Sob o signo da errância

Resenha de Epifanias e Cartas a Nora, de James Joyce, publicada n’O Estado de São Paulo em 17/12/2012.

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Recém-publicados, Epifanias e Cartas a Nora contribuem para o que se poderia chamar de “o ano de James Joyce no Brasil” – 2012 contemplou uma série de novas traduções, edições bem cuidadas e lançamentos de obras infantis do autor irlandês (1882-1941).
Para trafegar com um mínimo de segurança pela prosa joyciana, é interessante entender a forma como a epifania aparece em seus escritos. Ele redirecionou o sentido dessa palavra para fora do âmbito religioso, trazendo-a para o nível da vivência humana mais pedestre. Em Joyce, a epifania é uma revelação interior provocada, em geral, por um acontecimento dos mais banais. Muitas vezes, sobretudo nos contos de Dublinenses, se tem a impressão de que o mundo estanca por um segundo ou dois e, nesse intervalo, permite-se vislumbrar em toda a sua precariedade. E, até porque se esvai muito rapidamente e o mundo seguirá indiferente a essa iluminação passageira, tal instante tem o poder de ressignificar para o personagem, e somente para ele, tudo o que foi vivido até ali. A epifania é, portanto, uma contradição em termos, uma vez que traduz em palavras algo que, em princípio, seria intraduzível.
Epifanias nos traz um crescendo desses instantes inesperados, uma sucessão de surpresas, de momentos por meio dos quais somos convidados a olhar de novo e de novo para o que seria banal, um trecho de conversa, uma descrição, qualquer “nada” que nos leve àquela suspensão, àquele (para usar as palavras de Hélène Cixous citadas no estudo introdutório de Piero Eyben) “descarrilamento da consciência”. São, enfim, 40 fragmentos impregnados por um dos traços distintivos da vida e da obra de Joyce: o movimento, seja interno ou externo, mas sempre voltado para fora, para o mundo.
E é também sob o signo da errância que lemos as Cartas a Nora. A maior parte delas foi escrita em 1909, quando Joyce se encontrava em Dublin tentando conseguir, dentre outras coisas, com que publicassem Dublinenses, e Nora Barnacle, sua companheira, na Itália. Para além das inúmeras dificuldades financeiras, das desconfianças (“Georgie é meu filho?”, ele pergunta numa carta de 7 de agosto de 1909. “Você fez com alguém antes de mim?”), das apaixonadas obscenidades que pipocam em função da distância, interessa-nos perceber a centralidade de Nora na vida e no imaginário do escritor.
Não é por acaso que a ação do Ulysses transcorra no dia 16 de junho de 1904, por exemplo. Foi naquele dia que Joyce e Nora passearam juntos pela primeira vez, e a partir de então ela se tornou a sua “Irlanda”, seu chão, seu lugar no mundo, importantíssima para alguém obrigado, pelas circunstâncias, a ter uma existência nômade.
Eis aí uma imagem muito bonita: habitar alguém. Bonita e condizente com a própria literatura de James Joyce, cujos textos, mesmo os tidos como “difíceis”, retiram boa parte de sua vitalidade dessa coabitação, desse viver com os outros. É o que se percebe nos contos de Dublinenses, nas Epifanias, no homem em progresso que protagoniza Um Retrato do Artista Quando Jovem e, sobretudo, na odisseia pedestre que é o Ulysses. A epifania inerente às cartas, e que contaminaria os escritos literários, parece residir justamente no espanto de descobrir-se com alguém. Nem sempre sabemos o que fazer a partir disso, exceto que é imprescindível seguir viagem.
Sobre os livros em pauta, apenas uma ressalva: eles talvez sejam mais bem aproveitados por um leitor já familiarizado com as narrativas ficcionais do autor. A própria ideia que ele fazia de epifania, por exemplo, aparece muito bem explicada a certa altura de Stephen Herói e claramente exemplificada, conforme já dissemos, nos contos de Dublinenses. Mas, seja Joyce, seja qualquer outro grande autor, o importante é que nós nos deixemos habitar por eles.