Banville/Black (2) – “The Silver Swan”

THE SILVER SWAN (Picador, 2007).
Edição brasileira: O Cisne de Prata. Trad.: Talita M. Rodrigues. Rocco, 2013.

Não obstante uma barriguinha que irrompe ali pelo meio, estourando os botões da camisa, The Silver Swan é mais musculoso do que Christine Falls, mais direto e seguro, menos hesitante e, no que diz respeito à trama, mais belo & sujo. Em outras palavras, um senhor romance policial, inclusive (ou sobretudo) pelos contrapés que alcança. E, caralhos, um senhor romance policial é um senhor romance, ponto.

Depois de revelar à filha aquele segredinho familiar, Quirke agora lida com dois lutos reais: da esposa e da cunhada, morta (câncer) entre o primeiro e o segundo volumes da série. E, não muito depois, o protagonista também perde o pai de criação, o juiz Garret Griffin, figura importantíssima no desenrolar do romance anterior, por quem Quirke agora nutre sentimentos conflitantes, para dizer o mínimo.

No entanto, a defunta mais importante em termos narrativos é Deirdre Hunt (ou Laura Swan), que apareceu, nua, nas “pedras na costa da Ilha Dalkey” e pode ou não ter se matado. Billy Hunt, o viúvo, com seu cheiro “quente, forte e salgado (…), o cheiro de quem acabou de perder um ente amado”, foi colega de faculdade de Quirke, a quem procura com um pedido suspeitíssimo: que não haja autópsia.

Óbvio que Quirke ignora a (meia) promessa feita (“Vou ver o que posso fazer.”) ao colega e autopsia o corpo, encontrando indícios de homicídio. Mas, oscilando entre ser fiel ao viúvo (mentindo para ele) e saciar a própria curiosidade (mentindo para si mesmo), ele mente para a polícia — o excelente inspetor Hackett, um dos melhores personagens da série — e em juízo, e decide investigar a morte por conta própria. A partir daí, Banville/Black volta a brincar com algumas fórmulas do gênero.

Para começo de conversa, há dois momentos do livro que correspondem àquela passagem habitual em que o(a) investigador(a) confronta o(a) autor(a) do crime. Há duas resoluções, por assim dizer. O problema é que uma delas é falsa, ou melhor, em uma delas, o investigador está errado em suas conclusões e acusações, e confronta a pessoa errada enquanto a pessoa certa (mas não correta) está à solta, aprontando mais e pior. E, de novo, o erro traz consequências terríveis.

Uma das melhores coisas do romance é como Banville e Black deixam de disputar espaço e se tornam uma coisa só ou, melhor dizendo, uma terceira coisa, que alia a concretude do segundo à imageria do primeiro: “Ele foi até a janela e parou com as mãos nos bolsos, olhando para a grande lua pendurada no céu. Atrás dele, na cama, nenhum som, nenhum movimento, nada, apenas uma grande ausência, avolumando-se. No céu, bem baixo, uma massa de nuvens corcoveava, azul como uma baleia, com uma franja ao longo da borda superior brilhante como metal derretido”.

Banville/Black se diverte e nos diverte com a inversão de certos códigos: o investigador entende tudo errado, e mais de uma vez; há um clímax violento no romance, mas o melhor, o mais interessante, é o anticlímax que brutalmente engolfa o protagonista, lançando-o com tal força no chão de seus equívocos que ele (após meses de alguma sobriedade) recorre com todas as forças à bebida.

Sendo alguém que tentava entrar nos eixos, rodeando a filha que finalmente assumira, mas que previsivelmente o rejeita, Quirke é colocado em seu devido lugar: em um banco de praça, bêbado e sozinho, sem saber direito como, diabos, foi parar ali e, ao mesmo tempo, sabendo direitinho como, diabos, foi parar ali — e acho que isso dói muito, muito mesmo.