Vida e vida de Salompas

Há quase dezesseis anos, na semana do réveillon em 2010, eu estava em uma chácara perto de Joanópolis, no interior de São Paulo, onde passaria a virada. Certo dia, uma amiga me chamou para acompanhá-la à cidade, precisávamos comprar mais bebidas. No carro, ela pediu: “Me lembra de comprar Salonpas, meu ombro está doendo”. No momento em que ouvi isso (acabávamos de deixar a estrada de chão e entrar na rodovia), a minha amiga freou de repente: “Um gatinho atravessou a pista”. Ela parou o carro no acostamento, desceu e foi ver se o bichano estava bem; voltou com ele nos braços, um filhote de olhos arregalados e pelos eriçados que me fez pensar em Ezra Pound. Eu perguntei: “Vai adotar? Se for adotar, o nome tem que ser Salonpas”. “Já tenho dois. Por que você não fica com ele?”
Eu fiquei. E logo sacamos que era ela.
Eu me mudara para São Paulo no começo daquele ano e dividia o apartamento com um casal de conhecidos. Eles não se incomodaram com a chegada de Salompas (sic), mas Salompas se incomodava com as festas e a presença constante de pessoas estranhas; a rotina era caótica e movimentada, coisa da qual eu também me ressentia. Assim, não demorou muito para que eu e Salompas nos mudássemos para um canto só nosso. Posso dizer que, desde então, a casa e ela se tornaram uma coisa só, pois, exceto por um tempinho, nunca vivi em São Paulo sem tê-la comigo.
Dessa década e meia de convivência — sendo que, em 2015, Kelly se juntou a nós e Salompas ganhou a melhor mãe que poderia ter — só tenho lembranças boas e divertidas. Por sorte, os poucos problemas de saúde que ela teve foram por decorrência de sua própria falta de noção, saltando de estantes altas demais, dando com a fuça no vidro da sacada ou deslocando o ombro ao aterrissar noutro pulo temerário. Nenhuma fratura, nenhuma doença grave.
Como ela ronronasse baixinho, eu dizia que era uma gata tecnologicamente avançada, cujo hardware operava silenciosamente. Era expressiva, inteligente, sempre encontrando uma maneira de informar o que queria a cada momento; quando eu e Kelly nos ausentávamos por muitas horas, seus esporros assim que voltávamos eram monumentais. Dormia comigo ou, melhor dizendo, sobre mim; de um ano e meio para cá, passou a dormir também com/sobre a mãe, a quem informava no meio da noite, em alto e bom som, que certos movimentos bruscos não seriam tolerados.
Nos últimos anos, passei a acordar cedo quase todos os dias, por volta das quatro da manhã. Não foi algo que planejei ou um hábito que me esforcei para criar; simplesmente aconteceu. Dada a calmaria, essas madrugadas passaram a ser o meu momento preferencial para ver filmes. Eu me deitava no sofá e, antes mesmo de escolher o que veria, ouvia os passos de Salompas vindo do quarto, a paradinha estratégica junto a um dos potes de ração, o mastigar, a ida ao banheiro e, por fim, a aparição de sua cabeça redonda ao lado da minha, esperando que eu esticasse as pernas para se acomodar com miados curtos, roufenhos e aquiescentes. Salompas gostava sobretudo dos filmes pre-code e japoneses.
Ela também apreciava tênis, futebol e beisebol. Era fã de David Ortiz, arregalando os olhos e miando sempre que ele rebatia um home run (juro), o som único do bastão contra a bola nesses momentos, quando temos certeza de que a pancada foi certeira. “Mais um”, eu dizia para ela. “Miau”, ela respondia, concordando.
Salompas acompanhou todos os slams comigo desde o Australian Open de 2011; não por acaso, adorava Kim Clijsters. Lambeu o meu rosto quando Steven Gerrard se despediu e quando o Liverpool virou sobre o Dortmund em 2016, bateu o Barcelona em 2019 e, em meio à pandemia, saiu da fila doméstica em 2020; estava no meu colo quando, às seis e pouco da manhã, li a notícia do acidente que matou Diogo Jota.
Quando nos mudamos para um apartamento maior, ela se adaptou de imediato, adorando o fato de que, na reforma, derrubamos paredes para fazer uma biblioteca extensa e bem iluminada, ligando a sala de TV à sacada frontal — a nova pista de corrida da cidadã, que, ressalte-se, já tinha catorze anos de idade. As correrias me preocupavam, pois a destreza e os reflexos dela já não eram os mesmos. Mas, à exceção da fuça contra o vidro e a aterrissagem mal calculada (saltou da mesa de jantar no buffet), não houve acidentes graves.
Então, o fim.
A morte de Salompas foi algo rápido, a falta de apetite, os enjoos, o ultrassom e, por fim, a biópsia constatando a extensão da inflamação e da obstrução intestinais provocadas pelo câncer, quando optamos por eutanasiá-la. Graças às medicações, ela viveu, comeu, dormiu e brincou bem nos últimos dias. As veterinárias disseram que a condição se tornaria muito dolorosa, daí não hesitarmos em abreviar o sofrimento. Ela morreu em paz e sem dor alguma. Eu sei. Eu vi. Nós vimos. Nós sabemos.
Nós estávamos lá.
Nós a seguramos e abraçamos e beijamos pela última vez, o corpo ainda quente e macio. A cabeça dela estava cheirosa. Era o cheiro da coberta em que se deitara naquela manhã, ao meu lado no sofá, antes de sairmos para a clínica; da coberta que cheirei ao voltarmos mais tarde, sem ela.
De manhã, liguei a TV e Salompas e eu vimos um set de Marta Kostyuk vs. Katie Volynets pela segunda rodada de Roland Garros. O último momento só nosso, antes de irmos para a clínica. Ela me olhava de um jeito tranquilo, mas interrogativo. Eu, intranquilo, não tinha resposta alguma para oferecer.
Ninguém tem, ninguém teria.
Agora, é lidar com a ausência e o silêncio. Suportá-los. Éramos a mobília dela. Agora, nós nos sentimos como se não tivéssemos mais serventia. As muitas camas e os muitos brinquedos e a caixa de areia estão nos mesmos lugares de antes e permanecerão assim por uns dias. Há gestos que achamos melhor adiar. Não há necessidade imediata de reiterar a ausência, mas, sim, ecoando a elegia de Eugenio Montale, de “(…) repartir, / gasta a corda, / o desejo de reaver-te, fosse / num gesto só ou em algo habitual”.
Sim. Adeus.
