Notas sobre “A poeira da glória”

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto
Drummond

Capa A poeira da gloria V4 DS.indd

::: No canto inferior esquerdo da capa de A Poeira da Glória, o editor teve a péssima ideia de colocar: “O livro que até mesmo o politicamente incorreto julgou imprudente”. Felizmente, o livro de Martim Vasques da Cunha não é algo assim leviano, e sua reflexão consequente sobre a literatura brasileira (e muito mais) não se permite confundir com ou por essa estupidez editorial.

::: Martim traça um panorama crítico (aqui numa acepção, vá lá, kantiana, mas jamais frankfurtiana, pelo amor de D’us) da literatura brasileira ao mesmo tempo em que reflete sobre as condições de possibilidade de nossa produção cultural e os mecanismos de recepção e discussão da mesma. Indo além, ele (doutor em Ética e Filosofia Política) contextualiza política e culturalmente autores e obras, utilizando-os como instrumentos para eviscerar a miserável alma brasileira, chegando, por fim, à rarefação própria da perquirição de cunho religioso.

::: Os estádios kierkegaardianos são utilizados com inteligência para fundamentar alguns aspectos da crítica. Para Martim, os literatos brasileiros raramente saltam do estádio estético para o estádio ético, e deste para o estádio religioso. Segundo ele, valendo-se também de Edmund Burke, falta-nos imaginação moral, e tal carência ecoa obliquamente o autoengano e a hipocrisia nacionais.

::: Há um câncer de ordem anímica que se perpetua por aqui. Os olhos estão voltados para dentro, para o “abismo de espelhos” do ego, e não para fora, para o outro, ou para o alto, seja para D’us, seja para a possibilidade de um reino dos fins que nos permitisse organizar racionalmente a vida em comum.

::: “A equivalência do bem e do mal, do certo e do errado, somada a uma ambiguidade literária que se assemelha a um abismo de espelhos, paralisa a sensibilidade nacional (…)”, ele escreve (pág. 38), e também (pág. 169) que “há um horror que se esconde na beleza — e nenhum intelectual quer ver isso. Prefere olhar para o outro lado e imaginar que há uma cordialidade na nossa vida interior que descarta qualquer chance de nobreza acima de tudo”.

::: Em sua leitura, Martim mergulha no centro tormentoso das obras (desde Gregório aos contemporâneos, com capítulos organizados por blocos temáticos que não se orientam, necessariamente, pela cronologia). A preocupação de teor moral, mas não moralizante, relê com olhos livres, por exemplo, um Grande Sertão: Veredas, em que Guimarães Rosa “faz um livro inteiro a respeito de um pacto demoníaco e, ousadia das ousadias, demonstra que esse fato é a raiz da alma brasileira” (pág. 429), pois o romance (e aqui parafraseio) é uma espécie de radiografia espiritual “de um momento crítico na história pessoal e política do Brasil” (pág. 409), uma raridade que se concentra no “único problema sobre o qual vale a pena refletir: o problema do Mal”, que “não é mera abstração; é uma força ativa num mundo incapaz de fazer algo a respeito” (pág. 430).

::: Tal visão de mundo é reiterada por diversas vezes ao longo do ensaio (de tal modo que não me assustei ao ler que Lavoura Arcaica é algo “sulfuroso”, catarticamente negativo, “a morte da ordem, o fim da inocência e a vitória do mal”, pág. 485), e é o fato de ser muito bem fundamentada (Platão, Agostinho, More, Kierkegaard, Voegelin etc., aos quais ele jamais recorre com gratuidade, mas no interesse mesmo de clarificar a tese exposta) que a torna (como afirmei acima) consequente.

::: Não se trata, em primeira instância, de “concordar” ou não com o autor, e muito menos de “gostar” ou “desgostar” do que ele escreve, mas, sim, de respirar fundo e abrir os olhos para algo que oferece subsídios (repito) bem alicerçados para compreendermos criticamente o estado terminal de nosso espírito (e o leitor que dê a acepção que lhe apetecer ao termo; nesse ponto, todas são aceitáveis para mim). Tal compreensão (minha, sua, de quem quer que seja) pode ou não se coadunar com as posições assumidas por Martim, pode problematizar todas e cada uma delas, mas o principal, a meu ver, é que no mínimo haja um real entendimento do que é exposto.

::: Em uma nação que se equilibra (?) sobre fraturas, Martim se pergunta (no corpo de um belo comentário à poesia de Alberto da Cunha Melo, pág. 586) “até que ponto somos realmente livres em um mundo destituído de sentido”. E o sentido não me parece algo primordialmente objetivo, solto na imanência e/ou na transcendência, uma coisa a ser agarrada lá fora. Um reordenamento interno se faz necessário, até porque (conforme a leitura de Voegelin d’A República de Platão) “o estado da psique individual, em saúde ou doença, expressa-se no estado correspondente” da sociedade em que nos debatemos.