Todos os dias, nós todos

Para a Kelly, meu riocorrente.

tom-hunter

Introibo.

Para um estudo centrado no sexto capítulo do Ulysses de James Joyce (e no trecho correspondente da Odisseia de Homero), sugiro que leiam Hades, Glasnevin. Aqui, não me limito aos muros daquele cemitério, embora ainda esteja (em parte) preso à extensão do domínio da morte.

1. “Mamãe morrendo, volte.”

May Joyce sofreu uma morte lenta, terrível. A orfandade de seu filho James se refletiria na orfandade de Stephen Dedalus. Ambos, autor e personagem, não se ajoelharam junto ao leito de morte, negaram-se a rezar com e por suas respectivas mães, a rezar por eles todos.
“Mamãe morrendo, volte”, dizia o telegrama recebido por James em Paris. Sobre o falecimento de May, escreve Edna O’Brien (pág. 29):

A lenta morte da mãe, com câncer, é um tableau de crueldade e melodrama, e mais um movimento definitivo na vida do jovem obcecado. As roupas mortuárias marrons na cadeira ao lado, ela colhia imaginários botões-de-ouro na colcha e falava com voz errante a um médico que não estava presente. (…) O irmão de May implorava a James e a Stanislaus que se ajoelhassem ao lado da moribunda e prometessem confessar-se e comungar, como parte dos deveres da Páscoa, mas nenhum deles se submetia. (…).

Odisseu desce ao Hades para ter com Tirésias. Estamos no décimo-primeiro canto da Odisseia. Ele quer saber se conseguirá regressar a Ítaca. Depois de Tirésias lhe assegurar que sim e dar alguns conselhos valiosos (por exemplo: mantenha distância das vacas e ovelhas de Hélio-Sol), Odisseu fala com alguns de seus companheiros da Guerra de Troia, como Agamêmnon e o próprio Aquiles.  “‘(…) Odisseu divino / Laércio multissinuoso e temerário, / que empresa mais audaz pudeste cogitar? / Como ousaste baixar ao Hades, onde os mortos / restam vazios de tino, imagens de alijados?'”, diz Aquiles a Odisseu (XI, 471-476).
O reencontro mais pungente, contudo, é com sua mãe, Anticleia.
Odisseu pergunta a Anticleia como morreu (pois, ao partir para Troia, ela ainda vivia): “‘(…) Peço sejas clara: Quere, a Morte, / como ela te domou? Moléstia renitente? Ou Ártemis flecheira, com seus dardos sacros, / te fulminou? (…)'” (XI, 170-171). Penso em James lendo essa passagem e pensando na mãe; em Dedalus lendo essa passagem e pensando na mãe. Moléstia renitente. O Ulysses tem também a profundeza e o peso da morte materna. Ele carrega isso. É algo inscrito nele. É um livro único em seu abandono de órfão: é evidente desde o título a sua ascendência, mas é evidente, também (na medida em que Odisseu se lança ao Hades e se depara com Anticleia), o modo como a orfandade é um de seus motores.
Anticleia diz ter morrido por culpa da ausência do filho: “‘Não foram dardos hábeis da flecheira a me / ferirem mortalmente, nem alguma doença / que amiúde tolhe a vida com definamento / estígio, mas não ter a ti, teus pensamentos / agudos, Odisseu ilustre, o mel da ânima / que me afagava, eis o que me roubou a vida.'” (XI, 198-203). Odisseu desce ao Hades para ouvir isso de sua mãe, que ela morreu porque ele estava fora. A mãe de Joyce, incapaz de dobrá-lo em vida, continuará presente para entortá-lo e atormentá-lo, obrigando-o a também se lançar nas profundezas desse abismo de culpa. E ele se lança por meio de Stephen, que também se recusou a ajoelhar.
Logo no primeiro capítulo do Ulysses, Stephen ouve de Mulligan: “Tem alguma coisa sinistra em você…” (pág. 100). Não é apenas o gesto (ou a recusa do gesto), mas a própria orfandade e a culpa que ele carrega, como se tivesse também ouvido, a exemplo de Odisseu: tua ausência me matou. Mas a desgraça é que Dedalus esteve lá, ao pé da cama, não se submetendo. Ele esteve lá e continua ali, naquela manhã de 16 de junho de 1904, fitando a manga preta do casaco enquanto: “(…) Dor, que não era ainda a dor do amor, roía-lhe o coração. Calada, em um sonho ela viera a ele após a morte, o corpo gasto na larga mortalha marrom exalando um odor de cera e de jacarandá, o hálito, que se tinha curvado sobre ele, mudo, reprovador, um vago odor de cinzas úmidas. (…)” (pág. 100).
James e Stephen não mataram suas mães, e tampouco fizeram como Odisseu e desceram ao Hades para ter com elas. Noutra dessas inversões geniais do Ulysses, a mãe é que traz consigo o Hades quando retorna, e retorna para devorar o filho em vida.

