Candido, RIP

Antonio Candido faleceu. A pobreza anímico-conceitual de sua obra foi esmiuçada por Martim Vasques da Cunha em A Poeira da Glória, mais especificamente no capítulo “A invasão do abismo”, do qual transcrevo alguns trechos abaixo (leia outro, também sobre Candido, clicando AQUI).

img48878a5d90c09

“(…) Candido tem outras intenções ao criar a linhagem de sua ‘formação’. Ele não está preocupado com a literatura em si ou com o que ela pode nos ajudar para entender o país onde vivemos. Sua intenção é usá-la como meio de formatar um determinado tipo de consciência, uma consciência coletiva que, como a que exprimiu Mário de Andrade em seu retrospecto melancólico sobre o Modernismo, tenha a utilidade para subverter os tais ‘interesses dominantes’. Ao discorrer, por exemplo, sobre as diferenças entre ‘manifestações literárias’ — em que o escritor pode até ter algum talento, mas se encontra isolado em seu meio, não tendo assim nenhuma repercussão na sociedade — e os ‘sistemas literários’ — nos quais o escritor precisa da recepção de um público para que a sua obra seja plenamente entendida por seus pares, criando assim uma linha de tradição –, Candido apenas quer nos despistar de seu intento mais pragmático. Para acentuar a eficácia, ele usa e abusa de um estilo retórico plenamente dissimulado, inspirado em Machado de Assis, em que usa da autoridade de professor para convencer-nos de que seu estudo sobre a literatura pode até não ser o definitivo, mas é um dos poucos que nos fará superar a pressão dos ‘interesses dominantes’.”

“(…) O estudo literário é usado como meio de proselitismo político, feito com as graças de uma poética da dissimulação em que a natureza humana é vista sem nenhuma nobreza ou bondade, apenas condicionada aos determinismos sociais.”

“(…) A Formação da literatura brasileira é o ápice do projeto dos ‘ventos da destruição’ defendido por Mário de Andrade para inverter completamente o eixo da sensibilidade nacional — e Antonio Candido é ninguém menos que o rei encantado que nos trará a este novo reino onde não existirão mais os ‘interesses dominantes’. Como bem observou (o crítico português Abel) Barros Baptista, a validade do projeto discutido na Formação só existe se for observado de forma coletiva, isto é, ‘político, não literário’ — e todo o estudo literário deve girar a partir de agora em torno do ‘imperativo político que define a própria condição de brasileiro’.
“A triste conclusão a que chegamos é que o brasileiro não é mais definido pela sua natureza como ser humano que supera qualquer circunstância histórica e sim pela função política dentro de uma formação que construirá uma nova sociedade que permitirá outras formas de expressão sufocadas por quem estava no poder. A única coerência nas análises de Antonio Candido é a da mesquinharia que, seguindo a linha estabelecida por Machado de Assis, Sergio Buarque de Holanda e Mário de Andrade, reduz o homem a um mero organismo ideológico que precisa da fome para justificar qualquer impulso, seja nobre ou devasso. Afinal, para que ter alguma espécie de responsabilidade moral se todas as paixões são justificadas por essas entidades abstratas como a ‘expansão econômica’, a ‘exploração capitalista’, a ‘fome psíquica’, o ‘mecanismo patrimonial’, os ‘interesses dominantes’ — ou então pelo desejo puro e simples, incapaz de perceber que existem outras pessoas que serão afetadas por elas?”

Candido faleceu aos 98 anos. Suas ideias morreram antes. Que ambos descansem em paz.