Um amigo presenciou a cena: em uma exibição especial d’O agente secreto em Recife, a governadora de Pernambuco subiu ao palco para (óbvio!) discursar e, mais de uma vez, chamou o cineasta Kleber Mendonça Filho de Kleber Toledo Filho. Talvez a gafe da governadora nos seja útil, pois, no filme, há o que poderíamos chamar de cenas de Mendonça e cenas de “Toledo”. Pense na gata de duas cabeças que aparece por lá; uma daquelas cabeças é muito talentosa.
Mendonça é o (ex-)crítico de primeiríssima linha e o cineasta capaz de criar filmaços como os curtas Vinil verde e Recife frio e os longas O som ao redor e Retratos fantasmas. “Toledo” seria o responsável por obras canhestras como Aquarius e Bacurau e pelo roteiro inverossímil e por várias cenas capengas d’O agente secreto. Como admirador de parte da obra do cineasta, torço para que, no futuro, Mendonça prevaleça sobre “Toledo”, pois, na última década, “Toledo” vem ganhando de lavada.
Não perderei (muito) tempo especulando sobre as razões pelas quais o diretor passou a telegrafar suas “mensagens”¹, pauperizar seus roteiros com didatismos e sentimentalismos variados e conceber alguns planos como se o parâmetro estético fosse Carga pesada (versão 2003-5) e não O comboio do medo. Desconfio que tenha algo a ver com os rumos políticos do Brasil desde o começo da década passada, os criadores sendo pressionados (e pressionando a si mesmos) para se posicionar e abordar questões de tal forma que qualquer primeiranista de ciências sociais não só compreenda o que se passa na tela como se sinta vingado e ejacule gostosamente pelos olhos.
Mas, beleza, vamos ao filme.
O agente secreto começa esplendidamente bem. Assistindo àquele prólogo de inspiração leonesiana, pensei: ele vai se manter nesse cume? Porque (parafraseando Haroldo de Campos) Leone salta de um cume a outro em Era uma vez no Oeste. Mas Mendonça sobe para “Toledo” descer. Há um momento em que, insatisfeito com o nível do mar, ele começa a cavar. Antes de investigar essas passagens subterrâneas, convém celebrar os momentos altaneiros.
Começo pelo Cine São Luís, um grande personagem ali. Às vezes, ele serve de janela (inclusive literalmente, em um dos melhores planos do longa) para o tempo enfocado e recriado na narrativa: Recife, 1977. Essa reconstituição histórico-nostálgica é impecável e algumas das melhores cenas têm os personagens circulando pela cidade — o protagonista (Wagner Moura) saindo do cinema e sendo engolido pelo bloco de carnaval (trilha impressionante), os pistoleiros comendo em um pé-sujo, o “passeio” deles com os policiais (embora a cena não cumpra o que promete) e toda a sequência de perseguição ou, melhor dizendo, perseguições (do sogro pelo pistoleiro, do pistoleiro pelo outro pistoleiro, mas — desgraçadamente — não do protagonista pelo seu algoz).
A cinefilia do diretor se manifesta nas imagens que abrem o longa e no uso inteligente de filmes em exibição naquele momento, como A profecia (“Não gosto de filme de terror”, diz um personagem que lida com sobreviventes de horrores variados) e O magnífico; também vemos os letreiros anunciando Carrie, por exemplo, e Tubarão é importante por diversas razões. Nesses momentos, eu — que, felizmente, tive a oportunidade de frequentar cinemas de rua e neles assistir a estreias e reprises, Cassino, Pickpocket, Ação entre amigos, A regra do jogo, Los Angeles – Cidade Proibida etc. — sorrio bestamente.
Esse emaranhado histórico, político, carnavalesco e cinefílico funciona relativamente bem até que o tempo presente rasga a tela para mastigar e cuspir o próprio filme na cara do espectador. Chega a ser desrespeitoso; Mendonça acha que precisamos dessa muleta? E é uma muleta quebrada, para piorar. Não, ninguém precisa daquelas duas pesquisadoras regurgitando o que já estamos vendo, explicando o que já é mostrado e sublinhando o que deveríamos sentir.