2. Ascensão do Hades.

No sexto capítulo do Ulysses, Leopold Bloom toma parte de um cortejo até o cemitério. Paddy Dignam morreu. Precisam enterrá-lo: “(…) Um sujeito podia viver com a sua solidão a vida inteira. Podia, sim. Ainda assim ele ia precisar de alguém pra tapar a cova quando ele morrer mesmo que cavar ele consiga sozinho. Nós todos. Só o homem enterra. Não as formigas também. Primeira coisa que todo mundo pensa. Enterrar os mortos” (p. 237).
Bloom está rodeado por mortos. A medida de um homem também é dada por seus mortos. Bloom perdeu o pai e um filho. O pai se matou. O filho, Rudy, morreu ainda bebê. Ambos acompanham Bloom até o cemitério e também esperam por ele ali. Ambos o acompanham por toda parte, sobretudo Rudy. Vivemos à sombra dos que partiram porque nos sabemos lançados nesse sentido, também. Bloom, ao menos, parece saber. É como um lembrete dos mais dolorosos. Os que partiram.
Sobre a morte do pai: “Aquela tarde do inquérito. O frasco de rótulo vermelho em cima da mesa. O quarto do hotel com os quadros de caça. Abafado que estava. O sol pelas frestas da veneziana. As orelhas do legista, grandes e peludas. O camareiro prestando testemunho. Pensei que ele estava dormindo primeiro. Aí eu vi como que uns riscos amarelos na cara dele. Tinha escorregado pro pé da cama. Veredito: intoxicação. Morte por desventura. A carta. Para meu filho Leopold” (p. 220).
Morte por desventura. E qual não seria? E qual vida, também? Há vidas melhores, claro. E mortes melhores, pelo que dizem. A morte de Dignam, por exemplo: “a melhor morte”, alguém diz, porque repentina, sem sofrimento. Tão repentina, talvez, quanto a vida inteira de Rudy. A vida surda de Rudy. Uma “caixa de pinho e forro branco” com seu “corpo de anão” (p. 218). “Não significava nada. Equívoco da natureza.” E, no entanto, significa tudo, posto que ressignifica a vida inteira de Bloom.
A dor contingenciadora da perda, o meio-dia escuro ensombrecendo o antes e o depois. Bloom segue vivendo, caminhando. Mas é um caminhar que eventualmente fraqueja em sua precariedade, sobretudo ao se perceber ali, cercado por túmulos, os cadáveres (seus e alheios) pendendo, de certa forma infensos à cabeça: “Jardins sombrios então vieram, um por um: sombrias casas” (p. 224); “Tons de morte pairando aqui com todos os mortos esticados em volta” (p. 235).
A descida ao Hades de Bloom não é bem uma descida, portanto, e pouco tem a ver (nesse sentido) com a descida de Odisseu. É o Hades que parece ascender até Bloom. Ele, contudo, não ouve ninguém (exceto a própria memória), não tem diante de si um Tirésias para vaticinar e aconselhar. Num dado momento, o sr. Dedalus (pai de Stephen) aponta para o túmulo da esposa e diz (p. 231): “Logo vou estar esticado com ela. Ele que venha me buscar quando quiser”. Pouco depois (p. 238), lemos: “A casa de um irlandês é o seu caixão”.
Mas Bloom, no meio da morte, encontra-se na vida (p. 235). O que há para ver ali é a própria precariedade refletida na precariedade alheia, sobretudo a do alheio que partiu. Em sua epopeia negativa, Joyce nos oferece a única morte possível para seu everyman Bloom: surda. Pois assim seguimos todos, “caindo num buraco, um depois do outro” (p. 239).

3. “Você já ouviu falar nisso?”

