Suicídios indolores

Valor sentimental é um filme ruim. “Ah, mas os atores são ótimos.” Sim, é verdade, mas o melhor ator ou a melhor atriz do mundo é ou seria incapaz de elevar um emaranhado de falas e situações medíocres, banalmente escritas, dirigidas e montadas. Joachim Trier, cineasta de nula imaginação visual, é incapaz de conceber um mísero enquadramento que não seja tosco, óbvio ou hesitante.

É algo muito incômodo: um filme que chama a atenção o tempo todo para o quão mal dirigido é. Luciano Evangelista, em seu comentário no Letterboxd, chamou a atenção para a sequência em que Elle Fanning lê uma cena do roteiro do filme (em realização) dentro do filme: os enquadramentos e cortes banais — câmera na mão vacilona esgotando em vez de injetar energia, campo/contracampo expondo a covardia e os limites criativos do realizador — sugerem uma tensão e uma ironia que simplesmente não chegam ao espectador, esborrachando-se na parte de lá da tela.

Trier é um diretor tão ruim que, ao referenciar Persona, não me fez pensar em Ingmar Bergman, mas, sim, em um videoclipe do Ace of Base. Eis as dimensões da bundamolice do rapaz. Mas, beleza, se ele (coitado) quis trazer Bergman para a conversa, falemos a respeito.

Em Gritos e sussurros, uma esposa insatisfeita (eufemismo) parte para a automutilação genital, cujos resultados exibe para o maridão perplexo; enquanto isso, o câncer corrói a irmã dela e, metafórica e metastaticamente, carcome a tela, o filme e o tempo. Em Valor sentimental, o avô presenteia o neto pequeno com um DVD de Irreversível, cena que se pretende engraçadinha, mas o tiro sai pela culatra, pois o longa de Gaspar Noé (de que não gosto, mas que ao menos) assume todos os riscos e excessos, sem pedir desculpas, ao passo que o(s) filme(s) de Trier brinca(m) em um cercadinho onde o risco é, quando muito, encarado como uma piada de mau gosto, de que é preciso manter distância.

O avô também presenteia o neto com um DVD d’A professora de piano, de Michael Haneke, estupenda adaptação do romance A pianista, de Elfriede Jelinek, autora genialmente agressiva da qual Trier provavelmente tem ou teria nojinho. Já na cena inicial, Haneke lança o espectador em certa dinâmica familiar (mãe & filha), cuja violência é reiterada e (yeah) sexualizada ao longo das duas horas seguintes. A exemplo do que ocorre em Gritos e sussurros, cacos de vidro são protagonistas aqui.

Embora haja família, não existe violência efetiva (gráfica ou sugerida, física ou verbal) em Valor sentimental. O resgate da história familiar pela filha menos imbecil é didático e asséptico. Que fantasma foi torturado ali? Ademais, há bate-bocas sonolentos, nada de violência ou risco de violência real. Sim, Trier é tão frouxo que barateia e falseia até mesmo os traumas históricos e familiares. Exemplo: o suicídio da mãe é escamoteado e “simbolizado” pelo banquinho no qual ela subiu para se enfocar, mas, somos informados em seguida, não foi aquele o banquinho utilizado pela suicida, nada disso, aquele é um banquinho da Ikea, o tipo de móvel que otários compram para ocupar espaços que não precisam ser ocupados.

Há quem “interprete” o lance com o banquinho como uma sagacidade do diretor, que estaria contrapondo o trauma (duradouro, persistente) a um objeto descartável, uau, olha a ironia, bicho, que foda a ironia. No entanto, ao transformar o objeto descartável em um token (tanto para a pessoa enganada pela brincadeira, que se esforça para “entrar na personagem” da suicida, quanto (momentaneamente) para o espectador), o diretor-dentro-do-filme e o diretor do filme apontam para a própria leviandade, e o segundo infantiliza o primeiro. Se qualquer banco é o banco, o trauma é qualquer coisa, é piada, é humor, quem se importa? Eu sei que não dou a mínima. E é isso. Joachim Trier realiza filmes como a Ikea faz banquinhos.