer outro motivo, funciona como uma espécie de elemento narrativo norteador, uma bússola ficcional a ser observada junto com a paisagem que se desvela ao redor. Detour, Morangos Silvestres, Sem Destino, Alice nas Cidades, The Hit, Coração Selvagem e Central do Brasil são exemplos tão díspares quanto incontornáveis de uma determinada categoria cinematográfica em que é característico esse apelo da estrada. Os Incontestáveis, filme de Alexandre Serafini, é outra contribuição ao gênero, mas não é dele que pretendo falar neste texto e, sim, da obra literária em que se baseou, o road novel homônimo do capixaba Saulo Ribeiro, lançado no primeiro semestre deste ano pelas editoras Cousa e Patuá.

A viagem diz respeito a dois irmãos, Maurício e Belmont. Eles viajam pelo Espírito Santo em um Opala que parece movido a rock n’roll. Sua busca é por um carro que pertenceu ao pai de ambos: “Uma coisa meio nostalgia e calafrio na espinha. Olho cada detalhe da imagem, que traz um Maverick laranja mandarim ano 75, duas crianças sentadas no capô e um homem ao lado” (p. 26). Pouco antes de abandonar a família, o pai perdera o carro no jogo. Agora, sem saber muito bem por quê, ou talvez por sentir que o Maverick seria a única coisa boa que o velho teria lhes deixado, sua herança possível, por assim dizer, os irmãos tentam recuperar o veículo.

A viagem não é linear. Os protagonistas procuram comprador atrás de comprador, seguindo a pista do carro e viajando aos/pelos extremos do Espírito Santo (com direito a um bate-volta numa cidade limítrofe de Minas Gerais), onde “ser baiano, mineiro, capixaba dá no mesmo”, pois tudo é a “mesma pobreza”, o “mesmo abandono” (p. 89). Eles, assim, desenham um trajeto tão incerto quanto a busca que os move.

Em todo o percurso, arde o pressentimento do que, no fim das contas, é irreparável: “Asfalto novo. Pastos, propriedades rurais. O céu se abre no litoral, azul e manso. Mau e Baiana, Lila e Bel. Chegam. Descem da máquina-automóvel. A areia da praia vazia cede aos passos, deixando pegadas fundas e fugidias. Os grãos são levados ao vento para formar e reformar outra paisagem, incessantemente” (p. 74). O efêmero sempre desemboca na ausência. Descortina-se um país incerto e informe como a própria memória dos protagonistas, e uma coisa não só reflete a outra (em meio à poeira) como elas parecem se alimentar uma da outra, o que se torna evidente no terço final do romance.

Ali, o ensaio de uma sublevação popular ecoa outra, a do Estado da União de Jeová – na década de 1950, houve de fato uma revolta camponesa no noroeste capixaba, em que posseiros liderados por um certo Udelino Alves de Matos confrontaram fazendeiros, jagunços e policiais. Acabaram massacrados. Em Os Incontestáveis, a fantasmagoria do conflito como que incorpora um dos protagonistas. Tal desvio narrativo é quimericamente necessário, embora (ou porque) passageiro, como, aliás, toda e qualquer paisagem, seja interior, seja exterior. Saulo Ribeiro é esperto o bastante para devolver seus personagens à estrada. O resto é apenas “vento, fogo e fumaça”.