Hades é algo como a extensão do domínio da morte. Extensão móvel, claro. Você já ouviu falar nisso? Somente uma literatura como a de Joyce, uma literatura tão comprometida com a vida, pode se dar ao luxo de flanar tanto e com tamanha naturalidade pelo Hades. E, enquanto flanamos, o domínio cresce e decresce, sempre ao redor, atrás, à frente. Ele nos percorre e depois será percorrido por nós. Isso é obviamente incontornável.
Há uma passagem em Stephen Herói que diz muito a esse respeito. É a morte de Isabel, irmã de Stephen. Este “era muito solitário” e, quando não “andava a esmo pelas ruas” (p. 130), sentava-se ao piano: “(…) Os acordes que flutuavam na direção das teias de aranha e da sujeira e flutuavam futilmente na direção das janelas cobertas de pó eram as vozes sem sentido da sua perturbação, que tão-somente fluíam em inexpressiva sucessão pelas câmaras da sensibilidade. Ele respirava um ar de túmulos” (p. 131).
Certo dia, a mãe se aproxima e pergunta se ele “sabe alguma coisa sobre o corpo humano”. A voz da mãe é “a voz de um mensageiro numa peça de teatro” (lembremos do Seyton de Macbeth). A extensão, aquela, cresce e se acerca deles mais e mais. Diz a mãe (p. 132): “Tem alguma coisa saindo pelo buraco no… estômago… da Isabel. Você já ouviu falar nisso?”.
(Você já ouviu falar nisso? E quem não terá ouvido? Todos ouvimos, ouviremos.)
Pouco antes de morrer, Isabel torna-se uma mulher, “parecia ter envelhecido, o rosto se tornara o rosto de uma mulher”. Hades não esperaria tanto por Rudy, o filho de Bloom.
Assim, temos, de um lado, o “desperdício” (no entender de Stephen) que fora a vida da irmã, que “desfrutara de pouco mais que o fato da vida”, um “corpo esquálido que (…) tinha existido por resignação”, que “a nada se apegara, assim como nada a ele se apegara” (p. 133); e, de outro, o “equívoco da natureza” (no entender de Bloom) que teria sido Rudy, equívoco que, no entanto, configurou-se um rasgo contigenciador na existência de seu pai.
A morte de Isabel, embora ela “fosse quase uma estranha” para Stephen, na medida em que delimita o desperdício de sua (dela, Isabel) vida, também ilumina, por contraste, a dádiva intrínseca à vida enquanto tal. “(…) A vida lhe parecia uma dádiva; a asserção ‘Estou vivo’ parecia-lhe conter uma certeza satisfatória e muitas outras coisas consideradas indubitáveis pareciam-lhe incertas” (p. 133).
Stephen vive. Bloom vive. Molly vive. E é por meio deles que Joyce nos oferece algo como a extensão do domínio da vida.

4. A terceira Dublin

N’Um retrato do artista quando jovem (p. 213): “- Você é um homem terrível, Stevie – disse Davin, tirando o cachimbo curto da boca. – Sempre sozinho”.
Davin se autoproclama um nacionalista irlandês, no que é prontamente ridicularizado por Stephen. “Mas isso é bem você”, diz. “Você é um escarnecedor nato, Stevie.” Mas, por que tão sozinho?
Stephen não se enxerga como um everyman, embora também esteja na multidão. Flana por Dublin, ombro a ombro com outros tantos. Mas talvez seja ou venha a ou queira ser uma espécie de vertedor (p. 199).
Stephen é solitário demais para ser um irlandês. Percorre as ruas da cidade e os pavilhões da própria cabeça e não encontra nada além de si mesmo. Está entranhado demais na cidade e no país para percebê-los como os demais. “A Irlanda é a velha porca que come a sua ninhada”, diz a Davin (p. 215).
Stephen quer verter o veneno irlandês no ouvido adormecido da Irlanda. Diferentemente de Claudio, não cobiça o trono e a rainha. Almeja outra coisa, desnomeada, talvez inominável. E muito maior e perene.
No fim das contas, todos somos filhos “de entranhas exaustas” (p. 261). O que as exaustas entranhas de Dublin têm a oferecer para Stephen (e Joyce) é a possibilidade da projeção da cidade maior, recriada e sedimentada pela escrita, colocada ao alcance de todos por esse meio.
Mas, antes, as entranhas também exaustas de Joyce (e Stephen) precisam conseguir enxergar na cidade esse caráter transcendental (enquanto condição de possibilidade).
Antes de serem comidos por aquela velha porca, Stephoyce e Joyphen tratam de devorá-la.
Penso no resto existente entre a cidade real, efetivamente percorrida por eles, e a cidade literária, percorrida por nós. Não haveria uma terceira cidade, uma cidade indistinguível, lançada num limbo entre o concreto e a ficção? Talvez seja essa a cidade habitada por nós, impossibilitados de alcançar tanto uma quanto outra Dublin.
A Dublin que precariamente habitamos é uma Dublin provisória, emanação joyceana da Dublin real ou, ao menos, da Dublin de 16 de junho de 1904, cristalizada por ele conforme lhe apeteceu. Dado esse caráter de provisoriedade, a nossa Dublin precisa ser incessantemente atualizada. A atualização se faz percorrendo-a de novo e de novo e de novo.

