Zeus, um depoimento

 

 

Meu nome é Zeus. Por quase duas semanas, fui chamado de Augusto. Não me incomodei, a princípio. Não obstante meu lugar no píncaro do panteão olimpiano, confesso que achei simpático quando aquele indivíduo de ares desinteligentes me rebatizou com (julguei então e erroneamente) o nome do primeiro dos césares, coveiro da República e de Marco Antônio, fundador do Império, o primeiro da dinastia júlio-claudiana, Gaius Iulius Caesar Octavianus Augustus. Juro pela mancha no meu focinho que não sabia que o Augusto daquela gente era outro. Fui ingênuo, eu sei. Mas o que vocês queriam? Sou um cachorro, sempre espero o melhor das pessoas.

Talvez estivesse obnubilado pela visão do Palácio. Sim, apreciei bastante as dependências em que me instalaram, no coração burocrático desta necrópole planejada por nefelibatas e administrada por calígulas. Preciso dizer que as minhas dependências originais, na aprazível Vila Planalto, não eram ruins. Sempre fui bem tratado, e só cavei um buraco nas proximidades do portão e me evadi por um motivo, digamos, lúbrico. Se o próprio Zeus divino não media esforços para seduzir alguma fêmea — vide a ocasião em que ele se transformou em cisne para seduzir Leda, e Leda se viu tão absorvida que, dos ovos que chocou (sim!), nasceram a belíssima Helena, e também Clitemnestra, Castor e Pólux —, por que eu, Zeus canino, haveria de me conter ante a visão e o cheiro de uma digníssima cadela?

Sim, foi isso. Vi a cachorra, fugi, entreguei-me à luxúria. Em minha defesa, sustento que era uma cadela e tanto, e que a corte se prolongou por quilômetros. Quando enfim nos acoplamos, quando enfim ela acedeu e teve lugar o doce concubitus, fiquei tão emocionado que sequer me ocorreu que estava longe de casa e perdido. Tal percepção só veio depois, quando já me encontrava exangue pelos olorosos trabalhos de Vênus. Despedi-me de Deméter (a cadela), que afirmou ter hora marcada com o adestrador, e olhei ao redor. Indeciso sobre que rumo tomar, optei cegamente pela direita. Tempos depois, em desespero, fui resgatado por aquela gente.

A vida de um cão pode ser aventurosa. Ademais, como afirmei há pouco, ser rebatizado era algo previsível, e qualquer nome que escolhessem estaria abaixo de Zeus, por óbvias razões. Reitero: quando ouvi a voz de corvo gripado do pater familias anunciar que eu passaria a me chamar Augusto, julguei que se referia àquele César e aquiesci, ignorando o óbvio: um estulto como ele jamais teria lido Suetônio. Assim, os problemas começaram quando descobri que não era ao nobilíssimo Caio Otávio que ele se referia ao me renomear, mas àquele outro Augusto, um certo Pinochet, verme e ditador — nada a ver com a figura romana do dictator, bem entendido — que corroeu a alma das plagas chilenas, torturando e assassinando milhares. Fiquei caninamente deprimido. Por obra e graça de um palerma, fui deposto do Olimpo e socado na fossa séptica da História.

O que aconteceu a seguir é de conhecimento público. A família decidiu me expor em uma rede social. Fui reconhecido pelo meu antigo dono e a ele devolvido. No entanto, como se eu fosse personagem de uma sátira menipeia, o nome Augusto foi mantido, acrescido a Zeus. Derrisão! Não por acaso, Deméter não retorna minhas ligações.