As falas delas são expositivas, pedestres, toscas. Além de imbecilmente escritas, dirigidas e interpretadas (o momento em que uma delas diz com ar sonso que gostava de ouvir a voz do protagonista é tão risível que torci para que fosse chutada na fuça pela perna cabeluda²), essas cenas arrastam o longa para o desfecho melodramático que nada fica a dever para outro “grande” momento de (sim) “Toledo” — o final de Aquarius. A vontade é de abandonar a sessão e comprar uma arma (ou um uísque).
Aqui, é preciso salientar que o roteiro d’O agente secreto não tem pé (embora tenha perna) (cabeluda) nem cabeça. Ora, se o protagonista (Wagner Moura) só descobre que há pistoleiros em seu encalço quando já está em Recife, por que usava uma identidade falsa antes disso? De quem ele fugia? De quem se escondia? Do regime militar? Por quê? Ele esteve na luta armada? Dificilmente, pois diz que nunca usou uma arma na vida nem socava ninguém desde o ginásio. Se não estava na luta armada, por que desaparecer na clandestinidade antes de saber que corre risco de ser assassinado? Ele, inclusive, fica surpreso ao tomar conhecimento de que seu passaporte foi bloqueado e, depois, fica muito surpreso ao descobrir que é um cabra marcado para morrer.
Pelo que o filme mostra, ele era um professor universitário que se desentendeu feio com um plutocrata. Ele não era um guerrilheiro que assaltava bancos e sequestrava embaixadores. Então, por que tem o passaporte bloqueado? E, na medida em que não é ou foi um guerrilheiro, por que fugiu de Recife? Onde ele estava? Se fosse o caso de correr com a sela pela troca de xingamentos e sopapos com o plutocrata e o filho deste, ele não teria comparecido à reunião de departamento no dia seguinte à briga e confrontado o vilão, certo? Você bateria em Fredo Corleone e se reuniria com Don Vito Corleone depois?
A cena da briga é particularmente ruim. Ela rescende a uma espécie de esprit d’escalier esquerdista: tudo o que você sempre quis dizer para um ricaço corrupto chupador de milicos, mas nunca teve oportunidade e/ou coragem de dizer. Por melhor atriz que seja Alice Carvalho, é impossível salvar uma cena tão mal escrita e mal filmada, concebida para inflamar o primeiranista supracitado e outros espécimes similares. Os personagens se insurgem contra uma caricatura, confrontam um vilão cartunesco.
Esse sujeito malvado, esse Capitão Caverna da Indústria (e seu filho Caverninha), faz os vilões dos filmes 007 com Roger Moore parecerem criações de Shakespeare. Impressiona que Mendonça pareça incapaz de criar um arrombado que seja crível em vez de infantilmente estereotipado, algo mais Gordon Gekko e menos Mojo Jojo³. Sabe aquela fantasia fascistoide do comunista comedor de criancinhas? Desde Aquarius, o cineasta investe em sua contraparte, o capitalista desalmado bebedor de uísque.
Mendonça: “Quero que você interprete o vilão”. Luciano Chirolli: “Beleza, como vai ser?”. Mendonça: “Pega um copo de uísque, faz cara de mau, fala pro cara que ele é um cabeludo comunista mas que a mulher dele é gostosa, depois contrata dois pistoleiros porque a fulana te deu uma mijada e o comunista deu um sopapo no seu filho, e diz pros pistoleiros que é pra dar tiro na fuça do comunistinha, um buraco, um buraco, quero um buraco, fala um buraco, um buraco como o Marlon Brando fala o horror, o horror”.
Em tempo: capitalista desalmado não bebe uísque blended vagabundo. Colocasse na mesa um single malt de respeito ou um turfadão como o Ardbeg — sei lá, a vilania também pode ser uma questão de fenóis. Se é para caricaturar, caricaturemos direito.
