Todas as coisas doces demais

Um conto natalino, escrito há uns dois ou três anos.

Natal

Para a Caroll.

……

The waiting drove me mad
You’re finally here and I’m a mess

Pearl Jam, Corduroy.

Algo precisava ser dito, mas talvez já fosse tarde demais.
Estavam à sombra, ele sentado observando uma mulher gorda que passava com um golden retriever e ela deitada de costas, os olhos bem abertos. Estavam ao mesmo tempo muito próximos e a uma enorme distância um do outro. O céu começava a fechar, o cinza-concreto aos poucos preenchendo tudo.
— Vai chover — ela disse, embora não acreditasse nisso. As nuvens que via não eram tão escuras ou carregadas. — Não sei. Talvez mais tarde.
Ele permaneceu calado. A mulher e o cachorro desapareceram na distância e ele já não fitava nada em particular. Com um gesto, levou a garrafinha de água mineral à boca e tomou um gole, depois outro; reteve o terceiro e, virando o corpo, debruçou-se levando a boca até a dela. No momento em que os lábios se tocaram, ela abriu a boca e, em seguida, ele também. A água desceu direto, um gole inteiro, e então eles se beijaram prolongada e ruidosamente.
— Isso foi bom — ela disse quando o beijo terminou. Ele voltou à posição anterior; ela continuou deitada. — Eu estava pensando.
— No quê?
— Acho que não quero tomar hoje, não.
Virou um pouco a cabeça e fitou as pernas dela, esticadas. — Por quê? — perguntou. Os joelhos ou os pés talvez soubessem. Ou a grama ali debaixo. — Pensei que a gente fosse tomar junto.
— Não sei. Hoje é domingo. Sei lá.
Ele levantou a cabeça, voltou a olhar para frente. O parque se esvaziava. Respirou fundo, pensando na viagem de ônibus no dia seguinte. Ir embora. Não ter vindo.
— Eu vou tomar — decidiu. — Você se importa?
Agora o céu restava inteiramente concretado. Ela fechou os olhos, virando a cabeça para o lado como se tentasse pegar no sono. O vento frio parecia vir a meio centímetro do chão, deslizando. Se eu me importo? Abriu os olhos. As costas dele ao alcance da mão esquerda. Pensou em acariciá-las, mas não se mexeu. Chegou a ver a mão percorrendo os ombros, a coluna. Não. A mão pequena e muito magra e branca, as costas largas, a camiseta amarela. Não, não. Odiava aquela camiseta amarela. Solar. Olhou para cima e sorriu para a ausência do sol. O espaço deixado por um e não preenchido pelo outro. Por nada, por ninguém. Coisa alguma.
— Se você for tomar, eu também vou.
Não pensou no que dizia até ser tarde demais. Por que eu me importo? Sentou-se quando ele levou a mão a um dos bolsos e puxou a carteira. Porra. Estava ali dentro, ela sabia.
— Fica — ela disse, forçando um sorriso. — Vai ter doce.
Um quarto do troço dividido entre os dois, depois ele guardou o resto na carteira e a carteira no bolso, dois gestos tão rápidos que ela mal pôde acompanhar. Quase que um só gesto. Sim, um só gesto maior, mais extenso, dividido em dois gestos menores.
Ela voltou a se deitar.
Concreto armado sobre as nossas cabeças, pensou. Fechou os olhos. Concreto armado prestes a despencar. Ele permaneceu sentado. Uma chuva de concreto arrebentando quem estivesse no caminho. Ela o ouviu respirar fundo mais uma vez.
— Acho que não vai chover agora — disse.
Ele concordou: — É. Acho que não.
Então, eles esperaram por quase uma hora, mas o troço não bateu.

O que eles disseram (enquanto esperavam que o troço batesse) quando já era tarde (ou cedo) demais —
(ela) eu estou aqui por você;
(ele) eu sei, mas;
(ela) mas o quê?;
(ele) eu não sei, eu;
(ela) eu estou aqui, mas e você, onde é que você está?;
(ele) eu não sei onde é que eu estou, e esse é o problema;
(ela) mas eu estou aqui (por você), e isso devia bastar (por enquanto);
(ele) eu não estou pronto, eu não sei (eu não sei);
(ela) pois é. a desgraça é que eu sei. eu sei muito bem. eu sei direitinho;
(ele) então me diz o que é;
(ela) você também sabe. você finge que não, mas eu sei que você sabe, e eu sei que você sabe que eu sei;
(ele) (olhando para cima) acho que vai chover;
(ela) já tá chovendo. cala essa boca.

