Poemas que resguardam a lua doente de fumar

MAHMOUD DARWISH
(1942-2008)

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Mahmoud Darwish é tido como o poeta palestino mais importante de sua geração. O que posto aqui são traduções de traduções. Recorri às versões em inglês de Fady Joudah (transcritas mais abaixo). Os poemas integram a coletânea The Butterfly’s Burden (Cooper Canyon Press, 2007). Peço desculpas desde já por quaisquer deslizes e imprecisões.

…………

O CAVALO CAIU DO POEMA

O cavalo caiu do poema
e as mulheres galileias estavam molhadas
com borboletas e orvalho,
dançando acima dos crisântemos

Os dois ausentes: você e eu
você e eu somos os dois ausentes

Um par de pombas brancas
papeando nos galhos de um carvalho

Sem amor, mas eu amo o antigo
amo poemas que resguardam
a lua doente de fumar

Eu ataco e recuo, feito o violino em quartetos
Eu me afasto do meu tempo quando estou perto
da topografia do lugar…

Não há margem na linguagem moderna deixada
para celebrar o que amamos,
porque tudo o que será… foi

O cavalo caiu ensanguentado
com meu poema
e eu caí ensanguentado
com o sangue do cavalo…

……

O CIPRESTE QUEBROU

O cipreste é a árvore do luto e não
a árvore, e ele não tem sombra porque é
a sombra da árvore.
– Bassam Hajjar.

.

O cipreste quebrou como um minarete, e se deitou
na estrada sobre sua sombra rachada, escura, verde,
como sempre foi. Ninguém se machucou. Os veículos
aceleravam sobre seus galhos. A poeira soprava
nos para-brisas…. / O cipreste quebrou, mas
o pombo em uma casa vizinha não mudou
seu ninho. E dois pássaros migrantes pairavam acima
da fímbria do lugar, e trocaram alguns sinais.
E uma mulher disse para a vizinha: Diga, você viu um temporal?
Ela disse: Não, e nenhuma escavadeira também… / E o cipreste
quebrou. E os que passavam pelos destroços disseram:
Talvez se cansou de ser negligenciado, ou ficou velho
com os dias, é longo feito uma girafa, e pequeno em
importância como uma vassoura, e não poderia abrigar dois amantes.
E um garoto disse: Eu costumava desenhá-lo com perfeição,
sua figura era fácil de desenhar. E uma garota disse: O céu hoje
está incompleto porque o cipreste quebrou.
E um jovem disse: Mas o céu hoje está completo
porque o cipreste quebrou. E eu disse
para mim mesmo: Nem mistério, nem clareza,
o cipreste quebrou, e isso é tudo
que aí está: o cipreste quebrou!

…………

THE HORSE FELL OFF THE POEM

The horse fell off the poem
and the Galilean women were wet
with butterflies and dew,
dancing above chrysanthemum

The two absent ones: you and I
you and I are the two absent ones

A pair of white doves
chatting on the branches of a holm oak

No love, but I love ancient
love poems that guard
the sick moon from smoke

I attack and retreat, like the violin in quatrains
I get far from my time when I am near
the topography of place …

There is no margin in modern language left
to celebrate what we love,
because all that will be … was

The horse fell bloodied
with my poem
and I fell bloodied
with the horse’s blood …

……

THE CYPRESS BROKE

The cypress is the tree’s grief and not
the tree, and it has no shadow because it is
the tree’s shadow
– Bassam Hajjar

.

The cypress broke like a minaret, and slept on
the road upon its chapped shadow, dark, green,
as it has always been. No one got hurt. The vehicles
sped over its branches. The dust blew
into the windshields … / The cypress broke, but
the pigeon in a neighboring house didn’t change
its public nest. And two migrant birds hovered above
the hem of the place, and exchanged some symbols.
And a woman said to her neighbor: Say, did you see a storm?
She said: No, and no bulldozer either … / And the cypress
broke. And those passing by the wreckage said:
Maybe it got bored with being neglected, or it grew old
with the days, it is long like a giraffe, and little
in meaning like a dust broom, and couldn’t shade two lovers.
And a boy said: I used to draw it perfectly,
its figure was easy to draw. And a girl said: The sky today
is incomplete because the cypress broke.
And a young man said: But the sky today is complete
because the cypress broke. And I said
to myself: Neither mystery nor clarity,
the cypress broke, and that is all
there is to it: the cypress broke!