Grossman

Resenha publicada no Estadão em 17.01.2015.

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O judeu ucraniano Vassili Grossman (1905-1964) trabalhou por cerca de uma década em Vida e Destino (Alfaguara — tradução: Irineu Franco Perpétuo). O romance traz muito do que ele presenciou no front como correspondente do jornal Estrela Vermelha e espelha Guerra e Paz, de Liev Tolstói, dando conta de um vasto painel sobre a vida na então União Soviética em meio à Segunda Guerra Mundial e sob o stalinismo. A maior parte da narrativa se passa durante os episódios finais da luta por Stalingrado (hoje Volvogrado), no inverno de 1942-3, quando o Exército Vermelho lançou a contraofensiva que levaria a uma virada no front oriental, estrangulando o 6º Exército nazista. Costurando várias histórias que correm paralelas, Grossman traz ao proscênio oficiais e soldados soviéticos e alemães, prisioneiros políticos, judeus a caminho das câmaras de gás, operários, burocratas e cientistas.

O eixo da narrativa está nas famílias Chápochnikov e Chtrum, e os personagens que giram em torno desse centro servem para que o autor explore os mais diversos aspectos daquele período conflagrado: Viktor Chtrum, físico cuja impertinência egoísta, mas bem-intencionada, coloca-o em rota de colisão com o Estado (pelo menos até que Stalin perceba o valor de suas pesquisas), a mãe dele, judia, cujo fim (narrado em uma carta excruciante, o capítulo 18 da primeira parte) ecoa o destino da própria mãe de Grossman, o bolchevique Mostovskói, agora prisioneiro dos alemães, Krímov, comissário do Exército Vermelho que será, a exemplo de tantos outros, mastigado pelas engrenagens do próprio Estado que defendia, e o oficial Nóvikov, comandante do corpo de tanques imprescindível para a contraofensiva soviética, dentre muitos outros.

Nas 900 páginas do romance, Grossman alterna os vários núcleos narrativos com agilidade e inteligência, direcionando o olhar do leitor para os retalhos que, costurados, oferecem uma visão ao mesmo tempo panorâmica e aprofundada não apenas da guerra, mas da experiência humana em sua totalidade. “Estamos todos vivendo uma desgraça”, diz uma personagem a certa altura. “Todos ao mesmo tempo, e cada um de seu jeito.”

A forma como o nazismo e o stalinismo são vistos, como duas manifestações de um mesmíssimo modus operandi totalitário e genocida, é um índice da lucidez do autor. De um lado, por exemplo, as pessoas são trituradas pela burocracia estatal (vide o sofrimento de uma personagem, Ievguênia, para conseguir um documento) ou pelas delações (pessoas esbarram na desgraça por comentários tolos, como Chtrum e Krímov, ou por pensar no bem-estar dos soldados, como Novíkov); de outro, vemos como o 6.º Exército nazista foi destroçado pela teimosia do próprio Hitler, que preferiu abandoná-lo à mercê dos soviéticos a rever sua estratégia obtusa. O fato de que Grossman era tão ideologicamente descontaminado explica por que os originais do romance foram “sequestrados” pela KGB (confiscaram até as fitas de máquina de escrever usadas na redação do livro). Vida e Destino só seria publicado em 1980, e a história de como seus manuscritos foram preservados e afinal editados é contada pelo tradutor Irineu Franco Perpétuo no prefácio da edição brasileira.

Destacam-se, ademais, passagens soberbas, como a visita de uma mãe ao túmulo do filho, morto em combate (“As pedras dos túmulos eram como uma multidão de velhos dos quais ninguém precisava, inúteis para todos…”), a construção das câmaras de gás (“A nova construção reúne os princípios da turbina, do matadouro e do incinerador de lixo”), supervisionada pelo próprio Adolf Eichmann, e o uso que se faz delas (“David fora apertado o tempo todo por mãos fortes e ardentes, e não entendia que os olhos tinham virado escuridão, o coração, um deserto retumbante, e o cérebro, entorpecido e cego”), e os interrogatórios sofridos por Krímov (“O juiz de instrução olhou pela janela; já começava a escurecer, e ele distinguia mal os papéis na escrivaninha”).

Vida e Destino é o resultado de um esforço tremendo que, no entanto, até pela natureza do período que descreve e no qual foi gestado, não intenta alcançar a transcendência do épico de Tolstoi. O século e a guerra são outros, bem como o ineditismo da devastação. Assim, a beleza maior de Vassili Grossman está em compreender a brutalidade extrema de seu tempo e, mesmo assim, apesar de tudo, conseguir apontar para a “alegria furiosa de viver” que irrompe em suas páginas finais.