Falando sério, o vilão encomenda a morte do protagonista por causa daquele entrevero e porque não gosta de acadêmico cabeludo supostamente comunista? Quanto tempo se passou entre o entrevero e a contratação dos pistoleiros? Nesse meio-tempo, a esposa do protagonista adoece e morre, e ele cai no mundo? Mas por que ele cai no mundo? E, então, ele volta a Recife para reencontrar o filho (beleza), mas com uma identidade falsa? Por quê? E, coincidentemente, após todo esse tempo (quanto?), o vilão decide que aquele é o momento de encomendar a morte do desafeto porque, sei lá, faz uns meses que não mando matar ninguém e lembrei desse cretino que deu um tabefe no Caverninha?
O filme também nos apresenta os criminosos mais desastrados desde Matadores de velhinhas (versão Joel & Coen). Uns policiais corruptos precisam se livrar de uma perna cabeluda & incriminadora, mas, por razões que a própria razão desconhece, acham que a melhor maneira de fazer isso é jogá-la no rio Capibaribe. Os pistoleiros terceirizam o serviço, e o matador subcontratado decide que os melhores local e momento para dar cabo do protagonista é no instituto de identificação, ao lado de uma delegacia, em pleno horário comercial e diante de dezenas de testemunhas. Esperar o alvo ir embora? Tocaiá-lo em uma rua escura, deserta? Sequestrá-lo, levá-lo para o meio do mato e executá-lo? Não, isso é coisa de pistoleiro frouxo.
Mas, embora inverossímil, a sequência é cinematograficamente esplendorosa, desde os esforços de identificação (do protagonista em relação à mãe e do matador em relação ao protagonista; atente para o enquadramento à De Palma da imagem ao final deste texto) até o tiroteio e a perseguição subsequente — quando “Toledo” manda Mendonça à merda e sequestra o filme de vez. No lugar da resolução violenta, temos a conversa fiada pseudoapaziguadora. É como estar vendo Je suis à prendre, clássico com Brigitte Lahaie, e, no momento daquele clímax campestre, o diretor cortar para a coroação de Charles III. Amigo, isso não se faz. Não há nada de narrativamente subversivo em uma maçaroca dessas, pelo contrário, é a mais pura e abjeta covardia.
É a mesma crítica que fiz a Bacurau: o diretor prepara muito bem cenário, atmosfera etc., toda a arquitetura fílmica tensional, mas se recusa a ir às últimas consequências. Não digo que fosse necessário exibir as balas destroçando as feições de Wagner Moura (buraaaco, buraaaco), mas Mendonça perde a chance de, por exemplo, inverter a cena inicial com o observador agora no lugar do cadáver. Em vez disso (ou de qualquer outra coisa), ele opta por voltar ao presente, pagar pedágio para os cirandeiros e telegrafar bons sentimentos e emoções positivas, muitas emoções positivas, e algumas lamúrias inócuas, pois o filho compreensivelmente mal se lembra do pai.
O agente secreto é uma experiência de cinema autoanuladora. Como Penélope à espera de Odisseu, o diretor tece para destecer, mas sem esperança de retorno e ajuste; é um gesto inútil, sem finalidade, pois ele não ganha tempo como Penélope, mas perde e perde, esvaindo-se. Com isso, Mendonça investe no barateamento do próprio ato de tecer.
(Uma nota final: embora subaproveitados, Udo Kier e seus “amigos” mantêm o filme respirando aqui e ali. Um judeu sobrevivente da Shoah, respeitado e protegido porque os policiais corruptos acham que ele foi um soldado nazista? Brilhante. E é melhor esconder direito aquela menorá, queridão.)
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¹ Como diria Michael Haneke, quem entrega mensagem são os correios.
² O curta de terror que, a certa altura, invade o filme (e me fez lembrar d’A menina do algodão) é um momento no qual o longa volta a pulsar, divertindo-se e nos divertindo, para, em seguida, naufragar na cena da festinha de despedida — não obstante a presença de Tânia Maria, que empresta graça e verdade a um texto quase demencial.
³ Sacanagem, o Mojo Jojo pelo menos é engraçado.


