Retorno à casa do pai

fante

A culpa é a argamassa das relações familiares, boas ou ruins, e está por todo o livro. Mas, claro, há outras coisas. Por exemplo, a viagem empreendida por pai e filho para as montanhas, a fim de realizar aquele último — e malfadado — serviço. No silêncio do trabalho pesado regado a vinho, muito vinho, dia após dia, num tempo em que “não existem horas”, quebrando e empilhando pedras, eles se aproximam de uma forma inédita. Claro que isso não perdurará. Mas a ideia de uma “morte” em vida, de uma anulação das mágoas e angústias no e pelo trabalho conjunto, é algo que não só reconcilia momentaneamente pai e filho como permite ao velho ter a ilusão de, no fim das contas, ter feito tudo certo. Não fez, é evidente, até porque ninguém faz. O que importa, contudo, é que essa “irmandade” ébria de vinho e trabalho permite aos dois um intervalo pacífico, uma trégua e, por que não?, um reencontro, mesmo que precário, antes da despedida final.

— Trecho da minha resenha de A Irmandade da Uva, de John Fante, publicada n’O Estado de S. Paulo em 27/07/2013. Clique AQUI e leia na íntegra.