Quando Bayard era jovem

Há beleza e também ironia no título The unvanquished¹. A beleza está no termo inusual que poderíamos traduzir como “Os invencidos”. Salvo engano, a extinta Expressão e Cultura lançou o livro com esse título algumas décadas atrás, e é importante não confundi-lo com outro romance de William Faulkner, The reivers, publicado no Brasil como Os invictos². São obras bem diferentes entre si.

The reivers é o derradeiro romance de Faulkner, lançado em 1962, uma investida picaresca que prescinde das circunvoluções habituais de sua prosa. The unvanquished foi publicado em 1938, entre Absalão, Absalão e Palmeiras selvagens, e apresenta uma simplicidade enganosa — Bayard Sartoris, o narrador em primeira pessoa das sete seções do livro, relembra coisas de sua adolescência durante a Guerra da Secessão (1861-65) e da juventude na década seguinte, e essas coisas envolvem engambelar o exército da União, perseguir um assassino e lidar inteligentemente com o dilema de Hamlet (no caso, vingar ou não vingar), driblando ou adiando a tragédia (será que a prima Drusilla já parou de rir?).

Não obstante as consequências funestas, o engambelamento corresponde às passagens mais divertidas, quando Bayard, sua avó e Ringo falsificam requisições de oficiais inimigos para obter mulas que, depois, revendem para os próprios unionistas. O dinheiro é dividido entre os moradores da região. Eles se estrepam não quando os ianques descobrem o esquema, mas, sim, diante da raivosa reação de um conterrâneo. “Eles não vão machucar uma mulher”, diz a avó antes do caldo entornar.

O sobrenome do narrador é o título do primeiro romance de Faulkner situado no fictício condado de Yoknapathawpha, onde se passa a maior parte de suas narrativas; embora escrito uma década antes, Sartoris é a sequência de The unvanquished. O menino/rapaz Bayard deste é o Bayard Velho daquele. Aproveitando o ensejo, não custa lembrar que a belíssima edição da Cosac diz respeito à versão do romance mutilada pelos editores; a versão original de Faulkner (ou algo próximo dela) só foi publicada postumamente, em 1973, com o título Flags in the dust — e desde então Sartoris nunca mais foi reimpresso nos EUA.

Voltando a The unvanquished, e a ironia no título? O Sul foi vanquished na guerra civil e a escravidão é uma ferida eternamente aberta e purulenta, mas a(s) história(s) do livro avança(m) para romper o ciclo de violência em que o coronel John Sartoris, patriarca da família, “herói” confederado e modernizador da região, está encalacrado. Sartoris é vencido pelos nortistas e depois por si mesmo. “Invencido”, ao final, é Bayard, que vai desarmado a um duelo para expor a estupidez e a futilidade de uma rixa e da violência que se retroalimenta. Ao lidar com o dilema hamletiano de forma humana, ele não se deixa derrotar. Logo, unvanquished é quem se distancia da matança e evita repetir o comportamento não só usual como esperado.

John Sartoris, ademais, é modernizador até certo ponto: constrói a ferrovia, mas, diante da possibilidade de uma suposta “insurreição” dos negros no pós-guerra (na verdade, os negros estão sendo cooptados pelos republicanos), ele mata dois adversários políticos com a ajuda da prima³ (e noiva e futura esposa) Drusilla e celebra a “festa da democracia” nos braços do povo, realizando as eleições no quintal de casa. Lá vemos uma bandeira confederada.

“(…) ele se sentou (…) com aquele espúrio ar forense dos advogados e os olhos intolerantes que nos últimos dois anos adquiriram aquela película transparente que os olhos de animais carnívoros têm e por trás da qual eles olham para um mundo que nenhum ruminante jamais vê, talvez ouse ver, e que eu já vi antes nos olhos de homens que mataram demais, que mataram tanto que nunca mais estarão sozinhos na vida.”

A guerra acabou, mas a doença persiste. Bayard, que acabou de matar o assassino (sulista) de um ente querido, observa a engrenagem lubrificada pela matança interminável (“Eu tenho que viver comigo mesmo, percebe.”). Os derrotados devoram os derrotados até que alguém faça algo diferente, não se importando com o preço a ser pago.

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NOTAS

¹ Novels 1936 – 1940. The Library of America: Nova York, 1990.
² Há, inclusive, uma edição impagável d’Os invictos que ostenta na capa uma moderna picape. A história se passa no começo do século XX.
³ Drusilla, na verdade, é prima da primeira mulher de Sartoris, morta há muitos anos.