5. “Ver o mundo imenso.”

Stephen Dedalus só se libertará da presença fantasmagórica e opressiva da mãe no décimo-quinto capítulo do Ulysses. É provavelmente uma libertação momentânea, mas notável pela forma como é narrada (um longo pesadelo teatral) e também pelo caráter marginal (dentro do capítulo) em que se dá. Marginal porque, em primeiro plano, na maior parte do tempo, temos outros confrontos fantasmagóricos protagonizados por Leopold Bloom.
Bloom e Dedalus se lançam na Mabbot Street, ao quarteirão dos puteiros, à “filoteologia pornosófica” (p. 669). Enxergando em Dedalus um Telêmaco particularmente desprotegido e muito bêbado, o Odisseu Bloom trata de acompanhá-lo na esbórnia a fim de impedir que seja depenado (Stephen recebera seus parcos rendimentos de professor pela manhã). Ali, Bloom se depara com o pai suicida, com a mãe, com Molly, sua Penélope, a lhe dizer (pág. 678): “Ah, Poldy, Poldy, você é um desgraçado de um estragaprazer! Vá ver a vida. Ver o mundo imenso”.
Assim como, na Odisseia, a feiticeira Circe transforma os homens de Odisseu em porcos, também Bloom é bestializado neste capítulo do Ulysses. E ele é bestializado não pela ação de outrem, mas pela sua própria memória, pelo que enlouquecidamente fantasia e, claro, pela culpa.
Joyce investe pesadamente no tom alucinatório, e Bloom se vê rodeado pelos seus mortos, por Molly, por várias outras mulheres do passado e do presente, como Gertie MacDowell, a quem “homenageara” mais cedo, em Sandymount (décimo-terceiro capítulo); uma empregada doméstica, Mary Driscoll, em cujas roupas teria “interferido” (p. 701); e a sra. Breen, que, confrontada com uma recordação (os dois sentados juntos, anos antes, numa festa, véspera de Natal), diz (p. 683): “Os caros dias mortos já perdidos na lembrança. A velha e doce canção do amor”.
A sra. Breen e Bloom seguirão juntos por um tempo, num passeio em que se esboça uma calorosa e dolorosa aceitação da passagem do tempo. Tal aceitação não perdura, claro. O único homem reconciliado com o passado é o morto. Bloom vive, está pelo “mundo imenso”. A sra. Breen desaparecerá com uma sucessão ansiosa de sims, como se timidamente antecipasse o monólogo orgásmico de Molly ao fim do romance.
Bloom está lançado no mundo imenso, e está só. Em seu delírio, funda Bloomusalém da Nova Hibérnia do Futuro (p. 727) para depois ser acossado (“O fetor judaicus é claríssimo”, p. 737; “Toda a Irlanda contra um!”, p. 793), emasculado, feminilizado, emprenhado (ele/ela “dá à luz oito filhos amarelos e brancos”, p. 739), escravizado (diz a “sólida caftina” Bella Cohen, tornada Bello: “(…) O que você desejava ansiosamente aconteceu. Daqui por diante você está emasculado e é meu completamente, uma coisa, subjugada. E agora teu vestido de castigo. (…)”, p. 783) e humilhado (diz Boylan, amante de Molly: “Você pode meter o olho na fechadura e brincar com a tua coisinha enquanto eu traço a senhora algumas vezes”, p. 816).
O que há para se ver no mundo imenso? Bloom vê a vida (interior, exterior, vivida, não-vivida, lembrada) e é dolorosamente visto por ela. O entranhamento alucinatório a que se submete é de uma honestidade estarrecedora. Ele se deixa ver. Ele se vê. É, para todos os efeitos, um homem feito, consciente do que é feito de si. Está aberto para o mundo. E, de certa forma, em sua humanidade extrema (reles, comum, anônima), abre o mundo para nós.