Algo foi dito, e então era tarde ou cedo demais.
Eles resolveram ir embora, muito próximos e a uma enorme distância, e só quando chegaram à Paulista tomada por uma horda de corinthianos é que começou a bater. A avenida sangrava luzes natalinas de uma ponta a outra e o colorido tornou-se ensurdecedoramente intenso. O vermelho e o amarelo, ela parecia senti-los por sob a língua, derretendo, e era como se tudo brotasse de seus próprios globos oculares, como se fossem emanações deles, ondas e mais ondas indo e vindo, escorrendo, arrastando-se pelos concretos acima e abaixo, céu e asfalto.
— Caralho — disse. — Acho que bateu.
— Bateu? — ele sorria.
— Caralho. Nossa. Bateu, sim. Caralho.
Seguiram pela calçada, lerdos e imprecisos. Na esquina com a Pamplona, viram um policial montado. Ela se aproximou. O cavalo era de um marrom borrado, como se tivesse sido colorido por uma criança manuseando um giz de cera sem ponta. As mãos brancas e finas acariciaram de leve o animal. Perguntou qual era o nome dele.
— Conhaque — respondeu o policial.
Aquilo era realmente engraçado, um cavalo chamado Conhaque. Ela começou a rir bem alto e ele a puxou, seguiram viagem.
Ainda estava rindo, e agora ele também, quando, uns poucos quarteirões acima, um moleque se aproximou pedindo que pagassem um lanche. O amarelo de um McDonald’s resplandecia à direita e, sem pensar, ela entrou na lanchonete. As cores todas pareciam recém-inventadas e se movimentavam à sua frente, efusivas. Fez o pedido o mais rápido que pôde, o amarelo caindo sobre ela feito uma falange de espartanos. Aquilo não era jeito de ver as coisas. Era cansativo e exigente demais. Talvez se eu fechar os olhos. Entregou o lanche para o moleque, ouviu um agradecimento distante e saiu da lanchonete.
Ele esperava lá fora, na calçada. Por alguma razão, sentiu-se decepcionada. Por que você ainda está aqui? Por que você veio? Dois sistemas autônomos, isolados, incomunicáveis, inintercambiáveis: próximos e distantes ao mesmo tempo.
Voltaram a caminhar, a calçada apinhada de outros sistemas isolados. Não entrem naquele McDonald’s, ela pensou em dizer a todo mundo em quem esbarrasse dali até a Augusta, e pela Augusta abaixo, até a Dona Antônia, não entrem no maldito McDonald’s, aquele amarelo é capaz de matá-los. Os globos oculares explodindo ou implodindo, um pipoco seco e já era – não vejo mais, nunca vi nada. No entanto, olhou para o lado. Ele caminhava cabisbaixo, as mãos enfiadas nos bolsos da bermuda. Por que ainda te vejo aqui? Aqui, comigo? Não. Como se você estivesse aqui. Não, não. Seu grandessíssimo filho-da-puta.
Dobraram à direita na Augusta e desceram em silêncio até a esquina com a Antonio Carlos, quando ele:
— Do que é mesmo que a sua amiga te chama?
— Oi?
— Aquele apelido engraçado.
Ela abaixou a cabeça e sorriu. Não queria sorrir. Nunca mais. Respondeu:
— Bebê Grunge.
Ele riu, depois pediu desculpas. Carros e mais carros e mais carros. Ele riu mais um pouco. Os faróis deixavam uns riscos finos, arranhões numa vidraça. Uma mesma nota musical, aguda e branca, impossivelmente sustentada por um tempo demasiado longo. Eu queria te dizer uma coisa. Eu queria não te dizer nada. Eu queria não te dizer mais nada, nunca mais. Eu queria não ter dito porra nenhuma.
O sinal aberto para eles.
Ela apertou o passo, mas ele fez o mesmo.

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