6. Non serviam.

Seguimos pelo décimo-quinto capítulo do Ulysses. Na descida aos puteiros, Stephen Dedalus se depara com a mãe. Em sua fantasmagoria, contudo, ela não prescinde de toda a glória da putrefação. Em Joyce, até mesmo os espíritos rescendem a carne apodrecida. A imanência é uma paisagem de túmulos.

(A mãe de Stephen, emaciada, surge hirta pelo piso de cinza leproso com uma guirlanda de murcha flordelaranjeira e um véu nupcial rasgado, rosto gasto e desnarizado, verde do mofotumular. Seu cabelo é ralo e liso. Ela fixa suas órbitas ocas contornazuladas em Stephen e abre a boca desdentada enunciando silente palavra. Um coro de virgens e de confessores canta senvozmente.)” (p. 831.)

Diz a mãe de Stephen (p. 832): “Eu um dia fui a bela May Goulding. Estou morta”. É a “nossa grande e doce mãe”, como diz em seguida Mulligan. Epi oinopa ponton: estamos sobre o mar escuro cor de vinho, talvez sob.
Sim, talvez sob: nossos mortos tentam nos enterrar em vida. Mulligan, que no primeiro capítulo acusara Stephen por ele não se ter submetido ao que a mãe pedira no leito de morte (ajoelhar-se; rezar), irrompe fugazmente, uma rebarba da alucinação maior, a mãe. Ela se aproxima do filho, “respirando sobre ele seu suave alento de cinzas úmidas“, tenta acalmá-lo: “Todos têm que passar por isso, Stephen”. Ao que ele, “voz embargada de pavor, remorso e terror“, diz: “Eles estão dizendo que eu te matei, mãe. Ele ofendeu a tua memória. Foi o câncer, não eu. Destino”.
Ela desfia um rosário. Diz, por exemplo (p. 833): “(…) Quem teve pena de você quando você estava triste entre os estranhos? (…)”.
Ela teve, por certo. Ela e ninguém mais. Mesmo agora, morta e putrefata, continua a sentir pena dele. “Cuidado! A mão de Deus!”, vocifera (p. 834). Stephen, passado o horror inicial, não se dobra. Non serviam!, repete (p. 834). Ele não se reconcilia com a mãe porque acredita não haver necessidade disso. Os outros sempre dirão o que lhes aprouver (“Ele ofendeu a tua memória.”), mas Stephen está noutro lugar. Ouve e sofre com o que dizem, mas também se alimenta disso: “(…) A imaginação intelectual! Comigo tudo ou não de todo. Non serviam!”
Stephen não pode ser quebrado. Ele não pode ser quebrado porque já se percebeu assim, aos pedaços, no momento mesmo em que foi lançado no meio dos outros. Desde sempre ele está “triste entre os estranhos”. Há nessa autopercepção uma recusa a se enganar e, por decorrência, enganar aos demais. Ele não se ajoelhou e rezou porque não queria, porque não poderia mentir para a mãe. Ela incompreende isso. Mesmo agora, morta e enterrada e carcomida pelos vermes, “cabeça em carneviva e os ossos sangrentos” (p. 833).
Não importa. Stephen está vivo, e sabe disso (p. 844): “(…) Dane-se a morte. Vida longa à vida!”.
A noite ainda seguirá abraçando Stephen e Bloom por algum tempo. Terão o que conversar e caminhar. E, afinal, quando Telêmaco seguir seu rumo e Odisseu se deitar (“Ele repousa. Viajou.”, p. 1036), a Penélope Molly abraçará a ambos e a noite, no seu término.
Molly é o próprio riocorrente joyceano.
É ela quem, em vez de caminhar contra o dia, caminha dentro dele; é ela quem lhe confere algum significado ao dizer reiteradamente sim.
Molly traz o dia para que nós estejamos nele. O dia são todos os dias. Nós somos nós todos.

São Paulo, 2014/17.
Foto: Tom Hunter.

BIBLIO

HOMERO. Odisseia. Tradução: Trajano Vieira. São Paulo: Editora 34, 2011.
JOYCE, James. Stephen Herói. Tradução: José Roberto O’Shea. São Paulo: Hedra, 2012.
__________. Um retrato do artista quando jovem. Tradução: Bernardina da Silveira Pinheiro. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2006.
__________. Ulysses. Tradução: Caetano W. Galindo. São Paulo: Penguin/Companhia, 2012.
O’BRIEN, Edna. James Joyce. Tradução Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999.